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JOÃO FRANCO

Primeiro-ministro da monarquia: 1855 – 1929

José Brandão

 


Busto de João Franco

DITADOR MANDATADO POR EL-REI

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1855: Nasce no Alcaide, concelho do Fundão, a 14 de Fevereiro. – 1875: Forma-se em Direito na Universidade de Coimbra. – 1877: Delegado do procurador régio nas comarcas de Sátão, Baião, Alcobaça, e Lisboa. – 1884: É eleito a primeira vez deputado pelo círculo de Guimarães. – 1885: Chefe de serviço na administração geral das alfândegas. – 1886: Administrador geral, interino, das alfândegas desde Fevereiro de 1886 até Dezembro do mesmo ano; auditor do tribunal do contencioso fiscal aduaneiro. – 1890: Em 14 de Janeiro foi chamado aos conselhos da Coroa, sendo-lhe confiada a pasta da Fazenda, no ministério presidido por António de Serpa Pimentel. – 1890: Ao fim de oito meses, em 12 de Outubro de 1890, caiu o ministério. – 1891: No novo gabinete presidido pelo general João Crisóstomo de Abreu e Sousa, novamente ascendeu aos conselhos da Coroa. Foi-lhe desta vez confiada a pasta das Obras Públicas. – 1893 a 1897: Gere a pasta do Reino. – 1901: Revogada a lei eleitoral, que alterou por completo a anterior, realizaram-se as eleições gerais, ficando fora da câmara João Franco e quase todos os seus amigos políticos. Estava consumada a cisão, e iniciada a existência dum novo grupo político, que tomou o título de partido regenerador-liberal, ou franquista, derivando esta última designação do apelido por que é mais geralmente conhecido o seu chefe. – 1906: Em Maio sobe ao poder o ministério com João Franco como presidente do conselho e com a pasta do reino. – 1906: Por decreto de 16 de Julho de 1906 foi agraciado com a grã-cruz e comenda da ordem da Torre Espada, por serviços distintos e relevantes. A respectiva carta régia é uma prova de elevada estima e consideração prestada por el-rei. – 1907: João Franco entra em ditadura, dissolvendo o Parlamento em Abril de 1907, contra a forte oposição tanto de republicanos como dos demais partidos monárquicos. – 1908: A 1 de Fevereiro de 1908 são abatidos a tiro o rei D. Carlos e o príncipe D. Luís Filipe, no Terreiro do Paço, no regresso de Vila Viçosa. Nessa mesma noite o Conselho de Estado reúne-se no Palácio das Necessidades onde se decide o afastamento de João Franco. – 1929: Morre em Lisboa.

 

