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SIMÓN BOLÍVAR
Libertador: 1783 - 1830
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1783: Nasce em Caracas. - 1794: Samuel Robinson transmite a Simón Bolívar os ideais libertários da Revolução Francesa. - 1800: Vai para Madrid. - 1804: Vai para Paris. - 1805: No Monte Aventino jura libertar a América do Sul do domínio espanhol. - 1810: Com Miranda, participa na Junta do Governo que proclama a independência da Venezuela. - 1813: Entra em Caracas, é proclamado «Libertador». - 1815: Publica a Carta a um Cavalheiro da Jamaica. - 1817: Toma Angostura. - 1819: O Exército da Libertação atravessa os Andes. - 1821: Proclamação da Grã-Colômbia. - 1822: Entra em Quito; grande paixão por Manuela Saenz; encontra-se com S. Martin. - 1824: Derrota dos espanhóis em Junin. - 1825: Constituição da República de Bolívar (Bolívia). - 1826: Bolívar convoca o Congresso do Panamá. - 1830: Sucre é assassinado em Quito; Bolívar morre, tuberculoso, em Santa Marta.
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| Memórias apócrifas de Simón Bolívar INFÂNCIA |
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Folheio a minha papelada, tudo sepultado há tanto tempo. A minha Mãe,
o sorriso, a indulgência. As primas Aristiguietas, a minha primeira farda, Espanha, Paris, o amado e odiado Bonaparte, Roma, Miranda, a travessia dos Andes, o sonho da Grã-Colômbia,
San Martin, Sucre, a conferência do Panamá, Manuela feminina e guerreira. Tudo se foi, lavrei o mar, sou quase um velho, estou no fim. Valeu a pena? Caracas, Maria Antonia, Juana Maria, saias-balão, minhas irmãs a
voltear, não param de rir com as minhas diabruras. Simoncito! diz a minha Mãe, nunca mais tomas juízo,
não sejas tão rebelde, vais sofrer muito na vida... Não me lembro é do Pai, tinha eu três anos quando morreu. O luto, isso lembro. As pretas a carpir, velas acesas, as meninas a
chorar. A Mãe a partir para a herdade, nunca mais há-de voltar, fica maior e apagado o nosso palacete. Juan Vicente, o meu irmão mais velho, alto, silencioso, sempre atrás de mim,
adoração. Pensa que sou um santo a saltar do andor. D. Miguel Sanz é que não pára de esbravejar, Simoncito, tu és pólvora. Então,
Mestre, fuja que eu vou explodir! Professores, muitos, corrupio, ninguém me atura. D. Carlos Palacios,
meu tio e tutor, descobre um outro, Samuel Robinson, que me obriga a dispensar os meus escravos, ninguém é dono de ninguém, cada qual dono de si. E eu? Para que preciso eu de um mestre? Não sou escravo de ninguém, aprendo sozinho, sou dono de mim. Ri-se. Dá-me a ler o Emílio
do Rousseau. Na herdade ensina-me a cavalgar. E a nadar, nus, ele e eu. É mal visto por todos. Vagabundeara pela Europa. Casara com uma índia. Em vez de baptizar as filhas, dera nomes
de flores às meninas. Não sei como o tio se decidiu a contratá-lo. Amarinha à copa de um ipê. Segura-se a um ramo com as pernas, abre os braços, Simoncito,
a Liberdade é o estado natural do Homem, nem escravos nem senhores, todos livres como pássaros! Livre? Sou livre, por acaso ? Sou mas é um crioulo.
De boa linhagem, sangue branco, mas crioulo desprezado pela Corte. Sangue honesto de moleiro, diz
Robinson. Mestre, sois louco? Sangue dos nobres de Espanha! E a mó que está no escudo dos Bolívares? Como explicas? Moleiro, Simoncito, é sangue
de moleiro... Fúria, quero matá-lo. Agarra-me os braços. Arrasta-me pela ruas de Caracas. Leva-me ao Arquivo. Folheia catrapázios e poeiras. Lá está a prova: o meu ancestral, o
primeiro que veio de Espanha, era realmente um moleiro. Não contenho as lágrimas, vergonha, labéu. Dá-me uma palmada nas costas, anima-te
rapaz, é o melhor dos sangues! Tudo fez com o próprio esforço, não precisou de escravos. Mestre, libertemo-nos de Espanha, odeio os espanhóis! Ai odeias? Diz-me lá, Simoncito: e a quem odiarão os pobres índios?
