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VASCO DA GAMA

(Descobridor e guerreiro, 1468 (?) – 1524)

Fernando Correia da Silva

 

Retrato de Vasco da Gama (autor desconhecido)

PORQUE, SE EU DE RAPINAS SÓ VIVESSE...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1468 (?): Nascimento, talvez em Sines. Filho segundo do fidalgo Estêvão da Gama - 1497: A 8 de Julho parte de Lisboa comandando frota que irá descobrir o caminho marítimo para a Índia. A 18 de Novembro dobra o Cabo da Boa Esperança. - 1498: A 20 de Maio chega a Calecute e enfrenta a hostilidade do respectivo Samorim. A 5 de Outubro inicia a viagem de regresso . - 1499: Arriba a Lisboa em fins de Agosto; é recebido triunfalmente. - 1502/04: Segunda viagem à Índia. Represálias contra o Samorim de Calecute. Firma aliança com os reis de Cochim e Cananor, onde instala feitorias. Regressa a Lisboa com carga avultada de especiarias. - 1524: Terceira viagem à Índia, já com o título de conde da Vidigueira e na qualidade de Vice-rei. Tenta pôr fim a desmandos e abusos. A 25 de Dezembro morre em Cochim.

 

  CONTORNAR A ÁFRICA, CHEGAR À ÍNDIA

 

 

 

 

Primeiro é o Infante D. Henrique a mandar cabotar a costa de África até chegarem à Guiné, lucrativo é o comércio de escravos negros. Depois é D. João II a mandar descobrir passagem para os mares da Índia, mais lucrativo será o comércio de especiarias (1).

Em 1482 Diogo Cão alcança a foz do Zaire. Em 1486 reconhece a costa angolana. Em 1487 Bartolomeu Dias tenta alcançar os Mares da Índia.

Ainda em 1487 o Príncipe Perfeito envia Pero da Covilhã para o Oriente, mas por terra. O espião deverá contactar o Prestes João, nebuloso monarca da Cristandade oriental. Pero da Covilhã alcançará a Índia e depois a Abissínia. Não conseguirá obter notícias do lendário Prestes João. Mas irá remeter para Lisboa informações sobre a navegação na costa oriental da África.

Em 1488 Bartolomeu Dias dobra o Cabo das Tormentas. D. João II logo o crisma de Boa Esperança. Porém suspende as navegações, há crise no Reino. Internamente, é a luta do poder real contra os poderes senhoriais, repressão. Externamente, são os interesses da expansão portuguesa a colidir com os da espanhola, negociações. Só em 1494 é que D. João II e os Reis Católicos assinam o Tratado de Tordesilhas, partilha do Mundo. Com tal Tratado, o Príncipe Perfeito garante não só o acesso à Índia contornando a África, mas também a ocupação futura do Brasil, terra de que talvez já tenha notícia (2).

D. João II morre em 1495. Envenenado, ao que se murmura.

 

  S. GABRIEL, S. RAFAEL E BÉRRIO

 

Vasco da Gama faz-se ao mar, rumo à Índia. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

Armada de Vasco da Gama (Livro das Armadas, séc. XVI). Era composta pelos navios São Gabriel, São Rafael, Bérrio e por uma embarcação de mantimentos.

 

 

1468, data incerta, Vasco nasce talvez em Sines. Filho segundo do fidalgo Estêvão da Gama. Não tem direito a brasão, nem a título ou fortuna. Tudo isso pertence apenas ao primogénito. Tudo isso pertence apenas ao seu irmão Paulo da Gama, raiva que ruge.

Alternativa? A carreira eclesiástica! Vasco chega a ser tonsurado. Depois arrepia caminho. Talvez o cative a luta de D. João II contra os privilégios da nobreza; ou seja, dos filhos primeiros da nobreza. Opta pelo mar e pela carreira das armas. A El-rei chegam novas da sua valentia, da sua capacidade de comando, talvez até da sua ferocidade. O Príncipe Perfeito confia-lhe várias missões que leva a bom sucesso, há um demónio impiedoso a conduzi-lo.

Morre D. João II. Sucede-lhe D. Manuel I. Contra a política do antecessor, recupera os privilégios da nobreza. Convida Paulo da Gama a comandar a primeira expedição à Índia. Paulo não se sente bem, anda febril, talvez a tuberculose a consumi-lo. Declina em favor de Vasco. Gosta do irmão. Fazem-no sorrir as suas fúrias. Contudo pede o comando de uma das naus. Se Vasco se houver com perigos, estará com ele, fraternidade.

