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JOHN
D. GODINHO A
guerra estava declarada; era uma decorrência natural da emigração. Mal sabiam as forças inimigas que o conflito teria curta duração e
que, em pouco tempo, seriam aliadas e até amigas íntimas – comadres, digamos – num esforço comum para a sobrevivência do território em disputa.
Feitas as pazes, elas se uniriam definitivamente visando ao crescimento e bem geral do território ocupado. O conflito – a língua
portuguesa vs. a inglesa. O território – a mente de uma criança.
Instala-se o conflito. Persistem a língua, os costumes, as tradições portuguesas; surgem as primeiras ameaças, seguidas pela invasão avassaladora da língua, costumes e tradições americanas. Qualquer criança é terreno fértil para plantar. John não é exceção. O inglês cresce rapidamente; o português reage contra o invasor lutando com unhas e dentes, mas o resultado é inevitável: em casa, a língua portuguesa, sempre, junto com o fado e a sardinha assada; lá fora, a língua inglesa vale como um passaporte para outros mundos. Entre as duas, dá-se finalmente uma trégua, que vira amizade, que se torna união indissolúvel. O acordo: quando as circunstâncias o exigirem, uma delas assumirá o comando para o bem-estar geral dos três. Enquanto isso, a outra nem de longe se permitirá ciúmes mesquinhos. E assim tem sido.
John termina a educação primária e secundária em Gloucester. Segue-se o serviço militar na Força Aérea dos Estados Unidos. Local: Base Aérea de Langley, no estado da Virginia. Longe de casa, a língua portuguesa recolhe-se aos confins do território antes disputado, resignada, julgando-se esquecida, mas sem ressentimentos; fica de prontidão para voltar à luz da ribalta a qualquer momento dando corpo aos pensamentos do dono. E, como numa história de Hollywood, de segunda linha, eis que surge a oportunidade de brilhar. Um certo Coronel Harold W. Smith ouve dizer que há na base um airman de origem portuguesa. Manda-o chamar. A Força Aérea precisa da língua lusa. Que tal? Seguem-se entrevistas e uma longa viagem. Destino: Base Aérea das Lajes, na Ilha Terceira, Açores, onde John será tradutor e intérprete das forças armadas americanas. A situação se inverte: na base aérea, ou seja, em casa, prevalece a língua inglesa junto com a Coca-Cola e o hambúrguer; lá fora, a língua portuguesa é o passaporte para a volta às raízes e para mundos não acessíveis aos colegas americanos.
De volta aos Estados Unidos, John começa a vida universitária. A língua inglesa sobe ao palco e a portuguesa sai de cena retirando-se para o seu camarim. Mas só por uns tempos. Há um papel de coadjuvante reservado para ela. É que, enquanto persegue os estudos, John também é professor the português na Escola de Idiomas Berlitz, em Boston.
Terminados os estudos, John forma-se em Ciências Políticas pelo College of Liberal Arts, da Universidade de Boston, e é Juris Doctor pela Faculdade de Direito, da mesma universidade. Faz pós-graduação em Direito Comparado Internacional, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Está pronto para iniciar a carreira. Integra uma banca de advocacia na cidade de Newark, estado de Nova Jersey e, ao mesmo tempo, exerce a função de assistente de Promotor Público daquele município. Mas não é bem esse o seu caminho. Espera-o uma colocação no Departmento Jurídico Internacional da United States Steel Corporation, em Pittsburgh, Pennsylvania. No futuro, deverá ir para Caracas, Venezuela, para dirigir o departamento jurídico de uma subsidiária da empresa. Entretanto, na sede da USSteel, a língua portuguesa emudece a ponto de se atrapalhar no uso do aparelho fonador nos escassos momentos em que é convidada a se pronunciar.
O inesperado se repete inesperadamente. John é convocado para uma reunião em que seu chefe lhe comunica: “A empresa acaba de descobrir o que talvez seja o maior depósito de minério de ferro no mundo. Acho que você seria ideal para o cargo de diretor jurídico da subsidiária que descobriu o depósito. Que tal?” (Já ouvira essa pergunta antes). Reposta imediata: “Mas é claro!” Havia bons motivos: embora o depósito ficasse no meio da selva amazônica, na Serra dos Carajás, a sede de subsidiária era no Rio de Janeiro. E assim termina o torpor “pittsburghiano” da língua portuguesa, que agora volta à cena mais serelepe do que nunca.
É difícil deixar a Cidade Maravilhosa. Durante alguns anos, John exerce a função de Diretor Jurídico e Secretário do Projeto Carajás e de várias empresas do grupo da USSteel. Quando esta se retira do projeto, John resolve ficar no Rio. Devido à sua experiência no mundo jurídico/empresarial e seus conhecimentos dos idiomas português e inglês, era, freqüentemente, consultado por executivos brasileiros e estrangeiros. Por isso, é, atualmente, consultor e professor de inglês empresarial para executivos. É também autor do livro O Inglês, em que conta a história da língua inglesa, começando com a chegada de Júlio César às Ilhas Britânicas em 55 a.C., e descreve como o inglês nasceu, cresceu, se espalhou e se adaptou mundo afora como uma língua imperial, se americanizou e assumiu o papel de idioma verdadeiramente internacional. Por ironia, o livro é escrito em português.
É óbvio que existe uma profunda admiração mútua entre as antigas rivais. E se John escreve sobre a língua inglesa, em português, nada mais justo do que ele escrever sobre aspectos da língua portuguesa, em inglês. Talvez isso explique por que elas se uniram para convencer John a colaborar com VIDAS LUSÓFONAS, como tradutor.
Neste site colabora
com as traduções de várias biografias para inglês
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