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INFANTE D. HENRIQUE

Impulsionador dos descobrimentos portugueses: 1394 - 1460

Fernando Correia da Silva

 

Infante D. Henrique - No políptico de Nuno Gonçalves.

E FOSTE DESVENDANDO A ESPUMA...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1394: Quinto filho d’el-Rei D. João I e de D. Filipa de Lencastre, nasce a 4 de Março na cidade do Porto - 1408: O pai doa-lhe casa com rendas próprias e bons servidores. - 1415: Atingida pela peste, morre D. Filipa de Lencastre. O Infante D. Henrique distingue-se na batalha da conquista de Ceuta, no norte de África; nessa mesma praça é armado cavaleiro. - 1416: O Infante D. Henrique recebe o ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã. - 1418:. É descoberta a ilha de Porto Santo (Madeira). - 1419: O Infante D. Henrique chefia força portuguesa que obriga exército mouro a abandonar o cerco a Ceuta. - 1420: O Infante D. Henrique é nomeado regedor da Ordem de Cristo. Por sua indicação, Bartolomeu Perestrelo povoa a ilha de Porto Santo. O Infante D. Henrique congemina o “Plano das Índias”: localizar, alcançar e fazer aliança com o misterioso Preste João das Índias para se atacar a moirama pela retaguarda. Contrata Jaime de Maiorca, famoso cosmógrafo e cartógrafo catalão. - 1421: Criação da diocese de Ceuta. - 1424: D. Fernando de Castro comanda expedição às Canárias.  - 1425(?): Início da colonização da Madeira. - 1426: Gonçalo Velho dobra o Cabo Não (África ocidental) - 1427: Descobrimento das ilhas do centro e leste do arquipélago dos Açores. -  1431: O Infante D. Henrique é nomeado protector da Universidade. - 1433: Morre D. João I e D. Duarte sobe ao trono. O novo monarca doa ao Infante D. Henrique o arquipélago da Madeira. - 1434: Gil Eanes dobra o Cabo Bojador (África ocidental), ao sul do qual, diziam as lendas do Mar Tenebroso, era impossível manter-se a vida. - 1436: A 50 léguas ao sul do Bojador, Afonso Gonçalves Baldaia descobre o Rio do Ouro. É promulgada a bula que autoriza a guerra contra os Infiéis, em Marrocos. O Papa reconhece o direito de Castela à posse das Canárias. - 1437: Contra o parecer do Infante D. Pedro, mas aprovada por el-Rei D. Duarte, os Infantes D. Henrique e D. Fernando chefiam expedição portuguesa para a conquista de Tânger; desastre militar e o Infante D. Fernando é aprisionado pelos mouros e levado para o cativeiro. - 1438: Morre D. Duarte, deixando herdeiro menor de idade, o futuro D. Afonso V; a viúva d’el-Rei, D. Leonor de Aragão, assume a regência; devido à contestação popular (mulher e estrangeira...), será depois substituída pelo Infante D. Pedro, irmão de D. Duarte. - 1439: Início do povoamento dos Açores. - 1440: Tristão Vaz Teixeira é nomeado primeiro capitão-donatário da Madeira (Machico).  - 1441: Por esta data, é projectado e começa a ser construído no Algarve um novo tipo de navio, a caravela. É alcançado o Cabo Branco, ao sul do Sahara. São desembarcados no Reino os primeiros cativos negros caçados em África. - 1443: Em Fez, morre no cativeiro D. Fernando, o Infante Santo. O Infante D. Pedro concede ao seu irmão D. Henrique o monopólio de navegação, guerra e comércio nas terras ao sul do Bojador. Nuno Tristão alcança a  ilha de Arguim, onde os árabes mantêm um mercador regular de escravos e produtos ricos; o Infante D. Henrique manda ali construir uma fortaleza-feitoria. - 1444: Álvaro Fernandes dobra o Cabo Verde (cabo na costa africana, não o arquipélago que virá a ter o mesmo nome). - 1445: Dinis Dias alcança a foz do rio Senegal. João Fernandes, falando perfeitamente o árabe, percorre o Sudão e alcança Timboctu, centro das caravanas do deserto portadoras das mercadorias preciosas do Oriente e da África. Descoberta do arquipélago dos Bijagós, na costa da Guiné. - 1446: O regente Infante D. Pedro promulga as Ordenações Afonsinas. Nuno Tristão sobe um rio da Guiné (talvez o Barbaci), sendo atacado e morto pelos indígenas. D. Afonso V alcança a maioridade. O Infante D. Henrique doa a capitania de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo. - 1448: Em litígio com o regente Infante D. Pedro, D. Afonso V assume o poder. - 1449: Na batalha de Alfarrobeira (perto de Alverca) o exército de D. Afonso V liquida o Infante D. Pedro e a maioria dos seus partidários. - 1450: Gomes Eanes de Zurara sucede a Fernão Lopes no cargo de cronista régio e escreve a Crónica da Tomada de Ceuta (data provável). - 1452: Diogo de Teive descobre as ilhas de Flores e Corvo (grupo ocidental dos Açores). - 1453: Os Turcos tomam Constantinopla, toda a Cristandade sente-se ameaçada com a expansão do Islamismo. Zurara escreve a Crónica da Conquista da Guiné (data provável). - 1455: Bula do Papa Nicolau V concedendo aos reis de Portugal a propriedade exclusiva das terras e mares já conquistados ou por conquistar, possuídos ou a possuir. Em Lagos o Infante D. Henrique funda a feitoria de tratos de Arguim. - 1456: Cadamosto descobre algumas das ilhas do arquipélago de Cabo Verde. - 1458: Com a participação do Infante D. Henrique, os portugueses conquistam Alcacer-Ceguer aos mouros. - 1459: O Infante D. Henrique entrega a capitania do Funchal a Gonçalves Zarco. - 1460: A 13 de Novembro, na sua vila de Sagres, morre o Infante D. Henrique.