QUEM É O HOMEM DO REI


João Franco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

João Franco Ferreira Pinto Castelo Branco já passara a casa dos cinquenta quando é chamado por D. Carlos para constituir Governo. Vem de um passado político que começara como deputado do Partido Regenerador e por várias participações em governos regeneradores ora como ministro da Fazenda ou das Obras Públicas. No Governo regenerador de Hintze Ribeiro, formado em 1893, cabe-lhe a importante pasta de ministro do Reino onde defende então o fortalecimento da autoridade governamental fazendo promulgar uma lei que contem várias disposições repressivas contra opositores ao regime. Os sectores da oposição chamam à lei de João Franco, «Lei Celerada».
Em 1901 rompe com o seu partido e, com aparato de propaganda pouco usual na época, lança o novo Partido Regenerador Liberal, que se apresenta como algo de novo em relação aos esquemas rotativistas, afirmando um carácter «nacional», defensor de um poder real forte e de reformas que combatam no terreno republicano.
Será precisamente com o pretexto da falência do rotativismo partilhado durante vários anos entre os partidos dinásticos Regenerador e Progressista que D. Carlos se «lembra» de João Franco em Maio de 1906: «Há muito a fazer e temos, para bem do País, que seguir por caminho diferente daquele trilhado até hoje; para isso conto contigo e com a tua lealdade e dedicação, como tu podes contar com o meu auxílio e com toda a força que te devo dar.» –Anunciava o rei na carta em que convidava João Franco a formar governo.
Este não só aceitou, como não demorará muito a entrar em ditadura, dissolvendo o Parlamento em Abril de 1907, contra a forte oposição tanto de republicanos como dos demais partidos monárquicos.
Do rei tem todo o apoio para esta decisão: «São precisas obras e não palavras. De palavras, bem sabemos, está o País farto», escreve D. Carlos na carta que envia na altura ao chefe do seu Governo.
Já algum tempo antes tinha respondido a um pedido de demissão de João Franco com esta argumentação: «Há muita coisa a fazer e creio que se pode e deve fazer e temos de seguir o nosso caminho doa a quem doer.»
Era suposto que os governos resultassem da composição partidária das câmaras de deputados e que estes resultassem da vontade dos cidadãos, expressa pelo voto. Na prática, porém, era quase sempre o contrário que sucedia. Era dos governos que resultava a composição da Câmara dos Deputados e escassíssimas vezes perdeu as eleições para deputados o partido que as fazia, isto é, o partido que estava no poder quando elas se efectuavam.
Assim, os governos mudavam não tanto pela natural expressão da vontade do eleitorado, mas porque o rei os fazia cair. E muitas vezes a Câmara dos Deputados era dissolvida porque, na sua composição actual, não seria favorável a um novo governo.
A chave de todas as escolhas era, portanto, o rei. A queda dos governos e a dissolução das câmaras de deputados eram levadas a efeito por decisão régia. Era ele quem determinava a oportunidade e o sentido da mudança. Baseava-se regularmente na opinião dos chefes partidários que considerava mais representativos, mas a decisão final era sempre dele. Da opção régia dependiam a oportunidade e a orientação partidária que, com toda a probabilidade, iria ser seguida no futuro mais próximo.
O monarca ficava assim sistematicamente exposto ao desgaste constante, quer, para uns, como autor formal das crises, quer, para outros, como suporte artificioso de situações impopulares para evitar a abertura de crises.
É neste cenário que lança João Franco na governação ditatorial e que, em Novembro de 1907 dá uma entrevista ao jornal Le Temps, onde explica: «Caminhávamos não sei para onde. Foi então que dei a João Franco os meios de governar. Fala-se da sua ditadura, mas os outros partidos, os que mais gritam, pediram-me, também, a ditadura. Para a conceber, exigia garantias de firmeza. Precisava de uma vontade sem fraqueza para levar as minhas ideias a bom fim. João Franco foi o homem que eu desejava.»

 

A DITADURA DESEJADA

 


A ditadura de João Franco era a última achega que a Carbonária precisava para se afirmar de vez.
Com a remodelação de 1907, a Carbonária Portuguesa organiza-se de forma imparável, aparecendo nesta altura a Venda Jovem Portugal, que irá elevar o carbonarismo português a um plano nunca antes atingido.
Ao declarar-se em ditadura em 1907, o homem que o rei D. Carlos escolhera para chefiar o seu último Governo lançara este desafio aos republicanos: «Façam a República quanto antes, ou não lha deixo fazer.»
O ambiente é de cortar à faca; a repressão cai como um dilúvio em cima das hostes republicanas e mesmo das monárquicas, não poupando a mais pequena infracção, ou tudo o que pudesse ser considerado como tal.
João Franco não deixa margem para dúvidas, quanto às suas intenções de esmagar tudo o que possa causar-lhe embaraços. «Os republicanos estão precisando de sabre como de pão para a boca», dizia ele com todo o arrojo.
«Isto termina, fatalmente, por um crime ou por uma revolução», advertia o monárquico Júlio Vilhena, assustado com as proporções das arremetidas franquistas.
Como recorda Raul Brandão, as coisas eram de tal ordem que só se ouvia dizer: «Venha tudo, venha o pior, venha o Diabo do Inferno que nos livre disto!»
«Até as mulheres estão furiosas com o Franco.» Diz Raul Brandão nas suas Memórias. «Há-as que dizem: ‘Eu vou matá-lo!’ Mas há também quem o defenda e aplauda como nenhum ministro foi defendido e aplaudido. Um padre franquista barafusta em plena Rua do Ouro: ‘Eu até agora dizia que o João Franco tinha uns c. que não cabiam em Lisboa. Agora, não, agora digo bem alto: o João Franco tem uns c. que não cabem em Portugal!’»
Coubessem ou não, isso não era o maior problema. O que não cabia, e não cabia tanto em Lisboa como em Portugal era a política ditatorial que João Franco procurava impor ao povo, que pouco se importava com os «problemas físicos» do ditador.

