JOÃO MACHADO
Nasce em Lisboa em 1943. Estuda sempre em Lisboa.
Licencia-se no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política (antigo
ISCSPU, depois ISCSP) em 1963.
Faz a quarta classe com professora em casa. Adapta-se com dificuldade ao
liceu. Desde pequeno que sonha em ir para África, que idealiza como um sítio
maravilhoso. Assim vai estudar para o ISCSP. Começa a perceber a gravidade
da realidade africana graças aos colegas, na maior parte oriundos das
colónias. Desiste de ir para África. Devido à falta de saúde, não faz
serviço militar, o que, de certo modo, constitui uma sorte.
Católico entre os quinze e os vinte anos, chega a pertencer à Juventude
Universitária Católica. Abandona esta organização, horrorizado com as
prelecções de D. António dos Reis Rodrigues, então orientador da JUC.
Entretanto, aos vinte e um anos, colabora num estudo sobre “A Imagem da
Mulher em Portugal”, levado a cabo pela Professora Palmira Duarte, baseado
em inquéritos à população, segundo uma amostra que incluía representantes
dos vários extractos sociais. A realização dos inquéritos leva-o a percorrer
a Grande Lisboa e a começar a contactar mundos que lhe eram desconhecidos.
A sua visão do mundo evolui significativamente a partir da experiência tida
num internamento prolongado num sanatório, aos 22 e 23 anos de idade. A
leitura de Zola, Dostoievsky e Soljenitsyne, que ocorre em grande escala
nessa altura, também contribui bastante para essa evolução. Vem a seguir a
descoberta de Marx e de Marcuse. O contacto com as populações proletárias e
sub-proletárias torna-se uma constante da sua vida.
Começa a sua vida profissional como professor de geografia do ensino
nocturno. A seguir à doença grave que o afectou, trabalha no Ministério das
Obras Públicas. Aos vinte e seis anos para o Serviço de Promoção Social,
ligado à então chamada assistência social. De algum modo, mantém-se ligado a
este sector até à sua aposentação, aos sessenta e dois anos, sempre como
funcionário público.
Em 1971 participa num inquérito a agricultores beneficiários de sistemas de
rega que estavam a ser introduzidos numa zona do Alentejo. Regista a
estagnação e o abandono predominantes neste sector, e constatou a grave
crise social existente.
Aos vinte e oito anos permanece quatro meses nos Estados Unidos. Passa a
maior parte deste tempo no estado do Minnesota, o mais progressista do país,
pelo que o informaram. Tem ocasião de avaliar as grandes diferenças entre os
dois países, e de verificar a péssima imagem de Portugal lá fora. Observa as
manifestações gigantes contra a guerra do Vietname.
Como funcionário público, na maior parte do tempo em que prestou serviço,
trabalha na acção directa. Chega a estar requisitado numa Câmara Municipal,
sempre exercendo funções na área social. Nos últimos anos, exerce funções de
inspecção.
Em 1975 é colocado (a pedido seu) no serviço de acção directa da Amadora,
onde trabalha 12 anos. Familiariza-se cada vez mais com a vida das classes
desprovidas. Julga poder ufanar-se de ter dado um contributo, modesto mas
significativo, para a melhoria de algumas situações de uma cidade que muitas
pessoas, pouco familiarizadas com a realidade social, dizem parecer
pertencer ao chamado terceiro mundo. Também julga que é como reconhecimento
do seu trabalho que foi há alguns feito padrinho de uma creche familiar no
bairro da Cova da Moura.
Quando se cria uma delegação da Segurança Social na Amadora, é mandado para
os serviços centrais. Começa então a colaborar num dicionário enciclopédico,
e a fazer traduções. Escreve artigos de natureza vária para revistas com que
colabora. Desenvolve vários trabalhos para o então chamado Centro de
Reflexão Cristã, sob a orientação da Professora Manuela Silva.
Consegue voltar à acção directa, passados anos. É então que vem a ser
requisitado por autarquia. Por último entra na carreira da inspecção. Frisa
que tem muito orgulho no trabalho que realizou, até porque conseguiu manter
a maior parte dos seus princípios individuais ao longo de quase 40 anos, o
que reconhece ter-lhe granjeado muitos problemas.
Desde novo que pretende fazer carreira nas letras. É esse o seu grande
desafio, após a aposentação.
Neste site colabora com as
seguintes biografias: Arlindo Vicente,
Soeiro Pereira Gomes, Maria Lamas
|