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RICARDO JORGE
Médico, esteio da sanidade: 1858 - 1939
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Ricardo Jorge
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QUANDO TUDO ACONTECEU...
1858
– Nasceu em 9 de
Maio, na cidade do Porto 1874 – Terminados os estudos primário e
secundário, ingressa na Escola Médico Cirúrgica do Porto, ainda com a idade
de 16 anos 1879
– Conclui a sua licenciatura em Medicina com as mais altas
classificações e apresenta a Dissertação de Licenciatura com o título «O
nervosismo no passado», onde traça a história da Neurologia
1880
– Concorre a Professor Substituto da Escola Médico Cirúrgica do Porto, com o
trabalho «Localizações Motrizes do Cérebro». Lecciona Anatomia, Histologia e
Fisiologia Experimental
1882
– Juntamente com o colega Cândido de Pinho e Miguel Artur, edita a Revista
Scientífica. Edita também a União Médica e À Volta do Mundo
1883
– Parte para Paris onde assiste a várias aulas de Renan e Charcot e segue
para Estrasburgo, Recklinghausen, Weldeyer e Goltz, onde visitou vários
laboratórios de Anatomia Patológica, Anatomia e Fisiologia. De regresso ao
Porto, deu início a um curso sobre Anatomia dos Centros Nervosos e montou o
primeiro Laboratório de Microscopia e Fisiologia (considerado como o
introdutor da Metodologia Experimental naquela Escola). Vira-se para a
Higiene e a Saúde Pública 1884 – Inicia e desenvolve estudos sobre
Electrometria e Electrodiagnóstico. Inicia colaboração regular em «A Saúde
Pública, Hebdomadário de Higiene» e participa activamente nos seus debates.
Efectua quatro conferências que ficaram célebres, sobre a higiene em
Portugal, a evolução da sepultura, inumação, cemitério e cremação 1885
- Publica «Higiene Social aplicada à Nação Portuguesa». É nomeado pela
Escola Médica do Porto para apresentar ao Conselho Superior de Instrução
Pública o Relatório daquela Escola Médica (este Relatório virá a servir de
base à Reforma do Ensino Médico de 1911 e ao aparecimento das Faculdades de
Medicina). Vogal do Conselho
Superior de Instrução Pública 1886 – Publica «Ensaios
Científicos e Críticos» 1888 – Publica «O Saneamento do Porto»
1890 – Estudos experimentais sobre a acção dos fluoretos alcalinos e
sobre a clínica hidrológica do Gerês. Dá início à crenoterapia científica
1891 – Publica «Caldas do Geres» 1892 – Criados os Serviços
Municipais de Saúde e Higiene do Porto e o Laboratório Municipal de
Bacteriologia (no mesmo ano Biggs funda o de Nova Iorque), sendo nomeado
Chefe desses Serviços 1894 – Diagnostica e confirma laboratorialmente
a existência do vibrião para-colérico ou para-hemolítico, responsável da
cólera frustre. Publica na Alemanha o trabalho «Sobre um novo vibrião da
água» 1895 – Médico Municipal da Câmara do Porto. Passa a Professor
Titular das cadeiras de Higiene e Medicina Legal da Escola Médica do Porto.
Assume a publicação do «Boletim mensal de estatística demográfica e
sanitária» 1896 – Morte de sua mãe, sua primeira perda afectiva
1897 – Início da organização sanitária e da demografia na cidade do
Porto 1899 – Dá-se a sua consagração a nível nacional e internacional
quando detecta clínica e bacteriologicamente a peste bubónica no Porto e
manda evacuar as casas e fazer o isolamento e desinfecção dos domicílios.
Publica «Demografia e Higiene da cidade do Porto». Manda estabelecer o
«cordão sanitário» que a população e os interesses económicos não aceitam e
é ameaçado de morte. Em Outubro, abandona o Porto e passa a residir em
Lisboa. Passa a reger a cadeira de Higiene na Escola Médica de Lisboa. É
nomeado Inspector Geral na criada Direcção Geral de Saúde e Beneficência.
