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MÁRIO DE ANDRADE
Escritor modernista: 1893 - 1945
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1893:
Nasce Mário Raul de Moraes Andrade, a 9 de outubro, na casa da Rua
Aurora, 320, no centro de São Paulo. Segundo filho do casal Maria Lúcia
de Almeida Leite Moraes e Carlos Augusto de Andrade, guarda-livros e
autor de pequenas peças de teatro. A família vive com o avô paterno, o
jurisconsulto Leite Moraes, Presidente da Província de Goiás e autor do
Apontamentos de viagem, editado por ele próprio em 1882. Mais tarde o
neto, Mário, recupera situações aí relatadas, como mostra Gilda de Mello
e Souza. (*) .1895: Morre o avô, Leite Moraes, e a família muda-se para
um nova casa, construída pelo pai, no largo do Paissandu. Mário vive a
infância junto aos tios (e tias), primos e primas. Nasce o irmão Renato.
1900: freqüenta o Grupo Escolar da Alameda do Triunfo. 1904: O primeiro
poema – “ Fiori de lá-pa”. 1905: Ingressa no Ginásio Nossa. Senhora do
Carmo, dos irmãos maristas. Tem professores franceses e belgas. 1908: é
reprovado por apresentar notas baixas em grego. Apaixona-se por Maria da
Glória Capote Valente, a primeira das quatro Marias de sua vida. 1909:
Forma-se bacharel em Ciências e Letras. Torna-se congregado mariano.
Estuda piano em casa com a mãe e a tia. 1910: Entra para a Escola de
Comércio Álvaro Penteado, onde permanece por apenas dois meses.
Desentende-se com o professor de português. Freqüenta o 1º. Ano da
Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo, vinculada à Universidade
de Louvain, no Mosteiro de São Bento. Estuda Filosofia e Literatura.
Toma contato com a retórica clássica e a literatura mais recente da
Europa. Mas ainda não chegou às vanguardas. 1911: Entra no Conservatório
Dramático e Musical, cursa o 3º ano de piano. Pretende ser concertista.
1912: É nomeado aluno praticante, o que o habilita a ensinar rudimentos
de teoria musical. 1913: Professor no Conservatório; leciona História da
Arte e piano. Morre o irmão mais novo, Renato. Recupera-se do profundo
abatimento causado por essa perda na Fazenda de Pio Lourenço Correa.
Volta poeta. 1914: Escreve os Primeiros contos e poemas. 1915: Primeiro
texto na imprensa – crítica musical. Congregado mariano pede autorização
para ler as obras constantes do Index, da Igreja Católica. Faz
exercícios militares como voluntário. 1917: Morte do pai. Publica o
primeiro livro, Há uma gota de sangue em cada poema, ainda com
ressonâncias parnasianas. Conhece Oswald de Andrade, que leva artigos
seus para o Jornal do Commércio. Exposição de Anita Malfatti o faz
despertar para a modernidade. Forma-se professor de piano. 1918: Inicia
os estudos de alemão com Else Schöler-Eggebert que o põe em contato com
o expressionismo e a música de Wagner. Escreve o artigo A divina
preguiça, primeira valorização do ócio criativo que vicejará em
Macunaíma e no Rito do Irmão Pequeno. 1919: Viaja a Minas Gerais,
descobre a importância do Aleijadinho. Colabora em jornais e revistas.
