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PÊRO DA COVILHÃ

Viajante, espião: 1450 (?) - 1530 (?)

Fernando Correia da Silva

 

Retrato que se supõe ser o de D. João II - "Livro dos Copos", Torre do Tombo.

DEMANDAR A ÍNDIA, MAS POR TERRA.

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1450 (?): Na Covilhã, ano provável do nascimento de Pêro da Covilhã. - 1468 (?): Ano provável em que Pêro da Covilhã, com 18 anos, parte para Sevilha, onde entrará ao serviço de D. Juan de Gusman, irmão do Duque de Medina-Sidónio. -  1474: Acompanhando D. Juan de Gusman regressa a Portugal; é admitido como moço de esporas de D. Afonso V, o qual irá mais tarde elevá-lo a escudeiro com direito a armas e cavalo. -  1476: Acompanhando D. Afonso V a Castela, participa na batalha de Toro. Segue depois para França, ainda acompanhando el-Rei que, em vão, fora pedinchar ofensiva de Luís XI contra Isabel e Fernando, os Reis Católicos de Espanha. - 1477: D. Afonso V renuncia à Coroa em favor de D. João II, seu filho. -  1481: Morte de D. Afonso V. - 1483: D. João II desmonta conspiração da nobreza contra si; execução pública do Duque de Bragança. Por incumbência de D. João II, Pêro da Covilhã espia os movimentos de fidalgos portugueses homiziados em Castela. - 1484: À punhalada, D. João II mata o duque de Viseu, seu cunhado; depois manda envenenar outro conspirador, D. Garcia de Meneses, bispo de Évora. - 1485: D. João II manda Pêro da Covilhã ao Magreb (norte de África) para firmar tratados de paz e amizade com os soberanos de Fez e Tremecém. Por terra, D. João II manda António de Lisboa e Pedro Montarroio em busca do Preste João; por desconhecerem a língua árabe, os viajantes não conseguirão ir além da Terra Santa. - 1487: Partida, por terra, de Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã rumo ao Egipto, Etiópia e Índia. Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança. - 1488: Os dois viajantes alcançam Adem e separam-se; Afonso de Paiva vai em busca do Preste João e Pêro da Covilhã ruma para a Índia. -1489: Pêro da Covilhã em Sofala, na costa oriental da África. - 1491: No Cairo, Pêro da Covilhã reencontra o rabino de Beja. - 1494: Pêro da Covilhã no Reino do Preste. - 1508: Pêro da Covilhã é conselheiro da rainha Helena, que ocupou o trono do Reino do Preste. - 1520: Pêro da Covilhã conta as suas vivências no Reino do Preste e o Padre Francisco Álvares toma notas. - 1530 (?): Ano provável do falecimento de Pêro da Covilhã.

 

AS ESPECIARIAS

A ilha Ternate, uma das Molucas.

 

Já o dissemos (ver CRISTÓVÃO COLOMBO) mas tornamos a dizer: cidades infectas, as da Europa medieval. Esgotos não existem, os despejos são feitos directamente para as ruas. Consequência: volta e meia as pestes dizimam as populações.

Alimentação? Os legumes são raros, a beterraba é desconhecida, ignorados o café e o cacau. Portanto peixe seco ou carne salgada durante todo o ano, monotonia do paladar. Apenas alguns senhores dos mais favorecidos é que se dão ao luxo de ter nas suas mesas ânforas de vinho e potes de mel.

Eis quando começam a chegar à Europa as especiarias do Oriente. Pimenta e cravo da Índia para transformar o gosto da carne. Canela, noz-moscada, gengibre, benjoim e aloés para enriquecer o sabor dos reduzidos acepipes. Sândalo, resinas aromáticas para opor à pestilência das ruas. Navios começam a cabotar os portos do Mediterrâneo: ida e volta de Veneza e Génova para Constantinopla e Alexandria. Leste-oeste, singra o comércio de especiarias. 

Entretanto, hordas de Gengis Kã afugentam as tribos turcas para a Pérsia.  Estas conquistam e fixam-se no território. Alastram por todo o Próximo Oriente. Observam as caravanas de mercadores que atravessam os seus domínios. Invocam o Profeta Maomet que morrera seis séculos antes e desencadeiam guerra santa contra os cristãos, os infiéis. Consequências: tampão turco entre o Oriente e o Ocidente, rarefacção de especiarias na Europa.           

