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CRUZ E SOUSA
Poeta: 1861 - 1898
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1861: Nasce João da Cruz, em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis, capital do Estado de Santa Catarina), a 24 de Novembro. Filho de Guilherme da Cruz, mestre pedreiro, e Carolina Eva da Conceição, lavadeira, ambos negros e escravos, alforriados por seu senhor, o coronel Guilherme Xavier de Sousa. Do coronel, o menino João recebeu o último sobrenome e a proteção, tendo vivido em seu solar como filho de criação. - 1869: Aos oito anos, recita versos seus em homenagem a seu protetor, que voltava, promovido a marechal, da Guerra do Paraguai. - 1871: Matricula-se no Ateneu Provincial Catarinense, onde estudou até o fim de 1875, tendo aprendido francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais. Essa última disciplina fora-lhe ensinada pelo naturalista alemão Fritz Müller, amigo e colaborador de Darwin e Haeckel. Além das palavras do amigo Virgílio Várzea: “Distinguiu-se acima de todos os seus condiscípulos”, Cruz e Sousa mereceu elogios de Fritz Müller, para quem a inteligência do jovem negro era a prova de que suas opiniões anti-racistas estavam corretas. - 1881: Funda, com Virgílio Várzea e Santos Lostada, o jornal Colombo, no qual proclamavam adesão à Escola Nova (que era o Parnasianismo). Parte para uma viagem pelo Brasil, acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, na função de ponto. Realiza conferências abolicionistas em várias capitais. Lê Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro, Antero de Quental. - 1884: O presidente da província, Dr. Francisco Luís da Gama Rosa, nomeia Cruz e Sousa Promotor de Laguna. O poeta não pôde tomar posse do cargo, pois a nomeação fora impugnada pelos políticos locais. - 1885: Publica Tropos e Fantasias, em colaboração com Virgílio Várzea. Dirige o jornal ilustrado O Moleque, cujo título provocativo revela o caráter crítico e contundente das idéias veiculadas. Tal jornal era francamente discriminado pelos círculos sociais da província. - 1888: A convite do amigo Oscar Rosas, parte para o Rio de Janeiro. Durante os oito meses de permanência no Rio, conhece o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, que seria o grande amigo e divulgador de sua obra. Lê Edgar Allan Poe e Huysmans, entre outros. - 1889: Retorna a Desterro, por não ter conseguido colocação no Rio de Janeiro. Lê Flaubert, Maupassant, os Goncourt, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes. Inicia a conversão ao Simbolismo. - 1890: Vai definitivamente para o Rio de Janeiro, onde obtém emprego com a ajuda de Emiliano Perneta. Colabora nas revistas Ilustrada e Novidades. - 1891: Publica artigos-manifestos do Simbolismo, na Folha Popular e em O Tempo. Pertence ao grupo dos “Novos”, como eram chamados os “decadentes” ou simbolistas. - 1882: Vê pela primeira vez Gavita Rosa Gonçalves, também negra, em 18 de Setembro. Colabora em A Cidade do Rio, de José do Patrocínio. - 1893: Publica Missal (poemas em prosa) em Fevereiro, e Broquéis (poemas), em Agosto. Dia 09 de Novembro, casa-se com Gavita. É nomeado praticante e, posteriormente, arquivista da Central do Brasil. - 1894: Nasce Raul, seu primeiro filho, a 22 de Fevereiro. - 