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SIDÓNIO MURALHA
Poeta: 1920 - 1982
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1920: Em 28 de Julho, Sidónio Muralha nasce na Madragoa, Lisboa, filho do jornalista socialista Pedro Muralha. – 1941: Publica BECO, poesia político-social. – 1942: Com a chancela do “Novo Cancioneiro”, publica PASSAGEM DE NÍVEL, outros poemas de intervenção – 1943: Desembarca no Congo Belga, em exílio voluntário. Ali chegará a ser diretor geral da Unilever Internacional (SM estudara Ciências Econômicas e Financeiras em Lisboa e, mais tarde, estudará Administração de Empresas na Universidade de Louvain, na Bélgica). – 1944: Casa, por procuração (ela em Portugal, ele no Congo) com Maria Fernanda d’Almeida. O casal terá quatro filhos: Alexandre, José Ricardo, Beatriz e Mário Jorge. – 1950: Durante umas férias em Portugal, SM promove a edição de COMPANHEIRA DOS HOMENS, novos poemas político-sociais; e também do seu primeiro livro de poemas para crianças: BICHOS, BICHINHOS E BICHAROCOS. – 1960: Pressionados pela efervescência política, os Muralha se afastam do Congo e, durante dois anos, irão morar em Bruxelas. Neste período, contratado pela Unilever, SM viaja constantemente pelo mundo, prestando assessoria econômica a mercados financeiros. Estagia e trabalha em Bofatá, Guiné-Bissau, Ostende, Dakar, Londres e Paris. – 1961: SM chega sozinho ao Brasil (a família virá mais tarde). Em São Paulo, com o escritor Fernando Correia da Silva e o pintor Fernando Lemos (ambos portugueses) funda a Editora Giroflé, que irá revolucionar e criar um novo padrão para as publicações dirigidas às crianças. Apoio integral de intelectuais e artistas brasileiros, sucesso de crítica e fracasso de bilheteria. – 1962: A TELEVISÃO DA BICHARADA, poemas para crianças, chancela Giroflé, recebe o I Prêmio da Bienal do Livro de São Paulo. Entretanto, SM continua trabalhando para a Unilever no Brasil, prestando assessorias financeiras, proferindo conferências pelo país todo. Sempre bem sucedido. – 1963: SM publica OS OLHOS DAS CRIANÇAS. – 1974: Ao embarcar para visitar o Portugal libertado, SM declara: “Voltar não voltarei. Sempre lá estive.” – 1976: SM recebe o “Prêmio Meio Ambiente na Literatura Infantil” pelo seu livro VALÉRIA E A VIDA. – 1978: Falecimento de Maria Fernanda d’Almeida Muralha. – 1979: SM recebe o “Prémio Portugal 79 – Livro para Crianças” pelo seu HELENA E A COTOVIA. Casa com a médica obstetra Dra. Helen Butler, com quem passa a viver em Curitiba. – 1982: A 8 de dezembro falece em Curitiba, Paraná, Brasil. Sidónio Muralha (1) foi um dos precursores do neo-realismo português com BECO (1941). Publicou 21 livros em prosa (contos, um romance, ensaio e depoimento) e versos para adultos e 15 para crianças, por editoras portuguesas e brasileiras. É considerado um dos melhores poetas para crianças em língua portuguesa. |
AVENTURAS VENTUROSAS |
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Perseguido pela polícia
política salazarista, resolveu embarcar com Alexandre Cabral para o Congo
Belga. Como não falavam francês, contrataram uma professora com quem
treinaram arduamente uma conversa-padrão até decorarem todas as
respostas, sem se preocuparem em entender as perguntas... Com evidente
surpresa, conseguiram o emprego. Sidónio era campeão de
pingue-pongue e durante a longa viagem marítima, mobilizou os passageiros
para investirem em apostas na sua performance com a saltitante bolinha
