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Luiz Pacheco

Escritor e editor português: 1925-2008

Carlos Loures

Nunca fui pessoa respeitável...

 

 

 

 

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1925: À uma e quarenta da madrugada de 7 de Maio nasce em Lisboa, num velho prédio da Rua D. Estefânia (no n.º 91-1º), Freguesia de São Sebastião da Pedreira, Luís José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, que virá a adoptar o nome de Luiz Pacheco, filho de Paulo Guerreiro Pacheco e de Adelina Maria Machado Gomes. 1932: Entra no Ensino Primário. 1936: No Liceu Camões, começa o curso dos Liceus. 1943: Conclui o curso Completar dos Liceus (antigo 7º ano). 1944-45: Obtém boa classificação no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa, ficando isento do pagamento de propinas. Matricula-se no curso de Filologia Românica. 1945: Começa a colaborar em diversos jornais e revistas. 1946: Emprega-se na Inspecção Geral dos Espectáculos. Com Jaime Salazar Sampaio, dirige o volume antológico Bloco. Assina as listas do MUD (Movimento de Unidade Democrática anti-salazarista). 1947: É preso no Limoeiro, acusado do crime de estupro. 1948: Nasce Maria Luísa, sua primeira filha. 1950: Nasce João Miguel, o segundo filho. Cria a editora Contraponto onde irá publicar textos de escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires. António Maria Lisboa. Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Virgílio Martinho, António José Forte, entre outros.1951: No dia seguinte ao da morte do marechal Carmona, presidente da República, apresenta-se ao serviço com uma gravata colorida, sendo repreendido e punido.1953: Morre sua mãe. 1958: Nasce o terceiro filho: Fernando António. Publica Caca, Cuspo & Ramela (textos de Mário Cesariny, Natália Correia, Manuel de Lima, etc. de sua autoria, edita Carta Sincera a José Gomes Ferreira.1959: Publica na revista Pirâmide o texto «A Pirâmide e a Crítica» em que defende a revista dos ataques de alguns críticos literários. Nasce Luís José, quarto filho. Demite-se da Inspecção Geral de Espectáculos. 1960: Em Maio, morre seu pai. 1961: Nasce a quinta filha, Adelina Maria. 1962: Publica o conto O Teodolito. 1963: Nasce Paulo Eduardo, o sexto. Edita na Contraponto o livro Surrelismo/Abjeccionismo, uma antologia organizada por Mário Cesariny. 1964: Nasce Maria Eugénia, a sétima. Publica o seu livro mais divulgado A Comunidade.1965: Nasce Jorge Manuel, o oitavo e último filho. 1966: Publica Crítica de Circunstância.1967: Edita os seus Textos locais. Visita Tomar. 1970: Sai O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. 1971: Publica Exercícios de Estilo. 1972: Edita Literatura Comestível.1974: É a vez de Pacheco versus Cesariny 1977: Publica Carta a Gonelha e Textos de Circunstância. 1979: Sai Textos de Guerrilha 1. 1980: Edita o folheto O caso do sonâmbulo chupista. 1981: Textos de Guerrilha 2. 1984: Publica Textos do Barro.1985: Baptista-Bastos entrevista-o para o Jornal de Letras. 1986: O Caso das Criancinhas Desaparecidas. 1988/89: A Comunidade é adaptada ao teatro e levada a cena pelo Teatro da Cornucópia. 1989: Adere ao Partido Comunista Português. 1991: Publica Textos Sadinos. 1992: Saem O Uivo do Coiote e Carta a Fátima. 1995: Concede uma longa entrevista à revista Ler. Sai Memorando, Mirabolando. 1996: Em 7 de Maio, por ocasião do seu 70º aniversário os filhos organizam uma festa de homenagem familiar. É publicado Cartas na Mesa. 1998: Publica Prazo de Validade. 2000: Sai Isto de estar Vivo. 2001: Uma Admirável Droga. 2002: Reedita Crítica de Circunstância, agora com o título Os doutores, a salvação e o menino Jesus – Conto de Natal. O Mano Forte. 2003: Raio de Luar. 2004: Figuras, Figurantes e Figurões. 2005: É entrevistado pelo Jornal de Letras. Sai o seu Diário Remendado (1971-1975). Cartas ao Léu. 2006: Vai para um lar no Montijo. 2007: É operado às cataratas. É entrevistado pela RTP. Dá também uma entrevista ao Correio da Manhã. 2008: Dá uma entrevista ao semanário Sol. Saem O Mito do Café Gelo e O Cachecol do Artista. É publicado O Crocodilo que voa. No dia 5 de Janeiro, acometido por doença súbita, morre na ambulância a caminho do hospital do Montijo. São 22 horas e 17 minutos quando o óbito é declarado.

