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JOÃO GUIMARÃES ROSA
Escritor: 1908 -1967
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1908: Nasce João Guimarães Rosa, no dia 27 de junho, em Cordisburgo (Minas Gerais, Brasil). - 1918: Vai para Belo Horizonte estudar no Colégio Arnaldo. - 1925: Ingressa na Faculdade de Medicina de Minas Gerais. - 1929: é nomeado funcionário do Serviço de Estatística de Minas Gerais. Escreve quatro contos, premiados em concurso da revista O Cruzeiro. - 1930: Forma-se em medicina e casa-se com Lygia Cabral Pena. - 1931: Inicia carreira de médico em Itaguara. Minas Gerais. Nasce sua filha, Vilma. - 1932: Atua como médico voluntário da Força Pública, por ocasião da Revolução Constitucionalista de 1932. - 1933: Vai para Barbacena como Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. - 1934: Presta Concurso para o Itamarati, aprovado em 2º lugar. Nasce sua segunda filha, Agnes. - 1936: O livro de poemas Magma vence o Prêmio da Academia Brasileira de Letras. - 1937: Escreve os contos que iriam formar o futuro livro Sagarana. Concorre ao Prêmio Humberto de Campos, da Editora José Olympio. Obtém o 2º lugar. - 1938: É nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo. Lá conhece Aracy Moebius de Carvalho, que viria a ser sua segunda mulher. - 1942: O Brasil rompe com a Alemanha, e Guimarães Rosa é internado em Baden-Baden. Retorna ao Brasil e segue para Bogotá, como Secretário de Embaixada, permanecendo até 1944. - 1945: Viagem ao interior de Minas Gerais e excursão ao Mato Grosso. - 1946: Sagarana é publicado pela Editora Universal. O livro recebe o Prêmio Sociedade Felipe d’Oliveira. Rosa é nomeado chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz. - 1947: Publicação da reportagem poética Com o Vaqueiro Mariano, no jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro. - 1948: Está novamente em Bogotá como Secretário-Geral da delegação brasileira à IX Conferência Inter-Americana. - 1948/51: 1º Secretário e Conselheiro da Embaixada em Paris. Volta ao Brasil como Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura. - 1952: Retorna aos seus "gerais" e participa de uma viagem pelo sertão. - 1953: torna-se Chefe da Divisão de Orçamento. - 1956: Publica Corpo de Baile. Em maio, lança Grande Sertão: Veredas que irá receber os Prêmios Machado de Assis, Prêmio Carmem Dolores Barbosa e Prêmio Paula Brito. - 1957: Primeira Candidatura à Academia Brasileira de Letras. - 1961: Recebe pelo conjunto da obra o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. - 1962: Publica Primeiras Estórias. No Itamarati, assume a Chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras. - 1963: Candidata-se pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras, e é eleito por unanimidade a 8 de agosto. - 1965/66: Seus livros são traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia). - 1967: Representa o Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, como vice-presidente. Publica Tutaméia – Terceiras Estórias. Em 16 de novembro, toma posse na Academia Brasileira de Letras. Falece a 19 de novembro, vítima de enfarte. - 1968: É publicado o volume Em Memória de João Guimarães Rosa, pela Ed. José Olympio. - 1969/70: São publicados postumamente os livros Estas Estórias e Ave, Palavra. |
A VIDA QUE DISFARÇA |
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João
era fabulista
Carlos
Drummond
de
Andrade “...às vezes quase acredito que eu
mesmo, João, sou um conto contado por mim mesmo. É tão
imperativo...". “Minha biografia, sobretudo minha biografia literária,
não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não tem tempo, não
tem princípio nem fim. E meus livros são aventuras: para mim, são minha
maior aventura.” (entrevista a Günter Lorenz) “Comigo as coisas não tem hoje e ant’ontem amanhã: é sempre. (...)