1895: recebe a visita do poeta Alphonsus de Guimaraens, que viera de Minas Gerais especialmente para conhecê-lo. A 22 de Fevereiro, nasce seu filho Guilherme. - 1896: Em março, sua esposa Gavita apresenta sinais de loucura. O distúrbio mental durou seis meses. - 1987: Evocações (poemas em prosa, que seriam publicados postumamente) encontra-se pronto para o prelo. Nasce Rinaldo, seu terceiro filho, a 24 de Julho. Ano de sérias dificuldades financeiras e de comprometimento da saúde. - 1898: Morre a 19 de Março, em Sítio (Estado de Minas Gerais), para onde partira três dias antes, na tentativa de recuperar-se de uma crise de tuberculose. Tinha 37 anos. Seu corpo chega ao Rio de Janeiro num vagão destinado ao transporte de cavalos. José do Patrocínio encarrega-se dos funerais. O enterro realiza-se no Cemitério de S. Francisco Xavier, tendo o amigo fiel, Nestor Vítor, discursado ao túmulo. Publicação de Evocações. Nasce-lhe o filho póstumo, João da Cruz e Sousa Júnior, dia 30 de Agosto, que morreria em 1915, aos 17 anos. (Seus outros três filhos morreriam antes de 1901, ano em que morreu sua esposa Gavita). Em 1900, dá-se a publicação de Faróis, coletânea organizada por Nestor Vítor. |
PORQUE TODO O POETA (COMO TODO CANTO) É NEGRO |
Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? – pergunta Cruz e Sousa. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Rio
de Janeiro: numa confeitaria elegante, nos anos de 1890, um grupo de
escritores saúda, em voz alta, o jovem que se encontra à porta: -
Entra, ó Cruz e Sousa! Entra, ó grande poeta! A
ênfase dada à saudação explica-se por se tratar de um jovem negro, que
corre o risco de ser ofendido, ou até escorraçado da confeitaria. A
escravidão já fora abolida oficialmente, mas contra o preconceito não
houve decreto, não houve lei... João
da Cruz e Sousa ouve a saudação dos amigos, até entende sua intenção
de evitar-lhe uma situação constrangedora, mas fita-os com olhos
tristes, como se pensasse: “Canalhas!” Tanto mais que, próximo ao
grupo dos amigos e fiéis admiradores, encontra-se um rosto estranho, que
o observa com olhar curioso, o que chega a ser irritante... Quem é esse
homem desconhecido, que perscruta o poeta? Seria mais um dos seus
contendores, provocadores, mais alguém prestes a repudiá-lo abertamente
nos jornais? Toda
sua vida fora, até então, permeada por essa mesma sensação de
discriminação, de rebaixamento. Até o modo afetivo como alguns de seus
“seguidores” a ele se referem – o Poeta Negro – parece um estigma.
Ninguém diz “poeta branco”. No Brasil escravocrata, “poeta” e
“negro” são elementos que não se casam, indicam uma verdadeira
aberração... Mas a dor de ser discriminado pode não ser muito
diferente da grande Dor de ser homem. Qual
é a cor da minha forma, do meu sentir? Qual é a cor da tempestade de
dilacerações que me abala? Qual a dos meus sonhos e gritos? Qual a dos
meus desejos e febre?
Uma
revolta amargurada o paralisa e, por algum (quanto?) tempo, suas atenções
se deslocam do exterior, da confeitaria, do constrangimento, das amarras
sociais, para o interior, sua alma, presa num cárcere severo. Às vezes
é preciso invocar o ódio para suportar a dor: Ò
meu ódio, meu ódio majestoso, Unge-me
a fronte com teu grande beijo, Torna-me
humilde e torna-me orgulhoso. (...)
