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ZUMBI DOS PALMARES

Libertador de escravos: 1655 - 1695

Fernando Correia da Silva

 

Zumbi - óleo de Manuel Victor.

UM ESPÁRTACO NEGRO NO NORDESTE BRASILEIRO...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

c.1600: Negros fugidos ao trabalho escravo nos engenhos de açúcar de Pernambuco, fundam na serra da Barriga o quilombo de Palmares; a população não pára de aumentar, chegarão a ser 30 mil; para os escravos, Palmares é a Terra da Promissão. - 1630: Os holandeses invadem o Nordeste brasileiro. - 1644: Tal como antes falharam os portugueses, os holandeses falham a tentativa de aniquilar o quilombo de Palmares. - 1654: Os portugueses expulsam os holandeses do Nordeste brasileiro. - 1655: Nasce Zumbi, num dos mocambos de Palmares - 1662 (?): Criança ainda, Zumbi é aprisionado por soldados e dado ao padre António Melo; será baptizado com o nome de Francisco, irá ajudar à missa e estudar português e latim. - 1670: Zumbi foge, regressa a Palmares. - 1675: Na luta contra os soldados portugueses comandados pelo Sargento-mor Manuel Lopes, Zumbi revela-se grande guerreiro e organizador militar. - 1678: A Pedro de Almeida, Governador da capitania de Pernambuco, mais interessa a submissão do que a destruição de Palmares; ao chefe Ganga Zumba propõe a paz e a alforria para todos os quilombolas; Ganga Zumba aceita; Zumbi é contra, não admite que uns negros sejam libertos e outros continuem escravos. - 1680: Zumbi impera em Palmares e comanda a resistência contra as tropas portuguesas. - 1694: Apoiados pela artilharia, Domingos Jorge Velho e Vieira de Mello comandam o ataque final contra a Cerca do Macaco, principal mocambo de Palmares; embora ferido, Zumbi consegue fugir. - 1695, 20 de Novembro: Denunciado por um antigo companheiro, Zumbi é localizado, preso e degolado.

 

CANDOMBLÉ

Armazém de escravos

 

De Lisboa para o Rio de Janeiro antes que a PIDE me deitasse a mão... Ali faço boa amizade com o Ricardo, homem bem mais velho do que eu, mulato não muito escuro. Economista, tem um bom emprego no Banco do Brasil. Mas nunca é promovido. Os seus colegas brancos, que tinham entrado ao mesmo tempo do que ele, já ganham o dobro do seu salário. Diz-me:

- Portuga: sou branco de menos para chefiar e branco de mais para fazer limpeza. Até entendo a Administração do Banco: preto, se não caga na entrada, com certeza caga na saída...

Ele a dizer-me isto e eu a pensar na Casa Grande e Senzala do Gilberto Freire. Sociologia? Talvez melaço, isso sim! A disposição do português para fornicar todas as mulheres, qual seja a cor que tiverem, isso não é democracia racial, é fúria genital. E parem lá de me salpicar com o luso-tropicalismo para adoçar a pastilha... Palmadinhas nas costas mas fica aí no teu lugar, escraviza muito mais do que murros, palmatórias, chicotes, ou grilhetas. Em 1884 ocorre a Conferência de Berlim para a partilha da África pela potências europeias, fronteiras a régua e esquadro a cortar povos ao meio. Para os diplomatas, "tribos" é igual a "coisas". Ingleses, franceses, belgas e alemães usam realmente os pretos como "coisas". E com "coisas" não há trato, arrumam-se aqui, consomem-se ali, deitam-se fora quando se estragam. Já os portugueses tratam os pretos como homens, porém inferiores, eu aqui em cima, tu aí em baixo, estás a perceber ó escarumba? Palmadinhas nas costas, vai à vida e não te queixes, quem não trabuca não manduca... "Assimilados, portugueses de segunda", é justamente como Salazar chama aos pretos. É mútua a simpatia entre Gilberto e Salazar. Está-se a ver porquê...

Venho de um país em que a Igreja é o grande sustentáculo do fascismo. O que me seduz em Ricardo é o escárnio permanente que ele faz da Bíblia:

- Para o asno forragem, chicote e carga; para o servo pão, castigo e trabalho, diz a Bíblia, ou dizem os seus pregadores. Portuga: a Bíblia tem feição de senhor de escravos... Ó se a gente preta tirada das brenhas da sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e à sua Santíssima Mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre, e grande milagre!, prega um pregador famoso. Portuga: a Bíblia tem palavras de feitor... Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, é Jesus Cristo, dizem outros; exorcizam os orixás como espíritos do Inferno e tratam de excomungar os seus fiéis e seguidores. Portuga: a Bíblia tem maneiras de inquisidor... Antigamente só padres brancos é que podiam explicar a Bíblia ao povo negro e bem sabemos o que foi essa explicação. Portuga, é como te digo: a Bíblia tem focinho de homem branco...

Corrijo:

- Focinho de opressor, isso sim!

- Portuga: para nós, opressor e branco são sinónimos.

- Crioulo: para nós, em Portugal, opressor é quem oprime, seja branco, seja preto.

Então conto-lhe dos meus amigos em Lisboa. Entre eles, dois negros. Um, o Agostinho Neto, é a sisudez aguerrida; virá a ser o primeiro presidente de Angola. O outro, o Amílcar Cabral, é a alegria militante; não verá a independência da sua Guiné-Bissau, será assassinado antes. O mais subversivo, o mais perigoso, o que mais assusta os opressores é a alegria contestatária, cuidam sempre de visá-la e abatê-la; perguntem ao Samora Machel se estou errado...

Bem sei que estou a atafulhar conhecimentos adquiridos em épocas sucessivas. Explica-se: estava, ou estou, ou estarei a ser laçado por um nó do tempo, ali tudo a acontecer no agora, o que foi, o que é, e o que será.

