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EUCLIDES DA CUNHA

Escritor: 1866 - 1909

Maria Consuelo Cunha Campos

 

Euclides da Cunha

"CANUDOS NÃO SE RENDEU. EXEMPLO ÚNICO EM TODA A HISTÓRIA, RESISTIU ATÉ AO ESGOTAMENTO COMPLETO."

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1866: A 20 de janeiro Euclides da Cunha nasce na Fazenda Saudade, em Santa Rita do Rio Negro (atual Euclidelândia ), município de Cantagalo, Rio de Janeiro, primeiro filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia   Moreira da Cunha. - 1869: Falece-lhe a mãe, de tuberculose. Passa a residir, sucessivamente, em Teresópolis, São Fidélis e na cidade do Rio de Janeiro, na companhia de parentes. - 1883: Ingressa no Colégio Aquino, onde é aluno de Benjamin Constant, republicano histórico, importante influência em sua formação. - 1885: Cursa a Escola Politécnica do Rio. - 1886: Assenta praça na Escola Militar - que lhe dá soldo e quartel - visando à engenharia militar. Novamente aluno de Benjamin Constant. - 1888: Sai da forma e atira o sabre ao chão, diante de todos, após tentar, sem êxito, quebrá-lo, durante o  desfile da tropa diante do ministro da Guerra do império, conselheiro Tomás Coelho, em visita à escola, cuja presença no estabelecimento militar, naquele momento, visava, precisamente, desmobilizar a participação dos cadetes em ato republicano, dando uma demonstração de apoio institucional da força militar ao império. Desligado  por indisciplina, Euclides tem sua matrícula na Escola Militar cancelada em 11 de dezembro. Três dias depois, dá baixa do Exército. Muda-se para São Paulo, onde  escreve, sob pseudónimo, veementes artigos de propaganda republicana para o jornal “A Província de São Paulo”. -   1889: Em seguida à proclamação da República, no dia 15 de novembro, Euclides participa  das comemorações da noite de 16, em casa do então major Solon Ribeiro, o mesmo que entregara em mãos ao imperador deposto a intimação de abandonar imediatamente o Brasil. A 19 de novembro, Euclides é reintegrado ao exército, incluído entre os anistiados pelo novo governo e promovido, ainda neste ano, a alferes-aluno. - 1890: Passa à Escola Superior de Guerra. Promovido a segundo-tenente. Casa-se com  Ana Solon Ribeiro, filha do major republicano. - 1892: Forma-se. Recebe a patente de primeiro-tenente. Coadjuvante de ensino na Escola Militar. - 1897: Em Março publica seu primeiro artigo, “A nossa Vendéia“, sobre a Campanha de Canudos, em “O Estado de São Paulo”. Segue para o campo de  batalha nos sertões baianos como repórter do jornal e adido ao estado-maior do ministro da Guerra. Permanece quase até o final da campanha, regressando do sertão alquebrado e doente. Passa uma temporada na fazenda Trindade, em Belém do Descalvado, de propriedade do pai. Retifica e amplia o plano primitivo de “A nossa Vendéia”; o  livro em progresso passa a intitular-se Os Sertões. - 1899: Euclides vai para São José do Rio Pardo, São Paulo, para reconstruir uma ponte metálica, derrubada por enchentes. - 1900: Conclui a escrita do livro. - 1901: É inaugurada a ponte de São José do Rio Pardo. - 1902: A 2 de dezembro, Os Sertões é lançado, com grande êxito de crítica e de vendas.  -1903: Sai a 2.a edição. A 21 de setembro, Euclides é eleito para a Academia Brasileira de Letras. A 20 de novembro, toma posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. - 1904: É nomeado pelo Itamaraty chefe da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus, na Amazônia, para onde parte no paquete Alagoas, a 13 de dezembro, lá chegando no dia 30. - 1906: Regressa ao Rio de Janeiro, vai trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, como adido ao Gabinete do Barão do Rio Branco. Publica o Relatório sobre o Alto Purus e Contrastes e Confrontos. - 1907: Publica Perus versus Bolívia. - 1909: Nomeado professor de Lógica no Colégio Pedro II, tendo sido o segundo colocado em concurso. Morre a 15 de agosto, em confronto de honra com  Dilermando de Assis, amante de sua mulher.