 

MITIFICAR, MISTIFICAR

"O Sonho do Infante" - pintura de José Malhoa no teto do Museu Militar (Lisboa)

 

- Ó D. Henrique! Ó Infante! Lá do fundo do tempo por diversas vezes Vossa Mercê interferiu com a minha vida. Não só com a minha mas, de geração em geração, com as vidas de milhões e milhões de portugueses. Sou apenas um borra-botas, porém atrevo-me a dar troco.

Um século depois da vossa morte, de vós e de vossos irmãos dirá Camões:

Ínclita geração, altos Infantes.

Ínclita ou ilustre geração? Seja! Nada a opor... Mas de Vossa Mercê, nomeadamente, dirá ainda Camões:

Assim fomos abrindo aqueles mares,

Que geração alguma não abriu,

As novas Ilhas vendo e os novos ares

Que o generoso Henrique descobriu;

(...)

Generoso? Será? Veremos...

Cerca de 1906 José Malhoa, em pintura no teto do Museu Militar de Lisboa, colocará Vossa Mercê nos rochedos de Sagres a contemplar as ondas, a mirar o longe, a meditar. Chamará à obra “O Sonho do Infante”. Vossa Mercê pode ser isto ou aquilo mas, se bem vos conheço, lá contemplativo é que não sois. Romantismos...