 

O RICO REI

 

 

 


D. Carlos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

D. Carlos não se poupava em gastos que custavam caro ao País. Mudava de iate como quem muda de camisa. O Amélia I depressa se torna pequeno para dar lugar ao Amélia II que não demora muito até ser ultrapassado pelo Amélia III a que logo sucede o Amélia IV.

O País era pobre, e se não podia ter um rico rei, muito menos podia sustentar um rei rico.

A par com a famosa questão dos adiantamentos, que fazia da família real o maior devedor do erário público, na Câmara dos Pares do Reino, em 1906, eram feitas acusações em que se afirmava terem sido gastas nos arranjos da sala de jantares solenes do Palácio das Necessidades, e nas iluminações eléctricas deste Palácio e dos da Ajuda e Belém, quantias que rondavam as fabulosas somas de 131 891$715 réis para o primeiro caso e 354 082$333 réis para os segundos.

Desde 19 de Outubro de 1889 que D. Carlos recebia um conto de réis de vencimento por dia, importância que junto à dos vencimentos dos seus familiares custava ao País mais de 520 contos anuais, soma esta muito superior às que recebiam as famílias reinantes de países mais ricos como a Noruega e a Dinamarca onde esses vencimentos eram, respectivamente, de 1 203 200 e 481 700 coroas, ou seja, em réis 301 040$640 e 120 520$080 contos.

D. Carlos não via com agrado que a questão dos adiantamentos à casa real fosse tratada nessa altura: «Estamos diante de uma fogueira, que desejamos apagar, e não se apaga fogo lançando-lhe lenha.» Dizia em carta a João Franco.

O país vivia dias amargos. A todo o momento surgiam novos confrontos com as forças policiais. D. Carlos escrevia a João Franco e incitava-o: «seja como for e suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca, parar é morrer, e eu não quero morrer assim… nem tu!»

«Sem luta não há prazer em vencer, e a vitória sem combate, e combate sério, nunca é uma vitória duradoura», declarava o monarca.

Por sua vez, os opositores iam também dizendo da sua justiça. No primeiro número do jornal A Revolta, o anarquista José do Valle escrevera alguns tempos antes:

«Os povos que querem a liberdade, conquistam-na. Nada se consegue sem luta, por vezes violenta, feroz, mas sempre purificadora. A vida de um ser é precedida do derramamento de sangue; a atmosfera torna-se mais pura depois de um temporal. Em Portugal não há liberdade. Há tirania, há roubos, há lama.

Uma dinastia, representada por um rei ladrão, explora-nos e massacra-nos. Massacremos a dinastia.

Não pensemos no rei e façamos a revolução! Hesitar é perigoso, pode ser o insucesso.

Vamos para a revolução!

Precisamos liquidar ladrões e déspotas. Esses bandidos têm por si o arbítrio, têm por si os códigos e os juizes. Nós temos a força!

A força manifesta-se de qualquer forma e é representada por qualquer arma. Toda a arma é bendita quando é empunhada para um fim útil.

A navalha é redentora se trespassa o coração de um infame.

O punhal é santo se liquida um bandido.

A bomba merece uma oração se esmagar os que sacrificam o povo.

Todas as armas são belas, contanto que a sua obra seja bela.

E não há, positivamente, obra mais bela do que liquidar o rei e os seus lacaios.»

 

A LEI DA BOMBA


Caricatura de João Franco

 

 

 

 

 

«Sabe-se hoje que foi por essa ocasião que maior incremento tomou a propaganda revolucionária e que maior desenvolvimento tomaram as associações secretas, cuja organização até essa data estava apenas vagamente esboçada.» Estas palavras do franquista Álvaro Pinheiro Chagas são bem elucidativas quanto aos efeitos da política repressiva de João Franco.

«A ditadura franquista, com os seus corregedores à maneira de Pina Manique, irritava a opinião, e pode bem dizer-se que muito contribuiu para acelerar a marcha da República», refere, por sua vez, Magalhães Lima num depoimento sobre a época.

A par da repressão franquista, ia aumentando o número de fabricantes clandestinos de bombas artesanais, que de vez em quando se davam a conhecer, principalmente quando violentas explosões punham a descoberto as suas actividades secretas, como aconteceu em Agosto e em Novembro de 1907, uma na Rua de Santo António, à Estrela, outra na Rua do Carrião, estando nesta última implicado o então estudante e jovem jornalista Aquilino Ribeiro.