  Cadáver de António Conselheiro encontrado sob as ruínas da igreja nova. Foto de Flávio de Barros.

“O papel de Euclides da Cunha na construção da memória da Guerra de Canudos é fundador. Seu livro, Os Sertões (1902 ), fez por uma insurreição popular o que nenhum outro foi capaz de fazer, no país: alçou a  tragédia paradigmática, mediante o louvor à coragem do vencido.”

Walnice Nogueira Galvão
Cartas de Euclides no ano da guerra

“A viagem de Euclides como repórter pelo sertão foi um ritual de iniciação à religiosidade sertaneja e à magia da natureza, em que tentou compreender aquilo que chamou de “feição primitiva e misteriosa “ da campanha.”

Roberto Ventura
O combate à república para salvar a alma

“Em todos os sentidos, ”Os Sertões” é um livro não só singular, mas insólito. É como uma estátua da ilha de Páscoa na paisagem, nem sequer literária, brasileira. Está aquém e além da literatura.”

Eduardo Lourenço
Primeira leitura de “Os Sertões“

 

ORIGENS DA FAMÍLIA

 

Manuel da Cunha, avô de Euclides, português, traficante de escravos, homem de posses, estabelece-se na província da Bahia nos começos do século XIX. Casa-se com  uma sertaneja, Teresa Maria de Jesus, e têm um filho, Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, pai do escritor, que vem a mudar-se para o Rio de Janeiro. Em sua geração, a família decai  de sua condição de classe: guarda-livros, o pai de Euclides se insere na camada média da população.

Por volta da metade do século XIX, o vale do rio Paraíba, na província fluminense, assiste à expansão das lavouras cafeeiras. Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha percorre, em função de seu ofício, as fazendas locais e assim conhece Eudóxia, filha de um pequeno proprietário de terras. Casam-se  e, a 20 de janeiro de 1866, nasce o primeiro filho do casal, o futuro escritor Euclides da Cunha.

OS ANOS DE FORMAÇÃO

O pai de Euclides

 

 

 

A mãe de Euclides

 

Órfão precoce - a mãe falece de tuberculose quando Euclides conta apenas três anos - o menino é enviado a residir, primeiramente, com a família da tia materna, Rosinda Gouveia. Falecendo esta, também, em 1870, vai morar em São Fidélis, com a irmã, Adélia, na fazenda de outra tia, Laura.

Inicia seus estudos no Colégio Caldeira, lá mesmo, em São Fidélis mas, pouco depois, é mandado à Bahia, para a casa dos avós paternos, continuando seus estudos no Colégio Bahia, do professor Carneiro Ribeiro.

Sob os cuidados do tio paterno, Antônio Pimenta da Cunha, Euclides é posteriormente matriculado no Colégio Anglo-Americano, no Rio de Janeiro, frequentando, a seguir, os Colégios Vitório da Costa e Meneses Vieira. Transferindo-se em seguida para o Colégio Aquino, publica, no jornalzinho deste estabelecimento, “O Democrata”, seus primeiros artigos.  

Em março de 1885, aos 19 anos, presta exames e, aprovado, matricula-se na Politécnica. No ano seguinte assenta praça na Escola Militar da Praia Vermelha. 

Nestes derradeiros anos do império, no Brasil, o ideal republicano já está  disseminado entre professores e alunos do estabelecimento. A 4 de novembro de 1888, um domingo, regressa, no navio Ville de Santos, o tribuno popular republicano Lopes Trovão. Manifestações são aguardadas, inclusive de cadetes da Praia Vermelha e, para desmobilizá-las, o comandante da Escola Militar comunica a visita do Ministro da Guerra ao estabelecimento, no mesmo horário. Revoltado, Euclides, diante de todos, sai de forma, durante a cerimônia de revista de tropa e tenta quebrar a lâmina de sua arma. Não o conseguindo, dirige palavras violentas de protesto e arremessa o sabre ao chão, diante do ministro da Guerra  do império. Preso, o episódio ganha as manchetes da imprensa e os debates parlamentares.

