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JOÃO GUIMARÃES ROSA

Escritor: 1908 -1967

Marília Librandi Rocha

Auto-retrato

DEUS EXISTE MESMO QUANDO NÃO HÁ. MAS O DIABO NÃO PRECISA DE HAVER PARA EXISTIR.

 

 

 

 

JGR com Aracy, sua segunda esposa

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1908: Nasce João Guimarães Rosa, no dia 27 de junho, em Cordisburgo (Minas Gerais, Brasil). - 1918: Vai para Belo Horizonte estudar no Colégio Arnaldo. - 1925: Ingressa na Faculdade de Medicina de Minas Gerais. - 1929: é nomeado funcionário do Serviço de Estatística de Minas Gerais. Escreve quatro contos, premiados em concurso da revista O Cruzeiro. - 1930: Forma-se em medicina  e casa-se  com Lygia Cabral Pena. - 1931: Inicia carreira de médico em Itaguara. Minas Gerais. Nasce sua filha, Vilma. - 1932: Atua como médico voluntário da Força Pública, por ocasião da Revolução Constitucionalista de 1932. - 1933: Vai para Barbacena como Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. - 1934: Presta Concurso para o Itamarati, aprovado em 2º lugar. Nasce sua segunda filha, Agnes. - 1936: O livro de poemas Magma vence o Prêmio da Academia Brasileira de Letras. - 1937: Escreve os contos que iriam formar o futuro livro Sagarana. Concorre ao Prêmio Humberto de Campos, da Editora José Olympio. Obtém o  2º lugar. - 1938: É nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo. Lá conhece Aracy Moebius de Carvalho, que viria a ser sua segunda mulher. - 1942: O Brasil rompe com a Alemanha, e Guimarães Rosa é internado em Baden-Baden. Retorna ao Brasil e segue para Bogotá, como Secretário de Embaixada, permanecendo até 1944. - 1945: Viagem ao interior de Minas Gerais e excursão ao Mato Grosso. - 1946: Sagarana é publicado pela Editora Universal. O livro  recebe o Prêmio Sociedade Felipe d’Oliveira. Rosa é nomeado chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz. - 1947: Publicação da reportagem poética Com o Vaqueiro Mariano, no jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro. - 1948: Está novamente em Bogotá como Secretário-Geral da delegação brasileira à IX Conferência Inter-Americana. - 1948/51: 1º Secretário e Conselheiro da Embaixada em Paris. Volta ao Brasil como Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura. - 1952: Retorna aos seus "gerais" e participa de uma viagem pelo sertão. - 1953: torna-se Chefe da Divisão de Orçamento. - 1956: Publica Corpo de Baile.  Em maio, lança Grande Sertão: Veredas que irá receber os Prêmios Machado de Assis, Prêmio Carmem Dolores Barbosa e Prêmio Paula Brito. - 1957: Primeira Candidatura à Academia Brasileira de Letras. - 1961: Recebe pelo conjunto da obra o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. - 1962: Publica Primeiras Estórias. No Itamarati, assume a Chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras. - 1963:  Candidata-se pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras, e é eleito por unanimidade a 8 de agosto. - 1965/66: Seus livros são traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia). - 1967:  Representa o Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, como vice-presidente. Publica Tutaméia – Terceiras Estórias. Em 16 de novembro, toma posse na Academia Brasileira de Letras. Falece a 19 de novembro, vítima de enfarte. - 1968:  É publicado o volume Em Memória de João Guimarães Rosa, pela Ed. José Olympio. - 1969/70: São publicados postumamente os livros  Estas Estórias e Ave, Palavra.

 

A VIDA QUE DISFARÇA

 

                                    João era fabulista
                                    fabuloso
                                    fábula?
                                    ..............................................
                                   Ficamos sem saber o que era João
                                   e se João existiu
                                   de se pegar.”

         Carlos Drummond de Andrade
                 
            in  
“Um chamado João”

“...às vezes quase acredito que eu mesmo, João, sou um conto contado por mim mesmo. É tão imperativo...".

“Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não tem tempo, não tem princípio nem fim. E meus livros são aventuras: para mim, são minha maior aventura.” (entrevista a Günter Lorenz)

“Comigo as coisas não tem hoje e ant’ontem amanhã: é sempre. (...) O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.” (Grande Sertão: Veredas)

...a vida não é entendível..., somente quando ficcionalizada. E a vida de João Guimarães Rosa pode ser lida como uma de suas estórias, na qual o autor prevê, inclusive, a hora e a vez de sua derradeira travessia. 

