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ROMEU CORREIA
Atleta e escritor: 1917 - 1996
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1917: A 17 de Novembro Romeu Correia nasce em Cacilhas, burgo vizinho a Almada, cidade na margem esquerda do Tejo, frente a Lisboa. - 1941: Casa com Almerinda. - 1943: No Grupo Desportivo da LISGÁS (Lisboa) pratica boxe amador. Com um grupo de democratas, cria a Biblioteca Popular da Academia Almadense e reanima a da Incrível Almadense; em ambas as colectividades organiza recitais e conferências. - 1947: Estreia-se na literatura com Sábado sem Sol, livro de contos, cuja edição virá a ser parcialmente apreendida pela PIDE. - 1948: Trapo Azul, romance. - 1950: Calamento, romance. - 1952: Gandaia, romance. - 1953: Casaco de Fogo, teatro. - 1955: Desporto-Rei, romance. Isaura, romance. - 1957: Sol na Floresta, teatro. - 1961: Bonecos de Luz, romance. - 1962: O Vagabundo das Mãos de Oiro, peça teatral que recebe o “Prémio da Crítica”. No mesmo ano também recebe o “Prémio Casa da Imprensa”. - 1963: No Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, participa num torneio de boxe amador. - 1965: Bocage, teatro. - 1975: Recebe, pela segunda vez, o “Prémio Casa da Imprensa”. - 1976: Recebe o “Prémio Ricardo Malheiros” pelo livro de contos Um Passo em Frente. - 1980: Grito no Outono, teatro. - 1982: O Tritão, romance. Tempos Difíceis, teatro. - 1983: O Andarilho das Sete Partidas, teatro. - 1984: Recebe o “Prémio de Teatro 25 de Abril”, atribuído pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. - 1989: Cais do Ginjal, novela. - 1995: A Palmatória, teatro. - 1996: Em Almada, Romeu Correia morre a 12 de Junho. |
LITERATURA: ESQUIVAR E REVIDAR |
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Nos
fins de Setembro de 1961 eu e o Romeu Correia estamos em Cacilhas, num
tasco à beira-rio. Ali, no Cais do Ginjal. Ao longe, Lisboa entornada
sobre todas as colinas da margem oposta. Em 1982, no seu romance O Tritão,
Romeu escreverá: “Que
imenso é o rio Tejo, essa massa de água de tantas e inesperadas cores e
rebeldias, habitado por peixes e mistérios sem fim que maravilhara desde
sempre o meu entendimento! Rio generoso, rio velhaco, ora a correr para a
barra, ora a subir para a nascente, consoante o capricho das marés.” E
em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para
os frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails
para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco
badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da
Companhia Portuguesa de Pesca. Mas eu não estou aqui para contemplar paisagens
fluviais ou reencontrar os locais típicos da velha Almada. Estou aqui à
beira-Tejo porque há uma coisa que me intriga: o Romeu tem apenas a
instrução primária e frequentou, de raspão, a escola industrial. Como
é que se tornou escritor, como é que isso foi possível? Passo ao
ataque: - Romeu, para ti, na literatura portuguesa quais são as
melhores obras de ficção? (1) Não gagueja, não se esquiva, apara, logo revida: - Para mim são As Novelas do Minho e o Amor
de Perdição, do Camilo; o Primo Basílio e Os Maias,
do Eça; a Maria Adelaide, do Teixeira Gomes; as Terras do Demo,
do Aquilino; os Bichos e a Montanha, do Torga; A Curva da
Estrada do Ferreira de Castro; a Fanga do Redol; Onde A
Noite Se Acaba do Miguéis; os Retalhos da Vida de um Médico
do Namora; a Prisão do Domingos Monteiro e a Sedução, do
Marmelo e Silva. Parece saber os terrenos que pisa. Insisto: - E o que há de comum entre todas essas obras? Ou seja:
o que é que diferencia a ficção portuguesa das outras ficções? Dispara: -
Na nossa literatura espalha-se a fibra romântica, a inclinação melancólica,
saudosista, passadista, e a centelha irónica, sarcástica, inconforme e
revoltada que caracterizam o homem português. Subjectivismo lírico e
realismo irónico ou irreverente, são as duas constantes da literatura
nacional. Não
afrouxo: -
Mas qual a corrente que melhor vingou nos nossos dias? -
A grande, impetuosa e invencível corrente que vem do naturalismo, que
triunfa no realismo e dá o neo-realismo. Provoco: -
Mas tu não achas que em Portugal o realismo e o neo-realismo estão em
crise? -
