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TEODORO FERREIRA DE AGUIAR
Cirurgião, militar, diplomata: 1769-1827
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QUANDO TUDO ACONTECEU...
1769 –Nasce em Rio de Janeiro,
Brasil. 1785 – Estuda latim, lógica e retórica, no Rio de Janeiro. 1788
– Frequenta na Universidade de Coimbra ciências naturais (segundo uns)
ou filosofia e medicina(segundo outros). 1792 – Requisitado para
prestar serviço no Exército do Reino. Serve na Repartição de Saúde do
Exército Francês, sob o comando de Pichegru, onde conhece e cria amizade com
Leveillé, que o introduz no Hôtel-Dieu de Paris. 1793 –
Frequenta o Curso de Desault no Hôtel-Dieu. Neste mesmo ano, obteve a Carta
de Médico do Hôtel-Dieu. 1797 – Ingressa em 23 de Janeiro na
Universidade de Leyden. A 18 de Dezembro, já em Portugal, é examinado pelos
deputados da Junta do ProtoMedicato. 1799 – O Reitor da
Universidade de Leyden comunica na sessão de 27 de Fevereiro, o deferimento
do pedido de passagem de um duplicado da Carta de Curso de Teodoro Ferreira
de Aguiar, por extravio da primeira. 1802 – Nomeado por decreto
de 24 de Fevereiro, Professor Régio de Cirurgia do Hospital Militar, mas não
toma posse do lugar. 1803 – A 15 de Setembro era 1.º Cirurgião
do Hospital da Marinha. Nomeado delegado da Junta do ProtoMedicato nos
bairros da Rua Nova e Ribeira. 1805 – A 15 de Setembro é nomeado
Cirurgião Honorário da Real Câmara. É dispensado do exercício de Cirurgião
Mor da Armada, em 14 de Outubro. 1807 – Reconduzido por mais
três anos como delegado da Junta do ProtoMedicato, em 24 de Agosto. A 9 de
Novembro é publicado um Aviso confirmando as requisições de Teodoro Ferreira
de Aguiar para melhoria dos serviços dos Hospitais Militares sendo louvado o
Enfermeiro Mor do Hospital de S. José pela prontidão com que atende e manda
executar esses pedidos. 1808 – A 2 de Abril é encarregado de
ensinar Anatomia no Hospital Militar de Rio de Janeiro. 1809 –
Passa a ganhar 400$000 anuais, por ser encarregado também do ensino de
Ligaduras, Operações de Cirurgia e Partos. A 2 de Dezembro é nomeado
Cirurgião Efectivo da Real Câmara. 1810 – É vítima de intrigas
palacianas e é afastado do Serviço Real. 1811 – É feita justiça e é reconduzido no
Serviço Real e nomeado Cirurgião Mor dos Exércitos e das Armadas. 1812
– Nomeado Director
do Hospital Militar do Rio de Janeiro, continua a reger as cadeiras
universitárias, exercendo ainda as funções de Inspector do Serviço de
Vacinas. 1813 – Dá
a liberdade aos seus escravos. É agraciado com a Comenda de Nossa Senhora da
Conceição e também com o grau de Cavaleiro da Torre e Espada. Abandona o Rio
de Janeiro e ruma a Lisboa, acompanhando o Rei e dormindo na sua Câmara. 1814
– Solicita várias vezes ao
Rei a sua demissão dos cargos de Cirurgião Mor do Exército e das Armadas.
1824 – A 16 de Maio, o
Rei concede-lhe o seu pedido de demissão dos cargos de Cirurgião Mor do
Exército e das Reais Armadas, mas determina que fique unicamente encarregado
do seu Serviço Pessoal. Em Dezembro dá conhecimento ao Rei que os
interessados no Contracto do Tabaco fazem um donativo anual de dez contos de
réis para que com eles sejam pagas as despesas com a fundação das Régias
Escolas de Cirurgia de Lisboa e do Porto. 1825 – Em Fevereiro
entrega os Planos para funcionamento das Régias Escolas e a 26 de Maio envia
ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino o orçamento para
funcionamento das Escolas, com a Relação dos ordenados dos Lentes e mais
Empregados das mesmas. A 27 de Setembro efectua-se a Abertura Solene da Régia
Escola de Cirurgia de Lisboa, com a presença do Rei e das Infantas, tendo
este Ilustre Senhor concedido duas lotarias ao Hospital e manda que pelas
Obras Públicas se construa uma nova enfermaria para convalescentes. 1826
– Regressa ao Brasil. Em 11 de Setembro um decreto de D. Pedro
confirma-lhe todas as mercês que lhe tinham sido concedidas em Portugal. 1827
– Regressa a Portugal em Abril, como Encarregado de Negócios do Brasil.
