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HEITOR VILLA-LOBOS

Compositor, 1887-1959

Leonor Lains

Heitor Villa-Lobos (retrato)

ERA A FÚRIA ORGANIZANDO-SE EM RITMO...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1887: Nasce no Rio de Janeiro a 5 de Março. - 1897: Aprende violoncelo com o pai. - 1903: Aperfeiçoa a técnica de violoncelo com Breno Niemberg. - 1905: Começo de uma vida errante pelo Brasil de Norte a Sul, que durará 8 anos. - 1907: Curta passagem pelo Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, tendo aulas de Harmonia com Frederico Nascimento. - 1913: Fixa-se no Rio de Janeiro. Ganha a vida a tocar em teatros de revista e de opereta. - 1915: Realiza o primeiro concerto de obras suas, dando início ao modernismo brasileiro. - 1918: Acaba a ópera Izaht. - 1919: Apresenta o Quarteto Op. 15 em Buenos Aires. Compõe a suite para piano Prole do bebé. - 1922: A Semana da Arte Moderna de São Paulo consagra-o como compositor. - 1923: Viagem à Europa. Paris passa a ser a sua segunda cidade. – 1924: Consagração em Paris. O pianista Arthur Rubinstein interpreta Prole do bebé. - 1926: Realiza três festivais sinfónicos para a Associação Wagneriana de Buenos Aires. - 1927: Volta à Europa. Dirige obras suas à frente das mais prestigiadas orquestras europeias. Em Lisboa dirige a Sinfónica portuguesa. É professor de composição do Conservatório Internacional de Paris e faz parte do Comité d’Honneur. - 1930: Regressa ao Brasil. Compõe os Choros. Apresenta programa educacional. Dá concertos em S. Paulo. Compõe as Bachianas Brasileiras. - 1932: É nomeado para dirigir a Superintendência da Educação Musical e Artística. - 1936: Casa com a jovem cantora Arminda Neves de Almeida. - 1937: É membro honorário da Academia de Santa Cecília de Roma. - 1942: Dirige o Conservatório Nacional de Canto Orfeónico. Cria a sua própria orquestra sinfónica. - 1943: É nomeado Doutor em Música Honoris Causa pela Universidade de Nova Iorque e também pela Universidade de Los Angeles. - 1945: Fundador e presidente da Academia Brasileira de Música. - 1947: Ganha o prémio do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura. - 1948: A sua ópera Malazarte é estreada nos Estados Unidos. - 1954: Visita Israel a convite do governo de Tel-Aviv de que resulta a obra A odisseia de uma raça. - 1959: Morre no Rio de Janeiro a 17 Novembro.

 

BRASIL ENTRE O SCALA E O SERTÃO

 

O Brasil do século XIX está longe de ser culturalmente atrasado.

Há muito que o império português se instalara exuberantemente. Igrejas inteiras são transportadas, pedra a pedra, servindo como lastro dos barcos vindos da metrópole. A riqueza do subsolo, a exploração da terra, o usufruto continuo da força de trabalho de escravos índios e negros, também de brancos emigrantes, permite que se instale uma classe perdulária, ávida do luxo das grandes cortes europeias. Não faltam Teatros de Ópera, Sociedades de Concertos, Conservatórios. A vida musical está organizada como no Ocidente europeu. Os missionários da Companhia de Jesus impõem a liturgia e também a arte operática. As óperas de Marcos de Portugal (Lisboa 1762 / Rio de Janeiro 1830) e do seu irmão Simão são interpretadas no Brasil por negros e mestiços, ensinados num conservatório fundado pelos Jesuítas. O próprio imperador D. Pedro I pratica música e faz do mecenato uma honra e glória. Não é por acaso que um Cônsul brasileiro pede a Wagner a partitura da ópera Tristão e Isolda para ser exibida no Rio. Em pleno século XIX aparece o iniciador do nacionalismo musical, Carlos Gomes (1836/1896) mais fascinado pelos ventos do Scala do que pelos do Sertão.

 

O GRITO DO IPIRANGA

Retrato de Villa-Lobos extraida do site http://info.lncc.br./dimas

 

No outro lado do mundo, mais propriamente em Lodz, na Polónia, a 28 de Janeiro de 1886 nasce Arthur Rubinstein. No ano seguinte, no Rio de Janeiro, a 5 de Março, na Rua do Ipiranga, nasce uma criança de seu nome Heitor Villa-Lobos.