A explosão das bombas de dinamite na Rua do Carrião vem pôr as sociedades secretas na lista das prioridades da polícia secreta monárquica que destaca para as investigações um dos seus mais hábeis peritos, o agente Ciro, bem conhecido dos revolucionários.

Enquanto isto, D. Carlos, em carta a João Franco, ia dizendo: «Quanto aos anarquistas… não me admira que nestes momentos turvos alguns apareçam e alguma coisa tentem; mas para isso é que nós cá estamos e por certo nem a ti nem a mim será o medo que nos fará mudar caminho. Cada vez mais me convenço que o caminho que nós traçamos é o bom, para não dizer o único e portanto já sabes que me encontras ao teu lado e ao governo, por pensamentos, palavras e obras!»

Logo de seguida, em entrevista ao jornal francês Le Temps, na qual o rei se reafirma solidário com o governo franquista diz que «tudo está calmo em Lisboa, como no país» e que «só os políticos se agitam».

Contrariamente ao que o rei pensava, o tempo era de actividade constante para conspiradores. Todos quantos tivessem gosto pela intriga e pela aventura dispunham de muito por onde escolher.

Até mesmo os grandes partidos do constitucionalismo monárquico procuravam manter-se a uma certa distância de João Franco. Os progressistas de Luciano de Castro e José de Alpoim aconselhavam reacção enérgica contra a Ditadura, enquanto, por seu turno, os regeneradores marcavam uma posição de franca hostilidade ao Governo, com o seu chefe, Hintze Ribeiro, a falar nestes termos:

«Ninguém é mais monárquico do que eu, mas quero a Monarquia aliada à Liberdade e não ao Absolutismo.

É assim que eu sou monárquico.

Mais um ano deste Governo e Portugal tornar-se-á republicano.»

Aproveitando e explorando a confusão dos chefes políticos monárquicos, os republicanos, pela voz de António José de Almeida, traçavam esta caricatura do governo franquista:

 

«Bendita seja a revolta.

O presidente do Conselho, João Franco, é um tirano de terceira classe, com bónus em viagem de ida e volta.

É um Nero vestido de brim.

Assim como quem diz marquês de Pombal fazendo ditadura numa barraca de feira de Belém.

Quem escolheu ele para o auxiliar?

Homens que toda a gente desconhecia, nomes que não tinham nome.

O seu ministro da Guerra é um Napoleão de sacristia;

O seu ministro dos Estrangeiros é uma espécie de João das Regras conservado em vinha-d’alhos;

O seu ministro da Marinha é uma das onze virgens de praça assente na náutica dos nossos mares.»

 

A REVOLUÇÃO À ESPREITA


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Toda a gente via aproximar-se a revolução. E pode bem dizer-se que isso não trazia aborrecido o ditador João Franco, que, entrementes, ia lançando as suas provocações às hostes republicanas:

«A batalha que estou dando», dizia ele, em 27 de Janeiro de 1908, «não me é pessoalmente desagradável. Quanto mais importâncias tiverem os meus adversários, mais brilhante será o meu triunfo.»

No dia seguinte, 28, rebenta em Lisboa um movimento revolucionário que, praticamente, já estava condenado mesmo antes de sair para a rua.

Tudo correra mal para os conjurados, que não conseguem levar por diante qualquer dos seus intentos. Nas vésperas tinham sido presos alguns dos principais cabecilhas da revolta, entre os quais Luz de Almeida, detido no dia 25 junto ao Jardim da Estrela, sendo de imediato conduzido, sob prisão, para a esquadra das Mónicas, onde ficará encarcerado durante alguns dias.

Igual sorte tiveram João Chagas, António José de Almeida, França Borges e outros destacados dirigentes republicanos, que vão logo parar às enxovias de João Franco quando a este lhe chegou o cheiro do esturro.

Às 4 da tarde, ao sinal dado a partir do antigo elevador da Biblioteca, na Calçada de S. Francisco, respondeu em força o aparato policial que esperava a oportunidade para fazer mais algumas prisões de apreciável significado: Afonso Costa, Ribeira Brava, Egas Moniz e mais um lote de gente influente vai fazer companhia aos que já estavam a contas com a Polícia.

Nem João Franco tinha sido aprisionado pelos revoltosos, nem Machado Santos – o carbonário que dentro de alguns meses estará na Rotunda para conquistar a República – consegue ocupar o Palácio Real das Necessidades.

