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VARANDA - Sobre o tempo e o vasto mundo

 

Jorge Amado

(Piranji, Bahía, 1912)


Escritor brasileiro. Reparte a sua infância entre uma plantação de cacau e Ilhéus, cidade do litoral baiano. Estuda na Baía, antigo nome da actual cidade de Salvador, a partir dos 10 anos, e vai para o Rio de Janeiro mais tarde, onde se dedica ao jornalismo. Licencia-se em Direito em 1935, quando já tem publicados alguns romances (O País do Carnaval, 1931, Cacau,1933 e Suor, 1934), que constituem o «ciclo do cacau». Do primeiro pode dizer-se que derivam os seus livros mais comprometidos, dos outros dois derivam os romances relacionados com o Estado da Bahía e da capital do Estado, a cidade de Salvador. São romances que chegam clandestinamente a Portugal e que muito vão influenciar a geração do neo-realismo português. Jorge Amado mostra-se um escritor comprometido, profundo conhecedor do Nordeste brasileiro e das figuras marcantes da sua vida social — o plantador de cacau e o operário da fábrica de tabaco, o saveirista e o estivador, o negro e o «coronel», figuras estas que vão ser personagens centrais dos seus romances; conhecedor do misticismo do seu povo e dos seus problemas sociais (Jubiabá, 1935), das histórias do mar e da «dona dos mares e dos saveiros» Iemanjá (Mar Morto, 1936), dos problemas das crianças abandonadas nas ruas e cais de Salvador (Capitães da Areia, 1937). Preso em 1939, com os livros proibidos desde 37, em 1942 está exilado no Uruguai. Quando neste mesmo ano o Brasil declara guerra à Alemanha, Jorge Amado e outros exilados decidem que o seu lugar é no Brasil, onde a luta pelo fim da ditadura, pela democratização e pela amnistia se intensifica. Em 1943, os seus livros podem publicar-se de novo, dá à estampa mais um romance, talvez a sua obra-prima: Terras do Sem-Fim, onde mostra o desbravar do Nordeste brasileiro. No ano seguinte publica São Jorge dos Ilhéus. Neste mesmo ano, Bibi Ferreira pede-lhe uma peça de teatro; Jorge Amado acede e escolhe como tema a vida de Castro Alves, poeta dos escravos, do amor e da luta pela liberdade. A companhia acaba e a peça é publicada em 1947 com o título O Amor de Castro Alves (O Amor de Soldado, na edição portuguesa), mas, antes, publica mais um romance, Seara Vermelha, 1946, em que se mantém fiel à sua luta contra os que provocam a miséria e a dor. Em 1948 passa pela prisão e é de novo o exílio. Passa a viver em França e depois na ex-União Soviética e ex-Checoslováquia, período de grande militância comunista de Jorge Amado. Na Checoslováquia inicia a trilogia Os Subterrâneos da Liberdade: Os Ásperos Tempos, Agonia da Noite e A Luz no Túnel, um vasto painel em que retrata a opressão fascista no Brasil. É talvez a sua obra mais politicamente comprometida com o movimento comunista (estalinista), na sequência de outros livros como ABC de Castro Alves, O Cavaleiro da Esperança e O Mundo da Paz: URSS e Democracias Populares, livro este que J. A. retira do mercado. Em 1951 recebe o Prémio Estaline. De regresso ao Brasil, exerce as funções de vice-presidente da União Brasileira de Escritores. Em 1958 volta ao tema Ilhéus, mas desta vez foca o seu desenvolvimento urbano graças ao cacau com Gabriela, Cravo e Canela, em cuja leitura não sabemos que mais valorizar, se os amores entre o comerciante sírio e a sua cozinheira, se os imprevistos comportamentos humanos ou a crise de costumes que tanto pode afectar a vida conjugal como a vida política. É uma escrita mais depurada, em que o escritor não abandona o seu compromisso com o «romance popular e social, com uma problemática ligada ao país, aos seus problemas, à causa do povo», compromisso que se mantém, embora recheado de um picaresco muito próprio de que é precursor no Brasil, em romances como Os Velhos Marinheiros, Os Pastores da Noite, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tenda dos Milagres, Tieta do Agreste, etc. Navegação de Cabotagem (1995) é o seu último livro.

Traduzido em mais de 50 países. Em 1994 recebe o Prémio Camões e, aquando do seu 85.º aniversário, um novo teatro no bairro de Pituba na cidade de Salvador recebe o seu nome.