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FERNÃO DE MAGALHÃES

descobridor, guerreiro (1480? - 1521)

Fernando Correia da Silva

 

Fernão de Magalhães, retrato de autor desconhecido do séc. XVI conservado na Academia de São Fernando, Madrid.

Alcançar o Oriente, por ocidente.

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1480: Data provável do nascimento de Fernão de Magalhães, talvez em Trás-os-Montes. - 1505: Parte para a Índia na armada de D. Francisco de Almeida. - 1509: Sob o comando de Lopes Sequeira participa na desastrada expedição a Malaca; faz grande amizade com Francisco Serrão. - 1511: Participa, sob o comando de Afonso de Albuquerque, na conquista de Malaca. - 1513: Regressa a Lisboa. - 1514: É ferido em combate, em Azamor (Marrocos); novamente em Lisboa, D. Manuel recusa-lhe aumento de tença. - 1517: Dirige-se a Sevilha para apresentar a Carlos V o seu plano de alcançar as Ilhas das Especiarias por ocidente . - 1519: Inicia a que será a primeira viagem de circum-navegação; alcança a baía da Guanabara. - 1520: Alcança a foz do Rio da Prata; faz invernada na baía de S. Julião; domina motim; atravessa o Estreito e desemboca no Pacífico. - 1521: Descobre a Ilha dos Ladrões; descobre o arquipélago das Filipinas e aí é morto em combate. - 1522: Sebastian d'Elcano conclui a primeira viagem de circum-navegação.

 

  DE MALACA ÀS MALUCAS
 

 

Nas Molucas, Francisco Serrão recebe uma carta de Fernão de Magalhães. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Manhã de 1515, Mar de Sonda. Vindo de Malaca, um junco lança ferro no porto de Ternate, uma das ilhas das especiarias. Também chamadas de Malucas (Molucas), pois incertas são ainda as suas coordenadas. O comandante árabe pede audiência ao soberano Quechil Boleif. É portador de uma carta para Serrão, o Vizir. O da pele clara, o cristão, o português...

Há 3 anos Francisco Serrão partira de Malaca em busca das Malucas. Naufragara nas costas de Ternate. Aspirando regressar, com os seus homens pensara construir ou conquistar um barco. Mas abrandado pelos trópicos acabou por desistir da empreitada. Quechil Boleif nomeou-o Vizir e deu-lhe uma princesa como esposa. E a princesa deu-lhe três filhos, um por ano. Serrão escreveu carta ao seu amigo Magalhães, assentado em Malaca: Vinde ter comigo, Fernão. Encontrei aqui um novo mundo, mais rico e maior do que o de Vasco da Gama...

Em 1509 Magalhães e Serrão haviam feito amizade a bordo de um dos quatro navios da frota comandada por Lopes Sequeira, o qual tinha por missão abrir negociações com o rei de Malaca, praça que dominava todo o comércio do Oriente. O sultão abriu as portas da cidade à marinhagem. Magalhães pressentiu a cilada e avisou Lopes Sequeira. Este reagiu, abriu caminho a tiros de bombarda por entre as barcaças malaias que cercavam a sua frota. Em tempo, pois já começava a matança de portugueses, gritos e correrias pelas ruas da cidade. Magalhães remou para terra e juntou a sua espada à de Serrão, deu-lhe fuga no seu escaler, amizade confirmada. A frota fez-se ao largo, desaire. Dois anos mais tarde o revide: Afonso de Albuquerque conquista Malaca. Entre os guerreiros, Magalhães e Serrão.

Só em 1515 chega a Ternate resposta de Magalhães. Remetida de Lisboa, não de Malaca: Irei a Ternate, mas não pelo caminho usual... Serrão dobra a carta. Saudades muitas. Do amigo, também da língua natal...

 

  APENAS MAIS CEM REAIS...

A nau Victoria, da armada de Fernão Magalhães. Foi o primeiro navio a dar a volta ao mundo.