A revolução republicana falha, como, aliás, já era de prever, a partir do momento em que se deixaram de tomar as precauções que se impunham a um movimento desta natureza. João Chagas chega a cometer a imprudência de, nas vésperas, presidir a uma reunião no antigo Grémio Alentejano, onde não se eximiu de falar de muita coisa sobre o movimento a desencadear no dia seguinte e que deveria constituir segredo absoluto. Cita nomes e outros dados importantes, que o polícia Leite, metido também na conjura e que assiste a este reunião, não deixa de aproveitar para levar rapidamente ao conhecimento dos seus chefes no Governo Civil.

No entanto, a tentativa do 28 de Janeiro vem servir para confirmar a importância da Carbonária, que é, de longe, a organização mais empenhada no movimento.

Do 28 de Janeiro ficaria uma infra-estrutura conspirativa que, malgrado certas incompreensões, não mais deixará de crescer.

 

A TEIMOSIA FATAL

A DITADURA DE JOÃO FRANCO EMPURRA A CARBONÁRIA PARA O REGICÍDIO. ENTRETANTO, O QUE ESTÁ A ACONTECER NO RESTO DO MUNDO? CONSULTA A TÁBUA CRONOLÓGICA.

 

 

 

 

 

 

 

Mas a violência franquista não estava para perder sem-cerimónia a sua brutalidade. No dia 31 de Janeiro, João Franco consegue convencer o rei a assinar um decreto que agrava grandemente a situação dos oposicionistas detidos nos cárceres da ditadura.

Nesse dia o rei recebe em Vila Viçosa o ministro da Justiça, que ali se deslocara com um decreto elaborado pelo Governo reunido na noite de 30 para 31 e em cujo relatório agora apresentado ao rei, dizia:

Senhor. – São bem conhecidas de Vossa Majestade as ocorrências dos últimos meses em que, uma pequena minoria de elementos revolucionários e criminosos, tem pertinazmente procurado impedir a vida política e representativa, prejudicar o crédito do País; alterar a ordem pública e pôr em perigo a segurança das pessoas e das propriedades.

Imperturbavelmente tem o Governo obedecido ao propósito de limitar a acção das medidas de circunstância à esfera restrita da legítima defesa social, reduzindo-as ao que, de momento, se tem afigurado absolutamente indispensável, sempre na esperança de que a publicação fosse meio preventivo suficiente, e constituísse o aviso eficaz aos agitadores.

Dessa ordem de ideias derivam o decreto de21 de Junho, sobre publicações atentatórias da ordem pública, e o de 21 de Novembro, sobre crimes contra a segurança do estado, das pessoas e das propriedades.

Factos dos últimos dias, vieram, porém, demonstrar que as tentativas e propósitos revolucionários e criminosos, longe de afrouxarem, se têm mantido obstinadamente e agravado a ponto de ser urgente e indispensável o rápido afastamento, do nosso meio social, dos principais dirigentes e instigadores desta pertinaz conspiração contra a paz pública e a segurança do Estado, antes que, perdas lamentáveis de vidas, venham acrescentar-se às desgraças já ocasionadas e por ventura, originar prejuízos irremediáveis ao crédito público e à fortuna Nacional.

 

Seguidamente, invocando o que nesse momento e a este respeito se estava fazendo em Espanha, acrescentava:

Nessa ordem de ideias, procuramos, com o presente diploma, habilitar também o Governo com a faculdade de expulsar do Reino, ou fazer transportar para uma província ultramarina, aqueles que, uma vez reconhecidos culpados pela autoridade Judicial competente, importe à segurança do estado, tranquilidade pública e interesses gerais da Nação afastar sem mais delongas do meio com que se mostraram e tornaram perigosa e contumazmente incompatíveis.

Não devem, por igual, gozar de imunidade parlamentar, aqueles que, contra a segurança do próprio Estado se manifestam, ou, que, como inimigos da sociedade se apresentem.

Tais são, Senhor, as principais disposições do diploma que temos a honra de submeter à apreciação de Vossa Majestade.

 

O documento foi assinado por D. Carlos, nesse mesmo dia 31 de Janeiro. Com este novo diploma régio o primeiro-ministro João Franco fica mandatado para desencadear violentas acções sobre quem ousasse contra a política e o regime vigentes.

