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HELENA MARQUES
Romancista: Nascida em 1935
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1935: A 17 de Maio nasce Helena Marques em Carcavelos, Portugal. Aos três meses é levada pelos pais para Funchal, onde cresce e completa seus estudos. - 1957: Ingressa no jornal Diário de Notícias em Funchal. - 1958: Casa-se com Rui Camacho. - 1971: Muda-se para Lisboa. - 1978: Começa a trabalhar no Diário de Notícias de Lisboa. - 1986: Recebe o prêmio de Jornalista do Ano. - 1992: Aposenta-se do Diário de Notícias. - 1992: Publica o romance O último cais. -1992: Ganha os seguintes prêmios: Prêmio Revista Ler/Círculo dos Leitores; Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; Prêmio Máxima-Revelação, Prêmio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, e Prêmio Procópio de Literatura. - 1994: Publica A deusa sentada. - 1998: Publica Terceiras pessoas. - 2002: Publica Os íbis vermelhos de Guiana.
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JORNALISTA |
Em 1986 Helena Marques recebe o prêmio Jornalista do Ano. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Helena Marques nasce em Carcavelos, Portugal, no dia 17 de maio de 1935. Aos três meses é levada para Funchal, na Ilha da Madeira, onde faz seus estudos primários e secundários. Não fez curso universitário, pois a cidade não tinha universidade.
Cresce à beira do porto. O constante vai-vem dos navios vão influenciar a sua obra.
Em 1958, casa-se com Rui Camacho e têm quatro filhos. Três deles tornam-se jornalistas.
Dedica a primeira parte de sua vida profissional ao jornalismo. Ingressa no Diário de Notícias de Funchal, em março de 1957 e lá permanece até 1971. Muda-se para Lisboa. Trabalha sucessivamente em vários jornais: A Capital, Jornal do Comércio, República, Luta. Ingressa no Diário de Notícias de Lisboa, onde trabalha de 1978 a 1992. Torna-se diretora adjunta nos últimos seis anos. Em 1986, recebe o prêmio de Jornalista do Ano, oferecido pela revista Mulher. Em 1992, aposenta-se do Diário de Notícias.
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| ROMANCISTA | |
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Ao terminar sua carreira de jornalista, inicia a de romancista. Escreve quarto romances, tendo como temas principais: a mulher, o amor, e o ciclo de vida e morte.
“O mal, até agora, é que as mulheres, quando exercem o poder, exercem-no como os homens. Nada muda, portanto... que deixem de copiar os padrões masculinos de liderança. As sociedades só evoluirão no sentido da paz, da solidariedade e do desenvolvimento integrado quando homens e mulheres assumirem juntos o poder, no mútuo respeito pelos indispensáveis contributos das suas diferentes capacidades, perspectivas e sensibilidades”.
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MULHER |
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Marques mostra em sua obra a transformação da mulher do século XIX ao presente momento, no século XXI. Com o passar do tempo, a mulher portuguesa ganha direitos e responsabilidades maiores. Mostra as dificuldades em vencer na vida, numa sociedade patriarcal. Os obstáculos são transponíveis quando há coragem, força de vontade e empenho.
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AMOR |
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O amor é o sentimento mais importante nas obras. Marques mostra que o amor tem diversas facetas e que é uma opção. Quando a mulher opta pelo amor é feliz e o mesmo acontece com o homem. Marques é a primeira escritora portuguesa que mostra amores positivos.
O amor sempre se renova quando há lugar para ele. Amor não só entre duas pessoas, mas entre os seres humanos em geral. Também há o amor pela terra. Portugal não se ama apenas no continente, mas além-mar, em recantos menores como as ilhas que, de tão diminutas, não costumam ter lugar na literatura.
