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SOARES DOS REIS

(Escultor, 1847 - 1889)

 

Cristina Vaz

Retrato de Soares dos Reis: Óleo sobre tela de Marques de Oliveira, fotografia de José Pessoa (Arquivo Nacional de Fotografia - INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS)

MÁ SORTE SER "DESTERRADO"...

QUANDO TUDO ACONTECEU

 

1847: Nasce na freguesia de Mafamude, Vila Nova de Gaia - 1861: É admitido na Academia de Belas Artes do Porto - 1866: Conclui o curso - 1867: Vai para Paris como pensionista - 1870: Regressa ao Porto - 1871: Vai para Roma; executa "O Desterrado" -1872: Regressa ao Porto. É nomeado académico de Mérito da Academia do Porto - 1873:atelier no Porto - 1875: É nomeado Académico de Mérito pela Academia de Belas Artes de Lisboa - 1878: Menção honrosa na Exposição Universal de Paris - 1880: É admitido como professor na Academia de Belas Artes do Porto - 1879 : Organiza a criação do Centro Artístico Portuense; colabora como repórter artístico na revista "Ocidente"- 1881: É-lhe atribuído o 1º Prémio Exposição de Madrid ; é agraciado com o Grau de Cavaleiro da Ordem de Carlos III - 1885: Casa com Amélia Macedo - 1887: Abandona o Centro Artístico Portuense; executa a estátua de Afonso Henriques - Guimarães - 1889: Suicida-se no seu atelier em Vila Nova de Gaia.

 

DA VENDA À ESCOLA OU A BOA SORTE DE TER UM VIZINHO

 

 

O garoto António Manuel, com um canivete, faz bonecos de madeira. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

Gaia, 1847. Nas margens do Douro os rabelos movimentam-se. Afinal tudo gira à volta do Vinho do Porto. A parte mais alta continua na sua ruralidade. O Porto ainda está separado pelo rio, a ponte pênsil recentemente construída cobra portagens, o que nem a todos é acessível.

Lá no alto, em Mafamude, Manuel Soares continua no seu trabalho. Os clientes querem ser atendidos. Em casa, a sua mulher, Rita do Nascimento, está prestes a dar à luz. Nasce um rapaz, alguém para ficar à frente da venda. Para as raparigas basta o casamento. É preciso arranjar-lhe um aliado que o proteja no negócio - Santo António será o seu padrinho. Os nomes , como é tradição, são os do pai e do padrinho: ANTÓNIO MANUEL SOARES DOS REIS.

Manuel Soares sustenta a família com a sua venda. Não faltam clientes junto dos quais tem fama de honesto, ou não fosse ele tesoureiro da confraria. O rapaz lá vai sendo ensinado - o estágio de marçano cedo começa a ser feito. Mas António vai divagando por outros horizontes. O papel de embrulho serve para desenhos, o que o rodeia serve de modelo - os clientes vão-se habituando, alguns brincam com a distracção do rapaz.

Por vezes não chega o desenho, vem também a forma. Com um canivete e madeira se fazem pequenos bonecos - brinquedos de criança. A Fábrica de louça da Torrinha fica perto, há sempre um bocado de barro que sobra. António molda, dá forma, coloca as suas pequenas obras a cozer ao sol, no quintal da sua casa.

Diogo de Macedo, o vizinho, repara no rapaz, admira-lhe o jeito - melhor será ouvir outra opinião. Ninguém melhor que Francisco de Resende, o seu amigo. Sempre é um professor das Belas Artes...

Não houve enganos, o miúdo promete... Não para marçano, diga-se. Falta agora convencer o pai. Diogo de Macedo é homem conceituado, um benfeitor da terra a quem todos respeitam, tem outros conhecimentos e apoios. Manuel Soares há de ouvir os seus conselhos, porém hesita. O negócio não é grande mas sempre tem futuro garantido. Artista? Dinheiro para estudos é coisa mal empregue... Que o rapaz anda sempre distraído com os seus bonecos, é bem verdade. Até o mestre escola lhe tinha reconhecido o jeito no dia em que, à socapa, lhe fez o retrato. Pois que vá. Sempre se vê no que vai dar...