 

UM LIBERTINO (LIBERTÁRIO?) PASSEIA PELA VIDA
 

 

Ao longo dos seus 82 anos de existência, Luiz Pacheco nunca pretende ser uma «pessoa respeitável». Faz tudo para não merecer essa classificação pela qual tantos se batem durante toda a vida – é preso por três vezes, não por política, mas por crimes de delito comum, «abusa de menores» – embora tanto quanto se saiba não seja um pedófilo (pelo menos, subjectivamente), é preso por crime de rapto e de estupro, alcoólico inveterado, pede dinheiro a toda a gente (chega a pedir esmola pelas ruas), vai aos quartéis pedir restos do rancho para alimentar a numerosa família, falsifica selos, publica textos, teoricamente impublicáveis, de autores que, no entanto, se tornarão famosos – Mário Cesariny de Vasconcelos, Manuel de Lima, Vergílio Ferreira, Natália Correia, Herberto Helder, ganhando o apodo de «editor maldito». Faz repetidas incursões na homossexualidade e diz ter feito sexo com uma cadela… – «proeza» que depois desmente – Tudo isto o sabemos por depoimentos do próprio. Nunca esconde estas coisas e nem há como saber se tudo é verdade – com ele, a profissão de chantagista deixaria de fazer sentido, pois enquanto muita gente inventa heroísmos e esconde o que não é bonito, Pacheco faz gala (e inventa-os?) em cometer actos sórdidos. Embora os que comprovadamente pratica sejam suficientes para lhe ornamentar o currículo. Esta luta incessante pela irrespeitabilidade, numa permanente e dir-se-ia que voluntária, descida aos Infernos, vale-lhe, surpreendentemente, o respeito generalizado da comunidade literária. Não tem nada a aprender com François Villon ou com Bocage. Em todo o caso, é bom que se diga, citando Pacheco em entrevistas, falando dos seus amores por adolescentes – «as miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia» e, outra coisa muito importante, «o libertino tem regras, por exemplo, não se mete com a mulher do amigo». Apesar deste «código deontológico do libertino», não é possível ignorar que algumas das proezas de Pacheco, nomeadamente o seu envolvimento com raparigas menores são hoje, ainda mais do que na época, crimes reprováveis. Porém, sem querer encontrar desculpas, há que contextualizar as coisas – quando comete o primeiro crime de «rapto e estupro» tem 18 anos, só mais quatro do que a «vítima». Casa no Limoeiro. Reincide. Várias prisões, vários filhos – oito – três da primeira mulher, dois da segunda, mais três da terceira. Filhos, delitos e prisões confundem-se. Estão intimamente relacionados. 

Porém, de delinquentes estão as prisões cheias. Não é pelas suas incursões no sub mundo e na face oculta da realidade que o recordamos. Porque esta faceta da sua reincidente transgressão das normas sociais, esconde outra mais profunda – a grande qualidade da sua escrita. Luiz Pacheco é um grande escritor. A sua modesta libertinagem tem muito de quixotesco, transmutando acontecimentos sordidamente banais em episódios épicos. Dele fica-nos, além da memória que se vai convertendo em lenda de um ser estranho, irreverente e associal, belas páginas – O Teodolito, por exemplo, é uma obra literária de elevada qualidade. E um grande editor.

Ele, muito provavelmente, rir-se-ia da afirmação que vou fazer (não costumo entrar nas biografias que escrevo, mas para o Pacheco, vou abrir uma excepção). Embora ouvindo as suas casquinadas asmáticas acolhendo esta afirmação, em todo o caso, faço-a – ter conhecido e privado com Luiz Pacheco foi um privilégio.

Vamos lá recordar alguns aspectos da vida deste homem.

