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WINSTON SPENCER CHURCHILL

Político e estadista: 1874-1965

Alberto Dines

 

Winston Churchill, retrato a óleo do pintor Denis Ramsay.

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1874 (30 de Novembro) -- Nasce no palácio de Blenheim, residência da família Marlborough. 1894 -- Escola militar de Sandhurst, cadete de cavalaria. 1895 -- Oficial dos Hussardos, primeira missão é jornalística na guerra-hispano-americana. 1897-98 -- Volta a vestir a farda na Índia e no Sudão mas não abandona o jornalismo. 1899 -- Derrotado nas eleições parlamentares. 1899-1900 -- Correspondente na Guerra dos Boers, África do Sul; regresso como herói. 1900 --Eleito para o Parlamento pelos conservadores. 1904 -- Deixa o partido, junta-se aos Liberais. 1906 -- Reeleito, nomeado subsecretário para as Colônias. 1908 -- Presidente da Câmara do Comércio; casamento com a bela e tranqüila Clementine Hozier. 1910 - Ministro do Interior. 1911 -- Primeiro Lord do Almirantado, preparação da Marinha para a guerra. 1914 -- Mobiliza a Armada antes do início da guerra. 1915 -- Responsabilizado pelos fracassos nos Dardanelos e Gallipoli, renuncia, vai servir no frente francesa. 1916 -- Retorna à vida parlamentar. 1917 -- Ministro das Munições, incentiva o projeto da nova arma, o tank, que será decisiva. 1919 -- Ministro da Guerra, quer impedir a vitória bolchevique na Rússia. 1921-1922 -- Ministro das Colônias, tenta conciliar os interesses árabes e judaicos na Palestina. 1924-1929 -- Derrotas políticas e eleitorais, volta à literatura com a crônica autobiográfica da 1ª Guerra, Crise Mundial; Ministro das Finanças, segue linha recessiva que se mostra desastrosa. 1929-1939 -- Afasta-se do governo; aproveita para escrever a biografia do ancestral, Marlborough, Vida e Tempos; não abandona a cena política advertindo com veemência sobre o perigo nazista. 1939 (1 de Setembro) -- Início da 2ª Guerra Mundial, dois dias depois reassume o Almirantado, começa a amizade com Franklin Delano Roosevelt. 1940 -- O ano da decisão (10 de Maio) Blitz nazista nos Países Baixos, renuncia Neville Chamberlain; (13 de Maio) volta ao Parlamento, agora como Primeiro Ministro e o discurso sobre "sangue, suor e lágrimas". (22 de Junho) Invasão da Rússia pelos nazistas, o anticomunista converte-se num entusiasta da Grande Aliança com os soviéticos. 1941 -- (14 de Agosto) Primeiro encontro com Roosevelt, assinada a Carta do Atlântico com o compromisso da ajuda americana. (7 de Dezembro) Ataque-surpresa japonês a Pearl-Harbour; os EUA na guerra. (26 de Dezembro) Empolga o Congresso dos EUA. 1942-1943 -- Desembarque aliado no Norte da África, depois na Sicília e, finalmente, na Itália continental. 1944 (6 de Junho) Quer acompanhar o Dia-D a bordo de um cruzador inglês, o rei o dissuade. 1945 -- (24 de Julho, Potsdam, Alemanha) encontro com Stalin e Truman para cuidar do após-guerra e da arrancada final contra o Japão; lança a expressão Cortina de Ferro (26 de Julho) Deixa a reunião para participar das eleições parlamentares: surpreendente triunfo trabalhista, deixa o governo, não retorna a Potsdam. 1946-1949 -- Pronunciamentos a favor dos Estados Unidos da Europa, escreve A 2ª Guerra Mundial, 6 volumes. 1951 (16 de Outubro) - Retorna ao número 10 de Downing Street com 51 anos de vida parlamentar. 1955/1964 -- Renuncia ao cargo, dedica-se exclusivamente à literatura (A História dos Povos de Língua Inglesa, 4 volumes), pintura, conferências, homenagens e lazer no jet-set internacional. 1965 (30 de Janeiro) -- Morre aos 91 anos, comoção mundial.