 

DO PORTO A PARIS OU A MÁ SORTE DE UM REGRESSO
Soares dos Reis é bolseiro em Paris. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Desterrado: Mármore de Soares dos Reis, fotografia de Carlos Monteiro (Arquivo Nacional de Fotografia - INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS)

 

António é admitido na Academia de Belas Artes. Tem catorze anos. É preciso aproveitar a oportunidade. Aplica-se sinceramente, afinal pode fazer aquilo de que gosta. Os Mestres apreciam o aluno. Pode ir longe este rapaz, vale a pena o investimento.

As origens ainda o marcam, chamam-lhe "Caniço", a alcunha do seu pai. Assina os seus trabalhos como António Soares. Ao fim de cinco anos o curso é concluído. Executa como prova uma estátua - Viriato. Recebe o 1º prémio em escultura, arquitectura e pintura. Bom curriculum para quem quer continuar. No ano seguinte candidata-se a bolseiro. Objectivo: frequentar a Escola Imperial e Especial de Belas Artes de Paris.

Esta continua a ser o maior centro da Europa. Os movimentos artísticos oscilam entre várias correntes, prenúncios do impressionismo. Também a agitação política é grande, os movimentos operários já fervem. Há também o litígio com a Prússia.

Soares dos Reis tem 20 anos. Precisa aproveitar a estadia em Paris. Frequenta os ateliers de Ivon e de Jouffroy. Tem aulas na Academia. No resto do tempo vai visitando a cidade. Faz desenhos. Observa. A melhor forma de aprender é o "saber ver". Por várias vezes obtém com os seus trabalhos o 1º lugar. Aqui já não lhe chamam "Caniço" mas "voleur de prix".

Do trabalho que faz vai dando noticias para o Porto, quer mostrar que o dinheiro da pensão é justificado. Além do mais nunca foi homem de se perder nos devaneios do meio artístico parisiense. Sempre preferiu os passeios solitários. O "spleen de Paris " de Baudelaire talvez lhe faça lembrar o Porto, nostalgia, a saudade portuguesa a amarfanhá-lo.

Rebenta a guerra franco-prussiana, Paris é cercada. A instabilidade não agrada a Soares dos Reis. Por acaso um desenho vai-lhe permitir o regresso a casa. Ao fazer um esboço de uma porta de St. Esprit em Bayonne é confundido com um espião. É preso por algumas horas, equívocos para quem está sempre a observar com minúcia. Os amigos esclarecem as dúvidas. É tempo de regressar ao Porto. Será breve a estadia.

Soares dos Reis pretende aprender mais. Os mestres continuam a ser os clássicos. É preciso observá-los, conhecê-los. Roma é a próxima etapa. Os professores da Academia estão de acordo. Propõem-no para bolseiro em Roma. Receberá 50 mil reis por mês.

Em Roma estuda atentamente os clássicos. Tira apontamentos. Entretanto deverá executar uma estátua, desta vez em mármore. Continua a ser preciso justificar a pensão que recebe.

Mais uma vez complicações. O Governo não entende a razão da demora. Além do mais é sempre difícil justificar o dinheiro aplicado em artes. Em Março de 1872 a pensão é suspensa. São-lhe enviados 60 mil reis que se destinam ao regresso a Portugal. Soares dos Reis não se intimida. A sua obra está iniciada. O modelo já foi feito. O mármore de Carrara já começou a ser trabalhado. É preciso que o entendam. Não pode regressar agora. O Embaixador Marquês de Tomar toma conhecimento do assunto. Decide investigar conforme lhe pedira o Conde de Samodães, Inspector da Academia Portuense. A resposta irá por carta:

(...) Em tais circunstâncias proponho a V. Ex.ª, convencido da inteira justiça da pretensão, que se lhe mande pagar a pensão dos quatro meses de Março a Junho. Em Portugal julga-se que uma obra como aquela em que está mostrando o seu talento o artista de que se trata, se pode concluir com perfeição em alguns meses; aqui os melhores artistas não poderão concluir a Estátua em menos de dois anos.