OS AMORES E OS DESAMORES DE PACHECO


Com 18 anos, Luiz Pacheco arranja o primeiro problema da longa série de problemas em que a sua vida se vai transformar. Tem uma ligação sexual com uma jovem criada de seus pais, Maria Helena Alves, com catorze anos. Um tio da menor processa Pacheco. Mas as coisas parecem arranjar-se – Maria Helena é emancipada e Luiz compromete-se a casar com a moça. Tudo solucionado? Não – Pacheco apaixona-se por Maria de Fátima, estudante de piano em casa de uma vizinha, com a qual não pode ter um namoro convencional dado o compromisso de casamento com Maria Helena. Mas é uma paixão escaldante, com encontros secretos em quartos alugados e casas de passe. A relação clandestina com Maria de Fátima durará de 1945 até 1948.

Em 1947, relacionado com o caso de Maria Helena, é emitido um mandado de captura em seu nome. Refugia-se numa casa que alugara no Mucifal, em Colares, fugindo depois para casa de uma tia, no Campo de Santana. Acaba por ser preso na Estefânia, em casa dos pais. Fica no Limoeiro durante um mês e meio. Em Abril, na sexta-feira Santa, desposa Maria Helena na cadeia – é provisoriamente liberto. No sábado de Aleluia, o jovem casal, parte em viagem de núpcias para a casa do Mucifal, donde vem depois para Lisboa, instalando-se numa casa da Rua Andrade. Porém, o caso não está resolvido. É julgado, acusado pelo crime de estupro e condenado a dois anos e meio, com pena suspensa, por ter casado com a «vítima». Em 1948 nasce Maria Luísa, a primeira de uma «comunidade» de oito filhos. Em Maio de 1950, nasce João Miguel, o segundo. Morre sua mãe, Adelina Maria Machado Gomes. Zanga-se com Maria Helena (que terá sabido do affaire Maria de Fátima?). Mantém uma relação homossexual com um rapaz empregado no Sindicato dos Artistas.

A relação com Maria Helena, que entretanto se formará como enfermeira, piora; no entanto, engravida, enquanto Pacheco arranja outro namoro – agora é Maria do Carmo, a quem a família se apressa a desterrar para a terra, a Sertã. Mas Luiz não perde tempo,  já está de olho noutro sarilho, sob a forma de Maria Eugénia, filha da dona da casa onde mora, na Almirante Barroso. A menina tem 13 anos. Em Maio de1958 nasce Fernando António, terceiro filho de Luiz e de Maria Helena. A evidência de um iminente envolvimento com Eugénia está à vista, e, antes que seja tarde, uma criada denuncia o caso a Maria Helena e à mãe da rapariga. Expulso de casa, instala-se com Maria do Carmo na Rua Jorge Colaço.

Em 1959, a mãe de Maria Eugénia move-lhe um processo. É condenado por atentado ao pudor de uma menor (embora, segundo parece, apenas a tenha beijado e acariciado). Em Agosto nasce o seu quarto filho Luís José, o primeiro da união com Maria do Carmo. Ameaçado por novo mandado de captura (caso Maria Eugénia) anda fugido pelo Porto, Ermesinde, Setúbal, acabando por ser capturado e recolher de novo ao Limoeiro. Ali passa o Natal. Natália. É absolvido do caso Maria Eugénia, mas condenado por faltar à audiência. Estamos em 1960. Maria do Carmo está novamente grávida.