O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a
vida não é entendível.” (Grande Sertão: Veredas) |
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| A POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS | |
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É
o dia 16 de novembro de 1967. João Guimarães Rosa, aos 59 anos, veste o
fardão e prepara-se para ir à Academia Brasileira de Letras tomar posse
na cadeira n.º 2, que tem como patrono o escritor Álvares de Azevedo, e
pertenceu a seu amigo e antigo chefe no Itamarati, João Neves da
Fontoura. Eleito
em 6 de agosto de 1963, há quatro anos adia esta posse. Rosa pensa que
seu coração não irá agüentar tanta emoção.
Mas agora, deve enfrentar a cerimônia e receber a consagração.
Na época, seu nome era cogitado para o prêmio Nobel de Literatura. A
indicação vinha por iniciativa
dos seus editores alemães, franceses e italianos. “A notícia de sua posse na Academia foi
dada por mim.”, conta Otto Lara Rezende.
“Uma vez um jornal mencionou seu nome como possível candidato ao
Prêmio Nobel. Procurou-me aflito e pediu-me que, por favor, evitasse
associar o seu nome ao Nobel. Por quê?
“O Nobel mata” – disse ele, brincando a sério. E pediu-me
ainda que desse uma nota sobre a candidatura de outro brasileiro ao mesmo
Prêmio Nobel....”Pode dar, com ele não acontece nada” – disse.
Esse mesmo temor da morte estava associado à sua posse na Academia,
talvez porque tomasse a Academia como “consagração”, isto é, fim de
uma obra e portanto fim da vida.” Neste dia, Rosa almoça com a mãe na casa
de seu tio, o também escritor Vicente Guimarães Rosa, que atribui o
adiamento da posse a uma outra causa: “De seus sete tios amigos, quatro
morreram quando viviam os 58 anos. Posse na Academia só mesmo depois dos
59 anos completos e ainda com alguns meses distanciados, me disse,
temeroso”. Já
o escritor Antônio Callado pergunta-lhe sobre o porquê de tanto empenho
em se eleger para a Academia, ao que Rosa responde: O enterro, meu querido, os funerais. Vocês,
cariocas, são muito imprevidentes. A academia tem mausoléu e quando a
gente morre cuida de tudo. “Quando se candidatou à Academia pela
primeira vez, (continua Otto Lara Rezende) disse-me, num almoço no
Itamarati, que só se candidatava por duas razões: 1)
porque sua mãe só acreditaria que ele era um grande escritor se entrasse
para a Academia; 2) porque não podia negar a glória acadêmica
à sua pequena cidade de Cordisburgo”. Bom
seria uma banda, um dobrado fogoso e meia dúzia de foguetes, pedia ele. A seu amigo Geraldo França de Lima, que
vai buscá-lo em casa, Rosa revela o temor de desmaiar na tribuna, de
perder a voz, de chorar e sobretudo de o coração parar! “- Parar, Rosétis (assim ele o chamava),
que é isto? Você vai fazer bonito na tribuna. .... “ - A Academia é muito para mim. Sou tão
pequeno como a cidade em que nasci - disse-me”. “Na quinta-feira, noite de 16 de
novembro, não escurecera e lá eu estava”, conta França de Lima.
“Jantamos. Ele nada comeu. Beliscou uma lingüiça, que eu lhe trouxera
de Araguari. Dois ou três goles de chá. Nada mais. Percebi que havia
anormalidade. ...Vi que não se apressava em vestir-se... Pediu-me que
escolhesse o sapato, pontudo ou de bico quadrado. Abotoei-lhe o fardão. Não
descobríamos a alcinha em que ficava a espada. Rosa perdeu a calma, até
conseguirmos achá-la. De repente começa a tremer. Chorava. Hesitava em
sair. Tinha medo.... Ao entrarmos no automóvel, tremia e rezava. Pediu ao
chofer que andasse devagar, e perguntou-lhe: - Ubirajara, estou bonito? - Sim , embaixador. .... Ao aproximar-se da Academia principiou a
ficar emocionado. - Geraldo, não tenho segredo para você.
Mas guarde reserva: eu não chego ao fim deste ano. Senti-me esmagado, mas levei a revelação
em brincadeira: - Me faça o favor de chegar ao fim do
discurso, porque gente de sua família não morre antes dos 80. Ele apertou a minha mão. Sua mão estava
fria e suava”. Caía
forte chuva na cidade. Mesmo assim o Salão da Academia estava repleto.