Raul Villa-Lobos é funcionário da Biblioteca Nacional e toca violoncelo como músico amador. Em casa pratica música clássica com os amigos. O filho tem seis anos; como ainda é pequeno, ensina-lhe violoncelo numa viola de arco virada para baixo. Heitor conhece o Cravo bem temperado de Bach tocado pela tia Zizinha. Aprende a distinguir a altura dos sonidos da rua, os rudimentos de solfejo, teoria musical e clarinete. Nas ruas do Rio, grupos de músicos amadores (os chorões) tocam o Choro nas noites de festa e no Carnaval. A existência musical do jovem "Tuhu" (labareda, em tupi) - sobrenome com que o chamam - oscila entre Bach e as serenatas dos chorões.

O pai morre em 1899, Heitor tem 12 anos e vontade de aprender violão, cavaquinho e corneta. Mas que fazer aos doze para satisfazer tais aspirações? - A biblioteca do pai, livro a livro, é objecto de dedicação. Ei-lo a aprender sozinho o seu violão! D. Noémia, a mãe, quer fazer dele Médico.

Aos 18 anos solta o grito do Ipiranga! Junta-se aos Chorões, os tais músicos considerados marginais. Os Estados do Norte esperam por ele. Parte em 1905 para Espírito Santo, Bahia e Pernambuco. É músico ambulante e trabalhador ocasional nas fazendas do interior.

Em 1907 volta ao Rio e inscreve-se no Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro. Tem aulas de Harmonia com Frederico Nascimento que utiliza os métodos didácticos de Schoenberg. Mas é sol de pouca dura... porque tem «mais prazer em absorver o folclore que passa sob as suas janelas do que ouvir o arrazoar dos explicadores». Desta vez visita os estados do interior do Norte e Nordeste e conhece a Amazónia - facto nunca comprovado - que marcará profundamente a sua obra.

Nestas andanças recolhe mais de mil temas que utilizará na sua obra. Faz anotações do folclore. Utiliza uma espécie de taquigrafia com sinais que representam a unidade de tempo e o ritmo. Depois pede ao informador que repita várias vezes a canção para então anotar as notas sobre os sinais taquigrafados.

Saciada a curiosidade e ânsia de aventura regressa em 1912 ao Rio. Qual não é o seu espanto?... Uma missa em sua memória! A mãe, que há anos não sabia dele...julgara-o morto.

Agora completa a sua formação autodidacta dedicando-se à análise e estudo das obras dos grandes mestres. Consulta alguns tratados de harmonia e orquestração, nomeadamente o de Vincent d’Indy. Casa com a pianista Lucília Guimarães. Toca violoncelo nas orquestras dos teatros e dos cinemas cariocas. Escreve as três suites Prole do Bebé sobre temas infantis brasileiros.

 

"NÃO ESCREVO DISSONANTE PARA SER MODERNO"

Vila Lobos e Arminda

 

 

 

 

 

 

Tocando reco-reco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De comboio.

 

O ano de 1915 marca o início da apresentação oficial no Rio de Villa-Lobos como compositor. A sua Música provoca ira nas forças passadistas. Os vanguardistas começam a dar que bradar. A pintora cubista Anita Malafati, faz uma exposição. Achaques do crítico Lobato. Sujeito aos mesmos desmandos é a obra do escultor Vítor Brecheret.

O jornais publicam críticas contra a modernidade. Oscar Guanabarino do Jornal do Comércio escreve sobre Villa-Lobos: « O seu grande talento está transviado » porque faz parte dos novos iconoclastas que querem destruir a arte saída das velhas escolas «julgando haver possibilidade de fazer desaparecer o belo para das sua cinzas surgir o império do absurdo».

A resistência à música de Villa-Lobos não se fica só por aqui. Em 1918 o director do Instituto Nacional de Música convida-o a dirigir um concerto exclusivamente com obras suas, a 1ª Sinfonia e Amazonas, ainda com o título Miremis. As dificuldades surgem. Os músicos, habituados a uma certa rotina, recusam-se a tocar o que consideram uma coisa cheia de dissonâncias.