Sai na Cigarra (15 de dez.). São Paulo, o conto O queijo, onde pela
primeira vez “desgeografica” o espaço. 1920: Colabora em várias revistas
de São Paulo. Recolhe documentos musicais populares, como parlendas,
pregões e paródias. Em dezembro escreve os poemas de Paulicêa
Desvairada, manifesto modernista. 1921: Muda-se para a casa da Rua Lopes
Chaves (Barra Funda) em companhia da mãe e da tia-madrinha, Ana
Francisca de Almeida Leite Moraes, citada em Macunaíma por sua
habilidade no tricô. Faz parte dos “Avanguardistas” de São Paulo;
comparece ao banquete do Trianon, quando Oswald de Andrade oficializa o
modernismo. Escreve Mestres do Passado, artigos para o Jornal do
Commércio nos quais critica os parnasianos. No Rio de Janeiro
encontra-se com Manuel Bandeira, nasce daí grande amizade consolidada
nas inúmeras cartas. 1922: Participa da Semana de Arte Moderna. Recita
Ode ao burguês de Paulicêa Desvairada e teria apresentado a primeira
versão da Escrava que não era Isaura, poética modernista. Com as
economias pessoais publica Paulicêa Desvairada. Participa do grupo da
revista Klaxon. Escreve os poemas experimentais de Losango Cáqui. 1923:
Estuda alemão com Käthe Meichen Blosen de quem se enamora: a história da
preceptora que inicia o jovem no amor será recriada em Amar, verbo
intransitivo. Escreve ainda neste ano Carnaval Carioca, poema, e as
Crônicas de Malazarte, fonte para dois contos de Belazarte, que
focalizam o subúrbio paulistano. Lê obras de Psicanálise. 1924: Passa a
Semana Santa em Minas Gerais, acompanhando o francês Blaise Cendrars,
junto com amigos modernistas entre eles Oswald de Andrade e Tarsila
Amaral – uma “Viagem de descoberta do Brasil”. Do contato direto com a
cultura popular regional nasce Clã do Jabuti, cuja poética resulta das
formas musicais do povo – romance, toada, moda de viola. Mário
empenha-se na pesquisa lingüística de um falar “brasileiro” que anulasse
os limites regionais. Apaixona-se platonicamente por Carolina da Silva
Telles, inspiradora dos poemas Tempo da Maria e da figura da Uiara,
presente em Macunaíma. 1926: Leitura de Von Roraima zun Orinoco de
Theodor Konch-Grünberg, onde Mário encontra o lendário Makunaíma.
Redação de Macunaíma durante as férias na Chácara da Sapucaia, em
Araraquara. Publicação de Losango Cáqui. 1927: Nova redação de Macunaíma.
Troca de cartas sobre esta obra com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de
Andrade. Mário começa a fotografar, revelando estudo cuidadoso de
técnicas e intenções artísticas, experiência que vai até 1931. Ainda
neste ano realiza a primeira viagem ao norte, quando percorre grande
parte da Amazônia, chegando a Iquitos no Peru e à fronteira da Bolívia.
Publica Amar, verbo intransitivo e Clã do Jabuti, poesia. Publicação de
Macunaíma pela Livraria José Olympio. Participa com Rodrigo de Mello e
Franco da criação do SPHAN. Como Diretor do Departamento de cultura,
orienta o 1º. Congresso de Língua Nacional. Cantada, em São Paulo. 1938:
Deixa a direção do Departamento de Cultura; em julho assume a diretoria
do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, no Rio de
Janeiro, onde ministra curso de Filosofia e História da Arte. 1941: está
de volta à São Paulo e à casa da rua Lopes Chaves. Retoma o ensino no
Conservatório e trabalha no SPHAN. 1942: Plano das Obras Completas feito
pelo autor. Conferância O movimento modernista, na Casa do Estudante no
Rio, faz a avaliação do movimento. 1943: Em “Notas Diárias”, no. 26 da
Mensagem, de Belo Horizonte, dá explicações sobre Macunaíma. 1944: Sai,
em setembro, a 3ª. edição de Obras Completas IV. A 25 de fevereiro de
1945, em sua casa, em São Paulo, morre Mário de Andrade. Morto, Mário
continuará presente na cultura brasileira através das sucessivas
reedições de sua obra, especialmente de Macunaíma, e como intelectual
exemplar. 1955: Manuel Cavalcanti Proença publica o Roteiro de Macunaíma,
primeiro estudo de fôlego sobre a rapsódia. Sai a 4ª. Ed. das Obras
Completas, pela editora Martins. Pelos anos seguintes sua obra continua
sendo quase que anualmente reeditada. 1977: Exposição Mário de Andrade -
Turista Aprendiz / aprendiz de fotógrafo. Biblioteca Mário de Andrade –
Instituto de Estudos Brasileiros, na Universidade de São Paulo (USP).