A situação da mulher amada e da que ama pode ser sintetizada no seguinte:
a mulher amada “gosta sempre de si própria”, “não se deseja diferente, nem sequer melhor, respeita-se e aceita-se e estima-se tal como é”; a mulher madura tem o direito de amar. O amor não está ligado à juventude; a mulher amada não vê a menopausa como empecilho para o exercício de sua sexualidade; ao contrário, está liberta dos “cuidados da procriação” a mulher tem o direito de cometer loucuras, sem sentimento de culpa, porque só deve satisfação a si mesma; a mulher que ama deve deixar-se amar, impondo-se e não se submetendo: “ela levantou o rosto para ser beijada, não para beijá-lo mas para ser beijada”. O amor está sempre presente, de forma suave ou dolorosa, mas é o grande propulsor dos acontecimentos e da continuidade da vida. Os amores nas obras de Marques são amores fortes, indissolúveis, resistentes, e bem-realizados. A mulher é feliz no amor e no casamento, ocupa seu lugar ativo e não submisso, e reina no lar pelo seu próprio desejo e escolha.
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| TEMPO E ESPAÇO | |
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O último cais tem lugar no século XIX, em Funchal, na Ilha da Madeira; A deusa sentada tem lugar no século XX, em Malta; Terceira pessoas se desenvolve na virada do milênio em Portugal continental e em viagens internacionais, entre a Europa e a América, e Os ibis vermelhos da Guiana faz um percurso dos últimos 150 anos no novo mundo, a Guiana Britânica. No percurso das três obras, desde as ilhas da Madeira, da natureza agreste de Funchal, passando pelas ilhas maltenses, o espaço geográfico foi explorado como sentido significativo para a trajetória da mulher. O espaço periférico, as ilhas, sempre foram secundárias. Marques as torna centrais. A mulher sempre foi periférica, um acessório do homem, agora ela é dona e senhora do seu nariz.
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| O ÚLTIMO CAIS | |
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Em 1992, Marques publica seu primeiro romance: O último cais. Ganha os prêmios: Prêmio Revista Ler/ Círculo dos Leitores; Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1992); Prêmio Máxima-Revelação, Prêmio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, e Prêmio Procópio de Literatura (1992).
Este romance relata a saga do família Vella ou Villa, em Funchal, no século XIX. Mostra o isolamento e confinamento dos habitantes de uma ilha. A notícia só chega com o próximo navio para aqueles que não podem deixar a ilha. As mulheres são as personagens centrais. Raquel é a protagonista. É feliz no casamento e tem uma perspectiva positiva da vida. As outras mulheres são personagens que interagem com Raquel e sua família:
Constança, a tia de Raquel, é infeliz e solitária; Catarina Isabel é a mulher profissional daquela época; Violante é a boa esposa, que perdeu o interesse pelo sexo ao não ter filhos; Benedita é a filha conservadora de Raquel;
Charlotte é a estrangeira, que
tenta convencer as mulheres a votar;
Cada mulher representa um tipo de mulher portuguesa daquela época. O último cais começa com o diário de bordo, de 4 de setembro de 1879. O enredo trata do casamento feliz de Marcos Vaz de Lacerda, comandante de navio, e de Raquel. O principal em sua vida é o amor por Raquel. Não tem medo de mostrar seus sentimentos. “Raquel e eu temos a felicidade escrita em cada milímetro de pele, em cada fibra de voz, e ninguém se apercebe, ninguém vê.” O amor é correspondido por Raquel. Mas ela quer saber quem são seus antepassados. “Quem eram os Villas, como viviam, como eram essas mulheres de que ela teria herdado, ao que se conjecturava, o cabelo cor de vinho velho, as pernas altas e a rebeldia?” Sabe que seu avô André Vella veio de Malta para o Funchal. O sobrenome Vella mudou para Villa em terras portuguesas. É feliz na ilha, apesar do isolamento. A única vez que viaja vai para a Guiana Britânica, a bordo do navio de seu marido. Engravida, dá luz à Clara e morre. Marcos casa-se novamente após algum tempo. Casa-se com Luciana, com quem também é feliz. Marcos mostra que se pode ser feliz com mais de uma mulher. Cada amor é diferente. “Marcos amou-a mas dentro das limitações estritas que lhe consentia a fidelidade a Raquel.”
O romance termina em 1904.
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| A DEUSA SENTADA | |
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Em 1994, Marques publica A deusa sentada. Esta obra é a continuação da anterior. Em O último cais, Raquel morre ao dar à luz a Clara. Em A deusa sentada, Clara é a avó de Laura A autora continua o tema da busca da identidade da feminina e do retorno às raízes. Como é esta mulher do século XX?