Villa-Lobos responde a estas arrazoadas: « Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é consequência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas ideias.».

Muitos intelectuais e artistas brasileiros formam esta vaga renovadora. Ao Brasil chegam da Europa outros espíritos inovadores. O Dr. Leão Veloso - o mesmo que lhe oferecera o tratado de Vincent d’Indy – no consulado de França apresenta-o ao jovem Darius Milhaud que é secretário do escritor Paul Claudel. Villa-Lobos mostra-lhe os tesouros da música brasileira. O compositor francês anos depois compõe a célebre suite Saudades do Brasil, reminiscência dos momentos que passara no Brasil. É também nesta época que, de forma singular, conhece Rubinstein que será seu protector e o intérprete da obra Prole do Bebé que o lançará na Europa.

O jovem pianista Arthur Rubinstein está em digressão no Rio. Quer conhecer o compositor de quem Ernest Ansermet lhe falara com entusiasmo, em Buenos Aires. Vai ao cinema Odeon onde Villa-Lobos toca numa orquestra manhosa. Após uma série de musiquinhas banais atacam uma das Danças Africanas. O pianista no intervalo vai cumprimentar o autor, mas foi rechaçado violentamente:

"Vous êtes un virtuoso, vous ne pouvez pas comprendre ma musique!.."

No dia seguinte, pelas oito da manhã, no Palace Hotel batem à porta do quarto de Rubinstein. É Villa-Lobos acompanhado de uma dúzia de músicos. Quer que ele oiça algumas das suas obras e como os colegas trabalham à tarde e à noite, tem de ser a esta hora...

Vasco Mariz, no seu estudo biográfico sobre Villa-Lobos, conta também outro episódio. Sabendo das dificuldades financeiras do compositor, Rubinstein adquire alguns originais para um hipotético coleccionador. Villa vende por bom preço o manuscrito autografado da Sonata para Violoncelo. Anos depois, encontrará os mesmos manuscritos em casa de Rubinstein....

Em 1919 Villa-Lobos desloca-se à Argentina para um concerto de obras suas organizado pela a Associação Wagneriana de Buenos Aires.
O Quarteto de Cordas n.º 2 é muito bem recebido pela crítica da especialidade.

 

"FOMOS REALMENTE PUROS E LIVRES"

 

 

 

 

Com Mário e Oswaldo de Andrade - Semana de Arte Moderna.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vila Lobos e Edgar Varèse - Paris 1927.

 

Em Fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de S. Paulo, jovens poetas, escritores, músicos e outros artistas, liderados por Mário e Oswaldo de Andrade, revolucionam o meio cultural e artístico. Os princípios orientadores destes modernistas são: o direito permanente à pesquisa estética, a actualização do conhecimento artístico brasileiro, a estabilização de uma consciência nacional criadora.

Na verdade a Semana da Arte Moderna é o corolário do período heróico do movimento modernista brasileiro, iniciado na década anterior, com a exposição de Anita Malafati. O poeta e musicólogo Mário de Andrade fala-nos dessa época:

"Durante essa meia dúzia de anos fomos realmente puros e livres, desinteressados, vivendo numa união iluminada e sentimental das mais sublimes. Isolados do mudo ambiente, caçoados, evitados, achincalhados, malditos, ninguém não pode imaginar o delírio ingénuo de grandeza e convencimento pessoal com que reagimos. O estado de exaltação com que vivíamos era incontrolável".

Villa-Lobos é convidado mas não dispõe de dinheiro para ir do Rio a São Paulo. Graça Aranha e Ronaldo de Carvalho pedem a Paulo Prado, que tomou a peito a realização da Semana da Arte Moderna, abrir uma lista das contribuições entre os seus pares aristocratas e outros que a sua figura dominava.

Villa-Lobos não escreve nada de especial para se apresentar em S. Paulo. Apenas acaba os Epigramas de Ronaldo de Carvalho e leva algumas obras nunca ouvidas.

A 13 de Fevereiro é a primeira sessão no Teatro Municipal de São Paulo, repleto de um público decidido a vaiar e a divertir-se à custa daqueles jovens idealistas. Ronaldo de Carvalho recita Os Sapos de Manuel Bandeira. Nas torrinhas do teatro barulheira infernal! No intervalo, nas escadarias do teatro, "cercado de anónimos que me caçoavam e ofendiam a valer", Mário de Andrade faz uma palestra sobre artes plásticas. Qualquer que seja o mérito artístico das obras apresentadas, a reacção é sempre a mesma.

