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SOUSA MENDES
Diplomata: 1885 - 1954
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1885: Filhos de Maria Angelina Ribeiro de Abranches e do juiz José de Sousa Mendes, os gémeos César e Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nascem em Cabanas de Viriato, Distrito de Viseu, Portugal. - 1907: César e Aristides licenciam-se em Direito na Universidade de Coimbra e depois seguem a carreira diplomática. - 1908: Em Portugal, el-Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro são assassinados. Aristides casa com a sua prima Angelina; o casal virá a ter 14 filhos. - 1910: Aristides é nomeado Cônsul em Demerara, Guiana Francesa. Revolução de 5 de Outubro e proclamação da República portuguesa - 1911/16: Aristides Cônsul em Zanzibar, problemas de saúde para toda a família. - 1914: Início da I Guerra Mundial. - 1916: Portugal entra na I Guerra Mundial a favor dos Aliados; batalha de Verdun, massacre do corpo expedicionário português. - 1918: Termina a I Guerra Mundial com a vitória dos Aliados (França, Reino Unido, etc.). Aristides é nomeado Cônsul em Curitiba (Brasil). - 1919: Por causa das suas convicções monárquicas, Aristides é castigado pelo governo de Sidónio Pais. - 1921/23: Aristides dirige, temporariamente, o Consulado de S. Francisco da Califórnia, cidade onde nasce o seu 10.º filho. - 1924: Aristides Cônsul em S. Luís do Maranhão (Brasil). Depois, passa a dirigir, interinamente, o Consulado de Porto Alegre (Brasil). - 1926: Aristides regressa a Lisboa para prestar serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. Em Portugal, revolução militar do 28 de Maio conduzida pelo Marechal Gomes da Costa. - 1927: A Ditadura Militar portuguesa confia em Aristides e nomeia-o Cônsul em Vigo. - 1928: Salazar, Ministro das Finanças. - 1929: Aristides é nomeado Cônsul-geral em Antuérpia (Bélgica). - 1930: Salazar, Presidente do Conselho de Ministros. - 1936: O rei belga, Leopoldo III, condecora Aristides de Sousa Mendes, decano do corpo diplomático. - 1938: Salazar nomeia Aristides de Sousa Mendes Cônsul de Portugal em Bordéus. - 1939: Salazar e Franco assinam o Pacto Ibérico. A Alemanha de Hitler invade a Polónia, início da II Guerra Mundial. Com a Presidência do Conselho, Salazar acumula a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros. - 1940: Contrariando as ordens de Salazar, Aristides de Sousa Mendes, no Consulado de Portugal em Bordéus, passa mais de 30.000 vistos a judeus e outras minorias perseguidas pelos nazis. Salazar condena Sousa Mendes a um ano de inactividade e depois aposenta-o sem qualquer vencimento. - 1945: Termina a II Guerra Mundial com a vitória dos Aliados (França, Grã-Bretanha, Estados Unidos da América, União Soviética, etc.). Aristides de Sousa Mendes dirige carta à Assembleia Nacional, reclamando (em vão) contra o castigo que lhe fora imposto pelo Governo. - 1948: Morre Angelina de Sousa Mendes. - 1954: Assistido apenas por uma sobrinha, Aristides de Sousa Mendes morre «pobre e desonrado», no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa. - 1967: Yad Vashem, autoridade estatal israelita para a recordação dos mártires e heróis do Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha com a inscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro». - 1998: A Assembleia da República e o Governo português finalmente procedem à reabilitação oficial de Aristides de Sousa Mendes. |
O RABINO KRUGER |
O rabino Kruger foge dos nazis. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Na
Polónia já estou acostumado ao anti-semitismo e não me espanta que, no
outro lado, na Alemanha, Hitler tome o poder. Pelas ruas de Berlim judeus
são perseguidos, espancados e mortos - é que nos escrevem, é que nos
dizem, é o que lemos, oi gewalt.