Ricardo aponta-me um contínuo do Banco do Brasil: é o Zé Pelintra, negro talhado em mogno, fraca figura, apagado, tímido, modesto. No terreiro do candomblé, quando nele baixa Ogum, o seu orixá, transforma-se num tipo dominador e combativo. Interrompo:

- Ogum é São Jorge, não é?

Ricardo irrita-se:

- Nesse jacutá, Ogum é Ogum, não é São Jorge; Iansã é Iansã, não é Santa Bárbara; Xangô é Xangô, não é São Jerónimo; Oxalá é Oxalá, não é Jesus Cristo. Ali não há mixórdia, é tudo autêntico, sem carnaval para turista ver. Não é seita, é religião de oprimido. Entendes, ó Portuga?

Entendo, mas quero ver. Ele hesita. Naquele jacutá só vai preto. E o pessoal ficaria renitente, ou mesmo desconfiado, com a presença de um branco. Não perco a oportunidade para malhar:

- Como é, Ricardo? Vocês agora andam a trabalhar com negativos do racismo?

Decide-se, leva-me. É a noite de 19 de Novembro, disso me lembro. Realmente sou olhado com desconfiança. Alguns até bufam, rosnam, hostilidade. Rufar ritmado de atabaques. Babalorixás e Ialorixás, sacerdotes e sacerdotisas entoam cânticos, alaluê, alaluá, não sei que mais numa língua ou dialecto africano. Zé Pelintra cai em transe, espuma, treme, cai no chão, esperneia. Logo se levanta e realmente mudou de personalidade, os seus olhos até chispam, saravá! baixou Ogum. Sempre a comandar, aconselha e ampara os seus fiéis, alguns dos quais também caiem em transe ao contacto das suas mãos. De repente olha para mim, aponta:

- Ocê num tá creditando, num é?

Abano a cabeça. Insiste:

- Vê prá crê, cumo São Tomé, num é? Vosmecê num qué tomá uma cerveja?

- Vinho, se houver. De preferência tinto.

- Essa é bebida de Xangô, que é seu orixá, tou vendo. Vamo chamá...

Aproxima-se de mim. Impõe as suas mãos sobre a minha testa. Apago-me.

Quando torno a mim, já é dia 20. Fremem os atabaque e o povo canta:

- Zumbi, Zumbi, oia Zumbi! Oia Zumbi mochicongo. Oia Zumbi!

 

CANAVIAIS

Suplício do tronco - gravura de Debret

 

Madrugada no terreiro, flores já murchas pelo chão. Ogum retirou-se. Sobrou o Zé Pelintra, fraca figura, outra vez a timidez subiu à tona. Ricardo diz-me que, apesar de branco, Axé, a força viva de Deus, manifestara-se em mim. Xangô, o orixá da Justiça, começara por baixar em mim. Depois, por mim tinham falado a princesa Aqualtune, a seguir os seus filhos Ganga Zumba e Gana Zona e, finalmente, o seu neto Zumbi dos Palmares. Hoje é o dia 20 de Novembro, data em que Zumbi foi executado. Talvez por isso...

Se um orixá me usou para se manifestar no lado de cá, em compensação usei-o eu para ver o lado de lá. Ricardo diz-me que isso não pode acontecer, não é possível, nunca! Abano a cabeça: nunca? Mas tudo, vejo tudo, e como vejo...

Vejo os canaviais de cana doce a ondular em todo o litoral do Nordeste brasileiro. Vejo os navios negreiros a aportar a Recife, zarparam da costa ocidental de África. Branca é sempre a cor do opressor? E os sobas e régulos africanos que venderam outros negros, seus prisioneiros, aos escravocratas brancos? Transportados como gado no porão, vejo que em Pernambuco desembarcam yorubás, angolas, benguelas, congos, cabindas, monjolos, quiloas, minas, rebolos e uns tantos mais, homens, mulheres, até crianças.

Vejo a princesa Aqualtune a ser vendida num leilão de escravos. Vejo que a levam para a casa grande de um senhor de engenho. Dão-lhe um banho e roupa nova, vai aprender a servir à mesa.

Vejo os seus irmãos e o seu povo amontoados na senzala. Vejo que, a chicote, são acordados antes do nascer do sol. Vejo que são empurrados para os canaviais e começam a cortar cana. Há negros promovidos a feitores, também eles usam chicote. Branca é sempre a cor do opressor? Vejo os cativos que juntam e amarram molhes de cana. Vejo que, às costas, os transportam para o engenho. Vejo a moenda, a casa de purgar, as fornalhas, a casa dos cobres, galpões e depósitos, vejo negros que não param de labutar. Trabalho muito, comida pouca, no máximo viverão mais seis ou sete anos.

- Que morram! (diz um senhor). Em África, pretos é o que não falta... O que é preciso é produzir!

Vejo o açúcar disputado pelos mercados da Europa. Vejo um cativo exausto a abrandar o ritmo de trabalho. Um feitor (negro, negro...) trata-lhe as costas a chicote. Um outro dá-lhe palmatoadas nas nádegas. Esfregam com sal as feridas, carne viva. Esse é o castigo para a preguiça, a dor ficará para sempre na memória.

Vejo, a cavalo, um capitão-do-mato (negro, negro...), de carabina a tiracolo, a caçar um escravo fugitivo. Consegue laçá-lo. Se não conseguisse, apontava, fuzilava. Arrasta-o para a senzala. Impõe-lhe uma canga no pescoço e nela as mãos ficam presas. Dá-lhe então o tratamento de chicote e sal. Uma semana depois um capataz, mas branco, retira-lhe a canga, leva-o para o suplício do tronco, no qual os tornozelos ficam presos e, por isso, sentado ou deitado queda-se o preto, e logo leva o segundo tratamento de chicote e sal.