Pouco mais de quatro séculos depois da vossa morte, de vós dirá também Fernando Pessoa:

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Falta cumprir-se Portugal? Achais que sim, essa também é a vossa opinião? Na segunda metade do sec. XV Nuno Gonçalves pintou os chamados painéis de S. Vicente e neles colocou Vossa Mercê em primeiro plano. Em mil novecentos e trinta e tal o António Ferro, um sempre-em-pé metido a Ministro da Propaganda do fascismo português, entre os muitos figurantes desse antigo políptico descobriu um gajo com a tromba exacta do SALAZAR. Estou a ver o ditador a esfregar as mãos de contente: os painéis de S. Vicente afinal são como a Vida, como a História, ontem como hoje. Ontem, em gabinete, o Infante a mandar as caravelas à descoberta do mundo. Hoje, em gabinete, SALAZAR a mandar Portugal cumprir o seu destino glorioso. Não foi por acaso, antes para cimentar identificações, que o ditador acabou por atribuir à Mocidade Portuguesa (organização para-militar fascista) a mesma bandeira que foi desfraldada nas caravelas de Vossa Mercê... 

Quando, na adolescência, sacudi e me libertei do fascismo, daquele vesgo nacionalismo que andava a espartilhar-me, Vossa Mercê, ó D. Infante, comeu por tabela porque a vossa figura andava colada à propaganda salazarista. Dessa colagem não tereis culpa, abusaram de vós, sei disso muito bem. Mas sei com a razão, não com o sentimento. O que é que Vossa Mercê quer? Maldades que nos fazem quando somos criancinhas, até à velhice ficam a remoer aqui no peito...  De qualquer forma, antes que eu me passe para o Além, tentarei obter ainda o vosso retrato de corpo inteiro. Sem mitificações, sem mistificações...

 

CEUTA

Gravura do Séc. XVI: embarcações portuguesas na tomada de Ceuta

 

El-Rei D. JOÃO I, o Senhor vosso pai, quer armar cavaleiros os filhos maiores, o Infante D. Duarte, o INFANTE D. PEDRO e o Infante D. Henrique. Vossa Mercê opina que, para a cerimónia, antes prefere uma batalha a sério do que um torneio, o qual é batalha apenas a fingir, a brincar. Os vossos irmãos concordam, o Senhor vosso pai também, e assim se decide a conquista de Ceuta à moirama do norte de África. Por um lado, a luta contra os Infiéis vai ao encontro da vossa apetência de cruzado; por outro, é a forma de travar a acção dos piratas marroquinos que atacam a navegação comercial portuguesa, também a forma de suprir a escassez de trigo que há no Reino pois em Marrocos trigo é o que não falta, nunca! Cedo começa a revelar-se um dos principais traços daquela que virá a ser a vossa personalidade: homem de acção, estimulado pelo interesse imediato... Ou seja: exactamente o oposto de um contemplativo...

Em 1415 é tomada Ceuta. Vossa Mercê tem 21 anos, arregimentou a tropa do norte do país e durante a batalha acaba por se evidenciar como tenaz e corajoso combatente. Sois armado cavaleiro, bem o mereceis. Como prémio suplementar, ao regressar ao Reino o Senhor vosso pai doa-vos o ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã. Já antes vos doara casa com rendas próprias e bons servidores, isso aconteceu quando Vossa Mercê fez 14 anos. Mas esta nova doação tem outra magnitude. Vossa Mercê exulta, pois gosta de gerir fortunas e de mandar nessa muita gente que passa a depender de vós... Mas o que mais vos entusiasma é o Senhor vosso pai, logo a seguir, ter-vos nomeado protector da cidade de Ceuta entregando-vos, em consequência, o governo perpétuo do Algarve. É a oportunidade de Vossa Mercê manter os seus privilégios de senhor feudal e, ao mesmo tempo, de abrir as portas (ou as comportas) ao lucro mercantil. Para vós, para o vosso bolso, para o Reino... Como? Veremos isso mais à frente. Por agora estou a constatar o vosso contentamento ao transferir a vossa casa feudal de Viseu para Lagos, a maior cidade do Algarve... E ainda o vosso entusiasmo ao conseguir, em 1419, espantar um exército mouro que tentava a reconquista de Ceuta...

 

O PLANO DAS ÍNDIAS

O Infante D. Henrique congemina o Plano das Índias. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.  

Os mouros é que trazem para Ocidente as preciosas mercadorias do Oriente.