O meu nome é Chaim Kruger e sou rabino numa klein
statle, num pequeno povoado. “A guerra é inevitável”, prevejo,
“e em breve os nazis estarão aqui”. Não é fácil mas, com economias
feitas penosamente, com a minha mulher e as nossas seis crianças, em 1938
conseguimos escapar de Varsóvia para Bruxelas. Em
1939 os alemães invadem a Polónia e, logo a seguir, os Países Baixos.
Com a minha família, outra vez estamos em fuga. Chegamos a Paris mas logo
abalamos para sudoeste porque os alemães já estão a invadir a França.
Milhares, dezenas de milhares de refugiados, judeus e outras minorias,
pejam os caminhos; são antinazis franceses e belgas e holandeses e checos
e alemães, também algumas famílias ciganas. Uma, ou duas vezes por dia,
caças alemães mergulham em voo picado sobre as estradas e metralham os
caminhantes. Há dezenas de mortos nas bermas, todos eles ensanguentados.
Ainda ouço os gritos, choros, lamentações, oi
wais mir. Quis Deus que eu, e os meus, tenhamos escapado sempre
ilesos, graças a Deus, dank main Got. Para
fugir à hecatombe, agora a nossa esperança é chegar à fronteira,
atravessar a Espanha, entrar em Portugal e dali embarcar para América,
onde parentes nossos esperam por nós. Chegamos
a Bordéus em Maio de 1940 e a cidade está repleta de fugitivos. Procuro
o Consulado espanhol para obter o visto no passaporte da minha família
mas um funcionário diz-me que sem antes obter o visto português não
conseguirei o espanhol. Saio meio atordoado com a informação, não
entendo o que se passa. Cá fora um francês, também ele refugiado e, ao
que suponho, comunista, explica-me: -
Rabi, Franco foi ajudado pelos nazis durante a guerra civil espanhola. É
por isso que não quer no seu território fugitivos do nazismo. Só os
deixa passar se forem rumo a Portugal. Salazar, o primeiro
ministro português, está entalado. Portugal tem uma aliança antiquíssima
com a Inglaterra e um pacto recente com a Espanha. Se hoje pender para os
Aliados, será invadido pelos alemães através de Espanha. Se pender para
os alemães, a Inglaterra desembarcará tropas em Portugal. É claro que a
simpatia do fascista Salazar
vai para Hitler. Mas tem que fingir uma estrita
neutralidade para evitar a intervenção quer do Eixo, quer dos Aliados.
Por isso estou em crer que Salazar
lava as mãos e vai impedir a entrada de refugiados em
Portugal. Aliás o Dr. Mendes já me disse que tem enviado centenas de
telegramas para Lisboa, pedindo autorização para dar vistos e até agora
não obteve qualquer resposta. -
Quem é o Dr. Mendes? -
É o Cônsul de Portugal em Bordéus, Dr. Aristides de Sousa Mendes. Mendes,
Mendes... O nome bate-me nos ouvidos, reconheço-o, é marrano, é judeu.
Tenho que falar com o Dr. Mendes. Dirijo-me
ao Consulado de Portugal. O jardim e as ruas vizinhas estão repletas de
refugiados, todos a aguardar vistos para seguirem viagem, são milhares em
desespero. Identifico-me, peço para falar com o Dr. Mendes. Três horas
depois sou recebido. É um cavalheiro muito distinto, porém com feições
angustiadas. Deve estar a viver uma grande tragédia, bem posso imaginar
qual seja ela. Apresento-lhe a minha mulher e os meus filhos, conto-lhe do
nosso êxodo de Varsóvia até Bordéus. Entende o meu sofrimento porque
também ele tem muitos filhos, acho que doze. Convida-nos a pousar em sua
casa para darmos algum descanso às crianças. Aceito, agradeço e
pergunto-lhe se também ele é judeu. Sorrindo, esclarece: -
Rabi, não se iluda com o meu apelido Mendes.