Vejo que, apesar do risco, há escravos que não desistem de fugir. Vejo que, do porto de Recife, rumo a Lisboa, todos os meses largam navios e mais navios com o açúcar produzido por 66 grandes engenhos. A Europa muito aprecia esta doçura luso-tropical.

 

PALMARES

 

 

Em Pernambuco, os escravos fogem. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porão de navio negreiro - gravura de Rugendas

 

Não desistem, apesar do risco... E fogem, como fogem, não param de fugir... Antes a morte do que vida tal. Vejo um grupo de escravos fugitivos a estabelecer-se na serra da Barriga, hoje está no mapa de Alagoas. Isso ocorre, parece-me, por volta de 1600. Vejo que, uns dez anos mais tarde, também a Princesa Aqualtune consegue fugir para a Serra da Barriga. Nó do tempo, remoinhos, remoinhos, e logo vejo que em 1630 a população é já de 3 mil. É quando os holandeses invadem o Nordeste brasileiro. Vejo que a invasão desorganiza a produção açucareira. Vejo que o estado de guerra entre portugueses e holandeses facilita a fuga de um número cada vez maior de escravos. E que em 1670 eles já são 30 mil, república de negros que, por conta própria, correram em busca da liberdade. Ao quilombo dão o nome de Palmares, realmente palmeiras é o que ali não falta. Vejo que o território, a 30 léguas do litoral, é uma faixa com 200 quilómetros de largura, paralela à costa, e que vai desde a margem esquerda do curso inferior do São Francisco até à altura do Cabo de Santo Agostinho. Vejo que abrange o planalto de Garanhuns e, para além da Serra da Barriga, as Serras do Cafuchi, Juçara, Pesqueira e Comonati. Vejo que é banhado por nove rios. Vejo que a floresta e o terreno acidentado tornam difícil a incursão dos soldados brancos. Vejo que a república tem vários mocambos. O principal, o que foi fundado pelo primeiro grupo de escravos foragidos, fica na Serra da Barriga e leva o nome de Cerca do Macaco. Duas ruas espaçosas com umas 1500 choupanas e uns 8 mil habitantes. E Amaro, outro mocambo, tem 5 mil. E há outros, como Sucupira, Tabocas, Zumbi, Osenga, Acotirene, Danbrapanga, Sabalangá, Andalaquituche. Uma rede de 11 mocambos no quilombo de Palmares.

Vejo que a floresta dá quase tudo quanto o povo precisa: frutas, folhas de palma com que fazem as coberturas das choupanas, também as fibras para a confecção de esteiras, vassouras, chapéus, cestos e leques. E ainda a noz de palma de que fazem óleo. Vejo que fazem vestimenta das cascas de algumas árvores. E que produzem manteiga de coco. E que plantam milho, mandioca, legumes, feijão e cana. E que fazem comércio dos seus produtos com pequenas povoações vizinhas, de brancos e mestiços, mas onde não impera a monocultura da cana. Portanto, de escravos não precisam eles. Afinal sempre é possível o relacionamento pacífico entre brancos e pretos, e agora estou a lembrar-me do Amílcar Cabral, e do Agostinho Neto, e do Samora Machel. Não me chateiem, já disse que é um nó do tempo, remoinhos, remoinhos...

Vejo que, em Palmares, as exigências de produção para alimentar milhares de bocas, e a urgência de promover o convívio de tanta gente, leva os palmarinos a organizar o quilombo como se fosse um pequeno Estado. Há leis que passam a regulamentar a vida dos habitantes e algumas são bastantes duras. Roubo, deserção e homicídio são punidos com a morte. Vejo que as decisões mais importantes são tomadas em assembleias nas quais participam todos os adultos. Reparo que a língua franca, naquela babel de tantas línguas e dialectos, é o português ou um crioulo de português. Sei que o mesmo acontecerá no outro lado do Atlântico e até no Índico. Observo que a autoridade é sempre aceite. Não sofrida, nem contestada, pois resulta da vontade colectiva.

Eis-me agora em Olinda, remoinhos. Sei que haver além, naquelas serras, uma Terra da Promissão para os pretos, é o alvoroço permanente dos cativos em Pernambuco, tão perto fica a liberdade... "Há que arrasar Palmares, há que recuperar, vender ou matar os pretos fujões!" - ouço que dizem os senhores de engenho, diz também a tropa portuguesa. E tentam, vejo que tentam, muitas e muitas vezes tentam destruir o quilombo, mas repelidos acabam sempre. Só a Cerca do Macaco é defendida por uma tríplice paliçada, cada qual sob a guarda aturada de 200 homens. A defesa da liberdade é, sem dúvida, a grande organizadora do povo de Palmares.

Primeiro são repelidos os portugueses e depois os holandeses em 1644. Vejo que estes até acabam por desistir de assolar o quilombo. Têm outras guerras mais prementes...

Em 1654 os portugueses expulsam os holandeses do Nordeste brasileiro. Ao fim de 24 anos de guerras e guerrilhas, ficam normalizadas a vida da capitania e a produção açucareira. "Agora o que é preciso é arrasar Palmares!" - ouço os senhores de engenho a reclamar e vejo o Governador a concordar com a exigência.

Mas também vejo que, no ano seguinte, uma das filhas da Princesa Aqualtune pare um menino ao qual é dado o nome de Zumbi, que significa Eis o Espírito! Como sei disto, eu cá não sei...

 

ZUMBI

 

 

Zumbi retorna a Palmares. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capitão do mato - gravura de Debret

 

Vejo que o menino Zumbi corre livremente pelas terras cultivadas do seu mocambo natal, a Cerca do Macaco. Vejo que, aos sete anos, soldados portugueses o apanham desprevenido e o arrastam, com outros negros, para Porto Calvo. Vejo o garoto ser oferecido ao padre António Melo. Vejo que o padre o baptiza com o nome de Francisco. Vejo que lhe ensina português e latim. Aprende rapidamente e começa a ajudar à missa. É considerado rapaz esperto, cativo mui fiel, vigilância abrandada e ele a preparar a retirada. Vejo que, aos quinze anos, finalmente foge da paróquia para Palmares, retorna aos seus.