Estas medidas aplicavam-se imediatamente a todos os que tinham sido detidos na sequência da chamada conspiração do Elevador ocorrida no dia 28 de Janeiro e que resultara na prisão de mais de 120 pessoas, entre as quais constavam alguns dos mais importantes dirigentes políticos da oposição.

O Governo ficava com poderes totais para meter num navio e atirar para Timor, Angola ou outra colónia distante, qualquer indivíduo, mal fosse pronunciado por delito político ou crime de imprensa, prevendo ainda a isenção de julgamento e o efeito retroactivo da lei.

 O rei cedia a uma exigência do homem que escolhera para formar Governo em Março de 1906 e que ficava agora mais feliz e contente com a nova ordem que lhe é posta ao dispor. Esperava resolver os problemas de segurança interna com o que conseguira assinado por D. Carlos. Mas, se governar era já difícil para João Franco, pior iria ficar com o que acontece no Terreiro do Paço logo no dia seguinte.

Era um decreto que, no fundo, habilitava o Governo a eliminar todos os discordantes da sua política e é a última recordação que o monarca vai deixar ao povo.

Ao assiná-lo, parece que ainda murmurou:

«Assino a minha sentença de morte.»

Na verdade, na tarde do dia seguinte, D. Carlos caía às balas de dois carbonários, que e no dizer de vários depoentes, em princípio, «apenas» se dispunham a eliminar o ditador João Franco.

Era ele, era João Franco que os matadores da família real queriam caçar. Pelo menos, é isso que Aquilino Ribeiro «confessa» no livro Um Escritor Confessa-se – Memórias, concluídas em 1962, mas só publicadas em 1974, abrangendo o período de 1901 a 1908. Diz o autor:

«Pelo que me contou dias depois Humberto de Avelar, pelo que eu sabia, pelo que apurei do relato dissonante das gazetas e o que eu rectifiquei in loco com um dos conjurados e um falso regicida, que para o caso também conta como havendo elaborado do sucesso a síntese mais verosímil que convinha ao seu papel, os factos deviam ter-se passado deste modo: Debalde o grupo fora esperar João Franco à Rua Alexandre Herculano. O ditador, sabendo-se em perigo e acossado de um lugar para o outro, entrou mais uma vez a negacear com os perseguidores. Não lhe era difícil, dispondo dos órgãos de informação e torcendo-lhes as voltas. Os seus vários domicílios permitiam-lhe este jogo do escondidinho.

«O filho dum cão escapou-se!» Teria dito um dos perseguidores de João Franco, depois de constatar que este lhes tinha escapado. Por fim, resolveram tentar procurá-lo no Terreiro do Paço, calculando que ele deveria estar presente à chegada da família real.

«O filho dum cão escapou-se!

Decorreu um brevíssimo silêncio, o tempo de a descarga eléctrica da frustração percorrer os nervos de Buíça. Entretanto, aproximaram-se os outros três conspiradores, persuadidos que não havia mais nada a fazer do que porem-se a «cavar». Mas Alfredo Costa, fixando o olhar em Buíça, tornou:

– E agora?... Se liquidássemos a cambada?

O carro aproximava-se lento como a gozar a doçura da tarde, os cavalos percutindo a calçada a chouto vagaroso. Buíça, desencostando-se do candeeiro, respondeu:

– Vamos a eles!

Fez um gesto a indicar a posição que ia tomar. Costa soprou para os três:

– Defendam-nos a retaguarda!

Já Buíça, de um salto, se plantava, em diagonal para a carruagem, a um terço da largura da rua, hirto como um atirador; sacudia para trás as abas do capote e, metendo a carabina à cara, visava. Alfredo Costa, por sua vez, caía sobre a carruagem que passava na sua frente. Foi mais rápido do que se conta. Crepitou o tiroteio das armas de fogo e no primeiro minuto os assaltantes ficaram donos do terreno. Mas o oficial que galopava à estribeira, tenente Francisco Figueira, recompondo-se, precipitou-se à espadeirada sobre Buíça. A polícia, perante a sua acometida, ressarciu-se também e rompeu a disparar a torto e a direito sobre os vultos que se lhe afigurou fazerem parte da conjura. Dois agentes, quando Alfredo Costa cambaleava, lançaram-lhe a mão, e ao passo que o arrastavam para a esquadra, iam disparando os revólveres sobre ele, refeitos em seu domínio. Buíça continuava a estrebuchar com a carabina, acutilado pelo oficial às ordens, e tentando desenvencilhar-se dum soldado que se lhe viera meter nas pernas.

