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D. AFONSO HENRIQUES

Pai da pátria portuguesa: 1109 - 1185

Angela Dutra de Menezes

De História ela sabe, e muito. Mas a irreverência tropical toma-lhe o braço e a Angela começa a espanejar a poeira que deixámos acumular sobre os vultos primeiros de Portugal. Já sacudido, aí vem o Fundador. Vamos lá aproveitar para meter conversa... 
FCS

D. Afonso henriques - estátua de Soares dos reis (1887) - a biografia do escultor também se encontra neste site.

IMPLACÁVEL, NOSSO REI APRONTA NOVIDADES...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1109: Provável ano de nascimento, em Coimbra, do infante Afonso Henriques, filho do conde Henrique de Borgonha e de dona Teresa, bastarda do rei Afonso VI de Castela e Leão. No mesmo ano morre Afonso VI. Início da disputa entre dona Urraca, a herdeira legítima, dona Teresa e vários outros pretendentes ao trono. A briga pelo poder dura anos. - 1122: Afonso Henriques antecipa em sete séculos um gesto de Napoleão Bonaparte. Ignorando o cardeal que presidia a cerimônia, arma-se cavaleiro na catedral de Zamora. - 1128: Afonso Henriques luta contra a mãe, dona Teresa, e seu aliado, o conde galego Fernão Peres de Trava. As tropas de Afonso Henriques e dona Teresa se enfrentam no campo de São Mamede, junto ao castelo de Guimarães. O exército galego é derrotado. Esta vitória leva dona Teresa a desistir da idéia de anexar a região portucalense ao reino da Galícia. - 1129: No dia 6 de abril, Afonso Henriques dita uma carta em que se proclama soberano das cidades portuguesas. - 1135: Afonso VII, filho de dona Urraca, é coroado “imperador de toda a Espanha” na catedral de Leão. Afonso Henriques se recusa a prestar vassalagem ao primo. - 1137: Paz de Tui. Após lutar com Afonso VII no Alto Minho, Afonso Henriques promete ao imperador “fidelidade, segurança e auxílio contra os inimigos”. - 1139: Batalha de Ourique. Afonso Henriques vence cinco reis mouros. - 1140: Afonso Henriques começa a usar o título de Rei. - 1143: Provável Tratado de Zamora no qual estabelece a paz com o primo Afonso VII. Primeiro passo para a independência portuguesa. Afonso Henriques escreve ao Papa Inocêncio II e se declara  - e a todos os descendentes - “censual” da Igreja de Roma.  A palavra “censual” significa que Afonso Henriques é obrigado a prestar obediência apenas ao Papa. Na região que governa, portanto, nenhum outro poder é maior que o dele. - 1147:  Afonso Henriques expulsa os mouros de Lisboa e várias outras cidades portuguesas. - 1169: Afonso Henriques é feito prisioneiro pelo rei de Leão, Fernando II. - 1179: A Igreja Católica reconhece, formalmente, a realeza de Afonso Henriques. - 1180: Final dos conflitos com Fernando II, de Leão, pela posse de terras na região da fronteira e costa da Andaluzia. - 1185: Afonso Henriques morre na cidade em que nasceu. Sua herança, além de imensa fortuna, é o Condado Portucalense, primeiro território europeu que estabelece sua identidade nacional.

 

“... não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”   
(Manuel Bandeira, Poética)

Torre de menagem do Castelo de Guimarães

 

Ninguém merece mais este título que o infante Afonso Henriques, filho de dona Teresa, bastarda do rei Afonso VI de Leão e Castela, e do conde Henrique de Borgonha. Pouca gente sabe. Mas, graças à esperteza política de Afonso Henriques, Portugal é a primeira nação européia a se estabelecer como Estado independente. Antes do ano 1200, Portugal já é Portugal. Com direito, inclusive, a língua própria: o galaico-português.

Gênio, estadista, raposa política, vitorioso, implacável, espertíssimo: Afonso constrói uma história rocambolesca. Tudo que pode manipular a seu favor, manipula sem escrúpulos.  Inicia a trajetória de vitórias fundando um reino. Para tanto, manda mamãe para o espaço sem sequer dizer adeus. Naquele tempo, porém, ninguém cogita a possibilidade de Portugal ser conseqüência de um Complexo de Édipo mal resolvido. Até porque, Freud ainda não pensa em nascer.

