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PEDRO NAVA
Escritor: 1903 - 1984
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QUANDO
TUDO ACONTECEU... |
UMA INFÂNCIA NÔMADE |
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Nascido no período histórico conhecido como República Velha, em sobrado juizforano tradicional – no qual reinava a Nhá Luísa, sua avó materna - o primogênito de José Pedro e de Diva Mariana, também chamada Sinhá Pequena, é levado, com pouco mais de dois anos de idade, ao estado nordestino do Ceará, para ser batizado. Esta viagem seria apenas o primeiro dos muitos outros deslocamentos de sua vida de jovem nômade. Mesmo quando já idoso, Pedro Nava continuará a sentir-se interiormente solicitado a regressar às origens: é, por exemplo, o apelo, não respondido, que lhe vem de São Luís do Maranhão, para ele, a estranha e perturbadora cidade de onde, um dia, viera para Fortaleza seu avô paterno.
Como vários outros escritores mineiros ligados ao Modernismo, Nava oscila, durante seu período de formação, entre a cidade natal, a capital do estado e a capital federal. Uma educação masculina nos moldes da elite da República Velha brasileira, de forte extração rural, muito mais do que metropolitana, usualmente abrangia esta etapa inicial, municipal ou local, para o ensino fundamental , seguida de outra estadual, na capital, para o ensino de nível médio e superior, e, finalmente, a fixação de residência no Rio de Janeiro, então capital federal.Com algumas variações, como o internato em instituição pública ou , segundo a preferência de famílias mais religiosas e tradicionais pelo ensino confessional católico, em estabelecimentos dirigidos por congregações religiosas, este era o modelo seguido pelas elites. Em Baú de ossos, o memorialista narra :“Nunca conheci madrinha de carregar, pois fui para o batismo com minhas próprias pernas, andando o trecho da Rua Formosa que vai até a Santa Casa da Misericórdia, em cuja capela recebi (em nome do Padre, do Filho, e do Espírito Santo) o sal, o óleo, a saliva, a fusão e o nome de meu avô.” Afilhado da avó paterna, Nava regressa ao Ceará em 1919, já adolescente, para conhecê-la melhor, na casa em que residia, com a irmã, Marout, e as filhas (entre as quais a tia Alice, casada com o tio Salles).Quarenta anos depois, mais uma vez retornará às plagas paternas. Desta feita, para ministrar um curso na universidade: já estão mortos quase todos os parentes que lhe povoaram a infância, exceto a tia Alice: preenche, então, imaginariamente, as salas da casa avoenga com estas sombras familiares de sua adolescência.
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| O MENINO É O PAI DO HOMEM? | |
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Suas primeiras letras, cursou-as em Juiz de Fora, no Colégio Andrès. Sobre este tempo, conta, em Baú de Ossos: “Não me lembro da cara nem do nome de um só colega, de uma só colega do Andrès. Vejo-os, sem detalhe fisionômico ou contorno físico - estarrecidos no ar da sala de jantar ou no recreio, diluídos ao sol, como as figuras de confete da arquibancada do Circo de Seurat! “ A família se muda para o Rio de Janeiro, mais exatamente para a casa da Rua Aristides Lobo,106. Próximo, no número 115, havia um colégio, onde foi matriculado, à espera do próximo ano letivo, quando deveria ir para o Colégio São José, na Rua do Bispo. Breve, no entanto, seria sua permanência no educandário vizinho: diante da péssima qualidade - evidente - da escola, o pai o retira dela e o deixa ficar em casa... As razões para esta mudança é o próprio Nava quem as enumera, em Baú de ossos : “ Farto da sogra, farto de fazer oposição, farto do Antônio Carlos, das picuinhas e perseguições miúdas da situação municipal, meu Pai resolvera afinal vir para o Rio com a mulher grávida e três filhos (...) Vinha fazer concurso para legista e sanitarista.” Mortes deste tempo, como as do tio Chiquinhorta, de uma prima distante, “uma santinha de cera”, bem como do “anjinho” esverdeado de azeitona, o filho da ama de leite da irmã caçula, Ana, nascida pouco depois da morte do pai, vão povoar-lhe a memória infantil. É, no entanto, o falecimento do próprio pai, ocorrido a 30 de julho de 1911, quando Pedro Nava tem apenas 8 anos, que porá fim não somente à etapa carioca da vida nômade do futuro escritor, com sua família, mas também a uma parte dele próprio: ”Não sei se sofri na hora. Mas sei que venho sofrendo destas horas a vida inteira. Ali eu estava sendo mutilado e reduzido a um pedaço de mim mesmo, sem perceber, como o paciente anestesiado que não sente quando amputam sua mão. Depois a ferida cicatriza, mas a mão perdida é dor permanente e renovada, cada vez que a intenção de um gesto não se pode completar.” Grávida da caçula, D. Diva regressa, com os filhos, a Juiz de Fora e ao sobrado da Nhá Luísa... Da convivência com esta família materna, o menino extrai a sensação de distância nas relações com a avó, e de ausência, no que se refere ao avô... contrabalançadas com a proximidade relativamente à criadagem da casa senhorial.
