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Luiz Pacheco
Escritor e editor português: 1925-2008
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QUANDO TUDO ACONTECEU...
1925:
À uma e quarenta da madrugada de 7 de Maio nasce em
Lisboa, num velho prédio da Rua D. Estefânia (no n.º 91-1º), Freguesia de
São Sebastião da Pedreira, Luís José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, que
virá a adoptar o nome de Luiz Pacheco, filho de Paulo Guerreiro Pacheco e de
Adelina Maria Machado Gomes. 1932:
Entra no Ensino Primário. 1936:
No Liceu Camões, começa o curso dos Liceus.
1943: Conclui o curso Completar
dos Liceus (antigo 7º ano). 1944-45:
Obtém boa classificação no exame de admissão à Faculdade de Letras de
Lisboa, ficando isento do pagamento de propinas. Matricula-se no curso de
Filologia Românica. 1945: Começa
a colaborar em diversos jornais e revistas.
1946: Emprega-se na Inspecção
Geral dos Espectáculos. Com Jaime Salazar Sampaio, dirige o volume
antológico Bloco. Assina as
listas do MUD (Movimento de Unidade Democrática anti-salazarista).
1947: É preso no Limoeiro,
acusado do crime de estupro. 1948:
Nasce Maria Luísa, sua primeira filha.
1950: Nasce João Miguel, o
segundo filho. Cria a editora
Contraponto onde irá publicar
textos de escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires.
António Maria Lisboa. Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia,
Virgílio Martinho, António José Forte, entre outros.1951:
No dia seguinte ao da morte do marechal Carmona, presidente da
República, apresenta-se ao serviço com uma gravata colorida, sendo
repreendido e punido.1953: Morre
sua mãe. 1958: Nasce o terceiro
filho: Fernando António. Publica
Caca, Cuspo & Ramela (textos de Mário Cesariny, Natália Correia, Manuel
de Lima, etc. de sua autoria, edita
Carta Sincera a José Gomes Ferreira.1959:
Publica na revista Pirâmide o
texto «A Pirâmide e a Crítica» em que defende a revista dos ataques de
alguns críticos literários. Nasce Luís José, quarto filho.
Demite-se da Inspecção Geral de Espectáculos.
1960: Em Maio, morre seu pai.
1961: Nasce a quinta filha,
Adelina Maria. 1962: Publica o
conto O Teodolito.
1963: Nasce
Paulo Eduardo, o sexto. Edita na Contraponto o livro
Surrelismo/Abjeccionismo, uma
antologia organizada por Mário Cesariny.
1964: Nasce Maria Eugénia, a
sétima. Publica o seu livro mais divulgado
A Comunidade.1965:
Nasce Jorge Manuel, o oitavo e último filho.
1966: Publica
Crítica de Circunstância.1967:
Edita os seus Textos locais.
Visita Tomar. 1970: Sai
O Libertino Passeia por Braga, a
Idolátrica, o Seu Esplendor.
1971: Publica
Exercícios de Estilo.
1972: Edita
Literatura Comestível.1974:
É a vez de Pacheco versus
Cesariny 1977: Publica
Carta a Gonelha e
Textos de Circunstância. 1979:
Sai
Textos de Guerrilha 1.
1980: Edita o folheto
O caso do sonâmbulo chupista.
1981:
Textos de Guerrilha 2.
1984: Publica
Textos do Barro.1985:
Baptista-Bastos entrevista-o para o
Jornal de Letras.
1986:
O Caso das Criancinhas Desaparecidas.
1988/89:
A Comunidade é adaptada ao teatro
e levada a cena pelo Teatro da Cornucópia.
1989:
Adere ao Partido Comunista Português.
1991: Publica Textos Sadinos.
1992: Saem
O Uivo do Coiote e
Carta a Fátima. 1995:
Concede uma longa entrevista à revista
Ler. Sai
Memorando, Mirabolando.