branca. Vitorioso nas disputas conseguiu algum dinheiro que o ajudou a se
manter nos primeiros e difíceis tempos de África. Ele mesmo conta, do seu
jeito saboroso, suas primeiras experiências africanas e o desenrolar
destas aventuras de exílio: “Quando
fui para o Congo, depois de uma conferência de Bento de Jesus Caraça,
acompanhado de Alexandre Cabral e perseguidos pela polícia política,
conseguimos um emprego, graças ao Soeiro Pereira Gomes (2),
nosso querido camarada e amigo, na Unilever Internacional (quarto trust
mundial, ironia do destino). Fui nomeado gerente de uma loja em Bukavu. Um
dia, de repente, apareceu de “Cadillac” um indivíduo chamado Charles
Jacquemart, o qual me perguntou que fazia eu ali como gerente, pois, como
português, eu deveria estar atrás do balcão, a pesar cebola e batata e
a cortar presunto. Pensei esmurrá-lo, mas isso colocar-me-ia na situação
de ter de regressar a Portugal, de onde, depois, o Salazar nunca me
deixaria sair. E decidi ir cortar presunto. Foram tempos difíceis e
dolorosos. Então, prometi a mim mesmo arrebatar o lugar a esse
diretor-geral que me havia ofendido. Segui cursos de especialização e
freqüentava a Universidade de Lovaina, sempre que ia de férias. Galguei
setecentos e vinte lugares e, sete anos depois, estava ao lado desse
diretor-geral, como diretor comercial. Quando ele foi de férias escrevi
um relatório sobre as suas atitudes desumanas, em relação ao pessoal, e
acerca das inúmeras irregularidades cometidas. De Londres, recebi uma
carta a nomear-me diretor-geral. Lembrei, mais tarde, a esse indivíduo
que os portugueses eram para ser arremessados atrás dos balcões e
ordenei-lhe que saísse imediatamente. Escolhi
o Brasil, sobretudo por causa da língua. Mas não acredito na existência
de coisa mais trágica que o exílio.” Entre as altas finanças, a
administração exigente e a poesia chamante, viveu sempre de modo intenso
e contrastante. Pulou, na mesma semana, da floresta úmida para alguma
metrópole sofisticada. Voou entre a África e a Europa conseguindo
pernoitar e produzir, em alguns dias intervalados, na selva e Paris, em
Bruxelas ou em alguma aldeola perdida. Nunca perto da repetitiva
monotonia... Certa
vez contou que fez: “em
oito meses oitenta e oito mil quilômetros de avião e vinte e sete mil de
estradas”
supervisionando várias equipes por todo o Brasil. Dizia e repetia
enfaticamente: “A
disciplina, a economia de meios, o ordenar as idéias e emoções de
maneira harmoniosa e ao mesmo tempo direta, confundem por vezes no meu espírito
poesia e organização. Existe em organização uma necessidade de
criatividade e de pesquisa que não é incompatível com a poesia. As duas
podem ajudar a salvar o mundo». |
| MEGAFONE NO BECO | |
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Com pouco mais de 20
anos, em 1941, Sidónio Muralha publicou seu primeiro livro - BECO
- reunindo poemas de protesto social, de indignação com a ditadura
salazarista, incorporando-se ao neo-realismo que então se iniciava e
congregava poetas que ainda nem se conheciam, mas que bradavam - isolada e
convictamente - pela justiça. Em 1942, veio PASSAGEM DE NÍVEL e em
1950 COMPANHEIRA DOS HOMENS, mantendo a sublinhação denunciante das
injustiças, soltando gritos raivosos com o descaso com os pobres, os
velhos, os negros, as mulheres. Odes indignadas e loas compassivas a todos
os marginalizados. Luís
Carlos, jornalista aposentado, comunista de carteirinha, se comove todas