A 5 de Maio suicida-se em Lisboa, depois de ter sido acusado de envenenar o
Rei. |
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AS ORIGENS |
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Nasce em Rio de Janeiro, Brasil, filho de Caetano Ferreira de Aguiar. |
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O ESTUDANTE |
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Os dados dos vários
biógrafos divergem em vários pontos. Por impossibilidade de esclarecer a
verdade, devem considerar-se as várias opções. Segundo uns, cursa em
Coimbra, Ciências Naturais e em Leyden (Holanda), a Medicina. Obteve depois a
habilitação para exercer clínica em Portugal. Segundo outros, estuda
latim, lógica e retórica no Rio de Janeiro e vem para Coimbra em cuja
Universidade se matriculou em filosofia e medicina, tomando o grau de
bacharel em filosofia; frequenta apenas os dois primeiros anos de medicina,
segundo os seus biógrafos. As pesquisas feitas no Arquivo da Universidade de
Coimbra não revelam nenhum registo do seu nome, nem de outro parecido. A não
ter estudado Medicina em Coimbra, pode pensar-se que apenas estudou no
Colégio das Artes os preparatórios, seguindo a sua aprendizagem na clínica
civil ou hospitalar dalgum cirurgião daquela cidade. Em 1792 segue o Curso de
Desault, no Hôtel- Dieu, em Paris. É provável que juntando
à pratica que tem, a instrução teórica que lhe é sugerida por Léveillé,
adquire bastante ilustração e que inscrevendo-se na Universidade de Leide a
23 de Janeiro de 1797, pudesse facilmente estar habilitado, já a 17 de
Fevereiro do mesmo ano, para receber o grau de doutor, defendendo a tese cujo
rosto diz o seguinte: «Dissertatio Medica-Chirurgica Inauguralis de
Vulneribus per Corpora Vi Pulveris Pyrii Jacta Fatis amputationem
exigentibus, de salutari effectu hujus operationis, si sine mora fuerit
facta. Quam, annuente summo numine, ex auctoritate Rectoris Magnifici Sebaldi
Fulconis Joh. Ravii, nec nom Amplissimi Senatus Academici Consensu,
Nobilissimae Facultatis Medicae Decreto, Pró Gradu Doctoratus, summisque in
Medicina Honoribus & Privilegiis in Academia Lugduno – Batava, rite
ac legitime consequendis, eruditorium examini submittit THEOD. FERREIRA
D’AGUIAR Brasiliensis Ad diem XVII. Februarii H. L. Q. S. Lucduni
Batavorum Apud Fratres Murray, |
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O MILITAR DO EXÉRCITO FRANCÊS
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Vai para França e presta
serviço no exército, no serviço de saúde. A organização dos exércitos que a
república febrilmente reúne, para fazer face aos seus múltiplos inimigos, e
nos quais havia muitos serviços a improvisar, permite que se recebam rapazes
de quinze ou pouco mais anos com elementar instrução e até sem nenhuns
conhecimentos cirúrgicos, como alunos ou cirurgiões de terceira classe,
qualquer coisa como os ajudantes de cirurgia do exercito português. Para este
fim abrem-se perante a Escola de Saúde de Paris concursos para a admissão dos
chamados Eleves de la Patrie e é nesta qualidade que Ferreira de
Aguiar pode ter sido recebido. Serve no exército
francês que invadiu a Flandres. Um jornal contemporâneo diz dele: «Foi empregado na
repartição de saúde do exército de Pechegru na Holanda e contraíu grande
amisade com mr. Léveillé. Pichegru e não Pechegru, como escreve O Português,
foi o general francês que comandou o exército do Reno e Moselle, que
invadiu a Holanda. Mr. Léveillé, era João Baptista Francisco Léveillé, que
nasceu em 1769 (no mesmo ano de Ferreira de Aguiar) em Ourover; faz os seus estudos de medicina em Paris, e
é requisitado em 1792 para ir fazer serviço no exército do Reno, voltando no
ano seguinte para seguir o curso de Desault; protegido por Léveillé, fica no
Hôtel-Dieu até 1799, quando obtém a sua carta. Vai servir no exército de