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O "BURGO DO CORAÇÃO" ONDE NASCEU |
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“Cordisburgo
era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só
quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do
Maquiné, milmaravilha, a das Fadas;” Joãozito, como era chamado pela família,
nasce em 27 de junho de 1908, com sobrenome de poeta: Rosa, filho de Florduardo.
Mais: nasce no mesmo ano em que morre Machado de Assis, numa cidade
chamada Cordisburgo, que quer dizer o “burgo do coração”. Além
disso, em Minas Gerais, — “sou mineiro”, insiste ele:
“E
isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto
transportado para esse mundo. .... uma parte de minha família é, pelo
sobrenome, de origem portuguesa, mas na realidade é um sobrenome sueco
que na época das migrações era Guimaranes, nome que também designava a
capital de um estado suevo na Lusitânia... Portanto, pela minha origem,
estou voltado para o remoto, o estranho.
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INFÂNCIA, LEITURAS, LÍNGUAS, PRIMEIROS ESCRITOS |
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Quando
criança, seus prazeres encontrava estudando sozinho, brincando de
geografia, colecionando insetos, e lendo.
Adulto, dirá que gostaria de escrever “um pequeno tratado para
meninos quietos”. Mas tempo bom de verdade, só começou com
a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num
quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas,
romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as
melhores coisas vistas e ouvidas... Foi
o Dr. José Lourenço, do Curvelo, quem descobriu a miopia do garoto.
Situação relatada mais tarde na novela “Campo Geral”, na estória
do menino Miguilim. Só
em Belo Horizonte, aos 9 anos, Rosa começará a usar óculos. Seu
tio, Vicente Guimarães, dois anos apenas mais velho que ele, lembra de
Rosa como um “menino diferente: sossegado, caladão, calmo,
observador, singelo. Lia muito...” E
conta, de que modo ele lia, ritmando a leitura, num hábito que conservará
por toda a vida: “Sua
posição predileta para a leitura era sentado no chão, de pernas
cruzadas, a modos de Buda, com o livro aberto sobre as pernas, curvado até
bem próximo deste e com dois pauzinhos nas mãos, batendo sobre as páginas,
ora um, depois o outro, compassadamente, em ritmo variado, ligeiro ou mais
lento, conforme na leitura se movesse o pensamento”. Com sete anos incompletos, em 1915, já sabendo
ler, inicia seus estudos primários na escola de Mestre Candinho. Começa
a estudar francês quando ganha de um viajante, amigo de seu pai, uma gramática
e um dicionário para ler revistas francesas que chegavam à cidade. Estudava línguas – dirá ele - para não me afogar
inteiramente na vida do interior. Quanto a seu poliglotismo, assim irá defini-lo
mais tarde: Falo:
português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um
pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário
agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro,
do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico,
do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um
pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e
o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda
do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento,
gosto e distração. Seus primeiros textos foram jornais feitos à mão,
escritos quase sempre em folhas de papel de embrulho da loja do pai, sendo
ele o diretor e único redator. Cada número trazia artigo, conto, noticiário,
seção humorística e critica de costumes sociais. Nenhum exemplar foi
guardado. Também escrevia cartas para os irmãos, com charadas cheias de
logogrifos, desenhos hieroglíficos que irá manter por toda a vida, dando
futuramente as indicações para Poty, o ilustrador de seus livros.
Desde
menino, muito pequeno, eu brincava de imaginar intermináveis estórias,
verdadeiros romances; quando comecei a estudar Geografia – matéria de
que sempre gostei – colocava os personagens e cenas nas mais variadas
cidades e países. Mas, escrever mesmo, só comecei foi em 1929, com
alguns contos, que naturalmente, não valem nada. Até essa ocasião (21
anos), eu só me interessava, e intensamente, pelo estudo, da Medicina e
da Biologia.