Até onde eu posso rastear, a minha família, há pelo menos cinco gerações,
é de católicos fervorosos. Se, por acaso, tivemos um ancestral judeu, não
é nada que nos desmereça, mas disso não temos conhecimento. Errei
o alvo, main mazle, má sorte a
minha,... Não sei como continuar a conversa. Engasgo-me. Depois ouso
perguntar-lhe quando podemos contar com os vistos para seguir viagem para
Portugal. Acabrunhado, diz-me que nada pode garantir, ainda não tem a
necessária autorização do seu Governo. -
Então, Dr. Mendes, vamos ficar aqui em Bordéus à espera da matança? Levanta-se.
Amargurado, segura-me o braço. -
Rabi, tenha fé, nem tudo está perdido, confie na Divina Providência. |
| TENHO SEDE... | |
Sousa Mendes, diplomata português ora neste, ora naquele país. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Não
consigo dormir, viro-me para a esquerda, viro-me para a direita, ora tenho
frio, ora calor, ora me tapo, ora destapo. Vivo em Bordéus e de Lisboa
acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede,
Angelina dá-me água. Febre?
Talvez acesso da malária que apanhámos em Zanzibar, tu, eu, os nossos
filhos. Ou talvez as sezões que antes eu apanhara em Demerara, na Guiana
Francesa. Estou em crer que o paludismo já mordeu a minha alma. Tenho
pressa, tenho sede. Que horas são? Angelina dá-me água. Estou
sempre a zanzar de um lado para o outro, na cama e na vida. A diplomacia
tem destas coisas, não dá tempo para um homem assentar e deitar raiz.
Será por isso que eu torno sempre às mais profundas. Em 1908 tentaram
cortá-las, no Terreiro do Paço mataram-me el-Rei D. Carlos, também o príncipe
herdeiro. Lesa-majestade, lesa-vida... Dois anos depois o 5 de Outubro,
bandeiras republicanas são içadas, já definha a História pátria. E
agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas
são? Tenho sede, Angelina dá-me água. Não
gosto que me entalem o lençol no colchão, até parece que estou dentro
de uma camisa de forças. De mãos dadas, livres corríamos... Em Cabanas
de Viriato tenho um palácio mandado levantar pelos fidalgos meus
ancestrais, é a Casa do Passal. Dela, de manhãzinha, de mãos dadas saíamos
a correr, saltávamos de fraga em fraga. Tinhas 15 anos e eu 18.
Lembras-te ó prima, ó namorada, ó prometida? Quanto
mais prima, mais se lhe arrima, diz o povo e tem razão. A vila de
Nelas fica ali além e o rio Dão corre lá mais em baixo. É só atravessá-lo
para chegarmos a Viseu. No lado oposto, atrás de nós, a Serra da
Estrela, a soberana, domina toda a paisagem. Inocência e liberdade, nós
a correr, bem me lembro, quisera eu regressar aos tempos que já foram...
Porém, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que
horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água. Insónia.
Sinto o calor do teu corpo, vontade minha é outra vez fazer amor contigo.
Porém temo engravidar-te, catorze vezes já pariste em sangue e
sofrimento, expiação do pecado original, filha de Eva que tu és. E não
devo refrear-me porque é pecado, devo ser tal como Deus me fez. Além do
mais a nossa união foi consagrada pela Santa Madre Igreja, criai-vos e
multiplicai-vos. Se, por causa de nossos pais Adão e Eva, fomos expulsos
do Paraíso, cumpra-se então o destino que Deus nos traçou. Refrigério
para o teu martírio será aleitares mais outra criança que virá para
alegrar as nossas vidas. Contudo temo que toda esta inquietação esteja a
perder sentido. Temo que já tenhas alcançado a menopausa embora, por
vergonha, não o confesses. E se isso realmente aconteceu, o teu silêncio
converte o nosso desejo em luxúria e pecadores nos tornamos, é a radical
tentação da carne, penitência, penitência, mea
culpa, tenho a casa cheia de imagens do Senhor e da Virgem que foi a
sua Mãe. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água. Há
por aqui um mosquito que não me deixa dormir. César é o meu irmão gémeo.