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RETRATO DO MEMORIALISTA QUANDO JOVEM INTERNO |
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| O jovem Pedro Nava anda de monóculo e os amigos dizem que ele é “o Conde”... Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA. |
Órfão de pai, o menino Pedro Nava vai para Belo Horizonte, com a família, a fim de cursar, como interno, o Ginásio Anglo-Mineiro: “No Colégio Andrès, na Escola Pública do Rio Comprido, no Lucindo Filho, eu tinha sido aluno externo e, preso à placenta doméstica, mal reparara, mal convivera com meus colegas. Tinha vivido em família, no meio de velhos - velhos mesmo ou que pelo menos assim pareciam para mim. Ainda não tinha convivido, concorrido, dado de cotovelos com gente de minha idade. Ia ter esta experiência como interno no Anglo. Ia viver por mim mesmo, arranjaria novos amigos e começaria a ter os primeiros inimigos,” conta-nos ele em suas memórias. Recém chegado, admirou, logo à primeira vista, o brasão das armas do novo educandário, exposto nas paredes, com o escudo partido em dois hemicampos, um de blau e o outro de goles, tendo como peças três abelhas de ouro postas em triângulo e a divisa mens sana in corpore sano. Contrastando com tão evidente sinal de requinte, em Balão cativo Pedro Nava nos conta : “Cheguei nos primeiros dias de março de 1914, levado por minha Mãe. Meu enxoval vinha numa canastra de cedro das antigas, das de encaixe, sem um prego, ferro só nas dobradiças e fechadura - objeto que me desesperava e que vejo, hoje, era peça de museu (...) Nela, as roupas à caçadora, o demônio do azulão, os calções malfadados que seriam a gênese de minha insegurança, de meus recuos, de minhas demissões pela vida afora.” “Com dez anos subi o nosso Caminho Novo, mudado para Belo Horizonte. Já tinha provado tudo que nasce do contato com o semelhante. Amizade, carinho, ódio, rancor, ciúme, rudimentos de amor. Experimentara proteção, ajuda, perseguição, desamparo e a gelatina da indiferença. Fora preferido e escorraçado. Vedete e passado para trás. Sentira o arrocho dos círculos concêntricos do mundo e vira a Morte se intrometendo. Aprender a carne, começando pela pornografia. Sabia chorar e dissimular. Conhecia, pois, a vida em suas verdades essenciais e estava pronto para a transida solidão da poesia. Vai, Pedro! Toma tua carga nas costas e segue,” prossegue Nava, em Balão Cativo. Na moderna capital mineira, a família troca frequentemente de endereço: “Moraríamos vários anos na Floresta. No quarteirão formado por Januária, Pouso Alegre, Jacuí e Rio Preto, sempre em casas do seu coronel. Residimos sucessivamente no 327, do primeiro logradouro; no 690, do segundo; no 185, do terceiro. Mais tarde é que fomos para um prédio do Seu Raul Mendes, à Avenida do Contorno, mas isto já em período de aculturação e ensaio do abandono do velho bairro do Júlio Pinto.” De volta ao Rio de Janeiro, Nava estudará, posteriormente, Humanidades, também em regime de internato, no Colégio Pedro II. “A data bissexta está num caderno do meu tio Antônio Salles : “ 29 de fevereiro de 1916 - Pedro veio para a nossa companhia.” Foi o dia em que despenquei Caminho Novo abaixo para me matricular no Internato do Colégio Pedro II. Saí de Belo Horizonte, às quatro e vinte da tarde, hora clássica do noturno do Rio de Janeiro. Minha primeira viagem sozinho, “narra-nos o memorialista em Balão cativo. Em Homenagem a Pedro Nava, o escritor Afonso Arinos, seu amigo e colega dos bancos escolares, assim recorda a popularidade do companheiro entre seus pares : “ Nava, também chamado “o Conde” , andava de monóculo e era um dos líderes do Colégio, não se sabia bem por quê. Não era estudante excepcional, não se destacava na ginástica nem nos esportes, não era poeta confesso (não havia prosadores ), nunca foi rixento, indisciplinado ou orador. Talvez não liderasse propriamente, mas fascinava o Colégio, por uma força indefinível, talvez por isso mesmo. Não se sabe bem por quê, mas, sem razão específica, o Conde era o centro de atrações.” Em 1921, vamos encontrar Pedro Nava de volta a Belo Horizonte, onde colará grau em Medicina, a 10 de janeiro de 1928.
