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VASCO CABRAL
Guineense, um dos líderes do PAIGC, 1926 - 2005

Fernando Correia da Silva

Vasco Cabral

A LUTA É A MINHA PRIMAVERA

QUANDO TUDO ACONTECEU...

Em 1926 VASCO CABRAL nasce em Farim, no norte da Guiné-Bissau. - 1949: Participa, activamente, na campanha de Norton de Matos, candidato da Oposição anti-salazarista à presidência da República Portuguesa. - 1950: Conclui, em Lisboa, o curso de Ciências Económicas e Financeiras. - 1953: Em Bucareste, participa no IV Festival Mundial da Juventude; é preso ao regressar a Lisboa e só é libertado cinco anos depois. - 1956:Amílcar Cabral funda, em Bissau, o PAIGC, Partido Africano pela Independência da Guiné e Cabo Verde. - 1957: Em Pidjiguiti, porto de Bissau, a tropa colonialista massacra 50 marinheiros e estivadores que reclamam aumento de salários. - 1961: Militante comunista, em Portugal Vasco Cabral passa à clandestinidade. - 1962: Numa fuga organizada pelo PCP, Vasco Cabral, juntamente com o angolano Agostinho Neto, de barco alcança Tânger. Ruma para o sul e vai procurar Amílcar Cabral para aderir ao PAIGC e lutar pela independência da Guiné-Bissau. - 1963: Início da luta armada na Guiné-Bissau. - 1973: A 20 de Janeiro, um bando de militantes do PAIGC, manipulado pela tropa colonial portuguesa, em Conakry assassina Amílcar Cabral. Vasco Cabral escapa por um triz ao atentado e não desistirá de perseguir os assassinos até conseguir a sua execução. - 1974: Em Portugal, a 25 de Abril, o MFA (Movimento das Forças Armadas) derruba o governo de Marcelo Caetano, sucessor de Salazar; no mesmo ano Portugal reconhece a independência da Guiné-Bissau, cujo primeiro presidente será Luís Cabral, irmão de Amílcar. - 1975: Portugal reconhece a independência de Cabo Verde, cujo primeiro presidente será Aristides Pereira. - 1980: Nino Vieira dá um golpe de Estado; o presidente Luís Cabral vai desterrado para Lisboa. Vasco Cabral não se opõe ao golpe. - De 1974 a 2004: Vasco Cabral, no Governo guineense, é ministro da Economia e Finanças, coordenador de Economia e Planeamento, ministro de Estado da Justiça e membro do Conselho de Estado. Será também vice-presidente da República. - 2005: A 24 de Agosto Vasco Cabral morre em Bissau.

 

FEDERAÇÃO DAS COOPERATIVAS DE PRODUÇÃO

Vila Sousa, no Largo da Graça em Lisboa, edifício onde esteve instalada a sede da Federação das Cooperativas de Produção.

 

Na Vila Sousa, no Largo da Graça, em Lisboa, um grupo de obstinados, liderados pelo Tomás de Figueiredo, funda em 1975 a Federação das Cooperativas de Produção. Achavam eles (e eu também, porque junto estava eu) que era uma grande palhaçada o que uma certa Esquerda apregoava: greve contra a fuga dos patrões para o Brasil e para Espanha. Uma inteligente chega mesmo a dizer-nos:

 

- Primeiro tomamos o poder político e só depois é que tomamos o poder económico.

- E se for ao contrário, ó camarada?

- Se for ao contrário, pode haver graves desvios da linha justa.

 

Achamos que o mais correcto seria convencer os operários a tomar conta dos meios de produção abandonados pós 25 de Abril. A ideia vinga e os trabalhadores de umas cinquenta pequenas e médias indústrias aceitam a proposta e assim nasce a Federação das Cooperativas de Produção.