às vezes que relê algum destes poemas. Tem todos estes livros (e mais os
outros que nunca foram mui divulgados e conhecidos...) em sua estante e em
noites de insônia leva algum deles para a sua cabeceira. Então, lê-
meditativamente- até a aurora se anunciar ou o sono chegar e o derrubar. Maria
Lúcia, professora liberal e liberada, não segura seu espanto com a
estereotipia gritona e gritante dos versos e imagens. Leu por exigência
escolar, fez a prova, declarou clara e explicitamente a sua opinião e foi
reprovada. No ano seguinte releu os mesmos livros, elogiou no exame
engolindo a sem-gracice e conseguiu a nota almejada. Às vezes, apanha um
volume na biblioteca pública, folheia, se detém aqui ou ali e se
pergunta o que Saramago ou o Álvaro Cunhal realmente diriam... Sidónio Muralha fez várias profissões
de fé. Uma delas: “Escrever é
participar.” Mais maduro, em 1963 publicou OS OLHOS
DAS CRIANÇAS, 25 poemas embalados em requintado projeto gráfico. Neles
se depara com a tristeza infinda pela solidão e miséria das crianças
espalhadas pelo mundo. Desfilam garotos esfarrapados carregando o silêncio,
despertando mal-estares em “implacáveis
paisagens” . Flashes líricos e nostálgicos se mesclam com crianças
indesejadas que “fustigam o rosto
da cidade.” O
jornalista Luís Carlos copiou com tinta preta e letras imensas os versos
que mais lhe tocaram deste livro e dependurou sobre a sua escrivaninha
para se recordar sempre da premência do que
deve fazer:
“Olham os poetas as crianças das vielas A
professora Maria Lúcia se debruçou na janela e cantarolou uma cantiga de
antigamente. Lúdica, brincante, risonha. Depois, mansamente caminhou até
à sua estante, vasculhou e encontrou o que desejava ler naquela exato
momento. Se enroscou na poltrona aveludada e mergulhou nos sonetos de
Florbela Espanca... Quase uma década depois, em 1972, Sidónio
publicou O PÁSSARO FERIDO, reunindo muitos poemas e poucas crônicas.
Neste pequeno volume, vagueia pelas saudades e reconhecimentos: dele
mesmo, de cidades, amigos. Adentra por espantos jubilosos: “Não
tenho tempo para ter idade.”, por ternuras contidas, usa de
demolidora ironia com heróis pouco heróicos, ousa novas buscas. No pórtico se lê outra profissão de fé:
“Nasci
homem, antes de ser poeta. Minha poesia nunca trairá os homens, meus
companheiros. Se eles sofrem, ela, que faz parte de mim, sofre com eles e
tem movimentos de fúria e de raiva como os bichos encurralados.”
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SÓ SABIA O SABIÁ |
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Sidónio cocoricou e começou
a poetar para crianças. Em 1950 publicou BICHOS, BICHINHOS E BICHAROCOS
uma coletânea divertida, onde se acriança, espanta, brinca, busca
aliterações, segue brigas, surpreende. Verseja breve ou se estende por
poemas compostos por várias estrofes, sem temer que a criança-leitora
desista de chegar ao longínquo final... Certa vez, perguntado,
respondeu: “ Sempre me interessei pelas crianças e dou tudo o que
de melhor para dar quando escrevo para elas...Quando escrevo, vejo
desfilar imagens da infância que gostaria de ter tido mas não tive,
porque custava muito caro. Quero entregar às crianças de hoje o que
gostaria de ter recebido. Se não lhes dou mais e melhor é porque não
sei. É tudo.” Audaciou, criou, brincou.
Em A TELEVISÃO DA BICHARADA, de 1962 - sem dúvida seu melhor livro -
desconserta com os inesperados risonhos:
“Boa Noite.