Itália, onde se liga com Scarpa e depois volta a França onde se dedica e
publica muitas obras de medicina e cirurgia. Parece portanto que foi
em 1792 ou 1793 que Ferreira de Aguiar serve debaixo das ordens de Léveillé,
embora depois da retirada deste pudesse ter ficado no exército francês. |
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O PROFESSOR
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A 2 de Abril
de 1808 foi encarregado de ensinar Anatomia no Hospital Militar do Rio de
Janeiro; a 12 de Outubro de 1809 foi-lhe elevado o ordenado anual para
400$000, com a obrigação de ensinar também Ligaduras, Operações de Cirurgia e
Partos. Regeu as suas
cadeiras até 1813, e organizou o Hospital Militar para cuja direcção fora nomeado
em 1812. Serviu também como Inspector do Serviço de Vacina. |
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A CARREIRA MÉDICA EM PORTUGAL |
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Ferreira
de Aguiar acompanha a Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA
Embarque da Corte para o Brasil |
Ilustrado com a prática
dos campos de batalha e com as lições teóricas e práticas que ouve na Holanda
e na França, embora a sua demora neste último país não tivesse sido grande,
volta Ferreira de Aguiar a Lisboa, onde a 18 de Setembro de 1797 é examinado
pelos Deputados da Junta do Proto-Medicato Manoel de Moraes Soares e Estevão
Manoel Raposo, o que lhe permite obter a carta de medicina. Em Dezembro do ano
seguinte o negociante Delprado, escreve à Universidade de Leide participando
que Aguiar perdera a sua carta na viagem e, alega a dificuldade de chegar a
correspondência a Portugal; pede a passassem de um duplicado da carta e uma
cópia, e prontifica-se a pagar toda a despesa; este pedido é satisfeito, tal
como o Reitor Minardus Simon du Prée, comunica na sessão de 27 de Fevereiro
de 1799. Volta a Lisboa e requer
para ser nomeado cirurgião mor do Hospital Militar e Professor Régio de
Cirurgia do mesmo estabelecimento, mas como o primeiro cargo já estivesse
ocupado por José Soares de Oliveira, é apenas nomeado para o segundo, pelo
decreto de 24 de Fevereiro de 1802. Não toma posse deste lugar e é nomeado
Cirurgião Mor da Armada no ano seguinte, a fazer serviço no Hospital de
Marinha, onde é primeiro cirurgião em 15 de Setembro de 1803; é então nomeado
delegado da Junta do Proto-Medicato nos bairros da Rua Nova e Ribeira, lugar
vago pelo falecimento de António José Martins Lomba, e é reconduzido por mais
três anos em 24 de Agosto de 1807. Um aviso de 9 de Novembro deste mesmo ano,
louva o Enfermeiro Mor do Hospital de S. José pela prontidão e acerto com que
satisfaz as requisições de Ferreira d'Aguiar a bem dos serviços dos Hospitais
Militares. Serve nestes e aí presta um assinalado serviço na elaboração do
Regulamento do Serviço de Saúde do Exército, de 1805. Em 3 de Agosto de 1803,
é ordenado ao físico mor Dr. José Pinto da Silva que adoptasse as medidas que
provisoriamente fossem necessárias para que nos Hospitais Militares se
melhore a assistência dos doentes e regularize a administração económica. Não
dá o comissionado satisfação do encargo e por isso torna-se urgente
regulamentar este serviço por maneira adequada às necessidades dele e aos
adiantamentos da higiene. É o que se faz dois anos depois, com a ajuda de
Ferreira de Aguiar. No Regulamento de
27 de Março de 1805, encontram-se muitas e novas disposições que representam
um progresso na higiene e assistência dos doentes. Acabavam as camas no chão,
estabelecem-se os banhos, a roupa da cama e de uso para os doentes, as
enfermarias especiais para as doenças venéreas e de sarna, quando não pode
haver hospitais exclusivamente destinados ao tratamento destas doenças,
enfermarias de convalescença, e outras de reserva para a mudança dos doentes
