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INFANTE D. HENRIQUE
Impulsionador dos
descobrimentos portugueses: 1394 - 1460
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1394: Quinto filho d’el-Rei D. João I e de D. Filipa de Lencastre, nasce a 4 de Março na cidade do Porto - 1408: O pai doa-lhe casa com rendas próprias e bons servidores. - 1415: Atingida pela peste, morre D. Filipa de Lencastre. O Infante D. Henrique distingue-se na batalha da conquista de Ceuta, no norte de África; nessa mesma praça é armado cavaleiro. - 1416: O Infante D. Henrique recebe o ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã. - 1418:. É descoberta a ilha de Porto Santo (Madeira). - 1419: O Infante D. Henrique chefia força portuguesa que obriga exército mouro a abandonar o cerco a Ceuta. - 1420: O Infante D. Henrique é nomeado regedor da Ordem de Cristo. Por sua indicação, Bartolomeu Perestrelo povoa a ilha de Porto Santo. O Infante D. Henrique congemina o “Plano das Índias”: localizar, alcançar e fazer aliança com o misterioso Preste João das Índias para se atacar a moirama pela retaguarda. Contrata Jaime de Maiorca, famoso cosmógrafo e cartógrafo catalão. - 1421: Criação da diocese de Ceuta. - 1424: D. Fernando de Castro comanda expedição às Canárias. - 1425(?): Início da colonização da Madeira. - 1426: Gonçalo Velho dobra o Cabo Não (África ocidental) - 1427: Descobrimento das ilhas do centro e leste do arquipélago dos Açores. - 1431: O Infante D. Henrique é nomeado protector da Universidade. - 1433: Morre D. João I e D. Duarte sobe ao trono. O novo monarca doa ao Infante D. Henrique o arquipélago da Madeira. - 1434: Gil Eanes dobra o Cabo Bojador (África ocidental), ao sul do qual, diziam as lendas do Mar Tenebroso, era impossível manter-se a vida. - 1436: A 50 léguas ao sul do Bojador, Afonso Gonçalves Baldaia descobre o Rio do Ouro. É promulgada a bula que autoriza a guerra contra os Infiéis, em Marrocos. O Papa reconhece o direito de Castela à posse das Canárias. - 1437: Contra o parecer do Infante D. Pedro, mas aprovada por el-Rei D. Duarte, os Infantes D. Henrique e D. Fernando chefiam expedição portuguesa para a conquista de Tânger; desastre militar e o Infante D. Fernando é aprisionado pelos mouros e levado para o cativeiro. - 1438: Morre D. Duarte, deixando herdeiro menor de idade, o futuro D. Afonso V; a viúva d’el-Rei, D. Leonor de Aragão, assume a regência; devido à contestação popular (mulher e estrangeira...), será depois substituída pelo Infante D. Pedro, irmão de D. Duarte. - 1439: Início do povoamento dos Açores. - 1440: Tristão Vaz Teixeira é nomeado primeiro capitão-donatário da Madeira (Machico). - 1441: Por esta data, é projectado e começa a ser construído no Algarve um novo tipo de navio, a caravela. É alcançado o Cabo Branco, ao sul do Sahara. São desembarcados no Reino os primeiros cativos negros caçados em África. - 1443: Em Fez, morre no cativeiro D. Fernando, o Infante Santo. O Infante D. Pedro concede ao seu irmão D. Henrique o monopólio de navegação, guerra e comércio nas terras ao sul do Bojador. Nuno Tristão alcança a ilha de Arguim, onde os árabes mantêm um mercador regular de escravos e produtos ricos; o Infante D. Henrique manda ali construir uma fortaleza-feitoria. - 1444: Álvaro Fernandes dobra o Cabo Verde (cabo na costa africana, não o arquipélago que virá a ter o mesmo nome). - 1445: Dinis Dias alcança a foz do rio Senegal. João