Em Fevereiro de 1961 nasce Adelina Maria, a quinta. Este 1962 é ano de novo sarilho: engravida Maria Irene, irmã de Maria do Carmo. Maria do Carmo tem um lugar de venda no Mercado da Ribeira e sai de madrugada de casa. Luiz fica sozinho com a adolescente Irene. E, francamente, um libertino não é de pau! No ano seguinte, será julgado e condenado à revelia pelo Tribunal da Comarca da Sertã. Pacheco nem sequer tomara conhecimento da existência do processo. Em Maio nasce Paulo Eduardo, o filho de Pacheco e da jovem Irene. Em 1964, vive agora nas Caldas da Rainha. Em Maio nasce Maria Eugénia, sétima, segunda da ligação com Irene. Pacheco é preso nas Caldas devido ao processo de Maria Irene, saindo sob caução. Desentende-se com Irene e fica a viver sozinho nas Caldas da Rainha. O abuso do álcool provoca-lhe o agravamento da asma. Em Novembro de 1967, o casamento com Maria do Carmo é dissolvido «por abandono do lar». Em 1968 é de novo preso nas Caldas da Rainha, sendo depois transferido para o velho Limoeiro. No ano seguinte, já em liberdade, apaixona-se por Elsa Isabel com quem tem uma ligação. Num breve passeio às Caldas tem um envolvimento de alguns dias com Isabel Valadares. Na véspera de Natal apanha uma monumental bebedeira e passa a consoada no banco do Hospital de S. José. Em Janeiro de 1970 é internado no Hospital de Santa Marta Pacheco continua e intensifica o tratamento ambulatório de desintoxicação alcoólica. Tratamento que, com acidentes de percurso e muitas recaídas, prosseguirá até 1980. Até 1975, Luiz continua a publicar, a fazer traduções e… a beber. Mantém uma política de porta aberta, entrando «toda a bicharada» (expressão sua) – «malucos, marginais, bêbedos, paneleiros, lésbicas» a fama da casa onde vive, em Massamá, é terrível. Luiz Pacheco, sempre segundo regista no diário, tem ligações episódicas com algumas mulheres, engata uns rapazes… – «a fome, a solidão, a tristeza, a velhice e a decadência», diz no seu diário. Sai de Massamá. Até 1980, não tem paradeiro certo. Deambula pelo Montijo, Campo de Ourique, Algarve. Afectado pela subnutrição é internado no Hospital Curry Cabral. Em 1977 é internado na Clínica Psiquiátrica de Celas, com a visão e o raciocínio afectados pelo álcool. Em 1980 faz uma tentativa de suicídio, atravessando de olhos fechados a Avenida de Berna na hora de ponta. Travões guincham, pneus chiam, automobilistas furiosos insultam-no, mas a morte não quer nada com ele. Falámos da vida sentimental, se assim se lhe pode chamar. Lembremos alguns de outros casos em que esteve envolvido.

 

  O CASO DA GRAVATA ESCOCESA
LUIZ PACHECO é castigado
porque usa uma gravata colorida quando da morte
do presidente Carmona. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo?

Consulta a Tábua Cronológica.


Pacheco trabalhava na Inspecção Geral de Espectáculos, organismo estatal que fazia parte do dispositivo de repressão, a par do Secretariado Nacional da Informação e da Comissão de Censura, entre outros apêndices institucionais orquestrados pela polícia política e dirigidos pelo partido único. Era, pois, um departamento do Estado com funções repressivas embora actuasse a níveis modestos, inspeccionando salas de espectáculos, teatros e cinemas, zelando porque as directivas superiores, de carácter político e de carácter burocrático, fossem cumpridas. Funcionava no Palácio Foz, onde funcionava também o Secretariado Nacional da Informação. Quando em Abril de 1951 morre o marechal Carmona, presidente da República, é decretado o regulamentar luto nacional. Aos funcionários públicos é exigido que usem gravata preta e roupas de tons escuros. Pois Luiz Pacheco apresenta-se ao serviço no dia seguinte ao da morte do marechal com uma gravata colorida, de padrão escocês em cores vermelha e castanha. Tal enormidade é objecto de movimentações e de indignação a nível das chefias. O caso é mesmo enviado ao ministro da Presidência!

 

O CASO DA QUADRILHA DOS SELOS

 


Em Fevereiro de 1959 dá-se o caso do sobretudo – usa, sem autorização do proprietário, um opulento sobretudo do Chefe da Secretaria da Inspecção Geral de Espectáculos – processo disciplinar e condenação a cinco dias de multa. No final de 1959, Pacheco pede a demissão do seu cargo de fiscal da Inspecção Geral de Espectáculos. Porém, antes disso há uma nova bronca – a da falsificação dos selos. Luiz explica: «Um gajo está numa repartição a lidar com requerimentos e selos fiscais de duzentos, trezentos paus, um conto de réis – na altura era muito dinheiro. Ora não se põe um gajo a ganhar seiscentos paus por mês quando lhe passam diariamente pela mão dezenas de contos de réis pela mão sem a mínima fiscalização. Aliás, não era um gajo, eram dez.»