 

A POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

JGR com o fardão de académico

 

É o dia 16 de novembro de 1967. João Guimarães Rosa, aos 59 anos, veste o fardão e prepara-se para ir à Academia Brasileira de Letras tomar posse na cadeira n.º 2, que tem como patrono o escritor Álvares de Azevedo, e  pertenceu a seu amigo e antigo chefe no Itamarati, João Neves da Fontoura.

Eleito em 6 de agosto de 1963, há quatro anos adia esta posse. Rosa pensa que seu coração não irá agüentar tanta emoção.  Mas agora, deve enfrentar a cerimônia e receber a consagração. Na época, seu nome era cogitado para o prêmio Nobel de Literatura. A indicação vinha por  iniciativa dos seus editores alemães, franceses e italianos.

“A notícia de sua posse na Academia foi dada por mim.”, conta Otto Lara Rezende.   “Uma vez um jornal mencionou seu nome como possível candidato ao Prêmio Nobel. Procurou-me aflito e pediu-me que, por favor, evitasse associar o seu nome ao Nobel. Por quê?  “O Nobel mata” – disse ele, brincando a sério. E pediu-me ainda que desse uma nota sobre a candidatura de outro brasileiro ao mesmo Prêmio Nobel....”Pode dar, com ele não acontece nada” – disse. Esse mesmo temor da morte estava associado à sua posse na Academia, talvez porque tomasse a Academia como “consagração”, isto é, fim de uma obra e portanto fim da vida.”

Neste dia, Rosa almoça com a mãe na casa de seu tio, o também escritor Vicente Guimarães Rosa, que atribui o adiamento da posse a uma outra causa: “De seus sete tios amigos, quatro morreram quando viviam os 58 anos. Posse na Academia só mesmo depois dos 59 anos completos e ainda com alguns meses distanciados, me disse, temeroso”.

Já o escritor Antônio Callado pergunta-lhe sobre o porquê de tanto empenho em se eleger para a Academia, ao que Rosa responde:

O enterro, meu querido, os funerais. Vocês, cariocas, são muito imprevidentes. A academia tem mausoléu e quando a gente morre cuida de tudo.

“Quando se candidatou à Academia pela primeira vez, (continua Otto Lara Rezende) disse-me, num almoço no Itamarati, que só se candidatava por duas razões:

1) porque sua mãe só acreditaria que ele era um grande escritor se entrasse para a Academia;

2) porque não podia negar a glória acadêmica à sua pequena cidade de Cordisburgo”.

Bom seria uma banda, um dobrado fogoso e meia dúzia de foguetes, pedia ele.

A seu amigo Geraldo França de Lima, que vai buscá-lo em casa, Rosa revela o temor de desmaiar na tribuna, de perder a voz, de chorar e sobretudo de o coração parar!

“- Parar, Rosétis (assim ele o chamava), que é isto? Você vai fazer bonito na tribuna. ....

“ - A Academia é muito para mim. Sou tão pequeno como a cidade em que nasci - disse-me”.

“Na quinta-feira, noite de 16 de novembro, não escurecera e lá eu estava”, conta França de Lima. “Jantamos. Ele nada comeu. Beliscou uma lingüiça, que eu lhe trouxera de Araguari. Dois ou três goles de chá. Nada mais. Percebi que havia anormalidade. ...Vi que não se apressava em vestir-se... Pediu-me que escolhesse o sapato, pontudo ou de bico quadrado. Abotoei-lhe o fardão. Não descobríamos a alcinha em que ficava a espada. Rosa perdeu a calma, até conseguirmos achá-la. De repente começa a tremer. Chorava. Hesitava em sair. Tinha medo.... Ao entrarmos no automóvel, tremia e rezava. Pediu ao chofer que andasse devagar, e perguntou-lhe:

- Ubirajara, estou bonito?

- Sim , embaixador. ....

Ao aproximar-se da Academia principiou a ficar emocionado.

- Geraldo, não tenho segredo para você. Mas guarde reserva: eu não chego ao fim deste ano.