Logo em Dezembro cria o Instituto Central de Higiene (10.º no mundo) 1901
– Elabora o Regulamento Geral de Saúde 1902 – Publica no «Boletim dos
Serviços Sanitários» todos os Regulamentos que interessavam à vida nacional
1903 – Incumbido de organizar e dirigir o Instituto Central de
Higiene. 1906 - Participa na organização da Assistência Nacional
Contra a Tuberculose e colabora na organização do Congresso Internacional de
Medicina, presidindo à Secção de Higiene e Epidemiologia 1909 –
Inicia viagens frequentes ao estrangeiro 1911 – Nomeado Director
Geral de Saúde. É cada vez mais, investigador e cientista. Colabora na
reforma do ensino médico de 1911 (com princípios por ele enunciados no
Relatório de 1885). 1912 – Inicia funções, como Delegado de Portugal,
no Office International d’Hygiene, embrião da Liga de Higiene das Sociedade
das Nações. Morte de seu pai e novo golpe afectivo. 1913 – Funda os
«Arquivos do Instituto Central de Higiene» 1914 – Eleito Presidente
da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa para o próximo biénio 1916
– Efectua várias missões de estudo, visitando formações sanitárias em
França, em zona de guerra, que repete no ano seguinte 1918 – Organiza
a luta contra a Gripe Pneumónica, Tifo Exantemático, Varíola e Difteria.
Escolhido para integrar o Comité de Higiene da Sociedade das Nações, criado
após o fim da guerra. 1920 – Apresenta importante Relatório no Office
International (considerado o melhor de todos os relatórios apresentados
pelos países membros) 1922 – Morte da esposa, que lhe causa profunda
tristeza 1926 – Reforma a Direcção Geral de Saúde e cria um quadro de
Inspectores de Saúde em tempo completo. Incita as Câmaras Municipais a
preocuparem-se com a salubridade pública. Sente enorme orgulho com a
nomeação de seu filho Artur como Ministro da Instrução 1928 – Atinge
o limite de idade, mas continua a exercer funções no Conselho Superior de
Higiene, na condição de Presidente Técnico e nas várias Comissões e
Organizações de Saúde europeias, como delegado e representante de Portugal
1929 – Nomeado Presidente do Conselho Técnico Superior de Higiene
1932 – Publica «Summa Epidemiológica de la Peste: epidémies anciennes et
modernes». 1934 – Membro Correspondente da Académie Internationale
d’Histoire des Sciences. Integra a Comissão organizadora do Congresso
Internacional de História das Ciências 1935 - Presidente do Grupo
Português de História das Ciências 1939 – Em Abril, comparece ainda
como Delegado de Portugal na reunião do Comité Permanente do Office
Internacional de Higiene Pública. Morre a 29 de Julho, em Lisboa. Foi
sepultado no Cemitério de Agramonte, na cidade do Porto. |
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AS ORIGENS |
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Seu pai José (…./1912), era natural de Vilharigues (Vouzela), mas cedo foi
viver para o Porto, onde foi ferreiro. Homem de carácter forte, mas
delicado, muito trabalhador e de grande honradez. Casou com Ana Rita de
Jesus, natural do Porto, filha de João Couto dos Santos e
Maria Rita de Jesus, descrita como muito inteligente, trabalhadora e
bondosa, que morreu em 1896.
Ricardo Jorge casou com uma prima direita,
Leonor Maria Couto dos Santos,
nascida no Rio de Janeiro,
filha de Miguel Couto dos Santos e Maria Cristina de Alcântara. Era uma
esposa
dedicadíssima, de carácter exemplar. Faleceu em 1922.