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VIAGEM E ESTUDOS |
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Guimarães Rosa forma-se em Medicina. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Desde
que sai de seu vilarejo natal, Cordisburgo, por volta dos 10 anos de
idade, para ir estudar em Belo Horizonte e morar com os avós, Rosa não
para mais. Termina o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena. Em
1919, vai para o Colégio Santo Antônio, em São João d'el Rei, uma
escola de frades franciscanos, mas de lá logo sai, pois não se acostuma
com as refeições locais. De volta a Belo Horizonte, matricula-se no Colégio
Arnaldo, de padres alemães. Em
1925, aos 16 anos, matricula-se na Faculdade de Medicina, formando-se em
1930, e encerrando os estudos
como o orador da turma. Nesse mesmo ano, casa-se com Lígia Cabral Penna,
com quem terá duas filhas, Vilma e Agnes. Estabelece-se em
Itaguara, e inicia sua carreira de médico no interior do Estado.
Participa como voluntário da revolução Constitucionalista de 1932,
e depois ingressa como oficial médico do 9º Batalhão
de Infantaria, em Barbacena. De 1933 a 1935, trabalha no Serviço de Proteção
ao Índio. O caminho chegaria ao Rio de Janeiro em 1934, onde presta
concurso no Itamarati. Daí
sairia para o mundo como diplomata. Em 1938, é nomeado Cônsul Adjunto em
Hamburgo, e segue para a Europa. Lá
conhece Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que virá a ser sua segunda
mulher. Desquita-se de Lígia, em 1942. Quem conta é sua filha Vilma: “Papai
havia conhecido dona Aracy Moebius de Carvalho em Hamburgo. Ela era
funcionária graduada, no consulado. Papai e dona Aracy se casaram pelas
leis de outro país, e também mamãe, com o advogado Arthur Auto Nery
Cabral...”
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| NA ALEMANHA, A 2ª GRANDE GUERRA | |
Guimarães Rosa salva judeus das mãos dos nazis. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Como
diplomata e exercendo as funções de cônsul geral do Brasil em Hamburgo,
Rosa junto com sua segunda mulher, D. Aracy, ajuda a salvar a vida de
muitos judeus, fornecendo-lhes vistos de entrada para o Brasil, sem
mencionar a religião do portador. Como “homem do sertão”, Rosa
gostaria de responder aos nazistas como um bom e verdadeiro sertanejo: à
bala. Eu, homem do sertão, não posso presenciar
injustiças. No sertão, num caso desses imediatamente a gente saca o revólver,
e lá isso não era possível. Precisamente por isso idealizei um
estratagema diplomático, e não foi assim tão perigoso.
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| OS LIVROS | |
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¤ MAGMA (1936)
Comecei
a escrever, quando ainda era bastante jovem; mas publiquei muito mais
tarde. Escrevi um livro não muito pequeno de poemas, que até foi
elogiado. Em
1936, concorre com o livro Magma,
vencendo o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Pouco
satisfeito com seus versos, não permite a publicação do livro, que só
sairá em 1997, 30 anos após sua morte. ¤ SAGARANA (1946)
Mas
logo, eu quase diria que por sorte, minha carreira profissional começou a
ocupar meu tempo. Viajei pelo mundo, conheci muita coisa, aprendi idiomas,
recebi tudo isso em mim; mas de escrever simplesmente não me ocupava
mais. Assim se passaram quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente
à literatura....Então comecei a escrever Sagarana O
livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100
folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento.