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BAR DO PONTO, RUA DA BAHIA |
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“Ponto - porque era o local da Estação dos Bondes.” “Bar - pelo café que lhe ficava em frente, escancarado para a via pública.” (Beira - Mar ) “Uma das coisas mais importantes para a vida de nosso grupo foi a visita, logo depois da Semana Santa de 1924, da Caravana Paulista que andava descobrindo o Brasil depois do Carnaval passado no Rio de Janeiro. Em Minas ela entraria por São João del-Rei e sairia por Congonhas do Campo. Belo Horizonte estava no itinerário. Tive notícias do grupo na rua da Bahia, por Carlos Drummond que estava convocando visitantes para irem ver os paulistas no Grande Hotel.” (Beira - Mar) Amigo de Carlos Drummond de Andrade, Nava é por ele apresentado ao grupo composto pelo próprio poeta e mais Abgar Renault, Emílio Moura, Mário Casassanta, Gustavo Capanema, João Alphonsus de Guimaraens, Guilhermino César, Ciro dos Anjos, Ascânio Lopes, entre outros, que se reunia na Livraria Alves e no Café e Confeitaria Estrela. Dos integrantes desta geração belohorizontina viria a contribuição mais importante das Minas Gerais para o Movimento Modernista brasileiro .
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NAMOROS COM A MEDICINA NO TERRITÓRIO DO EPIDAURO |
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“peço, entretanto, que me recebam como quem tem procurado suprir o que lhe mingua de talento pelo que conservou de coração. Como quem tem sido Médico e tem exercido a Medicina na certeza absoluta das suas possibilidades de sedar a Dor e retardar a morte.” (Pedro Nava, Discurso de posse como membro titular da Academia Nacional de Medicina) Formado, Nava clinica em Minas Gerais: em Belo Horizonte e na Juiz de Fora natal, transferindo-se, em seguida, para Monte Aprazível, no estado de São Paulo.
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| O MÚLTIPLO NAVA | |
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Médico, poeta bissexto, Pedro Nava é, ainda, autor de quadros, que ornamentam seu apartamento na Rua da Glória. Diverte-se, enganando os amigos com seu talento de imitador do estilo de pintores famosos, como Cândido Portinari. Não somente se dedica à pintura; também o desenho e a colagem dão suporte à sua imaginação criadora, na escrita das memórias. Inicia-se no desenho bastante jovem, realizando esboços colegiais de professores do Anglo-Mineiro, do Pedro II, bem como caricaturas.1924 vai encontrá-lo publicando desenhos na revista Estética. De 1925 a 1930 concentra sua produção artística de ilustrador do Macunaíma, de Mário de Andrade, do poema “ Juiz de Fora”, de Austen Amaro e do livro de seu amigo Afonso Arinos de Melo Franco, Roteiro lírico de Ouro Preto.
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| RIO DE MUITOS JANEIROS | |
| Pedro Nava é professor catedrático do Centro de Ciências Biológicas da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA. |
1933 vai encontrar o Dr. Pedro Nava morando novamente no Rio de Janeiro, desta vez para sempre . Chefe de serviço de hospitais da municipalidade, exerce a direção do Hospital Carlos Chagas, bem como do Departamento de Assistência Hospitalar. Estamos em seu período áureo na medicina. Livre-Docente de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da então Universidade do Brasil, catedrático e professor emérito do Centro de Ciências Biológicas da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Pedro Nava recebe o título de professor “honoris causa” da Faculdade de Medicina de Barbacena, no estado de Minas Gerais. Em 1946, torna-se fundador, juntamente com o professor Pasteur Valéry-Radot, da Sociedade Franco-Brasileira de Medicina, de que, no mesmo ano, passará a diretor. Iniciador da Reumatologia no Brasil, lança, em 1947, Território de Epidauro. No ano seguinte, publica Capítulos da História da Medicina no Brasil. De 1947 a 1963, faz diversas viagens profissionais, principalmente à França mas também a vários outros países europeus.