A 7 de Julho de 1497, nas Cortes de Montemor, El-rei entrega a Vasco da Gama o comando da primeira expedição à Índia.

No dia seguinte, dia de Nossa Senhora, após missa e comunhão pública em Belém, Vasco da Gama assume o comando da frota: a nau capitânia S. Gabriel, 90 tonéis (3); a S. Rafael, 90 tonéis, comandada por Paulo da Gama; a Bérrio, 50 tonéis, por Nicolau Coelho; Gonçalo Nunes comanda um velho navio de carga, 110 tonéis, a ser incendiado logo que nele se esgotem as provisões.

Vasco sabe das diligências de Paulo, junto d'El-rei, para que lhe fosse atribuído o comando da armada. Não agradece o gesto. Subiu a pulso. É justo que o segundo passe a primeiro...

 

TOMAR BARLAVENTO

 

Bartolomeu Dias acompanha a frota de Vasco da Gama. Comanda nau que se dirige para S. Jorge da Mina. Arribam às Canárias e depois a Santiago de Cabo Verde. Abastecem e reparam as naves. Largam a 3 de Agosto.

Alcançam o Golfo da Guiné, o sol, o sal, o sul. Bartolomeu saúda os companheiros com uma salva de pólvora seca, abandona a frota e ruma para a Mina. Vasco da Gama toma barlavento (2), segredo da marinharia portuguesa. Deixa que o vento o empurre para sudoeste. Depois de léguas e léguas de navegação, o vento gira, gradualmente, para sueste. As naves descrevem um grande arco de círculo no Oceano e assim retornam à costa ocidental de África, porém em latitudes bem mais ao sul.

Noventa e três dias de viagem sem terra à vista. A 7 de Novembro Vasco da Gama fundeia numa baía a que Bartolomeu Dias já dera o nome de Sta. Helena. Com o seu astrolábio de madeira o Capitão-mor faz o ponto: o Cabo da Boa Esperança ficará apenas a cerca de 30 léguas mais ao sul.

 

 O CABO TORMENTOSO

 

 

Vasco da Gama dobra o Cabo da Boa Esperança. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

O Cabo fora avistado a 18 de Novembro e logo o dia se fez noite. É deveras tormentoso, Bartolomeu tinha razão. Um temporal açoita as naves. Quatro cascas de noz ora na cava, ora na crista das ondas. A água invade os porões pelas juntas abertas sob o impacto das vagas. Marinheiros e calafates não cessam de dar às bombas.

Por duas vezes o furacão, tocado por Levante, empurra-os para trás, impede que dobrem o Cabo. Vasco da Gama decide então apontar ao sul. Na semi-obscuridade oscilam as lanternas das outras naves. Nelas, rendidos ao pavor, os tripulantes exigem o regresso à costa ocidental. Os capitães recusam e apontam: a S. Gabriel, nau capitânia, já avança para o sul. Quem se atreve a desafiar o Capitão-mor? Antes morrer afogado, que matado.

Vasco da Gama manda por fim girar a roda do leme. De oeste para leste, a armada descreve um arco de círculo e, gradualmente, vai tomando o rumo norte. O Capitão-mor grita, manda e jura: se a terra surgir por estibordo, outra vez se fará ao sul, outra vez tentará dobrar o Cabo. Três, quatro, cinco, tantas quantas as precisas. Não cede, pois não cedo, não cedo. Não sou quem fui, não quero sê-lo novamente, filho segundo, homem segundo... Antes morrer do que ceder. Não temo as trevas. Antes a morte do que vida amortecida.

Manhã de 25 de Novembro, a tempestade amaina. O gajeiro grita:

- Terra! Terra por bombordo!

Sobem todos ao convés. Ajoelham-se marinheiros, calafates, mestres, soldados e capitães. Sete dias de procela mas o Cabo foi dobrado! Entoam o Salve-Rainha, coral no fim do mundo, o sul, o sol, o sal.

 

 DA BOA GENTE AOS BONS SINAIS

 

Na costa oriental africana, logo a baía de S. Brás. Até ali chegara Bartolomeu Dias. Reparam as três naus. Redistribuem as provisões do navio de apoio pelas outras naves e lançam-lhe fogo. Fazem aguada. Oferecem barretes e guizos aos negros da região que se mostram ora hostis, ora afáveis. Ali repousam durante treze dias.

A 7 de Dezembro fazem-se ao largo. A 25 alcançam região a que dão o nome de Natal. Enfrentam nova procela, falta-lhes a água potável. Mas a 11 de Janeiro de 1498 arribam a Terra que logo chamam da Boa Gente(4), tão hospitaleiro se mostra o povo.