 

HOMEM-FÊNIX

 

 

Churchill e o V da Vitória. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Natal gélido na capital americana. Não é a temperatura apenas mas a angústia da guerra, agora estendida aos quatro cantos do mundo -- a pior que a humanidade já enfrentou. Nada intimida este inglês de 67 anos, rijo como um carvalho, rosto de buldogue e de bebê. Dono de uma oratória retumbante, sem papel algum na frente, discursa para as duas casas do Congresso.

De Londres, submetida aos bombardeios diários, traz para Washington (na guerra há parcos 19 dias) muito mais do que a esperança. Traz a certeza do triunfo final. Enquanto o plenário aplaude, empolgado, estende a mão com os dois dedos em forma de V. É o V da Vitória que desembainha em seu país para animar soldados e povo. Gesto-sigla, antídoto ao braço estendido da saudação nazi-fascista -- de hoje em diante também aqui torna-se o emblema da confiança. Breve, terá um acorde para acompanhá-lo: as quatro notas iniciais da 5ª Sinfonia de Beethoven (três curtas e uma longa) que no código Morse, significam V.

Do pai, Lord Randolph Churchill (descendente direto do 1º Duque de Marlborough, o herói da luta contra Luís XIV), herda o gosto pela política e a memória prodigiosa que lhe permite decorar um discurso inteiro para recitá-lo como um improviso. Da mãe, Jennie Jerome, beldade nova-iorquina, filha de um magnata e criador de cavalos de corrida, recebe a porção de bon-vivant: fuma longos charutos cubanos, bebe generosas doses de whisky (que lhe valem, de Hitler, o epíteto de bêbado e, dos biógrafos "revisionistas", a classificação de irresponsável), o gosto pelo convívio com celebridades e, também, a inclinação artística.

Homem-Fênix: cresce, decai, brilha e, neste constante renascer das cinzas, forja a sua fibra. Jamais poderão classificá-lo como prodígio ou vitorioso nato, caso do amigo, parceiro e alma-gêmea, Franklin Roosevelt. Temperado nos vários ostracismos, enrijecido pelos dissabores políticos que neutraliza com os êxitos literários, a biografia de estadista começa quando outros, resignados, pensariam na reforma. Chega ao pódio mundial aos 65 anos e, quando morre aos 91, salta para a História.

 

GANGORRA DOS DESAFIOS

"sangue, suor e lágrimas" - o Primeiro Ministro nos dias da Batalha de Inglaterra.

 

Tudo ao contrário: Winston Leonard Spencer Churchill nasce em berço esplêndido mas a infância é triste e enfermiça. Doença principal, carência afetiva. Os pais não têm tempo para oferecer carinho, é a governanta, a Senhora Everest, que também disso se encarrega. Primeira escola, a aristocrática Harrow, notas lamentáveis -- não poderia ser diferente. O pai, pragmático e ocupado, decide que precisa de disciplina e o encaminha para o Real Colégio Militar (hoje Academia de Sandhurst). Só na 3ª tentativa é que Winnie consegue ser aprovado.

Milagre: uma vez aceito, torna-se aplicado, termina em 20º lugar numa classe de 130. Adora cavalos e torna-se exímio cavaleiro. No mesmo ano em que é incorporado aos prestigiosos Hussardos, morre o pai justamente quando começam a aproximar-se. Ironia (não será a única): a primeira missão como militar é civil, contratado para acompanhar a guerra hispano-americana como correspondente do Daily Graphic.

Regimento transferido para a Índia, volta a vestir a farda mas não deixa o jornalismo. Seus despachos sobre os conflitos na fronteira causam grande sensação, logo reunidos em livro (The Story of the Malakand Field Force, 1898). Convocado para servir na força expedicionária no Sudão, continua a dupla função militar-jornalística da qual resulta novo sucesso, The River War (1899).

