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D. CARLOS I
“O Martirizado” Rei de Portugal: 1863 - 1908
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1863: Nasce em Lisboa a 28 de Setembro, filho primogénito de D. Luís I e D. Maria Pia, que o baptizaram com o nome de Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon Saxe-Coburgo Gota. É o rei D. Carlos I. – 1878: Acompanha a mãe a Itália para assistir ao funeral de Vítor Manuel II. – 1886: Casa com Maria Amélia de Orleães, princesa de França. – 1888: Publica A Defesa do Porto de Lisboa e a Nossa Marinha de Guerra. – 1889: Sobe ao trono, por morte do pai, a 19 de Outubro. – 1890: Perante o ultimato inglês devolve as suas condecorações inglesas. – 1892: Visita oficialmente a Espanha. – 1895: Participa pessoalmente na homenagem a João de Deus. – 1901: Toma parte nos funerais da rainha Vitória de Inglaterra. – 1904: Inaugura o caminho de ferro de Santarém a Vendas Novas. Visita oficialmente vários países europeus. – 1905: É recebido com especial solenidade em França. – 1906: Permite e apoia a ditadura de João Franco que dissolverá o Parlamento em Abril de 1907. – 1907: Recebe um prémio de Oceanografia em Itália. – 1908: Morre, assassinado, em Lisboa, no dia 1 de Fevereiro. Jaz em S. Vicente de Fora. |
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Lembro-me
como se fosse hoje. O
CAÇADO
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É um sábado,
este primeiro dia de Fevereiro de 1908. Cinco horas
da tarde em Lisboa. No Terreiro do Paço encontra-se uma pequena multidão
que não tira os olhos do rio que nasce em Espanha e vem morrer em
Portugal. Entre os mais atentos destacam-se dois homens com especial
preocupação. Conheço-os do café Gelo,
do Rossio. Um é o Manuel Buíça, que esconde uma carabina que trás
debaixo de um longo varino. O outro é o Alfredo Costa, com um revólver
pronto que transporta no bolso. Ambos estão ligados à maior sociedade
secreta revolucionária existente em Portugal. A Carbonária, espécie de
ramo armado da velha Maçonaria secular. Poucas horas
antes, no café Gelo, numa mesa
a um canto que fica perto da porta para a cozinha, estiveram o Manuel Buíça
e mais quatro pessoas. Três são desconhecidos o quarto é o Alfredo
Costa. No meio da animação geral, aquela mesa é talvez a mais sossegada
de todas. A imagem é a de um pacato empregado de escritório almoçando
tranquilamente fora de casa e que tivesse convidado alguns colegas para o
acompanharem ao café. O criado levanta os pratos e serve mais cerveja. Os
três desconhecidos saem para dar lugar a um outro. A conversa decorre em
tom baixo, sem pressas, como quem trata de negócio seguro. Buíça sorri
ao encarar com o freguês sentado na mesa vizinha à minha e atira-lhe,
acaso, um dito banal: - Estamos
aqui, estamos em Timor... É o primeiro
a levantar-se e a partir. Oiço-o ainda dizer aos que ficam: - Vou
entregar esta bengala e vou buscar o varino e o resto. O varino está
na moda. Chama-se assim a um capote, ou capa abotoada, que cobre o corpo
até aos pés. É óptimo para o frio e muita gente o usa, mesmo em dias
de sol, como o deste sábado lisboeta. É óptimo para alguém se misturar
entre o público que circula nas ruas e passar despercebido. Um bom abrigo
e uma boa forma de esconder uma arma das vistas inconvenientes. Por volta das
4 horas da tarde deixam o Rossio dirigindo-se para o Terreiro do Paço
onde se misturam entre os que esperam a chegada do rei. Cinco homens,
segundo ouvi falar, tomam lugar no Terreiro do Paço, algum tempo antes da
chegada real. Dá nas vistas de muita gente um deles, de barba negra, com
uma capa comprida, e que se coloca junto de uma árvore, frente ao Ministério,
não longe de um quiosque ali existente. É o Manuel Buíça. No vasto estuário,
desde os confins do Mar da Palha, frente a Cacilhas já se vislumbra os
contornos do barco que todos esperam naquele momento. É o vapor D.
Luís, que trás de volta à capital a família real que rege os
destinos do País legado por D. Afonso Henriques em 1143. O rei D.
Carlos regressa de férias em Vila Viçosa onde fora caçar numa das suas
propriedades da Casa de Bragança. O paço ducal de Vila Viçosa, um dos
maiores palácios portugueses é o preferido para as férias da família
real, sobretudo durante a época da caça. O melhor que tem este Palácio
é a grande tapada que o circunda, numa extensão de quinze quilómetros.
Nela se sucedem os prados e os bosques, os lagos propícios à pescaria e
as coutadas de veados e de corças. Logo no princípio
de Janeiro deste ano de 1908, o soberano, a rainha e os dois filhos haviam
vindo para Vila Viçosa. O mais novo, D. Manuel, volta mais cedo para
Lisboa. O primogénito, D. Luís Filipe, fica até ao fim das férias da
família, companheiro inseparável do pai nas suas caçadas. Agora é a
hora da partida. Em Vila Viçosa, D. Luís Filipe acompanha os pais, a
caminho da carruagem que os leva a todos à estação do caminho-de-ferro.