O avô de Afonso Henriques destaca-se como um dos homens mais poderosos de sua época.  Amigo pessoal de Santo Hugo - que não sabe que será santo, mas já constrói a Abadia de Cluny, o maior templo que a cristandade jamais erguera - ,  Afonso VI tira do bolso, ou dos cofres públicos, grande parte dos recursos que financiam o sonho de Hugo. Bem relacionado com os outros reis cristãos, influente, excelente jogo de cintura, Afonso VI, entre uma e outra doação a Cluny, consegue casar sua bastarda com um dos condes de Borgonha - família finíssima, não é assim, toda hora, que um Borgonha se mistura à gente mal nascida.

Mas Afonso VI embrulha a oferta para presente: Henrique leva Teresa e, de quebra, o Condado Portucalense, terras a oeste de Castela que, há tempos ensaia a gracinha de viver por conta própria.  Afonso VI, sabendo das estrepolias portucalenses, resolve matar dois coelhos com uma cajadada só. Em 1092, reúne as duas unidades condais da região – ao norte e ao sul do rio Douro – e determina que o novo e único condado pertencerá à Teresa – e ao marido dela, claro. Urraca, a filha legítima, sentará no trono de Leão e Castela, como ensinam as regras da moral e dos bons costumes.

Mais do que bom e preocupado papai, Afonso VI tenta ampliar seu poder e garantir domínio sobre maior extensão de terras. Tiro pela culatra. Tão logo o rei de Leão e Castela mete o bedelho no Condado Portucalense, a nobreza local inicia forte movimento separatista.   

Coitado de Henrique de Borgonha, estrepa-se nesta história. Além de  gerar a  genialidade de Afonso Henriques, pouco lucra com o casamento. Fica zanzando em Portucale, tentando ajudar ao filho. Mas o rebento é rebelde e dispensa-lhe os palpites. Dom Henrique, francês chiquérrimo, se aborrece.  Assusta-o a idéia de passar para a posteridade qual simples reprodutor. Mas a culpa é do sogro. Afonso VI, ao engendrar a novela, comete um de seus  poucos erros políticos: não leva em conta nem o bairrismo do Condado Portucalense, nem a possibilidade de alguém armar uma falseta.

 

“...um poder mais alto se alevanta...”

(Camões, Os Lusíadas)

Afonso Henriques, ele mesmo, sagra-se cavaleiro. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
 

 

 

 

 

 

 

 

Arma – quem é avô de estadista, deve tomar precauções. Afonso Henriques tem 20 anos quando Afonso VI morre. Se famílias se estraçalham pela  baixela de prata da vovó, imaginem quando o motivo é o poder de uma coroa. Desentendem-se todos. Urraca discute com o Bispo de Compostela, atrita-se com rei de Aragão, cospe desaforos para o conde da Galícia, faz e acontece. Acometida de olho-grande, síndroma que costuma atacar herdeiros menos favorecidos, Teresa desanda a arquitetar alianças desastrosas – quem sai aos seus, não degenera.

De repente, Teresa dá o passo fatal. Arquitetando anexar Portucale à Galícia,  alia-se aos galegos, tradicionais rivais dos barões de Portucale.

É desconhecer o filho, menino que emite sinais de seu gênio – no bom e no mau sentido - aos 13 anos. Nesta idade, na cerimônia em que o sagram cavaleiro, na catedral de Zamora, Afonso Henriques manda às favas o bispo e ele mesmo sagra-se. Recusa a mediação divina. Igualzinho Napoleão, alguns séculos mais tarde – pena o infante não falar francês, língua dos sofisticados, nenhum compêndio de história esqueceria tal feito.

 Dizem, não há provas documentais, que o avô fica orgulhosíssimo com a petulância do fedelho - é pena que tanto talento evapore em Portugal, comenta Afonso VI. Fofoca, naturalmente. Portugal e Espanha cultivam uma antipatia milenar, todo mundo sabe e não perde ocasião de jogar lenha na fogueira.

