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OSVALDO CRUZ
Médico, cientista: 1872 - 1917
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1872: Nasce Osvaldo Gonçalves Cruz em São Luís do Paraitinga, serra da Mantiqueira, vale do Paraíba, Estado de São Paulo, Brasil. - 1877: A família Gonçalves Cruz muda-se para o Rio de Janeiro - 1887: Osvaldo entra na Faculdade de Medicina. - 1891: Estudante ainda, publica dois trabalhos sobre microbiologia. - 1892: Com 20 anos, forma-se em Medicina. - 1893: Casa com Emília da Fonseca. - 1896: Vai estudar em França. - 1897: É admitido no Instituto Pasteur. - 1899: Regressa ao Brasil. - 1900: Assume a direcção técnica do Instituto de Manguinhos (Instituto Soroterápico Nacional). - 1903: Toma posse como director da Saúde Pública; sem contemplações, políticas ou outras, forma e assume a liderança da equipa sanitária que irá erradicar as doenças que dizimam a população brasileira: febre amarela, varíola e peste bubónica. - 1907: Em Berlim, obtém o 1.º Prémio do XV Congresso Internacional de Higiene e Demografia. - 1912: Comanda o saneamento do vale amazónico. - 1916: Exausto, retira-se para Petrópolis. - 1917: Com apenas 45 anos, morre Osvaldo Cruz. |
AMIGO EXAUSTO |
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Petrópolis, Fevereiro
de 1917 - Lá em baixo, no Rio
de Janeiro, o tempo está muito abafado. Aqui, no alto da serra, a
temperatura é amena. Ainda bem. Estou sentado à cabeceira do meu amigo
exausto. Ele sorri e pergunta: -
Portuga, Você lembra de Mamãe me sacando da Escola? |
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| FAZER A CAMA... | |
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Disse, digo, direi
sempre: O saber contra a ignorância,
a saúde contra a doença, a vida contra a morte... Mil reflexos da
Batalha Permanente em que estamos todos envolvidos...
Osvaldo Cruz é o meu
nome. Desde menino fui treinado para combatente. Filho de D. Amélia Bulhões
(nome de solteira) e do médico Dr. Bento Gonçalves Cruz, nasci em 1872
em São Luís do Paraitinga, ali no Vale do Paraíba, serra da
Mantiqueira, Estado de São Paulo. Tenho uma irmã, Amália,
a quem todos chamam Sinhazinha. Também eu a chamo assim porque ela é
mesmo uma senhorinha. Tive outra irmã, Eugênia, que morreu na primeira
infância, coitadinha. Com Papai aprendo e
dele apreendo a tenacidade, a dedicação aos doentes, a força de
caracter. Mamãe ensina-me a disciplina, a autodisciplina e também as
primeiras letras. Aos cinco anos já sei ler e escrever. Mas empurram-me
para a Escola, meus pais acham que é imprescindível a convivência com
outros garotos.
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OS MICRO ASSASSINOS |
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A minha família
muda-se para o Rio de Janeiro em 1877. Ali Mamãe, em anos sucessivos, irá
dar à luz mais três filhas: Alice, Hortênsia e Noemi. Mais três
meninas que irão adorar-me... Papai é agora médico
na fábrica Corcovado e na Junta Central de Higiene. E eu entro na
Faculdade de Medicina em 1887, tenho apenas 15 anos. No primeiro dia de
aulas vejo que Mamãe sorri, tal pai tal filho, o saber contra a ignorância,
a doença contra a saúde, a vida contra a morte. Emília é filha do
Comendador José Maria da Fonseca. Foi minha namoradinha de infância.