Senti-me esmagado, mas levei a revelação em brincadeira:

- Me faça o favor de chegar ao fim do discurso, porque gente de sua família não morre antes dos 80.

Ele apertou a minha mão. Sua mão estava fria e suava”.

Caía forte chuva na cidade. Mesmo assim o Salão da Academia estava repleto.

Minutos antes de entrar, Rosa, mentalmente, repassa trechos de seu discurso. Faz longas pausas e respira fundo para controlar a ansiedade. Revê momentos de sua vida.  Relembra Cordisburgo, seu vilarejo natal, e o mundo por onde andou como diplomata e escritor... 

 

O "BURGO DO CORAÇÃO" ONDE NASCEU

A gruta do Maquiné, perto de Cordisburgo

 

Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquiné, milmaravilha, a das Fadas;”

Joãozito, como era chamado pela família, nasce em 27 de junho de 1908, com sobrenome de poeta: Rosa, filho de Florduardo. Mais: nasce no mesmo ano em que morre Machado de Assis, numa cidade chamada Cordisburgo, que quer dizer o “burgo do coração”. Além disso, em Minas Gerais, — “sou mineiro”, insiste ele:

E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo. .... uma parte de minha família é, pelo sobrenome, de origem portuguesa, mas na realidade é um sobrenome sueco que na época das migrações era Guimaranes, nome que também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia... Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho.

Seu pai, Floduardo Pinto Rosa, juiz-de-paz e comerciante, e sua mãe,  Francisca Guimarães Rosa, chamada D. Chiquitinha, tiveram outros cinco filhos. Cordisburgo, conta Vilma, filha de Rosa, “era a linha reta de uma rua, poucas casas muito simples, a pequenina igreja, um céu puro, muito azul. E a vastidão dos campos a se estender, sem limites visíveis”.

 

INFÂNCIA, LEITURAS, LÍNGUAS, PRIMEIROS ESCRITOS

Joãozito (Guimarães Rosa quando criança)

 

 

Quando criança, seus prazeres encontrava estudando sozinho, brincando de geografia, colecionando insetos, e lendo.  Adulto, dirá que gostaria de escrever “um pequeno tratado para meninos quietos”.

Mas tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas...

Foi o Dr. José Lourenço, do Curvelo, quem descobriu a miopia do garoto.  Situação relatada mais tarde na novela “Campo Geral”, na estória do   menino Miguilim. Só em Belo Horizonte, aos 9 anos, Rosa começará a usar óculos.

Seu tio, Vicente Guimarães, dois anos apenas mais velho que ele, lembra de  Rosa como um “menino diferente: sossegado, caladão, calmo, observador, singelo. Lia muito...”

E conta, de que modo ele lia, ritmando a leitura, num hábito que conservará por toda a vida:

“Sua posição predileta para a leitura era sentado no chão, de pernas cruzadas, a modos de Buda, com o livro aberto sobre as pernas, curvado até bem próximo deste e com dois pauzinhos nas mãos, batendo sobre as páginas, ora um, depois o outro, compassadamente, em ritmo variado, ligeiro ou mais lento, conforme na leitura se movesse o pensamento”.

Com sete anos incompletos, em 1915, já sabendo ler, inicia seus estudos primários na escola de Mestre Candinho. Começa a estudar francês quando ganha de um viajante, amigo de seu pai, uma gramática e um dicionário para ler revistas francesas que chegavam à cidade.

Estudava línguas – dirá ele - para não me afogar inteiramente na vida do interior.

Quanto a seu poliglotismo, assim irá defini-lo mais tarde:

Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

Seus primeiros textos foram jornais feitos à mão, escritos quase sempre em folhas de papel de embrulho da loja do pai, sendo ele o diretor e único redator. Cada número trazia artigo, conto, noticiário, seção humorística e critica de costumes sociais. Nenhum exemplar foi guardado. Também escrevia cartas para os irmãos, com charadas cheias de logogrifos, desenhos hieroglíficos que irá manter por toda a vida, dando futuramente as indicações para Poty, o ilustrador de seus livros.

Desde menino, muito pequeno, eu brincava de imaginar intermináveis estórias, verdadeiros romances; quando comecei a estudar Geografia – matéria de que sempre gostei – colocava os personagens e cenas nas mais variadas cidades e países. Mas, escrever mesmo, só comecei foi em 1929, com alguns contos, que naturalmente, não valem nada. Até essa ocasião (21 anos), eu só me interessava, e intensamente, pelo estudo, da Medicina e da Biologia.