Vejo que nesse mesmo ano de 1670, Ganga Zumba, filho da Princesa Aqualtune, tio de Zumbi, assume a chefia do quilombo. Vejo que, em 1675, a tropa comandada pelo Sargento-mor Manuel Lopes, depois de batalha sangrenta, ocupa um mocambo com mais de mil choupanas. Vejo que os negros se retiram. Vejo que, cinco meses depois, os negros contra-atacam, combate feroz e Manuel Lopes é obrigado a retirar para Recife.

Condutor dos guerreiros quilombolas é Zumbi, condutor já venerado e tem apenas 20 anos. Do meu caminho arredo almas, procuro-o, digo-lhe:

- És tu o Espártaco negro?

Olha para mim, desconfiado. Nele parece-me reconhecer a sisudez do Agostinho Neto.

- Quem é esse?

- Foi o chefe dos escravos sublevados, na Roma antiga.

- O que lhe aconteceu?

- Lutou até ao fim, foi preso e executado, morreu pregado na cruz.

- Antes esse do que o outro que o padre Melo me queria impingir...

Não me conformo:

- Por que dizes isso? Logo tu, que até aprendestes latim e ajudaste à missa...

Rasga um sorriso que reconheço ser o de Amílcar Cabral. É quanto basta para eu ser apanhado por outro nó do tempo e dou comigo na igreja matriz de Olinda. O pregador famoso do Ricardo, afinal é o próprio padre António Vieira. A dourar a mansidão, sermão ao povo negro:

- Oh se a gente preta tirada das brenhas da sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus, e à sua Santíssima Mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre, e grande milagre!

António Vieira fala depois no Coré, que quer dizer Calvário. Explica:

- Declara David no título do último salmo quem sejam os operários destas trabalhosas oficinas, e diz que são os filhos de Coré: Pro torcularibus filiis Core. Não há trabalho, nem género de vida no mundo mais parecido à cruz e paixão de Cristo, que o vosso em um destes engenhos.

Remata:

- Bem-aventurados vós se soubéreis conhecer a fortuna do vosso estado, que é um grande milagre da providência e misericórdia divina.

Ouço e vejo tudo, desfaz-se o nó, retorno a Palmares. Quero continuar a conversa mas, sorrindo sempre como o Amílcar, Zumbi acena um adeus, vai-se embora. Tem mais que fazer, os seus guerreiros esperam por ele.

 

GANGA ZUMBA

 

Escravo e feitores

 

Vejo que em 1676 Fernão Carrilho comanda as tropas das vilas apostadas na extinção de Palmares. Ataca o quilombo: insucesso! Regressa a Recife. Mas não desiste. No ano seguinte ataca a Cerca do Macaco. A princesa Aqualtune, o seu filho Ganga Zumba e a maioria dos negros conseguem fugir. Carrilho dirige-se depois para o mocambo de Gana Zona, outro filho de Aqualtune, mas encontra-o em cinzas, incêndio previamente ateado pelos habitantes, terra queimada. Entre as ruínas descubro uma capela com santos da Igreja Católica.

- Mas o que é isto? - pergunto-me.

Zumbi ressurge, sorrindo sempre:

- De África para o Brasil, orixás ou santos, cada qual escolhe os seus, é a única liberdade que os negros têm...

Desaparece.

Carrilho assenta arraiais em Sucupira, pede reforços. Engenha operações-relâmpago, mata muitos pretos, aprisiona outros, entre estes Gana Zona e dois filhos de Ganga Zumba. Pensa já ter destruído Palmares, regressa a Recife, festejos. Porém, passados poucos meses, o quilombo já está reconstruído.

O Governador Pedro de Almeida sabe que é muito difícil a extinção do quilombo. Mais lhe interessa a submissão do que a destruição. Se conseguir fazer a paz, concedendo perdão e alforria aos quilombolas, Palmares poderá vir a ser um novo reduto português, uma nova vila colonial. Manda emissários fazer a proposta a Ganga Zumba, que medita, remói e decide aceitá-la. Muitos chefes negros louvam a prudência e a sabedoria da decisão. Em 1678 Ganga Zumba manda ao Recife três dos seus filhos e mais doze chefes para firmarem a paz. Ganga Zumba é promovido a mestre-de-campo. Para comemorar o acontecimento, vejo que há missa de acção de graças na igreja matriz de Olinda.

Vejo que irrompe Zumbi em desacordo, revoltado contra o tio:

- Enquanto houver um negro cativo, nenhum negro será livre!

Vejo Ganga Zumba a expulsá-lo da Cerca do Macaco.

 

A JOVEM GUARDA

 

 

Zumbi congrega a Jovem Guarda de Palmares. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

 

 

Acompanho Zumbi de mocambo em mocambo. Ouço que diz a cada jovem:

- És tu um negro livre? E o teu pai, e os teus irmãos, que sofrem o tratamento de chicote e sal, que sofrem os suplícios da canga e do tronco? E a tua mãe, as tuas irmãs, que são forçadas a abrir as pernas para o senhor de engenho e para os filhos do senhor de engenho? Diz-me: tu és realmente um negro livre?

Em poucos meses está arregimentada a Jovem Guarda do quilombo, guerras e guerrilhas, incêndio de canaviais até às portas de Recife e Porto Calvo. Armas de fogo e munições, só aquelas que os guerreiros negros vão tomando ao inimigo.

Vejo que Pedro de Almeida liberta Gana Zona e manda-o a parlamentar com Zumbi. O tio não consegue dobrar o sobrinho.

Vejo que, na Cerca do Macaco, um jovem põe veneno na comida e assim morre Ganga Zumba. Agora, o incontestado imperador de Palmares, é Zumbi.