1996: Em 7 de Maio, por ocasião
do seu 70º aniversário os filhos organizam uma festa de homenagem familiar.
É publicado
Cartas na Mesa.
1998: Publica Prazo de Validade.
2000: Sai
Isto de estar Vivo.
2001:
Uma
Admirável Droga. 2002:
Reedita Crítica de Circunstância,
agora com o título
Os doutores, a salvação e o menino
Jesus – Conto de Natal. O Mano
Forte. 2003:
Raio de Luar.
2004: Figuras, Figurantes e
Figurões. 2005: É
entrevistado pelo Jornal de Letras.
Sai o seu Diário Remendado
(1971-1975). Cartas ao Léu.
2006: Vai para um lar no Montijo.
2007: É operado às cataratas. É
entrevistado pela RTP. Dá também uma entrevista ao
Correio da
Manhã.
2008:
Dá uma entrevista ao semanário Sol. Saem
O Mito do Café Gelo e
O Cachecol do Artista. É
publicado O Crocodilo que voa.
No dia 5 de Janeiro, acometido por doença súbita, morre na ambulância a
caminho do hospital do Montijo. São 22 horas e 17 minutos quando o óbito é
declarado.
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UM LIBERTINO (LIBERTÁRIO?) PASSEIA PELA VIDA |
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Ao longo
dos seus 82 anos de existência, Luiz Pacheco nunca pretende ser uma «pessoa
respeitável». Faz tudo para não merecer essa classificação pela qual tantos
se batem durante toda a vida – é preso por três vezes, não por política, mas
por crimes de delito comum, «abusa de menores» – embora tanto quanto se
saiba não seja um pedófilo (pelo menos, subjectivamente), é preso por crime
de rapto e de estupro, alcoólico inveterado, pede dinheiro a toda a gente
(chega a pedir esmola pelas ruas), vai aos quartéis pedir restos do rancho
para alimentar a numerosa família, falsifica selos, publica textos,
teoricamente impublicáveis, de autores que, no entanto, se tornarão famosos
– Mário Cesariny de Vasconcelos, Manuel de Lima, Vergílio Ferreira, Natália
Correia, Herberto Helder, ganhando o apodo de «editor maldito». Faz
repetidas incursões na homossexualidade e diz ter feito sexo com uma cadela…
– «proeza» que depois desmente – Tudo isto o sabemos por depoimentos do
próprio. Nunca esconde estas coisas e nem há como saber se tudo é verdade –
com ele, a profissão de chantagista deixaria de fazer sentido, pois enquanto
muita gente inventa heroísmos e esconde o que não é bonito, Pacheco faz gala
(e inventa-os?) em cometer actos sórdidos. Embora os que comprovadamente
pratica sejam suficientes para lhe ornamentar o currículo. Esta luta
incessante pela irrespeitabilidade, numa permanente e dir-se-ia que
voluntária, descida aos Infernos, vale-lhe, surpreendentemente, o respeito
generalizado da comunidade literária. Não tem nada a aprender com François
Villon ou com Bocage. Em todo o caso, é bom que se diga, citando Pacheco em
entrevistas, falando dos seus amores por adolescentes – «as miúdas eram mais
adultas do que eu, não havia pedofilia» e, outra coisa muito importante, «o
libertino tem regras, por exemplo, não se mete com a mulher do amigo».
Apesar deste «código deontológico do libertino», não é possível ignorar que
algumas das proezas de Pacheco, nomeadamente o seu envolvimento com
raparigas menores são hoje, ainda mais do que na época, crimes reprováveis.
Porém, sem querer encontrar desculpas, há que contextualizar as coisas –
quando comete o primeiro crime de «rapto e estupro» tem 18 anos, só mais
quatro do que a «vítima». Casa no Limoeiro. Reincide. Várias prisões, vários
filhos – oito – três da primeira mulher, dois da segunda, mais três da
terceira. Filhos, delitos e prisões confundem-se. Estão intimamente
relacionados.