E se Vossa Mercê conquistasse aos mouros as praças fortes que eles detêm em Marrocos...? E se os vossos navios descobrissem na costa africana um rio que nascesse lá no Oriente...? E se os portugueses, de jusante para montante, fossem por aquele rio acima até ao reino do Preste João, o poderoso e lendário rei cristão das Índias...?  E se Vossa Mercê fizesse uma aliança com o Preste João para, em conjunto, atacarem os mouros pela retaguarda...? Esse é o vosso Plano das Índias: se, se, se... Conseguindo tudo isso, seria não só a grande vitória da Cristandade sobre os Infiéis, mas também o ensejo de desviar de Veneza para Lisboa o grosso do comércio europeu com o Oriente.  Ou seja: Vossemecê a enriquecer e os venezianos a chuchar no dedo... É isso, não é? Diga lá se acertei ou não...

Em 1420 o seu pai nomeia-o regedor da Ordem de Cristo. Monges guerreiros, uma força militar que vem mesmo a calhar para o seu Plano das Índias, além de lhe garantir grandes benefícios em moeda e géneros... Contudo, para viabilizar esse seu Plano, Vossemecê não devia acreditar na infalibilidade dos Antigos. Por exemplo: Ptolomeu, o cosmógrafo, prolongou a África e a Ásia até à Terra Austral, reduzindo o Oceano Índico a mar interior. E Vossemecê acredita piamente nessa carta... Não que seja ignorante, Vossemecê de tudo sabe um pouco pois D. Filipa, a Senhora sua mãe, converteu a Corte em real Academia para os seus infantes. Ignorância não será, mas credulidade, crença. A Vossemecê o que falta é rebeldia para desconfiar das lições dos Antigos antes de verificar se a prática de hoje confirma a teoria que eles ditaram há 13 ou 14 séculos... 

Quanto ao Preste João, só trinta e dois anos depois de Vossemecê morrer é que PÊRO DA COVILHÃ, a mando de D. JOÃO II, seu sobrinho-neto, irá desvendar a lenda que não tinha grande fundamento, afinal o poderoso rei nas Índias era apenas um reizinho que tentava sobreviver na Etiópia. Mas cada qual é livre de imaginar o que quiser e do imaginado realiza o que puder...

 

NAVEGAÇÕES

 

Caravela redonda (secs. XV e XVI) - Museu da Marinha (Lisboa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gil Eanes - retrato do navegador em selo postal português.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Infante D. Henrique" - pormenor da pintura de Joaquim Rebocho e Domingos Rebelo.

 

Chamam-lhe Henrique, o Navegador, e dá-me vontade de rir pois navegar, Vossemecê só navegou até Marrocos, em cima de um convés mais longe não foi... Pôs foi criados e escudeiros seus a navegar por si. E chegou mesmo a contratar, a peso de ouro, estrangeiros que pudessem fazer progredir a sua empresa, tais como Jaime de Maiorca, o cosmógrafo e cartógrafo catalão; e Bartolomeu Perestrelo, Cadamosto, Uso di Mare e António da Noli, navegadores e peritos comerciais italianos; também físicos hebraicos e aventureiros vários. Não, não estou a falar da fantasiosa Escola de Sagres. Essa nunca existiu, foi inventada por patrioteiros que mais tarde endeusaram Vossemecê para arrebicar o conceito de Nação. Não estou portanto a falar de uma escola náutica. Falo apenas (e já é muito) de um agrupamento de homens dispostos a fazerem-se ao mar, a observar astros, ventos, marés e a desenhar costas. A todos eles, portugueses e estrangeiros, Vossemecê paga regiamente. Generosidade? Não me parece. Eu diria perspicácia porque, ao pagar bem, o seu interesse é manter coesa a sua empresa. E onde há interesse, generosidade omite-se. O avesso amargo da sua perspicácia e da exorbitância dos seus gastos pessoais, é Vossemecê andar sempre à rasca de finanças. Mas logo trata de inventar soluções, uma atrás da outra: ou a pirataria contra os navios mouros no Mediterrâneo, ou o monopólio da pesca do atum, ou a dízima sobre todo o peixe apanhado em Monte Gordo, ou o monopólio do abastecimento de peixe a Ceuta, ou o controlo da moagem de cereais e da produção de tintas e sabões no Algarve. Apesar de homem soturno, de poucas palavras, Vossemecê começa a revelar um dos principais traços do homem português: a improvisação, o desenrascanço...