Batalhas terríveis. Vejo que o Conselho Ultramarino Português se refere a Zumbi, "tão célebre pelas hostilidades que faz em toda aquela Capitania de Pernambuco, sendo o maior açoite para os povos dela." E ouço que dele diz um dignatário: "Negro de singular valor, grande ânimo e constância rara."

Vejo que, em 1680, Aires de Sousa e Castro é o novo Governador de Pernambuco. Manda apregoar perdão e honrarias ao Capitão Zumbi. O Senhor Governador até já lhe chama capitão... Não morde o isco, segundo Ganga Zumba não é ele, não, não deponho as armas, enquanto houver um negro cativo, nenhum é livre!

 

DOMINGOS JORGE VELHO

Doningos Jorge Velho - óleo de Benedito Calixto

 

Vejo que em 1686 há um novo Governador em Pernambuco, o seu nome é Souto Maior, e a guerra contra o Zumbi dos Palmares continua sempre sangrenta.

Vejo que Souto Maior manda chamar Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista que, com a sua tropa, gente feroz, andava a prear e a matar os índios do Piauí. Vejo que, a troco de um quinto do valor dos negros recuperados, terras e perdão para os possíveis crimes dos seus homens, o convida para a guerra contra Palmares. O governo entrará com as armas, munições e víveres. Vejo que o acordo entre ambos é assinado em 1691. Vejo mil homens a atacar Palmares e vejo Zumbi e a Jovem Guarda a resistirem na Cerca do Macaco. Vejo Domingos Jorge Velho retirar para Porto Calvo.

Mas também vejo que o Governador manda o Capitão-mor Vieira de Mello ajudar o bandeirante. De 23 a 29 de Janeiro de 1694, duas vezes a tropa tenta romper a Cerca, duas vezes são repelidas. Até mulheres, lá do alto, lançam água a ferver sobre os soldados portugueses. Mas a 6 de Fevereiro, de Recife chegam bombardas. Assestam, disparam, a tiro grosso conseguem rasgar brechas na tripla cerca do mocambo. É por elas que os soldados invadem a cidadela, corpo-a-corpo, massacre, charcos de sangue. Vejo que Zumbi leva dois tiros mas consegue escapar.

- Zumbi não morre, oia Zumbi! não pode morrer, oia Zumbi! tem o corpo fechado, oia Zumbi! - rezam os negros.

Vejo que em 1695, no caminho de Penedo a Recife, é preso um velho quilombola. Prometem-lhe a vida se apontar o esconderijo de Zumbi. E ele aponta. O bandeirante André Furtado de Mendonça é quem comanda o cerco, vence, prende e degola Zumbi dos Palmares. É o dia 20 de Novembro de 1695. O bandeirante leva a cabeça para Recife, repicam os sinos, dia feriado, acção de graças.

- Zumbi, Zumbi, oia Zumbi! Oia Zumbi mochicongo. Oia Zumbi!

Vejo que os negros aprisionados são todos vendidos para capitanias distantes, assim se corta pela raiz a esperança de regeneração do quilombo. As terras de Palmares são divididas em lotes e doadas em sesmarias aos capitães vencedores.

De 1600 a 1695... Durante quase cem anos um espinho cravado na garganta dos escravocratas de Pernambuco... Os tais da casa grande e senzala, os do melaço luso-tropical...

 

FEITIÇO
 

Quando torno a mim já é dia 20. Fremem os atabaques e o povo canta:

- Zumbi, Zumbi, oia Zumbi! Oia Zumbi mochicongo. Oia Zumbi!

Cativos do racismo, não me espanta que os filhos de escravos negros invoquem o espírito do Espártaco negro. Atordoado, saio do terreiro.

O Ricardo quer levar-me a casa, de automóvel. Agradeço mas recuso, prefiro ir a pé, estou abafado, talvez a brisa da madrugada me refresque. Alcanço o Largo do Machado e começo a subida. Moro em Santa Teresa, é bairro que me seduz. Lá do alto, gosto muito de ver a cidade a contornar os morros e a esparramar-se pelas praias.

Ouço passos, volto-me, mais abaixo há dois vultos que me seguem. Certamente dois do jacutá, escamados com a presença de um branco. Não me apresso, que venham, logo se vê...

Zumbi traído, Amílcar traído, a traição nunca desarma. E os Ganga Zumbas que há na vida? Cuidar da nossa pele, da nossa pança, os outros que se danem, quem não chegou, chegasse... E os que lutaram pela liberdade e, de oprimidos passaram a opressores? Como aquele negro que lutou na Guiné, lado a lado com o Amílcar? Terá de ser sempre assim, não damos outra volta às nossa vidas?

Chego a casa, não olho para o lado, meto a chave, entro, puxo os lençóis, caio na cama, a ver se durmo...

Na manhã seguinte, à minha porta, está uma galinha preta degolada. Dou-lhe um pontapé, o bicho levanta voo rasante, cai na valeta. Estou de bem comigo, tenho o corpo fechado, feitiço em mim não ferra o dente.

 

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CRÍTICA AO «ZUMBI» DE VIDAS LUSÓFONAS

 

Em Dezembro de 2000 Francisco Gomes de Amorim ( ffga@zaz.com.br ), português que viveu 21 anos em Angola/Moçambique e vive há 25 no Brasil, enviou-nos duas mensagens criticando o Zumbi apresentado por Fernando Correia da Silva. Este concorda com algumas das considerações, rejeita outras. Mas como VIDAS LUSÓFONAS não é página concebida para a edição de polémicas, Fernando Correia da Silva limita-se a garantir a liberdade de expressão a quem o contesta. Eis as duas mensagens de Francisco G. de Amorim:

 

1.ª

 

Esta mensagem, que contém uma análise-resposta a um artigo divulgado através da Internet, sobre "ZUMBI DOS PALMARES" tem como finalidade levantar uma questão que, por comodismo ou falta de informação as pessoas nem sequer discutem.