E conta como um filho de família numa atmosfera de corrécios adere a uma quadrilha – um inspector dos mercados, um colega, foi quem teve a luminosa ideia – não havia controlo dos selos que entravam Então eram limpos com lixívia e novamente vendidos. Alguns tinham de ser reformados porque começavam a ficar amarelados. A matéria-prima era abundantíssima. Um deles especializara-se a imitar a assinatura do director. Havia um outro especialista em falsificar passaportes – um novo ramo do negócio, que ia de vento em popa: «Arranja aí um passaporte dos nossos!». «Passa-me aí uns selos dos nossos!» «Aquilo tinha-se tornado uma instituição paralela ao Estado português!», diz Pacheco resumindo a situação. Funcionários com ordenados miseráveis compravam automóveis, tinham amantes, faziam uma vida de ostentação. Pacheco apenas fez duas extravagâncias – comprou uma mota e foi jogar ao Casino Estoril – saiu a ganhar na roleta e nunca mais lá voltou com medo de apanhar o vício (mais um). Mas os membros da quadrilha estavam a desleixar-se. Não havia cuidado. Pacheco apercebe-se de que, mais tarde ou mais cedo, tudo irá desabar com a Judiciária a entrar ali de roldão...  É então que chega um novo inspector… Damos de novo a palavra ao Luiz:

«Até era um gajo giro, e perguntou-me: -“Então como vai isso?” – E eu mandei uns bitaites. Ele ficou fodido: - “Eu não preciso dos seus conselhos para nada, era o que faltava!” – Ora este cabrão! Apanhei o gajo sozinho e disse-lhe: “- O senhor inspector não precisa dos meus conselhos, mas vou dar-lhe alguns». E descreve por alto o que se passa. «Você também pertence à quadrilha? – Pertenço, mas isto não pode continuar, senão vai tudo parar à cadeia.». O homem começa a ficar roxo, com as veias a inchar. «Ai que este gajo vai-me ter aqui uma congestão e eu fico com a morte dele na consciência», pensa Pacheco. Mas não. O inspector começa de imediato a pôr em prática os conselhos de Luiz Pacheco. A mama acaba-se, mas ninguém é preso. O chamado crime perfeito.

O CASO DO SONÂMBULO CHUPISTA, LOGO SEGUIDO PELOS «CLANDESTINOS»









Pacheco acusara Fernando Namora de ter plagiado no seu romance «Domingo à Tarde», a «Aparição» de Vergílio Ferreira. A acusação dá lugar a uma acesa controvérsia. Namora ameaça-o com um processo (mais um!). Em «O caso do sonâmbulo chupista», Pacheco faz uma pormenorizada comparação entre os dois romances onde destaca o, quanto a ele, descarado plágio, «uma grande filha-de-putice», como diz numa entrevista para a televisão. Noutra entrevista a Guilherme Pereira, diz: «Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… O Namora era um vigarista, o gajo que mais plágios fez em toda a história da literatura…» Acrescente-se que Pacheco abomina o neo-realismo e que, para ele, Fernando Namora é um paradigma de escritor neo-realista. Aliás, Pacheco não tem em grande conta o chamado meio literário. Numa entrevista de Guilherme Pereira diz: «O meio literário é de cortar à faca, mas muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc. , andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides.»

Em 1972, Namora lança um novo romance «Os Clandestinos», editado pelas Publicações Europa-América. Uma tarde, na livraria que a editora tem na Avenida Marquês de Tomar, o editor Francisco Lyon de Castro repara num sujeito, alto, magro, semi-calvo e de óculos que folheia livros com ar interessado. Lyon de Castro aproxima-se e vê que o homem está a ler passagens do recém lançado romance de Namora.

- Gosta dos livros de Namora? – o sujeito faz um gesto passível de ser interpretado como um sim (ou como um não). Com a sua egocêntrica tagarelice Lyon de Castro continua, dizendo algo que repetira já a numerosas pessoas: - Sabe? Esse livro foi praticamente escrito por mim… - por detrás das grossas lentes os olhos do cliente abrem-se de espanto – Ah sim?  Castro não se faz rogado e explica com grande cópia de pormenores como descreveu a Namora as suas aventuras quando, nos anos trinta, fugindo à polícia política, se escapou para França. Namora tomou apontamentos, gravou cassetes, em suma, colheu a história de Lyon de Castro e transformou-a num romance. Naturalmente que se tratou de uma coisa normalíssima, muito comum – os escritores não podem viver as vidas de todas as suas personagens. Porém o exagero de Lyon de Castro sobrevalorizando a história (que nunca foi capaz de escrever) e subestimando o trabalho do escritor que efabulou algo que, de outro modo, ficaria para sempre sepultado na cabeça do editor, e a aversão de Pacheco (pois era ele o cliente) a Namora, transformaram uma coisa normal num escândalo. No dia seguinte o Diário Popular, no seu suplemento cultural, trazia a toda a largura das páginas centrais a afirmação de que Namora roubara a trama do seu novo romance a Lyon de Castro. Resultado – Namora zanga-se com o editor e passa a ser autor da Bertrand.