Seus contos, que “não valiam nada”, lhe valeram o prêmio em dinheiro e a publicação na Revista O Cruzeiro, em 1929.

 

VIAGEM E ESTUDOS

Guimarães Rosa forma-se em Medicina. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. 

 

 

Desde que sai de seu vilarejo natal, Cordisburgo, por volta dos 10 anos de idade, para ir estudar em Belo Horizonte e morar com os avós, Rosa não para mais. Termina o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena. Em 1919, vai para o Colégio Santo Antônio, em São João d'el Rei, uma escola de frades franciscanos, mas de lá logo sai, pois não se acostuma com as refeições locais. De volta a Belo Horizonte, matricula-se no Colégio Arnaldo, de padres alemães.

Em 1925, aos 16 anos, matricula-se na Faculdade de Medicina, formando-se em 1930,  e encerrando os estudos como o orador da turma. Nesse mesmo ano, casa-se com Lígia Cabral Penna, com quem terá duas filhas, Vilma e Agnes. Estabelece-se em  Itaguara, e inicia sua carreira de médico no interior do Estado. Participa como voluntário da revolução Constitucionalista de 1932,  e depois ingressa como oficial médico do 9º Batalhão de Infantaria, em Barbacena. De 1933 a 1935, trabalha no Serviço de Proteção ao Índio. O caminho chegaria ao Rio de Janeiro em 1934, onde presta concurso no Itamarati.  Daí sairia para o mundo como diplomata. Em 1938, é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa.  Lá conhece Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que virá a ser sua segunda mulher. Desquita-se de Lígia, em 1942. Quem conta é sua filha Vilma:

“Papai havia conhecido dona Aracy Moebius de Carvalho em Hamburgo. Ela era funcionária graduada, no consulado. Papai e dona Aracy se casaram pelas leis de outro país, e também mamãe, com o advogado Arthur Auto Nery Cabral...”

O rol de viagens continua por toda a sua vida, passando por Bogotá, Paris, viagens pelo Brasil (Mato Grosso, Pantanal e o sertão das Gerais) até chegar, em 1962, a chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras. Sobre este cargo, ele comenta: “agora me ocupo de problemas de limites de fronteiras e por isso vivo muito mais limitado”.

 

NA ALEMANHA, A 2ª GRANDE GUERRA

Guimarães Rosa salva judeus das mãos dos nazis. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Como diplomata e exercendo as funções de cônsul geral do Brasil em Hamburgo, Rosa junto com sua segunda mulher, D. Aracy, ajuda a salvar a vida de muitos judeus, fornecendo-lhes vistos de entrada para o Brasil, sem mencionar a religião do portador. Como “homem do sertão”, Rosa gostaria de responder aos nazistas como um bom e verdadeiro sertanejo: à bala.

Eu, homem do sertão, não posso presenciar injustiças. No sertão, num caso desses imediatamente a gente saca o revólver, e lá isso não era possível. Precisamente por isso idealizei um estratagema diplomático, e não foi assim tão perigoso.

Em reconhecimento, o nome do casal Guimarães Rosa foi dado a um bosque ao longo das encostas de Jerusalém, em 1985. Encontram-se, nos arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, depoimentos das pessoas que foram salvas por eles.

 

OS LIVROS

JGR revendo um original

 

¤ MAGMA (1936)

Comecei a escrever, quando ainda era bastante jovem; mas publiquei muito mais tarde. Escrevi um livro não muito pequeno de poemas, que até foi elogiado.

Em 1936, concorre com o livro Magma, vencendo o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Pouco satisfeito com seus versos, não permite a publicação do livro, que só sairá em 1997, 30 anos após sua morte.