Publicação do diário de viagem de 1927, O Turista aprendiz.
Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez.
19ª. Edição de Macunaíma, pelo Círculo do Livro, com capa de Noemi Silva
Ribeiro. 1978: Edição crítica, comemorativa dos 50 anos da obra,
trabalho de Telê Porto Ancona Lopez; dedicada à memória de M. Cavalcanti
Proença. 1978: Macunaíma se transforma em espetáculo teatral, dirigido
por Antunes Filho; recebeu diversas montagens, no Brasil e no exterior e
várias premiações. 1979: Gilda de Mello e Souza publica O tupi e o
alaúde, estudo crítico dos mais importantes sobre Macunaíma; sai
tradução francesa da rapsódia por Jacques Thiériot – Macunaïma (Paris,
Flammarion). Ainda neste ano é publicada em Caracas, pela Biblioteca de
Ayacucho, a Obra Escogida de Mário de Andrade, seleção, prólogo e notas
de Gilda de Mello e Souza, que com Laura de Campos Vergueiro preparou a
Cronologia que está sendo utilizada. Sucedem-se traduções da rapsódia
para o alemão, o húngaro e o inglês. 1987: o estudo de Telê Ancona Porto
Lopez : “Macunaíma pra lá de Brasil”; é publicado na edição do Círculo
do Livro. 1988: 60 anos de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.. Sai a
Edição Crítica do livro, coordenada por Telê Ancona Porto Lopez, na
coleção Arquivos, do Centre de Recherches Latino-Americaines.
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AUTO-RETRATO |
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Este é Mário de Andrade, seu auto-retrato. O intelectual modernista:
escritor, poeta, pesquisador, professor de piano, homem público. O
intelectual símbolo de uma modernidade desejada e buscada por aqueles que,
nas primeiras décadas do século XX, se empenhavam em pensar o Brasil como
nação.
“No fundo do mato-virgem nasceu o herói. O silêncio foi tão grande escutando o murmurejo da Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia – Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, o herói da nossa gente.”
Qualquer dessemelhança não será por mera coincidência, porque eu, Mário.... Nasci na cidade de São Paulo, na Rua Aurora, 320.
Na Rua Aurora eu nasci
Nesta Rua
Lopes Chaves
Mamãe! me dá essa lua, (Lira Paulistana, Poesia Completa, p.378).
O nome da rua, onde nasci, deve ter sido um elo na minha amizade posterior com Manuel Bandeira – para o cantor de Pasárgada, a Rua da Aurora, em Recife, era onde se ia fumar escondido. Temos afinidades: esta casa onde nasci também era a casa de meu avô. Um homem importante, Leite de Moraes. Era jurisconsulto renomado e Presidente da Província de Goiás. Sou o segundo filho de Maria Luísa de Almeida Leite Moraes e Carlos Augusto de Andrade, um guarda-livros que escrevia pequenas peças de teatro. Com a morte de meu avô, mudamo-nos para a casa do Largo do Paissandu, construída por meu pai. Aí vivi a infância, entre tios e primos (e primas!). Aí conheci o primeiro amor e dei meu primeiro beijo: - Beijei Maria, rapazes! Eu nem sabia beijar, está claro, só beijava mamãe, boca fazendo bulha, contato sem nenhum calor sensual. Maria era a prima Maria da Glória Capote Valente, a primeira das quatro Marias da minha vida.
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NA ESCOLA... |
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Fui mau aluno. Em 1908 cheguei a repetir o ano, reprovado em grego. Estava no Ginásio Nossa Senhora do Carmo, dos irmãos maristas (fui Congregado mariano, acreditem!). Estava fazendo um ginásio sem gosto, muito arrastado, cheio de revoltas íntimas, detestava estudar! Todos os anos era aquela esperada fatalidade: uma duas bombas! Estudava piano em casa, com mamãe e uma tia. Renato, meu irmão mais novo, estudava no conservatório Dramático e Musical de São Paulo.
Já nessa época era tido como a “tara da família!”, “o perdido”. Havia conseguido, “no reformatório do lar e na larga parentagem” a fama de “louco”.
- “É doido, coitado!”