Porém,
de delinquentes estão as prisões cheias. Não é pelas suas incursões no sub
mundo e na face oculta da realidade que o recordamos. Porque esta faceta da
sua reincidente transgressão das normas sociais, esconde outra mais profunda
– a grande qualidade da sua escrita. Luiz Pacheco é um grande escritor. A
sua modesta libertinagem tem muito de quixotesco, transmutando
acontecimentos sordidamente banais em episódios épicos. Dele fica-nos, além
da memória que se vai convertendo em lenda de um ser estranho, irreverente e
associal, belas páginas – O
Teodolito, por exemplo, é uma
obra literária de elevada qualidade. E um grande editor.
Ele,
muito provavelmente, rir-se-ia da afirmação que vou fazer (não costumo
entrar nas biografias que escrevo, mas para o Pacheco, vou abrir uma
excepção). Embora ouvindo as suas casquinadas asmáticas acolhendo esta
afirmação, em todo o caso, faço-a – ter conhecido e privado com Luiz Pacheco
foi um privilégio.
Vamos lá
recordar alguns aspectos da vida deste homem.
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OS AMORES E OS DESAMORES DE PACHECO |
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Em 1947,
relacionado com o caso de Maria Helena, é emitido um mandado de captura em
seu nome. Refugia-se numa casa que alugara no Mucifal, em Colares, fugindo
depois para casa de uma tia, no Campo de Santana. Acaba por ser preso na
Estefânia, em casa dos pais. Fica no Limoeiro durante um mês e meio. Em
Abril, na sexta-feira Santa, desposa Maria Helena na cadeia – é
provisoriamente liberto. No sábado de Aleluia, o jovem casal, parte em
viagem de núpcias para a casa do Mucifal, donde vem depois para Lisboa,
instalando-se numa casa da Rua Andrade. Porém, o caso não está resolvido. É
julgado, acusado pelo crime de estupro e condenado a dois anos e meio, com
pena suspensa, por ter casado com a «vítima». Em 1948 nasce Maria Luísa, a
primeira de uma «comunidade» de oito filhos. Em Maio de 1950, nasce João
Miguel, o segundo. Morre sua mãe, Adelina Maria Machado Gomes. Zanga-se com
Maria Helena (que terá sabido do
affaire Maria de Fátima?). Mantém uma relação homossexual com um rapaz
empregado no Sindicato dos Artistas.
A relação com Maria Helena, que entretanto se formará como enfermeira, piora; no entanto, engravida, enquanto Pacheco arranja outro namoro – agora é Maria do Carmo, a quem a família se apressa a desterrar para a terra, a Sertã. Mas Luiz não perde tempo, já está de olho noutro sarilho, sob a forma de Maria Eugénia, filha da dona da casa onde mora, na Almirante Barroso. A menina tem 13 anos. Em Maio de1958 nasce Fernando António, terceiro filho de Luiz e de Maria Helena. A evidência de um iminente envolvimento com Eugénia está à vista, e, antes que seja tarde, uma criada denuncia o caso a Maria Helena e à mãe da rapariga. Expulso de casa, instala-se com Maria do Carmo na Rua Jorge Colaço.
Em 1959,
a mãe de Maria Eugénia move-lhe um processo. É condenado por atentado ao
pudor de uma menor (embora, segundo parece, apenas a tenha beijado e
acariciado). Em Agosto nasce o seu quarto filho Luís José, o primeiro da
união com Maria do Carmo. Ameaçado por novo mandado de captura (caso Maria
Eugénia) anda fugido pelo Porto, Ermesinde, Setúbal, acabando por ser
capturado e recolher de novo ao Limoeiro. Ali passa o Natal. Natália. É
absolvido do caso Maria Eugénia, mas condenado por faltar à audiência.
Estamos em 1960. Maria do Carmo está novamente grávida.