Seja esta ainda mais uma razão para convencer V. Ex.ª da justiça da minha proposta.

As pensões atrasadas são pagas. Os retoques finais serão dados em Portugal. O modelo feito em gesso é oferecido por Soares dos Reis ao Instituto de Santo António em Roma. Gratidão pela hospedagem.

O Desterrado é enviado para o Porto. Soares dos Reis passa ainda por França e Inglaterra. Os Museus de Londres agradam-lhe. Depois o regresso. Não voltará a Itália, apesar de o desejar.

O Porto é agora o seu centro. Arranja o primeiro atelier na Rua de Malmerendas. É preciso trabalhar. Ocupa-se com obras para amigos. Entre elas está o pedido que lhe havia feito o Padre da sua freguesia quando partiu para Itália: uma imagem para a Igreja de S. Cristóvão de Mafamude. Executa um Cristo em madeira. Obra perfeita. Dirão muitos: até tinha as Santíssimas partes... Um pano de cetim há-de acautelar o pudor.

Cristo Morto: Gesso de Soares dos Reis, fotografia de Carlos Monteiro (Arquivo Nacional de Fotografia - INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS)

Depois virão as encomendas. Bustos em mármore, relevos, a Sr.ª da Vitória, em madeira. A Academia reconhece-lhe o mérito. Soares dos Reis procura novos caminhos. A escultura deverá ser "natural". São influências da Academia de Paris. O busto do seu amigo Almeida Ribeiro serve-lhe de ensaio. São novas tendência que surgem. Nem todos irão compreender as mudanças.

 

DE UM BREVE SONHO REAL OU A MENTALIDADE PEQUENINA
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Soares dos Reis expõe a Flor Agreste no Palácio de Cristal. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

O Porto é uma cidade activa, de trabalho. É uma tradição somada às influências da industrialização que atingiu toda a Europa. O comboio já chega ao Porto pela Ponte D. Maria I, a cidade está mais próxima da capital, tudo está agora mais próximo. A burguesia portuense tem dinheiro. Precisa também do lazer, como se faz na Capital. Organizam-se agremiações onde convivem os mesmos interesses: Associação Industrial Portuense, Associação Comercial, Clube Portuense, Assembleia Portuense. E as artes? Há que fazer qualquer coisa, agitar a cidade, levar ao conhecimento de todos aquilo que se faz.

Em 1879 um grupo de artistas pensa na ideia. Entre eles Soares dos Reis. O Porto há-de ter algo que dignifique a cultura, onde se discutam ideias, se conjuguem interesses. Em 1880 é criado o Centro Artístico Portuense. Os objectivos são grandes - o primeiro será a divulgação e o desenvolvimento das Belas Artes. Como receita têm-se as quotas, depois há-de vir o resto. A biblioteca, as aulas, exposições e até uma revista - "A Arte Portuguesa".

No mesmo ano Soares dos Reis é admitido como professor na Academia de Belas Artes do Porto. Há quem diga que prefere ensinar os alunos que frequentam o Centro. Aqui não existem as regras da Academia e os alunos não pretendem ser grandes artistas; na verdade, durante o dia não são mais do que funcionários, empregados, ou comerciantes. Gostam apenas das artes. Entre eles está Adriano Ramos Pinto, o comerciante de vinhos que há-de mostrar influências do Centro nos rótulos das garrafas e nos cartazes publicitários.

Se na Academia não gostam de inovações, aqui nada impede que se façam.

1881. O Conselho Técnico do Centro quer um sistema de ensino diferente, "a emancipação completa de todos processos de trabalho puramente mecânicos", (...) "a condenação do usa da régua e do compasso no desenho elementar". Primeiro ensina-se o aluno a saber ver o que observa.

Contrata-se um modelo feminino, ousadia. Alguém vem dizer cá para fora:

"Aquilo é uma pouca vergonha, um pretexto para se fecharem com mulheres nuas!"

