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EUCLIDES DA CUNHA
Escritor: 1866 - 1909
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1866: A 20 de janeiro Euclides
da Cunha nasce na Fazenda Saudade, em Santa Rita do Rio Negro (atual
Euclidelândia ), município de Cantagalo, Rio de Janeiro, primeiro filho
de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia
Moreira da Cunha. - 1869: Falece-lhe a mãe, de
tuberculose. Passa a residir, sucessivamente, em Teresópolis, São Fidélis
e na cidade do Rio de Janeiro, na companhia de parentes. - 1883:
Ingressa no Colégio Aquino, onde é aluno de Benjamin Constant,
republicano histórico, importante influência em sua formação. -
1885: Cursa a Escola Politécnica do Rio. - 1886: Assenta praça
na Escola Militar - que lhe dá soldo e quartel - visando à engenharia
militar. Novamente aluno de Benjamin Constant. - 1888: Sai da forma
e atira o sabre ao chão, diante de todos, após tentar, sem êxito, quebrá-lo,
durante o desfile da tropa
diante do ministro da Guerra do império, conselheiro Tomás Coelho, em
visita à escola, cuja presença no estabelecimento militar, naquele
momento, visava, precisamente, desmobilizar a participação dos cadetes
em ato republicano, dando uma demonstração de apoio institucional da força
militar ao império. Desligado por
indisciplina, Euclides tem sua matrícula na Escola Militar cancelada em
11 de dezembro. Três dias depois, dá baixa do Exército. Muda-se para São
Paulo, onde escreve, sob
pseudónimo, veementes artigos de propaganda republicana para o jornal
“A Província de São Paulo”. - 1889: Em seguida à proclamação da República, no dia 15
de novembro, Euclides participa das
comemorações da noite de 16, em casa do então major Solon Ribeiro, o
mesmo que entregara em mãos ao imperador deposto a intimação de
abandonar imediatamente o Brasil. A 19 de novembro, Euclides é
reintegrado ao exército, incluído entre os anistiados pelo novo governo
e promovido, ainda neste ano, a alferes-aluno. - 1890: Passa à
Escola Superior de Guerra. Promovido a segundo-tenente. Casa-se com
Ana Solon Ribeiro, filha do major republicano. - 1892:
Forma-se. Recebe a patente de primeiro-tenente. Coadjuvante de ensino na
Escola Militar. - 1897: Em Março publica seu primeiro artigo, “A
nossa Vendéia“, sobre a Campanha de Canudos, em “O Estado de São
Paulo”. Segue para o campo de batalha
nos sertões baianos como repórter do jornal e adido ao estado-maior do
ministro da Guerra. Permanece quase até o final da campanha, regressando
do sertão alquebrado e doente. Passa uma temporada na fazenda Trindade,
em Belém do Descalvado, de propriedade do pai. Retifica e amplia o plano
primitivo de “A nossa Vendéia”; o
livro em progresso passa a intitular-se Os Sertões. -
1899: Euclides vai para São José do Rio Pardo, São Paulo, para
reconstruir uma ponte metálica, derrubada por enchentes. - 1900:
Conclui a escrita do livro. - 1901: É inaugurada a ponte de São
José do Rio Pardo. - 1902: A 2 de dezembro, Os Sertões é
lançado, com grande êxito de crítica e de vendas.
-1903: Sai a 2.a edição. A 21 de setembro,
Euclides é eleito para a Academia Brasileira de Letras. A 20 de novembro,
toma posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. - 1904:
É nomeado pelo Itamaraty chefe da Comissão de Reconhecimento do Alto
Purus, na Amazônia, para onde parte no paquete Alagoas, a 13 de dezembro,
lá chegando no dia 30. - 1906: Regressa ao Rio de Janeiro, vai
trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, como adido ao Gabinete
do Barão do Rio Branco. Publica o Relatório sobre o Alto Purus e Contrastes
e Confrontos. - 1907: Publica Perus versus Bolívia. -
1909: Nomeado professor de Lógica no Colégio Pedro II, tendo sido o
segundo colocado em concurso. Morre a 15 de agosto, em confronto de honra
com Dilermando de Assis,
amante de sua mulher.