(Depois, repousou durante sete anos; e. em 1945 foi “retrabalhado”, em
cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez) Em
1938, o livro ainda chamava-se Contos,
e o autor concorre, com o pseudônimo “Viator”, ao prêmio Humberto de
Campos, da Livraria José Olympio Editora. A comissão julgadora era
formada por Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Prudente de Morais Neto,
Dias da Costa e Peregrino Júnior. Rosa
obtém o 2º lugar. Graciliano Ramos, num texto de 1946,
“Conversa de Bastidores”, narra o acontecido e seu “vago remorso”
por não ter dado o voto ao livro. Em 1944, conhece Guimarães Rosa: “
- O senhor figurou num júri que julgou um livro meu em 1938. -
Como era o seu pseudônimo? -
Viator -
Ah! O senhor é o médico mineiro que andei procurando. Sabe que votei
contra o seu livro? -
Sei, respondeu-me sem nenhum ressentimento. Achando-me
diante de uma inteligência livre de mesquinhez, estendi-me sobre os
defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo...Havia suprimido
os contos mais fracos.” Em
abril de 1946, Sagarana é
publicado pela Editora Universal, de Caio Pinheiro, alcançando sucesso
imediato, como uma “revolução” na chamada literatura regional
brasileira. Lendo
o livro, Graciliano vaticina: “Certamente
ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado
agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a
esfarelar-se.” De
fato, em 1956, Rosa publica aquele que é tido como um dos maiores
romances da literatura do século XX. Graciliano já não estava aqui para
lê-lo. ¤ GRANDE SERTÃO: VEREDAS e
CORPO DE BAILE (1956)
Em
carta ao pai, de 12 de julho de 1954, Rosa confidencia: Eu estou trabalhando “burramente”, dia
e noite. Para terminar os livros que
estou escrevendo – pois, em vez de um, como comecei, a coisa logo
virou dois...” Em
1956, lança as novelas de Corpo
de Baile, em dois volumes (824 páginas).
A partir da 3ª edição o livro se desdobra em três: Manuelzão e Miguilim, no Urubùquaquá, no Pinhém e Noites
do Sertão.. No
mês de maio, é publicado o romance Grande
Sertão: Veredas (no meio da rua, no redemoinho) “livro diferente, terrível, consolador e
estranho”, diz
Rosa. É uma “autobiografia
irracional ou melhor, minha auto-reflexão irracional. Grande Sertão: Veredas é
um romance que encena uma fala e
uma escuta. Quem fala é Riobaldo, um jagunço aposentado, “com azías e
reumatismos”, que conta o que foi sua vida. Quem ouve é o “doutor”,
um “senhor” da cidade que visita o sertão, e que permanece com
Riobaldo por três dias. Riobaldo fala do que não sabe, e conta para
saber, na esperança de uma resposta. Como a fala do doutor não aparece,
o sentido da vida de Riobaldo não se finaliza, permanecendo como uma interrogação ao infinito, exposta
numa linguagem inédita, que é prosa e poesia, que é oral, mas é
escrita, que se constrói de arcaísmos e neologismos, de regionalismos e
estrangeirismos. O
livro causa enorme impacto e seu autor passa a ser visto como caso único
na literatura brasileira. ¤ PRIMEIRAS ESTÓRIAS (1962) e TUTAMÉIA -
TERCEIRAS ESTÓRIAS (1967) Primeiras Estórias, uma coletânea de 21 contos é publicado
em 1962. Contos que são obras-primas do relato curto, como “A terceira
margem do rio”, “A menina de lá”, “Sôroco, sua mãe, sua
filha”, “Pirlimpsiquice”. Em 1967, publica Tutaméia
(Terceiras Estórias), um conjunto de 44 estórias curtas, sendo 4
“prefácios”. O estilo se concentra ainda mais, em 3 ou 4 páginas, em
parte devido ao fato de as estórias terem sido compostas
para jornal. -
Por que Terceiras Estórias – pergunta
a Rosa, Paulo Rónai – se não houve as segundas? O que diz o Autor? -
O autor não diz nada – respondeu com uma risada de menino grande, feliz
por ter atraído o colega a uma cilada. Mostrou-me depois o índice no
começo do volume, curioso de ver se eu lhe descobria o macete. -
Será a ordem alfabética em que os títulos estão arrumados? -
Olhe melhor: há dois que estão fora da ordem. -
Por quê? -
Senão eles achavam tudo fácil. “Eles”
eram evidentemente os críticos. Rosa, para quem escrever tinha tanto de
brincar quanto de rezar, antegozava-lhes a perplexidade encontrando prazer
em aumentá-la.” Os
títulos “fora da ordem” compõem as iniciais JGR. Os prefácios-estórias
de Tutaméia contém muito do
credo poético de Rosa, que neles responde aos críticos que acusavam sua
escrita de “não-engajada”: “A estória deve ser contra a História...”