Continua tendo uma queda por mim e eu por ela. Numa tarde de Dezembro de
1891, calor infernal, avista-me na praia do Flamengo, eu absorto, mirando
o mar, mirando o longe. Pega no meu braço, sacode a minha cisma. - Olá Emília, menina bonita, Você aí? Vontade minha é abraçá-la e beijá-la,
mas há que manter o decoro. Além do mais vem acompanhada pela mãe, não
é de bom tom uma donzela andar sozinha pelas ruas do Rio. Respeitosamente
cumprimento a senhora e começo a conversar com a filha. Puxo um assunto
que me consome: - Emília, Você não acha que em 1808,
ao decretar a abertura dos nossos portos a toda a navegação, D. João VI
estava promovendo o desenvolvimento do Brasil? - Osvaldo, isso toda a gente sabe, aprendemos na Escola... - Mas a febre amarela, vómito negro,
está sabotando a intenção régia. Hoje, raros são os navios
estrangeiros que demandam os portos brasileiros. - É natural... Ninguém
quer morrer de peste. - É isso aí... O
Brasil é um vasto hospital, é o que se diz em todo o mundo. Mando parar uma
caleche, convido e arrasto mãe e filha até minha casa. Mamãe e
Sinhazinha recebem as duas com beijinhos e abraços. Antes da conversa
descambar em frivolidades, puxo Emília para o meu laboratório. Ainda não
acabei o curso de Medicina mas já publiquei dois livros. Trato de mostrá-los
a Emília: Um caso de bócio exoftálmico em indivíduo do sexo masculino e Um
micróbio das águas putrefactas encontrado nas águas do Rio de Janeiro.
Também lhe mostro um microscópio, um instrumento para focar micróbios.
Convido-a a espreitar e ela espreita. Vê umas coisinhas a mexer,
assusta-se. São micróbios, porém inofensivos. Conto-lhe que os outros,
os patogénicos, são aos milhões a cercar a Humanidade. - Patogénicos? É
assim que Você chama os micro-assassinos? Diverte-me a
terminologia inventada por Emília. Digo-lhe que a minha ambição, no
Brasil, é combater e liquidar os micro-assassinos da varíola, tal como
Pasteur, em França, liquidou os do carbúnculo e da raiva. Tento
explicar-lhe o que é vacina. Não entende. Mas tem que entender, é só
encontrar a imagem incisiva: - Emília: um incêndio,
numa floresta, pode ser combatido com o fogo. Você sabe disso, não sabe? - Sim, sei, se o vento
estiver de feição.
- Então saiba que uma
doença pode ser combatida com produtos segregados pelas bactérias da própria
doença. A isso é que se chama vacina e, com o nosso saber e o nossos
querer, somos nós que sopramos o tal vento de feição. Depois é só
vacinar todo o povo para erradicar a doença.
Vacinar todo o povo?
Emília duvida, abana a cabeça, cepticismo: no Brasil o povo só acredita
no que vê e os micro-assassinos não têm corpo visível...
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A FRAGATA LOMBARDIA |
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No Rio de Janeiro a febre amarela mata 144 marinheiros italianos. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
No ano seguinte (1892)
concluo o curso de Medicina, tenho apenas 20 anos. A minha tese “A água como veículo dos micróbios” é louvada pelos mestres
e aprovada com distinção. Em 1893 caso com a Emília
da Fonseca. Em 1895 a fragata italiana Lombardia fundeia na baía da Guanabara. Os marinheiros descem a
terra, 340. Em alguns dias de passeio pela ruas do Rio, 240 apanham a
febre amarela. Destes, morrem 144, inclusive o comandante.
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NO INSTITUTO PASTEUR |
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Perde-se uma batalha
mas nem por isso acaba a guerra. Aspiro especializar-me em microbiologia.
Emília carpindo mas em 1896 parto para França. O meu sogro é um homem
rico, dinheiro não faltará para a viagem e a minha estadia na Europa...
Em Paris começo a
trabalhar com Ollier e Vilbert, medicina legal. Mas a minha verdadeira
paixão é a microbiologia. Em 1897 consigo ser admitido no Instituto
Pasteur, dirigido pelo Dr. Émile Roux, descobridor do soro anti-diftérico.
Ele e o Dr. Ellie Metchnikoff serão os meus principais orientadores.