¤ SAGARANA (1946)

Mas logo, eu quase diria que por sorte, minha carreira profissional começou a ocupar meu tempo. Viajei pelo mundo, conheci muita coisa, aprendi idiomas, recebi tudo isso em mim; mas de escrever simplesmente não me ocupava mais. Assim se passaram quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura....Então comecei a escrever Sagarana

O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e. em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez)

Em 1938, o livro ainda chamava-se Contos, e o autor concorre, com o pseudônimo “Viator”, ao prêmio Humberto de Campos, da Livraria José Olympio Editora. A comissão julgadora era formada por Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Prudente de Morais Neto, Dias da Costa e Peregrino Júnior. Rosa  obtém o 2º lugar. Graciliano Ramos, num texto de 1946, “Conversa de Bastidores”, narra o acontecido e seu “vago remorso” por não ter dado o voto ao livro. Em 1944, conhece Guimarães Rosa:

“ - O senhor figurou num júri que julgou um livro meu em 1938.

- Como era o seu pseudônimo?

- Viator

- Ah! O senhor é o médico mineiro que andei procurando. Sabe que votei contra o seu livro?

- Sei, respondeu-me sem nenhum ressentimento.

Achando-me diante de uma inteligência livre de mesquinhez, estendi-me sobre os defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo...Havia suprimido os contos mais fracos.”

Em abril de 1946, Sagarana é publicado pela Editora Universal, de Caio Pinheiro, alcançando sucesso imediato, como uma “revolução” na chamada literatura regional brasileira.

Lendo o livro, Graciliano vaticina:

“Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a esfarelar-se.”

De fato, em 1956, Rosa publica aquele que é tido como um dos maiores romances da literatura do século XX. Graciliano já não estava aqui para lê-lo.

¤ GRANDE SERTÃO: VEREDAS  e CORPO DE BAILE (1956)

Em  carta ao pai, de 12 de julho de 1954, Rosa confidencia:

Eu estou trabalhando “burramente”, dia e noite. Para terminar os livros que  estou escrevendo – pois, em vez de um, como comecei, a coisa logo virou dois...”

Em 1956, lança as novelas de Corpo de Baile, em dois volumes (824 páginas). A partir da 3ª edição o livro se desdobra em três: Manuelzão e Miguilim, no Urubùquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão..

No mês de maio, é publicado o romance Grande Sertão: Veredas (no meio da rua, no redemoinho)

“livro diferente, terrível, consolador e estranho”, diz Rosa. É uma “autobiografia irracional ou melhor, minha auto-reflexão irracional.

Grande Sertão: Veredas  é um romance que encena uma fala e uma escuta. Quem fala é Riobaldo, um jagunço aposentado, “com azías e reumatismos”, que conta o que foi sua vida. Quem ouve é o “doutor”, um “senhor” da cidade que visita o sertão, e que permanece com Riobaldo por três dias. Riobaldo fala do que não sabe, e conta para saber, na esperança de uma resposta. Como a fala do doutor não aparece, o sentido da vida de Riobaldo não se finaliza, permanecendo como uma interrogação ao infinito, exposta numa linguagem inédita, que é prosa e poesia, que é oral, mas é escrita, que se constrói de arcaísmos e neologismos, de regionalismos e estrangeirismos.

O livro causa enorme impacto e seu autor passa a ser visto como caso único na literatura brasileira.

¤ PRIMEIRAS ESTÓRIAS (1962) e TUTAMÉIA - TERCEIRAS ESTÓRIAS (1967)

Primeiras Estórias, uma coletânea de 21 contos é publicado em 1962. Contos que são obras-primas do relato curto, como “A terceira margem do rio”, “A menina de lá”, “Sôroco, sua mãe, sua filha”, “Pirlimpsiquice”. Em 1967, publica Tutaméia (Terceiras Estórias), um conjunto de 44 estórias curtas, sendo 4 “prefácios”. O estilo se concentra ainda mais, em 3 ou 4 páginas, em parte devido ao fato de as estórias terem sido compostas  para jornal.

- Por que Terceiras Estórias – pergunta a Rosa, Paulo Rónai – se não houve as segundas? O que diz o Autor?

- O autor não diz nada – respondeu com uma risada de menino grande, feliz por ter atraído o colega a uma cilada. Mostrou-me depois o índice no começo do volume, curioso de ver se eu lhe descobria o macete.

- Será a ordem alfabética em que os títulos estão arrumados?

- Olhe melhor: há dois que estão fora da ordem.

- Por quê?

- Senão eles achavam tudo fácil.

“Eles” eram evidentemente os críticos. Rosa, para quem escrever tinha tanto de brincar quanto de rezar, antegozava-lhes a perplexidade encontrando prazer em aumentá-la.”