Mas falemos agora das navegações. Vossemecê manda os seus navios rumar para o sul, rente à costa africana. Espera que se descubra a foz do rio que leve os portugueses até ao Reino do Preste João... Esta ideia parece-nos hoje um absurdo mas, dado o desconhecimento geográfico da sua época, é esperança que Vossemecê acalenta... Essa ânsia de alcançar a Índia rumando para o interior da África, em 1445 levará João Fernandes, que fala perfeitamente o árabe, a percorrer o Sudão e a alcançar Timboctu, centro das caravanas que, no deserto, transportam as mercadorias preciosas do Oriente e da África. E a mesma ânsia, em 1446 levará Nuno Tristão a subir um rio da Guiné (talvez o Barbaci), sendo então atacado e morto pelos nativos.

Olhemos então os seus navios a singrar junto à costa africana. Só as tempestades é que os arrastam para o largo do Atlântico. Golpes de vento, golpes de azar... É assim que, por mero acaso, é descoberto o arquipélago dos Açores (1427). Só em 1439, doze anos depois, é que Vossemecê manda povoar as ilhas. Tardou, mas ainda vai a tempo de converter azar em sorte, pois o arquipélago começa logo produzir e a dar boas receitas.

Quanto ao arquipélago da Madeira, esse já era conhecido desde meados do sec. XIV. E em 1425, por ordem de D. JOÃO I, é iniciada a sua colonização. Em  1433, D. Duarte, seu irmão e novo rei por morte do vosso pai, doa-lhe o arquipélago, já que Vossemecê andava a cuidar dos negócios de Além-Mar. Portanto, felizmente para si, uma nova fonte de renda...  

As Canárias é que são conhecidas desde a Antiguidade com o nome de Afortunadas. Desde os finais do sec. XIV que o seu domínio é disputado por portugueses e castelhanos. Em 1436 o Papa Eugénio IV reconhece o direito de Castela à posse do arquipélago. Vossemecê não aceita a decisão papal e trata de acirrar a disputa entre portugueses e castelhanos. Mas se Eugénio IV contrariou os interesses dos portugueses, em contrapartida, em 1455, bula do Papa Nicolau V concederá aos reis de Portugal a propriedade exclusiva das terras e mares já conquistados ou por conquistar, possuídos ou a possuir.

Falemos agora da África. Em 1426 Gonçalo Velho, seu mareante, dobra o Cabo Não, mais ou menos a 26 graus Norte. Dali para a frente só rochedos, escarpas e dunas, ondas altíssimas a rugir contra os penhascos. Correm as lendas do Mar Tenebroso e ali parece, realmente, que se chegou ao fim do mundo. O mar ferve em cachão e ao longe o Cabo Bojador parece marcar a divisa entre a vida que é possível mais a norte e o fatal império da Morte mais a sul. Quem tem coragem de ir além? Oito anos depois, em 1434, Gil Eanes arrisca-se e dobra o Cabo Bojador depois de frustradas tentativas, muitas. Fundeia umas tantas milhas mais ao sul, desembarca e colhe um ramo de rosas silvestres que provam ser ali a vida também possível...