As personagens principais são Laura e Matilde, duas mulheres independentes e profissionais. Laura e Matilde estão unidas por um profundo elo afetivo Ambas são mulheres maduras, que revêem a condição feminina na meia-idade. Pode-se amar ansiar pelo amor mesmo com mais idade.
Laura é casada com Lourenço, que não aparece na obra. Ela é dona de uma livraria. Matilde é descasada. Matilde fora casada com Artur, vítima da guerra e um desadaptado social É tradutora de livros e faz traduções simultâneas. Encontra, Ian e “reaprende a viver”: “Reaprendi a paixão e a ternura, a confiança e a fé, a dádiva e a procura.”
Trata-se de um romance “detetivesco”: achar o paradeiro de André Villa (ou Vella), em Malta. “Detetive de factos contemporâneos, investigador de papéis antigos, qual é a diferença? Apenas uma questão de presente e passado - ou não será?”
Por que Malta? “Porque Malta fôra terra de incessante migração, em que poderia servi-las?” Porque Malta tem a pequenez e a fragilidade aparente das mulheres. A capital de Malta, onde se desenrola o romance, é La Valletta, nome de um dos grão-mestres; capital com uma história antiga. De lá, muitos emigraram para o Funchal. Marques faz uma revisão histórica, sobretudo porque a de Malta costuma passar despercebida.
A História, ou melhor, o passado é fundamental para Laura: “Pessoalmente, tenho de confessar-me muito mais seduzida pelo passado, afinal é ele que me justifica, é nele que me reencontro e entendo, é apoiada nele que me projecto no futuro”. Na História estão as raízes. Laura e Matilde encontram suas raízes nesta viagem a Malta, numa figura simbólica feminina:
no templo de Hagar Qim, [que] é a de uma mulher sentada, pés e mãos minúsculos, reduzidos a uma mera sugestão, toda a força emana dos poderosos troncos e coxas, os joelhos estão dobrados lateralmente e repousam no chão afastados um do outro, o pé esquerdo aflorando a perna direita, numa posição cheia de placidez a que só a linha dos ombros bem erguidos imprime altivez e dignidade.
“Malta é como a pequena Deusa Sentada, Malta é a própria Deusa Sentada”. A mulher portuguesa é esta deusa sentada, “ensinando o seu povo a resistir e a preservar os valores tradicionais e também lucidamente, a distinguir e a assimilar os valores que os outros iam deixando”.
Esta Deusa Sentada é a Mulher, mulher universal. É uma mulher-deusa: “ilha-mãe acolhedora, sedutora, misteriosa, terna e eterna.”
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| TERCEIRAS PESSOAS | |
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Em 1998, Marques publica Terceiras pessoas. A obra tem lugar na virada do milênio, no século XXI, e descreve o percurso da mulher segundo a sociedade de sua época. Tempo e espaço se entrelaçam. Se as duas primeiras obras são uma busca da identidade, na terceira ela é encontrada.
Terceiras pessoas tem lugar em Porto dos Frades, um lugar fictício, na região do Ribatejo. Este local, em Portugal continental, é a recriação entre o real e a realidade. A natureza é o lugar de chegada, é a “geografia do coração”. Os caminhos indicam a “paixão da terra”, “o sentido de pertença”. São o lugar da memória, das marcas deixadas pelo tempo.
Erguer uma casa, criar o vinho, plantar a coroa de faias, semear uma família, são os desejos de João Bernardo. Vinhais é o lugar da memória da infância, das férias, do estar-se em agradável harmonia.
Além de Vinhais, há Rosal, uma quinta familiar, e a Casa de Azenha, outra paragem também familiar, onde a memória e o tempo se sedimentaram. É uma paisagem tipicamente portuguesa com olaias, faias, vergônteas, figueiras, e alfarrobeiras.