Só tomei gosto pelo estudo quando terminei o ginásio. Fiquei estudiosíssimo: passei então a ser visto na família como muito inteligente, mas perigoso.
São Paulo! Comoção de minha vida... Galicismo a berrar nos desertos da América.
Sou um bicho urbano, sim. Não desprezo o interior, por onde muito andei. Mas sempre volto a esta cidade e à casa da Rua Lopes Chaves (Barra Funda), onde vivo com mamãe, desde 1921. Esta é a minha cidade: São Paulo! Comoção de minha vida...
Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora... Oh larguezas dos meus itinerários..
- Mário, põe a máscara! - Tens razão, minha Loucura, tens razão.
Tenho os pés chagados nos espinhos das calçadas... Higienópolis! As Babilônias de meus deuses baixos...
Minha Londres de neblinas finas...
Arlequinal!...
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| 1922 – A FÚRIA MODERNISTA – A SEMANA DE ARTE MODERNA | |
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A Semana de Arte Moderna (São Paulo, fevereiro de 1922) foi um evento demolidor de antigos valores estéticos, um happening que reuniu jovens intelectuais, sedentos de renovação, influenciados pelos movimentos da Vanguarda Européia – o Futurismo, o Cubismo, o Expressionismo e o Surrealismo, principalmente. Um grupo constituído de escritores, poetas (Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, e Mário entre eles), artistas plásticos (Anita Malfati, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Lasar Segall),o escultor Brecheret, músicos (Villa-Lobos) se reuniu no Teatro Municipal de São Paulo, onde exibe obras concebidas segundo a nova estética, anti-acadêmica e vanguardista, radicalizando a dessacralização do conceito de obra de arte, pelo humor, pela paródia e pela ironia. Mário é um dos principais participantes desse grupo radical, é mesmo uma liderança indiscutível. Durante o evento declama o poema “Ode ao Burguês” da Paulicêa Desvairada, uma gritante provocação à sociedade burguesa paulistana:
“Eu insulto o burguês”! O burguês níquel, Grita imprecatoriamente contra as aristocracias cautelosas, os donos da tradição, os donos do dinheiro, os donos do poder:
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Fora! Fu! Fora o bom burguês!... Paulicêa desvairada, Poesias completas, 1987, p.87-88) “Quem teve a idéia da Semana de Arte Moderna? Por mim não sei quem foi, nunca sube [sic], só posso garantir que não fui eu.” Ainda durante o evento teria apresentado a primeira versão de A Escrava que não é Isaura, um projeto teórico modernista. |
MAS COMO A FAMÍLIA VIA ESSAS “LOUCURAS” DE MÁRIO? |
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“Si minha mãe e irmãos não
se amolavam com as minhas “loucuras”, o resto da família me retalhava sem
piedade.” Eu era um “perdido”, a briga era braba, e si não me abatia nada,
me deixava em ódio, mesmo ódio. Foi quando Brecheret me ofereceu um bronze, uma “Cabeça de Cristo”. Fiquei sensualissimamente feliz. A notícia correu num átimo e a parentada, que morava pegado, invadiu a casa para ver. E para brigar... Berravam, berravam. Aquilo era até pecado mortal! Onde se viu Cristo de trancinha? era feio! medonho! Maria Luiza, vosso filho é um perdido mesmo. Fiquei alucinado, palavra de honra! (...). Depois subi para o meu quarto (...). me lembro de chegar à sacada, olhando sem ver o meu largo. Ruídos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Eu estava aparentemente calmo, como que indestinado. Não sei o que me deu. Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara, “Paulicêa Desvairada”. (PC, p 243) O ano de 1922 foi fecundo para o escritor. Publica Paulicêa Desvairada, com recursos próprios, fruto de suas economias. Participa do grupo da revista Modernista Klaxon e ainda escreve Losango Cáqui, poesia experimental, dedicado à pintora Anita Malfati : São Paulo! comoção de minha vida...! Os meus amores são flores feitas de original!... Mário escreve e, ao mesmo tempo, faz a crítica de seus escritos: “Me resolvo a publicar este livro assim como foi composto em 1922. É um diário de três meses a que ajuntei uns poucos trechos de outras épocas (...) sensações, idéias, alucinações, brincadeiras, liricamente anotadas (...) Aliás, é o que mais me perturba nesta feição artística a que me levaram minhas opiniões estéticas é que todo lirismo realizado conforma tal orientação se torna poema-de-circunstância. (...) |