Tencionam voltar por alguns dias durante o Carnaval e o soberano
anuncia-lhe que vai mandar fazer obras no palácio. D. Carlos
deixa o traje civil e enverga a farda de generalíssimo; a tarja escarlate
da gola cinge-lhe os refolhos da nuca e do duplo queixo; a pala do boné
carregada para os olhos dá-lhe uma severidade exagerada. O régio
casal e o seu filho mais velho partem da gare da vila alentejana pelas 11
horas e 40 minutos da manhã a caminho do cais fluvial do Barreiro. O sol a pino
invade a campina alentejana, por onde corre já o comboio em que a família
real regressa a Lisboa. Até onde a vista alcança, sob o céu muito azul,
os campos são imensas manchas pardas. Faltam precisamente sete semanas
para que chegue a Primavera, e os campos estejam verdes, e as searas
principiem a romper. Faltam sete semanas apenas, também, para que o príncipe
herdeiro complete os vinte e um anos. A atenção
do príncipe prende-se em sua mãe. Vestida de escuro, a rainha vai calada
e tem um aspecto triste, que lhe não é próprio. O pesado casacão em
que se abriga e os ornatos do chapéu tornam ainda maior a sua estatura,
de mais de um metro e oitenta de altura. O seu silêncio é significativo
do desagrado com que regressa a Lisboa. Na véspera pedira ao filho para
convencer o rei a atrasar por alguns dias a viagem, mas a diligência
resultara inútil. Para D. Carlos estava fora de questão ficar mais um
dia em Vila Viçosa. Já no
comboio, o casal régio segue em silêncio, entregue aos seus pensamentos.
E reparando que o pai ainda não acendeu hoje um único charuto, ele que
é inseparável dos seus «Aquilas» e considerado o rei mais fumador da
Europa, D. Luís Filipe sente que alguma coisa excepcionalmente grave
preocupa o soberano. A atmosfera
é de inquietação em toda a comitiva que acompanha a família real,
conforme me descreve um amigo que faz parte dessa corte. Durante a viagem
não se fala outra coisa que não seja o ambiente de tensão que se vive
em Lisboa. Sabe-se que a vida do rei corre sério risco. Da capital fora
perguntado para Vila Viçosa que espécie de transporte deveria ser
utilizado no Terreiro do Paço: se os automóveis cobertos, se as
carruagens abertas, (landaus). De lá se respondeu que os últimos. Apontando
para o landau descoberto, puxado a uma parelha, que espera a família real
para a conduzir ao Palácio das Necessidades, o tenente-coronel Alfredo de
Albuquerque explica aos que o rodeiam: - Foi el-rei
que quis assim. Eu tencionava mandar automóveis. Mas el-rei telegrafou-me
a mandar o contrário. Por ordem de Sua Majestade é que a família real
vai em carruagem aberta. A tarde
continua normal. À medida que o sol declina para o lado da barra do Tejo,
a sombra invade a grande praça pombalina. Dignitários da Corte, altos
funcionários públicos, duas dúzias de famílias nobres, as marquesas do
Faial e do Lavradio, a condessa das Alcáçovas e a de Figueiró, os
condes de Sabugosa, um herói das recentes campanhas de África, o capitão
Roçadas, oficiais do Exército, conversam em grupos, para passar o tempo.
Em redor da duquesa de Palmela fala-se da estreia dessa noite: pela
primeira vez vai cantar-se no São Carlos o Tristão e Isolda. Em torno
dos ministros o tema predominante é, ainda, a intentona revolucionária
de terça-feira passada, 28 de Janeiro, e o tema dá margem para toda a
espécie de conjecturas. Fala-se mesmo em atentados, mas o general
Malaquias de Lemos, comandante da Guarda Municipal, parece ignorar os
boatos que correm durante todo o dia pela cidade, segundo os quais a
deportação de chefes revolucionários presos irá provocar atentados
bombistas. O navio D.
Luís encontra-se, agora, frente ao Terreiro do Paço. Na viagem de
comboio, um descarrilamento à entrada estação de Casa Branca alterara a
hora de chegada. Rapidamente aproxima-se do cais de desembarque. Um apito
seco ordena o afrouxamento da marcha. Os guindastes das passadeiras, com
dois homens à manivela, aprestam-se para franquear aos recém-chegados as
suas pontes levadiças. Vejo o rei, a
rainha e o príncipe, sentados na popa, a estibordo, aguardando o termo da
manobra. D. Carlos, de pequeno uniforme de generalíssimo, boné agaloado
a oiro e capote de gola carmesim. D. Amélia, de grande chapéu enfeitado
de flores, o casaco negro de marta com a gola soerguida, e luvas brancas.
D. Luís Filipe, chapéu alto e sobretudo negro. O príncipe,
ao descortinar o vulto do irmão infante D. Manuel no aglomerado que os
espera, clama lá de cima: - Tivemos um
descarrilamento! No Terreiro
do Paço tudo parece tranquilo. Continuo perto do Buiça que segue
atentamente as movimentações que se desenrolam. Do lado
oriental da praça o movimento é o normal àquela hora da tarde; do lado
oposto, o enfiamento da Rua do Ouro que vai até ao cais fluvial,
[situava-se à direita do Cais das Colunas, do lado oposto à actual estação
do Sul e Sueste] está vedado ao trânsito de veículos para dar passagem,
dentro em breve, às carruagens do rei e do seu séquito. Ali há gente
pelas janelas dos ministérios, gente ao longo da arcada, gente em grupos
no passeio da placa central, junto às árvores e aos quiosques de venda
de jornais. Deviam ter
chegado às quatro e um quarto da tarde e passam das cinco quando a ponte
é lançada entre o navio e o cais. Desembarcam. Estou agora mais afastado
do Buiça. Passam todos
muito perto de mim. Vem à frente a rainha, seguida pelo rei e pelo príncipe
real. D. Amélia logo se encaminha ao encontro do filho mais novo, para o
beijar com ternura. D. Luís Filipe e o irmão abraçam-se. D. Carlos
corresponde às continências militares, recebe os cumprimentos dos
ministros e dos fidalgos, ouvem-no dizer ao chefe do Governo, João
Franco, que siga com a comitiva e que vá direito ao palácio. Uma pequena
afilhada da rainha dá-lhe um ramo de flores, recebe em troca um beijo. À
entrada da sala de espera detêm-se num discreto recanto em conversa
confidencial com alguns fiéis. Pouco depois a rainha aproxima-se do grupo
e intervém na conferência. Andam no ar mil suspeitas e incertezas. A
conversação prolonga-se por vários minutos. O visconde de Asseca,
estribeiro-mor, volta a perguntar a D. Carlos se prefere atravessar a
cidade de automóvel ou de carruagem aberta. Escolhe a carruagem aberta. Não demoram
mais de um quarto de hora os cumprimentos. O conde de Figueiró anuncia
que tudo está pronto para a partida. A família real sobe para o landau
guiado pelo cocheiro Bento Caparica. O príncipe é o primeiro a subir.