No século XVI será feita a seguinte avaliação: um quintal de cravo da Índia custa 2 ducados nas Molucas, 14 ducados em Malaca, 50 ducados em Calecute e 213 ducados em Londres. Com este progressivo aumento de preços, conforme se vai marchando de leste para oeste, poderia haver melhor negócio do que abrir caminho alternativo para o comércio das especiarias ?

Na proa da Europa, no rectangulozinho chamado Portugal, primeiro o Infante D. Henrique e mais tarde o seu sobrinho-neto D. João II aspiram cruzar a África em busca do Preste João. Ou, em alternativa, rumar para o sul para achar o fim do continente e depois subir ao longo da contracosta para descobrir o caminho marítimo para a Índia e para o Reino do Preste para depois, em conjunto, atacarem pela retaguarda o Turco anti-cristão. E, ao mesmo tempo, aproveitar para roubar a Génova e Veneza o comércio das especiarias. As guerras da cruzada, as garras da ganância...       

O PRESTE JOÃO

Frontispício do poema italiano "A Grande Magnificência do Preste João, Senhor da Índia Maior e da Etiópia", de autoria de Giuliano Dali (1445-1524).

 

Vindas da Ásia, chegam à Europa não só as especiarias, mas também o marfim, as sedas e as pedras preciosas. Para a geografia medieval a Ásia começa logo a oriente do Nilo, não a oriente do Mar Vermelho, pois não há sequer notícia deste mar. Em tal mapa distorcido, Abissínia e Etiópia já pertencem à Ásia. Ou à Índia, que é outro dos nomes dados à Ásia.

Numa dessas “Índias” reinará o Preste João, imperador cristão, rico e poderoso, magnata oriental. Preste é corruptela do francês Prêtre. Portanto, padre e rei, ao mesmo tempo. Nele se condensam, fundem e refinam as várias histórias e lendas que circulam pela Europa: o reino cristão-monofisita da Abissínia, os cristãos nestorianos da Ásia Central, os chefes mongois que não dão sossego aos muçulmanos. Avança-se que ele será descendente de Baltazar, um dos Reis Magos, e imperador das três Índias (a Maior, a Menor e a Terceira), também da Etiópia. Do seu reino é que são exportadas para a Europa, via Cairo-Veneza, as preciosas mercadorias orientais. Mas como escasseiam notícias palpáveis desse império cristão do Oriente, dilata-se a fantasia: monstros vários (entre os quais homens com cabeça de cão) povoam alguns recantos do território, no qual também é identificável a paisagem edénica, aquela onde Deus Nosso Senhor pôs Adão e Eva. Vê-se que, à solta,  a fantasia do bicho-homem está sempre predisposta a aliar o Inferno ao Paraíso...

Pela boca de embaixadores, caminhantes e mercadores tais lendas arribam a Portugal, sendo depois confirmadas por figura ilustre como o Infante D. Pedro que viajara “pelas sete partidas do mundo”, e ainda pelo seu inimigo D. Afonso, conde de Barcelos, que fizera peregrinação à Terra Santa.  Na menoridade de Afonso V, o primeiro defenderá o partido popular, o segundo o aristocrático. O que não impede que um e outro acreditem na existência do Preste João e apregoem a sua excelência.

Em Portugal tais enredos alcançam grande sucesso. Compreende-se o motivo: para poderem atacar o Turco pelas costas, o Preste João seria o decisivo aliado político-militar dos portugueses que, entretanto, se lançam em demanda das riquezas orientais. Conciliar e consolidar guerra e garra...

O PLANO DAS ÍNDIAS

 

No primeiro tempo das Descobertas o Infante D. Henrique, espírito de cruzado, visa a conquista da África muçulmana para, a partir dessas praças, promover a reconquista da Terra Santa, obviamente com a ajuda do longínquo Preste João. Ou seja: duas frentes a espremerem, em torniquete, os infiéis.

Mas depois surgem alguns embaixadores abexins na Europa. E em 1452, vindo de Roma, chega a Lisboa um embaixador etíope. Mais convencido fica o Infante de Sagres que afinal o reino do Preste João não vai além da Etiópia. Portanto com território localizado em África, não mais na Ásia. E como ele atribui ao continente africano longitude muito inferior à real, manda que os seus navegadores continuem a subir os rios africanos que, fluindo do Oriente, desaguam no Atlântico. É tentativa de alcançar por terra o reino do Preste João. Tentativa frustrada embora, por causa dela, haja contacto com potentados negros que talvez venham a ser aliados da expansão portuguesa.