Submetido a conselho disciplinar, Euclides da Cunha faz profissão de fé republicana e é desligado do exército. Vai para São Paulo, onde colabora na imprensa, sob pseudônimo, com uma série de artigos republicanos.

 

OS PRIMEIROS ANOS DE VIDA ADULTA

Euclides é readmitido na Escola Militar. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.  

Se as condições da família, após a morte da mãe, haviam carreado, desde cedo, um constante nomadismo ao menino Euclides, com mudanças de cidades, escolas e  moradias, em diversas casas de parentes, pelo lado materno e paterno, sem pouso mais estável, ele vai ancorar-se, de certa forma, em meio a tais turbulências, na  atração que, desde esta época, sente pela ciência. De temperamento arredio e um tanto quanto solitário, mas impetuoso, o futuro escritor vê transformado em feito heróico, uma vez proclamada a república, o seu  gesto de rebeldia perante o ministro da guerra do império. Por ato do governo provisório, é reincluído na Escola Militar a 19 de novembro de 1889. Benjamin Constant, seu antigo professor, é agora o novo  ministro da Guerra e o major Solon Ribeiro, seu futuro sogro, republicano histórico também, havia entregado em mãos ao imperador Pedro II a intimação para deixar imediatamente o Brasil, em seguida à proclamação da república.

No governo seguinte, do marechal  Floriano Peixoto, o futuro escritor tem a chance, oferecida pelo próprio  presidente, de escolher a posição que bem quisesse no novo regime. Recusa, porém, a oportunidade ímpar, dizendo desejar apenas o que prevê a lei para engenheiros recém-formados, como ele: a prática, durante um ano, na Estrada de Ferro Central do Brasil.

Euclides pede ao major Solon Ribeiro a mão de sua filha, Ana, ou Saninha, como a chamará. Necessitando tratamento de saúde, pede uma  licença e parte, com a mulher, para a fazenda de café de seu pai, em Belém do Descalvado. De regresso ao Rio, é promovido, no início de 1893, a primeiro-tenente do exército.

 

OS SERTÕES E A CAMPANHA DE CANUDOS

A rendição dos conselheiristas, foto de Flávio de Barros.

 

 

No sertão da Bahia, um movimento popular, de cunho religioso, desenvolve-se  já faz alguns anos. Liderado por Antônio Conselheiro, tem no abandono histórico por parte dos governos e de suas políticas públicas, bem como na pobreza das populações interioranas brasileiras um de seus motores. Encarado pelos oligarcas locais e, logo, também  pela opinião pública da capital federal, informada por jornais que se posicionaram contra os conselheiristas, como uma ameaça de restauração monárquica, com conexões para além  do sertão baiano, o movimento de Canudos será combatido por 4 expedições militares.

Em 1896 Euclides da Cunha abandona a carreira militar e vai para São Paulo. Em 1897, escreve artigos para  “O Estado de São Paulo” sobre a luta nos sertões baianos: Canudos, então, é, para ele, “a nossa Vendéia “ um movimento semelhante ao dos camponeses franceses católicos monarquistas, um século antes, em reação à revolução de 1789. A direção do jornal paulistano envia Euclides, como correspondente de guerra, ao sertão baiano e, adido ao Estado-Maior do ministro da Guerra, marechal Machado Bittencourt, o jornalista viaja de São Paulo para o teatro das operações. Lá, ao contacto  mesmo com a violência  que arrasaria o arraial, Euclides toma distância da perspectiva da Rua do Ouvidor, no centro elegante do Rio de Janeiro, sobre o conflito.

Sofrendo, como testemunha ocular, o impacto tremendo da carnificina, o caboclo republicano - que se definia como um misto de celta, de  tapuia e grego - e futuro autor de Os Sertões regressa, doente e alquebrado, de Canudos, já com a ideia de escrever um livro vingador.