Dobrado o Bojador tudo é mais fácil. No ano seguinte, em 1435, o mesmo Gil Eanes e Afonso Baldaia passam o Trópico de Câncer (23,5 graus Norte) e alcançam o Rio do Ouro, assim chamado porque nas suas areias, para a sua felicidade, ó D. Infante, há realmente ouro. Em 1441 Nuno Tristão dobra o Cabo Branco, na hoje chamada Mauritânia. E em 1443 alcança a  ilha de Arguim, onde os árabes mantêm um mercado regular de escravos e produtos ricos. Porque Vossemecê está muito interessado em tal comércio, nessa ilha manda construir uma fortaleza-feitoria e doze anos depois (1455), em Lagos funda a feitoria de tratos de Arguim. Mas é preciso recordar que em 1443, o INFANTE D. PEDRO, regente por morte de D. Duarte, concedera-lhe o monopólio de navegação, guerra e comércio nas terras ao sul do Bojador.  É preciso ainda lembrar que em 1441 foram desembarcados no Reino (em Lagos) os primeiros cativos negros. Clérigos trataram de evangelizá-los. Em consequência, os cativos, depois de entregarem a força de seus corpos a seus brancos senhores, passaram a entregar as suas almas ao Criador... 

Alcançada a foz do rio Senegal em 1445, os navegantes informam que mais à frente a costa começa a embicar para leste. Vossemecê esfrega as mãos, afinal estaria errado o mapa de Ptolomeu. Parece que os mareantes acabam de chegar ao fim do continente africano e, finalmente, Vossemecê vai poder realizar o seu Plano das Índias, não atravessando mas contornando a África pelo sul. Engana-se, desta vez é Vossemecê quem se engana!  Os nautas estão apenas a chegar ao Golfo da Guiné, em breve alcançarão o arquipélago dos Bijagós e a África prolonga-se mais para o sul, muito e muito mais para o sul...

Vossemecê engana-se mas, em cerca de trinta anos, mandou descobrir e foram descobertos, descritos e cartografados 20 graus da Terra. É obra! Ao improviso, aos sacões, afinal Vossemecê acabou por aplanar o terreno sobre o qual D. JOÃO II, o seu sobrinho-neto, irá levantar o bem gizado edifício dos Descobrimentos.

 

TÂNGER E O INFANTE SANTO

 

 Tânger (Publicações Alfa)

 

A vida (a ganância?) acabou por empurrar Vossemecê para as navegações, mas a sua grande ambição foi sempre a conquista das cidades mouras. Em 1436, bula papal que autoriza a guerra contra os Infiéis em Marrocos, estimula o seu apetite de cruzado. Vossemecê lembra-se de Ceuta e propõe a conquista de Tânger. O INFANTE D. PEDRO é contra tal aventura. Argumenta: 

- O que interessa ao país são novas terras que possam ser arroteadas, colonizadas. Terras que hão-de ser as ilhas desertas, porém férteis, do Atlântico, pois o que interessa à grei é produzir! Andar em busca da pura glória militar é empenhar o futuro, é ónus sem proveito.

Mas o seu irmão mais novo, Infante D. Fernando, revela-se grande entusiasta da expedição que Vossemecê propõe. Os dois convencem o vosso irmão mais velho, el-Rei D. Duarte, a autorizar a campanha. E em 1437 ele autoriza e os dois, comandando tropa aguerrida, avançam sobre Tânger. Expedição mal amanhada, logo se converte em desastre militar: muitos mortos, feridos e prisioneiros portugueses. E uma calamidade suplementar: o Infante D. Fernando fica aprisionado em Marrocos, refém dos mouros até que a praça de Ceuta lhes seja devolvida pelo rei de Portugal.

Cabisbaixo, Vossemecê regressa ao Reino. Nas Cortes, o INFANTE D. PEDRO, o viajor das “sete partidas do mundo”, que muito viu e muito sabe, opina que a vida do mais novo dos irmãos exige a imediata devolução de Ceuta. Você opõe-se, nada se devolve aos Infiéis, nunca! Argumenta que as virtudes cristãs de D. Fernando irão suavizar o seu martírio e assim se vai forjando a lenda do Infante Santo.