Os títulos “fora da ordem” compõem as iniciais JGR. Os prefácios-estórias de Tutaméia contém muito do credo poético de Rosa, que neles responde aos críticos que acusavam sua escrita de “não-engajada”: “A estória deve ser contra a História...” é uma de suas respostas.  Em um desses prefácios, refere-se a um personagem, “Tio Cândido”, como o mestre que um dia lhe deu a seguinte incumbência:

- “Tem-se de redigir um abreviado de tudo”.

Ele então responde, com o cerne de sua poética:

“Ando a ver. O caracol sai do arrebol. A cobra se concebe curva. O mar barulha de ira e de noite. Temo igualmente angústias e delícias. Nunca entendi o bocejo e o pôr-do-sol. Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive, morre. Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito, será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza.”

¤ ESTAS ESTÓRIAS (1969) e AVE, PALAVRA (1970)

Volumes de publicação póstuma. O primeiro, Estas  Estórias, organizado por Paulo Rónai, traz contos, como “Meu Tio o Iauaretê; Ave, Palavra traz relatos e anotações diversas, num total de 54 textos.

 

A LÍNGUA DE ROSA

Boiada (desenho)

 

Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo.

Criador de uma língua inédita e surpreendente, Rosa considera a sua como a “língua da metafísica”. Mas se aponta para o transcendente também mantém com a língua uma relação amorosa e carnal:

A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a benção eclesiástica e científica. Entretanto, como sou sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.

Em longa carta, de 11 de maio de 1947, para Vicente Guimarães, escreve:

A língua portuguesa, aqui no Brasil, está uma vergonha e uma miséria. Está descalça e despenteada;.... É preciso distendê-la, destorcê-la, obrigá-la a fazer ginástica, desenvolver-lhe músculos. Dar-lhe precisão, exatidão, agudeza, plasticidade, calado, motores. E é preciso refundi-la no tacho, mexendo muitas horas. ... A nossa literatura, com poucas exceções, é um valor negativo, um cocô de cachorro no tapete de um salão. Naturalmente palavrosos, piegas, sem imaginação criadora, imitadores, ocos, incultos, apressados, preguiçosos, vaidosos, impacientes, não cuidamos da exatidão...... Quem pode, deve preparar-se, armar-se, e lutar contra esse estado de coisas. É uma revolução branca, uma série de golpes de estado.

Em carta a João Condé, de 1946:

De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. .... Mas ainda haveria mais, se possível...: além, dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?

Na entrevista a Günter Lorenz, em 1965, dirá:

“Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros.

Se tem de haver uma frase feita, eu preferia que me chamassem de reacionário da língua, pois quero voltar a cada dia à origem da língua, lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma, para poder lhe dar luz segundo a minha imagem.

Eu quero tudo: o mineiro, o brasileiro, o português, o latim, talvez até o esquimó e o tártaro. Queria a linguagem que se falava antes de Babel”. 

amo a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa”. Isto é importante, pois sem esse amor pessoal, por assim dizer, não funciona.

Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.

 

O CRIADOR DEMIURGO

Casa típica de fazendeiro do sertão das "Gerais" (desenho)

 

          Não gosto do transitório, do provisório. Gosto do Eterno...

(depoimento à Revista Manchete, 11 de junho de 1963)

Sou só RELIGIÃO – mas impossível de qualquer associação ou organização religiosa: tudo é o quente diálogo (tentativa de) com o . O mais, você deduz.

O sentimento religioso, transcendente, presente na obra rosiana não implica dogmatismo: “Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio.”, diz o narrador Riobaldo. Fala semelhante encontra-se no que o próprio Rosa afirma como sendo seu “credo” pessoal:

Eu não sei o que sou. Posso bem ser cristão de confissão sertanista, mas também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo, ou um pagão crente à la Tolstói. No fundo, tudo isto não é importante. A religião é um assunto poético e a poesia se origina da modificação de realidades lingüísticas.

O criador literário, responsável por “devolver a dignidade ao homem” deve atuar inclusive, “corrigindo a Deus”:

Isto provém do que eu denomino a metafísica de minha linguagem, pois esta deve ser a língua da metafísica. No fundo é um conceito blasfemo, já que assim se coloca o homem no papel de amo da criação. ...