COMO CONHECI PACHECO
 

 

Conheci Luiz Pacheco em 1958, quando comecei a frequentar o Café Gelo. Ele era na altura funcionário da Inspecção Geral de Espectáculos, fiscal, segundo julgo saber. É difícil imaginá-lo de fato e gravata, mas naquela altura a função pública era muito exigente e mantinha rígidos padrões de comportamento. Trabalhava no Palácio Foz, de forma que aparecia cedo no café. Por ali paravam, além do Pacheco e do Cesariny, o Raul Leal, sobrevivente do «Orpheu», o Herberto Hélder, o Manuel de Lima, o António José Forte, o Ernesto Sampaio, o João Rodrigues e muitos outros. O Pacheco «estragava» o formalismo do vestuário com os sacos e saquinhos de plástico com que entrava e saía. Eram os livros e opúsculos que editava e que trazia para vender e para dar. Depois do número um da «Pirâmide», dirigido, de facto, pelo Cesariny. O Pacheco convenceu-nos, a mim e ao outro editor da revista, a darmos um «golpe de estado» contra a ditadura do Mário. Éramos uns putos, tínhamos vinte anos, e não era difícil, quer para o Cesariny, quer para o Pacheco, dar-nos a volta. O número dois foi, portanto, dirigido pelo Pacheco e nele se atacava o Cesariny e outros «distraídos».

Passados anos, morava eu e trabalhava em Tomar. Num fim de tarde, quando chego, quem estava em minha casa? O Luiz Pacheco. Sobre o tapete da sala, deitado no chão, ele e os meus filhos, na altura com cinco e três anos, faziam desenhos com lápis de cores nas páginas de livros novos. Livros que o Luiz Pacheco obtivera de Manoel Vinhas. E eram nas páginas de livros do Sartre, do Malraux, do Breton, em edições  francesas, que os miúdos, incentivados pelo Pacheco, «desenhavam» - «Que lindo!» - dizia o Pacheco quando entrei - «Uma aranha!». As crianças adoraram-no.

           A história desses livros é curiosa: na sua coluna semanal do Diário de Lisboa, Eduardo do Prado Coelho criticara desfavoravelmente o livro de Pacheco «Crítica de Circunstância», elogiando a forma como estava escrito, mas acusando o autor de «não ter ideias». Pacheco retorquiu dizendo que, efectivamente, tendo vendido os seus livros, tinha ficado sem ideias, pois os livros é que nos dão as ideias. Dizia ainda que os «Coelhos» eram para ele uma maldição – no liceu fora aluno do A. do Prado Coelho, avô do Eduardo, que o obrigava a recitar a «Balada de Neve». Na Faculdade de Letras tivera como professor Jacinto do Prado Coelho, que só falava nos heterónimos do Pessoa. «Quando pensava que já estava livre dos Coelhos, aparece-me o Eduardinho…». Manoel Vinhas, seu mecenas, abriu um crédito de mil escudos (muito dinheiro naquela altura) numa livraria. E ali estava o Pacheco em minha casa com dois enormes sacos de livros que os meus filhos iam enchendo de desenhos - «Ficam muito valorizados», dizia-me o Pacheco ante o meu olhar desolado ao ver as páginas cobertas de rabiscos.

           Depois do jantar saímos. Apresentei-o aos amigos tomarenses – o Arnaldo, o Manuel, o Camilo, o Fernando... O Pacheco causou sensação. Ainda há dias, o Manuel me reproduziu o pachequiano discurso  (a minha memória não é tão privilegiada - e tomei apontamentos). Num pequeno café, perorou sobre o trauma da «morte do pai». Recordou-se do dia em que o pai morrera, em 1960. Começou a perguntar-nos, um por um, «Tu tens pai?», mais jovens, todos os cinco tínhamos ainda pai. Pacheco, não desarmou – gritou para o dono café que atrás do balcão remoía pensamentos inescrutáveis: «O senhor tem pai?». Contou-nos ainda como, no dia em que o pai morrera, mergulhado numa indizível tristeza deitou-se sobre a cama no seu quarto, sozinho com a sua dor. Uma criada veio dar-lhe um beijo na face. E nunca mais esqueceu esse gesto afectuoso. Contou-nos a tal história dos livros oferecidos pelo Manoel Vinhas e a maldição dos Coelhos que o perseguia desde o Liceu Camões. E, entre histórias e copinhos diversos – ginjinha, amêndoa-amarga, eduardino, évora, anis, aguardente de figo… lá fomos percorrendo a via-sacra dos tasquinhos e botequins nabantinos. Os amigos foram-se despedindo. Quando ficou sozinho comigo, deu-me bons conselhos – eu fazia crítica semanal no Jornal de Notícias, crítica de poesia, e dizia mal de quase tudo (ao José Régio, por exemplo, na reedição da Poemas de Deus e do Diabo, acusei-o de fazer «poesia de sacristia!»). Aconselhou-me moderação. Tinha toda a razão, mas o conselho servia-lhe a ele também – Namora, Redol, Pereira Gomes, Cardoso Pires, Saramago, José Gomes Ferreira, Lobo Antunes e tantos outros, que o digam…  As quatro da manhã surpreendeu-nos a ambos em frente da estação de caminho de ferro onde ele ia apanhar o comboio que o levaria ao Entroncamento e daí partiria de regresso às Caldas. Os candeeiros de iluminação pública imersos numa neblina densa, típica da cidade do Nabão, criam uma atmosfera irreal.