Após uma temporada de poucos meses na fazenda paterna de Belém do Descalvado, que lhe serviu de transição entre a guerra no sertão profundo e a pax urbana, Euclides que, na Bahia, havia escrito seu Diário de uma expedição, traz, na bagagem interior, as leituras que fizera, em preparação intelectual para a escrita de Os Sertões. Será a elaboração deste livro lenta e descompassada: interrompe, várias vezes, a escrita, uma vez que é como engenheiro e chefe de família que ganha o pão de cada dia. ”Escrevo-o”, diz ele, “em quartos de hora, nos intervalos de minha engenharia fatigante e obscura “.

As circunstâncias penosas fazem o escritor que nascia habituar-se, em sua vida, desde a infância, errante, a estudar em trens em movimento, a cavalo. Chefia operários por necessidade; é homem de letras por vocação. Chega a anotar, nos punhos da camisa, as palavras estranhas que ouve.

Teodoro Sampaio, seu amigo, auxilia-o, provendo-o com informações de que necessita. Pesquisa, enquanto o engenheiro e escritor fiscaliza obras. Francisco Escobar também será outro amigo decisivo, com sua ajuda, na escrita de Os Sertões.

Dezanove dias depois de inaugurada, ruiu uma ponte, em São José do Rio Pardo. Euclides é incumbido de reconstruí-la. Passa, então, seus dias às margens do rio, em seu escritório: um barracão coberto de zinco, à sombra de uma paineira. Dali, ele não apenas  comandou o soerguimento da ponte caída, mas também escreveu um livro: ponte entre as duas margens de um Brasil, - a litorânea (cujas elites o desejavam moderno, embranquecido, ocidental e que, até então timbravam em desconhecer o seu outro) e a do interior (em que esta alteridade, indígena, sertaneja, negra, parda, considerada  arcaica e fadada a desaparecer, sob a batuta do progresso, resistia, de pé, ao extermínio até à morte).

O RECRUTA TRANSFORMADO EM TRIUNFADOR

 

Euclides lança OS SERTÕES. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Após uma tentativa mal sucedida de publicá-lo nas colunas de “O Estado de São Paulo”, Euclides consegue editar seu livro de estreia pela Livraria Laemmert, do Rio de Janeiro. Em 2 de dezembro de 1902, Os Sertões é lançado, tendo sido esta primeira edição paga pelo escritor, a um custo superior ao de seu salário mensal.

Exausto das correções feitas de próprio punho nos exemplares da inteira tiragem da obra, extremamente ansioso e inseguro acerca da recepção ao livro, o autor viaja do Rio de Janeiro a Lorena, no interior paulista. Cartas o esperam, no regresso, uma das quais, do editor, comunica-lhe o surpreendente êxito das vendas. Ao abrir outra, com data de postagem anterior, Euclides depara com uma mensagem oposta, do mesmo remetente, dizendo-se arrependido de haver editado a obra, tal o fracasso e o encalhe dos exemplares. Dois meses depois, estava a primeira edição totalmente esgotada...

Na esteira deste êxito não apenas editorial mas também de crítica, Euclides é eleito para  a Academia Brasileira de Letras, fundada no ano do término da guerra de Canudos. É nomeado sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Não obstante todo o triunfo, o escritor está desempregado, indo, com a família, para o Guarujá. Para sobreviver, retoma a publicação de artigos em “O Estado de São Paulo”, a maioria dos quais será, depois, reunida em seu livro Contrastes e confrontos, publicado em 1907.

OS ÚLTIMOS ANOS E A TRAGÉDIA DA PIEDADE

Euclides na Amazônia. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Após o sertão, o interesse de Euclides se volta para a Amazônia. À época, ela constituía outro ponto de tensão, no Brasil, dado o conflito de fronteiras nos vizinhos Peru e Bolívia. Aproxima-se então o escritor do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, que o nomeia chefe de uma comissão brasileira, condição na qual viaja às remotas nascentes do rio Purus. Interessa-lhe olhar o Brasil sob a ótica do interior, oposta ao ponto de vista das elites urbanas, cujo projeto era o de implantar a modernidade no trópico, através do alargamento de avenidas, da construção de boulevards, que transformassem a capital federal numa Paris latino-americana, numa cidade de população branca,  botando abaixo os cortiços populares e afastando, para os subúrbios, a população pobre, afro-descendente, negra e mestiça que, majoritariamente, os habitava.