Em
Fevereiro de 1961 nasce Adelina Maria, a quinta. Este 1962 é ano de novo
sarilho: engravida Maria Irene, irmã de Maria do Carmo. Maria do Carmo tem
um lugar de venda no Mercado da Ribeira e sai de madrugada de casa. Luiz
fica sozinho com a adolescente Irene. E, francamente, um libertino não é de
pau! No ano seguinte, será julgado e condenado à revelia pelo Tribunal da
Comarca da Sertã. Pacheco nem sequer tomara conhecimento da existência do
processo. Em Maio nasce Paulo Eduardo, o filho de Pacheco e da jovem Irene.
Em 1964, vive agora nas Caldas da Rainha.
Em Maio nasce Maria Eugénia, sétima, segunda da ligação com Irene.
Pacheco é preso nas Caldas devido ao processo de Maria Irene, saindo sob
caução. Desentende-se com Irene e fica a viver sozinho nas Caldas da Rainha.
O abuso do álcool provoca-lhe o agravamento da asma. Em Novembro de 1967, o
casamento com Maria do Carmo é dissolvido «por abandono do lar». Em 1968 é
de novo preso nas Caldas da Rainha, sendo depois transferido para o velho
Limoeiro. No ano seguinte, já em liberdade, apaixona-se por Elsa Isabel com
quem tem uma ligação. Num breve passeio às Caldas tem um envolvimento de
alguns dias com Isabel Valadares. Na véspera de Natal apanha uma monumental
bebedeira e passa a consoada no banco do Hospital de S. José. Em Janeiro de
1970 é internado no Hospital de Santa Marta
Pacheco continua e intensifica o tratamento ambulatório de
desintoxicação alcoólica. Tratamento que, com acidentes de percurso e muitas
recaídas, prosseguirá até 1980. Até 1975, Luiz continua a publicar, a fazer
traduções e… a beber. Mantém uma política de porta aberta, entrando «toda a
bicharada» (expressão sua) – «malucos, marginais, bêbedos, paneleiros,
lésbicas» a fama da casa onde vive, em Massamá, é terrível. Luiz Pacheco,
sempre segundo regista no diário, tem ligações episódicas com algumas
mulheres, engata uns rapazes… – «a fome, a solidão, a tristeza, a velhice e
a decadência», diz no seu diário. Sai de Massamá. Até 1980, não tem
paradeiro certo. Deambula pelo Montijo, Campo de Ourique, Algarve. Afectado
pela subnutrição é internado no Hospital Curry Cabral. Em 1977 é internado
na Clínica Psiquiátrica de Celas, com a visão e o raciocínio afectados pelo
álcool. Em 1980 faz uma tentativa de suicídio, atravessando de olhos
fechados a Avenida de Berna na hora de ponta. Travões guincham, pneus chiam,
automobilistas furiosos insultam-no, mas a morte não quer nada com ele.
Falámos da vida sentimental, se assim se lhe pode chamar. Lembremos alguns
de outros casos em que esteve envolvido.
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| O CASO DA GRAVATA ESCOCESA | |
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LUIZ PACHECO é castigado porque usa uma gravata colorida quando da morte do presidente Carmona. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
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O CASO DA QUADRILHA DOS SELOS |
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E conta
como um filho de família numa atmosfera de corrécios adere a uma quadrilha –
um inspector dos mercados, um colega, foi quem teve a luminosa ideia – não
havia controlo dos selos que entravam Então eram limpos com lixívia e
novamente vendidos. Alguns tinham de ser reformados porque começavam a ficar
amarelados. A matéria-prima era abundantíssima. Um deles especializara-se a
imitar a assinatura do director. Havia um outro especialista em falsificar
passaportes – um novo ramo do negócio, que ia de vento em popa: «Arranja aí
um passaporte dos nossos!». «Passa-me aí uns selos dos nossos!» «Aquilo
tinha-se tornado uma instituição paralela ao Estado português!», diz Pacheco
resumindo a situação. Funcionários com ordenados miseráveis compravam
automóveis, tinham amantes, faziam uma vida de ostentação. Pacheco apenas
fez duas extravagâncias – comprou uma mota e foi jogar ao Casino Estoril –
saiu a ganhar na roleta e nunca mais lá voltou com medo de apanhar o vício
(mais um). Mas os membros da quadrilha estavam a desleixar-se. Não havia
cuidado. Pacheco apercebe-se de que, mais tarde ou mais cedo, tudo irá
desabar com a Judiciária a entrar ali de roldão...