Mais realista com o plano das Índias é D. João II, sobrinho-neto do Infante de Sagres. Continua a mandar subir rios africanos, por isso contacta com o rei do Congo. Mas também manda por terra, pelo norte de África, dois emissários seus, António de Lisboa e Pedro Montarroio, em busca do reino de Preste João. Porém os emissários não conseguem ir além da Terra Santa, pois não falam a língua árabe. Mais tarde, em 1487, D. João II manda que o navegador Bartolomeu Dias tente dobrar o extremo sul da África. Manda ainda que, por terra, Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã tentem alcançar as Índias e o reino do Preste João. Espera que estes dois levem a bom termo a tarefa em que tinham falhado António de Lisboa e Pedro Montarroio.

 

DA COVILHÃ PARA SEVILHA

Pêro da Covilhã emigra para Sevilha. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica .

 

 

João Pêro nasceu, talvez em 1450, na Covilhã, burgo empoleirado nos contrafortes da Serra da Estrela, virado a Oriente. Portanto, virado a Espanha. Em Dezembro de 1468 vento, muito frio e neve. Um espanhol arribado há pouco à Beira Baixa pergunta a João Pêro qual o seu nome de família. Ele tem 18 anos e responde, galaroz pimpão:

- Covilhã es el nombre de mi familia, que es la fundadora deste burgo.

A rapaziada que os cerca desmancha-se a rir com a atoarda. Só por causa da galhofa é que o espanhol se dá conta da mentirola. João Pêro move-se na vida como num palco, papéis para desempenhar é o que mais lhe apetece. Muito humilde será certamente a sua família, por isso o mancebo levanta a arrogância como um escudo.

O espanhol deslocara-se à Covilhã para comprar panos grossos e lanifícios por ordem do seu amo, D. Juan de Gusman, irmão do Duque de Medina-Sidónio, um dos mais conceituados fidalgos de Sevilha. Cativa-o a desfaçatez do rapaz.

- Entonces tu nombre es...
-
Mi nombre es Pêro da Covilhã.

O andaluz larga-se a rir, dá uma palmada nas costas do moço. D. Juan de Gusman precisa de servidores desembaraçados. Donde o convite para o jovem ir servir em Sevilha. João Pêro aceita a proposta, também cavalo emprestado, vai de viagem a tentar a sorte porque sombrio é o seu futuro na Covilhã, dias e dias sempre a fiar e a tecer, moedas poucas por panos prontos.

Em Sevilha o papel que lhe atribuem é o de espadachim e ele assume-o. Na sala de armas de D. Juan de Gusman aprende a agilidade de aparar e devolver golpes de espada, estocadas fatais. Ainda bem que aprende porque, nos próximos seis anos, a sua vida, em ruas tortuosas, passará a ser de emboscadas, brigas sangrentas e rixas nocturnas contra o bando de Ponce de Leon, fidalgo rival dos Gusman.

Bem impressionado com a desenvoltura de Pêro da Covilhã, D. Juan de Gusman propõe que ele se engaje nas embarcações de D. Henrique, seu irmão e Duque de Medina-Sidónio. A este os portugueses chamam o Pirata Espanhol pois, com a tolerância papal, dedica-se a saquear as praças recém-descobertas ou conquistadas pelos lusitanos. Pêro da Covilhã recusa o convite; apesar de bem treinado não lhe apetecem as pelejas fratricidas, só as outras...

COM D. AFONSO V

Isabel, a Católica

 

Por incumbência do seu irmão, em 1474 D. Juan de Gusman vai a Lisboa tentar um acordo qualquer com D. Afonso V, o monarca português. Na sua escolta vai integrado Pêro da Covilhã, que deixa cair uma lágrima ao pisar solo pátrio. El-Rei toma-se de simpatia pelo portuguesito que fala castelhano como um andaluz, catalão como um barcelonês e árabe como um mouro do Magreb (norte de África). Pêro tem verdadeira queda para as línguas e até as usa com muita graça. D. Juan tem um gesto afável, cede a el-Rei os serviços do portuguesito. É assim que, aos 24 anos, Pêro da Covilhã é admitido como moço de esporas de D. Afonso V. Mas, passado pouco tempo, el-Rei irá elevá-lo a escudeiro com direito a armas e cavalo.