“O papel de Euclides da Cunha na construção da memória da Guerra de Canudos é fundador. Seu livro, Os Sertões (1902 ), fez por uma insurreição popular o que nenhum outro foi capaz de fazer, no país: alçou a tragédia paradigmática, mediante o louvor à coragem do vencido.” Walnice Nogueira Galvão “A viagem de Euclides como repórter pelo
sertão foi um ritual de iniciação à religiosidade sertaneja e à magia
da natureza, em que tentou compreender aquilo que chamou de “feição
primitiva e misteriosa “ da campanha.” Roberto
Ventura
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ORIGENS DA FAMÍLIA |
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Manuel da Cunha, avô de Euclides,
português, traficante de escravos, homem de posses, estabelece-se na província
da Bahia nos começos do século XIX. Casa-se com
uma sertaneja, Teresa Maria de Jesus, e têm um filho, Manuel
Rodrigues Pimenta da Cunha, pai do escritor, que vem a mudar-se para o Rio
de Janeiro. Em sua geração, a família decai
de sua condição de classe: guarda-livros, o pai de Euclides se
insere na camada média da população. |
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| OS ANOS DE FORMAÇÃO | |
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Órfão precoce - a mãe falece de
tuberculose quando Euclides conta apenas três anos - o menino é enviado
a residir, primeiramente, com a família da tia materna, Rosinda Gouveia.
Falecendo esta, também, em 1870, vai morar em São Fidélis, com a irmã,
Adélia, na fazenda de outra tia, Laura. Inicia seus estudos no Colégio
Caldeira, lá mesmo, em São Fidélis mas, pouco depois, é mandado à
Bahia, para a casa dos avós paternos, continuando seus estudos no Colégio
Bahia, do professor Carneiro Ribeiro. Sob os cuidados do tio paterno, Antônio
Pimenta da Cunha, Euclides é posteriormente matriculado no Colégio
Anglo-Americano, no Rio de Janeiro, frequentando, a seguir, os Colégios
Vitório da Costa e Meneses Vieira. Transferindo-se em seguida para o Colégio
Aquino, publica, no jornalzinho deste estabelecimento, “O Democrata”,
seus primeiros artigos. Em março de 1885, aos 19 anos, presta
exames e, aprovado, matricula-se na Politécnica. No ano seguinte assenta
praça na Escola Militar da Praia Vermelha.
Nestes derradeiros anos do império, no
Brasil, o ideal republicano já está
disseminado entre professores e alunos do estabelecimento. A 4 de
novembro de 1888, um domingo, regressa, no navio Ville de Santos, o
tribuno popular republicano Lopes Trovão. Manifestações são
aguardadas, inclusive de cadetes da Praia Vermelha e, para desmobilizá-las,
o comandante da Escola Militar comunica a visita do Ministro da Guerra ao
estabelecimento, no mesmo horário. Revoltado, Euclides, diante de todos,
sai de forma, durante a cerimônia de revista de tropa e tenta quebrar a lâmina
de sua arma. Não o conseguindo, dirige palavras violentas de protesto e
arremessa o sabre ao chão, diante do ministro da Guerra
do império. Preso, o episódio ganha as manchetes da imprensa e os
debates parlamentares.
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OS PRIMEIROS ANOS DE VIDA ADULTA |
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| Euclides é readmitido na
Escola Militar. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo?
Consulta a Tábua
Cronológica. |
Se as condições da família, após a
morte da mãe, haviam carreado, desde cedo, um constante nomadismo ao
menino Euclides, com mudanças de cidades, escolas e
moradias, em diversas casas de parentes, pelo lado materno e
paterno, sem pouso mais estável, ele vai ancorar-se, de certa forma, em
meio a tais turbulências, na atração
que, desde esta época, sente pela ciência. De temperamento arredio e um
tanto quanto solitário, mas impetuoso, o futuro escritor vê transformado
em feito heróico, uma vez proclamada a república, o seu
gesto de rebeldia perante o ministro da guerra do império. Por ato
do governo provisório, é reincluído na Escola Militar a 19 de novembro
de 1889. Benjamin Constant, seu antigo professor, é agora o novo
ministro da Guerra e o major Solon Ribeiro, seu futuro sogro,
republicano histórico também, havia entregado em mãos ao imperador
Pedro II a intimação para deixar imediatamente o Brasil, em seguida à
proclamação da república. No governo seguinte, do marechal
Floriano Peixoto, o futuro escritor tem a chance, oferecida pelo próprio
presidente, de escolher a posição que bem quisesse no novo
regime. Recusa, porém, a oportunidade ímpar, dizendo desejar apenas o
que prevê a lei para engenheiros recém-formados, como ele: a prática,
durante um ano, na Estrada de Ferro Central do Brasil.