das enfermarias necessitadas de beneficiação e enfermarias especiais para as
doenças contagiosas, que devem situar-se tanto quanto possível afastadas das
restantes. Além disso neste Regulamento encontram-se instruções sobre
transporte de doentes e sua assistência, que são novidade ou representam uma
melhoria sobre o que até então se praticava. Quanto ao pessoal,
determina-se: «Nenhum Medico poderá aspirar ao lugar de Fysico Môr dos Exercitos,
sem que mostre ter feito attendiveis serviços Medico-Militares, e em que
tenha mostrado e dado decisivas provas de zelo, intelligencia, desinteresse e
probidade. O mesmo se entenderá a respeito do Cirurgião, que aspire ao lugar
de Cirurgião-Mór dos Exércitos». O Físico Mor é obrigado
a publicar um Tratado ou Instruções Geraes de Higiene Militar, a organizar
estatísticas de morbilidade e mortalidade e a fazer todos os anos um extracto
de todas as descobertas em medicina e cirurgia prática e a distribui-lo pelos
clínicos militares. O Regulamento é muito
minucioso quanto aos deveres dos médicos e cirurgiões do Exército (entre os
quais figurava a redacção de observações clínicas) e prevê tudo o que era
necessário para haver boa ordem no serviço e a possibilidade de uma
fiscalisação rigorosa. Estabelece que os
hospitais militares sejam «verdadeiras Escolas de Medecina Operatória»
preparando enfermeiros e cirurgiões ajudantes. São dignas de atenção
as numerosas providências ali determinadas sôbre a higiene das enfermarias. Um Aviso de 28 de
Fevereiro de 1805 dizia « … pelo
qual Fui Servido Determinar que Theodoro Ferreira de Aguiar entrasse na
efectividade de Cirurgião Mor das Minhas Reaes Armadas, o que fica sem efeito». Em 14 de Outubro de 1805
do Conde da Barca para o Visconde da Anadia, Secretário de Estado da Marinha
– «dispensa Theodoro Ferreira de Aguiar do exercício de Cirurgião Mor
da Armada, enquanto durar a inspecção para que foi nomeado». Nesse mesmo
ofício o Cirurgião Mor Bernardino António Gomes é nomeado interinamente para
prestar serviço no Hospital de Xabregas». Com a sua modéstia e
isenção, apesar de ter sido o autor deste importantíssimo projecto, o seu
nome não aparece citado, mas o paço significa-lhe o seu agrado, nomeando-o cirurgião
honorário da Real Câmara, em 15 de Setembro de 1805. Com data de 19 de
Setembro de 1807, da Administração Central dos Hospitaes Militares para
Teodoro Ferreira de Aguiar, Cirurgião Mor dos Exércitos – «Tenho a honra de remeter a V.ª Ex.ª seis
padiolas pedidas para a condução de enfermos, as quaes nos parece deverão ter
os destinos seguintes: duas para a torre de S. Julião da Barra, duas a
arbítrio do Brigadeiro D. Miguel Pereira Forjaz, e as últimas em Oeiras para
os enfermos que precisarem de semelhantes transportes para o Hospital de
Porto Salvo. Rogamos a V.ª Ex.ª haja de exigir das pessoas que se
encarregarem delas, os competentes recibos para abonação desta despeza.
Participamos a V.ª Ex.ª que no dito Hospital de Porto Salvo se achão fundas elásticas
para os enfermos que delas precisarem, e onde se deverão apresentar para
serem applicadas pelo Cirurgião do mesmo Hospital». Acompanha a família
real para o Rio de Janeiro e a 2 de Abril de 1808 é encarregado de ensinar
Anatomia no Hospital Militar daquela cidade; a 12 de Outubro de 1809 é-lhe
elevado o ordenado anual para 400$000, impondo-se-lhe a obrigação de ensinar
Ligaduras, Operações de Cirurgia e Partos. A 2 de Dezembro do
mesmo ano, é nomeado cirurgião efectivo da Real Câmara. É então vítima de
intrigas palacianas, sendo afastado do serviço real, e apenas em 1811, se faz
justiça e é novamente chamado ao exercício do paço e nomeado Cirurgião Mor
dos Exércitos e Armadas (agregado). Rege as suas cadeiras
até 1813, e organiza o Hospital Militar para cuja direcção é nomeado em 1812.