 

 

 

Em 1513, em busca de especiarias, diariamente arribam a Lisboa navios mercantes de toda a Europa. Em 1513 o arquitecto Boitaca continua a edificar o Mosteiro dos Jerónimos. Em 1513 Fernão de Magalhães regressa à capital do Império. Passou nove anos a batalhar pela Coroa portuguesa em terras do Oriente: Sofala, Cananor, Diu e Malaca. Das muitas riquezas que conquistou, pouco lhe coube: algumas moedas d'ouro e um escravo pardo que mandou baptizar com o nome de Henrique. Fidalgo menor, tem porém direito a frequentar o Paço. Pela sua carreira militar também tem direito a pensão. São-lhe atribuídos 1850 reais mensais. Acha pouco. Por isso parte para Marrocos em nova incursão comandada pelo Duque de Bragança. Em Azamor sofre lançada no joelho que o deixa mutilado. Retorna a Lisboa. Coxeando, em 1514 apresenta-se a Sua Majestade. Exige que a sua tença seja aumentada de 100 reais, apenas mais 100 reais... Há intrigas e El-rei recusa. Magalhães exige depois o comando de uma nau para a Índia. El-rei volta a negar. Não atende a exigências mas apenas a solicitações.

- Majestade, parecer-vos-á ofensa procurar eu servir a outro monarca católico na esperança de alcançar maiores proventos ?

- Que não, que não ! e El-rei D. Manuel despede aquele guerreiro altivo, sempre vestido de preto, arrogância, solidão, qualquer coisa de tigrino a arrastar a perna por entre as colunas de mármore...

 

ALCANÇAR O ORIENTE, POR OCIDENTE

Fernão de Magalhães concebe o projecto de alcançar o Oriente, por ocidente. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

«Irei a Ternate, mas não pelo caminho usual...» Magalhães a remoer o projecto inicial de Colombo: se o planeta é uma esfera, pode-se alcançar o Oriente, por Ocidente. Dois irmãos cosmógrafos, Francisco e Rui Faleiro, fazem cálculos, dão-lhe razão. Rui chega mesmo a garantir-lhe que a sul das Terras de Vera Cruz (Brasil), a cerca de 40 graus de latitude, há passagem do Atlântico para os Mares do Sul, bem a vira cartografada em mapa muito secreto. E as Malucas estarão dentro da metade do mundo que, pelo Tratado de Tordesilhas, cabe à Coroa de Castela... Faleiro comete dois erros. Não tem meios, ninguém os tem ainda, para detectá-los e corrigi-los. Mas há um plano e há D. Carlos, jovem neto dos Reis Católicos e futuro rei de Espanha. Desobrigado por D. Manuel, em 1517 Magalhães parte para Sevilha.

 

 ENTREVISTA COM CARLOS V
 

 

 

 

Magalhães começa a aparelhar as naves da expedição. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Já conhece os golpes da intriga palaciana, doem mais do que lançadas no joelho. Toma cautelas. Em Sevilha aproxima-se de Diogo Barbosa, também português e velho companheiro de armas no Oriente. Por seu passado e saber, muito respeitado na Casa de Contratación, a Casa del Oceano.

Mais olhando que falando, Fernão corteja Beatriz, a filha do amigo. Ela cede e acabam por casar. Dentro de dois anos dar-lhe-á um filho.

É Diogo Barbosa quem depois apresenta o genro aos conselheiros da Casa de Contratación. Um deles, Aranda, entusiasma-se e quer investir no projecto. Magalhães chama a Sevilha Rui Faleiro e Aranda marca audiência com o futuro Carlos V. Três negociadores, três tipos de argumentação. A cosmonáutica, por Faleiro. A mercantil, por Aranda. A prática, por Magalhães. Este mostra as cartas de Serrão. Exibe o escravo Henrique e uma escrava de Sumatra que, entretanto, fizera vir de Lisboa. Ficam espantados os conselheiros da Coroa, nunca se vira gente assim, em Espanha. D. Carlos deita contas: se conquistar, por Ocidente, as ilhas das especiarias, num repente roubará o grande objectivo da expansão lusitana. Apadrinha o projecto de Magalhães. Aos dois portugueses garante proventos extraordinários em caso de sucesso. Afronta assim os dignatários da Casa de Contratación, também os comandantes espanhóis que ficarão subordinados a um almirante estrangeiro. Fomenta hostilidades, já divide para reinar...

Magalhães demora mais de um ano a aparelhar as cinco naves postas à sua disposição. Examina e manda reparar, cada uma, ao pormenor.

A Lisboa chegam novas do projecto. Emissário de D. Manuel tenta que Magalhães retorne à pátria, a troco de honrarias e aumento de tença. Fernão recusa, não quebra palavra dada. O bispo de Lamego propõe o seu assassínio... Não haverá oportunidade de executá-lo.