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EUROPA, CASAMENTO E MORTE |
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Milícia, eu garboso, farda vermelha, as donzelas
fascinadas. As primas Aristiguietas, uma delas a provocar-me, lábios ardentes, Simoncito quando casamos? De Madrid, meu tio Esteban Palacios
manda chamar-me. Escapo ao matrimónio prematuro. Aos dezassete anos desembarco em Espanha. O caraquenho D. Manuel de Mallo é, por agora, o favorito da rainha.
Mulheres, festas galantes, despiques, ameaças de duelo, fausto, embriaguez. Venço Fernando, o príncipe herdeiro, em luta de lanceiros. Aprendi com Samuel Robinson os golpes índios,
não há quem possa derrotar-nos. Desarmo o Infante, deito ao chão o seu chapéu, gargalhadas na sala d'armas. Vai queixar-se à mãe. Ela fita-me da cabeça aos pés, devora-me, é
apenas um jogo, meu filho. Ciúmes eu tenho de D. Manuel de Mallo... Mas depois as lúbricas alternâncias, Godoy é agora o favorito da rainha. Mallo em desgraça, acusado de
traidor. Também o tio Esteban é preso. É a voragem do sarcasmo imperial a sorver os crioulos. O Marquês de Ustáriz e a meiga Maria Tereza
del Toro safam-me dos esbirros de Godoy, colocam-me em Paris. Bonaparte é o primeiro Cônsul. Será ele o Emílio
no poder? O clero reduzido a nada. Agora só vale a linhagem do valor, não mais a do sangue. Leio e repudio Maquiavel. Adoro Montesquieu. Por onde andará Samuel Robinson?
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JURAMENTO |
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Bolívar jura libertar a sua Pátria. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Sete meses depois reparo no olhar de Juan Vicente
pairando sobre mim, ansiedade. Abraço-o, choro por fim. Sequei, jamais voltarei a amar. Não voltarei a casar, eu juro. E Manuela? Serei justo com Manuela? Tenho 21 anos, volto a Paris. Bonaparte conquista
a Europa, cai um país atrás do outro, ele é o Herói. Ofereço um banquete em minha casa. Generais, políticos, sacerdotes, poetas, filósofos, mulheres, belas mulheres. Entre elas,
Fanny de Villars, esposa de um ancião complacente. Bebo demais e acuso Napoleão de trair a Liberdade. Acuso Bonaparte de só pensar em coroar-se. Acuso-o de fomentar uma polícia
secreta. Acuso os oficiais que cegamente seguem o tirano. Causo escândalo. Mesmo assim sou convidado a assistir à coroação. Ele é um deus que admiro e invejo, é um demónio que eu
odeio. Dizem-me que Samuel Robinson está em Viena. Corro para a Áustria,
abraço o Mestre, comoção. Agora dedica-se a experiências químicas. A Ciência libertará os homens da miséria. E tu podes libertar os homens
da tirania. És rico, dispões de homens e dinheiro e a América precisa de um Libertador. Outra vez me abrasa Samuel Robinson. Torno a Paris. Os naturalistas
Humboldt e Bompland acabam de regressar da América do Sul. Mostram-me as suas colecções de fósseis e plantas. Subiram o Guaviril, o Orinoco e o Rio Negro. Conhecem melhor a Venezuela
do que eu. Falam-me da hospitalidade crioula. Não suportam é a arrogância dos espanhóis. Humboldt, fronte alta, olhar límpido, voz pausada, jovem amigo, tenho as maiores
esperanças no seu Continente, desde que ele se liberte da tirania espanhola. Escrevo a Robinson, combino encontro na Itália. Em Milão
reunimo-nos com os partidários de Manzoni. Em Roma falamos com M.me. De Stael e Lord Byron. Subimos ao Monte Aventino. Contemplamos a capital. Discorro sobre a história de Roma.