É então que chega um novo inspector… Damos de novo a palavra ao Luiz:
«Até era
um gajo giro, e perguntou-me: -“Então como vai isso?” – E eu mandei uns
bitaites. Ele ficou fodido: - “Eu não preciso dos seus conselhos para nada,
era o que faltava!” – Ora este cabrão! Apanhei o gajo sozinho e disse-lhe:
“- O senhor inspector não precisa dos meus conselhos, mas vou dar-lhe
alguns». E descreve por alto o que se passa. «Você também pertence à
quadrilha? – Pertenço, mas isto não pode continuar, senão vai tudo parar à
cadeia.». O homem começa a ficar roxo, com as veias a inchar. «Ai que este
gajo vai-me ter aqui uma congestão e eu fico com a morte dele na
consciência», pensa Pacheco. Mas não. O inspector começa de imediato a pôr
em prática os conselhos de Luiz Pacheco. A mama acaba-se, mas ninguém é
preso. O chamado crime perfeito.
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O CASO DO SONÂMBULO CHUPISTA, LOGO SEGUIDO PELOS «CLANDESTINOS» |
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Em 1972, Namora lança um novo romance «Os Clandestinos», editado
pelas Publicações Europa-América. Uma tarde, na livraria que a editora tem
na Avenida Marquês de Tomar, o editor Francisco Lyon de Castro repara num
sujeito, alto, magro, semi-calvo e de óculos que folheia livros com ar
interessado. Lyon de Castro aproxima-se e vê que o homem está a ler
passagens do recém lançado romance de Namora.
- Gosta dos livros de Namora? – o sujeito faz um gesto passível de
ser interpretado como um sim (ou como um não). Com a sua egocêntrica
tagarelice Lyon de Castro continua, dizendo algo que repetira já a numerosas
pessoas: - Sabe? Esse livro foi praticamente escrito por mim… - por detrás
das grossas lentes os olhos do cliente abrem-se de espanto – Ah sim?
Castro não se faz rogado e explica com grande cópia de pormenores
como descreveu a Namora as suas aventuras quando, nos anos trinta, fugindo à
polícia política, se escapou para França. Namora tomou apontamentos, gravou
cassetes, em suma, colheu a história de Lyon de Castro e transformou-a num
romance. Naturalmente que se tratou de uma coisa normalíssima, muito comum –
os escritores não podem viver as vidas de todas as suas personagens. Porém o
exagero de Lyon de Castro sobrevalorizando a história (que nunca foi capaz
de escrever) e subestimando o trabalho do escritor que efabulou algo que, de
outro modo, ficaria para sempre sepultado na cabeça do editor, e a aversão
de Pacheco (pois era ele o cliente) a Namora, transformaram uma coisa normal
num escândalo. No dia seguinte o Diário Popular, no seu suplemento cultural,
trazia a toda a largura das páginas centrais a afirmação de que Namora
roubara a trama do seu novo romance a Lyon de Castro. Resultado – Namora
zanga-se com o editor e passa a ser autor da Bertrand.
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COMO CONHECI PACHECO |
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Conheci
Luiz Pacheco em 1958, quando comecei a frequentar o Café Gelo. Ele era na
altura funcionário da Inspecção Geral de Espectáculos, fiscal, segundo julgo
saber. É difícil imaginá-lo de fato e gravata, mas naquela altura a função
pública era muito exigente e mantinha rígidos padrões de comportamento.