Sobe depois o infante, o rei em seguida - e os três conservam-se de pé
nos seus lugares, aguardando a subida da rainha. Esta sobe, ramo de flores
na mão, na face um sorriso enigmático. Sentado o rei
à esquerda da rainha, enquanto em frente fica o seu filho mais velho, ao
lado do qual se senta D. Manuel, o cortejo põe-se, finalmente em marcha. Paira um
certo nervosismo. D. Carlos leva um revólver Smith & Wesson
calibre 32, que mantém na mão, fora do coldre, no bolso do capote. Atrás
da carruagem régia vai a da casa civil, a dos dignitários de serviço. De súbito,
do lado da praça, quase em frente do Ministério da Fazenda, agora estação
dos CTT, ouve-se o estalido seco duma primeira detonação. Às cinco
horas e vinte minutos, o comando dos Bombeiros de Lisboa recebe do posto
n.º 8 a seguinte mensagem: «Ouvimos agora muitos tiros aqui no Terreiro
do Paço. Próximo do Ministério da Guerra há muita gente em alvoroço.
Foi o desembarque de Suas Majestades. Bombeiro 231.» Um homem de
longo varino e barbas, vindo da placa central do Terreiro do Paço, tira
uma carabina da capa, assenta o joelho em terra e desata a disparar. É o
Manuel Buíça com a sua Winchester, que se colocou à retaguarda
da carruagem a cerca de cinco a oito metros de distância abrindo fogo
sobre o rei. Logo ao primeiro tiro acerta no pescoço de D. Carlos,
quebrando-lhe a coluna vertebral e matando-o instantaneamente. Outros tiros
soam pelo Terreiro do Paço que se transforma num campo de batalha,
enquanto o Buíça continua implacável na sua acção. Dispara um segundo
tiro atingindo o ombro esquerdo do monarca que cai para a direita sobre a
rainha. E logo,
repentinamente, um vulto franzino de rapaz, de Browning FN, de
calibre 7,65 em punho, corta o cordão de curiosos e polícias, põe o pé
no estribo do lado esquerdo da carruagem real e dispara duas vezes sobre
D. Carlos, já sem vida. É o Alfredo Costa que secunda Buíça.
Apavorada, a rainha fustiga a cabeça do homicida, que procura alvejar de
novo o monarca. Estabelece-se
a confusão do pânico. Soltam-se gritos de angústia. Procuro refúgio
nas arcadas. Vejo o príncipe D. Luís Filipe levantar-se e apontar o seu Colt,
de calibre 38, mas, antes de poder disparar, já o Costa abria fogo sobre
ele, atingindo-o na região do externo atravessando-lhe o pulmão. Embora
ferido, o príncipe consegue ainda disparar quatro tiros sobre o regicida,
que caiu por terra, onde é morto à espadeirada e a tiro pela polícia. Entretanto, o
Buíça continua a disparar, e, revelando uma pontaria espantosa, atinge o
príncipe na cabeça. A bala atravessa-lhe a face esquerda, saindo-lhe
pela nuca. O príncipe tomba na bancada da frente. Estoiram mais tiros,
quase simultâneos, cinco, dez. O infante, ao amparar o irmão, é
atingido num braço por um projéctil. A rainha esforça-se por acudir aos
filhos, recebendo nos braços o cadáver do marido. O cocheiro, ferido
numa das mãos, lança os cavalos à desfilada. Na vertigem
do terror o tenente Figueira abate o homem das barbas com uma estocada -
recebendo, apontada por ele, uma bala na coxa. Três minutos
decorridos. Outra mensagem do posto n.º 8: «5 horas e
23 minutos. Estação n.º 8. - Dizem como certo que mataram Sua Majestade
el-rei D. Carlos. - Bombeiro n.º 231.» No meio da
maior confusão, o landau real procura abrigo no Arsenal, enquanto os
restantes carros da comitiva largam à desfilada em todas as direcções. Para a
carruagem, que havia parado, subira a condessa de Figueiró, que chora e
grita, abraçada ao príncipe, que dá os últimos sinais de vida,
amparado pelo Visconde de Asseca e pelo Marquês do Lavradio. Dentro do
Arsenal, onde me encontro agora, a muito custo o corpo de D. Carlos é
retirado da carruagem, que está alagada de sangue, e daí levado em peso
para dentro da casa dos curativos, onde o príncipe real estava já
estendido numa maca de ferro de tela crua. Acomodado o
corpo do rei sobre um colchão no sobrado, colocando-lhe sob a cabeça uma
almofada, tudo sem lençol nem fronha, alguns dos presentes tentam vedar
com algodão em rama um fio de sangue que lhe assoma aos lábios. D.
Carlos tem o aspecto de ter morrido de congestão cerebral. Vêm-se-lhe as
feições congestionadas e os lábios quase pretos. Daí a uns 10
minutos, o médico Dr. Moreira Júnior que, depois de o auscultar, faz
abrir os olhos de rei, diante dos quais passa repetidas vezes a chama de
um fósforo, e lhe aproxima a mesma chama das extremidades dos dedos da mão
direita, declara o que já se sabia: D. Carlos está morto. - E o príncipe?