 

Uma das metas da Federação é promover a compra de matérias primas e a venda de produtos manufacturados. Com a independência das ex-colónias portuguesas o mercado tende a alargar-se. Ainda em 1975 sou mandatado pela Federação para viajar até à Guiné-Bissau, já que Vasco Cabral, o Ministro da Economia da jovem nação, é meu amigo pessoal. Foi assim: em 1949 ambos participámos na campanha de Norton de Matos, candidato da Oposição anti-salazarista à presidência da República Portuguesa; em 1950 fomos colegas em Ciências Económicas e Financeiras, ele no 5.º e último ano, eu no 1.º; em 1953 participámos, em Bucareste, no IV Festival Mundial da Juventude (ele como militante comunista, eu apenas como aderente do MUD Juvenil, movimento unitário antifascista). Tanto bastou para firmar a nossa amizade. E agora passo a recordar o que vim a saber depois: Vasco é preso em 53 e libertado cinco anos depois. Em 62, numa fuga organizada pelo PCP, Vasco, juntamente com o angolano Agostinho Neto, de barco alcança Tânger. Ruma depois para o sul e vai procurar Amílcar Cabral para formalizar a sua adesão ao PAIGC e, junto com o fundador do Partido, lutar pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Cabral é pura coincidência de sobrenomes porque entre ambos não há qualquer parentesco. Em 63 começa a luta armada.

 

 

NA CIDADE DA PRAIA

Cidade da Praia, na ilha de Santiago, em Cabo Verde

 

 

 

 

Por telegrama, combino encontro com o Vasco Cabral em Cabo Verde, onde ele está transitoriamente. Desço na ilha do Sal, um longo, plano e calvo rochedo em alto mar. Dali, num pequeno bimotor sigo para a Cidade da Praia, na ilha de Santiago, esta já arqueada, cumes e vales, litoral recortado, arvoredo à beira-mar.

 

Na Alfândega, ao apresentar o meu passaporte, dizem-me que há um carro do Estado à minha espera. Sento-me ao lado do motorista. Atravessamos a Cidade da Praia e seguimos pela Marginal rumo à Prainha.

 

Paramos frente a uma vivenda e no alpendre está o Vasco Cabral à minha espera. Levanta-se e abre os braços, eu corro para ele, o grande e apertado abraço, há mais de 20 anos que a gente não se via. Em 54 eu fugira para o Brasil antes que a PIDE me deitasse a luva, o que parecia estar prestes a acontecer. Porém, sob a euforia do Vasco pressinto um alçapão. A ver vamos aonde é que ele vai dar...

 

Lá do fundo da vivenda surge então o Mário Pinto de Andrade, angolano meu amigo desde os tempos do Café Chiado, em Lisboa. Mais um longo e apertado abraço. O Mário fora um dos dirigentes da luta pela libertação de Angola. Mas depois da independência saíra do seu país por não suportar a prepotência do seu camarada Agostinho Neto e, na condição de refugiado, viera para Cabo Verde trabalhar na área da Cultura.

 

Anoitece, deito-me, durmo. No dia seguinte, de manhã, o Vasco convida-me a ir até à Cidade da Praia. Vou. Num clube local disputa umas partidas de ténis. Não tenho jeito para esse desporto e fico na bancada a assistir. Uma hora depois, já cansado, o Vasco vem sentar-se a meu lado enquanto, lá em baixo, outros pares continuam a bater bola. Evoco o IV Festival Mundial da Juventude. Sorrindo com malícia, o Vasco pergunta-me pela brasileirinha que eu andava a namorar em Bucareste. Óptimo! se ele quer brincar talvez consinta que eu abra o seu alçapão secreto... Conto-lhe que em datas diferentes eu e a brasileirinha saímos de Bucareste porém marcámos reencontro em Paris. E de Paris rumámos para Lisboa onde viemos a casar em Janeiro de 54. O Vasco espantado com esta aventura mas não paro. Digo-lhe que ela era filha de judeus polacos emigrados para o Brasil e que o seu casamento com um não judeu causara traumas na família, apesar de progressistas serem eles. Digo ainda que, de navio, seguimos depois para o Brasil (eu já a furar o cerco da PIDE...) Ao descermos no porto de Santos lá estava toda a sua família, pais, irmão, avó, tios e primos. A avó, que teria mais de oitenta anos, dá-me um beijo e um abraço e, para a neta, diz qualquer coisa que me traduzem:

 

- Quando se cai de um cavalo, que seja de raça!