Robinson escuta-me em silêncio, ironia vejo eu no seu olhar. Mestre e Amigo: diante de vós, juro pelo Deus dos meus pais, juro por minha honra e por minha pátria que não darei descanso a meu braço nem repouso à minha alma antes de romper
os grilhões com que nos oprime o poder espanhol!
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MIRANDA |
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Miranda não entende a psicologia dos crioulos. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Juramento solene mas depois não me aguento, torno aos braços de Fanny. Já compreendo a
ironia no olhar de Robinson... Passa mais de um ano. Acorda-me a guerra entre a França e a Espanha. Desprendo-me, parto. A Espanha invadida pelos franceses, grande efervescência em
Caracas. Em 1806 (estava eu na Europa), Miranda tentara sublevar-se. Falhara, abandonado pelos próprios compatriotas. Exilou-se na Inglaterra. Ele falhou, não falho eu. Junto um grupo
de crioulos liberais. Em 1810, após uma breve escaramuça, conseguimos formar a nossa própria Junta de Governo. Sou enviado em missão diplomática
a Londres. Tento obter apoio contra eventuais ataques das forças napoleónicas. Lord Wellesley aconselha-nos a união de todo o império espanhol contra a França. A meu lado Miranda
sorri, tantas vezes lhe fora prometido apoio contra os espanhóis... Derrubei o chapéu do rei de Espanha. Mas José Bonaparte derrubou-lhe o trono. É a nossa grande oportunidade de
independência. Os hispano-americanos não podem continuar a ser simples peões no tabuleiro dos interesses europeus. Miranda é o militar experimentado que nos falta.
Fizera várias das campanhas napoleónicas. Convido-o a regressar comigo. Aceita. Em campo, troça dos meus galões de coronel. Dispo a farda e ofereço-me
como seu soldado raso. Mais tarde, depois de eu entrar em luta e alcançar vitórias comandando homens, devolver-me-á a patente. É um homem intolerante, perdeu as raízes crioulas.
É de todo impossível disciplinar llaneros como Napoleão disciplinara soldados europeus. Não quer entender estas diferenças. Sem dar por
isso, fomenta a rebeldia, o desvario das ambições, os crimes, as vinganças e o terror. Desabafa: motins, é só motins... Somos um povo com classes estratificadas. Os
brancos suportam o domínio espanhol porque, em contrapartida, dominam índios e negros. Estes só ambicionam matar a fome. Não temos um objectivo comum. Para os norte-americanos a
liberdade da nação significa a liberdade de cada qual. Desde o início trabalharam a terra com as próprias mãos. A honra deles é o trabalho. A nossa, a dos crioulos,
é o ócio. Que independência poderemos almejar? A 5 de Julho de 1811 a Junta Patriótica proclama
a independência. Durará um ano, apenas. Metade da Venezuela contra a outra metade. Do Orinoco e Nova Granada afluem espanhóis comandados
pelo Gen. Monteverde. Surgem guerreiros sedentos de glória e galões dourados, seja qual for a causa. Em Puerto-Cabello sou traído pelos meus homens, entregam a fortaleza aos
prisioneiros inimigos. Peço o auxílio de Miranda. Não acorre, está a assinar um armistício com Monteverde. Anseia ver estendidos à Venezuela os benefícios da Constituição recém-promulgada
pelas Cortes de Cádis, quimeras. Avisam-me e corro, a mata-cavalos, para La Guaíra, porto de onde Miranda pretende largar para o estrangeiro. Dou-lhe ordem de prisão. Tropas realistas
atacam. Tenho que retirar e Miranda acaba por cair nas mãos dos espanhóis. Morrerá num presídio, em Cádis.