A atitude do público para com Villa-Lobos é, a princípio, mais respeitosa. Mas durante um dos concertos é ridicularizado diversas vezes. Torcera um pé e entra no palco a coxear, de casaca e chinelo. A multidão acompanha-lhe o passo, marcando o ritmo exacto do pé doente...

A Semana da Arte Moderna terá uma importância capital. O movimento modernista brasileiro deixará de ser uma questiúncula artística para se tornar num tema nacional. O tempo encarregar-se-á de consagrar os heróis destas jornadas. "O mesmo público que os apupou em São Paulo, hoje adquire aos milhares os livros de Bandeira, de Andrade e aplaude de pé os concertos de Villa" escreverá Vasco Mariz.

Neste mesmo ano o Rei Alberto da Bélgica está de visita ao Brasil. Primeira audição das sinfonias encomendadas pelo Estado Brasileiro. Villa-Lobos dirige a orquestra que toca a 3ª e 4ª Sinfonias, respectivamente Guerra e Vitória. Na Sala está o Rei. Retumbante sucesso. O Rei, Rainha e ministro da Relações Exteriores vão ao camarim para saudar o músico. Dias depois resolve o Rei agraciar Villa-Lobos com a "Cruz de São Leopoldo". Recusa a condecoração - o cozinheiro e o chefe dos guardas do palácio real haviam merecido a mesma distinção (!)...

 

TUHU INCENDEIA PARIS

Villa-Lobos (retrato).

 

 

 

 

 

 

 

 

Villa-Lobos compõe Choros e Serestas. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Em meados de 1923, no Rio de Janeiro, embarca num navio francês rumo à Europa. O autor de Amazonas chega a Paris. Não vai estudar ou aperfeiçoar-se, vai para conquistar. Na bagagem leva a imensa obra já feita. Em menos de um ano, este estrangeiro mensageiro de um país tropical e atrasado, impõe-se pelo o talento e espírito independente. Conquista o meio musical do mundo "civilizado".

Em Paris, graças ao um grupo de amigos « que eram tantos que, de gota em gota me enchiam o pano», faz frente às primeira despesas da sua instalação em Paris. Abre caminhos no meio musical. Rubinstein e o marido da cantora Vera Janacópulos apresentam-no aos famosos editores Max Eschig. E a famosa cantora interpreta as suas canções.

Arnaldo Guinle e Olívia Penteado ajudam-no a instalar-se. Aos domingos, à volta de uma feijoada brasileira, reúne em casa Florent Schimtt, Stokowsky, Varèse, Picasso, Léger, entre muitos outros artistas.

O Paris dos loucos exacerba de exotismo. A figura carismática de Heitor serve de repasto às delícias e requintes da civilização parisiense dos anos 20. É com humor que troça do romantismo equatorial de um Paris mundano e efervescente de novas ideias: "Quando estive na Floresta, os Índios tinham esquecido o seu folclore - só os papagaios tinham a lembrança. Foi através deles que consegui recolher algumas coisas" .

André Breton lança o Manifesto Surrealista juntamente com Aragon. Paul Claudel e Anatole France estão sob o crivo da recém criada revista Révolution Surréaliste. Éluard revoluciona a poesia. Picasso impõe o cubismo. Jean Cocteau experimenta novas linguagens poéticas no cinema. O jornal Liberté considera a obra musical de Villa-Lobos como um modernismo avançado de uma personalidade forte e atraente. Da síntese de duas culturas tão distantes nasce uma obra musical excepcionalmente original.

Em 1927 volta novamente a Paris. Aos quarenta anos Villa-Lobos é um ser mistificador. Alimenta as contradições de uma personalidade exaltante. O mistério persiste. Homem de sortilégios vence a morte: o médico anuncia-lhe que tem três meses de vida - ele responde chocarreiro: "Manda-me um bilhete". Durante dez anos o milagre a todos irá espantar... naturalmente que acabará por morrer de outra coisa.