A 23 de Janeiro dobram a barra de um rio a que chamam dos Bons Sinais(5) pois encontram mestiços de árabes entre a população, indício de que o Oriente já está próximo. O povo toma os portugueses por turcos, recebe-os de braços abertos. Vasco da Gama não tenta desfazer o equívoco e entretanto procura por cristãos pela cidade. Não os há. Nem sequer notícias do Prestes João.

Demoram trinta e dois dias a reparar as naves, a fazer comércio, amistosas são as relações. A meio da estadia os tripulantes sofrem surto de escorbuto. Paulo da Gama, o brando, é o comandante mais querido dos marinheiros, está sempre pronto a defendê-los contra as fúrias do Capitão-mor. Trata todos os doentes com desvelo mas não consegue evitar as muitas mortes.

Chantam o padrão que viera na S. Rafael e partem a 24 de Fevereiro.

 

DA ILHA DE MOÇAMBIQUE A MOMBAÇA E MELINDE

 

 

Vasco da Gama arriba a Calecute. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

A 2 de Março arribam à Ilha de Moçambique. Veleiros muitos. Transportam ouro, prata, aljôfar, pérolas e rubis, também cravo e pimenta e gengibre. Miragens, aromas, Oriente. Todos fiéis da seita de Mafoma. Vasco da Gama procura por cristãos. Não os encontra e ninguém sabe quem seja Prestes João. Trata de iludir as diferenças de credo, cativa o sultão que os toma por turcos e lhe cede dois pilotos que hão-de levar a frota a Calecute. Mas logo o rei se desengana:

- Afinal são cristãos e concorrentes, guerra santa!

A 11 de Março os dois batéis em que seguem o Capitão-mor e Nicolau Coelho são atacados por seis barcos bem armados. Acorre Paulo da Gama, a bordo da Bérrio. O seu irmão está em perigo de vida, converte-se a brandura em firmeza. Dispara salva de bombarda, pontaria certeira e os atacantes fogem para terra. Vasco da Gama sobe a bordo da S. Gabriel. Manda bombardear a cidade, retaliação.

A 7 de Abril chegam frente ao porto de Mombaça. Temem traição, não se adentram, lançam âncoras fora da barra. Porém, entre navegantes e naturais há conversas e comércio, cordialidade, fingimentos de parte a parte. O sultão convida os portugueses a entrar no porto. O Capitão-mor nega-se, armadilha preparada, bem sabe dela... Desatenção a bordo e os dois pilotos mouros atiram-se ao mar, fogem a nado.

A 15 de Abril chegam a Melinde. O rei local já tivera notícia do ocorrido em Moçambique, canhões a cuspir fogo. Manda um emissário saudar Vasco da Gama. Relações amistosas entre mouros e cristãos, troca de presentes, olvidada a guerra santa. Nem uns, nem outros, têm nela o seu interesse. O Capitão-mor, magnânimo, liberta os mouros que aprisionara em Moçambique. O gesto cai bem entre o povo da cidade. Muito instado, o rei acaba por ceder o piloto Malemo Canaca (6) que levará a frota portuguesa a Calecute. Levantam ferro a 24 de Abril.

 

O SAMORIM DE CALECUTE

 

Pormenor de tapeçaria representando Vasco da Gama a ser recebido pelo samorim de Calecute.

 

 

 

 

 

 

 

Vasco da Gama oferece ao Samorim de Calecute as mãos que mandou cortar a súbditos seus. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

O Capitão-mor quer impressionar o piloto mouro, mostra-lhe o seu astrolábio de madeira. E Malemo Canaca mostra-lhe um instrumento no qual Vasco da Gama reconhece o "bastão de Jacob" também usado pelos navegadores portugueses. Espantam-se. O mesmo instrumento a oriente e ocidente? A milhares de milhas de distância? Um e outro ignoram que antigos sábios judeus, herdeiros da ciência árabe, foram os que ampararam os primeiros passos da marinharia portuguesa. Malemo Canaca mostra depois uma carta traçada à maneira árabe: a costa ocidental do Indostão correndo por entre uma rede de meridianos e paralelos. Vasco da Gama boquiaberto. O bom piloto mouro sorri. Gosta de atordoar o Capitão-mor da frota portuguesa.

Atravessam o Índico. Ao cair da tarde de 20 de Maio fundeiam frente a Calecute: palácios, templos, jardins e lagos artificiais. Também cabanas de colmo, muitas. São as pústulas da cidade.