Enfim, com tal filho nas mãos, dona Teresa, além de se aliar aos galegos, aparece com outro conde debaixo de braço, contando uma história trôpega de “apoio político”. Arma-se o circo. Com 21 anos, Afonso Henriques cerca Guimarães e declara uma briga de gafieira: quem está fora, não entra; quem está dentro, não sai. Nem mamãe, suposta rainha do condado.

É bom que se diga: igual ao avô, o infante não dá ponto sem nó. Fareja que, com poucas chances na linha sucessória de Leão e Castela, precisa descobrir o próprio espaço.  Quer o poder, seu lugar é no condado materno.

Tudo aponta para o fato de que o infante apenas capitaliza o desagrado da nobreza portucalense. Desagrado que se acentua quando Teresa enfia os galegos no caldeirão. O esperto Afonso Henriques já andava observando  que, além do anseio de se libertar de Castela, as cidades de Portucale identificam-se cultural e ideologicamente. Para ele, não parece tarefa difícil transformá-las em uma só força política. Teresa apenas fornece a justificativa para o infante virar a mesa. 

 

“Eu tenho apenas duas mãos,
 
E o sentimento do mundo...”

(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo)

Conde D. henrique de Borgonha (in catedral de Santiago de Compostela).

 

Contando assim, parece fácil. Não é, senão qualquer pessoa faria. Afonso Henriques tem enorme sensibilidade. Age na hora certa, com as pessoas certas, da maneira certa. Não falseia. Comporta-se como perfeito animal político do início ao fim de sua história. Faz a História, coloca o mundo nas mãos. Tolos são os que o cercam, incapazes de observar a genialidade do príncipe enquanto ele arma o bote.

Os habitantes de Guimarães, liderados pela nobreza e pela burguesia, recebem o infante libertador de braços abertos. Existe uma carta documentando este apoio. Teresa ainda tenta combatê-lo. A batalha acontece em 1128, no campo de São Mamede, perto do castelo de Guimarães. Primeira vitória do infante. Ele mesmo se surpreende com a facilidade com que derrota o exército galego e expulsa a rainha e seu conde. Em documento, ditado a alguém de letras, declara: “Eu, o infante Afonso, filho do conde Henrique, livre já de toda a opressão,...., na posse pacífica de Coimbra e todas as cidades de Portugal...”

 

“...Se governar fosse fácil,
    não seriam necessários espíritos iluminados...”

(Bertold Brecht, Dificuldade de governar)

 

 

 

 

 

 

 

O infante custeia a construção da catedral de Braga. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

Pronto, o Condado Portucalense começa a escorregar para dentro de seu bolso. Daí para frente, cabe a ele segurar a peteca e combater quem lhe atrapalhar os sonhos. Combate e vence. Quando não vence pela força, moedas de ouro resolvem a situação – ah, a corrupção, não é de hoje que nos persegue.

Os inimigos principais são os mouros, aboletados na maior parte do território português. Mas o primo Afonso VII e Fernando II, ambos de Castela, também levam umas cacetadas. Este último, prenderá Afonso Henriques em Badajoz e se espantará com a riqueza do rei português. De resgate, Afonso Henriques pagará quase duas toneladas e meia de ouro. Na maior facilidade e sob os delirantes aplausos dos conterrâneos que não queriam perdê-lo de jeito nenhum.

Para alcançar tal prestígio, Afonso Henriques sua. Passa a vida combatendo e costurando acordos políticos. O primeiro, com a Igreja Católica, pedra angular do qualquer poder durante a baixa Idade Média. Quem não recebe a benção episcopal que trate de procurar novo emprego. Logo após a vitória de São Mamede, Afonso Henriques estabelece suas relações com a Igreja: cede em tudo. Sabe onde pisa, os clérigos têm força demais para serem contrariados.

Em troca de apoio amplo, geral e irrestrito, o arcebispo de Braga recebe a garantia de seus privilégios: direito de cunhar moedas e autoridade absoluta sobre a cidade. Não satisfeito, o infante custeia a construção da catedral de Braga, abarrota os piedosos cofres, reconhece a autoridade divina sobre a sua e prestigia os eventos da fé. Espanto: os arcebispos de Braga cumprem sua parte. Durante os quase 60 anos de reinado, não abandonam Afonso Henriques. Uma relação perfeita, se casamentos transcorressem assim, advogados de família morreriam de fome.