Em 1906, Euclides da Cunha entrega o relatório de sua missão ao ministro. Passa, a convite de Rio Branco, a trabalhar como adido ao ministério, no próprio gabinete do barão.

No ano seguinte, é publicado Contrastes e confrontos, pela Livraria Chardron, do Porto, em Portugal. Sai também  em livro sua coletânea de artigos, Peru versus Bolívia. Prefacia Inferno Verde, relato amazônico, de Alberto Rangel, publicado no ano seguinte. O médico escritor Afrânio Peixoto entrega ao autor de Os Sertões, em 1908, um caderno manuscrito, com os sermões de Antônio Conselheiro: pregações  sobre os mandamentos, relatos da paixão de Cristo, discurso contra a República...

Morrendo Machado de Assis, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, o acadêmico Euclides é o sucessor à frente da instituição por breve período, até a posse de Rui Barbosa. A 19 de dezembro, inscreve-se  em concurso público para a cadeira de Lógica, do Colégio Pedro II e, a 17 de maio do ano seguinte, com outros 15 concorrentes, sob o número de inscrição 13, que considera de mau augúrio, faz a prova escrita, com o tema “Verdade e Erro”. A 7 de junho, sai o resultado do concurso, com a classificação do filósofo Farias Brito em 1o lugar, seguindo-se a de Euclides. Graças, porém, à interferência de Rio Branco e do escritor Coelho Neto junto a Nilo Peçanha, então presidente  da república, é o escritor  Euclides quem recebe a cadeira - e não o filósofo vitorioso no concurso - passando a lecionar no estabelecimento federal.

Entrega, em julho, as provas de À Margem da história, aos editores Lello & Irmãos. O livro será  póstumo, publicado em setembro.

A 15 de agosto de 1909, um domingo chuvoso, morre Euclides da Cunha, em consequência de uma troca de tiros com o cadete Dilermando de Assis, então  amante de sua esposa, na casa  deste, onde o casal se abrigava, na Estrada Real de Santa Cruz, hoje Avenida Suburbana, no bairro carioca  da Piedade.

Velado na Academia Brasileira de Letras, é o corpo do escritor enterrado, a 16 de agosto, no Cemitério de São João Batista, em Botafogo, Rio de Janeiro: em 15 de agosto de 1982 é transladado, juntamente com os restos mortais de seu filho Quidinho (Euclides da Cunha Filho), também alvejado por Dilermando de Assis, ao tentar  vingar, anos depois, a morte do pai, para um mausoléu em São José do Rio Pardo, à beira do rio.    

A OBRA (TRECHOS)
Euclides vive e escreve, escreve muito... Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.  

“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.

E tanto quanto o permitir a firmeza do nosso espírito façamos jus ao admirável conceito de Taine sobre o narrador sincero que encara a história como ela o merece:

...” il s´irrite contre les démi-vérités que sont les démi-faussetés, contre les auteurs qui n´altèrent ni une date, ni une généalogie, mais  dénaturent les sentiments et les moeurs, qui gardent le dessin des évenéments et en changent la couleur, qui copient les faits et défigurent l´âme: il veut sentir en barbare, parmi les barbares, et parmi les anciens, en ancien.”
 (Os Sertões, Nota Preliminar )

 

Terra ignota

Abordando-o, compreende-se que até hoje escasseiem sobre tão grande trato de território, que quase abarcaria a Holanda ( 9o 11-10o 20´de lat. E 4o- 3o de long.  O R.J.), notícias exatas ou pormenorizadas. As nossas melhores cartas, enfeixando informes escassos, lá têm um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se aventura o rabisco de um ri problemático ou idealização de uma corda de serras.”
(Os Sertões - A Terra )

 

O sertanejo

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar-se de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre  os estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo - cai é o termo - de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.”
(Os Sertões – O Homem ) 

Profecias

Ora, esta identidade avulta, mais frisante, quando se comparam com as do passado as concepções absurdas do esmaniado apóstolo sertanejo. Como os montanhistas, ele surgia no epílogo da Terra... O mesmo milenarismo extravagante, o mesmo pavor do Anti-Cristo despontando na derrocada universal da vida. O fim do mundo próximo...