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A SUBIDA DOS ANDES, O LIBERTADOR |
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Um terramoto arrasa Caracas. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Um terramoto arrasara Caracas. Frades ainda
pregam nas ruas: quiseram a independência? Este é o castigo de Deus! Venezuela, terror espanhol. Dou o salto para Cartagena, Nova Granada. Aqui resiste um governo
republicano. Do México à Terra do Fogo, essa é a minha pátria. Mas dividida, fragmentada. Aliás como a própria Hespanha, castelhanos, vascos, galegos, portugueses, catalães, cada
povo ibérico a querer cuidar do seu destino contra o dos outros. Aprendemos a má lição, herança de fratricidas. Até Nova Granada está cindida em três repúblicas rivais. Só as
une o ódio aos espanhóis. Aviso os granadinos: onda espanhola vai chegar à Venezuela, soldados e frades
fogem dos exércitos de Bonaparte. E da Venezuela marcharão depois sobre Nova Granada. Libertar agora a Venezuela é garantir a liberdade futura de Nova Granada. Só o Presidente de uma das três repúblicas me entende e apoia.
Reuno 200 voluntários. Em Maio de 1813 tomo, a um destacamento espanhol, as armas que nos faltam. Engrossam as nossas fileiras e começo a subir os Andes, tal como Napoleão escalara os
Alpes... Canhões transportados em lombo de mula, neves eternas, o estrondo das avalanches, a respiração cada vez mais difícil. Finalmente a meus pés a planura, os llanos,
minha pátria a libertar. De vertente em vertente, somos avalanche contra os espanhóis que tentam barrar-nos. Em Agosto estamos às portas de Caracas, metade da Venezuela já libertada.
A outra metade já fora libertada por Santiago Mariño. Nada combinara comigo. Com poucos homens desembarcara na costa de Paria e conquistara a zona oriental da Venezuela. Entro em
Caracas, o delírio popular. Dão-me um título: Libertador!
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| A GRÃ COLÔMBIA | |
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Bolívar, como um inexistente "Cavaleiro da Jamaica", escreve, assina e difunde um panfleto. Entretanto, o que está a acontecer no
resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Curaçao e novamente Cartagena. Exerço o poder. Consigo reunir à
minha volta a maioria dos granadinos. Logo as invejas, as dissensões, eu apontado como estrangeiro. Motins, é só motins. Desesperançado, abandono o Continente, sigo para a Jamaica.
Quatro meses depois Cartagena rende-se ao invasor espanhol. Bonaparte é derrotado e Fernando VII reconduzido ao trono. A
Espanha deixa de ser a aliada natural da Inglaterra. Só esta nação é que nos poderá ajudar a reconquistar a independência. Escrevo uma carta a um inexistente «Cavaleiro da Jamaica».
Conto a servidão a que estão sujeitos os hispano-americanos. Comovo a opinião pública. Peço ajuda financeira para a nossa luta pela independência. Os espanhóis entendem o perigo.
Em Caracas contratam um escravo a quem eu dera alforria. Embarca, chega à Jamaica e tenta assassinar-me. Procuro refúgio junto de um outro ex-escravo, Pétion, presidente
do Haiti. Ampara-me, a ideia de libertação comove-o sempre. Conta-me histórias de Toussaint L'Ouverture, o Napoleão Negro que chefiara a
luta dos escravos do Haiti até à independência. Falho uma primeira tentativa de desembarque na Venezuela. Não falho a segunda. Em Janeiro de
1817, à frente de setecentos homens, novamente piso o solo pátrio. Não voltarei a abandonar o Continente. Quatro anos de combates. Mariño e Piar tomaram Angostura. Pequenos
ditadores locais, conspiram contra a minha autoridade centralizadora. Piar abotoa-se com avultada soma de impostos e retira-se de Angostura. É um herói combatente, por isso espera a
impunidade. Mando perseguir, prender, julgar e fuzilar Piar. Desta vez não cedo, não há contemplações, não há cavalheirismos, é mão-de-ferro. Melhor entendo Napoleão. Releio
Maquiavel. Saindo da Argentina, o Gen. San Martin sobe o Continente em campanha
vitoriosa contra os espanhóis. Remeto-lhe missiva entusiasta. Convido-o a forjar comigo a unidade da América meridional. Mando um pequeno destacamento a Nova Granada. Os meus soldados
anunciam vitórias que gostaríamos de ter mas não tivemos ainda. Entusiasmo, Nova Granada adere à ideia de libertação global. Em 1818 fundo um jornal revolucionário. Na imprensa inglesa espalho