Ricardo Jorge que nutria por ela amor intenso e uma ligação de admiração e
respeito, sofreu uma enorme dor que durante algum tempo quase se repercutiu
no seu trabalho. As palavras que lhe dirigiu na sua morte são uma amostra
bem real daquilo que os ligava -
«À santa companheira duma vida de trabalho, que até ao último suspiro me
vivificou o coração com o seu alento apaixonado e a dulcíssima ternura de
seu imenso amor: À alma pura e bendita, centro e razão última da minha
existência, de quem vivia e para quem vivia, minha única dor. Àquela santa
que era o que de bom e de melhor havia em mim».
Do casal nasceram quatro filhos – Artur, Ricardo, Leonor e Alice.
Como filho, Ricardo Jorge foi exemplar. Teve uma infância feliz e um
profundo e sentido amor pelos pais. Orgulhava-se do seu pai ser ferreiro
(quando outros o esconderiam) e várias vezes escreveu o profundo amor que
sentia pelos pais - «Belas madrugadas de inverno! como eu as revejo nesta
doce compunção das saudades da infância; antes do dia, ainda em casa de
Cristo, para cada um nascia a sua canseira. Apegado ao calhamaço do
latim, aconchegava-me à beira de minha mãe; girava o fuso ou rodava a
dobadoura, e ela a dizer lendas e contos ou a cantar (…) «Em baixo
resfolegava a forja, soprando para a rua um clarão vermelho; a espaços
chispava o martelo cadente na çafra; enquanto não caldeava o ferro, meu pai
cantava contente a sua moda predilecta:
Meu filho, eu tive um sonho Qual era do meu agrado ...
«Esse sonho, coitado, era o nervo do seu braço incansável: o refrigério
daquela fronte gotejante de suor com que amassava dia a dia o futuro do
filho, tal qual lho retratava a fantasia. (…) Estou a vê-lo, à
volta dos exames, na porta da oficina, a enxugar o rosto, traçando o
avental crivado de faúlhas, com um sorriso tão fundo e tão aberto, que me
ensoberbecia. (…) «Estou a ver a quadra encarvoada da oficina, fundo
rembrandesco do clarão vermelho da forja e do candente do ferro caldeado a
chispar faúlhas que fuzilam no ar como foguetes de lágrimas. O cuspeiro,
hissope de palha, borrifa de água o carvão a arder, abafando a lavareda e
atiçando a combustão que espalha no ar um odor sulfúrico. O fole rouqueja a
pulmeira cadenciadamente pela toeira da frágua. Amiúde retine a çafra e os
martelos grandes, à voz de malha!, ritmam as pancadas acordes em
concerto musical, que me soa ainda nos tímpanos esclerosados (…)
Foi neste ambiente esforçado, de trabalho rude, que entre a ternura da mãe e
a alegria do pai, se desenvolveu o seu espírito e se formou o seu carácter. Refere nos seus
escritos que lia com a mãe os folhetins que Camilo publicava no «Comércio do
Porto» e lia livros para seu pai ouvir; assim foi criando o gosto pela
escrita e o sentido da crítica, e uma admiração profunda pela qualidade, que
sempre procurou nos seus escritos e na sua vida científica. |
O ESTUDANTE |
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Ingressa depois na
Escola Médico Cirúrgica do Porto, onde se revela, desde logo, um aluno
brilhante e merecedor das mais altas classificações. Conclui o curso com 21
anos, em 1879, apresentando a Dissertação de Licenciatura intitulada «Um
Ensaio sobre o Nervosismo». |
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O
MÉDICO E O PROFESSOR |
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Quando foi obrigado a
mudar-se para Lisboa, foi nomeado Inspector Geral de Saúde e pouco depois
Professor da cadeira de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, por
desdobramento da cadeira de Medicina Legal e Higiene. A este propósito e
porque revela grande carácter do colega Bello de Moraes, deve dizer-se que
competia a este ocupar a cadeira de Higiene, que não a aceitou e insistiu
com a Escola para que a entregassem a Ricardo Jorge «porque a cadeira de