Em 1474 morre D. Henrique IV, cunhado de D. Afonso V e rei de Castela. O soberano português, visando tomar para si a Coroa de Castela, dispõe-se a casar com D. Joana, sua sobrinha e filha do falecido rei. Mas D. Joana é muito contestada, a sua alcunha é Beltraneja porque teria nascido do adultério da rainha com um tal Beltran. A inclinação da nobreza, dos homens bons e da arraia-miúda é pela irmã do falecido rei, Isabel, a Católica. D. Afonso V resolve intervir militarmente na sucessão dinástica castelhana. Em 1476 portugueses e castelhanos enfrentam-se em Toro. Muitos mortos e feridos sem evidência de um vencedor da batalha. Derrotada é a ambição de D. Afonso V de rapidamente se apropriar da Coroa de Castela. Segue para França a pedinchar a Luís XI uma ofensiva contra as tropas de Isabel, a Católica. O monarca francês esquiva-se. Desiludido e humilhado, em 1477 D. Afonso V regressa a Portugal onde renuncia à Coroa a favor do seu filho D. João II, para entrar na vida religiosa.

Pêro da Covilhã lutou, lado a lado, com D. Afonso V na batalha de Toro. Acompanhou-o depois a França. Ao escoltar até Lisboa o atormentado monarca, de si para si alvitrou:

“Dizem cobras e lagartos uns dos outros mas são todos parentes, acabarão por se entender. Um dia destes, quando acordarmos, na Ibéria haverá uma única Coroa e um único Rei. Isabel de Castela ao casar com Fernando de Aragão já deu o primeiro passo. Amanhã a filha (ou o filho) dos Reis Católicos vai casar com o filho (ou a filha) de D. João II e a Ibéria será una. Oxalá eu esteja aqui para ver o que vai acontecer...”

Não estará. Mas isso Pêro da Covilhã não pode adivinhar.

 

COM D. JOÃO II

D. João II manda Pêro da Covilhã a demandar a Índia, mas por terra. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica .

 

A grande preocupação de D. João II é dar continuidade aos Descobrimentos, praticamente suspensos durante o reinado de Afonso V. Em 1479 o novo monarca assina com os Reis de Espanha o Tratado das Alcáçovas, que reserva a Portugal o direito exclusivo de navegar para além das Canárias.

Uma conspiração leva-o a retardar o avanço para o mar. Em 1477, ao assumir a regência, encontrara esgotado o tesouro real, em consequência dos muitos privilégios que D. Afonso V esbanjara pela nobreza. Em 1481, nas Cortes de Évora, D. João II investe contra a nobreza, retira-lhe privilégios, quereis que eu seja apenas Rei das estradas do meu Reino? Resultado: conluio dos nobres contra el-Rei. Em 1483 D. João II antecipa-se ao regicídio e manda prender e executar em público o poderoso Duque de Bragança, cabecilha da conspiração.

Em consequência da execução, vários são os nobres portugueses que se homiziam em Castela. D. João II quer saber quem os visita. Entrega a incumbência a Pêro da Covilhã que, se leal escudeiro fora do pai, também do filho o há-de ser... Deveras contente Pêro assume o seu novo papel de espião, pois não suporta a arrogância da fidalguia portuguesa. Entre os visitantes consegue identificar o Duque de Viseu, cunhado d’el-Rei, e D. Garcia de Meneses, bispo de Évora. E disso informa el-Rei.

Em 1484 é o próprio D. João II quem, no Paço Real, mata à punhalada o Duque de Viseu.

- Temos homem! - grita Pêro da Covilhã ao saber do ocorrido. Não pode deixar de comparar as vacilações do pai com a determinação do filho.

El-Rei depois manda prender e executar o bispo de Évora. Destroçada a conspiração, já pode D. João II voltar a dedicar-se à grande tarefa dos Descobrimentos, iniciada por seu tio-avô, Infante D. Henrique. Em 1486, por terra, manda António de Lisboa e Pedro Montarroio em busca do Preste João; porém, por desconhecimento da língua árabe, os viajantes não conseguirão ir além da Terra Santa.