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| REFLEXOS (LITERÁRIO E POLÍTICO) | |
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Releio os versos que um dia escrevi nas
costas de uma fotografia de Emília:
Tu és minha, eu sou teu, Releio, sorrio, pergunto: como foi possível
eu escrever uma coisa tão insonsa? Até nas Letras se reflecte a Batalha
Permanente. Cativa-me a inovação contra a vulgaridade. De Paris envio
uma carta a Emília. Opino que As
Flores do Mal alçaram Baudelaire à posição de príncipe dos
poetas. Vai ficar surpreendida pois acha que eu só penso em
micro-assassinos. Foram eles que me arrastaram do Rio a Paris. Foram eles
que, depois de três anos de casados, me roubaram ao seu convívio.
Parece-me que estou a ouvi-la: Agora
o cientista está interessado em Literatura? Mas que absurdo!
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| PESTE BUBÓNICA | |
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O Dr. Roux convida-me
a ficar no Instituto Pasteur,
insiste. Agradeço o convite mas o Brasil precisa de mim, o meu país não
pode estar condenado a ser, para sempre, um vasto
hospital. Regresso em 1899.
Durante a travessia do Atlântico evito o convívio com os outros
passageiros, não suporto a ignorância endinheirada. Desço no Rio. Mal acabo de abraçar e
beijar Emília quando me dão a notícia: no porto de Santos deflagrara
epidemia de peste bubónica. O Instituto
de Higiene encarrega-me de avaliar a extensão do mal. Viajo para Santos. Investigo e concluo
que um navio, oriundo do Oriente Médio, desembarcara talvez passageiros,
de certeza ratos contaminados. Consequência: a peste alastrara pela
cidade. Centenas de vítimas agonizam pelas ruas. Outras tentam fugir para
o interior, espalhando o mal. E se o mesmo navio tocou no Rio de Janeiro,
ou um doente para lá fugiu, a peste eclodirá na capital. Já não nos
bastava a febre amarela? Agora também a peste bubónica, a que muitos
chamam de peste negra? É urgente dispor do soro para combater
o flagelo. Mas importá-lo pode implicar demora fatal. Melhor será
produzi-lo aqui. É decidido que na fazenda de Manguinhos, nos arredores
do Rio, seja instalado o Instituto
Soroterápico Nacional. “Não há no país um técnico competente
para dirigi-lo”, é o que dizem os governantes. São incapazes de
avaliar a capacidade de um Adolfo Lutz, de um Vital Brazil, de um Emílio
Ribas, de um Carlos Chagas (este acabará por trabalhar comigo em
Manguinhos). Somos cinco investigadores; sabemos que as doenças
tropicais, contrariamente ao que se apregoa, não derivam nem da maresia,
nem do clima quente e húmido, mas de micróbios patogénicos transmitidos
por alguns animais, tais como insectos e ratos. Porém a ignorância está
no poleiro e os governantes escrevem ao Dr. Roux, do Instituto Pasteur. Pedem-lhe que indique e ceda um dos seus
colaboradores para comandar o projecto. O Dr. Roux responde (humor gaulês)
que um dos seus técnicos mais qualificados vive no Rio de Janeiro,
chama-se Osvaldo Cruz... Nós, brasileiros, somos assim: o que temos em
casa não presta, só o que está lá fora é que é bom... Creio que herdámos
esta pecha dos portugueses (e que eles me desculpem por esta observação...).
Convidam-me, aceito e em Julho de 1900
eis-me à frente do Instituto de
Manguinhos, um pardieiro com um nome pomposo. A mesa de reuniões é
uma porta velha assente sobre barricas e as cadeiras são caixotes... Tenho que formar e disciplinar equipa.