- teve que se deitar quebra os preconceitos,
aplaude a miscigenação (tão ao gosto luso), se encanta com o novo
resultado:
“Se
é branca a gata gatinha
- os gatinhos eles são, produz o puro deleite ao
narrar a oferenda, um lenço colorido, que a girafa deu ao seu marido: “Que
alegria! Sempre humorado, abençoadamente
politicamente incorreto nestes momentos criançais, ludicamente conta a
conversa entre dois tatus gagos, descreve a imensidão do elefante ou o
encantamento vaidoso do cardeal ao ver sua própria imagem espelhada... Não
é conivente com as mentiranças natalinas e jocosamente adentra pelo
sotaque espanhol dum peru nascido no Peru, cujo destino fatal é
conclusivo: “se não houvesse Natais, haveria perus a mais.” Nestes poemas, irresistível
é o ritmo chamante, bailante, sensual, convidativo para os olhos se debruçarem
na leitura e os pés e as mãos marcarem os pontos de parada e de
andada.
“A
floresta ou
“partiu do canteiro O
velho jornalista Luís Carlos vagueou seguindo seu cigarro aceso,
espiralou a fumaça e quis que ela também lhe trouxesse a suave boniteza
reencontrada:
“ - mas do cachimbo saíram a voar A
jovem professora Maria Lúcia festejou a alegria e a poesia descobertas
naquele doce e ocasional momento
e
dizendo pela primeira vez:
“Era um sábio o sabiá.”
sabendo
que assim falava do sabiá Sidónio Muralha, que até então tão mal
conhecia e tão pouco sabia... Em A DANÇA DOS PICAPAUS,
lançado em 1976, Sidónio continua encantando e provocando, num
jogo inusitado entre vários bicharocos , respostas inusitadas da
criança-leitora. Propondo que ela faça a prova dos nove se acreditar que
a onça é um gato crescido, lendo anúncios chorosos de quem enfrentou
agruras dolorosas:
“Urso
procura mel chamando para o movimento
contínuo ao se deixar levar pela irresistível sonoridade:
“Quebra-se o ovo da rola e tudo começa de novo.” VOA, PÁSSARO, VOA, lançado
em 1978, é a edição portuguesa destes dois deliciosos livros poemais
publicados no Brasil. Reúne as 16 poesias da TELEVISÃO DA BICHARADA ,
outras 10 da DANÇA DOS PICAPAUS e agrega dois inéditos... FILM
EN COULEUR, de 1981, também reimprime poemas da TELEVISÃO DA
BICHARADA e alguns outros pedindo tradução urgente para as crianças que
- ainda - só lêem em português. Importante é assinalar que
o parceiro visual, o ilustrador e programador gráfico mais constante do
poeta Sidónio foi o artista plástico Fernando Lemos, também nascido nas
terras lusitanas. Em 1981, saiu a ciranda lírica
TODAS AS CRIANÇAS DO MUNDO e em 1983 O ROUXINOL E SUA NAMORADA onde-
entre namoricos passarinhais e de outros bicharocos, se estende a ternura,
a procura da liberdade e se reencontra, espalhados pelas páginas, os
trocadilhos divertidos, as aliterações inventivas, o ritmo chamante. A
professora Maria Lúcia sentiu subir a indignação. Se perguntou e não
conseguiu se responder porque seus professores, quando ela era ainda uma
criança, não leram os poemas infantis de Sidónio Muralha para ela e
seus colegas. Teria sorrido, se surpreendido, se espantado, se divertido.
Teria simplesmente adorado! Teria se iniciado antes nas delícias da
poesia... Festejou o que agora sabia. Sabia o que leria para seus alunos,
logo amanhã.