MACUNAÍMA E OUTROS LIVROS |
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1926 – A
leitura de Von Roroima zum Orinoco de Theodor Koch-Grünberg leva-o ao
encontro do lendário deus Makunaíma, entidade mítica do alto Peru. Esboça
neste mesmo livro os traços da rapsódia. Colhe dados brasileiros, reunindo
notas para a edição daquela que seria a narrativa mais singular e simbólica
do Modernismo brasileiro. |
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| MÁRIO, INTELECTUAL PARTICIPANTE | |
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Mário não está exagerando quando afirma ser trezentos, trezentos e cinqüenta. O autor se multiplica mesmo em mil e uma atividades. Escreve, viaja, pesquisa, publica suas obras, corresponde-se com Deus e o mundo e trabalha em instituições públicas. Em 1935 é nomeado chefe do Departamento de Cultura da Municipalidade de São Paulo, onde permanece até 1938. Democratiza a cultura. Deixa a direção do Departamento e em julho assume a diretoria do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, onde ministra curso de Filosofia e História da Arte. Em 1941 está de volta à rua Lopes Chaves. Retoma a atividade de professor de piano no Conservatório e trabalha no SPHAN (Secretaria do Patrimônio Histórico Nacional) No ano seguinte prepara o plano das Obras Completas para a Livraria Martins Editora. No Rio de Janeiro faz a conferência “O movimento modernista”, na Casa do Estudante. Aproveita a oportunidade para explicar e reavaliar o movimento, fazendo o seu mea culpa por excessos cometidos no calor da hora. Principalmente extrai a síntese do que caracterizou a chamada revolução modernista: “O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono dos princípios e das técnicas conseqüentes, foi uma revolta contra o que era a Inteligência nacional. (...)”. Impunha uma nova realidade estética sustentada na fusão de três princípios fundamentais: “o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística; e a estabilização da consciência (sic) criadora nacional” No entanto o estandarte mais colorido da radicalização do nacional foi a pesquisa da “língua brasileira” que levou os participantes do movimento a privilegiar usos lingüísticos coloquiais populares oralizados e a adotar uma grafia segundo a emissão fonética das palavras, transgredindo as normas da escrita formal. O próprio poeta inventou uma gramatiquinha brasileira como comprovam os escritos dessa época.: “O espírito modernista reconheceu que (...) carecia reverificar nosso instrumento de trabalho para que nos expressássemos com identidade.” Mário repudia, contudo, aqueles que, “do dia pra noite” inventaram a “fabulosíssima língua brasileira”, assim como rechaça o mito de “escrever naturalmente”, revelando aguda percepção da realidade lingüística: “O problema principal não é acintosamente vocabular, é sintáxico.” Em outras palavras, o que torna ilegítima a idéia de uma “língua brasileira” é o desconhecimento de que há um sistema lingüístico português sustentado na estrutura sintática da língua. Na conferência de 1942, o escritor reconhece os excessos cometidos por ele e por sues companheiros: “Si os praticou foi na intenção de pôr em angústia aguda uma pesquisa que julgava fundamental.” Entre as idiossincrasias ortográficas e sintáticas do criador de Macunaíma estão as formas : “pra”,”si”, “milhor”,“há-de” e suas flexões, a junção dos substantivos compostos,como “pontapé”,“arranhacéu”,e outros mais, abundantemente empregadas no livro-rapsódia .. |
| O CORRESPONDENTE CONTUMAZ | |