É bom discutir a história, e não aceitá-la como alguém, um dia, se lembrou de a contar. Bem ou mal.

A nossa história, como a de todos, deve ser estudada, discutida. Procurar a verdade.

 

* * *

 

O artigo, ou estudo, ou trabalho, com o título acima, apresentado no site http://www.vidaslusofonas.pt , em prosa muito bem redigida, contém no entanto alguns detalhes, importantes demais para que se lhes chame somente detalhes, que levam a fazer as observações que se seguem.

Em primeiro lugar, mostrando-se bem documentado, estará possivelmente demasiado bem informado, porquanto, de acordo com pesquisadores e historiadores, ninguém sabe:

- quando terá nascido o homem que ficou na história como o famoso Zumbi dos Palmares;

- também ninguém sabe, porque não há qualquer registro disso, que Zumbi fosse sobrinho de Ganga Zumba;

- muito menos que Ganga Zumba fosse filho de uma Princesa chamada Aqualtune;

- do mesmo modo como não há qualquer confirmação sobre a hipótese de Zumbi ter sido o menino que o padre Antônio Melo recolheu e educou. Sabe-se unicamente que este padre educou um garoto que um dia fugiu e se terá tornado um dos chefes ou capitães de Palmares;

Seguindo os historiadores, que se baseiam em documentos da época,

- no final da Guerra dos Palmares, um membro do exército luso-brasileiro escreveu que viu Zumbi jogar-se do alto de um penhasco para não ser aprisionado;

- outro afirma que o feriu e matou durante um dos combates;

- um terceiro garante que depois de morto cortou a sua cabeça e a levou para Recife;

- ninguém afirmou que Zumbi tenha levado dois tiros mas conseguido escapar;

o que nos leva a concluir que haveria vários Zumbi em Palmares, ou que o termo Zumbi designasse por exemplo um capitão ou chefe de um quilombo.

Ainda as mesmas fontes afirmam que para acabar com a resistência - heróica, sem dúvida - dos palmarinos, foi pedido ao Governo que mandasse canhões, mas quando estes finalmente chegaram, tinha já acabado a guerra e nem um só tiro de canhão foi disparado.

A serem fidedignas as fontes apresentadas pelos estudiosos, que não vão citadas para não tornar esta análise fastidiosa, constata-se que a introdução ao artigo sobre Zumbi dos Palmares, parte de premissas erradas, para não dizer demagógicas.

A seguir, o texto malha, forte e feio, em Gilberto Freyre. É moda. Agora é moda bater em Gilberto Freyre. É demagógico. A chamada vertente política esquerdista descobriu mais alguém em quem descarregar a sua amarga verve. O Senhor (com letra maiúscula) já morreu, e não tem como se defender. Nem sequer da afirmação sobre a mútua simpatia entre Gilberto e Salazar!

Que tremenda inverdade! Basta consultar a "Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira" e tentar encontrar o grande mestre sociólogo. Nem em Freyre, nem Freire. Não aparece. E a enciclopédia, letra F, é de 1946, quando "Casa Grande e Senzala" tinha já 14 anos e 5 edições. Não aparece simplesmente porque o seu amigo Salazar não gostava de Gilberto Freyre.

Gilberto Freyre nunca teve a menor necessidade da compreensão ou amizade de Salazar.

O seu curriculum é demasiado extenso, mas só para avivar um pouco a memória, basta dizer que em 1954 foi feito Sir pela Rainha Mãe na Universidade de Columbia, onde recebeu o título Honoris Causa, bem como em Oxford, Cambridge, Harvard, Salamanca, Sorbonne, Heidelberg, etc., etc., além dos muitos prêmios e honrarias que o seu país, o Brasil, lhe havia já atribuído.

Muitos Salazares amigos haveria nessa época, ou... ?

Só em 1962 é que Salazar compreendeu a importância das teses de Gilberto Freyre para a continuação da sua política colonial, e então solicitou à Universidade de Coimbra que, para compensar todos os anos que Portugal tinha perdido em reconhecer o grande Mestre, lhe conferisse o título de Doutor Máximo. Aliás justíssimo.

Depois, em 1967, ainda no tempo de Salazar foi-lhe conferida uma alta condecoração - Grã Cruz da Ordem de Cristo - e bem mais tarde ainda, o tal Salazar bem morto e enterrado, em 1984, sendo Primeiro Ministro o socialista (e muito perseguido pela famigerada PIDE) Mário Soares, novamente Portugal se sentiu honrado ao conferir-lhe outra condecoração, a Grã Cruz da Ordem de Santiago.

Sou um admirador de Gilberto Freyre? Sem dúvida.

Prosseguindo na análise sobre o trabalho em questão, só mais umas linhas sobre o lusotropicalismo:

- nos democráticos Estados Unidos da América, só em 1958 é que os negros tiveram assegurado o direito de andar de ônibus (autocarro), para o que foi necessária uma sentença da Corte;

- na África do Sul, um prolongamento das democráticas Holanda e Inglaterra ...

Naquele tempo, no Brasil como em todo o resto do mundo, a escravatura era uma situação considerada normal. De facto. Hoje reconhecemos que era uma aberração. Uma monstruosidade como foi a divisão de África, patrocinada pela Inglaterra, França e o rei dos belgas, em que acabou entrando a Alemanha e Itália para não perderem a possibilidade de comer uma parte do bolo. Portugal, a muito custo ficou também com a sua parte. Já por lá circulava há muito tempo.

Muito antes disso, desde vários séculos antes, já havia padres não brancos, como o primeiro Bispo do Congo, e não só, a explicar a Bíblia ao povo negro.

Mais adiante o texto diz que, lá nos quilombos, de escravos não precisam eles. Outra inverdade ou falta de informação, quando se sabe que muitos dos próprios quilombolas tinham seus escravos, como também, por incrível ou caricato que pareça, até escravos havia que tinham escravos de sua propriedade!