“mas onde estava a
alegria
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PERDIDO NA PROSA EMPERRADA |
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Sidónio
Muralha
também se dirigiu às crianças pelas veredas da prosa e narrou nove histórias,
editadas em Portugal ou no Brasil. O
jornalista Luís Carlos conta - sempre emocionado - aos seus netos O
COMPANHEIRO e A AMIZADE BATE À PORTA (ambos de 1975) e CATARINA DE TODOS
NÓS (de 1979). Relembra seu próprio fervor quando da Revolução de
Abril, faz sua voz ressoar mais forte e firme ao ressaltar o discurso político,
os males da colonização, a bravura da camponesa anti-racista. A
professora Maria Lúcia não disfarça sua irritação com o dogmatismo, o
maniqueísmo, a discurseira político-ensinante destas histórias. Procura
a poesia solta e sábia e só encontra a prosa travada. Luís
Carlos considera fundamental o eixo de VALÉRIA E A VIDA (1976), um brado
contra a poluição nefasta. Não duvida, na firmeza de sua crença
convicta: tem que se conscientar as crianças. Nada é mais importante num
livro que se quer e se pretende livro! Maria Lúcia se espantou com a
quantidade de frases feitas que encontrou nestas páginas, com a ausência
de sabor, de vitalidade...Se disse: ”decididamente não sou adepta duma
história que se encolhe e se estreita para dar passagem ao recado-da-
participação. Quero literatura, não manifestos. Para mim e para meus
alunos.” Em
SETE CAVALOS NA BERLINDA (1977), Maria Lúcia volteou surpreendida. Nas
primeiras páginas soltura e leveza, seguidas dum sensível lirismo...Logo
empacou. O texto não a fez cavalgar, galopar, nem trotar como os cavalos.
Olhou ressabiada, dispensou a carruagem e pegou um poético e colorido
bonde que por ali passava e que prometia lhe fazer chegar num lugar
cheiinho de gostosuras e belezuras. Encheu-se de saborosas expectativas... Luís
Carlos guarda há anos, com especial desvelo HELENA E A COTOVIA (1979).
Sente-se comovido com os vôos libertadores dos pássaros. Encolhe-se na
sua cinzenta poltrona e relembra quantas vezes se deparou com estas
imagens...Não, não se importa com a obviedade, com o moralismo explícito,
nem com os imensos e intermináveis parágrafos. Persiste na sua insistência
convicta: seus netos e todas as crianças-leitoras-do-mundo ainda vão
entender a amplitude da libertação dos pássaros e de todas as espécies
aprisionadas... Fechou o colarinho impecavelmente branco e refez o nó da
gravata.
Sidónio,
uma
vez perguntado, respondeu o que o levava a escrever para este público:
“É importante escrever para as crianças e os jovens como um corredor
de estafetas que passa o testemunho, para outros prosseguirem, e depois
sai do campo, apaga-se, desaparece, leva com ele a certeza do dever
comprido.” Ele
optou pela tarefa, não pelo deleite provocativo que a literatura pode
trazer. Publicou
ainda OS TRÊS CACHIMBOS, um croquis promissor dum texto não finalizado,
o divertido O TREM CHEGOU ATRASADO e um ambíguo A REVOLTA DOS GUARDAS
CHUVAS, onde se debate entre o non-sense e a chamada ensinante sobre os
males da tirania, sem se resolver sobre o tom buscante. Sidónio
declarou certa feita: “Tanto
a prosa como o verso para crianças têm que ter ritmo, têm que saber
sentido de humor, têm que saber brincar, encaixar as frases umas nas
outras, têm que despertar na criança o desejo criativo”. A
professora Maria Lúcia embasbacou quando leu esta resposta. Empalideceu,
enraivou. Achou todos estes elementos na poesia do sabiá poeta. Não na
sua prosa. Em alguns momentos encontrou um esboço de humor, de non-sense
divertido e soltamente brincante, mas sempre apegado a um pano de fundo
politizante. Não sentiu as frases encaixadas, escorrendo deslizantemente
pelas páginas impressas. Leu um texto sem fluidez, sem envolvência. Não
se seduziu, não embarcou e muito menos se viu com seus ímpetos criativos
atonados e aflorados. Encontrou personagens apenas esboçados e o prosador
preso, sem voar como já tinha mostrado que podia e sabia em seus
encantados poemas.