As mentalidades não estão ainda preparadas. A modelo é despedida. Tempos virão para um outro entendimento; e, na verdade, o modelo masculino sempre é mais barato - 200 reis por sessão. Quando não há modelo, pois observe-se o que nos rodeia. Os arredores do Porto são percorridos pelos alunos. Dezenas de desenhos são feitos. É preciso divulgar o que é feito. Realiza-se a 1ª exposição do Centro. O Palácio de Cristal é o lugar escolhido.

Soares dos Reis dá a sua colaboração. Oferecera o seu conhecimento, os seus livros, agora uma obra sua. A Flor Agreste é exposta pela 1ª vez. A melhor peça dirão muitos. Nuno Carvalho, o coleccionador, paga o preço pedido - 250 mil reis. No ano seguinte há-de ser exposta de novo.

A importância do Centro é reconhecida. A Colegiada de Sr.ª de Oliveira, Guimarães, pede a intervenção da comissão formada por Soares dos Reis, Tomás Soller, Marques de Oliveira e Martins Sarmento. Quer-se fazer um levantamento das obras de restauro da Capela dos fundadores. O trabalho é apreciado. Hão-de ser chamados mais vezes.

Soares dos Reis não pode viver do Centro, e é dos que mais lhe dá. Nunca foi um homem constante. Há muitas coisas que quer fazer. Além do mais muitos outros já se desinteressaram. Ficará enquanto acreditar que vale a pena. Em 1887 irá abandoná-lo. Dois anos mais tarde já não posarão modelos no Centro.

 

DAS INTRIGAS NO MEIO OU O DESTERRO DE UM ARTISTA

 

 

 

Filha dos Condes de Almedina: Mármore de Soares dos Reis, fotografia de Carlos Monteiro (Arquivo Nacional de Fotografia - INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS)

 

 

 

D. Afonso Henriques: Bronze de Soares dos Reis, fotografia de Carlos Monteiro (Arquivo Nacional de Fotografia - INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS)

 

1881. O Desterrado é enviado para a Exposição de Madrid. O sucesso é grande. Honra de 1º prémio e direito a ser agraciado com o Grau de Cavaleiro da ordem de Carlos III. Será o próprio Rei Afonso XII a condecorá-lo. Depois virão as invejas. Alguém declara a um jornal que tal obra não é do artista. É preciso repor a verdade. O Marques de Tomar estava em Roma aquando da execução da obra. Novamente são prestados esclarecimentos ao Conde de Samodães:

"Visto que se trata de desafrontar um artista de mérito , não tenho a menor dúvida em afirmar que António Soares dos Reis, depois dos extraordinários acontecimentos em França partiu para Roma e que desde a sua chegada à cidade eterna trabalhou sem cessar em uma estátua de mármore "O Desterrado" sendo a mesma reputada por todos os que a viram obra de grande mérito"

A calúnia é desfeita. Mas há inimigos que ficam. Soares dos Reis nunca perdoará. Muitas serão as vezes que se sentirá ofendido.

Chegou agora a vez de prestar provas para Professor de Escultura da Academia. Executa em gesso Narciso. O lugar é seu, o que lhe permite uma certa estabilidade económica.

No mesmo ano executa em mármore a estátua da filha dos Condes de Almedina. Também esta obra irá provocar desacatos. Ao ser observada por umas senhoras, admiram-lhe as rendas, as meias, exclamando: Que habilidoso o Sr. Soares! O mestre não resiste, chama-lhes burras. Vale-lhe um amigo para o afastar da discussão. Da fama de feitio difícil já não é fácil livrar-se.

As encomendas sucedem-se. O mérito de Soares dos Reis é reconhecido. O naturalismo nem sempre agrada aos modelos, especialmente quando são eles que pagam o trabalho. Gostam de se mostrar como figuras imponentes, fortes, com as almas escondidas, e Soares dos Reis gosta de mostrar o que vê "dentro" de cada um.