Descobre que a farda não o atrai, o jornalismo sim. A política também, sobretudo porque sente-se no dever de substituir o pai. Candidata-se ao Parlamento pelo distrito de Oldham na chapa conservadora. Derrotado. Consolo imediato pela via do jornalismo: é contratado pelo Morning Post, de Londres, para fazer a cobertura da Guerra dos Boers, na África do Sul. Aqui o militar combina-se ao jornalista e o resultado converte-o num herói graças a uma sucessão de façanhas: alcança a tropa inglesa sitiada, ajuda a resgatar um combóio seqüestrado pelos rebeldes, cai prisioneiro e, semanas depois, escapa espetacularmente. O jornalista converte-se em manchete de todos os jornais --- talento e coragem física dificilmente juntam-se na mesma pessoa. Esta será a sua grife em todas as empreitadas.

 

ARTILHARIA PESADA

 

 

Churchill casa-se com Clementine. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Célebre, agora consegue eleger-se para o Parlamento. Problemas: da infância sofrida guarda seqüelas na fala -- embaraça-se nos debates e improvisos. Para Winnie tudo é desafio. Tira partido dos outros atributos combinando os dotes literários com sua extraordinária memória e, assim, faz intervenções brilhantes." Seus canhões não são móveis, mas poderosos", resume o líder dos conservadores, Lord Balfour.

Politicamente, é mais moderado e mais flexível do que o partido, tanto em questões sociais como coloniais. O choque é inevitável, rompe com os conservadores quando advogam uma política tarifária e protecionista sendo ele devotado à causa do livre-comércio. Muda de lugar no plenário, junta-se aos liberais e desfecha audaciosas diatribes contra os ex-correligionários.

Talvez para aplacar a sensação de está a trair o pai, conservador, escreve a admirável biografia, Lord Randolph Churchill mas segue o caminho liberal. Troca de distrito e nas eleições de 1906 obtém notável vitória em Manchester. Agora é governo, subsecretário para as colônias defendendo a autonomia da África do Sul. Em seguida, passa a ter assento no novo gabinete liberal como Presidente da Câmara do Comércio.

Hora de arrumar a vida, já tem 34 anos: casa-se com Clementine Hozier, aristocrata e nobre, beldade tranqüila, capaz de sossegar a turbulência desta alma mordida pela audácia. Química perfeita, o enlace se estenderá por 57 anos, sem tropeços, e do qual nascerão um filho e quatro filhas.

Da pasta do Comércio passa para a do Interior e, desta, em 1911, para o comando do Almirantado. Não é homem do mar, em compensação é homem de ação. Do outro lado do Atlântico, dentro de dois anos, Franklin Roosevelt assumirá o comando virtual da esquadra americana como subsecretário da Marinha.

A Europa ferve, Churchill também. Graças a isso percebe que, sem uma marinha forte e alerta, o Império naufraga. Na véspera da guerra, ordena um exercício de mobilização naval e quando os primeiros tiros são disparados a esquadra inglesa já está em estado de guerra há vários dias. Despacha-se para Antuérpia e comanda pessoalmente a defesa do porto, essencial para a navegação do Canal da Mancha.

Concebe, então, o primeiro de uma série de ataques anfíbios: um desembarque em Gallipoli (Turquia asiática) para assumir o controle dos Dardanelos e assim chegar aos russos. Carnificina, desastre total, assume a responsabilidade e renuncia ao cargo. Na qualidade de tenente-coronel vai comandar um regimento na frente ocidental.

Dura pouco o auto-banimento, Lloyd George convoca-o para assumir o Ministério das Munições e lá Winnie engaja-se em outra empreitada insana: converter o automóvel numa fortaleza móvel. Nasce o tank que deverá acabar com o atoleiro das trincheiras e reviver a guerra móvel. A chegada dos alegres americanos à frente ocidental é crucial para animar os aliados mas a súbita aparição dos tanques ingleses despejando fogo e chumbo contribui decisivamente para a derrota alemã.

Paz assinada, não sossega. Como ministro, da Guerra e do Ar, tem um objetivo neste momento -- neutralizar a vitória bolchevique na Rússia. Doravante, o anti-bolchevismo será uma das tônicas de sua atuação política. Transferido para o Ministério das Colônias, onde, paradoxalmente, a vitória em 1918 só traz problemas para o Império. Nas questões do Oriente Médio ouve, atento, uma estranha e fascinante figura, misto de militar, intelectual e aventureiro, T. E. Lawrence. Promulga o Livro Branco que confirma o reivindicação judaica de um Lar Nacional na Palestina e, ao mesmo tempo, garante os direitos árabes.