- pergunta alguém. - Está morto
também. Em seguida
começam a guardar os objectos que o rei trazia consigo, encontrando-se um
relógio oxidado na algibeira das calças, preso à cinta por uma corrente
de ouro, um lenço e um charuto, e nas algibeiras do outro lado
achou-se-lhe um saco de revólver, vazio, e nada mais. Não se viu
carteira alguma. Ao despir o
corpo para o médico observar as feridas, verifica-se que uma das balas
entrara justamente ao meio das costas, no ponto da comissura das espáduas,
e saíra pela barba por baixo do queixo, deixando um orifício em cruz
exactamente como uma lancetada; mais acima, perto da nuca e também no
meio, havia outro buraco de bala. |
| O CAÇADOR | |
Diz João Franco para el-rei D. Carlos: «Os republicanos estão precisando de sabre como de pão para a boca». Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
E assim,
desta forma marcada de tragédia, termina o reinado daquele que ficará
para a história com os cognomes de «O Martirizado», «O Diplomata», ou
«O Caçador». Este último devido à sua grande paixão pela caça. A este propósito,
uns anos antes, mais concretamente em 1890, o poeta Guerra Junqueiro
satirizara as práticas cinegéticas do soberano através dos versos «O
Caçador Simão», onde previa que o caçador acabaria por ser caçado,
numa clara alusão à possibilidade de a Monarquia findar pela morte
violenta do rei. Simão é o
último dos nomes próprios do rei D. Carlos. Agora, o penúltimo rei da
monarquia que dominava Portugal de aquém e de além-mar, jazia sem vida,
também ele abatido como qualquer animal de caça, diversão a que se
dedica com entusiasmo desmedido. Na verdade,
em matéria de caçadas, D. Carlos não deixa margem para dúvidas. Quer
pelo o seu apego, quer pela sua pontaria estava entre os melhores. Só na
última surtida, três dias antes da sua morte, cinco raposas, sete
perdizes, um tordo e noventa coelhos provaram o sabor das suas balas e a
certeza da sua mira. Em Vila Viçosa existe um alvo onde o rei acertou, a
uma distância de 30 passos, dez vezes consecutivas no mesmo buraco de
bala, mesmo ao centro. Senhor de uma
pontaria infalível, o monarca manuseava espingardas de caça, de guerra,
pistola ou revólver com igual exactidão e engenho. À pistola, enfiava
sucessivas balas em buracos de fechaduras. Desde os sete
anos que anda nestas lides do tiro. Aos nove deu às escondidas algum
dinheiro ao ajudante-de-campo do pai para lhe comprar uma espingarda de
dois canos, para pólvora e chumbo. Conhecido
como grande apaixonado da vida ao ar livre, D. Carlos não perde muito
tempo dentro dos gabinetes da governação. O rei leva a
vida entre as longas caçadas de Vila Viçosa, Sintra ou Mafra e a prática
de tudo o que é bom desporto na época. Joga ténis
quase todos os dias nos courts que manda fazer no palácio das
Necessidades. Monta a cavalo por tudo quanto é canto para a equitação.
Corre de bicicleta nas provas desportivas do velódromo da Palhavã. Entra
em competições com os seis Peugeots que tem na garagem. Dedica-se à
esgrima de forma exímia. Devota-se com toda a alma às coisas do mar. Quer sejam os
bons banhos na baía de Cascais ou as regatas com o iate Maris Stella
muito do seu tempo vai para a área da investigação oceanográfica onde
produz obra de reconhecido valor. A sua educação
fora orientada por alguns dos melhores mestres da altura. Júlio Joubert
Chaves inicia-o nas primeiras letras. Depois, António José Viale e Alves
de Sousa ensinaram-lhe português, latim, grego, geografia e história.
Aprendeu alemão com Schneider e Röder e inglês com Coolinggrige e
Davidson. Na química, física, matemática e história natural, foi seu
professor Augusto José da Cunha. De desenho foi primeiro mestre Teodoro
da Mota. Na música recebeu lições de Manuel Inocêncio dos Santos. Na
ginástica teve Pedro Martins e no jogo de armas contou com Petit e António
Martins. Foram o coronel Vito Moreira e Gromicho Couceiro quem lhe
ensinaram equitação e Maria Teresa de Assis Mascarenhas quem o assistiu
na educação doméstica. Teve lições de pintura com Miguel Ângelo Lúpi
e Henrique Casanova e colheu ensinamentos de zoologia do professor Manuel
Paulino e de Alberto Girard. Desportista,
caçador, cientista, agricultor e artista, dotado de um grande talento
para a pintura, D. Carlos evidencia-se, sem favor, como um dos reis mais
cultos de toda a história portuguesa. D. Carlos
vivia como rei de um País de que não desejava ter muitas maçadas. Entre
as maçadas e as caçadas não hesitava na escolha. Desde muito
cedo fizera de Vila Viçosa um local de eleição para as suas digressões
cinegéticas e de lazer relaxante. Os ministros e até o próprio
presidente do Ministério tinham de rumar até esta vila alentejana quando
havia algo a tratar ou o rei os chamava. Foi o que
sucedeu no dia anterior ao regresso fatídico de 1 de Fevereiro de 1908. Nesse dia
recebe o ministro da Justiça, que ali se desloca com um decreto elaborado
pelo Governo reunido na noite de 30 para 31. O documento
foi assinado por D. Carlos, nesse mesmo dia 31 de Janeiro. Com este novo
diploma régio o primeiro-ministro João Franco fica mandatado para
desencadear violentas acções sobre quem ousasse contra a política e o
regime vigentes. O Governo
ficava com poderes totais para meter num navio e atirar para Timor, Angola
ou outra colónia distante, qualquer indivíduo, mal fosse pronunciado por
delito político ou crime de imprensa, prevendo ainda a isenção de
julgamento e o efeito retroactivo da lei. No dia 28 de
Janeiro tinha rebentado em Lisboa um movimento revolucionário que,
praticamente, já estava condenado mesmo antes de sair para a rua. Tudo correra
mal para os conjurados, que não conseguiram levar por diante qualquer dos
seus intentos. Nas vésperas tinham sido presos alguns dos principais
cabecilhas da revolta, entre os quais Luz de Almeida, chefe máximo da
Carbonária, detido no dia 25 junto ao Jardim da Estrela. Igual sorte
tiveram João Chagas, António José de Almeida, França Borges e outros
destacados dirigentes republicanos, que vão logo parar às enxovias de João
Franco quando a este lhe chegou o cheiro do esturro. Às 4 da
tarde, ao sinal dado a partir do antigo elevador da Biblioteca, na Calçada
de S. Francisco, respondeu em força o aparato policial que esperava a
oportunidade para fazer mais algumas prisões de apreciável significado:
Afonso Costa, Ribeira Brava, Egas Moniz e mais um lote de gente influente
vai fazer companhia aos que já estavam a contas com a Polícia. João Franco
não deixa margem para dúvidas, quanto às suas intenções de esmagar
tudo o que possa causar-lhe embaraços. «Os republicanos estão
precisando de sabre como de pão para a boca», dizia ele com todo o
arrojo. Como recorda
Raul Brandão, as coisas eram de tal ordem que só se ouvia dizer: «Venha
tudo, venha o pior, venha o Diabo do Inferno que nos livre disto!» «Até as
mulheres estão furiosas com o Franco» diz Raul Brandão. «Há-as que
dizem: ‘Eu vou matá-lo!’ Mas há também quem o defenda e aplauda
como nenhum ministro foi defendido e aplaudido. Um padre franquista
barafusta em plena Rua do Ouro: ‘Eu até agora dizia que o João Franco
tinha uns c. que não cabiam em Lisboa. Agora, não, agora digo bem alto:
o João Franco tem uns c. que não cabem em Portugal!’»