Apesar do Tratado de Alcáçovas os piratas espanhóis continuam a singrar pelo mar português. Para lhes dar caça, D. João II não deve distrair-se com outras escaramuças. Melhor será firmar a paz com os berberes do Magreb. Mas a quem mandar como embaixador? Terá de ser um homem corajoso, expedito, afável e que saiba falar árabe. D. João II mira os cortesãos, fixa os olhos em Pêro da Covilhã, aponta, é este! Todo imponente, gestos e modos de vice-rei, novíssimo papel a interpretar, aí vai o beirão até ao norte de África. É recebido pelo soberano de Fez que muito estranha que um cristão seja assim tão cativante e fale o árabe com tamanha fluência. Confiante, assina o tratado de paz e amizade com os portugueses. O mesmo irá acontecer com o soberano de Tremecém. Missão cumprida.

Pêro da Covilhã é agora escudeiro da guarda real. Portanto, homem disputado por donzelas casadoiras. Entre as candidatas escolhe uma de boa figura e que traz dote avultado, seu nome é Catarina. Casa e, poucos meses depois, sua esposa fica de esperanças.

Em 1487 D. João II manda que Bartolomeu Dias tente alcançar o extremo sul da África, para entreabrir o caminho marítimo para a Índia. O navegante conseguirá dobrar o Cabo Tormentoso que depois será chamado Cabo da Boa Esperança.

No início do mesmo ano el-Rei manda que Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, por terra, alcancem a Índia e o Reino do Preste João, e mandem para Lisboa notícia do que virem, dos contactos que fizerem e das condições de navegação ao longo da contracosta africana. Pêro da Covilhã concorda mas observa:

- Majestade, se nós vamos disfarçados de mercadores mouros, temos que ter meios para comprar mercadorias que depois venderemos. Caso contrário, ninguém vai acreditar em nós e facilmente seremos desmascarados.

El-rei balança a cabeça, sorri, boa pontaria a do beirão... Manda o seu tesoureiro comprar para os viajantes Carta de Crédito de Bartolommeo Marchioni, banqueiro florentino.

Antes de partirem Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã são treinados por cosmógrafos régios que lhes passam algumas cartas de marear. Depois reúnem com o judeu Abrahão, Rabino de Beja, que aponta a porta da cidadela, no Cairo, como local de encontro de espiões portugueses durante o anoitecer de todos os dias de Janeiro, Fevereiro e Março de 1491.

A 7 de Maio de 1487 os dois viajantes partem de Santarém (onde está a Corte) rumo a Valência.

AFONSO DE PAIVA
Afonso de Paiva acompanha Pêro da Covilhã. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica .  

Beirão é também o companheiro de Pêro da Covilhã. Nascido em Castelo Branco, terá mais ou menos a sua idade. É filho de família honrada, por nascimento escudeiro da Casa Real. Cargo que herdou é o de escrivão de sisas na sua comarca natal, também o de escrivão real da comunidade hebraica, actividade que o pôs em contacto com muita gente do Levante e lhe permitiu aprender o hebreu e o árabe. Participou na batalha de Toro. D. João II reconheceu-lhe os méritos de bom escudeiro ao atribuir-lhe uma renda anual de 1500 reais. E por nele confiar, escolhe-o para acompanhar Pêro da Covilhã na demanda, por terra, do Preste João e da Índia.

 

RODES, A ÚLTIMA TERRA CRISTÃ
 

A cavalo, atravessam o sul da Península Ibérica até alcançarem Valência. Dali embarcam para Barcelona, aonde chegam a 14 de Junho de 1487. Nesse porto apanham uma nau que demora dez dias a navegar até Nápoles. E daqui até ao arquipélago grego são outros dez dias. Desembarcam na ilha de Rodes que pertence à ordem religiosa dos Cavaleiros de São João de Jerusalém. Pousam na casa de frades portugueses. É a última terra cristã que estão a pisar, porque depois seguirão para Alexandria e o Egipto é terra de infiéis. No mercado da ilha compram cem barris de mel, mercadoria muito apreciada no norte de África. Túnicas também as compram para se disfarçarem de mercadores mouros. Rostos queimados pelo sol e pela brisa marítima facilitarão o embuste.

 

CAIRO, MAR VERMELHO E SEPARAÇÃO

Minaretes do Cairo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Corais do Mar Vermelho.

 

Mal pisam em Alexandria apanham as chamadas “febres do Nilo” e quase morrem. O Naib, que é o lugar-tenente do Sultão, apressa-se em tomar-lhes os 100 barris de mel, pois já os dá por mortos e sem descendentes. Mas eles recuperam a saúde e o Naib, contrariado, tem de pagar em moedas de ouro o valor da mercadoria apreendida e já vendida.