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| «ÓDIO SÃO, ÓDIO BOM! SÊ MEU ESCUDO!» | |
Pergunta Cruz e Sousa: é de Cristo o sangue vertido, ou do escravo na senzala? Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
O
homem estranho, no interior da confeitaria, continua a fitá-lo. Agora,
sussurra alguma coisa ao ouvido de Oscar Rosas. A sensação incômoda de
Cruz e Sousa cresce, mais uma vez ele sente que precisa de um escudo. Seria
possível que o escudo existisse desde Nossa Senhora do Desterro, desde os
idos de 1861, ano de seu nascimento? Seu nome deveu-se então ao santo do
dia, São João da Cruz, místico e visionário. Como também mística,
metafísica e transcendental seria sua poesia; como o poeta estaria sob o
signo da cruz. De
outros Gólgotas mais amargos subindo a montanha imensa, - vulto sombrio
tetro, extra-humano! – a face escorrendo sangue, a boca escorrendo
sangue, o flanco escorrendo sangue, os pés escorrendo sangue, sangue,
sangue, sangue, caminhando para tão longe, para muito longe, ao rumo
infinito das regiões melancólicas da Desilusão e da Saudade,
transfiguradamente iluminado pelo sol augural dos Destinos!... A
imagem da tortura é bíblica ou real, empírica? É de Cristo o sangue
vertido, ou do escravo na senzala? Ou se trata de uma metáfora da condição
do poeta, que sofre por ser “maldito” entre os malditos? Ele se
recorda da mãe, que fora escrava: Em fundo de tristeza e de agonia O teu perfil passa-me noite e dia Aflito, aflito, amargamente aflito, Gesto estranho que parece um grito. (...) Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço. Eis que te reconheço, escravizada, Divina Mãe, na Dor acorrentada. Que reconheço a tua boca presa Pela mordaça de uma sede acesa. Presa, fechada pela atroz mordaça Dos fundo desesperos da Desgraça. (...) (“Pandemonium”) E
pensar que uma parte da crítica futura o acusaria de ficar alheio às
causas abolicionistas, trancafiado na “Torre de Marfim” do hermetismo
simbolista, por puro desconhecimento de textos inéditos, verdadeiros
gritos de denúncia e de repúdio às injustiças sociais. Poemas em que a
revolta chega a sufocar o transcendentalismo, através de distorções que
bem poderiam ser chamadas de expressionistas. Como este
(“Escravocratas”), em que o senhor de escravos é o animal rastejante,
o animal que merece ser torturado: Oh! Trânsfugas do bem que sob o manto
régio Manhosos agachados – bem como um
crocodilo, Viveis sensualmente à luz dum privilégio Na pose bestial dum cágado tranqüilo. (...) Eu quero em rude verso altivo adamastórico, Vermelho, colossal, d´estrépito,
gongórico, Castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!)
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FAZ-SE UM POETA SINGULAR |
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O
homem desconhecido, agora, não apenas sussurra ao ouvido de Oscar Rosas,
como também aponta para o poeta. A face de Cruz e Sousa ilumina-se:
poderia ser um editor, interessado em publicar novos livros seus! Poderia
ser a Sorte, que lhe sorrira na infância, para nunca mais se dar a ver... Infância...
tempos felizes, até. Realmente, foi sorte que o negrinho, diferentemente
do que ocorria com os outros de sua raça, vendidos tão logo crescessem o
suficiente, recebesse o carinho paternal de seus donos, um casal sem
filhos: D. Clarinda, que o
iniciou nas letras; o Marechal Xavier de Sousa que, ao morrer, legou a
seus ex-escravos algum dinheiro, suficiente para o sustento do menino vivo
e inteligente. Outras recordações de Desterro vêm-lhe à mente: a
instrução sofisticada; o contato direto com um dos grandes nomes das ciências
naturais, Haeckel; o conhecimento de idiomas: a educação típica da
elite branca. Que, longe de fazer do poeta um conformado, iria
fornecer-lhe o substrato para uma postura crítica, uma cultura universalizante, uma arte revolucionária.