é uma de suas respostas. Em
um desses prefácios, refere-se a um personagem, “Tio Cândido”, como
o mestre que um dia lhe deu a seguinte incumbência: -
“Tem-se de redigir um abreviado de tudo”. Ele
então responde, com o cerne de sua poética: “Ando
a ver. O caracol sai do arrebol. A cobra se concebe curva. O mar barulha
de ira e de noite. Temo igualmente angústias e delícias. Nunca entendi o
bocejo e o pôr-do-sol. Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive,
morre. Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito,
será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza.” ¤ ESTAS ESTÓRIAS (1969) e AVE, PALAVRA
(1970)
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| A LÍNGUA DE ROSA | |
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Somente renovando a língua é que se pode
renovar o mundo. Criador de uma língua inédita e
surpreendente, Rosa considera a sua como a “língua da metafísica”.
Mas se aponta para o transcendente também mantém com a língua uma relação
amorosa e carnal: A língua
e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a
quem até hoje foi negada a benção eclesiástica e científica.
Entretanto, como sou sertanejo, a falta de tais formalidades não me
preocupa. Minha amante é mais importante para mim. Em longa carta, de 11 de maio de 1947, para
Vicente Guimarães, escreve: A língua portuguesa, aqui no Brasil, está
uma vergonha e uma miséria. Está descalça e despenteada;.... É preciso
distendê-la, destorcê-la, obrigá-la a fazer ginástica, desenvolver-lhe
músculos. Dar-lhe precisão, exatidão, agudeza, plasticidade, calado,
motores. E é preciso refundi-la no tacho, mexendo muitas horas. ...
A nossa literatura, com poucas exceções,
é um valor negativo, um cocô de cachorro no tapete de um salão.
Naturalmente palavrosos, piegas, sem imaginação criadora, imitadores,
ocos, incultos, apressados, preguiçosos, vaidosos, impacientes, não
cuidamos da exatidão...... Quem pode, deve preparar-se, armar-se, e lutar
contra esse estado de coisas. É uma revolução branca, uma série de
golpes de estado. Em carta a João Condé, de 1946: De certo que eu amava a língua. Apenas, não
a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. .... Mas
ainda haveria mais, se possível...: além, dos estados líquidos e sólidos,
porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso? Na entrevista a Günter Lorenz, em 1965, dirá: “Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o
idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo,
enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas.
Disso resultam meus livros, escritos em idioma próprio, meu, e pode-se
deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários
dos outros. Se
tem de haver uma frase feita, eu preferia que me chamassem de reacionário
da língua, pois quero voltar a cada dia à origem da língua, lá onde a
palavra ainda está nas entranhas da alma, para poder lhe dar luz segundo
a minha imagem. Eu
quero tudo: o mineiro, o brasileiro, o português, o latim, talvez até o
esquimó e o tártaro. Queria a linguagem que se falava antes de Babel”. “amo
a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa”. Isto é importante, pois sem esse amor pessoal, por assim dizer, não
funciona.
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| O CRIADOR DEMIURGO | |
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Não gosto do transitório, do provisório. Gosto do Eterno... (depoimento à Revista Manchete, 11 de
junho de 1963) Sou só RELIGIÃO – mas impossível de
qualquer associação ou organização religiosa: tudo é o quente diálogo
(tentativa de) com o ∞.
O mais, você deduz. O sentimento religioso, transcendente,
presente na obra rosiana não implica dogmatismo: “Muita religião, seu
moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo
água de todo rio.”, diz o narrador Riobaldo. Fala semelhante
encontra-se no que o próprio Rosa afirma como sendo seu “credo”
pessoal: Eu
não sei o que sou. Posso bem ser cristão de confissão sertanista, mas
também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo, ou um pagão
crente à la Tolstói. No fundo, tudo isto não é importante. A religião
é um assunto poético e a poesia se origina da modificação de
realidades lingüísticas. O criador literário, responsável por
“devolver a dignidade ao homem” deve atuar inclusive, “corrigindo a
Deus”: Isto
provém do que eu denomino a metafísica de minha linguagem, pois esta
deve ser a língua da metafísica. No fundo é um conceito blasfemo, já
que assim se coloca o homem no papel de amo da criação. ...