Nós, o cientista e eu, devemos encarar a Deus e o infinito, pedir-lhes contas, e, quando necessário, corrigi-los também, se quisermos ajudar o homem. O bem-estar do homem depende do descobrimento do soro contra a varíola e as picadas de cobras, mas também depende de que ele devolva à palavra seu sentido original....

 

AQUI A ESTÓRIA COMEÇA

Aspecto do Parque Nacional "Grande Sertão, Veredas"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

JGR a cavalo

 

Como redemonstrar a grandeza indivídua de um homem, mérito longuíssimo, sua humanidade profunda: passar do João Rosa relativo ao João Rosa absoluto?

É a noite de 16 de novembro de 1967. Vai começar a cerimônia de posse na Academia Brasileira de Letras. Rosa pronuncia seu discurso durante 1h30.

“Profundamente emotivo, papai acabou seu discurso em lágrimas. Nunca o havia visto chorar em público. Ele me havia pedido para defendê-lo contra os fotógrafos e as pessoas que o envolvessem com exageros. .... Mas portou-se maravilhosamente, mesmo com o pressentimento de que, se tomasse posse, morreria”. (Vilma G. Rosa)

Era quinta-feira. No domingo, 19 de novembro, Rosa falece, vítima de enfarte, aos 59 anos.

De repente, morreu: que é quando um homem vem inteiro pronto de suas próprias profundezas. Morreu, com modéstia. Se passou para o lado claro, fora e acima de suave ramerrão e terríveis balbúrdias.....Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: sobe a luz sobre o justo e dá-se o teso coração alegria!” – desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas. ...Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita: O mundo é mágico.  – Ministro, está aqui CORDISBURGO. (últimas palavras do discurso de posse)

Rosa deixa esposa, as duas filhas, Vilma e Agnes e quatro netos:

Maria de Lourdes e Maria Cristina, filhas de Agnes; Laura Beatriz e João Emílio, filhos de Vilma. Era o “Vovô-Beleza”.

Anos depois, o nome do escritor e diplomata foi dado ao pico culminante da Cordilheira Curupira, de 2150 metros, que se ergue na faixa limítrofe entre o Brasil e a Venezuela. É o 15º pico mais alto do Brasil. Isso na geografia, porque na literatura...

No dia em que completar 100 anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário. E este fará as vezes de minha autobiografia.

O senhor....Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior, É o que a vida me ensinou.”

Cada dia é um dia. ...”Vida” é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia falsa. Cada dia é um dia.

 

Bibliografia

CALLADO, Antônio. “Crônica”. Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada. 25.7.1992

GUIMARÃES ROSA, Vilma. Relembramentos. João Guimarães Rosa, meu pai. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1983

GUIMARÃES, Vicente. Infância de João Guimarães Rosa, José Olympio Ed./ INL, Rio de Janeiro,1972

JABOR, Arnaldo. “Rosa protege a história com suas estórias”. In: Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, 24.11.1992

LORENZ, Günter.  "Diálogo com Guimarães Rosa". Guimarães Rosa. (Coleção Fortuna Crítica). Org.  Eduardo F. Coutinho.  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,1983. pp 62-100

MORENO, Leila Kiomura. “Médico, rebelde. Escritor. É João Guimarães Rosa”. Jornal da USP, de 7-13 abril de 1997, pp.10-11.

PEREZ, Renard. “Perfil de João Guimarães Rosa”.

ROCHA, Marília Librandi. As espantosas palavras. Uma análise de Grande Sertão: Veredas. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas, USP, 1997 (mimeo)

VVAA, Em memória de João Guimarães Rosa, José Olympio Ed., Rio de Janeiro,1968

Fontes na Internet:
Texto de Luiz Otávio Savassi Rocha. 

http://www.medicina.ufmg.br/cememor/rosa.htm


Um chamado João

Poema de Carlos Drummond de Andrade

Publicado no jornal Correio da Manhã, de 22.11.1967, e reproduzido em: 
Em Memória de João Guimarães Rosa.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968.

 

João era fabulista
fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
 

“Projetava na gravatinha 
a quinta face das coisas 
inenarrável narrada? 
Um estranho chamado João 
para disfarçar, para farçar 
o que não ousamos compreender? “ 
 

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
 

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
 

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?
 

E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos? 

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino? 

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse? 
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que 
outra questão ao perguntante?  

Tinha parte com... (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

 

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