a ficção das nossas vitórias decisivas sobre o exército de Morillo, o espanhol. Em breve reúnem-se a nós 300, depois 1000 e finalmente 6000 voluntários britânicos. Reinicio a
leitura de Maquiavel. Cada vez estou mais sozinho. Paez é meu lugar-tenente. Arregimentara contra o espanhóis os
mesmos llaneros que tinham liquidado a nossa segunda República. Um coronel inglês propõe proclamá-lo Chefe Supremo da Revolução. Paez
hesita, entusiasma-se, volta a hesitar. Lembra-se do que acontecera a Piar. Denuncia-me o plano. Desterro o inglês e nomeio Paez chefe da cavalaria. Fica satisfeito. Já posso
dedicar-me a escrever a Constituição e a organizar o Congresso. Em Janeiro de 1819 reuno 29 deputados em Angostura. Durante o meu discurso vem-me à memória a coroação de Bonaparte
em Roma. Proponho a eleição de um Senado hereditário (como a Câmara dos Lordes inglesa) e a eleição de um Presidente vitalício. Consigo apenas que o Senado passe a vitalício e o
Presidente a elegível. Em contrapartida é aprovada a fusão da Venezuela e Nova Granada num único Estado ao qual é dado o nome simbólico de Grã-Colômbia. Há que defender esta
unidade. Outra vez escalo os Andes, mas agora de leste para oeste. A surpresa é a nossa grande aliada. Derrotamos os espanhóis em Boyacá. O Vice-rei de Nova Granada, em fuga, abandona
na capital meio milhão de pesos de prata. Em Cartagena sou aplaudido. Mas em Angostura o Senado conspira
contra mim. Ali surjo de repente. Não como acusado, mas como acusador. Não permito que outra vez estilhacem a independência, motins, é só
motins... Assumo poderes ditatoriais. Lembro-me do banquete em Paris, eu a acusar o tirano Bonaparte...
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| MANUELA E SAN MARTIN | |
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Manuela e Bolívar apaixonam-se. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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E acontece. O Senado retira direito de voto a índios e negros. Estúpidos!
Os senadores passaram a ser elegíveis. Recomeça o conflito de interesses, a politicagem, o voto de cabresto. Estúpidos, estúpidos! Mas sou ainda o Chefe do Exército. Missão maior
espera por mim. Missão? Ou Manuela? Ambas, sei hoje que ambas! Vou ao encontro de San Martin. Com O'Higgins libertara o Chile e agora avança pelo Peru. Marcho sobre Quito. Sucre, o meu
fiel tenente, com um punhado de homens toma a antiquíssima capital dos Incas. Entro na cidade, aplausos ao Libertador, sinos e flores, Manuela Saenz numa varanda. Danço com ela até de
madrugada, finalmente a paixão a chamuscar o solitário. Manuela monta, esgrime e dispara como o mais hábil dos meus oficiais. Chegará a comandar a repressão de sediciosos. Vestida
com o uniforme de dragão, acompanhar-me-á em campanhas. Com sangue-frio, durante um atentado, salvar-me-á a vida em Bogotá. Também nas lides de amor luta comigo de igual para igual,
ardemos. Escreve ao seu marido, um sombrio médico inglês: Meu caro, agradeço o seu perdão e declaro que, na pátria celestial, ambos poderemos
levar uma vida angélica; mas a terrena pertence-me inteiramente, só para poder ser a amante do Gen. Bolívar. Graceja com o povo nos mercados, brinca com as sentinelas do palácio,
sabe Tasso e Plutarco de cor, domina qualquer reunião. Os meus oficiais são como seus escravos. Escrevo ao taciturno San Martin. Convido-o para uma conferência em
Guayaquil e logo avanço sobre a cidade. Hasteio o pavilhão da Grã-Colômbia, fica evidente o meu programa. A população recebe-me com
desconfiança. Espero 14 dias por San Martin. Aproveito-os para me desdobrar em discursos inflamados, comícios, festas, bailes, ditos de espírito, gentilezas. Preparo uma recepção
triunfal ao Libertador do sul, mas já sou eu o vencedor. Não tem uma visão alargada, é tacanho, é hesitante. À sua volta há conspiradores activos e ele hesita em cortar as suas
garras. Não nos entendemos politicamente. O primeiro ponto de fricção é Guayaquil. Vamos a votos! proponho. Não pode recusar e a população vota por mim. San Martin receia a liberdade, a democracia, a confederação das repúblicas sul-americanas e acaba por
renunciar à vida política. Gen. Bolívar, o tempo e os acontecimentos futuros dirão qual de nós viu o futuro com maior clarividência. Retira-se para o estrangeiro. Era um homem íntegro, um patriota, um
mau político. E o que serei eu? O que dirá de mim, o futuro?