Chega
a idade adulta e, com ela, os problemas. O negrinho esperto já não é
visto como espetáculo engraçadinho, pitoresco. É já um jovem
inconformado, consciente de que é preciso transformar. Uma nação que
sustenta a monarquia e a escravidão não é digna de ser chamada
civilizada, diziam os republicanos e abolicionistas, dissera CASTRO
ALVES, diz Cruz e Souza: Vai-se
acentuando, Senhores da justiça – heróis da
humanidade, O verbo tricolor da confraternidade... E
quando, em breve, quando Raiar
o grande dia Dos largos arrebóis – batendo o
preconceito... O dia da razão, da luz e do direito -
Solene trilogia - Quando
a escravatura Surgir da negra treva - em ondas
singulares De
luz serena e pura; Quando
um poder novo Nas almas derramar os místicos
luares, Então
seremos povo! (“Dilema”) Bem
que soubera aproveitar algumas chances oferecidas pelo destino. Como a
decisão que tomou de seguir uma companhia de teatro em suas apresentações
pelo Brasil. Tinha que partir, ainda que fosse no obscuro cargo de ponto,
pois a vida “real” começava a sufocar. Posteriormente, sua obra não
faria quase nenhuma referência ao teatro. Alguns falariam em aversão à
arte dramática... talvez um trauma, depois da dissolução da Companhia,
que fizera o poeta voltar à terra natal, à mesquinhez, à ignorância? O
soneto “Acrobata da Dor” vale-se de imagens teatrais: Gargalha, ri, num riso de tormenta, Como um palhaço, que desengonçado, Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado De uma ironia e de uma dor violenta. Da gargalhada atroz, sanguinolenta, Agita os guizos, e convulsionados Salta, gavroche, salta clown, varado Pelo estertor dessa agonia lenta... Pedem-te bis e um bis não se
despreza! Vamos! Retesa os músculos, retesa Nessas
macabras piruetas d’aço... E embora caias sobre o chão,
fremente, Afogado em teu sangue estuoso e
quente, Ri! Coração, tristíssimo palhaço.
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O SABER DE ALTOS SABERES |
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Que
remédio? Estando de volta a Desterro, é preciso provocar a ordem, a política
e os costumes vigentes na província, abalar a literatura local. Para
tanto, o poeta dirige os jornais Colombo
e Tribuna Popular. Depois, O
Moleque. Quem é esse, o moleque negro, metido a intelectual, poeta e,
ainda por cima, a dândi, com suas roupas bem cortadas? Quem, o atrevido? Indicado
para a promotoria pública? Impossível!!! Ele evoca a sensação de
saber-se capaz, até superior, às vezes, e ser impedido, barrado, excluído,
impugnado: é a experiência de “sentir todas as forças contra si,
sabendo-se idealmente superior”. (Ivan Teixeira). Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro, Ó ser humilde entre os humildes
seres. Embriagado, tonto dos prazeres, O mundo para ti foi negro e duro. Atravessaste num silêncio escuro A vida presa a trágicos deveres E chegaste ao saber de altos saberes Tornando-te mais simples e mais puro. Ninguém te viu o sofrimento inquieto, Magoado, oculto e aterrador, secreto, Que o coração te apunhalou no mundo. Mas eu que sempre te segui os passos E o teu suspiro como foi profundo! (“Vida
obscura”)
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CONTRA AS NORMAS ESTÉREIS, AS FORMAS ETÉREIS |
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Cruz
e Sousa evoca sua chegada ao Rio de Janeiro, quando experimentara o mesmo
mal-estar: tudo era novo e hostil. Quanta ilusão pensar que a capital do
país, como uma cidade mais intelectualizada, mais moderna que Desterro,
iria reconhecer-lhe o talento. Na primeira vinda ao Rio de Janeiro, bem
que tentara estabelecer-se. Foram oito meses de portas fechadas, de
dificuldades. Pelo menos, conhecera Nestor Vítor, seu grande amigo, o
fiel divulgador de sua obra (quem, diz a lenda – e disso o poeta nem
desconfia – iria acender-lhe velas diante do retrato, após sua morte).
Pelo menos, há cada vez mais a poesia, há Charles Baudelaire, há Edgar
Allan Poe: seus refúgios. Lá,
dentro da confeitaria, Oscar Rosas continua dando ouvidos ao desconhecido.