 

Aproximo-me da matriarca, dou-lhe um outro beijo e relincho.

 

O Vasco mata-se a rir com a história. Aproveito a galhofa para tentar abrir o alçapão. Pergunto-lhe como é que fora assassinado o Amílcar Cabral. Apesar de renitente, conta-me que um grupo de ex-guerrilheiros do PAIGC, controlados pela tropa colonial e pela PIDE, assaltara a sede do PAIGC na Guiné-Conacry, matara o Amílcar e preparava-se para matar outros dirigentes como o Aristides Pereira, o Pedro Pires e o próprio Vasco, quando Sekê Touré, presidente da Guiné-Conacry interviera e frustara a tentativa. Pergunto depois se o bando de assassinos tinha sido caçado e justiçado. Responde-me o Vasco:

 

- Não quero falar disso.

 

E não fala, ponto final. Mas não desisto. No fim de tarde, ao regressar à vivenda na Marginal, puxo o Mário para o pátio e peço-lhe que me explique a agonia do Vasco. E ele explica ou tenta explicar:

 

- Fernando, tu não sabes o que é a luta armada. Nem podes imaginar o que é ser traído por antigos companheiros de armas, a pretexto do tu seres cabo-verdiano e eles serem guineenses.

- Compreendo, ou tento compreender. E o Vasco caçou os assassinos?

- Todos.

- Quantos eram?

- Mais ou menos cinquenta entre matadores e cúmplices. Caçou e executou ou mandou executá-los. É por isso que ele anda sorumbático, porque cada um dos executados tinha sido seu companheiro de armas, portanto tinha sido seu amigo. Compreendes?

 

Sim, compreendo. Magoado, mas compreendo...

 

No princípio da noite um carro, acompanhado por quatro motociclistas, pára frente à vivenda. É Pedro Pires, o primeiro-ministro de Cabo Verde que vem despedir-se do Vasco, o qual viaja amanhã para Bissau. Eu também viajarei amanhã, mas num voo diferente. Não quero ser intrometido e recolho-me lá para os fundos da vivenda. Porém, pouco tempo depois o Vasco vai buscar-me e apresenta-me o Pedro Pires. É uma simpatia de homem. Entre outras coisas pergunta-me:

 

- Como é que vai a Reforma Agrária portuguesa? Vinga?

 

E eu respondo:

 

- Se o folclore revolucionário for substituído por uma eficiente gestão económica, não há quem possa destruí-la...

 

 

 

EM BISSAU

Palácio do ex-governador da colónia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mercado de Bandim.

 

 

 

 

 

 

Cais de Pidjiguiti.

 

Abre-se a porta do avião e fico atordoado com a súbita fornalha húmida de Bissau, pelo menos 40 graus. Mas resisto e desço a terra.

 

Procuro e instalo-me na acolhedora residencial que o Vasco me indicou. Fica perto do palácio do antigo governador da colónia.

 

Depois procuro o Ministério da Economia. Lá está o Vasco. E, num anexo, lá está a Teresa, directora geral das Finanças. A Teresa, portuguesa e branca, é a esposa do Vasco, africano e negro. Portanto, por aqui não há racismo. Antes pelo contrário, há até muito amor, o Vasco desdobra-se em poemas como este em que um combatente se despede da bem amada:

 

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste

sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.

Por ver-te as lágrimas sangraram de verdade

sofri na alma um amargor quando choraste.

 

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!

Nem só teu amor me traz a felicidade.