Resolvem fazer o trajecto das especiarias orientais, mas às avessas, da foz para a nascente. Compram dois cavalos para montar, dois burros para levar a carga e marcham para Rosetta, formosa povoação à beira-Nilo. Ali vendem as quatro bestas e contratam os serviços de um barqueiro que, velejando, os transporta até ao Cairo.  

Ficam embasbacados com o tamanho, a riqueza e o movimento da capital,  viajantes de todo o Islão, desde os norte-africanos aos indianos, burburinho. O comércio das especiarias em trânsito de leste para oeste é o promotor da opulência. Afonso de Paiva observa:

- Gente dos quatro cantos do mundo e todos se entendem. Embora estilhaçada em milhentos dialectos, o árabe é língua comum a toda esta gente.

Pêro da Covilhã concorda:

- O árabe é para o Islão o que o latim já foi para a Cristandade.

E porque bem sabe do plano de D. João II, acrescenta:

- Um dia Lisboa vai ser assim, mas com mercadores e viajantes de toda a Cristandade...

Os dois viajantes perguntam, procuram e encontram a porta da cidadela onde se localiza o palácio do Sultão do Egipto. Pousam numa hospedaria e quatro dias depois compram três camelos, dois para montar e um para levar a carga. Para evitar o ataque de salteadores juntam-se a uma longa caravana que, percorrendo o deserto da margem oriental do Mar Vermelho, vai cruzar a Arábia, rumo a Adem, cidade às portas do Mar Índico. Alcançam Suez e, uma semana depois, o oásis e burgo de Tor, no deserto do Sinai, à beira do Mar Vermelho; mar assim chamado por causa das suas águas transparentes e do fundo pejado de corais avermelhados. Em Tor matam a sede e renovam as provisões de água. Daqui, como de Suez, poderiam embarcar para Adem mas, para melhor conhecimento de terras, usos e costumes, decidem continuar com a caravana. Alcançam Medina, cidade onde vivera Maomet e depois Meca, a cidade sagrada do Islão. Aqui, para não dar nas vistas, fazem penitência e rezam, ou fingem rezar, ao Profeta Maomet, como todos os bons muçulmanos. Pêro da Covilhã sente vontade de rir da farsa que acaba de interpretar, mas ensaia acto de contrição, murmura:

- Que Deus Nosso Senhor Jesus Cristo nos perdoe!
- Amen! – responde Afonso de Paiva.

Antes que faça o sinal da cruz sobre o rosto e o peito, Pêro trava-lhe o braço. Serão eles, talvez, os primeiros ocidentais a visitar Meca.

Já corre o ano de 1488 quando atingem Adem. Desse porto, no Golfo da Arábia e a um dia de vela do Oceano Índico, Afonso de Paiva embarcará para a Etiópia em busca do Preste João. E Pêro da Covilhã reserva lugar numa frota de paraus e zambucos que, aproveitando os ventos favoráveis, largará em breve para a Índia. O primeiro rumará para sul, o outro para leste. Os dois companheiros e já amigos dão um longo e comovido abraço. Combinam reencontro no Cairo, junto à porta da cidadela, durante o anoitecer de um dos primeiros noventa dias de 1491.

 

A ÍNDIA

Calecute - gravura sobre papel de Georgius Braun em "Civitates Orbis Terrarum" de 1572.

 

Pêro da Covilhã arriba a Calecute em Novembro de 1488. A Índia está fraccionada em múltiplos reinos, este é o primeiro que visita. Nas ruas da cidade primeiro assusta-se mas depois fica maravilhado com os enormes e mansos elefantes transportando cargas. Faz amizade com um mercador indiano, conta-lhe que é emissário do soberano de Fez, do Magreb, em viagem pela Índia para investigar as possibilidades de entrarem no comércio das especiarias. O mercador mostra-lhe a cidade, palácios, templos, jardins e lagos artificiais, opulência, mas também um imenso bairro de cabanas de colmo, pústulas da cidade onde a arraia menos que miúda e ali chamada de párias, vai morrendo de fome e doença. O Samorim (rei) ainda pratica a religião hinduista mas já está cercado por um ror de conselheiros muçulmanos. O mercador garante que o grosso das especiarias produzidas na Índia e as que vêm do Oriente passa por Calecute, donde a azáfama diária na cidade. Pêro estranha, pensava que todas as especiarias eram produzidas na Índia.