Cruz e Sousa fixa os olhos no amigo; graças a ele e a outros, como
Emiliano Perneta, conseguira estabelecer-se definitivamente no Rio de
Janeiro, onde a moda literária é então o Parnasianismo. A poesia
oficial, reconhecida pela intelectualidade, pela imprensa, pelos
escritores já consagrados, é aquela produzida pela tríade formada por
Olavo Bilac, Raimundo Corrêa e Alberto de Oliveira. Uma poesia cujo
“realismo” volta-se para a objetividade pictórica de sabor neoclássico,
que prima pelo culto à forma. Cruz e Sousa foi o seu tanto parnasiano,
esteta da “Arte pela Arte”: Como eu vibro este verso, esgrimo e torço, Tu, Artista sereno, esgrime e torce: Emprega apenas um pequeno esforço Mas sem que a Estrofe a pura idéia
force. Tantas
contendas com o grupo dos Parnasianos, mas quem pode negar a semelhança
entre esses versos e os de “Profissão de Fé”, o hino parnasiano, de
autoria Olavo Bilac? Mas, à preocupação com a forma, tão tipicamente
parnasiana: Assim terás o culto pela Forma, Culto
que prende os belos gregos da Arte E levarás no teu ginete, a norma Dessa transformação, por toda a
parte. vem
somar-se uma musicalidade estranha: Enche de estranhas vibrações sonoras A tua Estrofe, majestosamente... Põe nela todo o incêndio das auroras Para torná-la emocional e ardente. e
uma sensorialidade inusitada,
sinestésica, contrária à impassibilidade parnasiana: Derrama luz e cânticos e poemas No verso e torna-o musical e doce Como se o coração, nessas supremas Estrofes, puro e diluído fosse. (...) ("Arte")
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| “ARTISTA! PODES LÁ ISSO SER SE TU ÉS D’ ÁFRICA, TÓRRIDA E BÁRBARA?” | |
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O
Parnasianismo é oficial e Cruz e Sousa sente que sua poesia é marginal.
Menos descritiva, mais sugestiva; menos racional, mais sensorial; menos
pictórica, mais musical; menos referencial e mais indireta, ou seja, mais
simbólica: com ela surge entre
nós o Simbolismo. Herdeiro
de Blake, Poe e do decadentismo de Baudelaire, o Simbolismo é ofuscado
pelo beletrismo parnasiano. Entretanto, o poeta segue seu credo. Os
modismos não o atraem, as concessões o irritam, a bajulação o enoja.
Daí uma postura independente, aparentemente orgulhosa, que tanto provoca
os inimigos. E lega ao poeta um lugar parecido com aquele celebrado por
Charles Baudelaire como o do Poeta amaldiçoado. Não
só na temática do poeta maldito e na teoria das correspondências
encontram-se as influências de Baudelaire, mas também no culto de um gênero
literário novo: o poema em prosa. - Charles, meu belo Charles voluptuoso
e melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário de spleen,
profeta muçulmano do tédio, ó Baudelaire desolado, nostálgico e
delicado! (“No
inferno”) Cruz
e Sousa já não tem mais esperança de que o desconhecido da confeitaria
seja um editor. Caso contrário, já teria vindo até ele, entusiasmado,
com a alguma proposta a fazer-lhe. Pelo visto, a sorte de encontrar quem
publicasse seus livros ocorrera uma única vez, graças à iniciativa de
Domingos de Magalhães que, ousadamente, publicara dois livros seus: Fevereiro de 1893: os poemas em prosa de
Missal. Incompreendidos. Criticados. Execrados. Árdua é a sina
de ter de aturar juízos míopes,
como o do ilustre e respeitadíssimo crítico José Veríssimo: “[Missal]
é um amontoado de palavras, que dir-se-iam tiradas ao acaso, como
papelinhos de sorte, e colocadas umas após outras na ordem em que vão
saindo, com raro desdém da língua, da gramática e superabundante uso de
maiúsculas. Uma ingênua presunção, nenhum pudor em elogiar-se, e,
sobretudo, nenhuma compreensão, ou sequer intuição do movimento artístico
que pretende seguir, completam a impressão que deixa este livro em que as
palavras servem para não dizer nada.” (José
Veríssimo não imagina que anteviu, na poética de Cruz e Sousa, o que
Tristan Tzara proporia como “Receita para se fazer um poema dadaísta”,
em 1920... E pensar que esse mesmo crítico, após a morte de Cruz e
Sousa, faria sua retratação, dizendo ser a poesia do Dante
Negro “o ponto culminante da lírica brasileira em quatrocentos anos
de existência.”)