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Segundo Telê Ancona Porto, sua mais fiel e completa pesquisadora, a correspondência de Mário chega a 7688 documentos, hoje arquivada no conjunto documental Correspondência, arquivo do escritor no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. A correspondência passiva chega a 1.400 correspondentes. Mário manteve um diálogo epistolar com os nomes mais significativos do mundo intelectual brasileiro nas décadas de 20, 30 e 40: escritores, artistas plásticos, músicos, jornalistas, e pensadores. E com estrangeiros como Blaise Cendrars, Iwan Goll, Cocteau, Dunah Lévi Strauss, Roger Bastide. Entre os nacionais encontram-se os nomes de Manuel Bandeira, (interlocutor de fôlego equivalente), Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Prado, Prudente de Morais, Sérgio Milliet, Rosário Fusco, o então jovem Fernando Sabino, Murilo Rubião, Henriqueta Lisboa, Câmara Cascudo, Moacir Werneck de Castro, Carlos Lacerda e Murilo Miranda; entre os artistas plásticos, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Brecheret, Portinari, Lasar Segall, Pentoruti; os compositores Villa-Lobos, Gallet, Lorenzo Fernandes, Mignone e Guarnieri. Entre as personalidades ligadas a projetos culturais, Gustavo Capanema e Rodrigo Melo Franco de Andrade. Entre os milhares de cartas que constituem a Correspondência de Mário de Andrade, Eneida Maria de Souza destaca uma correspondente especial: A poetisa mineira Henriqueta Lisboa. Mário e Henriqueta mantêm uma amizade mais epistolar do que de convivência, marcada de certa idealização que a distância favorecia: “Quando penso que você é um dos maiores dos que pensam no Brasil, quando me lembro que nos víamos apenas três vezes! Depois de tidas essas cartas sinceras, “sans arrière pensée”, creio que vou sentir-me perfeitamente provinciana ao encontrá-lo em pessoa. E isto não tardará. Dentro de alguns dias aí estarei. O Rio sempre me interessou muito. [...] Há também o meu livro que desejo mandar editar (Prisioneiro da noite como título, acha que fica bom? Sem princesa e sem menestrel...) Além de tudo há você agora no Rio.” O escritor, mesmo envolvido nas suas mil-e-uma atividades, não deixa de responder: você estiver aqui. Mas se você chegar logo como diz na sua carta de ontem, não sei como será para nos vermos muitas vezes como quero. Por todo este mês devo procurar apartamento novo ou casa, e talvez encaixotar a metade do que tenho aqui e mandar para São Paulo, pois pretendo ir pra pouso menor.” Eneida Maria de Souza então arremata: “Tanto a figura feminina quanto a masculina se incorporam, no universo das cartas, à pessoa ausente, a qual se presentifica pela comunicação escrita e através dela transforma-se num encontro imaginário, reativado pela força da memória.” (SOUZA, 2000:301). |
| MÁRIO E A MÚSICA: SOU UM TUPI TANGENDO UM ALAÚDE | |
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MÁRIO DE
ANDRADE é
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| “NÃO SOU UM SUJEITO FISICAMENTE SÃO” | |
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| MÁRIO POR MÁRIO | |
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Mas eis
que chego a este paradoxo irrespirável: Tendo deformado toda a minha obra
por um anti-individualismo dirigido e voluntarioso, toda a minha obra não é
mais que um hiperindividualismo implacável!(...) – (O Movimento Modernista,
Conferência proferida na Casa do Estudante, no Rio de Janeiro, em 1942.). |
| Obras de Mário de Andrade | |
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Resumo das obras mais significativas ANDRADE, Mário. Poesias completas. Ed.crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1987. IDEM __ . Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos; São Paulo, SCCT, 1978. Principal referência para esta biografia. IDEM __. O Turista Aprendiz. Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo, Duas Cidades _ SCCT, 1976. IDEM __ O empalhador de passarinhos. São Paulo, Martins; Brasília,INL,1972 IDEM ___ Aspectos da Literatura Brasileira (Ensaios literários). São Paulo: Martins; Brasília,INL,1972. IDEM ___ Pequena História da Música. São Paulo:Liv.Martins Editora,1980. ANDRADE. Carlos Drummond. A Lição do Amigo. Cartas de MA a CDA. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982. Anotadas pelo destinatário. BANDEIRA, Manuel, org. Cartas a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Simões, 1968. Anotadas pelo destinatário.
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