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PATRÃO LOPES
Joaquim
Lopes
salva-vidas: 1798 - 1890
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1798: Joaquim Lopes nasce em Olhão. - 1804: Entra na Escola Primária. - 1817: Emigra para Gibraltar, onde fica apenas 11 meses. - 1819: Segue para Lisboa e daqui para Paço de Arcos. - 1820: Remador na falua que liga a Torre do Bugio a Paço de Arcos. - 1823: 1.º salvamento, de pai e filho, na confluência do rio Oeiras com a foz do Tejo. - 1824: Casa com Maria do Rosário, sua prima em 3.º grau. - 1828: Salva o sargento Francisco de Sales. - 1833: É nomeado patrão da falua do Bugio. - 1856: Salva a tripulação da escuna inglesa Howard Primorose. - 1858: Tenta salvar os náufragos da escuna inglesa British Queen. - 1859: Salva o Comandante e mais dois tripulantes do Stephanie, navio francês. - 1864: Salva grande parte da tripulação do bergantim espanhol Achiles; salva toda a tripulação do iate português Almirante; El-rei D. Luís coloca-lhe ao pescoço o colar da Ordem da Torre e Espada, a mais alta condecoração portuguesa. - 1866: É nomeado mestre da Armada e graduado segundo-tenente. - 1882: Com 85 anos, e já tolhido das pernas, ainda tenta socorrer Lucy, lugre francês. - 1890: Por causa do Ultimatum devolve todas as condecorações que recebera do governo inglês; com 92 anos, morre em Dezembro do mesmo ano.
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UM GOLFINHO A BRINCAR POR ENTRE AS ONDAS? |
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Filho de pescador, nasceste nos finais do sec. XVIII, à beira-mar, no Algarve, em Olhão. Vais à escola, aprendes a ler, a escrever e a contar, mas aos dez anos já estás a ajudar o teu pai na faina da pesca e logo começas a tratar o mar por tu. Trepas ao mastro, ferras a vela, lanças e puxas as redes, limpas e lavas o convés, manejas remo e croque, mas o que mais impressiona os outros pescadores é a tua assombrosa forma de nadar, pareces um golfinho a brincar por entre as ondas.
Na tua família o dinheiro é escasso. Por isso, aos 19 anos, com a benção dos teus pais, emigras para Gibraltar, em busca de melhor sorte. Mas não suportas o novo ambiente e, 11 meses depois, tornas a casa. Melhor dizendo: tornas à cabana dos teus pais.
Mais uns mesitos em Quarteira (Algarve) e partes para Lisboa. Dali vais para Paço de Arcos, frente à foz do Tejo, onde vivem muitos algarvios. Seduz-te o choque permanente entre as águas fluviais a abrirem passagem para o mar alto e as do oceano a quererem assaltar o leito do rio...
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| DE PAÇO D'ARCOS AO BUGIO | |
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Na barra do Tejo há cachopos que afloram à superfície. Próximo da margem esquerda, há também um ilhéu rochoso-arenoso sobre o qual foi levantada a Torre de S. Lourenço da Cabeça Seca. Mas como o nome do ilhéu era Bugio, a fortificação passou a ser conhecida como Forte do Bugio. Sua função: guardar a entrada do Tejo. Mas dali nunca foi e jamais será disparado um tiro de ataque ou defesa, só de alarme. O Bugio acabará por ser convertido apenas em farol. Mas em 1820, quando tu arribas, no Bugio há uma permanente guarnição de 50 militares. E a única ligação que eles têm com terra firme, é a falua que faz a carreira Paço de Arcos - Bugio, ida e volta. Nessa falua vais alistar-te como remador. A soldada é apenas 12 vinténs, mal dá para comer. É por isso que arranjas trabalho complementar em canoas de pesca da barra. Pouco tempo depois consegues adquirir a tua própria canoa. Em consequência, começas a viver mais desafogado.
Durante as travessias da falua para o Bugio e da tua faina de pesca, observas atentamente as variações, quer de sentido, quer de intensidade, das correntes na barra, desde a preia-mar à baixa-mar. Observações mais do que vantajosas para aquela que virá a ser a tua vida.
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| PRIMEIROS SALVAMENTOS | |
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Junto a Paço de Arcos o pequeno rio Oeiras desagua em plena foz do Tejo. Em Julho de 1823 um homem, com o filho às costas, tenta atravessar a vau o rio Oeiras. Perde o pé e ambos são arrastados para longe. Forte é a correnteza e todos temem acudir. Tu não temes, varar e domar as águas que bem conheces, é contigo. Mergulhas, salvas a criança e depois o pai.
Pouco tempo depois, no Forte do Bugio, repetes a proeza quando te atiras à água para salvar um cabo de Artilharia que tinha sido arrastado por uma vaga.