Não há crise. Nunca houve um movimento assim pujante na ficção
portuguesa. Apesar de tudo - e esse tudo é muito - os neo-realistas são
a
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| VÉRTICE | |
Romeu Correia colabora com a revista VÉRTICE. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Contorno: -
Neo-realismo, neo-realismo... Sabes quem inventou essa expressão? Abana
a cabeça, encolhe os ombros, é a primeira vez que nele descubro hesitação. -
Romeu, tu conheces o Namorado? -
O poeta Joaquim Namorado, o director da revista Vértice, de
Coimbra? -
Esse mesmo. -
É claro que conheço. Não te esqueças que eu sou colaborador da Vértice. -
Dizem, não sei se é verdade mas dizem que foi o Namorado quem, para
iludir a PIDE e a Censura, camuflou de “neo-realismo” o tão falado
“realismo socialista” apregoado pelo Jdanov... Ri-se,
abana afirmativamente a cabeça. -
É capaz de ser verdade, o Namorado sempre gostou de brincar às
escondidas com a PIDE e a Censura... Lembras-te daqueles pensamentos na
contracapa de cada número da Vértice? -
Sim, estou a ver. -
Pois o Namorado, durante alguns números, publicou pensamentos do Karl
Marx mas assinados com o pseudónimo Carlos Marques. E um dia aparece na
redacção um agente da PIDE a intimidar: “ó Senhor Doutor Joaquim
Namorado, avise o Carlos Marques para ter cuidadinho, que nós já estamos
de olho nele”...
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VOLTEMOS À LITERATURA |
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Romeu, voltemos à literatura! -
À minha colaboração na Vértice, queres tu dizer? -
Não, não é isso. -
Então o que é? À minha colaboração na Sílex ou no Suplemento
Literário d’O Comércio do Porto? Com
o indicador recuso o rumo da conversa, esclareço: -
Nada disso, Romeu, é outra coisa. Na tua opinião, de que factores
depende o desenvolvimento do romance, entre nós? Não
se engasga: -
Depende predominantemente da existência de romancistas. Claro que os
romancistas serão melhores se puderem ser escritores de profissão e não
heróis que roubam ao repouso merecido e à vida convivente as horas em
que sonham e criam e escrevem. -
Tentas portanto ser um escritor profissional. -
Sim, tento, mas não consigo viver só do que escrevo. No nosso país
poucos conseguem. Além do Ferreira de Castro e talvez do Aquilino, nenhum
vive, ou pode viver, do valor do trabalho da sua pena. -
Por isso é que fazes jornalismo desportivo. E também és bancário, não
és? -
Sim, comecei como cobrador do Banco Nacional Ultramarino. -
Como é que foi aquela brincadeira com a tua mulher? Sorri: -
A serviço do BNU fiz uma cobrança de centenas de contos, em dinheiro.
Cheguei a casa e a Almerinda estava a dormir. Espalhei todas as notas em
cima do seu corpo. Acordou mas pensou que ainda estava a dormir.
Esfaimados que nós andávamos, todo aquele dinheiro assim à mão, só
podia ser um sonho maravilhoso... Gargalhadas,
desmancho-me sempre com esta história. -
Também foste artista de circo, não é? -
Sim. -
Que número é que tu fazias? Respira
fundo, cerra os punhos, finge disparar uns socos, evoca: -
Com um holofote atrás de mim, jogo de pernas e de braços, eu a jogar ao
boxe contra a minha própria sombra. Mordo
um naco de pão com uma fatia de queijo de cabra e bebo meio copo de
tinto. Volto ao principal: -
Bem, Romeu, já falaste na obra dos outros. E como é que caracterizas a
tua? Respira
fundo, toma balanço, dispara: -
No Sábado Sem Sol fiz análise e crítica de costumes. No Trapo
Azul fixei reflexos do quotidiano. -
A costureirinha violada pelo patrão, não é? -
Isso! Baseei-me num caso real, que bem conheço. -
E os outros livros? -
No Calamento fiz caracterologia moral e psicológica. Na Gandaia
abordei problemas da infância e da adolescência e também reflexos do
quotidiano. No Desporto-Rei foquei um processo social em curso. -
O futebol a alienar o povo, não é? -
Exactamente! No Casaco de Fogo, na Isaura e no Sol na
Floresta estudei problemas da mulher. Um escritor vai deixando na sua
obra, numa construção voluntariosa e difícil, a sua visão da vida, a
sua compreensão dos homens e da sociedade em que vive. Não escreve
tratados de teoria literária, ou estética, ou política, ou sociológica.