Fernandes, falando perfeitamente o árabe, percorre o Sudão e alcança Timboctu, centro das caravanas do deserto portadoras das mercadorias preciosas do Oriente e da África. Descoberta do arquipélago dos Bijagós, na costa da Guiné. - 1446: O regente Infante D. Pedro promulga as Ordenações Afonsinas. Nuno Tristão sobe um rio da Guiné (talvez o Barbaci), sendo atacado e morto pelos indígenas. D. Afonso V alcança a maioridade. O Infante D. Henrique doa a capitania de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo. - 1448: Em litígio com o regente Infante D. Pedro, D. Afonso V assume o poder. - 1449: Na batalha de Alfarrobeira (perto de Alverca) o exército de D. Afonso V liquida o Infante D. Pedro e a maioria dos seus partidários. - 1450: Gomes Eanes de Zurara sucede a Fernão Lopes no cargo de cronista régio e escreve a Crónica da Tomada de Ceuta (data provável). - 1452: Diogo de Teive descobre as ilhas de Flores e Corvo (grupo ocidental dos Açores). - 1453: Os Turcos tomam Constantinopla, toda a Cristandade sente-se ameaçada com a expansão do Islamismo. Zurara escreve a Crónica da Conquista da Guiné (data provável). - 1455: Bula do Papa Nicolau V concedendo aos reis de Portugal a propriedade exclusiva das terras e mares já conquistados ou por conquistar, possuídos ou a possuir. Em Lagos o Infante D. Henrique funda a feitoria de tratos de Arguim. - 1456: Cadamosto descobre algumas das ilhas do arquipélago de Cabo Verde. - 1458: Com a participação do Infante D. Henrique, os portugueses conquistam Alcacer-Ceguer aos mouros. - 1459: O Infante D. Henrique entrega a capitania do Funchal a Gonçalves Zarco. - 1460: A 13 de Novembro, na sua vila de Sagres, morre o Infante D. Henrique. |
MITIFICAR, MISTIFICAR |
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- Ó D. Henrique! Ó Infante! Lá do
fundo do tempo por diversas vezes Vossa Mercê interferiu com a minha
vida. Não só com a minha mas, de geração em geração, com as vidas de
milhões e milhões de portugueses. Sou apenas um borra-botas, porém
atrevo-me a dar troco. Um século depois da vossa morte, de vós
e de vossos irmãos dirá Camões: Ínclita
geração, altos Infantes. Ínclita ou ilustre geração? Seja!
Nada a opor... Mas de Vossa Mercê, nomeadamente, dirá ainda Camões: Assim
fomos abrindo aqueles mares, Que
geração alguma não abriu, As
novas Ilhas vendo e os novos ares Que
o generoso Henrique descobriu; (...) Generoso? Será? Veremos... Cerca de 1906 José Malhoa, em pintura
no teto do Museu Militar de Lisboa, colocará Vossa Mercê nos rochedos de
Sagres a contemplar as ondas, a mirar o longe, a meditar. Chamará à obra
“O Sonho do Infante”. Vossa Mercê pode ser isto ou aquilo mas, se bem
vos conheço, lá contemplativo é que não sois. Romantismos... Pouco mais de quatro séculos depois da
vossa morte, de vós dirá também Fernando Pessoa: Deus
quer, o homem sonha, a obra nasce. E
a orla branca foi de ilha em continente, Quem te sagrou criou-te português. Falta cumprir-se
Portugal? Achais que sim, essa também é a vossa opinião? Na segunda
metade do sec. XV Nuno Gonçalves pintou os chamados painéis de S.
Vicente e neles colocou Vossa Mercê em primeiro plano. Em mil novecentos
e trinta e tal o António Ferro, um sempre-em-pé metido a Ministro da
Propaganda do fascismo português, entre os muitos figurantes desse antigo
políptico descobriu um gajo com a tromba exacta do SALAZAR.
Estou a ver o ditador a esfregar as mãos de contente: os painéis de S.