 

VAI-E-VEM NA RIBALTA

 

 

 

Churchill com Giraud, Roosevelt e De Gaulle na Conferência de Casablanca, em  Janeiro de 1943.

 

 

De novo os Dardanellos: a pressão turca para reocupar o estratégico estreito provoca crise política na Inglaterra. Ninguém quer uma nova sangueira, atribui-se a Churchill a idéia de uma revanche, cai o governo de coalizão, convocadas eleições gerais. Impossibilitado de participar da campanha por causa de uma operação de apendicite, é derrotado. Ironiza: "...perdi o cargo, perdi o assento, perdi o partido e até perdi o apêndice..."

Sai da cena política, retoma a pena e experimenta o pincel. Seus dotes plásticos não ultrapassam os de um aplicado amador mas na literatura a sua estrela brilha: lança The World Crisis, crônica autobiográfica das Primeira Guerra Mundial que rende 20 mil libras, com as quais compra a propriedade rural em Chartwell, Kent.

Tenta o parlamento como independente agitando a bandeira anti-socialista. Perde duas vezes, na terceira, 1924, consegue um assento. Entrementes, o líder conservador, Stanley Baldwin oferece-lhe o cargo de Chanceler do Erário. Detesta matemática e contas mas os desafios transcendem às pequenas aversões: pode voltar ao campo dos conservadores e no mesmo cargo ocupado pelo pai. Além disso, a matéria econômica é a arena onde se trava o grande duelo entre o socialismo e o liberalismo econômico.

Coerente com os princípios do laissez-faire determina a volta do padrão-ouro que, junto com outras medidas ortodoxas e recessivas, provocam o caos: deflação, desemprego, greve dos mineiros que despoleta uma prolongada greve geral, a primeira da história inglesa. Resiste teimosamente à negociação porque considera a paralisação como uma situação pré-revolucionária.

Num país onde a imprensa tem tamanha importância e a ausência de jornais é uma calamidade, o Ministro Churchill inventa e comanda a British Gazette, jornal oficial onde escreve bombásticos editoriais diários contra o "inimigo" e alcança fabulosas tiragens. O empedernido anti-socialista acaba de revelar que a luta de classes não é imaginária.

Mantém-se no governo até 1929 e, na política, até 1931. Não há mais lugar para este guerrilheiro individualista, instável e inflamado, pouco dado ao diálogo e compromissos. Recolhe-se a Chartwell para escrever e o faz com a paixão de sempre. A reabilitação biográfica do seu ilustre ancestral, Marlborough, sua Vida e Tempos, além de render um esplêndido retorno financeiro, é uma demonstração de que a História não concerne apenas aos historiadores. Assim como a política não se exerce apenas nos plenários ou gabinetes.

 

O PEDREIRO CONTUMAZ

 

 

 

Chamberlain e Churchill. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

Nas horas vagas entrega-se a um hobby-compulsão cujo simbolismo talvez não perceba -- levantar muros de tijolos. É a forma inconsciente de responder à exclusão a que foi condenado, espécie de ioga do homem de ação. O muro é o obstáculo a ser superado, provocação ao salto. Este ostracismo de uma década é a sua preparação para a grande maratona que se segue.

Interrompe-se o capítulo da histeria anti-socialista de um personagem que, ironicamente, começou na trilha do pai, conservador-progressista. E começa um novo, o do estadista em repouso que vislumbra o inimigo escondido. Adolf Hitler, que sempre pensou numa aliança anglo-saxónica para dividir a Europa, faz soar o alarme que desperta Churchill para o perigo do nazi-fascismo.

Em artigos, correspondência e conferências Churchill é um dos primeiros ingleses a advertir para o monstro militar que se gesta na Alemanha. Seu discurso não é propriamente antifascista e libertário, é do estrategista que antevê o adversário no campo de batalha. Sua pregação não é pacifista, é militarista. À xenofobia alemã contrapõe o ideal romântico da Europa multinacional ao lado do leão britânico.