Higiene da Escola Médica de Lisboa só a podia ocupar um homem – o que
escreveu o monumento da Demografia e Higiene da cidade do Porto». Funda o Instituto
Central de Higiene (baseado nos existentes em Inglaterra e na Alemanha) que
foi o décimo a ser criado em todo o mundo. Ali se realizava o ensino
sanitário de médicos e engenheiros, se faziam análises aos géneros
alimentícios. Tinha um Laboratório de Bromatologia. Trabalhava em
colaboração com o Instituto Câmara Pestana e com a Assistência Nacional aos
Tuberculosos. Quando Director Geral
de Saúde toma uma medida controversa, ao decretar a interdição da Coca Cola
e ordenando que toda fosse deitada ao mar, por entender que a mensagem
publicitária criada por Fernando Pessoa (primeiro estranha-se e depois
entranha-se) «era um explícito
reconhecimento da toxicidade do produto», o que, convenhamos, nos parece
argumentação pouco científica. |
AS ÁGUAS DO GERÊS
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Em
20 de Junho de 1887, apresentaram o requerimento para concessão de
exploração das águas do Gerês, nos seguintes termos: - «SENHOR: Os
signatários Paulo Marcelino Dias de Freitas, médico e professor, Adolfo de
Sousa Reis, químico, Manuel ]oaqquim Gomes, proprietário e capitalista,
Ricardo de Almeida Jorge, médico e professor, vêm perante Vossa Majestade,
rogar que haja por bem conferir-lhes a concessão das águas medicinais das
Caldas do Gerês e autorizar-lhes a criação de instalações termais
adequadas, onde as preciosas águas sejam utilizadas, como merecem, a bem da
saúde e da ciência, realizando assim um melhoramento de alto alcance
económico e médico, de há muito instantemente reclamado por todos quantos
têm transitado pelas Caldas e reconhecido o seu extremado valor terapêutica.
- SENHOR: As águas medicinais do Gerês, dum alto valor em qualquer país,
mesmo nos mais dotados em variedade e riqueza hidromineral, são entre nós
uma raridade única no seu género. -- As suas nascentes muito abundantes
percorrem em temperatura uma extensa escala termal, admiravelmente adaptada
aos usos balneares e realizam pela sua fraca mineralização o tipo de águas
medicinais oligometálicas, que pelas suas largas indicações nas doenças
crónicas conquistaram hoje um lugar eminente em hidroterapêutica. O Gerês
ombreia, entre outras estâncias de fama, com Plombières e Gastein. Mas, além
dessas virtudes genéricas, que projectaram as águas da fraca mineralização à
primeira plana da terapêutica
termal, as águas do Gerês gozam de qualidades peculiares, de virtudes
próprias que fazem delas um tipo à parte em hidrologia médica. Na sua
composição, minuciosamente analisada por um dos signatários, Adolfo de Sousa
Reis, revelou-se em dose descomunal o fluoreto de sódio, substância dotada
de notáveis propriedades fisiológicas e terapêuticas, comprovadas à luz de
experiências e observações clínicas por outro dos signatários o professor
Ricardo Jorge. – As tradições da clínica termal do Gerês autorizavam já
conferir às águas uma especialização determinada, uma autonomia hidrológica,
indicando-as como dum alto valor curativo para as desordens das vísceras
abdominais, e em particular do fígado, para cujas doenças as Águas do Gerês
constituem dum modo incontestável e incontestado uma medicação sem rival (…)
Após várias vicissitudes, o contrato definitivo foi assinado em 16 de
Setembro de 1889. Ricardo Jorge ficou detentor de 33 acções (num total de
700) da Companhia das Caldas do Gerês e foi nomeado Director-Gerente e
médico contratado. Como disse Armando Narciso - «com a exploração do Gerês,
Ricardo Jorge empobreceu, enquanto ia enriquecendo a bibliografia
hidrológica portuguesa com trabalhos do mais alto valor científico». E
Ricardo Jorge, em carta escrita a um amigo diz que «no Gerês desbaratara
tempo, haveres, esforços e os melhores anos da sua vida ...».