Vasco da Gama manda que um degredado(7) baixe a terra para reconhecimento da cidade. E logo um mouro o interpela:

- Al diablo te doi yo, quien te trajo aqui ?

Monçaíde, o mouro, é levado a bordo. Conta das riquezas da cidade, especiarias, rubis, esmeraldas muitas.

Vasco da Gama procura cristãos. Não os encontra, mas tanto quer encontrá-los que chega a confundir um templo indiano com uma igreja de Cristo. E novas do Prestes João continua a não haver.

A 28 de Maio o Samorim recebe o Capitão-mor em audiência. Primeiro contacto, primeiras gentilezas. Vasco da Gama a engrandecer a nobreza, a riqueza e o poderio de El-rei D. Manuel I. O Samorim a ponderar uma aliança com monarca tão distante e poderoso.

Porém, no dia seguinte, com os presentes ao Samorim, esvai-se a cordialidade. Ridículas são as oferendas: chapéus, coral, açúcar, azeite e mel. O Capitão-mor na defensiva: que não é mercador, apenas embaixador. Alastra a desconfiança e o Samorim impede o regresso de Vasco da Gama à sua armada, é grande ofensa. O Capitão-mor engole em seco, segura o demónio que dentro dele está rugindo. Ilude a vigilância dos guardas, arrisca-se, mas dá fuga a um dos seus marinheiros, homem lesto. O qual alcança a praia e depois a S. Rafael. Mensagem do Capitão-mor para Paulo da Gama:

- Que não corram perigos, que levantem ferro, que tornem viagem, que vão contar a El-rei D. Manuel o que está a acontecer em Calecute...

Paulo da Gama desobedece, mais aproxima de terra os seus navios. Está pronto a livrar o seu irmão pela força das bombardas.

Mas a 31 de Maio lá permite o Samorim que Vasco da Gama se retire do palácio. E ele retira-se, chega à praia, os mouros cercam-no, querem sequestrar os portugueses. Vontade sua de empunhar a espada. Vontade sua de rasgar a todos, o demónio a debater-se, exorbita. Quem pode exorcizá-lo? Eis que surge Paulo Gama, o brando. Manda para terra fazenda para trocar por especiarias, camisas, roupa de vestir, manilhas, estanho e tudo se acalma. Mas enquanto o Capitão-mor sobe a bordo, em terra novos insultos, cristão ladrão, cristão ladrão...

A 24 de Junho o Samorim manda levar para a cidade as mercadorias dos portugueses e o mercado mostra-se mais favorável para estes. Sentem-se, porém, sitiados, intrigas dos mercadores mouros com o Samorim...

A 19 de Agosto Vasco da Gama retém a bordo seis "homens honrados" que tinham ido visitar as naus. Reféns contra reféns. A 23 de Agosto simula fazer-se à vela. Por ele, ruge o demónio:

- Cedo tornaremos e então haveis de ver quem é ladrão!

A frota paira ao largo. O Samorim chama Diogo Dias, um entre os muitos retidos em terra, e diz-lhe:

- Tu e esses outros que estão aí contigo, vai-te aos navios. E diz ao capitão que me mande os homens que lá tem.

Faz-se a troca de reféns. E a armada larga a 29 de Agosto. Inviabilizado um tratado comercial com o Samorim de Calecute. A raiva ruge mas recolhe as garras. Ainda é cedo para rasgar mas tudo tem segunda volta. Descoberto já fora o caminho marítimo para a Índia, e o futuro a Deus, e a El-rei, pertence.

 

O REGRESSO

 

 

 

 

Aportam à ilha de Angediva. Ali reparam os navios e aguardam vento que os leve de retorno. Partem a 5 de Outubro. Tocam depois em Melinde. A S. Rafael, incapaz de navegar, é queimada nuns baixos que passam a ter o seu nome. Paulo da Gama embarca na S. Gabriel, está cada vez mais doente. Dobram o Cabo da Boa Esperança e alcançam a Guiné. Daí, Nicolau Coelho, comandando a Bérrio, segue directamente para Lisboa. A S. Gabriel ruma para Cabo Verde, aporta a Santiago. Vasco da Gama entrega a nau capitânia a João Dias e freta um veleiro que o leva à ilha Terceira dos Açores. Aí se queda com o seu irmão. Renuncia à glória de ser ele a dar as novas a El-rei, só para assistir aos últimos momentos de Paulo da Gama. Este morre nos seus braços. Despeito? Talvez pranto... Afinal qual o primeiro, qual o segundo?