O antigo homem do mar está empenhado no rearmamento da aviação, sabe que na próxima guerra o domínio do ar será decisivo. A pregação tem algum eco, convidam-no para participar de um secretíssimo grupo de trabalho que acompanha o desenvolvimento da Luftwaffe e projeta a resposta britânica. Quando em 1936, Neville Chamberlain (seu ex-companheiro de gabinete) assume o governo, aumenta o distanciamento entre Churchill e o poder.

Temeroso de um novo conflito mundial, Chamberlain engaja-se numa política de apaziguamento. O anticomunismo de Hitler até agrada aos setores mais reacionários da Inglaterra. Churchill, ao contrário, incita o governo a organizar um pacto europeu incluindo a União Soviética, para deter os avanços políticos nazistas. Em 1938, quando é assinado o Pacto de Munich sacrificando a Tchecoslováquia, Churchill apela para o adormecido orgulho nacional considerando-o como "total e indisfarçável derrota".

Já não fala sozinho, tem um grupo à sua volta e declaradas simpatias em todo o espectro político, inclusive na esquerda. É o velho Churchill a cavalgar uma causa generosa. Em Março de 1939 propõe um governo de coalizão nacional, como em 1914 ele advinha o que está por vir. Chamberlain ignora-o, teme o seu protagonismo.

 

WINNIE ESTÁ DE VOLTA

A pintura foi uma das paixões mais absorventes na vida de Churchill.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Churchill e o Dia-D. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

A Inglaterra declara guerra à Alemanha, dois dias depois da invasão da Polônia. Chamberlain capitula, convoca Churchill para ocupar o seu velho posto à frente do Almirantado. A marujada vibra: "Winnie está de volta !". O ânimo do país volta a esquentar, grande repercussão internacional, congratulações da Casa Branca com a assinatura de "um homem do mar" -- Franklin Roosevelt. Ponto de encontro de vidas paralelas, costura-se a parceria decisiva.

O moral elevado da Marinha não afeta a "guerra sentada" que se trava na frente francesa. Abril de 1940, os aliados não conseguem evitar a invasão da Dinamarca e da Noruega que controlam a saída da frota alemã pelo Báltico. Fracassam duas expedições anfíbias inglesas em Narvik e Trondheim, o fantasma de Galllipoli reaparece no Parlamento, desta vez o culpado pelo fiasco é Chamberlain. Maio, nova blitz alemã, caem o Luxemburgo, Holanda, Bélgica e a Wehrmacht está diante da fronteira desguarnecida da França.

Chamberlain renuncia, ainda tenta indicar um sucessor que não seja Churchill. Inútil, o único político que merece a confiança dos trabalhistas -- apesar do seu passado reacionário -- é Churchill, comprometido vitalmente com a causa anti-hitlerista.

Estréia no Parlamento como Primeiro Ministro e inaugura o ciclo dos memoráveis discursos de guerra: "...Não tenho nada a oferecer-vos senão sangue, trabalho, suor e lágrimas...".O gabinete de coalizão (no qual exerce também a pasta da Defesa), inclui três trabalhistas, um deles é o poderoso líder sindical, Ernest Bevin. Fica garantido o esforço de guerra e a paz social. O estadista-historiador sabe que é preciso sacrificar as questões menores no altar da vitória final. Leva ao Parlamento uma lei de emergência que coloca todas as pessoas, serviços e propriedades a serviço da Coroa. Puro socialismo. Mais tarde, quando escreverá a história da segunda guerra mundial, enunciará a sua fórmula: "Na guerra, determinação; na derrota, resistência; na vitória, magnanimidade; na paz: boa-vontade."

Dois dias depois da queda de Paris, a 16 de Junho de 1940, faz uma proposta audaciosa ao governo francês: a união política entre os dois países. A 22, os franceses capitulam no mesmo vagão em que os alemães haviam assinado a rendição em 1918. A máquina de guerra alemã agora está totalmente voltada contra a Inglaterra. Churchill no Parlamento: "estas são as nossas melhores horas".