Desavindo com Magalhães, nas vésperas da largada Faleiro entrega-lhe as suas tábuas e cartas de marear. Fizera o seu próprio horóscopo e os astros profetizaram-lhe morte violenta, caso embarcasse...

Fernão redige testamento no qual consta a alforria do escravo Henrique, que o acompanha. Cada vez mais sozinho, a 20 de Setembro de 1519 larga de Sanlúcar de Barrameda, a bordo da Trinidad (110 tonéis, medida de capacidade náutica). Seguem-no a San Antonio (120 tonéis), a Concepcion (90 tonéis), a Victoria (85 tonéis) e a Santiago (75 tonéis). Frota com 250 tripulantes, amálgama de espanhóis, portugueses, italianos, alemães, ingleses, mouros e cipriotas. Muitos deles criminosos a procurarem fuga sobre águas distantes. Dispostos a tudo por algumas moedas.

 

 A TRAVESSIA DO ATLÂNTICO

 

Magalhães aponta ao sul, bordeja a costa africana. Só ao largo da Guiné é que toma barlavento para as Terras de Vera Cruz. Essa é arte da marinharia portuguesa para a boa travessia do Atlântico Sul. Os espanhóis desconhecem-na, murmuram, conspiram. Todos os dias, antes do anoitecer, as quatro naves aproximam-se da Trinidad. Os comandantes saúdam, conforme a praxe:

- Deus vos guarde, senhor capitão-general, ao mestre e à boa companhia !

O comandante da San Antonio é Juan de Cartagena. Fidalgo, vedor principal da frota, cargo de confiança d'El-rei. Hostiliza o português, desafia a sua autoridade, subverte a praxe. Em vez dele, e por ele, quem saúda é um furriel e suprimindo a palavra general:

- Deus vos guarde, senhor capitão e ao mestre !

Durante três dias Magalhães engole a afronta. Depois convoca os quatro comandantes para uma conferência na Trinidad. Pretexto: discutir a punição a aplicar a dois marinheiros. Cartagena aproveita a assembleia dos comandantes para contestar o plano de navegação. Interpreta o silêncio do português como fraqueza e exorbita no ataque, cega, não mede as palavras, chama o Almirante de incompetente, insulta-o, cai na armadilha. De rompante, Magalhães segura-o pelo braço, dá-lhe ordem de prisão, manda que a sua guarda o ponha a ferros, volte-face. Só mais tarde consentirá que ele fique à guarda de Luís de Mendoza, comandante da Victoria. Clemência que mais aturde...

A 13 de Dezembro arriba a frota à baía de S. Januário (Guanabara). Fazem aguada e dura quase duas semanas o descanso da marinhagem.

 

O MOTIM

Na baía de S. Julião, Fernão de Magalhães domina um motim na sua armada. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

A 10 de Janeiro de 1520, a cerca dos 40 graus de latitude sul, vai a frota surdir em larga enseada de caudal impetuoso. Será talvez a passagem anunciada por Faleiro... Após uma semana de pesquisas fica evidente o primeiro dos erros do cosmógrafo: não há comunicação entre oceanos. É apenas um vasto rio a que hão-de chamar da Prata. Ameaçado o sucesso da campanha e posta em perigo a comandância do português. Que não se dobra nem aceita comentários. Manda apenas que se avance mais para o sul e no caminho vai reconhecendo, exaustivamente, cada nova baía, angra, recorte ou enseada.

A 31 de Março fundeia numa baía de arribas escalavradas a que dá o nome de São Julião. Para temor e espanto da marinhagem aí decide passar o Inverno. Mal sabe o capitão-general que, a dois passos mais ao sul, localiza-se o Estreito que um dia há-de levar o seu nome.

Domingo de Páscoa e Magalhães convida os quatro comandantes a almoçarem consigo a bordo da Trinidad. Comparece apenas um: o seu primo Álvaro de Mesquita que nomeara comandante da San Antonio. Nesse mesmo dia santo, mas à noite, um escaler aproxima-se da San Antonio. Sobem a bordo os capitães Cartagena, Gaspar Quesada e Antonio de Coca. Aprisionam Álvaro de Mesquita. Mestre Floriaga quer opor-se à traição. Quesada liquida-o às punhaladas, seis. Os amotinados enviam parlamentar à Trinidad. Por carta, respeitosamente pedem ao Almirante que ouça o parecer dos outros capitães na elaboração da rota futura. Apenas a minúscula Santiago se pronuncia fiel a Magalhães. Três naves contra duas. Será fatal a rendição do Almirante, assim parece. Mas ele não cede. Toma o escaler do parlamentar e manda cinco homens de confiança entregar uma carta, não à San Antonio, mas ao comandante da Victoria. Convida-o a conferenciar na Trinidad. Luís Mendoza lê, larga-se a rir. Golfada de sangue, um dos cinco acaba de lhe cortar a garganta com punhalada certeira. Ao mesmo tempo, por estibordo, sobem quinze homens de armas comandados por Duarte Barbosa, cunhado de Magalhães. É assim que a Victoria muda de campo. Já são três naves leais ao Almirante contra duas dos rebeldes. Mais outro volte-face, desalento, amotinados que se rendem.