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REI |
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Declara D. Carlos I: “Precisava de uma vontade sem fraqueza para levar as minhas ideias a bom fim. João Franco foi o homem que eu desejava.” Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
O penúltimo
rei de Portugal é o resultado do cruzamento de quase todas as casas reais
europeias. Tem primos espalhados pela Europa fora. Há dezanove
anos que D. Carlos é rei de Portugal. Em 19 de Outubro de 1889, na velha
cidadela de Cascais, assistira ao termo da penosa agonia de seu pai, D. Luís
I, e fora sua mãe a rainha D. Maria Pia a primeira pessoa a prestar-lhe a
homenagem. - Abençoo-te,
Carlos, para que sejas tão bom rei como foste bom filho - dissera, na
mesma altura, ao cobrir-se com os véus de viuvez, a mãe do novo
soberano. Começou, aliás,
da pior forma o reinado de D. Carlos. Logo em
Janeiro de 1890, a Inglaterra exigiu, em termos brutais, que Portugal
renunciasse ao chamado «mapa cor-de-rosa», nome dado ao projecto de se
aproveitarem as explorações portuguesas no interior do continente
africano para se estabelecer a ligação entre Angola e Moçambique. O
Governo cedeu e ordenou a retirada portuguesa de alguns territórios já
ocupados. O seu reinado
poderá dividir-se em fases distintas, correspondentes a outros tantos
aspectos da política interna e externa portuguesas. Na fase, que
decorre nos três anos que se seguem imediatamente à ascensão ao trono
do novo monarca, pretende inaugurar um período de verdadeira regeneração
nacional, que substitua a cansada demonstração partidária do governo de
seu pai D. Luís. Ao cingir a coroa, em 1889, D. Carlos ouve exortações
veementes para que exerça o poder pessoal que, na verdade, e mesmo no âmbito
da Carta, competia aos soberanos constitucionais. É António
Enes, jornalista, escritor e homem de Estado, falando-lhe do que se
esperava do jovem rei, e exortando-o a preparar-se para o governo «como
para uma luta entrecortada de incertezas e aventuras em que o afrontarão
mais adversidades do que o ajudarão os favores das circunstâncias e
serviços dos homens, de dia para dia mais acanhados de estatura e mais
falsos e egoístas de coração.» E que acentuava, como se pressentisse a
tragédia final: — «Espera-se do reinado novo uma política nova que
conserve o bom e corrija o mau da política velha: mas, por isso mesmo, o
senhor D. Carlos há-de sentir a coroa de ouro cravar-lhe espinhos na
fronte e o manto pesar-lhe nos ombros com todo o enorme peso da ventura e
da honra de um país que tão pouco faz da sua parte para ser venturoso e
conservar-se honrado.» É também
Oliveira Martins, aconselhando-o a corrigir o «indefinido sentimento de tédio
e desconsolação que tem invadido muitos dos que melhores serviços
podiam prestar ao seu país» «Em tais
circunstâncias, com tais elementos, como se pode ser Rei? De um modo só:
reinando, isto é, governando.» E acrescentava, recordando a apóstrofe célebre
de José Falcão, destacado adversário da realeza: - «Se a Monarquia nos
pode salvar, faça-o: o nosso alvo é o País e não o sistema.» Ser bom rei,
porém, não seria tarefa muito fácil para aquele príncipe de 26 anos, a
quem o pai deixou uma monarquia desacreditada, uma administração pública
feita ao gosto dos interesses dos dois partidos que se revezavam
alternadamente no Poder - o Progressista e o Regenerador - um défice de
83 400 contos e uma oposição republicana que principiara poucos anos
antes, mas que progredia rapidamente. Será
precisamente com o pretexto da falência do rotativismo partilhado durante
vários anos entre os partidos dinásticos Regenerador e Progressista que
D. Carlos se «lembra» de João Franco em Maio de 1906: «Há muito a
fazer e temos, para bem do País, que seguir por caminho diferente daquele
trilhado até hoje; para isso conto contigo e com a tua lealdade e dedicação,
como tu podes contar com o meu auxílio e com toda a força que te devo
dar.» - Anuncia o rei na carta em que convida João Franco a formar
governo. Este, não só
aceita como não demora muito a entrar em ditadura, dissolvendo o
Parlamento em Abril de 1907, contra a forte oposição tanto de
republicanos como dos demais partidos monárquicos. Do rei tem
todo o apoio para esta decisão: «São precisas obras e não palavras. De
palavras, bem sabemos, está o País farto», escreve D. Carlos na carta
que envia na altura ao chefe do seu Governo. Já algum tempo antes tinha
respondido a um pedido de demissão de João Franco com esta argumentação:
«Há muita coisa a fazer e creio que se pode e deve fazer e temos de
seguir o nosso caminho doa a quem doer.» Era suposto
que os governos resultassem da composição partidária das câmaras de
deputados e que estes resultassem da vontade dos cidadãos, expressa pelo
voto. Na prática, porém, é quase sempre o contrário que sucede. É dos
governos que resulta a composição da Câmara dos Deputados e escassíssimas
vezes perde as eleições para deputados o partido que as faz, isto é, o
partido que está no poder quando elas se efectuam. Assim, os
governos mudavam não tanto pela natural expressão da vontade do
eleitorado, mas porque o rei os fazia cair. E muitas vezes a Câmara dos
Deputados era dissolvida porque, na sua composição actual, não seria
favorável a um novo governo. A chave de
todas as escolhas é, portanto, o rei. A queda dos governos e a dissolução
das câmaras de deputados eram levados a efeito por decisão régia. É
ele quem determina a oportunidade e o sentido da mudança. Baseia-se
regularmente na opinião dos chefes partidários que considera mais
representativos, mas a decisão final é sempre dele. Da opção régia
dependiam a oportunidade e a orientação partidária que, com toda a
probabilidade, iria ser seguida no futuro mais próximo. O monarca
ficava assim sistematicamente exposto ao desgaste constante, quer, para
uns, como autor formal das crises, quer, para outros, como suporte
artificioso de situações impopulares para evitar a abertura de crises. É neste cenário
que lança João Franco na governação ditatorial e que, em Novembro de
1907 dá uma entrevista ao jornal Le
Temps, onde explica: «Caminhávamos não sei para onde. Foi então
que dei a João Franco os meios de governar. Fala-se da sua ditadura, mas
os outros partidos, os que mais gritam, pediram-me, também, a ditadura.
