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JORGE AMADO
Escritor brasileiro: 1912 - 2011
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Manual do utilizador desta biografia Os factos essenciais da vida de Jorge Amado, estão registados em Quando tudo aconteceu...
QUANDO
TUDO ACONTECEU...
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O escritor e o homem – os ecos da grande epopeia |
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O mar baiano |
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Dias após, na aula o professor distribui as redações e as respetivas notas. Fica só com uma nas mãos. Dirige-se à carteira de Jorge e, agitando a folha, diz para a turma: «Ele será um dos vossos grandes escritores!» Gargalhada geral. Corado, envergonhado, Jorge emite um grunhido e dá um furtivo pontapé no colega de carteira que se juntara à surriada. Luís Gonzaga Cabral não é um professor qualquer – padre jesuíta português, fugido de Portugal após a proclamação da República, filólogo, dramaturgo, ensaísta, é considerado o maior tribuno sacro da época. Atento ao precoce talento de Jorge empresta-lhe livros de autores portugueses, brasileiros e os grandes clássicos. O mar de que falou na composição terá uma presença constante na obra do grande escritor que o miúdo virá a ser - a plantação de cacau e o mar serão cenários recorrentes dos seus romances. Não raro, o mar baiano assume o protagonismo nas suas efabulações – «Penso na Baía (…) nas pessoas de amigos tão caros ao meu coração como Dorival Caymmi, cantor de pescadores e do mar baiano». E Dorival conta como, em 1941, num cordial convívio em casa de João Amado de Faria, pai de Jorge, se fez um concurso entre os presentes - Érico Veríssimo, Clóvis Amorim e outros. Partindo de um tema de Mar Morto, o romance sobre os mestres de saveiros, Jorge acrescenta alguns versos e completa a canção. São os seus versos que vencem: É doce morrer no mar |
“Há quem diga que escrevo mal” |
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Até 1950*, são as edições brasileiras que circulam em Portugal onde depressa conquista leitores. Alexandre Pinheiro Torres confessa-se devoto dos livros de Jorge Amado desde os anos 40. Joaquim Namorado considera-o a principal referência de uma nova descoberta do Brasil, expressão que António Ramos de Almeida adoptará. Manuel da Fonseca revela a influência que a leitura de Jubiabá teve na sua obra. Álvaro Salema não lhe poupa os elogios. Álvaro Cunhal saúda em Jorge a efabulação construída a partir de pressupostos sociológicos - uma polémica entre os neo-realistas e os presencistas é ateada. Cunhal enfrenta José Régio, em cuja opinião duas realidades diferentes - a portuguesa e a brasileira - não podem ter uma abordagem literária similar. No plano literário Régio terá razão, mas Cunhal firma a sua argumentação numa perspectiva sociológica e política; nesse terreno, são os pruridos esteticistas de Régio que não se justificam. Um diálogo de surdos… No pós-guerra, a discussão da prevalência do conteúdo sobre a forma (ou vice-versa) está na moda. Sobre Ferreira de Castro colocara-se a mesma questão. Com cruel mordacidade, Almada Negreiros, ao ser publicada a magnífica tradução francesa de A Selva, feita por Blaise Cendrars, sugerira que um bom tradutor de francês vertesse a tradução de Cendrars para português… Aliás, há uma grande identificação entre os dois escritores. Após década e meia de correspondência trocada, Castro e Amado encontram-se em Paris: «Eu o conheci pessoalmente em 1948, em Paris: Forêt Vierge, a admirável tradução francesa de A Selva, realizada por Blaise Cendrars, era best-seller nas livrarias de Paris, recebia os maiores elogios da crítica. Sucesso que se repetiu alguns anos depois, com a tradução de A Lã e a Neve (Les Brebis du Seigneur). Antes de conhecê-lo pessoalmente, porém, eu já era seu devedor de provas de amizade e de confiança. Quando publiquei Cacau, em 1932, Ferreira de Castro, já consagrado, veio a público, na imprensa portuguesa, dar-me o seu estímulo, num artigo que foi de fundamental importância para o jovem aprendiz de escritor: senti-me consagrado aos vinte anos de idade. Jamais seu incentivo me faltou no curso de meu trabalho de romancista». __ |
O círculo de amizades do Movimento de 30 |
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Ferreira de Castro elogia o jovem autor Jorge Amado.
Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Consulta a Tábua Cronológica.
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O padre Cabral empresta-lhe livros, ajuda-o a rasgar nas paredes do internato uma janela para o maravilhoso mundo da criatividade. Jorge lê e aprende muito, mas já não suporta a clausura, quer respirar outro ar que não aquele – bafiento e cediço do colégio dos jesuítas. Jorge sente-se encarcerado. Não aguenta mais. Após umas férias, o pai leva-o ao colégio e Jorge, despede-se, finge dirigir-se para o portão, mas quando o pai parte, foge. Com dez mil réis no bolso, anda desaparecido por dois meses - atravessa o sertão baiano até chegar a Itaporanga, em Sergipe, onde residia seu avô paterno, José Amado. São “dois meses de maravilhosa vagabundagem”. Eu acho que aquela fuga teve um papel fundamental na minha vida. Tudo partiu daí. Ela me abriu perspectivas, já que me possibilitou conhecer outros lugares, outras pessoas. As viagens foram sempre uma boa fonte de alimentação da minha obra. Sobretudo, Jorge terá aprendido que um homem nunca deve aceitar a realidade como imutável. A transgressão é necessária quando estamos perdidos num labirinto – a solução pode não ser procurar o caminho para a saída, pode consistir em arremeter contra as sebes das paredes, destruir o labirinto. Jorge sempre reagiu contra a normalidade que lhe queriam impor – os livros da sua primeira fase, mais do que realistas, são autênticas reformulações da realidade. E são fruto da sua opção ideológica.