Quando parti foi por amar a Humanidade.

Sim! Foi por isso que eu parti e tu ficaste!


Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste

será a dor e a tristeza de perder-me

unicamente um pesadelo que tiveste.


Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me

e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste

que eu conserve em ti a esperança de rever-me!

 

Em 1953, ainda na prisão, em Lisboa, Vasco começa a escrever poemas que reunirá, já depois da independência da Guiné-Bissau, sob o título A luta é a minha primavera. Acha que a língua portuguesa é a única que pode interpretar e traduzir os anseios das múltiplas etnias guineenses, cada qual com a sua fala própria e tentando ser a exclusiva ou a dominante. Será até ele o fundador da União Nacional de Escritores da Guiné-Bissau (assim mesmo, em português...).

 

No Ministério da Economia puxo dos meus apontamentos e o Vasco, a Teresa e eu estudamos quais as possibilidades de intercâmbio entre o Estado da Guiné-Bissau e a Federação das Cooperativas de Produção. Depois o Vasco pede que a Teresa me mostre a cidade. Descemos, eu e ela.

 

Lá em baixo há um automóvel à nossa espera. O motorista percorre alguns bairros da cidade. Acho pitoresca a agitação popular junto ao Mercado de Bandim. Depois paramos no cais de Pidjiguiti onde em 1957 a tropa colonial chacinou 50 marinheiros e estivadores que reclamavam aumento de salários. A Teresa diz-me então que há vários projectos de construção na cidade e por isso o Vasco decidiu que o mais prático seria levantar uma fábrica de tijolos. Paramos frente à fábrica e, todo lampeiro, saio do carro. Ouço uma grande gritaria lá por dentro e começam a chover tijolos sobre mim. Salto, esquivo-me, nenhum me acerta, felizmente... O motorista larga o carro e começa a gritar. Alguém, temeroso, vem da fábrica para a rua. Olha para mim com atenção e diz qualquer coisa que me traduzem: fui confundido com um militar português que, durante a guerra colonial, se divertia a molestar e torturar civis. Para não criar caso, finjo acreditar na explicação, mas realmente não acredito... Porém, 3 anos depois, na vila de Borba (em Portugal) ao entrar eu num tasco para comer e beber alguma coisa, há um bêbedo que corre para mim, de braços abertos, e a gritar:

 

- Major, ó meu Major!

- Mas qual Major, nem meio Major?

- Ó meu Major, mas já se esqueceu das diabruras que fizemos em Bissau?

 

Pronto! Afinal há por aí um fascista que tem a minha tromba. Se um dia eu morrer com um tijolada nos cornos, os meus leitores já ficam a saber o motivo...

 

No aeroporto, um beijo à Teresa e um abraço ao Vasco. Diz-me ele:

 

- Fernando, oxalá desta vez reapareças antes de passarem mais vinte anos...

 

 

MUDAM-SE OS TEMPOS...

Em Bissau, em 1980 Nino Vieira dá um golpe de Estado e Vasco Cabral não se opõe. Entretanto, o que está a acontecer no resto do Mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA .

 

Mas nem sequer voltaremos a ver-nos. Primeiro, porque a Federação foi desmantelada pela tal Esquerda que não a suportava. Segundo, porque em 1980 Nino Vieira armou um golpe de Estado que depôs Luís Cabral (irmão do Amílcar) e começou a governar a Guiné-Bissau a ferro e fogo, justamente ao contrário da fraternidade apregoada por Amílcar. E o Vasco, para meu espanto, não tugiu nem mugiu, até aceitou o cargo de Vice Presidente quando o Presidente era um ditador. Como foi isso possível? Temor de ter que voltar à execução de antigos companheiros de armas? Não sei, não sei, não entendo. Ou talvez entenda, porque li Camões:

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança.

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Uma nota final: o Vasco morre em Bissau a 24 de Agosto de 2005.

 

 

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