Trabalhava no Palácio Foz, de forma que aparecia cedo no café. Por ali
paravam, além do Pacheco e do Cesariny, o Raul Leal, sobrevivente do
«Orpheu», o Herberto Hélder, o Manuel de Lima, o António José Forte, o
Ernesto Sampaio, o João Rodrigues e muitos outros. O Pacheco «estragava» o
formalismo do vestuário com os sacos e saquinhos de plástico com que entrava
e saía. Eram os livros e opúsculos que editava e que trazia para vender e
para dar. Depois do número um da «Pirâmide», dirigido, de facto, pelo
Cesariny. O Pacheco convenceu-nos, a mim e ao outro editor da revista, a
darmos um «golpe de estado» contra a ditadura do Mário. Éramos uns putos,
tínhamos vinte anos, e não era difícil, quer para o Cesariny, quer para o
Pacheco, dar-nos a volta. O número dois foi, portanto, dirigido pelo Pacheco
e nele se atacava o Cesariny e outros «distraídos».
Passados
anos, morava eu e trabalhava em Tomar. Num fim de tarde, quando chego, quem
estava em minha casa? O Luiz Pacheco. Sobre o tapete da sala, deitado no
chão, ele e os meus filhos, na altura com cinco e três anos, faziam desenhos
com lápis de cores nas páginas de livros novos. Livros que o Luiz Pacheco
obtivera de Manoel Vinhas. E eram nas páginas de livros do Sartre, do
Malraux, do Breton, em edições
francesas, que os miúdos, incentivados pelo Pacheco, «desenhavam» - «Que
lindo!» - dizia o Pacheco quando entrei - «Uma aranha!». As crianças
adoraram-no.
A história desses livros é curiosa: na sua coluna semanal do Diário
de Lisboa, Eduardo do Prado Coelho criticara desfavoravelmente o livro de
Pacheco «Crítica de Circunstância», elogiando a forma como estava escrito,
mas acusando o autor de «não ter ideias». Pacheco retorquiu dizendo que,
efectivamente, tendo vendido os seus livros, tinha ficado sem ideias, pois
os livros é que nos dão as ideias. Dizia ainda que os «Coelhos» eram para
ele uma maldição – no liceu fora aluno do A. do Prado Coelho, avô do
Eduardo, que o obrigava a recitar a «Balada de Neve». Na Faculdade de Letras
tivera como professor Jacinto do Prado Coelho, que só falava nos heterónimos
do Pessoa. «Quando pensava que já estava livre dos Coelhos, aparece-me o
Eduardinho…». Manoel Vinhas, seu mecenas, abriu um crédito de mil escudos
(muito dinheiro naquela altura) numa livraria. E ali estava o Pacheco em
minha casa com dois enormes sacos de livros que os meus filhos iam enchendo
de desenhos - «Ficam muito valorizados», dizia-me o Pacheco ante o meu olhar
desolado ao ver as páginas cobertas de rabiscos.
Depois do jantar saímos. Apresentei-o aos amigos tomarenses – o
Arnaldo, o Manuel, o Camilo, o Fernando... O Pacheco causou sensação. Ainda
há dias, o Manuel me reproduziu o pachequiano discurso
(a minha memória não é tão privilegiada - e tomei apontamentos). Num
pequeno café, perorou sobre o trauma da «morte do pai». Recordou-se do dia
em que o pai morrera, em 1960. Começou a perguntar-nos, um por um, «Tu tens
pai?», mais jovens, todos os cinco tínhamos ainda pai. Pacheco, não desarmou
– gritou para o dono café que atrás do balcão remoía pensamentos
inescrutáveis: «O senhor tem pai?». Contou-nos ainda como, no dia em que o
pai morrera, mergulhado numa indizível tristeza deitou-se sobre a cama no
seu quarto, sozinho com a sua dor. Uma criada veio dar-lhe um beijo na face.