Juntos, íamos tomar banho no rio Dão. Juntos, cursámos Direito na
Universidade de Coimbra. O nosso pai é juiz. Mas César e eu optámos
pela diplomacia, não pela magistratura ou advocacia. Até nas carreiras
somos gémeos. Tomámos o caminho errado? Creio que sim, somos monárquicos
e, com a implantação da República, passámos a ser descriminados. Fui Cônsul
na Guiana Francesa, 1 ano; em Zanzibar, África britânica, 7 anos. Ali
estou sempre doente, também a minha mulher e os meus filhos, paludismo.
Peço para me transferirem. No Palácio das Necessidades de Lisboa, que é
o Ministério dos Negócios Estrangeiros, finalmente atendem o meu pedido
e mandam-me para o sul do Brasil, sou nomeado Cônsul em Curitiba. Estamos
em 1919, tenho 34 anos. Só por causa das minhas convicções monárquicas
o novo Governo de Sidónio Pais, sem mais nem menos, suspende-me de funções.
Consequências: inactividade, redução brutal de vencimentos e família
cada vez maior. É o limiar da miséria, é o desespero. Na Embaixada
portuguesa no Rio de Janeiro, César é o Encarregado de Negócios,
felizmente. Movimenta-se, consegue que 34 prestigiados cidadãos
portugueses, residentes em Curitiba, subscrevam um “protesto contra uma
campanha miserável movida contra o Cônsul português por criaturas sem
vislumbre de senso moral”. A iniciativa de César dá resultado: no
final do ano suspendem a suspensão. Mas continuo sob mira e alvo não
quero ser. Tudo se agrava, de Lisboa acabo de receber más notícias,
proibições.
Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água. Não
quero travesseiro, já me basta a almofada. 4 anos mais novo do que eu, em
Santa Comba Dão, no nosso distrito de Viseu, nasceu homem que vai dar
muito que falar, estou em crer. Também ele cursou Direito na Universidade
de Coimbra mas depois optou por Economia e Finanças, não pela
Diplomacia. Em 1910, em Viseu, no Colégio do Cónego Barreiros, durante a
sua conferência sobre a “Educação da Mocidade”, ele disse: “A
vontade deve ser educada no amor a Deus e ao próximo, no amor à família,
à honra e à dignidade, ao trabalho e à verdade”. Estou de acordo.
Este moço pode vir a ser uma barreira contra a falta de escrúpulos que
submerge a nação. O seu nome? António de Oliveira Salazar.
Um dia será alçado a lugar cimeiro do país, prevejo. Mas quando é que
ele vai assumir o poder para nos salvar? Tenho pressa, tenho sede,
Angelina dá-me água. Este
cobertor felpudo é muito quente, trato de empurrá-lo para os pés da
cama. Não me deixam ficar em Curitiba, não lhes convém, a colónia
portuguesa está bem ciente da perseguição que me fizeram. Mandam-me
para Cônsul temporário em S. Francisco da Califórnia. Temporário é
equivalente a vencimento reduzido e, em dois anos, nascem mais dois filhos
meus. Outra vez o limiar da miséria, o desespero. Depois mandam-me
novamente para o Brasil. Em Agosto de 24 sou Cônsul em S. Luís do Maranhão,
no norte. E em Dezembro estou a gerir interinamente o Consulado de Porto
Alegre, no extremo sul. “Interinamente” é eufemismo de “corte nos
vencimentos”... Cansam-me estas viagens, estas deslocações sucessivas,
mas o pior de tudo é a falta de dinheiro. Além do mais, de Lisboa acabo
de receber más notícias, proibições.