E Ceuta não é devolvida aos Infiéis! Em 1443, ao fim de seis anos de cativeiro, morre em Fez o Infante D. Fernando.

“Generoso Henrique”, de ti dirá Camões. Generoso? Viu-se...

 

ALFARROBEIRA

Batalha de Alfarrobeira (Publicações Alfa)

 

O cronista régio Gomes Eanes de Zurara escreveu que em 1415, no leito de morte, D. Filipa de Lencastre, a Senhora tua mãe, chamou para junto de si os filhos Duarte, Pedro e Henrique e aos três pediu que jurassem votos de protecção. A D. Duarte, futuro rei, pediu que jurasse a protecção dos povos. A ti, D. Henrique, pediu que jurasses a protecção dos nobres. A D. Pedro pediu que jurasse a protecção de damas e donzelas; ou seja, a protecção dos fracos.

Não sei se D. Filipa realmente pediu esses juramentos a seus filhos, ou se o cronista pôs na boca da rainha o que ele realmente pensava de cada um dos três Infantes. Se assim aconteceu, até não estão mal caracterizados. Principalmente tu, ó D. Henrique, sempre a proteger e a defender os interesses da nobreza...

Em 1438 morre el-Rei D. Duarte. O sucessor, o futuro D. Afonso V, é menor de idade e o INFANTE D. PEDRO assume a regência. O príncipe herdeiro é uma cabecinha de alho chocho e rende-se às lisonjas da alta nobreza, liderada pelo conde de Barcelos e duque de Bragança. Este apregoa:

- Em cada região do Reino deve haver um senhor que tudo ponha e disponha a seu bel-prazer e os súbditos, sem tugir nem mugir, deverão limitar-se a obedecer!

Bem o percebo: defende o domínio absoluto da nobreza senhorial contra a centralização régia avançada pelo INFANTE D. PEDRO...

Lisonjas e intrigas que levam D. Afonso V, quando sobe ao trono, a hostilizar o tio e ex-regente. O teu irmão, ó D. Henrique, pede-te que intercedas para acabar com o mal-entendido entre tio e sobrinho. Dizes que sim mas que também e encolhes os ombros, omissão. Em 1449 a tropa de D. Afonso V, no recontro de Alfarrobeira, perto de Alverca, liquida  o INFANTE D. PEDRO.

“Generoso Henrique”, de ti dirá Camões. Generoso? Viu-se...

 

ALCACER-CEGUER
O Infante D. Henrique participa na conquista de Alcacer-Ceguer. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.  

Ó Infante, ó D. Henrique: D. Afonso V, o teu sobrinho, parece querer seguir as tuas pisadas, também ele ambiciona conquistar as praças marroquinas. Aponta para Tânger. Lembras-te do que se passou há pouco mais de vinte anos e tratas de dissuadi-lo, na carta pões mas é o indicador sobre Alcacer-Ceguer. El-Rei aceita a sugestão e em 1458 Alcacer-Ceguer é conquistada aos mouros. Apesar de velho e cansado participas na batalha. Mas a vitória compensa-te, ajuda a limpar as tuas frustrações, lava a tua alma. Provisoriamente, mas lava...

 

CASTIDADE

Infante D. Henrique - Iluminura da "Crónica dos Feitos da Guiné", pintada entre 1481 e 1521 (Biblioteca Nacional de Paris).

 

Clérigo tu não és, portanto castidade não juraste. Mas casar não casaste e amadas ou amásias não tiveste ou, pelo menos, delas não há notícia. Pergunto: ó Infante, ó D. Henrique, castidade, mas porquê? Obsessão avassaladora pelas tuas cruzadas e empresas? Ou incapacidade física de amar uma mulher, como reflexo da tua incapacidade afectiva de amar o próximo? Não sei, não sei... E muito gostaria de saber para melhor te conhecer...

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