Vicente afinal são como a Vida, como a História, ontem como hoje. Ontem,
em gabinete, o Infante a mandar as caravelas à descoberta do mundo. Hoje,
em gabinete, SALAZAR
a mandar Portugal cumprir o seu destino glorioso. Não foi por acaso,
antes para cimentar identificações, que o ditador acabou por atribuir à
Mocidade Portuguesa (organização para-militar fascista) a mesma bandeira
que foi desfraldada nas caravelas de Vossa Mercê...
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| CEUTA | |
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El-Rei D. JOÃO
I, o Senhor vosso pai, quer armar cavaleiros os filhos
maiores, o Infante D. Duarte, o INFANTE
D. PEDRO e o Infante D. Henrique. Vossa Mercê opina
que, para a cerimónia, antes prefere uma batalha a sério do que um
torneio, o qual é batalha apenas a fingir, a brincar. Os vossos irmãos
concordam, o Senhor vosso pai também, e assim se decide a conquista de
Ceuta à moirama do norte de África. Por um lado, a luta contra os Infiéis
vai ao encontro da vossa apetência de cruzado; por outro, é a forma de
travar a acção dos piratas marroquinos que atacam a navegação
comercial portuguesa, também a forma de suprir a escassez de trigo que há
no Reino pois em Marrocos trigo é o que não falta, nunca! Cedo começa a
revelar-se um dos principais traços daquela que virá a ser a vossa
personalidade: homem de acção, estimulado pelo interesse imediato... Ou
seja: exactamente o oposto de um contemplativo...
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O PLANO DAS ÍNDIAS |
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| O
Infante D. Henrique congemina o Plano das Índias. Entretanto, o que está
a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua
Cronológica. |
Os mouros é que
trazem para Ocidente as preciosas mercadorias do Oriente. E se Vossa Mercê
conquistasse aos mouros as praças fortes que eles detêm em Marrocos...?
E se os vossos navios descobrissem na costa africana um rio que nascesse lá
no Oriente...? E se os portugueses, de jusante para montante, fossem por
aquele rio acima até ao reino do Preste João, o poderoso e lendário rei
cristão das Índias...? E se
Vossa Mercê fizesse uma aliança com o Preste João para, em conjunto,
atacarem os mouros pela retaguarda...? Esse é o vosso Plano das Índias:
se, se, se... Conseguindo tudo isso, seria não só a grande vitória da
Cristandade sobre os Infiéis, mas também o ensejo de desviar de Veneza
para Lisboa o grosso do comércio europeu com o Oriente.
Ou seja: Vossemecê a enriquecer e os venezianos a chuchar no
dedo... É isso, não é? Diga lá se acertei ou não... Em 1420 o seu pai
nomeia-o regedor da Ordem de Cristo. Monges guerreiros, uma força militar
que vem mesmo a calhar para o seu Plano das Índias, além de lhe garantir
grandes benefícios em moeda e géneros... Contudo, para viabilizar esse
seu Plano, Vossemecê não devia acreditar na infalibilidade dos Antigos.
Por exemplo: Ptolomeu, o cosmógrafo, prolongou a África e a Ásia até
à Terra Austral, reduzindo o Oceano Índico a mar interior. E Vossemecê
acredita piamente nessa carta... Não que seja ignorante, Vossemecê de
tudo sabe um pouco pois D. Filipa, a Senhora sua mãe, converteu a Corte
em real Academia para os seus infantes. Ignorância não será, mas
credulidade, crença. A Vossemecê o que falta é rebeldia para desconfiar
das lições dos Antigos antes de verificar se a prática de hoje confirma
a teoria que eles ditaram há 13 ou 14 séculos...