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| AS MEMÓRIAS | |
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As Memórias parecem ser uma dessas obras que têm a forma, e mesmo a índole, de obras-falésias, suspensas sobre o mar de uma cultura, a qual protegem e assombram, são sua referência e face abrupta e desconhecida.” (José Maria Cançado ) 1o de novembro de 1968: Pedro Nava, então com 65 anos, dá início à redação de Baú de Ossos, que viria a ser o primeiro dos seis volumes completos das memórias nas quais trabalhará até a sua morte. Tendo sido, até então, autor bissexto de poemas, que Manuel Bandeira publicaria numa antologia, juntamente com outros poetas esporádicos e também do que ele próprio chamou “um romance burocrático”, cuja escrita abandonou em 1949, torna-se um memorialista contumaz, deixando uma das obras mais alentadas no gênero. Nascido de textos esparsos, escritos mais ou menos ao sabor do acaso – apontamentos, retalhos de memória, desenvolvidos ao longo de quase dois anos – este primeiro volume surpreenderá escritores como Fernando Sabino, Otto Lara Resende, que dele dirá tratar-se de livro fundador, dando, sozinho, notícia de toda uma cultura, e Carlos Drummond de Andrade, sendo também aplaudido pela crítica especializada e consagrando o autor. Vão segui-lo Balão Cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira - Mar ( 1978), Galo - das - Trevas (1981), Círio Perfeito (1983).
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| A ESCRITA DE PEDRO NAVA | |
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Pertencendo a uma família de guardadores – de lembranças, curiosidades, cartas ... – que, de certa forma, preparou-lhe o terreno como memorialista, Pedro Nava, antes destes seis volumes, já escrevera centenas de artigos médicos, além do livro Território de Epidauro. Para as memórias, inquiriu os parentes ainda vivos acerca de determinados episódios, conferiu documentos deixados pelos mortos. Escrevendo à máquina, uma média de sete a oito páginas diárias, à tarde, o memorialista dividia seu tempo de aposentado com o trabalho matinal voltado para sua correspondência e para o fichamento de arquivos, o próprio e os de amigos e familiares. Vasculhando registros funerários, Pedro Nava revela encontrar neles nomes para substituir os reais que, por alguma razão, não poderiam aparecer em seus livros de memórias. Escreve dobrando em duas as folhas de papel que vai colocando na máquina de escrever, para facilitar-lhe as correções, mantendo, paralelamente, um caderno de notas, no qual escreve apenas em um dos lados da página. Isto lhe permite cortá-la, quando necessário, obtendo uma ficha já pronta. Nava considera-se um “autoleitor”, consciente de seus processos narrativos, comparando a escrita a um jato d’água, inicialmente lamacento que julga necessário transformar, posteriormente, em água potável. Para isto, corrige à noite o que havia escrito durante a tarde. Confessa-se um euclidiano, declarando haver lido 20 vezes Os Sertões . Admira Eça de Queiroz, Proust, Shakespeare, Dickens, Anatole France e o brasileiro Raul Pompéia, autor de um livro de cunho autobiográfico sobre a vida de um menino no internato, O Ateneu. “Sempre que leio um livro”, diz em sua correspondência, “corporifico os personagens da ficção em figuras da vida real. Como se o personagem fosse meu”. Seguindo conselho do amigo Carlos Drummond de Andrade, passa a guardar tudo que escreve, colecionando o material usado na escrita de suas memórias e deixando-nos assim um precioso testemunho de seu processo de criação.