Que os fiéis abandonassem todos os haveres, tudo quanto os maculasse com um leve traço de vaidade. Todas as fortunas estavam a pique da catástrofe iminente e fora temeridade inútil conservá-las.

Que abdicassem as venturas mais fugazes e fizessem da vida um purgatório duro; e não a manchassem nunca com o sacrilégio de um sorriso. O Juízo final aproximava-se, inflexível.

Renunciavam-no anos sucessivos de desgraças :

“... Em 1896 hade (sic) rebanhos mil correr da praia para o certão (sic ); então o certão (sic ) virará praia e a praia virará certão (sic).

“Em 1897 haverá muito pasto e pouco rasto e um só rebanho e um só pastor.

“Em 1898 haverá muitos chapéus e poucas cabeças.

Em 1899 ficarão as águas em sangue e o planeta há de aparecer no nascente com o raio do sol que o ramo se confrontará na terra e a terra em algum lugar se confrontará no céu...

“Hade (sic) chover uma grande chuva de estrelas e aí será o fim do mundo. Em 1900 se apagarão as luzes. Deus disse no Evangelho: eu tenho um rebanho que anda fora deste aprisco e é preciso que se reunam porque há um só pastor e um só rebanho!”
(Os Sertões - O homem)

“ Como quer que seja, para a Amazônia de agora devera restaurar-se integralmente, na definição da sua psicologia coletiva, o mesmo doloroso apotegma - ultra iquinotialem non peccavi - que Barleus engenhou para os desmandos da época colonial .

Os mesmos amazonenses, espirituosamente, o perceberam. À entrada de Manaus existe a belíssima ilha de Marapatá - e essa ilha tem uma função alarmante. É o mais original dos lazaretos - um lazareto de almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a consciência... Meça-se o alcance deste prodígio da fantasia popular. A ilha que existe fronteira à boca do Purus, perdeu o antigo nome geográfico e chama-se a “ilha da Consciência”; e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na foz do Juruá. É uma preocupação: o homem, ao penetrar as duas portas que levam ao paraíso diabólico dos seringais, abdica as melhores qualidades nativas e fulmina-se a si próprio a rir, com aquela ironia formidável”.
(“Terra sem história “, À Margem da história)

“A expansão imperialista das grandes potências é um fato de crescimento, o transbordar naturalíssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas, em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que daí resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na feição ruidosa e acidental da energia pacífica e formidável das indústrias. Nada dos velhos atributos românticos do passado ou da preocupação retrógrada  do heroísmo. As próprias vitórias perdem o significado antigo. São até dispensáveis.(...) Estão fora dos lanes o gênio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas forças acumuladas de longas culturas e do próprio gênio de raça, podem golpeá-las à vontade os adversários que as combatem e batem debatendo- se, e que se afogam. Não param. Não podem parar. Impele-as o fatalismo da própria força. Diante da fragilidade dos países fracos, ou das raças incompetentes, elas recordam, na história, aquele horror ao vácuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresistíveis da matéria.”  
( Contrastes e confrontos)

 “Os antigos mapas sul-americanos têm às vezes a eloquência de seus próprios erros.

Abraham Ortelius, Joan Martines, ou Thevet, sendo os mais falsos desenhadores do Novo Mundo, foram exatos cronistas de seus primeiros dias. A figura do continente deformado, quase retangular, com as suas cordilheiras de molde invariável, rios coleando nas mais regulares sinuosas e amplas terras uniformes, ermas de acidentes físicos, cheias de seres anormais e extravagantes - é, certo, incorretíssima. Mas tem rigorismos fotográficos no retratar uma época. Sem o quererem, os cartógrafos, tão absorvidos na pintura do novo typus orbis, desenhavam-lhe as sociedades nascentes; e os seus riscos incorretos, gizados à ventura, conforme lhos ditava a fantasia, tornaram-se linhas estranhamente descritivas. Num prodígio de síntese, valem livros.” 
(Peru versus Bolívia )

 

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