Para a conceber, exigia garantias de firmeza. Precisava de uma vontade sem
fraqueza para levar as minhas ideias a bom fim. João Franco foi o homem
que eu desejava.» Opinião
diversa tinham outros que, como Magalhães Lima, grão-mestre da Maçonaria,
haveria de escrever: «A ditadura franquista, com os seus
corregedores à maneira de Pina Manique, irritava a opinião, e pode bem
dizer-se que muito contribuiu para acelerar a marcha da República». Vive-se num
período em que tudo o que estava a acontecer servia para dar mais razão
aos que nunca paravam de conspirar contra o poder monárquico. «Sabe-se
hoje que foi por essa ocasião que maior incremento tomou a propaganda
revolucionária e que maior desenvolvimento tomaram as associações
secretas, cuja organização até essa data estava apenas vagamente esboçada.»
Estas palavras do franquista Álvaro Pinheiro Chagas são bem elucidativas
quanto aos efeitos da política repressiva de João Franco. A par da
repressão franquista, ia aumentando o número de fabricantes clandestinos
de bombas artesanais, que de vez em quando se davam a conhecer,
principalmente quando violentas explosões punham a descoberto as suas
actividades secretas, como acontece em Agosto e em Novembro de 1907, uma
na Rua de Santo António, à Estrela, outra na Rua do Carrião, estando
nesta última implicado o então estudante e jovem jornalista Aquilino
Ribeiro. A explosão
das bombas de dinamite na Rua do Carrião vem pôr as sociedades secretas
na lista das prioridades da polícia secreta monárquica que destaca para
as investigações um dos seus mais hábeis peritos, o agente Ciro, bem
conhecido dos revolucionários. Enquanto
isto, D. Carlos, em carta a João Franco, ia dizendo: «Quanto aos
anarquistas… não me admira que nestes momentos turvos alguns apareçam
e alguma coisa tentem; mas para isso é que nós cá estamos e por certo nem
a ti nem a mim será o medo que nos fará mudar caminho. Cada vez mais
me convenço que o caminho que nós traçamos é
o bom, para não dizer o único e portanto já sabes que me encontras
ao teu lado a ao governo, por pensamentos, palavras e obras!»
Logo de
seguida, em entrevista ao jornal francês Le
Temps, na qual o rei se reafirma solidário com o governo franquista
diz que «tudo está calmo em Lisboa, como no país» e que «só os políticos
se agitam». Contrariamente
ao que o rei pensava, o tempo era de actividade constante para
conspiradores. Todos quantos tivessem gosto pela intriga e pela aventura
dispunham de muito por onde escolher. Aberta a
todas as classes sociais e perspectivada para um objectivo mais
voluntarioso e desinibido, a Carbonária Portuguesa depressa se transforma
numa autêntica vanguarda popular. Nela cabem todos os que amam a conspiração,
todos os que desejam combater, todos os que estão dispostos a passar da
«teoria à prática».
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O REINADO |
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A rainha-mãe Maria Pia aponta o dedo a João Franco: “Diziam que o senhor era o coveiro da monarquia. Foi pior. Foi o assassino de meu filho e de meu neto.” Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Como se nada
disso lhe interessasse, o rei continuava a viver como gostava. D. Carlos não
se poupa em gastos que custam caro ao País. Muda de iate como quem muda
de camisa. O Amélia I depressa
se torna pequeno para dar lugar ao Amélia
II que não demora muito até ser ultrapassado pelo Amélia
III a que logo sucede o Amélia
IV. Entre outros
casos mais ou menos conhecidos, fala-se na compra de dois prédios na Calçada
das Necessidades que o rei adquire para os seus encontros extra-conjugais.