Lembro-me de estar a autopsiar uma cobaia quando irrompe um fogo numa das
dependências de Manguinhos. Figueiredo de Vasconcelos, o meu assistente,
começa a correr para ir apagar o fogo. Peço-lhe: - Por favor, o que nós começámos, nós
vamos acabar. Já está lá muita gente para apagar o fogo... Pouco tempo depois a minha equipa
consegue produzir o soro que é logo enviado para Santos. E, a partir de São
Paulo, Adolfo Lutz faz o mesmo. Resultado: baixa drasticamente a
mortalidade provocada pela peste. No Rio de Janeiro, como eu previra, a
peste também acabou por eclodir. Nos bairros populares ponho vários
“homens da corneta” a comprar ratos mortos a 300 réis a cabeça. O
povo acha graça e assim vinga, na cidade, a caça ao rato. Vinga também
uma modinha divertida, “rato,
rato, rato, por que motivo roeste o meu baú?” No Rio de Janeiro a
aplicação do soro e a caça ao rato liquidam a peste em três meses. Figueiredo de Vasconcelos, a quem eu,
metaforicamente, puxara as orelhas, dirá de mim:
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| DE PARDIEIRO A PALÁCIO | |
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Num pardieiro é que se produzem os
medicamentos que irão defender a saúde dos brasileiros? Não aparo o
descalabro, os governantes estão equivocados a meu respeito... Sobraram verbas da Saúde Pública. É
quanto basta para que, em Manguinhos, eu mande construir um edifício que
realmente mereça o nome de Instituto
Soroterápico Nacional, quatro andares e dois torreões.
Exteriormente, o meu Instituto é um palácio em estilo mourisco, trago de França o
gosto pela art nouveau. Mas lá
dentro há tudo o que é indispensável para a pesquisa científica: relógio
eléctrico central que transmite a mesmo hora para todas as dependências,
balanças de precisão, aquecimento para as estufas de secagem de vidros,
aparelhos para registarem a temperatura de cada estufa, água destilada
por correntes de ar comprimido, etc., etc. As obras provocam comentários soezes
na imprensa e interpelações corrosivas no Parlamento. O Ministro da
Justiça tenta suspender as obras. - Senhor Ministro, um Instituto Soroterápico tem que ter instalações apropriadas,
dignas. Estou decidido a levantar o edifício. Se quer bloquear as obras,
dispense os meus serviços.
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| O CZAR DOS MOSQUITOS AO ATAQUE | |
| Osvaldo Cruz combate a febre amarela. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Em 15 de Novembro de 1902 Rodrigues
Alves é eleito Presidente da República. Em Dezembro toma posse. Promove
a revolução urbana do Rio de Janeiro. Rasga grandes avenidas no litoral
(zona sul) e no interior (zona norte)
e, ao mesmo tempo, trata de alargar as ruas do centro da cidade. Chácaras
e fazendas são desapropriadas e cortadas por vias públicas. Casas
velhas, tugúrios e quiosques imundos são demolidos. Interesses privados
são assim atingidos e começa a levantar-se um coro de protestos. É
quando Rodrigues Alves declara que vai acabar com as doenças que fazem a
desgraça e a vergonha do Brasil: febre amarela, peste bubónica e varíola.
Convoca-me e vou à sua presença. Digo-lhe que se me der os meios necessários,
em 3 anos acabarei com a febre amarela e mais tarde atacarei as outras
doenças. Pouco depois entrego-lhe o rol dos referidos meios. Num dia o
Presidente nomeia-me Director da Saúde Pública, mas no dia seguinte eu
peço a demissão porque nomeara para secretário do meu projecto, não
quem eu indicara, mas um figurão da sua confiança. Fica abismado com a
minha atitude mas recua, despede o figurão, nomeia quem eu indico. A 26
de Março de 1903 tomo posse. Primeiro inimigo a abater: a febre
amarela, com o seu vómito negro e mortal. Tenho portanto que liquidar o stegomia fasciata, o mosquito raiado que, ao picar os homens, neles
inocula o gérmen da doença. E isso só se consegue eliminando as águas
estagnadas onde proliferam as larvas e as ninfas dos mosquitos raiados.
Pedi ao Presidente um contigente de 1200 homens mas o Congresso, com as
suas burocracias, tarda em aprovar o meu pedido. Então resolvo que uma
brigada de 85 homens, chefiados pelo meu amigo Dr. Carneiro de Mendonça,
saia em campo. Os meus fiscais sanitários batem quintais e jardins. Na ânsia
de desinfectar invadem pátios e porões, trepam aos telhados, saturam com
petróleo as águas estagnadas, poças e charcos. No início, os cariocas
divertem-se e troçam dos mata-mosquitos.