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OS SERTÕES E A CAMPANHA DE CANUDOS |
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No sertão da Bahia, um movimento
popular, de cunho religioso, desenvolve-se
já faz alguns anos. Liderado por Antônio Conselheiro, tem no
abandono histórico por parte dos governos e de suas políticas públicas,
bem como na pobreza das populações interioranas brasileiras um de seus
motores. Encarado pelos oligarcas locais e, logo, também
pela opinião pública da capital federal, informada por jornais
que se posicionaram contra os conselheiristas, como uma ameaça de
restauração monárquica, com conexões para além
do sertão baiano, o movimento de Canudos será combatido por 4
expedições militares. Em 1896 Euclides da Cunha abandona a
carreira militar e vai para São Paulo. Em 1897, escreve artigos para “O Estado de São Paulo” sobre a luta nos sertões
baianos: Canudos, então, é, para ele, “a nossa Vendéia “ um
movimento semelhante ao dos camponeses franceses católicos monarquistas,
um século antes, em reação à revolução de 1789. A direção do
jornal paulistano envia Euclides, como correspondente de guerra, ao sertão
baiano e, adido ao Estado-Maior do ministro da Guerra, marechal Machado
Bittencourt, o jornalista viaja de São Paulo para o teatro das operações.
Lá, ao contacto mesmo com a
violência que arrasaria o
arraial, Euclides toma distância da perspectiva da Rua do Ouvidor, no
centro elegante do Rio de Janeiro, sobre o conflito. Sofrendo, como testemunha ocular, o
impacto tremendo da carnificina, o caboclo republicano - que se definia
como um misto de celta, de tapuia
e grego - e futuro autor de Os Sertões regressa, doente e
alquebrado, de Canudos, já com a ideia de escrever um livro vingador. Após uma temporada de poucos meses na
fazenda paterna de Belém do Descalvado, que lhe serviu de transição
entre a guerra no sertão profundo e a pax urbana, Euclides que, na Bahia,
havia escrito seu Diário de uma expedição, traz, na bagagem
interior, as leituras que fizera, em preparação intelectual para a
escrita de Os Sertões. Será a elaboração deste livro lenta e
descompassada: interrompe, várias vezes, a escrita, uma vez que é como
engenheiro e chefe de família que ganha o pão de cada dia.
”Escrevo-o”, diz ele, “em quartos de hora, nos intervalos de minha
engenharia fatigante e obscura “. As circunstâncias penosas fazem o
escritor que nascia habituar-se, em sua vida, desde a infância, errante,
a estudar em trens em movimento, a cavalo. Chefia operários por
necessidade; é homem de letras por vocação. Chega a anotar, nos punhos
da camisa, as palavras estranhas que ouve. Teodoro Sampaio, seu amigo, auxilia-o,
provendo-o com informações de que necessita. Pesquisa, enquanto o
engenheiro e escritor fiscaliza obras. Francisco Escobar também será
outro amigo decisivo, com sua ajuda, na escrita de Os Sertões. |
O RECRUTA TRANSFORMADO EM TRIUNFADOR |
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Euclides
lança OS SERTÕES. Entretanto, o que está a acontecer no resto do
mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Após uma tentativa mal sucedida de
publicá-lo nas colunas de “O Estado de São Paulo”, Euclides consegue
editar seu livro de estreia pela Livraria Laemmert, do Rio de Janeiro. Em
2 de dezembro de 1902, Os Sertões é lançado, tendo sido esta
primeira edição paga pelo escritor, a um custo superior ao de seu salário
mensal. Exausto das correções feitas de próprio
punho nos exemplares da inteira tiragem da obra, extremamente ansioso e
inseguro acerca da recepção ao livro, o autor viaja do Rio de Janeiro a
Lorena, no interior paulista. Cartas o esperam, no regresso, uma das
quais, do editor, comunica-lhe o surpreendente êxito das vendas. Ao abrir
outra, com data de postagem anterior, Euclides depara com uma mensagem
oposta, do mesmo remetente, dizendo-se arrependido de haver editado a
obra, tal o fracasso e o encalhe dos exemplares. Dois meses depois, estava
a primeira edição totalmente esgotada... Na esteira deste êxito não apenas
editorial mas também de crítica, Euclides é eleito para
a Academia Brasileira de Letras, fundada no ano do término da
guerra de Canudos. É nomeado sócio correspondente do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro. |
| OS ÚLTIMOS ANOS E A TRAGÉDIA DA PIEDADE | |
Euclides na Amazônia. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Após o sertão, o interesse de Euclides
se volta para a Amazônia. À época, ela constituía outro ponto de tensão,
no Brasil, dado o conflito de fronteiras nos vizinhos Peru e Bolívia.