Serve também como Inspector do Serviço de Vacina. «Acompanhou a Sua Magestade em seu regresso para Lisboa, vindo na
mesma nau, e desde então foi inseparável do seu lado, dormindo até na sua
mesma câmara». Exerce então a clínica
e goza de grande reputação. Recusa o lugar de Cirurgião Mor do Reino em
Portugal com o pretexto de que a Constituição Brasileira lhe proíbe exercer
empregos em nação estrangeira, e leva mais longe ainda o seu escrúpulo e
isenção, porque entende que, como cidadão brasileiro, não pode fazer parte do
exército português, pelo que implora, a ponto de o conseguir, ser privado dos
cargos de Cirurgião Mor do Exército e da Armada, como se vê do seguinte
documento: «Atendendo á instancia com que muitas vezes Teodoro Ferreira de Aguiar
Me tem Suplicado a demissão dos empregos de Cirurgião Mór dos Meus Reais
Exercitos e Armadas, que exercia antes da minha retirada para o Rio de
Janeiro; Hei por bem Conceder-lhe a demissão dos referidos empregos, tornando-se
de nenhum efeito para este fim o Aviso de 28 de Fevereiro proximo passado,
pelo qual fui Servido Determinar que elle entrasse na efectividade de
Cirurgião Mór das Minhas Reais Armadas. Porem tendo incessantes provas do seu
prestimo, assim como do zelo, eficacia, fidelidade, e amor com que me tem
Servido no tratamento da Minha Real Pessoa, Hei outro sim por bem tomar em
toda a Minha Real Consideração tão relevantes qualidades, determinando que
elle daqui em diante fique unicamente encarregado do Meu Serviço Pessoal, em
que espero continuará a desempenhar com desvelo as obrigações que lhe são
inherentes. O Conde de Sub-Serra, do Meu Conselho de Estado, Ministro
Assistente do Despacho, Encarregado dos Negocios da Guerra, e dos da Marinha
e Ultramar, assim o tenha entendido e faça executar. Palacio da Bemposta, em
16 de Março de 1824. Com a Rubrica de Sua Magestade». Participa como perito
no exame ao cadáver do Marquez de Loulé,
Nuno José Severo de Mendonça
Rolim de Moura Barreto, em Salvaterra de Magos, o que consta do Auto
de 29 de Fevereiro de 1824, sendo então Cirurgião da Real Câmara. Os outros
peritos foram António Bartolomeu Pires (Barão de Queluz) e Joaquim António da
Fonseca. |
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O MÉDICO DO REI |
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Um Aviso de 28 de Fevereiro de 1805, diz «pelo qual Fui Servido Determinar que Theodoro Ferreira de Aguiar
entrasse na efectividade de Cirurgião Mor das Minhas Reaes Armadas, o que
fica sem efeito». Em 14 de Outubro de
1805 do Conde da Barca para o Visconde da Anadia, Secretário de Estado da
Marinha – «dispensa Theodoro Ferreira de Aguiar do exercício de
Cirurgião Mor da Armada, enquanto durar a inspecção para que foi nomeado». Com a sua modéstia e
isenção, apesar de ter sido o autor deste importantíssimo projecto, o seu
nome não aparece citado, mas o paço significa-lhe o seu agrado, nomeando-o
cirurgião honorário da Real Câmara, em 15 de Setembro de 1805. Acompanha a família
real para o Rio de Janeiro e a 2 de Abril de 1808 é encarregado de ensinar
Anatomia no Hospital Militar daquela cidade; a 12 de Outubro de 1809 é-lhe
elevado o ordenado anual para 400$000, impondo-se-lhe a obrigação de ensinar
Ligaduras, Operações de Cirurgia e Partos. A 2 de Dezembro do mesmo
ano, é nomeado cirurgião efectivo da Real Câmara. É então vítima de intrigas
palacianas, sendo afastado do serviço real, e apenas em 1811, se faz justiça
e é novamente chamado ao exercício do paço e é nomeado Cirurgião Mor dos
Exércitos e Armadas (agregado). |
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O CASO DOS CONTRATADORES DO TABACO |
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O Intendente Geral da Polícia manda prender um dos mais importantes