- Não, não é verdade (diz o mercador). Por exemplo, a canela vem de Ceilão, que é uma ilha ao sul da Índia. E a noz moscada e o que vós chamais cravo da Índia, vem de Malaca.

- Malaca?

- É a capital do reino da Malásia.

- Onde fica?

- Fica para leste, a quarenta dias de viagem, se o vento for de feição.

- Então a Malásia é que produz a noz moscada e o cravo da Índia?

- Não, não, eles são produzidos em Ternate e nas outras Ilhas das Especiarias, que ficam ainda mais para leste. São produzidas ali mas concentrados em Malaca, que os exporta para a Índia. Para Calecute, principalmente.

Estas Ilhas das Especiarias serão mais tarde chamadas Molucas, corruptela da palavra portuguesa malucas. E malucas porque, devido a alterações locais do magnetismo terrestre, difícil será fixar as suas coordenadas; ora parecem estar aqui, ora ali, portanto ilhas malucas. Mas isto só acontecerá mais tarde. Por agora Pêro da Covilhã é informado da existência e da produção das Ilhas das Especiarias, da localização de Ceilão e Malaca, da supremacia de Calecute no comércio indiano de especiarias. Ele estranha tal supremacia:

- Não sei como isso é possível, um piloto disse-me e eu verifiquei que este é um porto perigoso, tem muitos baixios.

- É verdade (responde o mercador) mas, apesar disso, é assim e tu verás.

E vê. Visita Cananor, Goa e Ormuz, cidades magníficas na costa do Malabar, mas nelas o movimento comercial é bem inferior ao de Calecute.

Pêro da Covilhã anota: “O grosso das especiarias sai de Calecute para o Cairo, cruzando o Mar Vermelho. E do Cairo segue para Veneza. Se um dia quisermos tomar para nós este comércio, bastará impedir o acesso dos navios mouros ao Mar Vermelho.”

 

A CONTRACOSTA AFRICANA
Pêro da Covilhã em Sofala. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica .  

Em finais de Dezembro de 1489 sopram os ventos do nordeste e Pêro da Covilhã, em Ormuz, embarca num zambuco rumo à costa oriental de África. Também por ali os mouros têm entrepostos comerciais, onde trocam panos e contas de vidro por âmbar e ouro recolhidos pelos desnudos e inocentes cafres. Visita Melinde, Quiloa, Moçambique e, finalmente, Sofala. Para o sul há muitas correntes e os pilotos mouros temem enfrentá-las com as suas frágeis embarcações. Um deles garante que longe não fica o fim da África. Pêro da Covilhã anota que, se dobrado for o extremo sul pelos mareantes portugueses, a partir de Sofala ou Melinde facilmente alcançarão Calecute para se apoderarem do comércio das especiarias.

Esta anotação de Pêro da Covilhã daqui a dez anos decidirá Vasco da Gama a rumar da contracosta africana directamente para Calecute.

 

REENCONTRO DE ESPIÕES
Pêro da Covilhã sabe da morte de Afonso de Paiva. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica .  

Ao anoitecer de 30 de Janeiro de 1491, Pêro da Covilhã, já no Cairo, dirige-se à porta da cidadela. Conforme o combinado, pensa reencontrar Afonso de Paiva mas, para seu espanto, quem está à sua espera é o Rabi Abrahão e um outro judeu português, o sapateiro José de Lamego. O Rabi conta-lhe que Afonso de Paiva chegara ao Cairo no princípio de Janeiro mas, uma semana depois, sem antes poder contar de suas viagens e aventuras, morrera de peste. 

Confrangido, Pêro da Covilhã não sabe o que dizer, o coitado do Afonso veio morrer tão longe dos seus... O Rabi tenta animá-lo, são os desígnios do Altíssimo. Mas, atenção! na vida, nem tudo são desastres ou desgostos: Catarina, a esposa de Pêro, dera à luz um rapagão ao qual foi dado o nome de Afonso, em homenagem a D. Afonso V. Comovido, funga Pêro da Covilhã e o Rabi logo o informa que Bartolomeu Dias conseguira dobrar o Cabo da Boa Esperança que é o extremo sul da África, descerrado já está o caminho marítimo para a Índia, aleluia! Depois entrega-lhe carta de el-Rei D. João II. O soberano pede notícias do que foi visto na Índia, na África e na Etiópia, o portador delas será o judeu José de Lamego. E manda ainda que Pêro acompanhe o Rabi até Ormuz.