Ei-lo de batuta em riste em frente das grandes orquestras europeias ou americanas. Apresenta ao mundo os Choros, as Serestas, Amazonas, a Missa de São Sebastião. É professor de composição do Conservatório Internacional de Paris e faz parte do Comité d’Honneur juntamente com Paul Dukas, Maurice Ravel, Albert Roussell, Florent Schimtt, Alfredo Casela, Manuel de Falla, Arthur Honegger, Arthur Rubinstein, entre outros.

 

"O MEU PRIMEIRO LIVRO FOI O MAPA DO BRASIL"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vila Lobos na América com duas stars de Hollywood.

 

 

Sensual, cândido e lutador Villa-Lobos é uma personalidade deveras paradoxal, não para épater ou por cálculo, mas por exuberância vital, escapando a tudo que limite e seja afectado. Bon vivant, fumador de charutos baianos, amigo infantil das crianças, a sua obra criadora, a despeito de uns e de outros, imporá a sua verdade: "Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil (...)"

Em 1930 regressa ao Brasil. Revolução em São Paulo! O democrata Júlio Prestes é governador do Estado de S. Paulo e candidato à presidência da República. Getúlio Vargas sobe ao poder. Em 37 será ele o ditador.

O plano de Educação Musical de Villa-Lobos é por todos conhecido. Dois anos de esforço para implantar o seu programa educacional nas escolas paulistas.

A sua admiração por Bach manifesta-se nas suas Bachianas Brasileiras (escritas entre 30 e 45). Aqui a sua inspiração essencialmente brasileira adapta-se às formas clássicas e à escrita contrapontista. Como escreve Lopes-Graça: "Autodidacta por rebeldia de temperamento, artista intuitivo que forja os seus próprios instrumentos de expressão, descobridor das potencialidade estéticas do folclore(...)"

Em 1932 volta para o Rio e é nomeado Superintendente de Educação Musical e Artística para o Estado do Rio. Leva a cabo uma notável obra pedagógica que dá origem em 1942 à fundação do Conservatório Nacional de Canto Orfeónico. Concentra toda a energia na criação de coros nas escolas: o meio mais económico de fazer boa música e também o pano de fundo para a obra de "construção nacional".

O seu método pedagógico permite às crianças gritar, bater palmas e bater com os pés durante os ensaios. Trabalha duramente. Cria cursos de aperfeiçoamento para professores do canto coral. Segundo as necessidades dos vários coros ele próprio harmoniza e a compõe peças corais: Canto do Pajé e canções inspiradas no folclore, organizadas no "Guia Prático".

Consegue reunir 40 000 cantores num concerto no estádio de futebol do clube Vasco da Gama. Mobiliza um verdadeiro exército de auxiliares entusiasmados. Conta Vieira Brandão: "o que a nós, seus colaboradores directos, entusiasmava, era a constatação de que o Maestro além das preocupações com o programa e com os ensaios prévios nas escolas, tinha um poder de organização fabuloso, não omitindo um só detalhe na elaboração do plano".

 

"ERA A FÚRIA ORGANIZANDO-SE EM RITMO"

Regendo orquestra.

 

Em Novembro de 1944, a convite do maestro Werner Janssen, vai pela primeira vez aos Estados Unidos. No ano seguinte a sinfónica de Boston promove um concerto só com obras suas. Estão presentes grandes nomes da música: Artur Toscanini, Claudio Arrau, Duke Ellington, Cole Porter, entre outros. Alternadamente, fará digressões a Nova Iorque e a Paris. Funda e preside à Academia de Música Brasileira. Dedicação total à paixão beethoveniana de compor para quarteto de cordas.

Em 1948 a sua saúde corre graves ricos. Tem de ir aos Estados Unidos, desta vez para se submeter a uma intervenção cirúrgica para conter um cancro na bexiga.

Em 1954 visita Israel.

No ano seguinte vai mais uma vez a Paris, dirige a Orquestra Nacional com um programa totalmente preenchido com obras suas. O crítico do jornal Le Monde, René Dumesnil escreve: "Um concerto de Villa-Lobos é sempre algo de saboroso, explosivo e poderoso (...)".

Mora agora na rua Araújo Porto Alegre, no centro da cidade.

Morre a 17 de Novembro.

O poeta Carlos Drummond de Andrade lembra comovido: "Quem o viu um dia comandando o coro de 40 000 mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber".

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