O País era
pobre, e se não podia ter um rico rei, muito menos podia sustentar um rei
rico. A par com a
famosa questão dos adiantamentos, que fazem da família real o maior
devedor do erário público, na Câmara dos Pares do Reino, em 1906, são
feitas acusações em que se afirma terem sido gastas nos arranjos da sala
de jantares solenes do Palácio das Necessidades, e nas iluminações eléctricas
deste Palácio e dos da Ajuda e Belém, quantias que rondam as fabulosas
somas de 131 891$715 réis para o primeiro caso e 354 082$333 réis para
os segundos. Desde 19 de
Outubro de 1889 que D. Carlos recebe um conto de réis de vencimento por
dia, importância que junto à dos vencimentos dos seus familiares custa
ao País mais de 520 contos anuais, soma esta muito superior às que
recebem as famílias reinantes de países mais ricos como a Noruega e a
Dinamarca onde esses vencimentos são, respectivamente, de 1 203 200 e 481
700 coroas, ou seja, em réis 301 040$640 e 120 520$080 contos. D. Carlos não
via com agrado que a questão dos adiantamentos à casa real fosse tratada
nessa altura: «Estamos diante de uma fogueira, que desejamos apagar, e não
se apaga fogo lançando-lhe lenha», dizia em carta a João Franco. Usando da
palavra sobre a escandalosa questão, Afonso Costa, destacado dirigente da
oposição republicana, em plena sessão das Cortes chega a proferir: «Por muito
menos crimes do que os cometidos por D. Carlos I rolou no cadafalso a cabeça
de Luís XVI!» Estava-se no
dia 20 de Novembro de 1906. Decorria a sessão n.º 34 da Câmara de
Deputados. O político republicano, aludindo às dívidas que o soberano
tinha para com o tesouro público, ia dizendo: «E mais
ordena o povo, solenemente, que, logo que tudo esteja pago, diga o Sr.
Presidente do Conselho ao Rei: - Retire-se,
Senhor, saia do País, para não ter de entrar numa prisão, em nome da
lei!... Vozes: -
Ordem! Ordem! (Levanta-se
sussurro.) O Sr.
Presidente (agitando a campainha): - Peço ordem. (A agitação
aumenta progressivamente. Todos os Srs. Deputados estão de pé.) O orador
(conseguindo dominar o tumulto): Por muito menos crimes do que os
cometidos por D. Carlos I rolou no cadafalso, em França, a cabeça de Luís
XVI! O Sr.
Presidente (agitando a campainha): - Peço ordem. Ou o Sr. Afonso Costa
retira as últimas expressões emprega das ou terá de lhe ser aplicado o
regimento. O orador: -
Por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI! Vozes: -
Ordem! Ordem! (Grande
sussurro e agitação.) O Sr.
Presidente: - Proponho à Câmara a censura regimental ao Sr. Deputado
Afonso Costa. Consultada, a
Câmara resolveu afirmativamente. O Sr.
Presidente: - A Câmara resolveu aplicar ao Sr. Afonso Costa a censura,
com suspensão de exercício das suas funções de deputado. Convido V.
Ex.ª a sair. O Sr. Afonso
Costa: - Eu respondo pelos meus actos! (O Sr.
Deputado diz outras frases que não são ouvidas na mesa dos taquígrafos.) O Sr.
Presidente: - V. Ex.ª não pode falar. Convido-o a retirar-se do edifício
das Cortes. (Recrudesce o
tumulto.) Vozes: -
Saiam todos! O Sr.
Presidente: - Está suspensa a sessão. Convido todas as pessoas
presentes, que não são deputados, a ausentarem-se da sala. Eram 5 horas
e 3 quartos da tarde. Recusando-se
o Sr. Deputado Afonso Costa a aceder ao convite da Presidência, entra na
sala a força armada, que o acompanha até fora do edifício.» O país vive
dias amargos. A todo o momento surgem novos confrontos com as forças
policiais. D. Carlos escreve a João Franco e incita-o: «seja como for e
suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta
seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca, parar é
morrer, e eu não quero morrer assim… nem tu!» «Sem luta não
há prazer em vencer, e a vitória sem combate, e combate sério, nunca é
uma vitória duradoura», declara o monarca. A contrastar
com esta determinação estão as dúvidas que se ouvem por todo o lado. Até mesmo os
grandes partidos do constitucionalismo monárquico procuram manter-se a
uma certa distância de João Franco. Os
progressistas de Luciano de Castro e José de Alpoim aconselham reacção
enérgica contra a Ditadura, enquanto, por seu turno, os regeneradores
marcam uma posição de franca hostilidade ao Governo, com o seu chefe,
Hintze Ribeiro, a falar nestes termos: «Ninguém é
mais monárquico do que eu, mas quero a Monarquia aliada à Liberdade e não
ao Absolutismo. É assim que eu sou monárquico. Mais um ano deste Governo
e Portugal tornar-se-á republicano.» Mas a violência
franquista não estava para perder sem-cerimónia a sua brutalidade. No dia 31 de
Janeiro, João Franco consegue convencer o rei a assinar um decreto que
agrava grandemente a situação dos oposicionistas detidos nos cárceres
da ditadura. Era o tal
decreto que, no fundo, habilitava o Governo a eliminar todos os
discordantes da sua política e é a última recordação que o monarca
vai deixar ao povo. Ao assiná-lo,
parece que ainda murmurou: «Assino a
minha sentença de morte.» Na verdade,
na tarde do dia seguinte, D. Carlos caía às balas de dois carbonários
que, no dizer de vários depoentes, em princípio, «apenas» se dispunham
a eliminar o ditador João Franco. No dia 1 de
Fevereiro de 1908, nenhumas providências excepcionais foram tomadas
porque para João Franco não havia razões algumas para tal… D. Manuel
alude a este facto no seu diário: «Aquele Terreiro do Paço estava
deserto, nenhuma providência! Isso é que me custa mais a perdoar ao João
Franco.» Da velha
rainha-mãe Maria Pia ouve incriminações contundentes: - Diziam que
o senhor era o coveiro da monarquia. Foi pior. Foi o assassino de meu
filho e de meu neto. «A vossa
obra, Senhor Presidente», teria dito ao chefe do Governo a rainha-mãe,
D. Maria Pia, indicando-lhe os cadáveres do filho e do neto estendidos no
chão do Arsenal. «Se», dirá
mais tarde o antigo ministro da monarquia António Cabral, «o Sr. João
Franco tem abandonado o poder, desse por onde desse e houvesse o que
houvesse, em vez de ir para a ditadura!... Quantos desgostos profundíssimos
teria poupado à sua alma alanceada! De quantos danos teria livrado o País!
Quantos desastres, quantos crimes, quantos infortúnios teria evitado!...»