O Dr. Carneiro de Mendonça passa a ser o mosquiteiro-mor
e eu ganho a alcunha de czar dos
mosquitos. Mas depois a população do Rio, tocada pela imprensa
(prosa satírica e caricaturas) e pela Oposição a Rodrigues Alves,
irrita-se, hostiliza, apela para a violência. Para impedir a inspecção
domiciliar dos meus agentes, os proprietários impetram habeas-corpus.
A Justiça começa por lhes dar razão e eu entro na briga. Em Tribunal
alego que, se numa rua, uma casa ficar por desinfectar, em breve a febre
amarela tomará conta dos seus habitantes que irão infectar os vizinhos e
isso é quanto basta para regressarmos aos cem óbitos diários de
antigamente. O Supremo Tribunal recua, o habeas-corpus
não pode ser aplicado nestes casos. E eu trato de acelerar o
saneamento da cidade. Rodrigues Alves pede-me que eu não seja tão rígido.
Não cedo e coloco o meu cargo à sua disposição. O Presidente mantém-me
no posto. Chega mesmo a dizer para um amigo comum: - É impossível que esse moço não
tenha razão.
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| ABAIXO A VACINA OBRIGATÓRIA! | |
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Mas a ignorância não desarma e a
guerra continua. Se a febre amarela atacava no Verão, a varíola ataca no
Inverno. É doença trazida para o Rio por imigrantes estrangeiros e
retirantes de outros Estados do Brasil. Armas para combatê-la são as
vacinas e essas já as mandei produzir, em grande quantidade, no Instituto
de Manguinhos. Todas as entradas no Rio passarão a ter postos de
vacinação. Nos finais de 1903 e princípios de
1904, na capital recrudesce a epidemia de varíola. Insisto com a Comissão
de Saúde Pública da Câmara para que edite lei que obrigue toda a população
a vacinar-se. A lei tarda a ser publicada mas eu avanço: em Maio de 1904
vacino mais de 8 mil pessoas, em Junho mais de 18 mil e em Julho mais de
23 mil. É quanto basta para que a imprensa e a Oposição a Rodrigues
Alves tornem a espicaçar a opinião pública contra mim: atentado contra
a liberdade individual, contra o pudor da mulher brasileira que será
obrigada a mostrar a coxa para ser vacinada, abaixo a tirania, abaixo a
vacina obrigatória! Respondo: “Quem
não quer vacinar-se poderá ser infectado.
E, ao sê-lo, transmitirá a doença a quem não deseja ser doente. Se
colidir com o bem comum, aí sim! a liberdade individual converte-se em
tirania.”
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| CONSAGRAÇÃO | |
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A pedido do Governo, em 1905 desloco-me
aos portos do Norte para treinar as equipas sanitárias a lidar com a
peste bubónica, a febre amarela e a varíola. Pelos mesmo motivos, em
1906 desloco-me aos portos do Sul. Em 1907, em Berlim, no XIV Congresso
Internacional de Higiene e Demografia, faço uma exposição das
actividades do Instituto Manguinhos
e da nossa luta para debelar as pestes. Dão-me o primeiro prémio,
medalha de ouro. Ainda em 1907 sofro a primeira crise de
insuficiência renal. No mesmo ano ingresso na Academia de Medicina do
Brasil. Mas a ocorrência mais importante de 1907 é a esquadra americana
singrando em direcção ao Cabo Horn. Pretende
contornar a América do Sul para alcançar o Pacífico. A meio
caminho da costa atlântica demanda e fundeia, por uns dias, na baía da
Guanabara. Antes, o Embaixador americano perguntara-me se havia o perigo
de acontecer aos marinheiros americanos o mesmo que sucedera em 1895 aos
marinheiro da Lombardia. E eu
garanti ao Embaixador que ficasse tranquilo, pois a febre amarela fora
inteiramente debelada no Rio de Janeiro. Chega a esquadra, desembarca
cerca de 18 mil marinheiros que passeiam pelas ruas, praias, morros e
montanhas da cidade que será talvez a mais bonita do mundo, e nenhum
deles adoece. Todos recordam o que aconteceu aos marinheiros italianos. E
todos comparam o ontem com o hoje. Este acontecimento vai com certeza
contribuir para a extinção do labéu internacional Brasil-vasto-hospital.