Daí a dizer que em Palmares todos eram iguais, como terá sido a utopia do comunismo ou do socialismo científico, tão em voga na primeira metade deste século XX, que está a terminar, vai uma distância imensa. Aliás não vai sequer qualquer distância porque no fundo os homens, sejam eles pretos, brancos, amarelos, vermelhos, azuis, socialistas, democratas, comunistas, animistas, cristãos, candomblistas, islamitas, judeus... são todos iguais. Sempre houve, e haverá, os mais fortes que viverão da exploração dos mais fracos.

Só houve Um que não pensava assim. Acabou pregado num madeiro.

Tem mais o texto.

A raiva contra a PIDE leva a afirmar que as tropas que combatiam os quilombolas eram tropas portuguesas.

Sempre a mesma história: quando as atitudes, hoje em dia, são julgadas negativamente, a culpa é dos portugueses! Quando tudo corria bem, a obra meritória era de brasileiros!

O sargento-mor Manuel Lopes e Domingos Jorge Velho eram portugueses, brasileiros ou luso-brasileiros?

Finalmente chegamos ao traidor Ganga Zumba.

Como é fácil estigmatizar um homem depois de caído.

Vencido em inúmeros recontros ou batalhas com tropas atacantes (os tais luso-brasileiros), seus quilombos destruídos, seu povo destroçado e cansado de fugir de um lugar para outro, sem mais pouso nem sossego, Ganga Zumba ouvidos muitos chefes que o rodeavam e louvam a prudência e a sabedoria da decisão, aceita as condições propostas pelos governantes para acabar com a guerra.

Não consta que o Imperador Hiroito tivesse traído o seu povo quando capitulou perante as forças aliadas em 1945, nem mesmo Napoleão, ainda hoje um dos maiores heróis da França que, por duas vezes, teve que se render frente às vitoriosas forças inimigas. E Ngungunhane, não capitulou também? Não foi para o exílio com alguns dos seus conselheiros?

Mas Ganga Zumba foi marcado com o ferro da traição. Porquê?

Por ter perdido a batalha, depois de 80 anos de luta contínua, contra um inimigo mais forte? Depois de ter conseguido carta de cidadania para todos os nascidos em Palmares - três ou quatro gerações! - além de terras para cultivarem e alvará para comercializarem livremente?

Quem alguma vez conseguiu isso, ou perto disso, para um grupo social desfavorecido, neste país? O MST, por exemplo? Não.

Ganga Zumba foi um grande chefe, um grande guerreiro e finalmente um grande diplomata, um grande negociador.

Acabou, ele sim, traído, porque não o deixaram cumprir o acordo que, como chefe, ou rei, assinou, depois de ouvido o seu conselho que louvou a prudência e sabedoria da única decisão possível.

Não satisfeitos com isso ainda o assassinaram.

O que ganharam aqueles que prevaleceram na luta? A morte e rescravização, o ruir da esperança de alforria e terra para muitos, muitos milhares, e um deles, que ninguém sabe exatamente quem ou qual foi, o título de herói perpétuo do Brasil.

Vamos agora, para finalizar, imaginar um pequeno detalhe.

Suponhamos que os quilombolas tivessem vencido todas as lutas contra o governo escravocrata (que não era exceção no Brasil, mas normal em todo o mundo), ou que o mesmo governo por inépcia, ou cansaço, ou falta de meios, ou qualquer outro motivo, tivesse abandonado a luta e deixado os quilombolas prosseguirem na sua independência.

Como o Brasil encararia hoje, ano 2000, ter um país africano, encravado em seu território? Como seriam as relações entre os dois países?

Algo assim aconteceu na Guiana Holandesa, hoje Suriname, e desse modo quilombolas de lá mantiveram-se afastados, selva adentro, até que finalmente o Suriname se tornou independente em 1975, para logo a seguir entrar em guerras civis, quando os descendentes desses quilombos tiveram que enfrentar o ódio e a fúria dos governos e foram mortos aos milhares.

É fácil fazer demagogia, contando aquilo que as pessoas gostam ou querem ouvir. Ouvem-se aplausos, a turba grita VIVA! ou MORRA! de acordo com a vontade do orador.

Até o ex-Ministro da Justiça do Brasil no tempo de João Goulart, Tancredo Neves, que mandou fechar o jornal, hoje "O Estado de São Paulo" porque publicava artigos criticando o governo, foi pouco tempo depois considerado um grande democrata!

Dizem que o povo tem a memória curta. Talvez. Pior quando tem a memória enganada.

Encarar os fatos com frieza e isenção é mais difícil do que procurar aplausos.

A pergunta final: Ganga Zumba foi um traidor ou um injustiçado?

Francisco G. de Amorim

 

2.ª

 

Prezado Correia da Silva

Ontem fui surpreendido duplamente:

- primeiro a velocidade da sua resposta;

- depois a maneira como me respondeu.

Para que compreenda melhor o "ataque" ao seu trabalho sobre o Zumbi, vou explicar-lhe as razões porque o fiz.

O dia 20 de Novembro passou a ser, no Município do Rio de Janeiro, onde vivo, feriado da "Consciência Negra". Só no Rio. Porquê? Politiquice. Não tarda que seja elevado a feriado nacional. Não vai demorar, porque o voto dos negros é importante e os políticos que apoiarem a causa...

Na segunda metade do século passado, com a evolução das idéias Abolicionistas, houve que criar uma mística sobre a luta dos escravos pela liberdade, e criou-se o mito de um Zumbi! O Zumbi transformou-se numa bandeira da luta contra a escravatura, com o que eu concordo inteiramente. Não há luta sem bandeira.

Só que para enaltecer o Zumbi houve que denegrir a figura do Ganga Zumba, porque, quando não, seria o Zumbi o traidor! Ele que, pela continuação da luta, não permitiu que milhares de escravos tivessem recebido a sua carta de cidadania!