Ricardo Jorge só teve o encargo da clínica termal, nos anos de 1889, 90, 91
e 92. |
| aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa |
O SANITARISTA
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Mais do que escrever
os seus cargos e a sua actuação, recorde-se o que ele escreveu sobre a
necessidade e a importância de uma acção sanitária correcta. "Cada vez mais
insalubre, a cidade não tem nas condições devidas nem água, nem esgotos,
esses dois elementos imprescindíveis de limpeza, que a experiência tem
demonstrado reduzirem a cifra da mortalidade geral. O hospital é um antro
infecto, onde se amontoam doentes fora de todos os limites da tolerância e
num desprezo repugnante das leis mais comezinhas da boa higiene. As classes
pobres, o mundo dos proletários, vegetam ancoradas nuns alvéolos húmidos e
lôbregos, sem ar e sem luz, e abandonadas a uma especulação torpe que tão
sordidamente as explora com a miserável edificação das ilhas. Há a desfiar
um estendal de misérias e vergonhas, de males e de incúrias. É forçoso
lavrar um protesto contra tanto desleixo, contra tanta inépcia, contra tanta
loucura criminosa"… "Venha à medicina o
primado, como o sonhara o espírito eminente de Augusto Comte, projectando-a
ao ápice do seu sistema de hierarquia sociológica; porque só ela conhece o
homem em corpo e espírito, nas suas imperfeições e nos seus vícios, nas
suas misérias e fraquezas; porque só ela pela higiene, o mais florão da sua
coroa, pode promover o bem-estar físico e moral, a evolução melhorista da
actividade somática e intelectual". "O problema que a
todos sobreleva, que na cidade atinge toda a sua complexidade e importância,
é o problema sanitário, provocado pelas condições materiais da vida em comum
num espaço limitado. O formigueiro humano germina em si próprio o veneno da
sua destruição. A vida social ganha em intensidade à custa da duração da
vida individual". "A grande higiene
urbana, a higiene municipal por excelência, visa essencialmente a essa
dupla finalidade: contratar a pureza do bolo alimentar e da água que tem de
ser ingerida no ventre da cidade - remover toda a massa fecal, todos os
escorralhos imundos" “Estudar os males
físicos da unidade social em si e nas suas causas, atalhá-los e preveni-los,
aguentar e revigorar o homem colectivo de modo a fazê-lo alcançar a máxima
felicidade física, aqui está o objectivo da grande higiene, tanto quanto é
possível abrangê-lo. Mas todo esse lema tem de descansar fundamentalmente
sobre o conhecimento da estrutura e movimento da população. Importa saber a
anatomia e fisiologia do agregado, como elemento básico para a patologia,
profilaxia e terapêutica sociais”. “Fiscal do trabalho da
Parca, a higiene sabia e podia alongar o fio da vida e suspender as tesouras
da Atropos”. "Há aqui os vícios da
má educação e da ignorância; há as mais revoltantes práticas de trato de
crianças numa trucidação perene, há as habitações lôbregas e insalubérrimas
onde se amesendra mais dum terço da população; há o desbaste das moléstias
infecciosas pela licença do contágio; há enfim uma rede de incapacíssimos
esgotos, rastilhando o solo e a água de imundície» “O ensino da higiene
social tem de ser absolutamente prático, sob pena de não prestar para coisa
alguma, e só pode satisfazer a esse requisito, aliando-se intimamente com o
serviço de saúde pública. A higiene pública é
verdadeiramente a craveira que mede o grau de adiantamento dos povos de
lés-a-lés da Europa, desde a Espanha monárquica à Rússia soviética.” “Os contágios
evitáveis cobram vidas em excesso: a febre tifóide, a acusar a
insalubridade; a varíola, a falta de vacinação suficiente. O tifo
exantemático reponta a cada passo. Somos o único país da Europa sem guerra
organizada contra o sezonismo. Contra o flagelo da tuberculose inaugurou-se
mas não se activou o combate (…) Contra o das moléstias venéreas, não há um
único serviço de dispensário montado como o hoje o mandam os mais
elementares princípios (…) A mortalidade infantil é enorme (…)” |
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O QUE ESCREVERAM SOBRE ELE |