D. Carlos tinha caído cerce como um roble, debaixo por certo das balas de Buíça, e igualmente o príncipe alvejado à queima-roupa por Costa. Então a carruagem real largou à desfilada, seguida pelas outras, tomadas de terror. Mas a refrega decrescia. O terreno quedava às forças da ordem. Um guarda civil de revólver em punho gritava como num fim de montaria:

– Já matei um!

De facto tinham fuzilado às cegas, contando-se entre os mortos um caixeiro de 17 anos, que passava, e ferido vários transeuntes. Muitos dos mirones que se encontravam na praça, curiosos acidentais, foram arrebanhados para a esquadra, que fica entre as traseiras da Câmara e o Ministério do Reino, e passaram as piores horas da vida. Viram os polícias espezinhar os dois regicidas e de novo esfoguetearem-nos à bala; depois, voltaram-se para eles. O chefe do posto interpôs-se. Parou ali a ameaça sobre as pessoas filadas ao acaso da mão.»

 

A CAÇA A JOÃO FRANCO

 

 

 

 

 

 

 

 

João Franco negará em absoluto a veracidade desta versão que o coloca como principal alvo. Afirma mesmo que passeou junto ao local onde se prostravam os assassinos e nada lhe sucedeu. No cortejo, a sua carruagem era a quarta da fila, passando incólume.  

A morte do rei trouxera o desânimo às fileiras monárquicas que não poupavam o chefe do Governo, apontando-o como o principal culpado do que tinha acontecido no Terreiro do Paço.

Quando o tentaram avisar de que a vida do rei corria sério perigo responde: «Pois quê? É lá possível tocar em el-rei... Todas as medidas estão tomadas. Há polícia em Vila Viçosa, a linha do caminho-de-ferro está vigiada. Que mais quer? Boatos, sempre boatos…».

O próprio rei desconfiava do ambiente que o circundava. Não ignorava que a sua vida andava em perigo permanente. Quando lhe falavam das circunstâncias ameaçadoras, a resposta invariavelmente era esta: — As minhas armas estão sempre carregadas.

E um dia, denunciando a sua apreensão, chama João Franco e diz-lhe:

— Oh! João, tu disseste que irias caçar no terreno dos republicanos. E se eles caçam a minha pessoa ou a tua? – Pessoa alguma se atreveria, meu senhor (foi a resposta).

– Eu sei lá, João... eu sei lá.

D. Carlos sentia que havia algo que não estava correcto; e um dia, passeando com o seu ajudante, tenente-coronel José Lobo de Vasconcelos, desabafa: «Tu julgas que eu ignoro o perigo em que ando? No estado de excitação em que se acham os ânimos, qualquer dia matam-me à esquina de uma rua. Mas, que queres tu que eu faça? Se me metesse em casa, se não saísse, provocaria um grande descalabro. Seria a bancarrota. E que ideia fariam de mim os estrangeiros, se vissem o rei impedido de sair? Seria o descrédito. Eu, fazendo o que faço, mostro que há sossego no País e que têm respeito pela minha pessoa. Cumpro o meu dever. Os outros que cumpram o seu.»

E no dia 1 de Fevereiro de 1908, nenhumas providências excepcionais foram tomadas porque para João Franco não havia razões algumas para tal… D. Manuel alude a este facto no seu diário: «Aquele Terreiro do Paço estava deserto nenhuma providência! Isso é que me custa mais a perdoar ao João Franco.»

«Se», dirá mais tarde o antigo ministro da monarquia António Cabral, «o Sr. João Franco tem abandonado o poder, desse por onde desse e houvesse o que houvesse, em vez de ir para a ditadura!... Quantos desgostos profundíssimos teria poupado à sua alma alanceada! De quantos danos teria livrado o País! Quantos desastres, quantos crimes, quantos infortúnios teria evitado!...»

«A vossa obra, Senhor Presidente», teria dito ao chefe do Governo a rainha-mãe, D. Maria Pia, indicando-lhe os cadáveres do filho e do neto estendidos no chão do Arsenal.

Nessa mesma noite de 1 de Fevereiro de 1908 o Conselho de Estado reúne-se no Palácio das Necessidades onde se decide o afastamento de João Franco.

 Morre em Lisboa no dia 4 de Abril de 1929.

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