A solução foi transformar um em traidor para que o outro não fosse sequer questionado.

Pintaram-se quadros com o "retrato" do Zumbi, 200 anos depois de alguém ter visto "uma cabeça" cortada, e sobretudo, onde entra o segundo aspeto importante (para mim) do problema, o Brasil começava com isso a tentar justificar-se de ter ignorado ser um país escravista.

Quando se tornou independente, o novo Império exótico, tropical, terra de papagaios, araras, índios com belíssimos cocares de penas, davam ao Imperador uma aura toda nova no meio das monarquias tradicionais.

Os "brasileiros" muito nacionalistas trocaram os seus nomes, como Pereira, Costa, Marques, Silva, etc. por nomes indígenas: Tamandaré, Itararé, Paraguassu, etc. para se "abrasileirarem" mais "profundamente".

Nestas condições... e o preto? O preto continuou a ser coisa, res, e nem se podia conceber, Europa fora, que houvesse um Imperador... de escravos. Foi-se disfarçando, até que, quando não deu mais (o Brasil foi o último país a abolir a escravatura!) procurou-se alguma coisa que enaltecesse a sua figura.

A seguir, primeira metade deste século que finda, as idéias comunistas apoiaram-se igualmente na republica dos Palmares, continuando a distorcer a história.

O Brasil continua a ser um país com racismo. E muito! Vive mais respeitado um negro em Inglaterra do que no Brasil! É verdade.

Daí a "Consciência Negra" continuar a sua luta, que eu apoio inteiramente. Continuo é a não encontrar razão para deixarem o Ganga Zumba como traidor, e por isso comecei a "minar" alguns setores radicais para, no princípio do ano, fazermos um "Julgamento do Ganga Zumba", que está pensado fazer-se numa sala de aulas do complexo social da Mangueira, reduto máximo dos dirigentes da Consciência Negra que, como a quase totalidade das pessoas que alguma vez ouviram falar do Ganga Zumba, simples e comodamente o aceitam como traidor!

Bem diz um amigo meu, professor de Comunicação: o que está escrito é verdade, mesmo que seja uma grande mentira!

O seu artigo veio mesmo a calhar para que eu "soltasse" na Internet o problema e começar a agitar algumas mentes!

Quero com isto dizer que o seu artigo, que volto a repetir, está muito bem redigido, independente de eu concordar ou não com o que lá expressa, veio mesmo "a talho de foice" servir-me para dar o pontapé de saída ao problema.

Aqui no Brasil, se isto seguir para diante, como espero, vai dar muito que falar, e quer o tribunal conclua que Ganga Zumba tenha sido ou não o que a história lhe chama, vai mexer, mais uma vez com os problemas da tal "Consciência Negra".

O Brasil tem só dois heróis nacionais, reconhecidos, com direito a feriado, ambos com vidas de que se conhece muito pouco ou quase nada. Zumbi, com todas as controvérsias que expus, e Tiradentes.

Tiradentes era um pobre diabo, alferes de 2ª linha, pobre, barbeiro-arrancador de dentes, que pouco teve a ver com a Inconfidência.

Muito bem. Todos os outros, homens influentes sofreram penas menores, claro. Exílio, para Angola, dentro do próprio Brasil e pouco mais. José Joaquim da Silva Xavier, o miserável Tiradentes, serviu de bode-expiatório! Esquartejaram-no, expuseram as partes do seu corpo, etc. e virou herói nacional, símbolo da luta pela independência. Até aqui, tudo bem.

Agora daí a representá-lo como um valoroso oficial do exército, lindão, todo bem fardado, quase cirurgião odontólogo, buco-maxilo-facial, um homem que sempre lutou contra o colonialismo... há uma distância intransponível.

Como no Brasil o ódio, sim, o ódio contra os portugueses ainda faz parte do DNA da população, e parece não vir a ser desenraizado tão depressa (veja as "festas" das Comemorações dos 500 Anos!) o enaltecer das "virtudes" anti-colonialistas do Tiradentes continua a fazer parte dos programas escolares, provocando nas crianças este anti-portuguesismo que não se desenraíza com facilidade, e que parece estar incorporado já nos seus genes!

O curioso é que o Brasil no meio de todas estas psicoses acabou criando dois herois nacionais: um, Tiradentes. Acho bem, porque mais ou menos lutou pela formação e independência de um país. É, sim, nacional.

Mas, e Zumbi? Não é um herói nacional. É sim o símbolo da luta pela liberdade, e nesse aspeto eu também estou inteiramente de acordo, porque o Brasil (teoricamente!) é um país livre. Ele não é como um George Washington, ou Thomaz Jeferson.

Resumindo: o Brasil tem um herói branco - invasor - Tiradentes. Outro, preto - invasor também, mesmo que forçado - Zumbi.

E como fica o índio? A terra era deles. Enaltecidos os seus cocares e artesanato no tempo do Império, acabaram esquecidos, miseráveis, etc. e não têm um único herói!

Não têm uma "bandeira" de luta. Não têm um dia nacional da "Consciência Indígena". Não têm coisa alguma. Nem futuro.

Há qualquer coisa no meio de tudo isto que parece errado, fruto de oportunismos e falta de visão efetivamente nacional.

Esta é a "briga" que eu vou "comprar" como por aqui dizem.

Vou começar com o caso Ganga Zumba. Veremos como corre.

Sem a Internet não teria a mínima condição para isso, mas agora é fácil em poucas horas fazer chegar a idéia a milhares e milhares de pessoas que se vão questionar sobre as "verdades da história"!

Continuo a desejar-lhe um Feliz Natal e que a cirurgia a que vai submeter-se corra muito bem.

Sempre que possa dê notícias. Na próxima mando-lhe o que "soltei" na ocasião dos tais "500 Anos"!

Aceite um abraço do

Francisco

 

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