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| ESTILHAÇOS | |
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Em 1 de Setembro de 1823 entro em Callao, Peru. Acabo com o
banditismo, drasticamente. Requisito o ouro das igrejas, organizo escolas. Pesadelos, só vejo sombras. Manuela tenta apaziguar-me mas da Grã-Colômbia chegam notícias da iminência de
uma guerra civil. Última resistência dos espanhóis. Vencemo-los na batalha de Junin, em 6 de Agosto de 1824. Venezuelanos, granadinos e peruanos, lado a lado. Será, por fim, a
unidade? Sempre aclamado como Libertador, marcho para o sul até à montanha de prata do Potosi. O Alto Peru proclama-se República independente. Em minha homenagem dão-lhe o nome de
República de Bolívar. Querem-me para presidente, indico-lhes Sucre. Para não ter que fuzilar oficiais conspiradores, antigos companheiros de luta, demitir-se-á pouco depois. Motins,
é só motins... Em 1826 convoco o Congresso do Panamá. Entre o Atlântico e o Pacífico,
canal que ali seja aberto pode encurtar as distâncias do mundo. Possa o istmo do Panamá ser para nós o que foi para os gregos o istmo de Corinto! Talvez o Panamá seja um dia a
capital da Terra. Por agora, quero a América para os americanos, como bem o disse Monroe. Quero a sua neutralidade ante as guerras europeias, não somos peões de mais ninguém. Quero
as nossas legislações nacionais subordinadas ao Direito Internacional. Quero a abolição da escravatura. Quero a organização democrática dos Estados americanos. Quero que sejam
federais os exércitos e as frotas do nosso Continente. Quero, quero... Queria, mas desastre! O Brasil recusa-se a comparecer. Ausência da Argentina porque não a ajudámos na guerra
contra o Brasil. O Chile inventa desculpas. Presentes apenas os delegados da Grã-Colômbia, do Peru, da Guatemala, do México e dos Estados Unidos. Os norte-americanos fingem
preocupar-se apenas com o direito marítimo, o principal é iludido. Bem sei o que eles desejam: não querem uma América Latina fora da hegemonia de Washington ou de Londres. E os
hispano-americanos, por desleixo ou ingenuidade, não conseguem ver que já está a ser sabotada a nossa independência nascida ontem. Desastres, é só desastres... Agitação, tentativas de separatismo na Grã-Colômbia.
Sucre, o meu fiel Sucre, assassinado em Quito. Um general peruano invade Guayaquil e declara guerra à Grã-Colômbia. Paez quer autonomizar a Venezuela. Tenho que impor outra vez a
ditadura para tentar salvar a liberdade. Cansado estou. Lavrei o mar, apenas me limitei a lavrar o mar. Aprendemos a má lição, herança de fratricidas.
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| Fim das memórias apócrifas de Simón Bolívar PROCLAMAÇÃO |
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Simón Bolívar falece em Santa Marta a 17 de Dezembro de 1830.
Deixa uma última proclamação que remata assim: Colombianos! A minha última vontade é a felicidade da pátria. Se a minha morte contribuir para o fim do
partidarismo e para a consolidação da União, baixarei em paz à sepultura.
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