           - Isto existe mesmo ou estamos bêbados? – Perguntou-me.

           - As duas coisas, respondi.

           - Não! Isto é uma invenção tua.

O comboio chega. Despedimo-nos,. Manda-me depois uma carta muito tocante agradecendo a recepção.

OS ÚLTIMOS ANOS
 


Em 1981 volta a ser internado no Curry Cabral e depois no Sanatório do Barro em Torres Vedras. Requer a pensão de reforma – afinal, apesar do caso da gravata escocesa, do sobretudo involuntariamente emprestado pelo senhor director e da quadrilha dos selos, foi funcionário público. Escreve para o Diário de Lisboa e para o Diário Popular. Os amigos dão apoio económico. Em 1982 começa a receber a pensão de reforma. É novamente internado no Sanatório do Barro. Em 1983 é reinternado pela quarta vez no Sanatório do Barro. Em 1984 é internado na Clínica de Pneumologia de Celas com broncopatia obstrutiva e infecção respiratória. É internado no Hospital Psiquiátrico de Júlio de Matos. Em 1985 e 1986 continua a publicar, inéditos e reedições. Em 1988, o Teatro da Cornucópia adapta e leva à cena a Comunidade. Muda-se para Setúbal.

Cecília Neto realiza um filme sobre Luiz Pacheco para a RTP-2, adere ao Partido Comunista Português. A este respeito, João Paulo Cotrim, quando o entrevista, pergunta-lhe como é que ele, tendo mantido sempre uma postura anarquista, acaba por se inscrever no PCP, Pacheco responde: «Pois é, mas eu também só entrei para o partido quando me apareceu uma hérnia. Nessa altura, mandei um recado ao José Casanova: “Psst! Quero entrar para o partido como extrema-unção”. Isto não obriga a nada, nem aqui há uma esperança revolucionária. É porque é giro, um gajo morre e vai lá com a bandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos Ary amigo, o Partido está contigo! – e pensei:

“Isto é que me convém, porra! Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu sou um gajo muito friorento…».

CONCLUSÃO

 

Não costumo entrar nas biografias que escrevo. Como puderam ver, para o Luiz, abri uma excepção. Muito provavelmente, ele rir-se-ia da afirmação que vou fazer; quase posso ouvir as suas casquinadas asmáticas acolhendo esta afirmação, mas em todo o caso, faço-a – ter conhecido e privado com Luiz Pacheco foi um privilégio.

Naquela tarde do princípio de Janeiro de 2008, não devia ter ido, mas fui à Basílica da Estrela, vê-lo pela última vez. Não devia ter ido porque, tal como a maioria das pessoas não gosta de ser apanhada «descomposta», ao Pacheco não agradaria que os amigos o surpreendessem tão composto em «câmara ardente» na Basílica da Estrela, à espera da missa, rezada por iniciativa de uma das filhas, que antecedeu a cremação no cemitério do Alto de São João. Lá estava ele, comprido, bem vestido, penteadinho, hierático. Silencioso como só os mortos sabem ser e estar. Pela primeira vez, o achei sem ideias. Para rematar esta biografia, à falta de melhor, lembro-me da sua resposta quando, numa das entrevistas da fase jubilatória da sua vida, lhe pedem uma mensagem para as novas gerações:

«- Puta que os pariu!».

 

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