Em Paço de Arcos diz-se que tu fizeste jorrar generosidade e coragem desde Olhão até à foz do Tejo...
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| CASAMENTO | |
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Em 1824 casas na Igreja de Oeiras (povoação ao lado de Paço de Arcos) com Maria do Rosário, tua prima em 3.º grau, também ela natural de Olhão e tua prometida desde os teus 18 ou 19 anos. Maria do Rosário dar-te-á sete filhos, duas raparigas e cinco rapazes. Dois deles, Quirino António e Carlos Augusto, também irão distinguir-se, tal como tu, no socorro aos náufragos.
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| O NOVO PATRÃO DA FALUA | |
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Em 1828, outro salvamento que impressiona o povo é o do Sargento Francisco de Sales, também ele envolvido e arrastado por uma vaga quando se preparava para desembarcar no Bugio. Ele a ser arrastado e tu a mergulhares atrás dele, salvação! O teu entendimento das manhas da foz e a tua valentia provocam a seguinte situação: em 1833, numa crise de cólera, morre o patrão (comandante) da falua do Bugio. É tradição que assuma a vaga o remador mais antigo. Mas desta vez todos os remadores pedem ao governador do Forte do Bugio que sejas tu o nomeado, apesar de seres o mais recente. E isso - argumentam eles - porque o patrão deve ser o mais hábil e o mais leal dos marinheiros. O governador não hesita, nomeia-te, passas a ser o Patrão Lopes, com direito a morar na Rua Direita de Paço de Arcos, junto àquele que virá a ser o Instituto de Socorros a Náufragos.
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| HOWARD PRIMOROSE | |
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Em 1856 o Patrão Lopes socorre a Howard Primorose, escuna inglesa que naufraga. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA |
Um salvamento atrás do outro mas aquele que te dá fama nacional e até internacional ocorre em 1856:
Os Fortes de S. Julião e do Bugio disparam tiros de alarme, a escuna inglesa Howard Primrose encalhara nos baixios da barra. Tu, mais o teu filho Quirino e uns tantos voluntários, logo saltam para a falua. Seis horas a remar e não consegues aproximar-te da escuna, a falua é muito pesada para manobrar por entre baixios. A essa conclusão já tinham chegado os tripulantes de um escaler da Alfândega e de um vapor de guerra. Regressas a Paço de Arcos e vais buscar a tua canoa de pesca, embarcação bem mais ligeira. Mais 6 horas e a escuna, sob o impacto das vagas, já ameaça partir-se ao meio. Mas, finalmente, vocês conseguem resgatar o comandante e mais cinco marinheiros. Apenas morreu um que, apavorado com o navio a destroçar-se, se atirara precipitadamente à água.
Desembarcas os sobreviventes na estação fluvial de Belém e contas as peripécias ao Comandante da corveta Oito de Julho. Também lhe passas os nomes dos teus camaradas salva-vidas.
Pela tua bravura o governo britânico atribui-te a Medalha de Prata da Rainha Vitória e à tua marinhagem dá umas libras de ouro para aquecer os bolsos...
E as autoridades portuguesas? Não piam, ignoram o salvamento... Circunstância que provoca comentários da imprensa. É então que um oficial do Bugio, metido a esperto, se apresenta como o herói do feito, pois fora ele quem avistara a escuna encalhada e dera sinal de alarme. História logo revelada pelo Jornal do Comércio. Em consequência, El-rei D. Pedro V atribui ao espertalhão a Torre e Espada, a mais importante condecoração portuguesa. Mas passados dois anos, o mesmo Jornal do Comércio repõe a verdade publicando os relatos da tripulação da escuna inglesa e do Comandante da corveta portuguesa Oito de Julho. Por forte pressão da imprensa, é-te por fim atribuída a medalha de prata de D. Pedro e D. Maria.
Também é organizada uma subscrição pública para compensar financeiramente o teu heroísmo. Mas tu recusas, tu devolves, tu refilas:
- Quem tem que me remunerar é o Governo, não é o Povo, porque eu não dependo nem quero depender da caridade pública...
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| SALVA VIDAS DE BELÉM PARA PAÇO D'ARCOS | |
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Em 1856 o Governo manda instalar um salva-vidas na estação fluvial de Belém. Embarcação a remos, leve porém robusta, muito mais do que a tua canoa de pesca. Contudo, durante os naufrágios na barra, continuas a ser o primeiro a chegar! Compreende-se: estás melhor localizado...
Em Fevereiro de 1858 a escuna inglesa British Queen encalha junto ao Bugio. Dada a violência do mar, com a tua canoa de pesca mal consegues aproximar-te. Com muita dificuldade salvas apenas o Comandante e um cãozinho que por ali andava a nadar aflito por entre as vagas. A propósito, dizes para os teus marinheiros:
- Aquele ali também tem vida e é o melhor amigo do homem...