Soares dos Reis tem momentos de desalento. Custa sempre ser incompreendido. Será doença ou solidão?. Talvez um casamento ajude. A neta do seu protector Diogo de Macedo sempre o teve em grande conta. Além do mais, o próprio avô apoia o casamento. Que importa a diferenças de idades? O casamento com Amélia Aguiar de Macedo realiza-se em Julho de 1885. Irá durar 4 anos, até que a morte os separe.

Soares dos Reis sente-se agora melhor. O convite que recebera para a estátua de D. Afonso Henriques é agora uma realidade. Um grande desafio para quem quer fazer inovações. O rei deverá mostrar sua força. Os músculos. Não é fácil para quem veste armadura. A solução é descoberta. Os braços estarão descobertos, usará uma malha de ferro, de manga curta. A obra é apreciada. Sempre teve melhor sorte do que com imagem da Virgem que fizera anos antes para Guimarães e que não foi apreciada, por a acharem demasiado profana.

 

DOS ANOS DE INFORTÚNIO OU UM DESEJO DE PARTIR
 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apontam Soares dos Reis como sendo "o maluquinho". Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

O casamento não foi suficiente para pôr termo à doença. Há quem diga que não há curas para os males da alma. Soares dos Reis é um "desterrado" no seu país.

Concorre à execução de duas estátuas, Aveiro e Lisboa, mas não vence o Concurso.

O projecto de reforma do curso de escultura que apresenta na Academia é recusado. É difícil romper com as tradições. Isola-se. Os longos passeios que dá por Gaia e Porto, sem reparar em quem consigo de cruza, são já um auto-isolamento. Passa por mal-educado. A ajuda que presta a jovens artistas, aliada aos projectos em que se envolve, não lhe facilitam o lado económico.

O casamento não corre pelo melhor: é o nascimento dos filhos, é a diferença de idades, são os interesses divergentes. Tudo serve para gerar discussões. Para cúmulo, e uma vez mais, as más-línguas, as intrigas, os falsos testemunhos dos que vêem pessoa com uma vida diferente.

Soares dos Reis chega a estar internado numa clinica de Lisboa. As melhoras serão por pouco tempo.

Trabalha agora no busto da Inglesa, Mrs. Elisa Leech . O realismo dado ao rosto não satisfaz a cliente. A obra é paga mas não reclamada. Só um pequeno circulo de amigos parece compreendê-lo. São poucos. Não chegam para acalmar quem tão mal se sente.

Os melhores momentos passa-os Soares do Reis passeando nas praias de Gaia, ou brincando com as crianças que vê na rua. Estas ainda não lhe fazem traições. No meio em que vive nem sempre é fácil aceitar estas excentricidades dum homem que já vai nos quarenta. Há sempre quem lhe chame "o maluquinho". Outros, perdoam-lhe as brincadeiras, como naquela noite em que decidiu lançar "um estrela" no céu, ficando a população a crer que se tratava de algum fenómeno estranho.

Soares dos Reis está agora no seu atelier, em Gaia. A sua casa é no mesmo edifício. Trabalha no busto de Fontes Pereira de Melo, mais uma encomenda da Associação Comercial do Porto. Mas não se sente feliz. Decide escrever na parede:

"SOU CRISTÃO, PORÉM NESTAS CONDIÇÕES A VIDA PARA MIM É INSUPORTÁVEL. PEÇO PERDÃO A QUEM OFENDI INJUSTAMENTE, MAS NÃO PERDOO A QUEM ME FEZ MAL"

SOARES DOS REIS

 

NECROLOGIA

 

 

 

 

 

Porto, 16 - Suicidou-se hoje às 08h00 da manhã, na sua casa da Rua de Luís de Camões, em Vila Nova de Gaia, disparando dois tiros de revolver na cabeça, o eminente estatuário Soares dos Reis, lente de escultura na Academia de Belas Artes e autor de verdadeiras obras primas. (...) São desconhecidas as causas que determinaram o suicídio.

(In "Diário de Noticias " de 17 Fev. 1889)

 

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