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A EDITORA GIROFLÉ |
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Sinónio Muralha e a Editora Giroflé. Entretanto o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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No
início dos anos 60, em São Paulo, alguns intelectuais e artistas
portugueses capitaneados por Sidónio Muralha, Fernando Correia da Silva e
Fernando Lemos, arregimentaram e se cercaram de vários profissionais
liberais brasileiros e de exilados portugueses e se reuniram para formatar
uma editora absolutamente original: a GIROFLÉ. Nas
pequenas saletas, o clima era de permanente efervescência, febricitação,
criatividade impulsionadora e fazedora. Pela
primeira vez, no Brasil, uma editora se dedicava exclusivamente a livros
para crianças...E que livros! Ousados no formato retangular, alongado,
com um projeto gráfico belo e requintado e belo, papel kraft, capa
dura... Lançaram
cinco títulos. Histórias ou poemas escritos por Cecília Meireles, Gerda
Brentani, Fernando Correia da Silva, Guilherme de Figueiredo e Sidónio
Muralha que por lá editorou o seu maior sucesso e também o maior sucesso
da Giroflé: A TELEVISÃO DA BICHARADA (posteriormente relançado por duas
outras editoras brasileiras). Ilustradores
do porte de Maria Bonomi e Fernando Lemos, um livro exibindo fotos de
Dulce Carneiro no lugar de desenhos, mudava o conceito de ilustração do
livro infantil... Inovações em cima de inovações! O
Boletim Pedagógico Giroflé sacudia a cabeça dos professores e pais,
propondo questões, levantando novas angulações, ampliando o conceito do
que fazer e suscitar nas crianças...Cartões postais reproduzindo
desenhos infantis, impressos em impecável qualidade gráfica, embalados
em envelopes de design avançado mostravam registros impactantemente
coloridos do real olhar da criança. Esteticamente educativos. A
Giroflé buscou o humor, a leveza, o requinte, a formosura. A narrativa
bem estruturada, a escrita de qualidade. Trouxe autores e ilustradores que
nunca tinham escrito ou desenhado para crianças. Tratou a criança com
atento respeito por sua inteligência e percepção atilados. Deslumbrou
gentes de todas a idades. Inovou em tudo! Sua ousadia formal e textual
(quase 40 anos depois) ainda não foi alcançada por nenhuma outra editora
e está longe de ser superada.
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| O SORRISO DE SIDÓNIO | |
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Sidónio
Muralha foi um homem sorridente, gargalhante, certo de suas certezas,
entusiasmado, vital, por vezes arrogante.
Como
acrescentaria o jornalista Luís Carlos brindando com seus amigos:
Como ele gostava de mandar as suas pedradas no charco, como a do
BECO em 1941, poesia político-social quando a maioria dos poetas, para não
sujar as mãos, declamava em esferas metafísicas... Foi a exultação da
militância antifascista portuguesa.
E
como agregaria a professora Maria Lúcia :
Ainda bem que surgiram poetas como ele, que abriram as portas e vielas
para que eu pudesse caminhar livre e solta por Lisboa. Sidónio
Muralha foi um enfático, sedutor, arrebanhador de carneiros para se
aliarem às suas inadiáveis teimosias, generoso, cobrante, trabalhador,
bon-vivant. Um homem dialético. Escrevia
sempre, onde estivesse. Em restaurantes ou aviões, na escrivaninha ou em
alguma sala de espera. Apanhava qualquer papelucho disponível, um
guardanapo de papel escondido, segurava sua majestática caneta e se punha
a versejar. Por puro e irresistível impulso. Raro sair dum jantar, com
ele, sem levar - na bolsa - um poeminha divertido, sarcástico e
sintetizador do acontecido na noitada. Sempre
foi um correspondente contumaz. Avalanches de cartas para amigos anônimos
ou afastados, para escritores famosos, para toda e qualquer criança que
com ele quisesse conversar. Íntegro,
solidário, definiu assim a sua rota:
“Parar.
Parar não paro. Pagou! __________________ (1)
Em homenagem ao
falecido marido, a Dra. Helen Butler Muralha organizou e dirige a Fundação Sidónio Muralha (2)
Soeiro Pereira Gomes, que também
trabalhou e viveu em África, escreveu
um romance notável, ESTEIROS,
na beira-Tejo os meninos sem infância. Morreu, de mal incurável, durante
a clandestinidade antifascista, solidão.
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