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“Comparando os
mecanismos de uma rede sanitária a um sistema vascular, como se o modelo
higiénico fosse um processo de assimilação e desassimilação urbana, no qual
há um fornecimento de água pura, captada e canalizada, sujeita a desinfecção
mecânica e rápida, conduzida através de artérias alimentadas pelos
respectivos mananciais, e terá que haver um retorno venoso de líquidos
inúteis e venenosos, efluentes conspurcados, esgotos do organismo natural da
cidade, Ricardo Jorge explica, de uma forma didáctica os seus pontos de
vista, num verdadeiro trabalho de sanitarista especializado (…)” (António
Almeida Garrett, em 1941) “Com a sua
extraordinária inteligência, perscrutadora e crítica, se tivesse prosseguido
no caminho da pedagogia e da investigação clínica e neurológica, certamente
viria a ser o príncipe dos clínicos portugueses, com honras e proveitos bem
maiores do que veio a ter, e sem os dissabores que inevitavelmente desabam
sobre quem exerce, com personalidade, cargos oficiais de categoria superior”
(A. A. Garrett, 1941)
«De há muita fiz para mim aula das páginas de Ricardo Jorge.» (Luís de Pina)
«Se ainda fosse moda cognominar os grandes homens, Ricardo Jorge merecia o
cognome de
Portuense. Nasceu no Porto, amou o
Porto, serviu o Porto e penou por ele sem deixar de manter até o derradeiro
clarão de inteligência o cunho da origem (...) Ricardo Jorge é como o vinho
fino: cidadão do mundo sem deixar de ser do Porto» (João de Araújo Correia)
«É um verdadeiro mandamento. E a sua leitura, comentada, constitui por
certo, e só por si, um curso inteiro de Higiene Pública. Hoje, como então e
como sempre» (Arruda Furtado), 1946 «Sem exagero se pode
chamar a Ricardo Jorge, de uma só vez, paladino da higiene e da profilaxia
da linguagem. Além, foi Quixote que teve de esgrimir contra muitos
preconceitos de fundas raízes. Aqui, todo se levava do diabo, quando notava
escritorecos a marejarem-lhe a pureza da língua que tanto amava, e cujos
segredos conhecia de tu cá tu lá. Mas, se, além, muitas vezes, pregou no
deserto, aqui também não foi mais feliz, porque os brutinhos não lhe davam
atenção». (Cruz Malpique) «Cérebro de eleição
que aos 81 anos escreveu páginas e páginas de um equilíbrio, de uma
juventude, de uma serenidade e substância que desafiam as melhores mentes
dos de 40». (Eduardo Coelho) |
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O
MÉDICO NA GUERRA |
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Em 1929, Ricardo Jorge é nomeado Presidente do Conselho Técnico Superior de Higiene. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo?
Consulta a |
Profere as célebres
palestras de Tancos, perante militares e com ensinamentos sobre Higiene. Colabora com o Serviço
de Saúde Aliado e no fim da guerra, é escolhido e nomeado membro do Comité
de Higiene da Sociedade das Nações. |
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O
ESCRITOR |
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BIBLIOGRAFIA |
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Científica (epidemiologia, higiene, crenoterapia, estatística, legislação,
vários) 171
|| Ensaio, História, Biografias, Crónicas de viagens,
Polémicas, Crítica de Arte 95
|| Prefácios, comentários e autoria 15 |
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Ricardo Jorge e Camilo |
Uma das facetas da sua personalidade, segundo Fernando da Silva Correia,
«foi a combatividade, que o levou a polémicas violentíssimas, que por vezes
assumiram o aspecto de monólogos fulminantes ao reduzirem a silêncio alguns
que o haviam imprudentemente querido apoucar ou pelo menos contrariar. A sua
violência era terrivelmente inútil e embora talvez ninguém o haja excedido
em intensidade, não acrescentou nada à
sua glória», confessando ele próprio a mágoa de se ter servido de tal
arma, pelo que aconselhou os filhos a não a utilizar, dando razão ao seu
grande amigo e admirador Camilo, que lhe tinha dado o mesmo conselho, ...mas
que ele não seguiu (tinha então 27 anos).