A raia miúda conventual colabora da melhor maneira possível. Em textos da época, monges do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, não economizam elogios a Afonso Henriques: “prudente, sábio, inteligente belo, gigante, leão rugidor” – quase uma comissão de frente. Depois da batalha de Ourique, então, os frades passam a delirar. Na opinião deles, Afonso Henriques é o “eleito de Deus para provar a autonomia de Portugal e dos portugueses”.

Antes da Batalha de Ourique, um divisor de águas na vida de Afonso Henriques e na História lusitana, o infante contorna outros problemas. O primeiro, mostra ao clã castelhano que a conversa mudaria.

 

“Chegado tinha o prazo prometido,
 
Em que o rei castelhano já aguardava
 
Que o príncipe, a seu mando sometido,
 
Lhe desse a obediência que esperava...

(Camões, Os Lusíadas, canto terceiro)

 

 Rainha D. Urraca de Leão e Castela (in catedral de Santiago de Compostela).

 

Em 1135, sepultadas as controvérsias sobre a sucessão de Afonso VI, o filho de dona Urraca sobe ao trono com o título de Afonso VII. A cerimônia na catedral de Leão é apoteótica, o novo rei exibe luxo excessivo. Da família, só Afonso Henriques não comparece. A intenção parece clara: mostrar, de uma vez por todas, que o Condado Portucalense não presta vassalagem ao soberano de Leão e Castela e que Afonso Henriques considera-se tão rei quanto o primo recém-coroado.

Afonso VII retalia a desfeita e os dois trocam sopapos. Em 1137, porém, assinam a Paz de Tui,  onde Afonso Henriques promete a prestar a Afonso VII “fidelidade, segurança e auxílio contra os inimigos”. Não existem documentos claros sobre este período mas, provavelmente, nosso infante levou uma corrida. Não corresponde à personalidade dele assinar documentos humilhantes. A sorte é que desrespeita o compromisso – ou não seria Afonso Henriques. Em 1143, o papa Inocêncio II precisa enviar um cardeal para apaziguar os primos. Porém, antes, acontece Ourique. Milagre, juram alguns. Tramóia de Afonso Henriques, aponta a lógica. Afinal, convenhamos, Jesus Cristo não flana por aí, batendo papo com infantes, na maior naturalidade.

...Cinco escudos azuis esclarecidos,
    
em sinal destes cinco reis vencidos...”

(Camões, Os lusíadas, canto terceiro)

D. Afonso Henriques e a batalha de Ourique. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imperador Afonso VII, de Leão Castela (in catedral de Santiago de Compostela).

 

Tudo sobre Ourique são conjeturas.  Mas a história é tão importante que marca o imaginário português, permanece no brasão do país - cinco escudos, cinco quinas, cada qual com cinco bolas representando os cinco reis mouros degolados na batalha – e, finalmente, transforma Afonso Henriques em rei de fato e de direito. Até hoje, historiadores portugueses discutem o episódio.

Alexandre Herculano encarrega-se de tornar a batalha ainda mais célebre ao afirmar que “Ourique não passa de uma lenda”. Deus nos acuda, Portugal vem abaixo. Acusam-no de herege – é bom lembrar que último herege lusitano tinha ido parar na fogueira apenas um século antes, tempo historicamente insignificante  - de anti-clerical, de ateu, de agnóstico, de... Bem, deixa para lá. Se gritam algo pior, a memória não registra.

Historiadores contemporâneos, entre eles José Hermano Saraiva, tendem a colocar Ourique no devido lugar. De concreto, sabe-se que ocorre uma batalha no dia 25 de julho de 1139, que o exército mouro é numericamente superior e que a vitória cabe a Afonso Henriques. Desconfia-se, também, que Afonso VII, naquela altura sitiando Aurélia, cidade moura de enorme importância estratégica, ajuda a meter o primo na enrascada. Ao receber a notícia que o infante pratica uma razzia – tipo de combate usado pelos portugueses, que gostam de se infiltrar em território inimigo, surpreendê-los, destruí-los e fugir correndo –, Afonso VII mexe seus pauzinhos, desviando o exército islâmico que marchava em socorro à Aurélia, para destruir o infante. Pode ser, a participação de Afonso VII não passa de mais uma hipótese.