E nunca mais esqueceu esse gesto afectuoso. Contou-nos a tal história dos
livros oferecidos pelo Manoel Vinhas e a maldição dos Coelhos que o
perseguia desde o Liceu Camões. E, entre histórias e copinhos diversos –
ginjinha, amêndoa-amarga, eduardino, évora, anis, aguardente de figo… lá
fomos percorrendo a via-sacra dos tasquinhos e botequins nabantinos. Os
amigos foram-se despedindo. Quando ficou sozinho comigo, deu-me bons
conselhos – eu fazia crítica semanal no Jornal de Notícias, crítica de
poesia, e dizia mal de quase tudo (ao José Régio, por exemplo, na reedição
da Poemas de Deus e do Diabo,
acusei-o de fazer «poesia de sacristia!»). Aconselhou-me moderação.
Tinha toda a razão, mas o conselho servia-lhe a ele também – Namora, Redol,
Pereira Gomes, Cardoso Pires, Saramago, José Gomes Ferreira, Lobo Antunes e
tantos outros, que o digam… As
quatro da manhã surpreendeu-nos a ambos em frente da estação de caminho de
ferro onde ele ia apanhar o comboio que o levaria ao Entroncamento e daí
partiria de regresso às Caldas. Os candeeiros de iluminação pública imersos
numa neblina densa, típica da cidade do Nabão, criam uma atmosfera irreal.
- Isto existe mesmo ou estamos bêbados? – Perguntou-me.
- As duas coisas, respondi.
- Não! Isto é uma invenção tua.
O comboio chega. Despedimo-nos,. Manda-me depois uma carta muito
tocante agradecendo a recepção.
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OS ÚLTIMOS ANOS |
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Cecília Neto realiza um filme sobre Luiz Pacheco para a RTP-2, adere ao Partido Comunista Português. A este respeito, João Paulo Cotrim, quando o entrevista, pergunta-lhe como é que ele, tendo mantido sempre uma postura anarquista, acaba por se inscrever no PCP, Pacheco responde: «Pois é, mas eu também só entrei para o partido quando me apareceu uma hérnia. Nessa altura, mandei um recado ao José Casanova: “Psst! Quero entrar para o partido como extrema-unção”. Isto não obriga a nada, nem aqui há uma esperança revolucionária. É porque é giro, um gajo morre e vai lá com a bandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos Ary amigo, o Partido está contigo! – e pensei:
“Isto é que me convém, porra!
Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa
aconchegado. Sabe, é que eu sou um gajo muito friorento…».
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CONCLUSÃO
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Não
costumo entrar nas biografias que escrevo. Como puderam ver, para o Luiz,
abri uma excepção. Muito provavelmente, ele rir-se-ia da afirmação que vou
fazer; quase posso ouvir as suas casquinadas asmáticas acolhendo esta
afirmação, mas em todo o caso, faço-a – ter conhecido e privado com Luiz
Pacheco foi um privilégio.
Naquela
tarde do princípio de Janeiro de 2008, não devia ter ido, mas fui à Basílica
da Estrela, vê-lo pela última vez. Não devia ter ido porque, tal como a
maioria das pessoas não gosta de ser apanhada «descomposta», ao Pacheco não
agradaria que os amigos o surpreendessem tão composto em «câmara ardente» na
Basílica da Estrela, à espera da missa, rezada por iniciativa de uma das
filhas, que antecedeu a cremação no cemitério do Alto de São João. Lá estava
ele, comprido, bem vestido, penteadinho, hierático. Silencioso como só os
mortos sabem ser e estar. Pela primeira vez, o achei sem ideias. Para
rematar esta biografia, à falta de melhor, lembro-me da sua resposta quando,
numa das entrevistas da fase jubilatória da sua vida, lhe pedem uma mensagem
para as novas gerações:
«- Puta
que os pariu!». |
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