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NAVEGAÇÕES |
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Chamam-lhe Henrique,
o Navegador, e dá-me vontade de rir pois navegar, Vossemecê só navegou
até Marrocos, em cima de um convés mais longe não foi... Pôs foi
criados e escudeiros seus a navegar por si. E chegou mesmo a contratar, a
peso de ouro, estrangeiros que pudessem fazer progredir a sua empresa,
tais como Jaime de Maiorca, o cosmógrafo e cartógrafo catalão; e
Bartolomeu Perestrelo, Cadamosto, Uso di Mare e António da Noli,
navegadores e peritos comerciais italianos; também físicos hebraicos e
aventureiros vários. Não, não estou a falar da fantasiosa Escola de
Sagres. Essa nunca existiu, foi inventada por patrioteiros que mais tarde
endeusaram Vossemecê para arrebicar o conceito de Nação. Não estou
portanto a falar de uma escola náutica. Falo apenas (e já é muito) de
um agrupamento de homens dispostos a fazerem-se ao mar, a observar astros,
ventos, marés e a desenhar costas. A todos eles, portugueses e
estrangeiros, Vossemecê paga regiamente. Generosidade? Não me parece. Eu
diria perspicácia porque, ao pagar bem, o seu interesse é manter coesa a
sua empresa. E onde há interesse, generosidade omite-se. O avesso amargo
da sua perspicácia e da exorbitância dos seus gastos pessoais, é
Vossemecê andar sempre à rasca de finanças. Mas logo trata de inventar
soluções, uma atrás da outra: ou a pirataria contra os navios mouros no
Mediterrâneo, ou o monopólio da pesca do atum, ou a dízima sobre todo o
peixe apanhado em Monte Gordo, ou o monopólio do abastecimento de peixe a
Ceuta, ou o controlo da moagem de cereais e da produção de tintas e sabões
no Algarve. Apesar de homem soturno, de poucas palavras, Vossemecê começa
a revelar um dos principais traços do homem português: a improvisação,
o desenrascanço... Mas falemos agora das
navegações. Vossemecê manda os seus navios rumar para o sul, rente à
costa africana. Espera que se descubra a foz do rio que leve os
portugueses até ao Reino do Preste João... Esta ideia parece-nos hoje um
absurdo mas, dado o desconhecimento geográfico da sua época, é esperança
que Vossemecê acalenta... Essa ânsia de alcançar a Índia rumando para
o interior da África, em 1445 levará João Fernandes, que fala
perfeitamente o árabe, a percorrer o Sudão e a alcançar Timboctu,
centro das caravanas que, no deserto, transportam as mercadorias preciosas
do Oriente e da África. E a mesma ânsia, em 1446 levará Nuno Tristão a
subir um rio da Guiné (talvez o Barbaci), sendo então atacado e morto
pelos nativos. Olhemos então os
seus navios a singrar junto à costa africana. Só as tempestades é que
os arrastam para o largo do Atlântico. Golpes de vento, golpes de azar...
É assim que, por mero acaso, é descoberto o arquipélago dos Açores
(1427). Só em 1439, doze anos depois, é que Vossemecê manda povoar as
ilhas. Tardou, mas ainda vai a tempo de converter azar em sorte, pois o
arquipélago começa logo produzir e a dar boas receitas. Quanto ao arquipélago
da Madeira, esse já era conhecido desde meados do sec. XIV. E em 1425,
por ordem de D. JOÃO
I, é iniciada a sua colonização. Em
1433, D. Duarte, seu irmão e novo rei por morte do vosso pai,
doa-lhe o arquipélago, já que Vossemecê andava a cuidar dos negócios
de Além-Mar. Portanto, felizmente para si, uma nova fonte de renda...
As Canárias é que são
conhecidas desde a Antiguidade com o nome de Afortunadas. Desde os finais
do sec. XIV que o seu domínio é disputado por portugueses e castelhanos.
Em 1436 o Papa Eugénio IV reconhece o direito de Castela à posse do
arquipélago. Vossemecê não aceita a decisão papal e trata de acirrar a
disputa entre portugueses e castelhanos. Mas se Eugénio IV contrariou os
interesses dos portugueses, em contrapartida, em 1455, bula do Papa
Nicolau V concederá aos reis de Portugal a propriedade exclusiva das
terras e mares já conquistados ou por conquistar, possuídos ou a
possuir. Falemos agora da África.