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| A OBRA (trechos) |
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“Quando morto estiver meu corpo evitem os inúteis disfarces, os disfarces com que os vivos, só por piedade consigo, procuram apagar no Morto o grande castigo da Morte. Não quero caixão de verniz Nem os ramalhetes distintos, Os superfinos candelabros E as discretas decorações . Eu quero a morte com mau gosto ! (...) E descubram bem minha cara: Que a vejam bem os amigos. Que a não esqueçam os amigos E ela lance nos seus espíritos A incerteza, o pavor, o pasmo... E a cada um leve bem nítida A idéia da própria morte. (...) Meus amigos! tenham pena, Senão do morto, ao menos Dos dois sapatos do morto! Dos seus incríveis, patéticos Sapatos pretos de verniz. Olhem bem estes sapatos E olhai os vossos também. (“O Defunto” ) “O teu corpo fabuloso que destruíste destroçando, com a tua, minha vida, que te pertencia, - já fez muitos anos que descansa em paz, no carneiro 11.514 da quadra número 4 do Cemitério de S. João Batista. Desde então tua alma indomável Navega nos planos siderais Arrebatada no carro de fogo Do profeta Elias. Mas todos os dias, hora por hora, no fundo da cova de silêncio e treva em que me lançaste, clamo por ti. Clamo pela radiosa, pela amada, pela rosa Clamo por quem foi a fartura do pobre, a esperança do lázaro e a ressurreição do morto.” (“Nameless
here for evermore”) “Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais. Se não exatamente da picada de Garcia Rodrigues, ao menos da variante aberta pelo velho Halfeld e que, na sua travessia pelo arraial do Paraibuna, tomou o nome de Rua Principal e ficou sendo depois a Rua Direita da Cidade do Juiz de Fora. Nasci nessa rua , no número 179, em frente à Mecânica, no sobrado onde reinava minha avó materna. E nas duas direções apontadas por essa que é hoje a Avenida Rio Branco hesitou a minha vida. A direção de Milheiros e Mariano Procópio. A da Rua Espírito Santo e do Alto dos Passos.” (Baú de ossos ) “À hora de levantar, ainda escuro, ouvimos pela última vez o apito da fábrica e ao seu silvo lancinante minha Mãe começou a chorar - entendendo pela primeira vez aquele apelo prolongado que a chamava para sua vida de operária dos filhos, de proletária da família. Logo enxugou as lágrimas e tocou pra frente. Enterrou ali mesmo sua existência de Sinhá-Pequena para iniciar a luta áspera da Dona Diva.” (Baú de ossos ) “Não importa muito a direção. O que sei é que aquela encosta do morro e a sombra que dele se derramava sobre a chácara da Inhá Luísa ficaram representando o lado noruega da minha infância. Nunca batido de sol. Sempre no escuro. Todo húmido, pardo e verde, pardo e escorrendo.” (Balão cativo) Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade ? (João: XVIII-38 ) É com essa pergunta que entro nesta fase de minhas memórias, fase tão irreal e mágica e adolescente como se tivesse sido inventada e não vivida. Se eu fosse historiador, tudo se resolveria. Se ficcionista, também. A questão é que o memorialista é forma anfíbia dos dois e ora tem de palmilhar as securas desérticas da verdade, ora nadar nas possibilidades oceânicas de sua interpretação.” (Chão
de Ferro ) “A impressão da vida funcionária sobre minha natureza até então em constante mudança, aquela entrada num ramerrão repetido dia a dia e duma igualdade de encher linguiça, foi uma das mais fundas impressões de minha vida. Durou tanto (dura até hoje ) que em 1949 cheguei a tentar o início de um romance burocrático que, por várias circunstâncias, ficou em suas primeiras páginas - páginas que não deixam de ser um pouco das camadas profundas de mim mesmo, de onde veio a idéia de escrever estas memórias.” (Beira
- Mar ) “Mas o que encantava o Egon era um indefinível no céu e nos ares – os quais lhe davam uma como que impressão de mar próximo. Parecia-lhe que o fundo desta ou daquela rua ia desembocar em praias imensidões de areias como são as da metrópole em São Pedro da Aldeia, pra lá das rias de Aveiro, Nazaré, Sesimbra e a Vieira. E essa impressão é que teriam sentido todo o tempo os naturais da Diamantina conferindo-lhe aquele cunho de ser uma das cidades das mais portuguesas e marítimas de Minas.” (Galo-
das-
trevas ) “O
que há de terrível na vida mundana é a perda de tempo – a troca inútil
de visita, jantares e almoços de cortesia, as obrigações de missas de sétimo
dia, de casamentos, ação de graças, bodas de ouro e prata. Velórios.
Tudo isto é motivo de encontros tantas vezes desagradáveis, com outros
que não os verdadeiros amigos, sobretudo nas casas cujos anfitriões
fazem inevitavelmente ímpares convidando
para refeição e pondo juntos, à mesa, pessoas que reciprocamente teriam
vontade de se verem - uma no
enterro da outra. Isto é o que fez Proust dizer com impaciência e até
ferindo os verdadeiros amigos que “ ...l
´artiste qui renonce à une heure de travail pour une heure de causerie
avec un ami , sait qu´il sacrifie une realité pour quelque chose qui n´existe
pas...” (Círio Perfeito )
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