De facto, a propósito da polémica com Teófilo Braga, escreveu-lhe Camilo em
1886, o seguinte:
«Li o seu truculento artigo. Está soberbo de sarcasmo, de troça, de
gebada no caturrismo; peço-lhe porém, que seja aquela a sua última peça no
género. O autor ou prelector das «Conferências» e do «Relatório» não pode
pendurar as esporas de ouro e afivelar os acicates para fazer curvetear
onagros que não obedecem ao freio. V. tem hoje um nome obrigante, amanhã,
quando reler a sua charge, não gostará! Tolere estas rabujices de um velho
que lhe quer como Pai, e submete a sua admiração às conveniências».
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Poucos se deram conta da luta feroz que empreendeu contra as deficiências,
os interesses económicos, as rotinas, a preguiça, o acomodar de um povo que
pouco parecia querer.
Ricardo Jorge estudou, investigou, legislou, reformou, entregou-se por
inteiro à sua profissão, aos valores em que acreditava, à luta pela melhoria
de um país sanitária e higienicamente atrasado.
A sua acção e a sua obra não se limitaram aos assuntos de Saúde Pública, e é
vasta, profunda, multiforme, incomparável e igualmente desconhecida.
Ricardo Jorge foi «um dos mais notáveis médicos e intelectuais da nossa
História, a par do maior sanitarista português de todos os tempos, mestre de
sanitaristas nacionais e modelo de sanitaristas mundiais. A sua grandeza
destaca-se na perspectiva da história de toda a nossa literatura científica,
crítica, historiográfica, filosófica, demográfica, pedagógica, linguística,
patriótica, literária, estatística, polémica, etc.» (Eduardo Coelho) Mas, santos da casa
não fazem milagres, diz o povo, com sabedoria. Mas mesmo este povo que
parece ter sabedoria, parece não saber reconhecê-la sempre que ela colida
com os seus parcos interesses. O próprio Ricardo
Jorge a propósito da forma como foi tratado e ameaçado quando descobriu e
propôs medidas contra a Peste do Porto, escreveu. «Ninguém é profeta na sua
terra, e já a santa Sião lapidava os seus profetas. Pois podia lá admitir-se
que no Porto houvesse homem de assaz autoridade e capacidade para fazer um
diagnóstico de peste? A maldade e a ignorância indígenas ergueram-se para
castigar o ousio; era um atentado contra o patriotismo português que
consiste essencialmente em repudiar e malsinar o que tem, homens ou coisas
que sirvam». Assim, «o higienista
que durante quinze anos estudara as horrorosas condições sanitárias do Porto
e lhe apontou o remédio, cujo nome corria a imprensa dos dois mundos, é
vítima duma cidade inteira», escreveu Eduardo Coelho. Apesar disso e embora sentido, quando em 1921, participou no Congresso Luso-Espanhol, Ricardo Jorge que pela primeira vez voltava à sua cidade natal e à sua Faculdade, disse: «Nesta casa me criei, nela me fiz homem, nela professei logo ao sair dos bancos da Escola (…) Tanto tempo se volveu, que nem estas paredes me conhecem, e eu próprio me desconheço ao ver-me no seu recinto. Tudo está mudado, e eu o mais mudado, menos o sentimento fixo que vinte e dois anos de exílio não deliram, tão vivo hoje como no instante do meu forçado afastamento». |
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Cumpriu-se assim o seu
desejo. Repousa no Cemitério de Agramonte, no Porto. A legenda inscrita no
seu jazigo «Nihil Nisi Amor – Nada se faz sem amor» é uma boa síntese do que
foi a sua vida. Em tudo pôs amor e entrega, pois mesmo quando polemizava e
mostrava agressividade, era o amor às causas e aos valores que assim o
fizeram reagir. |