Em 1426 Gonçalo Velho, seu mareante, dobra o Cabo Não, mais ou menos a
26 graus Norte. Dali para a frente só rochedos, escarpas e dunas, ondas
altíssimas a rugir contra os penhascos. Correm as lendas do Mar Tenebroso
e ali parece, realmente, que se chegou ao fim do mundo. O mar ferve em
cachão e ao longe o Cabo Bojador parece marcar a divisa entre a vida que
é possível mais a norte e o fatal império da Morte mais a sul. Quem tem
coragem de ir além? Oito anos depois, em 1434, Gil Eanes arrisca-se e
dobra o Cabo Bojador depois de frustradas tentativas, muitas. Fundeia umas
tantas milhas mais ao sul, desembarca e colhe um ramo de rosas silvestres
que provam ser ali a vida também possível... Dobrado o Bojador
tudo é mais fácil. No ano seguinte, em 1435, o mesmo Gil Eanes e Afonso
Baldaia passam o Trópico de Câncer (23,5 graus Norte) e alcançam o Rio
do Ouro, assim chamado porque nas suas areias, para a sua felicidade, ó
D. Infante, há realmente ouro. Em 1441 Nuno Tristão dobra o Cabo Branco,
na hoje chamada Mauritânia. E em 1443 alcança a
ilha de Arguim, onde os árabes mantêm um mercado regular de
escravos e produtos ricos. Porque Vossemecê está muito interessado em
tal comércio, nessa ilha manda construir uma fortaleza-feitoria e doze
anos depois (1455), em Lagos funda a feitoria de tratos de Arguim. Mas é
preciso recordar que em 1443, o INFANTE
D. PEDRO, regente por morte de D. Duarte, concedera-lhe
o monopólio de navegação, guerra e comércio nas terras ao sul do
Bojador. É preciso ainda
lembrar que em 1441 foram desembarcados no Reino (em Lagos) os primeiros
cativos negros. Clérigos trataram de evangelizá-los. Em consequência,
os cativos, depois de entregarem a força de seus corpos a seus brancos
senhores, passaram a entregar as suas almas ao Criador... Alcançada a foz do
rio Senegal em 1445, os navegantes informam que mais à frente a costa
começa a embicar para leste. Vossemecê esfrega as mãos, afinal estaria
errado o mapa de Ptolomeu. Parece que os mareantes acabam de chegar ao fim
do continente africano e, finalmente, Vossemecê vai poder realizar o seu
Plano das Índias, não atravessando mas contornando a África pelo sul.
Engana-se, desta vez é Vossemecê quem se engana!
Os nautas estão apenas a chegar ao Golfo da Guiné, em breve alcançarão
o arquipélago dos Bijagós e a África prolonga-se mais para o sul, muito
e muito mais para o sul...
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TÂNGER E O INFANTE SANTO |
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A vida (a ganância?) acabou por
empurrar Vossemecê para as navegações, mas a sua grande ambição foi
sempre a conquista das cidades mouras. Em 1436, bula papal que autoriza a
guerra contra os Infiéis em Marrocos, estimula o seu apetite de cruzado.
Vossemecê lembra-se de Ceuta e propõe a conquista de Tânger. O INFANTE
D. PEDRO é contra tal aventura. Argumenta:
- O que interessa ao país são
novas terras que possam ser arroteadas, colonizadas. Terras que hão-de
ser as ilhas desertas, porém férteis, do Atlântico, pois o que
interessa à grei é produzir! Andar em busca da pura glória militar é
empenhar o futuro, é ónus sem proveito. Mas o seu irmão mais
novo, Infante D. Fernando, revela-se grande entusiasta da expedição que
Vossemecê propõe. Os dois convencem o vosso irmão mais velho, el-Rei D.
Duarte, a autorizar a campanha. E em 1437 ele autoriza e os dois,
comandando tropa aguerrida, avançam sobre Tânger. Expedição mal
amanhada, logo se converte em desastre militar: muitos mortos, feridos e
prisioneiros portugueses. E uma calamidade suplementar: o Infante D.