- Porquê Ormuz? (pergunta Pêro).

Responde José de Lamego

- Numa viagem que fiz a Babilónia um mercador contou-me as maravilhas da cidade. Comuniquei a notícia a el-Rei e ele agora quer que o Rabi Abrahão confirme o que eu ouvi.

- Sim, é uma cidade magnífica mas, na Índia, a mais importante é Calecute. Isso mesmo escreverei a el-Rei. Mas se ele deseja converter-me em papa-léguas, irei a Ormuz com o Rabi Abrahão, papa-léguas serei eu. Quando tornar da Índia irei então procurar o Reino do Preste João, já que o pobre Afonso de Paiva, Deus guarde a sua alma, não conseguiu dar-nos notícia dele.

Pêro passa a noite a redigir o relatório para el-Rei D. João II. De manhã entrega-o a José de Lamego, que já prepara a sua viagem de regresso a Portugal.

Uma semana depois Pêro da Covilhã e o Rabi Abrahão partem para Ormuz, o itinerário já é do conhecimento do beirão.

 

NO REINO DO PRESTE JOÃO
 

 

Abexins da Terra do Preste João, in Itinerário, de Jan Huygen van Linschoten, 1595.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Padre Francisco Álvares: Verdadeira informação das terras do Preste João.

 

O Rabi fica em Ormuz e Pêro da Covilhã regressa a Adem. Aqui toma um zambuco que o leva a Zeila, mais ao sul, já na costa da Etiópia.

Integrado numa caravana, sobe e desce serranias. Ao fim de três semanas alcança o primeiro arraial do Preste João. Identifica-se como cristão e é recebido efusivamente. Mas rapidamente se apercebe que o lendário e poderoso reino do Preste João afinal é apenas o de um pobre povo que tenta evitar ser esmagado pelos vizinhos muçulmanos. Com fronteiras flutuantes por causa da pressão externa, os cristãos etíopes não podem dar qualquer ajuda, precisam é ser ajudados na luta contra os infiéis. Isso mesmo lhe diz Alexandre, o soberano descendente do Preste João. Pêro da Covilhã comunica-lhe que transmitirá a toda a Cristandade europeia o seu pedido de auxílio.

Em Maio de 1494, quando Pêro da Covilhã já se prepara para iniciar o regresso a Portugal, morre inesperadamente o Preste Alexandre. Nahu, seu irmão, sobe ao trono. Logo trata de impedir o regresso de Pêro alegando o costume de não se deixar sair os forasteiros que arribarem ao reino. Pêro percebe que o novo Preste precisa é de um conselheiro que o oriente nos meandros da política. Tanto mais que, ao mesmo tempo que lhe proíbe o regresso, faz-lhe doação de terras vastas com muitos escravos e vassalos. Eis portanto o beirão pobretana promovido a senhor feudal na Etiópia; é o último papel que lhe cabe interpretar na vida. E já que tudo andou ou desandou assim, olvidando Catarina e o filho Afonso que nunca viu, Pêro toma por esposa uma gentia que lhe dará descendência numerosa.

Em 1508 morre Nahu e sucede-lhe a rainha Helena. Pêro da Covilhã é mantido como conselheiro régio. É por sua indicação que a rainha envia o embaixador Mateus a Lisboa, acompanhando dois frades portugueses que por ali tinham aparecido. Foram estes frades que relataram a morte de D. João II, a ascensão de D. Manuel I e os sucessos de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral em Calecute. Pêro fica muito satisfeito com estas últimas ocorrências, para alguma coisa serviu o relatório que mandou a el-Rei D. João II...

Em 1520 arriba ao Reino do Preste o embaixador português D. Rodrigo de Lima. Com ele vem o Padre Francisco Álvares que passa o tempo a conversar com Pêro da Covilhã. O sacerdote toma notas minuciosas dos estranhos costumes daqueles estranhos cristãos da Etiópia, extremamente rudes nas suas penitências. Notas que lhe permitirão mais tarde escrever a “Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias”.

Cerca de 1530 falece Pêro da Covilhã. No estertor vê um anjo luminoso e confunde-o com Afonso, o seu filho português.

 

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