Finalmente vingará, como queria D. João VI, a abertura dos portos
brasileiros a toda a navegação... Mas em 1908 outra vez a varíola
irrompe no Rio de Janeiro. Interrompida que fora a vacinação, era inevitável
que tal viesse a acontecer! Mas os tempos agitados de Rodrigues Alves já
se foram, agora o Presidente é o tranquilo Afonso Pena. As classes cultas
já aceitam facilmente a vacina. Os populares resistem mas, com o passar
do tempo, verificam que só morre de varíola quem não foi vacinado. E
isso basta para, mesmo sem obrigatoriedade, começarem a aderir à causa
da vacina. Ainda em 1908 o Presidente Afonso Pena
crisma o Instituto de Manguinhos
com o nome Instituto Osvaldo Cruz.
Foi grande gentileza, a sua... Em 1909, exausto, renuncio à direcção
da Saúde Pública e passo a dedicar-me, a tempo inteiro, a Manguinhos.
Mas em 1910 sou convidado para investigar as condições sanitárias em
que se trabalha na construção da via férrea
Madeira-Mamoré. E sigo para o Amazonas, nada me consegue afastar
da Batalha Permanente. Verifico que trabalhadores e populações vizinhas
sofrem crises de malária. Receito doses maciças de quinino, de acordo
com as pesquisas de Artur Neiva e Carlos Chagas. Em seguida marcho para
Belém do Pará. Ali, mais uma vez irei enfrentar a febre amarela. Uso os
métodos que já aplicara no Rio. Mas com uma diferença: a população
paraense, ao contrário da carioca, recebe com afabilidade os agentes
sanitários e colabora activamente na guerra contra os mosquitos raiados. Em 1911 a Exposição
Internacional de Higiene (Dresden, Alemanha) confere um diploma de honra
ao Instituto Osvaldo Cruz. Com a colaboração de Carlos Chagas,
em 1912 comando o saneamento do vale amazónico. No mesmo ano sou eleito
para a Academia Brasileira de Letras.
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| PETRÓPOLIS | |
| Osvaldo Cruz é eleito Prefeito de Petrópolis. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
As minhas crises renais são cada vez
mais frequentes. Também meu coração e meus olhos começam a falhar.
Exausto, em 1916 sou forçado a suspender todo o meu trabalho e retiro-me
para Petrópolis. Talvez me revigore o clima ameno do alto da serra. Dedico-me à floricultura. O meu filho
convence-me que eu não tenho temperamento para cuidar apenas de
jardinagem. O moço terá razão.
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| TESTAMENTO | |
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Petrópolis, 11 de Fevereiro de 1917 - De manhã entrou em coma. Às 9 da noite morre o meu amigo Osvaldo Cruz. O homem que saneou o Brasil, o vencedor de pestes e maleitas tinha apenas 45 anos. Gastou-se a defender a saúde dos seus compatriotas. Estes nem sempre o compreenderam, frequentemente o hostilizaram. Gastaram-no. No
seu testamento Osvaldo pede: - Evite a minha família a cena penosa
de vestir meu corpo, bastará envolvê-lo num lençol. - Também não faça convites para o
meu funeral, nem quero missa do sétimo dia. - A minha família não deve vestir-se
de preto, o luto está nos corações, nunca nas roupas. Além do mais, no
nosso clima, roupas pretas são anti-higiénicas. - A morte é fenómeno fisiológico
naturalíssimo, ao qual nada escapa. A minha família não deve prolongar
a amargura pela minha ausência, é preciso que nos conformemos com os
ditames da natureza. Que passeiem, que se divirtam, que procurem diversões,
teatros, festas, viagens, que ajudem o tempo na benfazeja obra de fazer
esquecer.
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