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Dicho en Pacaembú - O caminho do compromisso |
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«Quanto a mim, busquei o caminho nada cómodo do compromisso com os pobres e com os oprimidos, com os que nada têm e lutam por um lugar ao sol, com os que não participam com os bens do mundo, e quis ser, na medida das minhas forças, voz das suas ânsias, dores e esperanças». Em 1934 adere ao Partido Comunista Brasileiro. 15 de Julho de 1945. O Estádio de futebol de São Paulo, o Pacaembú está cheio, mais de cem mil pessoas – o São Paulo vai jogar com o Corinthians? Não. O líder comunista Luís Carlos Prestes, amnistiado três meses antes, vai realizar um segundo comício, pois em 23 de Maio fizera um outro no estádio de São Januário no Rio de Janeiro. Prestes está muito nervoso. Passou nove anos no presídio, incomunicável, é a segunda vez que fala em público, pois antes de ser preso nunca o fizera. E logo perante uma multidão tão numerosa. Entre os cem mil que o escutam, estão dois grandes escritores – Pablo Neruda e Jorge Amado. Pablo Neruda representa os escritores comunistas do Chile e lê uma mensagem. Mais tarde, no seu Canto General incluirá um poema alusivo à inesquecível jornada: Nesse mesmo ano de 1945, Jorge é eleito deputado federal à Assembleia Constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro. Quando no ano seguinte assume o mandato, apresenta propostas, algumas das quais são aprovadas, como a da liberdade de culto. Numa outra, defende a protecção dos direitos autorais. Mas, ilegalizado o PCB, o seu mandato é cassado.
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Zélia |
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E terá tido uma influência positiva na sua obra, com uma visão mais doce, mais global e menos centrada exclusivamente no sociopolítico. Não falaremos muito dela – mas teve uma grande importância no seu percurso, sendo a face mais luminosa e feliz da vida de Jorge. Em 1948 fixa-se em Paris, pois o Brasil deixou de ser respirável para ele – é perseguido, os seus livros censurados . Durante esse exílio, conhece Jean-Paul Sartre e Picasso, entre outros escritores e artistas. Ferreira de Castro, por exemplo, como já vimos. Em 1950, o governo francês expulsa-o por motivos políticos. Refugia-se com a família na Checoslováquia. Publica alguns dos seus livros mais comprometidos, tais como a trilogia Os subterrâneos da liberdade, publicada em 1954. Mas é o fim de um ciclo. Em 1956, após as denúncias de Nikita Khruschov contra os crimes e desvios de Estaline no XX Congresso do PCUS, Jorge Amado sai do Partido Comunista. Sai, como explica, sem renegar seja o que for. Desde 1954 estava ao corrente do que foi revelado no XX Congresso. Saiu, porque queria voltar a escrever. (…) deixei de militar politicamente porque esse engajamento estava me impedindo de ser escritor. Mas o seu compromisso político, a sua militância, marcaram profundamente a sua obra. Os ritos afro-brasileiros são outro elemento marcante no seu percurso literário. Recebe mesmo elevados títulos do candomblé, o de obá Arolu do Axé Opô Afonjá. E a sua torrente criadora jorra novos romances e novelas : A morte de Quincas Berro Dágua, considerada uma obra-prima, que depois seria publicada junto com o romance O capitão-de-longo-curso no volume Os velhos marinheiros, Dona Flor e seus dois maridos, Tenda dos Milagres, Tereza Batista cansada de guerra e Tieta do Agreste…
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A Academia |
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No dia 17 de Julho de 1963, Jorge tomará posse da cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Letras. Mas não entra sozinho… Jubiabá, Quincas Berro Dágua, Gabriela, Vasco Moscoso de Aragão, com os Capitães da Areia abrindo caminho, e outros fechando o cortejo, entram de roldão na Academia Brasileira de Letras. Sentam-se, faz-se silêncio e, envergando o fardão de académico, entra o Jorge. Discurso longo que termina assim: E quando aqui chego, chegam a esta casa, a esta tribuna, vestindo este fardão, pessoas simples do povo, aqueles meus personagens, pois é por sua mão que aqui ingresso. Vêm mestres de saveiro e pescadores, Mestre Manuel, Maria Clara, Lívia e Guma, e sua ansiosa espera da morte no mar; vêm negros e mulatos, o pai-de-santo Jubiabá e o negro Balduíno, Rosenda Rosedá e o Gordo, vêm crianças abandonadas, os capitães da areia, trabalhadores dos campos de cacau e rudes coronéis de repetição em punho; vêm o rei das gafieiras da Baía, Quincas Berro Dágua, e a mulata Gabriela, feita de cravo e canela, e o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que amava sonhar e comandava os ventos. Gente simples do povo, não sou mais do que eles, e, se os criei, eles me criaram também e aqui me trouxeram. São uma gente boa, Srs. Académicos, gente baiana de muita delicadeza, e ao sentar-me com eles em vossa ilustre companhia, ao agradecer a honra dos votos que de vós mereci, quero a eles também agradecer o homem que eles construíram e até aqui trouxeram. Porque eles são o meu povo e a vida que tenho vivido ardentemente. |
Uma nota final |
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A vida e a obra de Jorge Amado não pararam na Academia. A Academia nunca foi um objetivo para ele. Lembrai-vos do que disse - Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Por quase mais quarenta anos continuou a escrever e a aumentar o número das suas maravilhosas personagens que talvez rondem junto da velha mangueira do jardim de sua casa. Talvez se sentem no mesmo banco onde pelas tarde descansava ao lado de Zélia. Vivem sobretudo na memória de todos nós, os seus leitores. |