Mas não cedo, não renego, a causa monárquica também é minha,
antes quebrar que torcer. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Abafado,
já a suar, vontade minha é desfazer-me do pijama, é ficar nu, mas isso
não é distinto, não fica bem a um chefe de família. Em 1926 estou
outra vez em Lisboa, presto serviço na Direcção-Geral dos Negócios
Comerciais e Consulares. A 28 de Maio ocorre o golpe do General Gomes da
Costa, é a Ditadura Militar. Para surpresa minha, em Março de 27 sou
nomeado Cônsul em Vigo, na Galiza, cargo de muito prestígio. Um amigo
meu, funcionário interno do Palácio das Necessidades, diz-me que fui
escolhido “por motivo de confiança”, pois o regime militar vê em mim
“o funcionário próprio para inutilizar os manejos conspiratórios dos
emigrados políticos contra a Ditadura”. Os militares foram gentis,
fizeram-me justiça mas estão equivocados a meu respeito: não sou um
denunciante, pedras eu não atiro, nem a primeira, nem a segunda, nem
qualquer outra. Que horas são? De Lisboa acabo de receber más notícias,
proibições. Tenho sede,
Angelina dá-me água. Sonhar,
às vezes é antecipar. Em 1928 Salazar
sobe
à ribalta, é ele o novo Ministro das Finanças da Ditadura Militar. Com
o auxílio do exército impõe novas contribuições, veta despesas públicas,
alcança o equilíbrio do orçamento, liquida a dívida flutuante e
estabiliza a moeda. Já ninguém consegue arredá-lo, ou ele ou a
bancarrota. Em 1930 acontece o óbvio: Salazar,
de Ministro das Finanças galga a Presidente do Conselho de Ministros.
Talvez possa agora restaurar a monarquia. Poderia, lá isso poderia...
Poderia mas não quer pois, sem estirpe nem coroa, quem está a
converter-se em soberano absoluto é o próprio Salazar,
metamorfoses. Ilusão, triste ilusão a minha e agora, de Lisboa, acabo de
receber más notícias, proibições.
Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água. Daqui
a pouco vou precisar do robe,
acho que o deixei aos pés da cama. Não correspondo às expectativas dos
militares mas eles continuam a prestigiar-me, não sei porquê. Em 1929
nomeiam-me Cônsul em Antuérpia, na Bélgica. Ali permaneço durante 9
anos. Com apenas 50 anos já sou o decano do corpo diplomático. O rei
belga, Leopoldo III, simpatiza muito comigo, por duas vezes me condecora.
Mas em 38 sou nomeado Cônsul em Bordéus, França. Peço para ser mantido
em Antuérpia, cidade onde fiz tantos amigos. Salazar,
para minha consternação, recusa o pedido e sigo para Bordéus. De Lisboa
acabo de receber más notícias, proibições.
Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
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VISTOS PARA A VIDA |
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| Em 1940 Sousa Mendes passa vistos a milhares e milhares de refugiados de guerra. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
É
um espanto, este Dr. Mendes. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940
avisa-me: -
Rabi, sossegue, vou passar vistos a toda gente. Nos
dias 17, 18 e 19, ele e dois dos seus filhos mais velhos trabalham sem
parar, nem sequer para almoçar ou jantar, exaustão. Passam milhares e
milhares de vistos, os refugiados já organizados em filas. Os passaportes
são colectivos, familiares. No meu constam oito nomes, o meu, o da minha
mulher e os dos meus filhos. Assim acontecendo com quase todos, calculo
que o Dr. Mendes, nesses três dias, tenha passado uns 30 mil vistos, dos
quais 10 mil a judeus, pelo menos. Não
se dá por contente. Obedecendo às instruções que recebera de Lisboa, o
Cônsul de Portugal em Bayonne recusa-se a passar vistos aos refugiados de
guerra. Porém o Dr. Mendes é seu superior. Desloca-se a Bayonne, que
fica junto da fronteira franco-espanhola, e é ele-mesmo quem, mais uma
vez, passa milhares de vistos. O
mesmo acontece com o Consulado de Portugal em Hendaye. Também aí o Dr.
Mendes passa milhares de vistos. No
dia 24 de Junho o Dr. Mendes mostra-me e traduz-me um telegrama que
acabara de receber. É chamado imediatamente a Lisboa e acusado por Salazar,
o Primeiro Ministro português, de “concessão abusiva de vistos em
passaportes de estrangeiros". Depois de 32 anos de serviço, o Dr.