contratadores do tabaco que é encarcerado no Limoeiro e «incorreu na cólera
do soberano». Apesar de ser pessoa influente e ter amigos igualmente
poderosos ninguém se atreve a interceder junto do Rei e assim continua preso
muitos dias. Alguém lembra a enorme influência de Teodoro Ferreira de Aguiar
junto do Rei e pedem a sua ajuda. Este acede a interceder e, de imediato, o
«delinquente» é libertado e, além disso, é dado o monopólio do tabaco por
mais três anos, aos mesmos contratadores. Naturalmente agradecidos, os contratadores decidem oferecer uma elevada
quantia em dinheiro a este influente amigo de D. João VI. Teodoro Ferreira de
Aguiar rejeita a oferta e sugere que ela seja oferecida ao Rei para que, com
ela, se possam criar duas Escolas de Cirurgia. Mais do que isso, solicita que eles
continuem a dar esse dinheiro todos os anos, enquanto mantiverem o monopólio
do tabaco, para manutenção das duas Escolas, comprometendo-se ele a
auxiliá-los com a sua protecção. A oferta de dez contos foi aceite pelo Rei. Faz criar as ditas Régias
Escolas com esse dinheiro, conseguindo não só nada gastar com a sua criação,
como poupa anualmente a importância de 1.260:000 rs, correspondentes à
despesa habitual com as aulas, dadas anteriormente, no Hospital Real de S.
José. |
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A CRIAÇÃO DAS RÉGIAS ESCOLAS DE CIRURGIA |
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Particular amigo do
Rei, Cirurgião do Paço e Valido de D. João VI, conseguiu interceder junto
dele a favor de um contratador de tabaco que estava preso e que uma vez
libertado e reconhecido, pretende oferecer a Ferreira de Aguiar uma verba de
dez contos de réis. Recusa a oferta, e faz canalizá-la para o Rei com a
finalidade de serem instaladas as Régias Escolas de Cirurgia de Lisboa e do
Porto. Os contratadores de tabaco passam a dar uma verba anual de dez contos
de réis, como subsídio para o funcionamento das Escolas. Segundo nos diz Silva
Carvalho na sua obra «A Régia Escola de Cirurgia de Lisboa» – «Logo que isto se conseguiu Teodoro
Ferreira de Aguiar pôz mão à obra e tratou não só de traçar o plano das novas
escolas, mas de elaborar o orçamento da despeza e receita destas. O plano foi
apresentado ao ministro antes de 26 de Maio de 1825 e o orçamento foi enviado
nesta data. É o que se vê pela leitura do seguinte ofício: «Illmo e Ex.mo Sr. Ponho na presença de V. Ex.ª a
inclusa Relação dos Ordenados dos Lentes e mais empregados na Escola Regia de
Cirurgia, cujo plano já tive a honra de apresentar a V. Ex.ª, assim como do
que cada um dos alumnos deve pagar, indicando a destribuição para emolumentos
de alguns dos mesmos empregados, e para prémios dos que mais se distinguirem
e se mostrarem estudantes beneméritos. O que se deve dispender com a Escola Regia, alem de não
gravar as Rendas do Estado, de mais a mais alivia a despesa que se faz
actualmente com as Cadeiras que existem, pois são pagas pelas folhas do
Conselho da Fazenda e da Alfandega Grande, por onde se está dando
quatrocentos e oitenta mil réis ao Lente de Anatomia, outro tanto ao Lente de
Operações e trezentos mil, réis ao Lente da Arte Obstetricia. A sua Magestade
fiz sciente que ha cinco mezes os actuaes interessados no Contracto do Tabaco
fizeram o oferecimento gratuito de um donativo anual de dez contos de réis
para com eles serem pagas as despezas da dita Escola e das Cadeiras que de
novo fossem creadas, assim como das que para o futuro se estabelecessem no
Hospital da Misericordia da Cidade do Porto, revertendo deste modo para o
Erario Regio a quantia que actualmente dispende neste ramo de Instrução
Publica. Lisboa em 26 de maio de 1825». Il.mo e Ex.mo Sr. Ministro e
Secretario de Estado dos Negocios do Reino. a) Teodoro Ferreira de Aguiar».