Julgamento: Quesada, o primeiro a verter sangue, é decepado. Cartagena e o Pe. Reinas, instigadores da sedição, ficam abandonados à sua sorte. Deus que decida se os traidores merecem viver, ou morrer, entre os nativos de pés grandes, os patagões... De Coca e Sebastian d'Elcano, que assumira o comando da San Antonio, são perdoados.

A Santiago é enviada a reconhecer a costa mais ao sul. Durante uma tempestade naufraga na foz de um rio. Os sobreviventes atingem, por terra, a baía de S. Julião. E Magalhães dá ordem de largada. Faz-se ao mar a frota. Nas arribas, dois vultos acenam despedida, desterrados, solidão.

 

O ESTREITO
Fernão de Magalhães atravessa o Estreito e alcança o Oceano Pacífico. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.  

Parece apenas um fiorde, como há tantos na Europa do norte. Apenas um braço de mar por entre montanhas a pique. Ninguém acredita que por ali haja passagem. O capitão-general não quer avisos. Manda avançar a San Antonio e a Concepcion. Dá-lhes cinco dias de prazo para a exploração. Súbita tempestade abate-se sobre a frota em pleno Estreito. Magalhães teme pelas duas unidades avançadas. Espera o regresso durante quatro dias e finalmente um sinal de fumo e um trovão, salva vitoriosa de artilharia, velas enfunadas e pavilhão desfraldado. Há um labirinto a decifrar mas há Passagem, pois é constante o fluxo e refluxo das marés. Avançam, esquadrinham cada um dos falsos canais. Finalmente avistam o imenso Mar do Sul. O grande Oceano Pacífico, como lhe chamará Fernão. Talvez lágrimas a escorrer pelo seu rosto...

 

A TRAVESSIA DO PACÍFICO
 

Numa gravura da época, indígenas observam a passagem de Magalhães pelo estreito que tem actualmente o nome do navegador português.

 

 

O desastre: aproveitando as pesquisas do labirinto do Estreito a San Antonio desertara, sedição, Álvaro de Mesquita de certo preso. Justamente a nave melhor abastecida... Sem víveres garantidos será temeridade prosseguir. Não vacila o Almirante, ordena a travessia. Coage os outros dois comandantes a declarar, por escrito, que a decisão é conjunta.

Dias e dias e o sol a castigar. O balançar monótono, a comida e a água que apodrecem, a caça às ratazanas que serão assadas, pústulas a rebentar, os olhos encovados, as gengivas a sangrar, o escorbuto. Fernão pensa já ter ultrapassado a ilha de Cipângu (Japão) e está apenas a um terço da viagem... Começa a revelar-se o segundo erro dos cálculos de Faleiro: por ter roubado 1/3 ao diâmetro da Terra, reduziu a uma insignificância o Pacífico, justamente o maior dos Oceanos...

A 6 de Março de 1521 avistam uma ilha luxuriosa. Nativos sobem a bordo, algazarra e alegria. Deitam a mão ao que podem. Cortam a amarra do escaler da Trinidad e conduzem-no para a praia. Magalhães não pode consentir em tal. Com os seus homens desce a terra. Alguns tiros de pólvora e põe os nativos em fuga. Os marinheiros apanham galinhas e frutas, matam a fome de cem dias. Renovam as provisões, enchem os barris com água fresca. E partem. Para trás fica a Ilha dos Ladrões.

Uma semana depois avistam outra ilha. Fernão pensa que será uma das Malucas. Já pensa abraçar, em breve, o seu amigo Serrão. Engana-se. Acaba de descobrir um novo arquipélago a que dá o nome de S. Lázaro. Mais tarde será crismado de Filipinas, em homenagem a Filipe II.