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| AQUI A ESTÓRIA COMEÇA | |
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Como redemonstrar a grandeza indivídua de
um homem, mérito longuíssimo, sua humanidade profunda: passar do João
Rosa relativo ao João Rosa absoluto? É
a noite de 16 de novembro de 1967. Vai começar a cerimônia de posse na
Academia Brasileira de Letras. Rosa pronuncia seu discurso durante 1h30. “Profundamente
emotivo, papai acabou seu discurso em lágrimas. Nunca o havia visto
chorar em público. Ele me havia pedido para defendê-lo contra os fotógrafos
e as pessoas que o envolvessem com exageros. .... Mas portou-se
maravilhosamente, mesmo com o pressentimento de que, se tomasse posse,
morreria”. (Vilma G. Rosa) Era
quinta-feira. No domingo, 19 de novembro, Rosa falece, vítima de enfarte,
aos 59 anos. De
repente, morreu: que é quando um homem vem inteiro pronto de suas próprias
profundezas. Morreu, com modéstia. Se passou para o lado claro, fora e
acima de suave ramerrão e terríveis balbúrdias.....Alegremo-nos,
suspensas ingentes lâmpadas. E: sobe a luz sobre o justo e dá-se o teso
coração alegria!” – desfere então o salmo. As pessoas não morrem,
ficam encantadas. ...Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes
gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a
sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita: O mundo é mágico.
– Ministro, está aqui CORDISBURGO. (últimas
palavras do discurso de posse) Rosa
deixa esposa, as duas filhas, Vilma e Agnes e quatro netos: Maria
de Lourdes e Maria Cristina, filhas de Agnes; Laura Beatriz e João Emílio,
filhos de Vilma. Era o “Vovô-Beleza”. Anos
depois, o nome do escritor e diplomata foi dado ao pico culminante da
Cordilheira Curupira, de 2150 metros, que se ergue na faixa limítrofe
entre o Brasil e a Venezuela. É o 15º pico mais alto do
Brasil. Isso na geografia, porque na literatura... No dia em que completar 100 anos,
publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário. E este
fará as vezes de minha autobiografia. O senhor....Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é
isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram
terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.
Verdade maior, É o que a vida me ensinou.”
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Bibliografia CALLADO, Antônio. “Crônica”. Folha
de São Paulo, Caderno Ilustrada. 25.7.1992 GUIMARÃES ROSA, Vilma. Relembramentos.
João Guimarães Rosa, meu pai. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1983 GUIMARÃES, Vicente. Infância de João Guimarães Rosa, José Olympio Ed./ INL, Rio de Janeiro,1972 JABOR,
Arnaldo. “Rosa protege a história com suas estórias”. In: Folha de São Paulo,
caderno
Ilustrada, 24.11.1992 LORENZ,
Günter. "Diálogo com
Guimarães Rosa". Guimarães
Rosa. (Coleção Fortuna
Crítica). Org. Eduardo F.
Coutinho. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira,1983.
pp 62-100 MORENO, Leila Kiomura. “Médico, rebelde.
Escritor. É João Guimarães Rosa”. Jornal
da USP, de
7-13 abril de 1997, pp.10-11. PEREZ, Renard. “Perfil de João Guimarães
Rosa”. ROCHA, Marília Librandi. As
espantosas palavras. Uma análise de Grande Sertão: Veredas. Dissertação de
Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas, USP, 1997 (mimeo) VVAA, Em memória de João Guimarães Rosa, José Olympio Ed., Rio de Janeiro,1968 Fontes na Internet: |
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Poema
de
Carlos Drummond de Andrade Publicado
no jornal Correio da Manhã, de 22.11.1967, e reproduzido em: João era fabulista “Projetava na gravatinha Tinha pastos, buritis plantados Era um teatro João era tudo? E de cada gota redigia Mágico sem apetrechos, Por que João sorria Tinha parte com... (sei lá
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