Foram propostos vários
planos, mas o plano de Ferreira de Aguiar tinha as seguintes vantagens: 1.º – O curso era
mais curto, porque exigia menos um ano, o que importava muito, além de outras
razões, por não assustar os concorrentes e desviá-los de segui-lo, como
acontece por exemplo em Madrid, onde no primeiro ano se matricularam apenas
seis alunos. 2.º – A
distribuição das matérias era muito mais judiciosa, pela união da fisiologia
à anatomia, da matéria médica à farmácia, etc. 3.º – Por não
incluir a física e a química, que se recomendava fôssem estudadas previamente
no curso especial que se fazia na Casa da Moeda, creado em 12 de novembro de
1801 e ao tempo regido por Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque, 4.º – Por incluir
a Obstetricia. 5.º – Por obrigar
à repetição da Anatomia, que era dada em dois anos. Além disso a instrução
dada durante todo o curso dentro do Hospital, a frequência de tôdas as
enfermarias, a observação no Banco dos casos urgentes, a intensa prática de
dissecções, estabeleciam outras tantas razões de superioridade a favor do
ensino lisbonense. A única crítica que
hoje pode fazer-se com fundamento a esta organização, é a que resulta da
multiplicidade das dependências que por ele ficaram existindo, quanto à
direcção da Escola, que por um lado depende do Enfermeiro Mor do Hospital,
por outro do Cirurgião Mor do Reino, nomeado seu director. A Escola não fica
autorizada a conferir diplomas de habilitação, que continuavam a ser
assinados pelo Cirurgião Mor do Reino. A razão assenta em que
Ferreira de Aguiar não quer anular o cargo de Cirurgião Mor, que está sendo
exercido por Jacinto José Vieira; se lhe é tirada a sua função de conferir os
diplomas e, ao mesmo tempo, se lhe suprime a faculdade de examinar
cirurgiões, à moda antiga, a sua importância e os seus rendimentos ficam
anulados e criar-se um conflito grave, como o que no Rio de Janeiro se dava
entre Manuel Luís Alvares de Carvalho, o criador da Escola de Cirurgia
daquele Estado e José Correia Picanço que, ficando desapossado das suas funções
e réditos, não se contentava com a compensação que aquele lhe destinara,
oferecendo-lhe ser chanceler da nova escola. O resultado é a
oposição dos cirurgiões, não funcionarem as principais aulas, chegar a não
haver examinadores e tudo correr muito mal, nos primeiros anos. Ferreira de
Aguiar, espera que em pouco tempo, o cargo de Cirurgião Mor se extinga e
então, automaticamente, a Escola fica autónoma e soberana. Por sua intervenção, a
27 de Setembro (dia de S. Cosme e de S. Damião, patronos da Medicina e da
Cirurgia), quando leva à abertura solene da Régia Escola de Lisboa, o Rei e
as Infantas, concede este duas lotarias a favor do Hospital e ordena que,
pelas Obras Públicas, se faça uma nova enfermaria de convalescença. |
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O CARÁCTER |
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Chamo a atenção para o
desinteresse de Ferreira d'Aguiar. Este médico tem a instrução e a prática
que lhe conferem autoridade profissional incontestada, apoiada ainda no
prestigio pessoal que lhe vem do exercício do professorado no Brasil, e
também, e principalmente, do seu valimento excepcional como clínico preferido
e amigo do monarca, o que lhe permite não só aspirar, mas ter, como devidos á
coroação da sua carreira, os cargos mais eminentes da medicina. Mas não é
homem que deseje honrarias ou benesses. Tem ocasião de planear
e fazer adoptar uma reforma profunda do serviço de saúde do exército e do
ensino clínico em Lisboa e no Porto. Escolhe médicos para ocuparem os lugares
criados, mas este homem eminente, com a mais decidida modéstia e isenção, não
escolhe para si a direcção de qualquer destes serviços que, aos seus
talentos, ficam devendo o seu aperfeiçoamento e progresso. O seu nome não aparece
nos diplomas oficiais da criação da Escola e de nomeação do seu pessoal. Fica
apenas como inspector ou director oficioso dos novos estabelecimentos que com
tanto amor criara, mas na sombra, sem estipêndio algum e apenas uma vez,
quando Ferreira de Aguiar se retirou para o Brasil em 1826, se diz que