 

 O ESCRAVO HENRIQUE JÁ DEU A VOLTA AO MUNDO
 

 

 

Ilha de Saluan, nove dias de paraíso. Um povo hospitaleiro, sombras e água fresca, frutas, carne, ócio, moças bronzeadas que gentilmente não regateiam os seus favores. O escravo Henrique anda eufórico, entende-se com os nativos, uns e outro falam dialectos do mesmo grupo linguístico, o malaio. Viajando sempre para Ocidente, retornara à sua região natal. É o primeiro homem a ter dado a volta ao mundo. Magalhães abraça-o. Mandara decepar um comandante; abandonara um fidalgo e um padre numa baía desolada; e agora esse mesmo capitão-general ri, festeja e abraça um escravo...

 

 A MORTE DE MAGALHÃES
 

 

Em combate, Fernão de Magalhães é morto nas Filipinas. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

De Saluan, Magalhães passa à ilha de Massava. E de Massava passa à ilha de Cebu, a maior do arquipélago. Usando o escravo Henrique como língua, durante uma semana conferencia com o soberano local. Afinal o disciplinador também sabe conversar, convencer e seduzir. E assim converte ao cristianismo o rei de Cebu. Este, por sua vez, declara-se aliado de Carlos V. Magalhães proclama-o senhor do arquipélago, ao qual todos os reis das outras ilhas devem obediência. E resolve participar numa incursão punitiva contra a ilha de Mactan, cujo rei não quer reconhecer a nova autoridade.

Para ganhar para os seus a fama de invencíveis, desembarca com poucos homens em Mactan. Raciocínio politicamente justo. Não conta é com os recifes de corais que impedem a aproximação dos escaleres com bombardas. O seu grupo é cercado por uma horda de nativos. Luta demoradamente, sem arredar pé nem tentar a fuga. Uma seta crava-se-lhe no rosto. E logo outra num braço. E a terceira numa das pernas. Tomba o capitão-general e os nativos saltam sobre ele, despedaçam-no. Assim tiraram a vida ao nosso espelho, à nossa luz, ao nosso amparo, ao nosso capitão fiel, escreverá mais tarde um dos tripulantes, o italiano Pigaffeta.

 

O FIM  DA VIAGEM

Mapa-mùndi de 1543, de Battista Agnese, onde podemos seguir a rota de Magalhães na primeira viagem de circum-bnavegação.

 

Desaparecido o capitão-general, a tripulação descamba em roubos e desordens. Durante um banquete, capitães e mestres de navegação são trucidados pelos guerreiros do rei de Cebu. Entre eles Duarte Barbosa, cunhado de Magalhães. Os sobreviventes levantam ferro. Durante seis meses navegam às cegas, pirataria garante-lhes abastecimento. Por sorte alcançam Ternate. São informados que Francisco Serrão morrera há cerca de um mês. Conhecida é já a rota por ocidente. Mas 60 tripulantes optam por ficar em Tidore, outra das Malucas. Sebastian d'Elcano assume o comando. Ali abandona a Trinidad que mete água e incendeia a Concepcion. Carrega com especiarias a Victoria. Atravessa o Índico. Dobra o Cabo da Boa Esperança a 18 de Maio de 1522. A 5 de Setembro lança ferro em Sanlúcar de Barrameda. Assim termina a primeira volta ao mundo. Dos 250 homens regressam 18 espectros.

As especiarias de um único navio cobrem todos os custos da expedição, dão lucro ainda. Fizeram desaparecer o diário de bordo de Fernão e Sebastian d'Elcano, que participara no motim, é glorificado. Passa a ter direito a usar brasão. Ninguém fala em Magalhães. A não ser um marinheiro italiano, chamado Pigaffeta...

Entretanto morrera Beatriz, a esposa de Magalhães. Também o seu filho primeiro, e o segundo que não chegou a conhecer. Duarte de Barbosa, o seu cunhado, já fora morto em Cebu. Álvaro de Mesquita, o seu primo, ex-comandante da San Antonio, continua preso por lhe ter sido fiel. Rui Faleiro fora detido ao entrar em Portugal. Apesar da alforria constar no testamento de Fernão, Henrique é mantido como escravo. Já compreende que o mundo seja redondo. Mas não sabe o que pensar dos homens de pele branca, espanhóis e portugueses...

Em 1529, por 350.000 ducados, as ilhas das especiarias serão vendidas por Carlos V de Espanha a D. João III de Portugal.

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