Aproxima-se então o escritor do Barão do Rio Branco, ministro das Relações
Exteriores, que o nomeia chefe de uma comissão brasileira, condição na
qual viaja às remotas nascentes do rio Purus. Interessa-lhe olhar o
Brasil sob a ótica do interior, oposta ao ponto de vista das elites
urbanas, cujo projeto era o de implantar a modernidade no trópico, através
do alargamento de avenidas, da construção de boulevards,
que transformassem a capital federal numa Paris latino-americana, numa
cidade de população branca, botando
abaixo os cortiços populares e afastando, para os subúrbios, a população
pobre, afro-descendente, negra e mestiça que, majoritariamente, os
habitava. Em 1906, Euclides da Cunha entrega o
relatório de sua missão ao ministro. Passa, a convite de Rio Branco, a
trabalhar como adido ao ministério, no próprio gabinete do barão. No ano seguinte, é publicado Contrastes e
confrontos, pela Livraria Chardron, do Porto, em Portugal. Sai também
em livro sua coletânea de artigos, Peru versus Bolívia.
Prefacia
Inferno Verde, relato amazônico, de Alberto Rangel, publicado no
ano seguinte. O médico escritor Afrânio Peixoto entrega ao autor de Os
Sertões, em 1908, um caderno manuscrito, com os sermões de Antônio
Conselheiro: pregações
sobre os mandamentos, relatos da paixão de Cristo, discurso contra
a República... Morrendo Machado de Assis, fundador e
primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, o acadêmico
Euclides é o sucessor à frente da instituição por breve período, até
a posse de Rui Barbosa. A 19 de dezembro, inscreve-se
em concurso público para a cadeira de Lógica, do Colégio Pedro
II e, a 17 de maio do ano seguinte, com outros 15 concorrentes, sob o número
de inscrição 13, que considera de mau augúrio, faz a prova escrita, com
o tema “Verdade e Erro”. A 7 de junho, sai o resultado do concurso,
com a classificação do filósofo Farias Brito em 1o lugar,
seguindo-se a de Euclides. Graças, porém, à interferência de Rio
Branco e do escritor Coelho Neto junto a Nilo Peçanha, então presidente
da república, é o escritor Euclides
quem recebe a cadeira - e não o filósofo vitorioso no concurso -
passando a lecionar no estabelecimento federal. Entrega, em julho, as provas de À
Margem da história, aos editores Lello & Irmãos. O livro será
póstumo, publicado em setembro. A 15 de agosto de 1909, um domingo
chuvoso, morre Euclides da Cunha, em consequência de uma troca de tiros
com o cadete Dilermando de Assis, então
amante de sua esposa, na casa
deste, onde o casal se abrigava, na Estrada Real de Santa Cruz,
hoje Avenida Suburbana, no bairro carioca
da Piedade. |
| A OBRA (TRECHOS) | |
| Euclides vive e escreve, escreve muito... Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
“Aquela
campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação
integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo. E
tanto quanto o permitir a firmeza do nosso espírito façamos jus ao admirável
conceito de Taine sobre o narrador sincero que encara a história como ela
o merece: ...”
il s´irrite contre les démi-vérités que sont les démi-faussetés,
contre les auteurs qui n´altèrent ni une date, ni une généalogie, mais
dénaturent les sentiments et les moeurs, qui gardent le dessin des
évenéments et en changent la couleur, qui copient les faits et défigurent
l´âme: il veut sentir en barbare, parmi les barbares, et parmi les
anciens, en ancien.” Terra
ignota Abordando-o,
compreende-se que até hoje escasseiem sobre tão grande trato de território,
que quase abarcaria a Holanda ( 9o 11-10o 20´de lat.
E 4o- 3o de long.
O R.J.), notícias exatas ou pormenorizadas. As nossas melhores
cartas, enfeixando informes escassos, lá têm um claro expressivo, um
hiato, Terra ignota, em que se
aventura o rabisco de um ri problemático ou idealização de uma corda de
serras.” O
sertanejo O
sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos
mestiços neurastênicos do litoral. A
aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário.
Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima
das organizações atléticas. É
desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no
aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo,
quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros
desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar-se
de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé,
quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que
encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um
conhecido, cai logo sobre os
estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido,
não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num
bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os
meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais
vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira
conversa com um amigo, cai logo - cai é o termo - de cócoras,
atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que
todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre
os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.” Profecias
“Ora,
esta identidade avulta, mais frisante, quando se comparam com as do
passado as concepções absurdas do esmaniado apóstolo sertanejo. Como os
montanhistas, ele surgia no epílogo da Terra... O mesmo milenarismo
extravagante, o mesmo pavor do Anti-Cristo despontando na derrocada
universal da vida. O fim do mundo próximo... Que
os fiéis abandonassem todos os haveres, tudo quanto os maculasse com um
leve traço de vaidade. Todas as fortunas estavam a pique da catástrofe
iminente e fora temeridade inútil conservá-las. Que
abdicassem as venturas mais fugazes e fizessem da vida um purgatório
duro; e não a manchassem nunca com o sacrilégio de um sorriso. O Juízo
final aproximava-se, inflexível. Renunciavam-no
anos sucessivos de desgraças : “...
Em 1896 hade (sic) rebanhos mil correr da praia para o certão (sic ); então
o certão (sic ) virará praia e a praia virará certão (sic). “Em
1897 haverá muito pasto e pouco rasto e um só rebanho e um só pastor. “Em
1898 haverá muitos chapéus e poucas cabeças. Em
1899 ficarão as águas em sangue e o planeta há de aparecer no nascente
com o raio do sol que o ramo se confrontará na terra e a terra em algum
lugar se confrontará no céu... “Hade
(sic) chover uma grande chuva de estrelas e aí será o fim do mundo. Em
1900 se apagarão as luzes. Deus disse no Evangelho: eu tenho um rebanho
que anda fora deste aprisco e é preciso que se reunam porque há um só
pastor e um só rebanho!” “
Como quer que seja, para a Amazônia de agora devera restaurar-se
integralmente, na definição da sua psicologia coletiva, o mesmo doloroso
apotegma - ultra iquinotialem non
peccavi - que Barleus engenhou para os desmandos da época colonial . Os
mesmos amazonenses, espirituosamente, o perceberam. À entrada de Manaus
existe a belíssima ilha de Marapatá - e essa ilha tem uma função
alarmante. É o mais original dos lazaretos - um lazareto de almas! Ali,
dizem, o recém-vindo deixa a consciência... Meça-se o alcance deste
prodígio da fantasia popular. A ilha que existe fronteira à boca do
Purus, perdeu o antigo nome geográfico e chama-se a “ilha da Consciência”;
e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na foz do Juruá. É uma
preocupação: o homem, ao penetrar as duas portas que levam ao paraíso
diabólico dos seringais, abdica as melhores qualidades nativas e
fulmina-se a si próprio a rir, com aquela ironia formidável”. “A
expansão imperialista das grandes potências é um fato de crescimento, o
transbordar naturalíssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de
riquezas, em que a conquista dos povos se torna simples variante da
conquista de mercados. As lutas armadas que daí resultam, perdido o
encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na feição ruidosa e
acidental da energia pacífica e formidável das indústrias. Nada dos
velhos atributos românticos do passado ou da preocupação retrógrada
do heroísmo. As próprias vitórias perdem o significado antigo. São
até dispensáveis.(...) Estão fora dos lanes o gênio dos generais
felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas forças
acumuladas de longas culturas e do próprio gênio de raça, podem golpeá-las
à vontade os adversários que as combatem e batem debatendo- se, e que se
afogam. Não param. Não podem parar. Impele-as o
fatalismo da própria força. Diante da fragilidade dos países fracos, ou
das raças incompetentes, elas recordam, na história, aquele horror ao vácuo,
com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresistíveis da
matéria.” “Os
antigos mapas sul-americanos têm às vezes a eloquência de seus próprios
erros. Abraham
Ortelius, Joan Martines, ou Thevet, sendo os mais falsos desenhadores do
Novo Mundo, foram exatos cronistas de seus primeiros dias. A figura do
continente deformado, quase retangular, com as suas cordilheiras de molde
invariável, rios coleando nas mais regulares sinuosas e amplas terras
uniformes, ermas de acidentes físicos, cheias de seres anormais e
extravagantes - é, certo, incorretíssima. Mas tem rigorismos fotográficos
no retratar uma época. Sem o quererem, os cartógrafos, tão absorvidos
na pintura do novo typus orbis,
desenhavam-lhe as sociedades nascentes; e os seus riscos incorretos,
gizados à ventura, conforme lhos ditava a fantasia, tornaram-se linhas
estranhamente descritivas. Num prodígio de síntese, valem
livros.”
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