Mendes vai ser demitido sem receber qualquer reforma ou indemnização, e
12 filhos tem ele para criar. Já teve 14, mas morreram 2, o segundo e o
último, se não estou em erro. Cuidar de 12 filhos é obra! Eu que o
diga, que só tenho 6 e bem sei como custa criá-los. Compadeço-me, voz
embargada, ihre mazle, má sorte
a sua. Mas é ele quem atalha, quem me anima: -
Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demónio não-judeu, também
um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus...
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SALAZAR NÃO PERDOA |
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O
meu nome é Schmil Goldberg. Mas, se quiserem, podem tratar-me por Samuel.
Sou judeu e americano. Em 1941 estou em Portugal para dar assistência a
refugiados de guerra, trabalho voluntário. Na Cozinha organizada pela
Comunidade Israelita de Lisboa tenho a oportunidade de conhecer o Dr.
Aristides de Sousa Mendes. Foi ele o diplomata, o Cônsul que, em França,
passou milhares e milhares de vistos a judeus fugidos do nazismo. Uns já
partiram para a América, outros ainda estão em Portugal. Também
prestamos auxílio ao Dr. Sousa Mendes, pois ele e a família estão muito
carenciados. Foi demitido, não recebe qualquer pensão do Governo e,
apesar de licenciado em Direito, está proibido de exercer a advocacia e
os seus filhos foram impedidos de frequentar a Universidade. O seu irmão,
que era embaixador, também foi demitido. Vê-se que Salazar
jamais
perdoará o gesto humanitário do Dr. Sousa Mendes. Num povoado do
Distrito de Viseu, o ex-Cônsul possui um palácio onde chegou a albergar
muitas famílias de refugiados, às quais, em França, passara vistos para
entrada em Portugal. Mas, para atender às necessidades da sua numerosa
família, foi obrigado a hipotecar todo o recheio. O Dr. Sousa Mendes já
não dispõe de meios financeiros para sobreviver, está condenado à miséria.
Temos o dever de auxiliá-lo e auxiliamos. Até lhe proporcionamos condições
para que alguns dos seus filhos emigrem para os Estados Unidos e Canadá.
Os que lá se estabelecerem mandarão cartas de chamada para os outros,
estou certo disso.
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RECLAMAÇÃO |
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Em
1945, terminada a guerra, desaparecem os condicionalismos políticos que
desaconselhavam a reapreciação do meu processo. Envio carta ao
Presidente da Assembleia Nacional. A mim me referindo na 3.ª pessoa,
reclamo: «Tendo-lhe sido enviadas instruções pelo ministro
dos Negócios Estrangeiros sobre vistos em passaportes, essas instruções
continham na 1ª alínea a proibição absoluta de os dar aos israelitas,
sem discriminação de nacionalidade. Tratando-se
de milhares de pessoas de religião judaica, de todos os países
invadidos, já perseguidas na Alemanha e noutros países seus forçados
aderentes, entendeu o reclamante que não devia obedecer àquela proibição
por a considerar inconstitucional em virtude do art.º 8.º n.º 3 da
Constituição, que garante liberdade e inviolabilidade de crenças, não
permitindo que ninguém seja perseguido por causa delas, nem obrigado a
responder acerca da religião que professa, medida que aliás se lhe
tornava necessária para saber a religião dos impetrantes, e assim negar
ou conceder o visto. Nestes
termos, se o reclamante não obedeceu à ordem recebida do Ministério, não
fez mais que resistir, nos termos do n.º 18 do art. 8º da Constituição,
a uma ordem que infringia manifestamente as garantias individuais, não
legalmente suspensas nessa ocasião (art.º 8.º, n.º 19). E
não se pretenda que a inviolabilidade de crenças não é, segundo a
Constituição, um direito para os estrangeiros visados, por não se
acharem residindo em Portugal, único caso em que poderiam ter os mesmos
direitos que os nacionais (do art.º 7.º) pois não se trata no caso
presente de um direito dos estrangeiros mas de um dever dos funcionários
portugueses, que nem em Portugal nem nos seus Consulados, também território
português, poderão sem quebra da Constituição interrogar seja quem for