Neste lugar se relacionam três gerações em torno da personagem central, Natália, casada com João Bernardo. O casal, amantes e esposos, com o decorrer do tempo invertem seus movimentos. Ele segue o movimento centrípeto, contínuo e coerente. Ela perfaz o movimento centrífugo, numa busca constante de mudança. Nesta obra, Natália, símbolo da mulher portuguesa, encontra sua identidade. Ela não mais depende do homem, e se realiza por si só. Natália, executiva eficiente e independente voa em sua profissão entre a Europa e a América. Com este tipo de vida, as terceiras pessoas desempenham um papel fundamental. São os heróis anônimos do cotidiano:
…o mundo não é constituído só por nós, os que nos conhecemos desde sempre, os que nos encontramos todos os dias. O mundo é sobretudo constituído por elas, pelas terceiras pessoas, aquelas de quem nada sabemos ou de quem pouco sabemos e que, um dia, inesperadamente, saem do desconhecimento ou das sombras e vêm ao nosso encontro, subvertem os nossos conceitos e influenciam as nossas vidas ou são por elas influenciados.
Natália não poderia ter a vida de executiva sem as terceiras pessoas. Foi com elas que teceu a “teia familiar”. Mas as terceiras pessoas são, em verdade, primeiras. Elas dão “a certeza de continuidade da casa, das terras e da memória”. Para Natália, foi-lhe oferecida a Holanda como morada final de sua carreira – presidente da Companhia.. Aceitar o cargo mais elevado de sua carreira, implica em deixar as pessoas amadas para trás, como o fizera antes. Ir ou ficar, optar entre a vida profissional ou a pessoal é o dilema. Ambas são inconciliáveis no tempo e no espaço. Sempre há um preço a pagar.
Natália reflete: “…mas onde está a vitória? Que faço dela?, ou que fez ela de mim?”. Neste ponto se encontra a mulher na virada do milênio, entre duas opções, a casa ou a profissão. A mulher chegou onde queria. O caminho de sua plenitude é agora uma escolha individual.
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| OS ÍBIS VERMELHOS DA GUIANA | |
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Em 2002, Marques publica Os íbis vermelhos da Guiana. A obra percorre três ilhas, a da Madeira, da Grã-Bretanha, e dos Açores, de 1821 a 2001, num espaço aproximado de cento e cinquenta anos antes de chegar à Guiana Britânica. Este é o mundo novo, aberto à exploração e à criação. Simon, o patriarca, Anne, a neta, e Camila, a bisneta, filha de Anne reproduzem a saga da família, que se carateriza pelo poder de sobrevivência pela resistência. “Somos iguais, avô Simon, e Camila será uma resistente como nós”.
Os íbis vermelhos da Guiana conta as vidas de duas personagens da mesma família, separadas pela geografia e pelo tempo. A história começa na primeira metade do século XIX, na antiga colônia britânica da Guiana, durante a aventura migratória de jovens burgueses de Funchal à procura de fortuna, e estende-se à Inglaterra e à Portugal, até no início do século XXI, quando o passado e o presente por fim se encontram.
Existe uma ligação desta obra com O último cais, no qual Raquel fora à Guiana com seu marido, mas ao dar a luz perde a vida. Simão ou Simon em Os íbis vermelhos da Guiana abandona Portugal em busca de uma nova vida na Guiana. Este renascimento e seu estabelecimento em novas terras, une o velho e o novo continente.
A Guiana é um símbolo de novas possibilidades, ao qual se alia outro que lhe é intrínseco, os íbis vermelhos. Íbis é o pássaro sagrado dos egípcios. Seu bico arqueado assemelha-se à lua crescente e seu bico longo e pontiagudo é associado à atividade intelectual. No Brasil, o pássaro tem o nome de Guará. É um pássaro vermelho escarlate de uns 50 cm. de comprimento com o bico curvo. Devido à sua cor, é chamado por muitos de flamingo. Os íbis que prestam seu nome à obra, “são filhos dos céus e os céus lhe pertencem”. Estes íbis rubros são o símbolo da liberdade conquistada e perpetuada de geração em geração.
O ciclo de vida e morte se repete continuamente, de século em século, de geração em geração. Mudam os nomes e os lugares, mas a energia da resistência e o instinto de sobrevivência, impulsionado pelo amor é eterno.
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