Nem o local da batalha é preciso. A cidade de Ourique fica tão ao sul de Lisboa, tão no interior dos territórios mouros, que parece impossível o infante ter se arriscado tanto. No entanto, há registros de outras razzias ousadas. Por outro lado, no início da Idade Média, chamava-se de Ourique o Baixo-Alentejo. Lenda e História não decifram estes mistérios.

A versão popular da batalha de Ourique conta que Afonso Henriques combate imenso exército islâmico, mata cinco reis mouros e coloca o resto da multidão para correr. Tudo em um dia. Especial favor de Cristo Nosso Senhor que, na véspera, aparece ao infante com quem conversa amigavelmente. Apenas Afonso Henriques vê Cristo - que, aliás, surge escoltado de anjos – e apenas Afonso Henriques ouve-o garantir a próxima e espetacular vitória portuguesa.

O moral da soldadesca alcança as nuvens quando eles sabem quem lhes fizera uma visitinha. Além do mais, 25 de julho é dedicado a Santiago, o mata-mouros, santo que jamais abandona cristãos em perigo. Especialista em degolas, Santiago trabalha com eficiência invejável – aparentemente, é o primeiro ser do planeta a conhecer o lugar exato das carótidas, não perde uma. Hoje, parece, aposentou-se. Como se vê, tudo colabora para o sucesso do infante.

Batalha vencida, povo em delírio, igreja desvanecida. O infante passa a se assinar “rei dos portugueses”. Neste momento, define-se a  identidade lusa. Afinal, Ourique estabelece o importante diferencial: em que outro lugar o rei conversa, ao vivo e em cores, com as hostes celestiais?

Em 1143, quando o Cardeal Guido de Vico, emissário do papa,  reúne o infante e Afonso VII em Zamora, território de Leão, para tentar convencê-los que a animosidade entre ambos favorece aos infiéis, Afonso Henriques joga outra cartada genial. Alegando o milagre de Ourique, escreve a Inocêncio II, reclamando para si e seus descendentes, o status de “censual”. Ou seja, dependente apenas de Roma. Dentro de seu território manda ele e só ele – estamos conversados.

O Vaticano custa a responder. Na verdade, exatos 36 anos. E só responde depois que Afonso Henriques acelera o processo com uma esmolinha de mil moedas de ouro. Quando, em 1179, a Igreja de Roma, finalmente,  reconhece a realeza de Afonso Henriques, o reconhecimento já não tem importância. A independência se consumara, Portugal afirmara sua soberania e o infante encerrava a vida como rei de primeira grandeza. 

Em Zamora, do encontro entre os primos e o cardeal, Afonso Henriques colhe um lucro imediato. Afonso VII tira o cavalinho da chuva e entende que o infante português jamais lhe prestará vassalagem. Por conta própria, começa a tratá-lo de igual para igual.

Engana-se quem pensa que a vida de Afonso Henriques resume-se a trançar fofocas políticas, fazendo e desfazendo aliados. O homem parece uma fera. Combate ao lado dos soldados, comportando-se como igual, sem frescuras de hierarquia. Sua tropa mais que o respeita: venera-o . Obedece qualquer ordem.

 

“... sangue seco nas roupas, olhar duro,
     
na roupa o crime escrito...”

(Carlos Drummond de Andrade, Os assassinos)

D. Afonso Henriques (séc. XII, in Museu do Carmo, Lisboa).

 

Com a desculpa de empurrar infiéis de volta aos locais de origem, Afonso Henriques amplia o território português: Lisboa, Santarém, Almada, Óbidos, Palmela, Sesimbra. Combate após combate, destruindo mouros como quem destrói ratos, Afonso Henriques constrói seu reino. Na reconquista, a política é de terra arrasada: matar quem se movia, queimar o resto. Quase um milênio antes de os americanos levarem uma corrida dos subnutridos guerrilheiros vietcongs, Afonso Henriques adota táticas de guerrilha. Comandando um exército pequeno, ele entende que sua vantagem mora no elemento surpresa. Os generais da época pedem os sais com tamanha ousadia - como se, para morrer, fosse realmente necessário seguir um figurino.