Nos meus livros - e nas minhas peças - tenho desejado fixar pedaços da
vida e a minha grande alegria é que há pessoas que os têm achado
quentes e prementes da vida real que me inspirou e eu quis servir. -
E onde é que escreves? Em casa? - Em casa e fora de casa. Olha, em
Lisboa, passo horas a escrever no BOM, um Café que fica ali na
esquina da Betesga com o Poço do Borratem. Conheces? - Sim, conheço, já te vi por lá
algumas vezes. Diz-me uma coisa: acabaste de publicar Bonecos de Luz.
É um romance sobre o Chaplin, não é? -
De homenagem ao Chaplin. -
E o que é que estás a escrever agora? -
Uma peça. -
Como é que se chama ou vai chamar-se? -
O Vagabundo das Mãos de Oiro. Chega!
Para mim, por agora chega, dou-me por satisfeito. Levanto-me, despeço-me,
damos um grande abraço. Ele não quer mas eu insisto e pago a conta.
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NA VIDA COMO NUM RINGUE |
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Romeu Correia esmurra a ignorância. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Aqui
vou eu a atravessar o Tejo enquanto ele vai, certamente, a trepar até à
Boca do Vento, aquele mirante lá nos altos de Almada. É
um gajo lixado, o Romeu Correia. Ungido apenas pela instrução primária,
logo a ignorância quis abafá-lo. Mas não fugiu, nem se agachou.
Esquivou-se e depois virou-se contra ela. Comprou livros e leu, leu muito,
digeriu a leitura e acertou dois murros valentes na abafadora. Atirada
contra as cordas, terceiro murro e ela tomba lentamente, desaba, knock-out.
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ATLETISMO |
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Os “moraleiros” censuram as meninas que praticam atletismo, Romeu ri. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Com
boa compleição física, Romeu, ainda rapaz, dedica-se à ginástica e ao
atletismo. Ele, e um grupo alargado de jovens almadenses. Almerinda,
a sua mulher, por 5 vezes é campeã nacional de atletismo. E Romeu, além
de correr e saltar, também pratica o boxe amador, em Lisboa, no Grupo
Desportivo da LISGÁS. Na
década de 40 o casal cria no Almada Atlético Clube um núcleo de
raparigas praticantes de atletismo. Para os “moraleiros” é o grande
escândalo, pois as meninas, descontraídas, correm e saltam vestindo
camisolas de manga curta e calções de meia perna... Para elas não há
constrangimento, esbanjam alegria e saúde. Pensando
sempre nos outros Romeu, sem qualquer interesse financeiro, desloca-se a várias
cidades e vilas do país para dar aulas de cultura física.
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| DINAMIZADOR CULTURAL | |
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Romeu
não se deixou apanhar pela ignorância e também não consente que ela,
impunemente, abafe os outros. Tem o verbo fácil, é um dinamizador.
Intervém, mobiliza e começa a liderar o movimento associativo de Almada.
Ainda
durante a II Guerra Mundial, em 1943, com um grupo de jovens antifascistas
funda a Biblioteca Popular da Academia Almadense e reorganiza a da Incrível
Almadense. Numa e noutra colectividade promove recitais e conferências. Em
1947 publica o seu primeiro livro Sábado sem Sol, contos.
Encaminha o lucro das vendas, não para o seu bolso, mas para as
tesourarias da Academia e da Incrível.
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| NEO-REALISMO, SEMPRE? | |
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Generosidade,
preocupação com o próximo, intervenção social, a luta contra a
exploração e a tirania... O reflexo literário dessa atitude será
sempre o neo-realismo! Será sempre? Os dogmáticos garantem que sim. Mas
em 1962, com a peça O Vagabundo das Mãos de Oiro, Romeu Correia
ousa mostrar que diferente pode ser o reflexo...
Lufada varre o palco, sopra a
ingenuidade e o encanto dos “romances de cordel”. Na feira, Mestre
Albino arma a barraca. É ele o vagabundo criador
dos fantoches de trapos e serradura. O seu boneco mais conseguido
é Hortense. E não é que, só para seduzir e perturbar os humanos, de
repente Hortense acorda, anima-se e toma vida própria?
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| FORUM | |
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Cruzo
o Tejo, desço em Cacilhas, chego a Almada. Já
me aproximo do Forum Municipal Romeu Correia, assim denominado em
1998, em homenagem ao atleta, ao escritor, ao cidadão exemplar. Romeu
Correia faleceu a 12 de Junho de 1996. Foi-se o lutador, foi-se o amigo.
Do Além, ele a jogar ao boxe contra esta saudade minha. ---------- (1) - As opiniões de Romeu Correia sobre literatura
foram colhidas das suas respostas a um inquérito do suplemento Cultura
e Arte do jornal O Comércio do Porto.
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