Cerco alemão cauteloso e inexorável: primeiro os aviões de Goering atacam as embarcações que cruzam a Mancha, depois as tropas ocupam as pequenas ilhas no meio do Canal, em seguida a Luftwaffe ataca as bases da R.A.F. no sul da Inglaterra. Um ano depois de começada a guerra, os alemães começam os ataques maciços contra Londres. Churchill no Parlamento: "nunca, no campo das lutas humanas, tantos deveram tanto a tão poucos" - é o seu tributo aos pilotos dos Spitfires e Hurricanes que defendem o país na Batalha da Inglaterra.

Como represália, ordena uma incursão aérea a Berlim. Enfurecido com a audácia, o Führer determina maciços ataques diários a Londres. E dá início à Batalha do Atlântico para cortar todos os suprimentos da Inglaterra e os seus vínculos com o Canadá.

O ataque alemão à União Soviética leva-o a esquecer a velha rixa com o comunismo: "O perigo na Rússia é o nosso perigo". Os isolacionistas americanos, insensíveis com o que se passa na Europa, insistem no slogan America First. "Dêem-nos as ferramentas e faremos o trabalho" pede Churchill. Concebe então o projeto da Grande Aliança com a URSS e os EUA do qual é o infatigável artífice. O primeiro passo é dado em Agosto de 1941 quando encontra-se com Roosevelt nas costas do Canadá para assinar a Carta do Atlântico. Também aqui a alquimia entre os dois parceiros é perfeita: FDR, águia serena, é o campeão da democracia, Winnie, leão aguerrido, é quem vai implementá-la.

Vai duas vezes a Moscou, quatro a Washington, duas ao Cairo e Quebec, uma ao Marrocos, Grécia, Malta, participa das duas reuniões tripartites com Roosevelt e Stalin (Teerã e Ialta) e da derradeira, com Truman e Stalin em Potsdam (Alemanha) depois da rendição alemã. Em duas destas exaustivas viagens circulares (para evitar surpresas da aviação inimiga) cai doente, sempre com pneumonia.

No meio do conflito, já pensando no pós-guerra, participa ativamente nos projetos para a criação de uma confederação européia. É o precursor não apenas da aliança que vai derrotar o Eixo totalitário mas também da interdependência que marcará a segunda metade do século XX.

No âmbito militar, ainda perseguido pelos fantasmas do fiasco de Gallipoli, age com extrema cautela. Em 1942, Stalin, secundado pelo Estado Maior americano, reclama a imediata criação da 2ª frente na Europa para afrouxar a pressão germânica. Churchill considera o projeto prematuro, arriscado e, nas atuais circunstâncias, custoso. Quando finalmente chega o Dia-D, o Dia da Decisão, em Junho de 1944, o septuagenário quer participar pessoalmente da operação de resgate da França a bordo de um cruzador inglês. Quem o dissuade é o próprio monarca.

 

PRÊMIO, CASTIGO E PRÊMIO
 

Roosevelt morre 26 dias antes da rendição alemã. Churchill, privilegiado pelos fados, assiste ao entusiasmo do 8 de Maio, a 15 de Julho vai a Potsdam para as prolongadas negociações com Stalin e Truman sobre o futuro da Europa e do mundo. O Encontro da Vitória torna-se a Reunião da Desconfiança, onde Churchill cunha a alcunha, Cortina de Ferro, para o novo império soviético.

Reunião interrompida pela convocação das eleições inglesas. Todos, inclusive Stalin, estão certo de que se encontrarão novamente no fim do mês. Engano: quem vai sentar-se para a foto de praxe é o trabalhista Clement Attlee, o grande vitorioso das eleições com o seu programa Vamos Enfrentar o Futuro.

Attlee entra e sai da História com a mesma rapidez. Winnie permanece (As recompensas de Winnie são outras): vive mais duas décadas, volta a chefiar o gabinete por mais quatro anos (aos 77), ganha os maiores galardões, inclusive um Nobel de literatura por sua História dos Povos de Língua Inglesa, comanda os primeiros movimentos por uma confederação européia e morre durante o sono depois de uma trombose cerebral - tranqüilamente. Sua última audácia foi de saldar todos os compromissos com a vida.

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