Recolhes o cão e regressas a terra juntamente com o Comandante da British Queen.
Apesar dos fracos resultados do salvamento, a Coroa inglesa agracia-te com a Medalha de Ouro de Mérito Humanitário. Toda a tua tripulação é também agraciada com a mesma medalha, mas de prata.
Finalmente, em 1859, o Governo transfere o salva-vidas de Belém para Paço de Arcos e coloca-o sob as tuas ordens. Resmungas: “mais vale tarde do que nunca”.
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| EL REI D. LUÍS | |
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Salvamentos e mais salvamentos. Entre eles aponto:
Em 1859 salvas o Comandante e mais dois tripulantes do Stephanie, navio francês também encalhado no Bugio. És condecorado com a “Medalha de Dedicação e Mérito” e também com a “Medalha de Valor e Filantropia”, ambas francesas.
A 19 de Fevereiro de1864 salvas grande parte da tripulação do bergantim espanhol Achiles. A Espanha atribui-te a medalha de ouro “Distinção Humanitária”.
Três dias depois, a 22 de Fevereiro, salvas toda a tripulação do iate português Almirante. Mais uma vez o Governo português nem sequer pia. Mas a 24 de Fevereiro El-rei D. Luís bate à porta da tua casa humilde. Toda a tua família e toda a população de Paço de Arcos ficam em polvorosa.
O monarca pergunta e tu vais contando os teus feitos, rude linguagem de lobo do mar, porém sincera até mais não poder. El-rei convida-te a visitá-lo no paço de Caxias, povoação vizinha de Paço de Arcos, e onde pousava transitoriamente. Aceitas o convite e no dia seguinte estás do Paço de Caxias. Entras, El-rei abraça-te e coloca-te ao pescoço o colar da Ordem da Torre e Espada, a mais alta condecoração portuguesa. E tu, rijo homem do mar, não tens vergonha de, comovido, soluçar contra o peito do teu monarca.
Mas uma coisa são as gloriosas condecorações, outra é a penúria em que tu vives. O Governo não se mexe, não quer saber do que está a acontecer em Paço de Arcos. Porém o Marquês Sá da Bandeira, deputado da Oposição, dispara o seu discurso como se fosse um arcabuz e o Governo, finalmente, abre os olhos: com a aprovação prévia do Parlamento, atribui-te uma pensão anual de 240 mil réis, transmissível à tua mulher e filhas, em caso de passamento teu. Se tu salvaste muitos da fúria das águas, Sá da Bandeira salvou-te da fúria da miséria...
As coisas começam a compor-se: em 1866 és nomeado mestre da Armada e graduado segundo-tenente, em diploma assinado por El-rei e pelo Visconde da Praia Grande.
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| BALANÇO | |
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Em 1882, com 85 anos e já tolhido das pernas, mandas que te amarrem ao leme e ainda tentas socorrer o Lucy, lugre francês. Felizmente o teu filho Quirino António, que estava fora de Paço de Arcos, ouviu o disparo do Forte de S. Julião da Barra e acorre a tempo de te obrigar a passar para a falua e é ele quem, no salva-vidas, efectua o salvamento.
Tomás Ribeiro, o poeta, dedica-te uma quadra:
Quando o Patrão já velho, ao pé do mar assoma, só de o encarar, o oceano se atemoriza e doma.
Em 1885 o poeta e o Marquês da Fronteira, teus amigos, mandam inscrever esses versos numa lápide que é afixada no frontispício da tua casa.
Fazes o balanço da tua vida, dizes:
- Se não me falham as contas, nem a memória, socorri mais de 53 navios e salvei mais de 300 vidas.
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| ULTIMATUM | |
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Em 1890, Ultimatum da Inglaterra a Portugal, por causa dos territórios africanos que as duas nações disputam. Tens 92 anos mas ainda a necessária lucidez e fibra para devolver ao governo inglês as condecorações com que ele te agraciou. E para convencer os teus filhos a seguirem o teu exemplo.
Morres a 21 de Dezembro do mesmo ano. Consternação e luto em Paço de Arcos, as lojas com as portas fechadas, as embarcações a rumarem para a praia com bandeiras a meia-haste. A Marinha organiza o teu funeral, barcos de guerra a escoltarem o teu corpo até ao Arsenal, junto ao Terreiro do Paço, em Lisboa. No cortejo, por decisão de El-rei D. Carlos, também se integra o iate Amélia, assim chamado em homenagem à rainha sua esposa. Finalmente és sepultado no cemitério de Oeiras.
Quando hoje atravesso Paço de Arcos e vejo o teu busto de bronze no parque fronteiro ao mar, e depois o Instituto de Socorros a Náufragos que tu inspiraste e a Rainha D. Amélia concretizou, tenho sempre a sensação, não sei porquê, que ando contigo a remar rumo ao Bugio.
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