Nosso rei apronta novidades. Quando prevê combates longos, contrata mercenários. Geralmente cruzados, a caminho da Terra Santa, que aproveitam a escala em Portugal para degolar  islâmicos e recolher o produto do saque – promessa do rei.  O cerco de Lisboa, em 1147, segue este modelito. Entre portugueses e cruzados ávidos por lucro fácil, Afonso Henriques reúne centenas de milhares de homens e cerca de 150 navios.

A reconquista de Lisboa é um triste e belo episódio da História portuguesa.  Afonso Henriques exagera na violência. Redime-se, mais tarde, com  a Carta de segurança de 1170 que proibirá cristãos e judeus de maltratar os mouros da região de Lisboa. Definitivamente, El Rei aprecia grandes e inesperados gestos.

Sorrateiro, costuma agir por baixo dos panos, pré-estréia do jeito luso-brasileiro de ser. O bandoleiro Geraldo Sem Pavor, que saracoteia desenvolto em terras de Castela, provavelmente trabalha para Afonso Henriques. Se o infante não pode invadir propriedade alheia, um preposto oficioso pode. Não há como provar. Mas os cavaleiros de Geraldo Sem Pavor pertencem ao Conselho de Coimbra, é difícil imaginar tais cidadãos combatendo sem aprovação real.

O infante que pretende ser rei, vira um mito. É impossível separar verdade e lenda na biografia de Afonso Henriques. Ele antecede seu tempo, revela-se um gênio de extraordinária visão política e indiscutível coragem moral. Dele, restam poucos registros escritos pelos monges de Santa Cruz - até porque, além dos monges, ninguém mais sabe escrever, nem Afonso Henriques.

 

“...Sapatos bordados a ouro,
     Esmeraldas e rubis,
     Ametistas para os dedos, vestidos de diamantes,

     Escravas para servi-la...”

(Jorge Amado, Alegre Menina)

 

Os relatos da época – descontados os elogios de praxe -   delineiam um perfil justo, generoso e irreverente. Retratam o caráter corajoso, sujeito a crises de cólera, capaz de atos de violência e de reconhecer seus erros.  Elogiam a frugalidade à mesa e ressaltam a tendência conquistadora. Não apenas de poder e terras. De mulheres, também. Ou principalmente. 

Casado com a discreta Mafalda de Sabóia - com quem tem sete filhos, entre eles, o herdeiro Sancho –, Afonso Henriques abençoa quatro bastardos. Um documento de 1184, descortina o inesperado pai carinhoso. Quando uma de suas filhas legítimas casa com o conde de Flandres, Afonso Henriques não titubeia. Para alegrar a noiva, enche vários navios com o que existe de mais fino. As naus saem do porto de Lisboa abarrotadas de vestidos bordado a ouro, jóias preciosas, sedas, mais ouro, mais jóias, tudo que pudesse alegrar a menina alegre, filha de pai poderoso.

 

“Que destino é o meu senão o de assistir o meu destino...”

(Vinicius de Moraes, A vida vivida)

Brasão de D. Afonso Henriques, segundo a intrepretação de um artista anónimo do séc. XVIII.

O testamento de Afonso Henriques, primeiro rei do primeiro país europeu a adquirir consciência de nacionalidade, revela que, até na morte, ele se comporta como estadista. Sua imensa fortuna, amealhada em mais de meio século de guerras e saques, confunde-se com o próprio tesouro português. O rei a destina ao fortalecimento da nação. Por ordem dele, centenas de milhares de maravedis são entregues à defesa - El Rei pressente que os mouros preparam um contra-ataque. Outra centena de milhares constróem hospitais e sustentam ordens religiosas e militares. Os mais pobres recebem seu quinhão. Erguem-se igrejas e catedrais. Conventos acolhem doações e sustentam-se anos.

Ao herdeiro, Sancho I, Afonso Henriques deixa a única recomendação geopolítica: a construção de uma ponte entre o norte e o sul do país para  não se perder a unificação que ele custara fazer e manter. Pena que não existam registros se Sancho obedeceu, ou não, às ordens paternas.

Afonso Henriques, o pai da pátria portuguesa, morre no dia 6 de dezembro de 1185,  em Coimbra, mesma cidade onde nasceu. Seu corpo é enterrado no Mosteiro de Santa Cruz.

 

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