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JOAM ROIZ DE CASTEL-BRANCO
Trovador: segunda metade do século XV
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QUANDO TUDO ACONTECEU... (PERTURBANDO O REPOUSO DO POETA)
- Ó Joam Roiz de Castel-Branco: sei que viveste na segunda metade do século XV. Sei que foste aplaudido trovador na corte de D. Joam II, o Príncipe Perfeito, monarca impulsionador dos Descobrimentos Portugueses. Sei que ao abandonares o Paço foste viver na cidade da Guarda, onde te dedicaste à agricultura e à contabilidade. Sei que hoje repousas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Peço desculpa mas vou perturbar o teu repouso com a minha agitação dos séculos XX e XXI. Reparo que estás acordando, já te espreguiças. Resmungas: - Que quereis de mim, ó Mafoma? - Mafoma? Quem, eu? - Sim, Mafoma, mouro, infiel. - Joam Roiz, mouro eu cá não sou. E infiel também não. Antes pelo contrário, sou um fiel admirador da tua poesia.
Volta a espreguiçar-se mas corrige a acintosa saudação: - Que quereis então de mim, ó perturbador? - Quero ouvir alguns dos teus poemas. - Ai sim? Vou então dizer-vos um poema que enviei a António Pacheco, veador da moeda de Lisboa. - Veador? Hoje já não se usa essa palavra. - Estais insinuando que as palavras morrem? - Ou morrem ou transformam-se. Hoje diríamos vedor ou inspector da moeda de Lisboa. - Mesmo depois da minha vida ainda estou a aprender coisas novas. Grato, gosto disso... - Mas porquê um poema para António Pacheco? - Porque ele mandou-me uma carta motejando de mim. E a melhor forma de revidar era mandar-lhe um poema. - Estou a perceber. E como era o poema? - Como era, não! Como é! Já vos digo.
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JÁ ME NAM DÁ DE COMER SENAM MINHA FAZENDINHA |
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O que ocorreu de importante no século XV? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA.
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- Já me nam dá de comer Interrompo: - Ó Joam Roiz, não era esse o poema que eu queria ouvir. Fica irritado: - O que eu começo, acabo sempre, nunca paro a meio caminho. - Pronto, não leves a mal, avança!
E ele avança:
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CANTIGA, PARTINDO-SE
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- Joam Roiz, posso agora dizer-te qual dos teus poemas eu queria ouvir? - Dizei lá! - Queria ouvir a tua CANTIGA, PARTINDO-SE. - E porquê essa e não outra? - Porque me seduz. - E por que vos seduz? - Não sei o que responder-te. - Sei eu o motivo da sedução. Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso por terem mordido e comido a maçã do pecado. Sabeis disso? - Sim, já ouvi falar disso. - Os descendentes de Adão e Eva, por vergonha tapam as suas partes pecaminosas mas não se aguentam e estão sempre a provar e a comer a maçã do pecado. Que nome dais a esse comportamento? - Contravoltas da PAIXÃO? - Contravoltas da PAIXÃO? Não está mal visto. Na minha CANTIGA, PARTINDO-SE um cavaleiro apaixonado, em vésperas de partir talvez para o além-mar, despede-se da bem-amada. Está tudo dito ou é preciso dizer mais alguma coisa? - Precisas dizer muito mais, ó Joam Roiz... Antes de ti, na corte os jograis tocavam e cantavam. Mas depois a poesia palaciana, da qual és um exemplo típico de trovador, limitou-se a declamar. Há porém um golpe de mágica na tua CANTIGA, PARTINDO-SE porque ela consegue incorporar a música no próprio texto. De tal forma que, no meu século XX (e já lá vão cinco séculos...) Alain Oulman sobre ela compôs melodia que Amália Rodrigues interpretou. E o mesmo aconteceu com o nosso compositor e cantor Adriano Correia de Oliveira. Pergunto: que mágica foi essa que tu usaste? - Não foi mágica, foi engenho. - Explica lá esse engenho. - A CANTIGA é toda em redondilha maior, sete sílabas. E todos os versos têm dois acentos tónicos, ora na 3.ª e 7.ª sílaba, ora na 4.ª e 7.ª ora na 5.ª e 7ª. ora isto, ora aquilo. Desta forma consegui eu criar um ritmo avassalador. - Está tudo explicado? - Não, não está. Há também um engenho especial para as rimas. As dos primeiros quatro versos, emparelham a rima do 1.º com a do 3.º e a do 2.ª com a do 4.º. E essas rimas encontram eco nos últimos quatro versos. E os cinco versos que ficam pelo meio, também rimam entre eles, o 5.º com o 7.º e o 8º., o 6.º com o 9.º. - É tudo? - Não, ainda não. Falta apontar o advérbio tam, surda pancada que antecede tristes, termo este que domina toda a CANTIGA. Tam irrompe dez vezes. Duas nos quatro primeiros versos. Cinco nos cinco seguintes; cinco em cinco é coincidência que favorece puxar a trela de cinco adjectivos. Mais informo que os três derradeiros tam surgem nos últimos quatro versos. Percebeis a intenção? - Não sei. Canta lá essa tua CANTIGA para eu verificar se percebi.
E ele canta: CANTIGA, PARTINDO-SE
Senhora
partem tam tristes
Tam tristes, tam saudosos,
- Percebi e estou deliciado, ó Joam Roiz!
Dilui-se o trovador e as suas palavras começam a converter-se em água fresca. Antes que decorra um século LUÍS DE CAMÕES virá beber desta fonte.
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