sobre a religião professada, para negar qualquer acto da sua competência,
o que a admitir-se significaria odiosa perseguição religiosa, mormente
quando se impunha o direito de asilo que todo o país civilizado sempre
tem reconhecido e praticado em ocasiões de guerra ou calamidade pública.» Concluo: «Não alegou na resposta que deu no mesmo processo
disciplinar estas circunstâncias, pelo motivo de, lavrando a guerra na
Europa, não querer dar publicidade e relevo a uma atitude, por parte de
funcionários do Estado, que sobre ser inconstitucional poderia ser
interpretada como colaboração na obra de perseguição do governo
hitleriano contra os judeus, o que representaria uma quebra da
neutralidade adoptada pelo governo. Não
pode porém suportar a evidente injustiça com que foi tratado e conduziu
ao absurdo, a que pede seja posto rápido termo, de o reclamante ter sido
severamente punido por factos pelos quais a Administração tem sido
elogiada, em Portugal e no estrangeiro, manifestamente por engano, pois os
encómios cabem ao país e à sua população cujos sentimentos altruístas
e humanitários tiveram larga aplicação e retumbância universal,
justamente devido à desobediência do reclamante. Em
resumo, a atitude do Governo Português foi inconstitucional, antineutral
e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente
“contra a Nação”. Pede
deferimento (a) – Aristides de Sousa Mendes
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| HOSPITAL DA ORDEM TERCEIRA | |
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Lisboa,
3 de Abril de 1954. Estou no Hospital da Ordem Terceira, na Rua Serpa
Pinto. Abro a mala, retiro o lenço, enxugo os olhos. O meu tio, Dr.
Aristides de Sousa Mendes, acaba de falecer, trombose cerebral agravada
por pneumonia. A sua esposa, a minha tia Angelina, morreu em 1948 com uma
hemorragia cerebral e ficou vários meses em coma, coitada. Todos os seus
filhos, meus primos, vivem hoje nos Estados Unidos e no Canadá,
conseguiram escapar a tempo deste purgatório... Sou eu a única familiar
presente. O meu tio era um homem bom, sempre a pensar no bem dos outros.
É por isso que morre pobre e desonrado.
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| MEMÓRIA | |
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1.
Em 1967, em Nova Iorque, a Yad Vashem, organização israelita para a recordação dos mártires
e heróis do Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua
mais alta distinção: uma medalha comemorativa com a inscrição do
Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro».
A Censura salazarista impede que a imprensa portuguesa noticie o
acontecimento. 2. Encorajada com a homenagem de Israel, Joana Sousa
Mendes, filha de Aristides, em 1969 escreve ao Presidente Américo Tomás
a pedir a reabilitação da memória do seu pai. Não obtém qualquer
resposta. 3. Em Portugal, o “caso” Sousa Mendes só vem a público
em 1976 com um artigo de António Colaço no Diário
Popular. Tema retomado em 1979 por António Carvalho num outro artigo
em A Capital. 4. Ainda em 1979 o Presidente Mário Soares concede,
a título póstumo, a Ordem da Liberdade a Aristides de Sousa Mendes. 5. Em 1988, depois de muitas resistências do
Antigamente infiltrado no Abril, a Assembleia da República e o Governo
português, pressionados pelos filhos de Sousa Mendes e pelos americanos
(entre estes o congressista Tony Coelho), finalmente procedem à reabilitação
do Cônsul. 6.
Após a morte de
Aristides foram executadas as hipotecas do recheio da Casa do Passal.
Esta ficou ao abandono e os vizinhos passaram a usá-la como galinheiro,
pocilga e curral. As novas autoridades portuguesas, as democráticas,
estimularam uma fundação a recuperá-la para hotel ou museu. Projecto
congelado: a Casa do Passal continua a desfazer-se, é hoje uma cariada
cabana de Viriato. Com o seu desaparecimento, ainda há quem tenha a
esperança que também desapareça a memória de Aristides Sousa Mendes
– será esse um consolo do Antigamente...
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