Jacinto José Vieira, substituindo-o, ficava como inspector e director das
Escolas. Vicente José de
Carvalho, um dos professores da Régia Escola de Cirurgia do Porto, diz que o
proceder honrado de Teodoro Ferreira de Aguiar se pode comparar ao de
Hipócrates quando este rejeita os presentes de Artaxerxes. E, Câmara Sinval, o
«pregador parteiro», numa ode que recita em 1850, quando na Escola do Porto
foi descerrado um retrato de Teodoro Ferreira de Aguiar, relembra o
benemérito cirurgião, dizendo: Como a Lapeyronie um
rei o ama Como Lapeyronie ele
reflete Do monarca o afecto
sobre esta arte Mais que todas humanas,
bemfazeja Que por brazão
professa. O Franco Arquiatra Descerra os cofres seus
e dota em parte A Escola de Paris e a
Monspeliense; Seus cofres fecha o
Arquiatro Lusitano, E no dom que refusa,
primoroso, Dá património inteiro à
nova Escola Que no Tejo avultou,
surgiu no Douro. A falta de ambição,
como mais tarde a de Magalhães Coutinho e Manoel Bento de Sousa, que o leva a
abandonar a clínica, é a verdadeira modéstia dos homens superiores, tão rara
entre os outros, mas que o leva, naturalmente, a desprezar honras e
proveitos, a que todos reconheciam ter direito incontestável. Na construção da
Faculdade de Medicina de Lisboa, o seu nome foi injustamente esquecido; na
profusão de decorações murais que ali há, pintadas por Veloso Salgado, não se
achou lugar para comemorar pela pintura a criação da Régia Escola de Cirurgia
de Lisboa, representada na sessão solene de 27 de Setembro de 1825, onde
haveria ocasião de prestar homenagem ao benemérito Ferreira de Aguiar, ao
rei, ao ministro e ao representante dos Enfermeiros Mores, que tão importante
papel tiveram também no ensino. Antes de abandonar o
Rio de Janeiro, dá a liberdade aos seus escravos. |
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O RECONHECIMENTO |
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Durante a estadia em
Portugal, continua sempre a servir no Paço e a exercer oficiosa, mas
efectivamente, as funções de direcção suprema das Escolas de Cirurgia. Volta para a sua pátria
pouco depois e no Aviso de 11 de Setembro de 1826 se diz que um decreto de D.
Pedro lhe confirmava todas as mercês que lhe tinham sido concedidas em
Portugal. Foi então agraciado com
a Comenda de Nossa Senhora da Conceição e depois com o grau de Cavaleiro da
Torre e Espada. Quando regressa a
Portugal vem como Encarregado de Negócios do Brasil, o que prova a alta
consideração de que goza. Ainda a 11 de Abril de
1827, quem representa o Brasil em Lisboa é o Cônsul Clemente Alvares Oliveira
Mendes e Almeida. Mas em 5 de Maio, vê-se
que um ofício relativo a uns estudantes brasileiros que frequentam a
Universidade de Coimbra é dirigido a Teodoro Ferreira de Aguiar, Encarregado
de Negócios. |
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O SUICÍDIO |
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A sua amizade com o
Rei, que é do domínio público, não evita que seja acusado, por alguns, de o
ter envenenado. Entre as várias coisas
que correm, que podemos chamar de boatos ou mexericos, diz-se que tinha
partido apressadamente para o Rio de Janeiro, com o especial encargo de obter
a sua abdicação a favor da Infanta D. Isabel Maria, que deseja a coroa e
sempre manteve atitudes de soberana. Da mesma forma
apressada regressa, e suicida-se em seguida. Esta morte, bem como a do Barão
de Alvaiázere (também médico) e a de um marinheiro, aparecem à opinião
pública como relacionadas entre si e com a morte por envenenamento de D. João
VI. Muitos asseveram que o
rei é envenenado por aplicação de veneno nas feridas que tinha nas pernas e
atribuem esse acto ao Dr. Teodoro Ferreira de Aguiar que, a breve trecho, se
suicida no Paço da Bemposta, bebendo um copo de água com uns pós brancos.
Este boato circula especialmente no Paço. Na ocasião da sua morte
está interinamente Encarregado dos Negócios do Brasil. Os jornais da época escrevem: «Na tarde do dia 5 de Maio de 1827, faleceu o Adido á Embaixada Brasileira, Theodoro Ferreira de Aguiar.
Morte triste para um
grande Homem. |