Fernando fica aprisionado em Marrocos, refém dos mouros até que a praça
de Ceuta lhes seja devolvida pelo rei de Portugal. Cabisbaixo, Vossemecê
regressa ao Reino. Nas Cortes, o INFANTE
D. PEDRO, o viajor das
“sete partidas do mundo”, que muito viu e muito sabe, opina que
a vida do mais novo dos irmãos exige a imediata devolução de Ceuta. Você
opõe-se, nada se devolve aos Infiéis, nunca! Argumenta
que as virtudes cristãs de D. Fernando irão suavizar o seu martírio e
assim se vai forjando a lenda do Infante Santo. E
Ceuta não é devolvida aos Infiéis! Em 1443, ao fim de seis anos de
cativeiro, morre em Fez o Infante D. Fernando.
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| ALFARROBEIRA | |
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O
cronista régio Gomes Eanes de Zurara escreveu que em 1415, no leito de
morte, D. Filipa de Lencastre, a Senhora tua mãe, chamou para junto de si
os filhos Duarte, Pedro e Henrique e aos três pediu que jurassem votos de
protecção. A D. Duarte, futuro rei, pediu que jurasse a protecção dos
povos. A ti, D. Henrique,
pediu que jurasses a protecção dos nobres. A D. Pedro pediu que jurasse
a protecção de damas e donzelas; ou seja, a protecção dos fracos. Não
sei se D. Filipa realmente pediu esses juramentos a seus filhos, ou se o
cronista pôs na boca da rainha o que ele realmente pensava de cada um dos
três Infantes. Se assim aconteceu, até não estão mal caracterizados.
Principalmente tu, ó D. Henrique,
sempre a proteger e a defender os interesses da nobreza... Em
1438 morre el-Rei D. Duarte. O sucessor, o futuro D. Afonso V, é menor de
idade e o INFANTE
D. PEDRO
assume a regência. O príncipe herdeiro é uma cabecinha de alho chocho e
rende-se às lisonjas da alta nobreza, liderada pelo conde de Barcelos e
duque de Bragança. Este apregoa: -
Em cada região do Reino deve haver um senhor que tudo ponha e disponha a
seu bel-prazer e os súbditos, sem tugir nem mugir, deverão limitar-se a
obedecer! Bem
o percebo: defende o domínio absoluto da nobreza senhorial contra a
centralização régia avançada pelo INFANTE
D. PEDRO... Lisonjas
e intrigas que levam D. Afonso V, quando sobe ao trono, a hostilizar o tio
e ex-regente. O teu irmão, ó D. Henrique, pede-te que intercedas para
acabar com o mal-entendido entre tio e sobrinho. Dizes que sim mas que
também e encolhes os ombros, omissão. Em 1449 a tropa de D. Afonso V, no
recontro de Alfarrobeira, perto de Alverca, liquida
o INFANTE
D. PEDRO.
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| ALCACER-CEGUER | |
| O Infante D. Henrique participa na conquista de Alcacer-Ceguer. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Ó
Infante, ó D. Henrique: D. Afonso V, o teu sobrinho, parece querer seguir
as tuas pisadas, também ele ambiciona conquistar as praças marroquinas.
Aponta para Tânger. Lembras-te do que se passou há pouco mais de vinte
anos e tratas de dissuadi-lo, na carta pões mas é o indicador sobre
Alcacer-Ceguer. El-Rei aceita a sugestão e em 1458 Alcacer-Ceguer é
conquistada aos mouros. Apesar de velho e cansado participas na batalha.
Mas a vitória compensa-te, ajuda a limpar as tuas frustrações, lava a
tua alma. Provisoriamente, mas lava... |
| CASTIDADE | |
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Clérigo tu não és, portanto castidade não juraste. Mas casar não casaste e amadas ou amásias não tiveste ou, pelo menos, delas não há notícia. Pergunto: ó Infante, ó D. Henrique, castidade, mas porquê? Obsessão avassaladora pelas tuas cruzadas e empresas? Ou incapacidade física de amar uma mulher, como reflexo da tua incapacidade afectiva de amar o próximo? Não sei, não sei... E muito gostaria de saber para melhor te conhecer... |