 

 HONRARIAS E FORTUNA

 

Vasco da Gama é recebido triunfalmente em Lisboa. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

Partiram 150 homens, regressam 55, mas glória! Para o Capitão-mor! Para El-rei! Para a Cristandade! Para a Europa que começa a alastrar-se pela Ásia, imperialismo!

Benesses reais para Vasco da Gama: doação da vila de Sines; direito a usar o título de Dom; tença de trezentos mil réis anuais, para si e para os descendentes; e tantas outras... Finalmente, em 1519, já depois de casado com D. Catarina de Ataíde (que lhe dará sete filhos), ser-lhe-á atribuído o título de Conde da Vidigueira.

 

 SEGUNDA VIAGEM

 

 

 

 

D. Vasco da Gama, "Almirante dos Mares da Arábia, Pérsia, Índia e de todo o Oriente" comanda armada de vinte velas, rumo à Índia. Partiu de Lisboa em 10 de Fevereiro de 1502. Agora já vale tudo para implantar um império comercial no Oriente. D. Vasco não teme as trevas, nada o trava. Nem o perturba o travo turvo do Tinhoso, esta guerra é justa. Mais pode quem mais quer e manda. Ausência de Paulo, não há quem sustenha as suas fúrias, demónio à solta, ferocidade.

A 12 de Junho fundeia frente a Quiloa, na costa oriental da África. O rei hostilizara Pedro Álvares Cabral (2) e D. Vasco bombardeia a cidade. Submissão e um tributo anual de 500 miticais de ouro.

Bloqueia a navegação para o Mar Vermelho. Revista todos os navios. Os que vierem de Calecute estão condenados e lá surge no horizonte a nau Meri. É despojada de toda a mercadoria. Vinte crianças são arrancadas de bordo. Serão depois educados na lei de Cristo. A nau, com os tripulantes e passageiros, homens e mulheres, todos a bordo, é bombardeada e afundada. D. Vasco da Gama! Não há quem demova aquele demónio, ninguém sabe esconjurá-lo. E continua: manda enforcar os prisioneiros mouros que tem a bordo. Manda decepar-lhes as mãos. Manda os trofeus ao Samorim de Calecute. Retaliação pelo que fizera a 40 marinheiros de Cabral (2), olho por olho, dente por dente. Exige que ele expulse os mouros da cidade. Não obtém resposta que lhe agrade. Durante dois dias e duas noites bombardeia Calecute.

Aliança com os reis de Cochim e Cananor mas impondo drásticas condições comerciais. Ali instala duas feitorias. Ali manda construir fortalezas. Ali começa o império lusitano do Oriente. Regressa ao Reino. A 10 de Novembro de 1503 entra na barra do Tejo. Carga avultada de especiarias.

 

TERCEIRA VIAGEM E MORTE

Gravura da obra "Civitates Orbis" (1572), representando a cidade de Goa.

 

A 9 de Abril de 1524, a pedido de D. João III (filho de D. Manuel) e na qualidade de Vice-rei da Índia, D. Vasco inicia uma terceira viagem ao Oriente. Objectivo: pôr fim aos desmandos e abusos em que eram useiros os fidalgotes lusitanos destacados para a Índia. Mas está cansado e velho o Vice-rei. Governa durante três meses e pára. Adoece. Já anoitece Vasco da Gama. Já teme a treva que o entreva, que o entrega. O Torto na treva trinca o travo torvo e siga a saga cega. Ó Cristo, Cristo, em Ti me fixo, crucifixo! Crocita porém o corvo, corvo, o turvo estorvo! D. Vasco da Gama morre em Cochim no dia de Natal de 1524.

O seu corpo será embarcado para o Reino, honras, cortejo fúnebre. Mais tarde, n'Os Lusíadas, Camões irá convertê-lo no grande Herói dos Lusitanos. Séculos depois, navegador e poeta, mitificado e mitificador, irão repousar lado a lado no Mosteiro dos Jerónimos, memória da descoberta do caminho marítimo para a Índia.

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(1) Vd. introdução à vida de Cristóvão Colombo. - (2) Vd. vida de Pedro Álvares Cabral. - (3) Tonel: medida de capacidade náutica. - (4) Junto à barra do Inharrime, em Moçambique. - (5) Rio Zambeze, em Moçambique. - (6) Malemo Canaca: corruptela do árabe significando "piloto-astrónomo". - (7) Vários degredados seguiam na frota para serem largados nas terras entretanto descobertas.

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