A consumação
do regicídio foi um acto descaradamente público enquanto perpetuado por
homens a cara descoberta. Porém, nunca suficientemente esclarecido ao
ponto de se saber muito mais do que aquilo que todos viram no Terreiro de
Paço. Falou-se
sempre de outros cúmplices que, inclusive, estiveram envolvidos
directamente no atentado do Terreiro do Paço. Um grupo de
que faziam parte além de Buíça e Costa, um tal José Nunes e outros,
teria reunido na Quinta do Xexé, aos Olivais, e ali, na madrugada de 1 de
Fevereiro, combinam o plano que os encaminha desde cedo para o local onde
tudo irá acontecer. Manuel José
dos Reis da Silva Buíça, de 32 anos, transmontano natural de Bouçais,
professor num colégio privado, antigo sargento do Exército medalhado
como atirador de 1ª classe e Alfredo Luís da Costa, de 23 anos,
alentejano natural de Casével, caixeiro, antigo empregado dos Grandes
Armazéns do Chiado, são executores que desaparecem tão rápido como
tinham aparecido. Na manhã de
dia 1, Alfredo da Costa foi a casa de Meira e Sousa, na Rua Nova do
Almada, onde conta ao director do jornal O País tudo o que está
para acontecer. Este tenta dissuadi-lo e faz até menção de lhe fechar a
porta, porém nada consegue face à reacção de Costa que tira de um
bolso a pistola e volta o cano contra si próprio e diz: - Ou me deixa
sair ou mato-me já aqui!... «Tem que ser…». Prossegue o futuro
regicida. «Agora peço-lhe ainda uma coisa. Uma obra de caridade… É
que eu não escapo… Tenho uma irmã; é uma garota que está na minha
terra… Proteja-a; faça por ela o que puder…» Cerca das 5
horas da tarde, portanto, mais ou menos meia hora antes do atentado, o
mesmo Meira e Sousa, subindo a Rua do Ouro, cruza-se com o Costa e
comparsas, que, por sinais, o saúdam dirigindo-se para o Terreiro do Paço
a caminho do local onde vão praticar a proeza. Meira segue
em direcção ao Rossio, ali permanecendo na companhia do armeiro Heitor
Ferreira, que terá sido o importador da carabina alemã com que o Buíça
haverá de, momentos depois, matar o príncipe real. A morte do
rei traz o desânimo às fileiras monárquicas que não poupam o chefe do
Governo, apontando-o como o principal culpado do que tinha acontecido no
Terreiro do Paço. Quando o
tentaram avisar de que a vida do rei corria sério perigo responde: «Pois
quê? É lá possível tocar em el-rei... Todas as medidas estão tomadas.
Há polícia em Vila Viçosa, a linha do caminho-de-ferro está vigiada.
Que mais quer? Boatos, sempre boatos…». O próprio
rei desconfiava do ambiente que o circundava. Não ignorava que a sua vida
andava em perigo permanente. Quando lhe falavam das circunstâncias ameaçadoras,
a resposta invariavelmente era esta: - As minhas armas estão sempre
carregadas. E um dia,
denunciando a sua apreensão, chama João Franco e diz-lhe: - Oh! João,
tu disseste que irias caçar no terreno dos republicanos. E se eles caçam
a minha pessoa ou a tua? - Pessoa alguma se atreveria, meu senhor (foi a
resposta). - Eu sei lá,
João... eu sei lá. D. Carlos
sentia que havia algo que não estava correcto; e um dia, passeando com o
seu ajudante, tenente-coronel José Lobo de Vasconcelos, desabafa: «Tu
julgas que eu ignoro o perigo em que ando? No estado de excitação em que
se acham os ânimos, qualquer dia matam-me à esquina de uma rua. Mas, que
queres tu que eu faça? Se me metesse em casa, se não saísse, provocaria
um grande descalabro. Seria a bancarrota. E que ideia fariam de mim os
estrangeiros, se vissem o rei impedido de sair? Seria o descrédito. Eu,
fazendo o que faço, mostro que há sossego no País e que têm respeito
pela minha pessoa. Cumpro o meu dever. Os outros que cumpram o seu.» «O rei
morreu na tarde do 1.º de Fevereiro, no Terreiro do Paço. A Monarquia
morreu essa noite, no Paço das Necessidades», escreve alguns meses
depois um jornal republicano. Penúltimo e
trigésimo segundo soberano de Portugal, D. Carlos foi uma figura histórica
incontornável, tendo reinado num dos mais conturbados períodos da vida
política nacional. Portugal que
D. Carlos tem para reinar é aquele que Guerra Junqueiro retrata no poema Pátria,
com um vigoroso quadro do País no fim do século. É um texto que ilustra
a atitude derrotista e o mito da decadência. Destacam-se algumas afirmações
como as que se seguem: «- Os políticos: «Dois
partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra
ou uma gota de sangue. Um partido
republicano composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos
ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de
barricada, com um estado-maior pacífico e desconexo de velhos doutrinários,
moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores.» - A
burguesia: «Uma
burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não
discriminando já o bem do mal.» - O clero: «Um clero
português desmoralizado e materialista, um clero jesuítico, estrangeiro
ou estrangeirado, força superior cosmopolita, invencível, adaptando-se
com elasticidade inteligente a todos os meios e condições.» - O exército: «Um exército
que importa em 6000 contos não valendo 60 réis, como elemento de defesa
e garantia autonómica.» - O povo: «Humilde e
macambúzio, fatalista e sonâmbulo, não se lembrando nem donde vem, nem
onde está, nem para onde vai, um povo que eu adoro, porque sofre e é
bom.» - A economia: «Um regime
económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de
capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo
de si próprio. Humanizar o
ensino, nacionalizar a indústria, um clero português e cristão, a justiça
fora da política, o exército fora de S. Bento, os burocratas para a
burocracia, o professorado para as escolas, o poder legislativo entregue
às forças independentes e vivas do País, arrotear o solo, colonizar a
Africa — tudo era possível, tudo era simples desde que nos dessem uma fé,
uma crença, vida luminosa, uma alma!»
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