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| ARTISTA: O SUPERCIVILIZADO DOS SENTIDOS | |
| Cruz e Sousa publica Broquéis (poemas). Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Todas
essas críticas, recentes, encontram ainda ressonância na sensibilidade
do poeta. Talvez isso explique seu receio de finalmente entrar na
confeitaria e cumprimentar seus amigos. É Domingo, e naquele lugar reúne-se
não só o grupo dos “Novos”, mas também o dos escritores
consagrados: Bilac, Coelho Neto (sobre quem recaem as suspeitas do poeta a
respeito da autoria de um soneto hediondo, que satiriza seu estilo); às
vezes, até MACHADO
DE ASSIS. Por outro lado, ali estavam aqueles cuja alma
era receptiva às suas inovações poéticas, aqueles que, mesmo sem
“entender” sua poesia, sentiam-na como a bruma envolvente e redentora.
Aqueles que lhe elogiaram até mesmo o poema “Antífona”, abertura do
livro Broquéis: mais que
profissão de fé do Simbolismo, “Antífona” revelou a Arte Poética
do “Dante Negro”. É a celebração do inefável, do imponderável,
como resultado alquímico da mistura de cores, sons, cheiros, sensações,
sentimentos. O substrato da poesia é o mesmo da alma: mistério. O que não
elimina a plena consciência estética. O rigor apolíneo - com pulsação
dionisíaca. O Branco e suas metáforas. O negro que idealiza o Branco:
sublima sua condição? Ou o Branco como materialização da diafanidade
suprema e reveladora? A magia de “Antífona” ultrapassa qualquer
entendimento: Ó Formas alvas, brancas, Formas
claras De Luares, de neves, de neblinas!... Ó Formas vagas, fluidas,
cristalinas... Incensos dos turíbulos das aras... Formas do Amor, constelarmente puras, De virgens e de Santas vaporosas... Brilhos errantes, mádidas frescuras E dolência de lírios e de rosas... Indefiníveis músicas supremas, Harmonias da Cor e do Perfume... Horas do ocaso, trêmulas, extremas, Réquiem do Sol que a Dor da Luz
resume... Visões, salmos e cânticos serenos, Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes... Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves, mórbidos ,
radiantes... Infinitos espíritos dispersos, Inefáveis, edênicos, aéreos, Fecundai o Mistério destes versos Com a chama ideal de todos os mistérios. (...)
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| ARTISTA: O DESOLADO ALQUIMISTA DA DOR | |
| Dor e revolta, Cruz e Sousa desajustado. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Hoje,
os poemas que Cruz e Sousa traz para mostrar aos companheiros são
diferentes: ainda o branco, mas também o vermelho e negro. Ainda o
transcendentalismo, mas também muita dor e revolta. Talvez eles estejam
no volume Faróis; ou então, nos Últimos
Sonetos. E, pairando sobre seus textos, a imagem do poeta como um desajustado, um inadaptado em relação à sociedade: Desde
que o Artista é um isolado, um esporádico, não adaptado ao meio, mas em
completa, lógica e inevitável revolta contra ele, num conflito perpétuo
entre sua natureza complexa e a natureza oposta do meio, a sensação, a
emoção que experimenta é de ordem tal que foge a todas as classificações
e casuísticas, a todas as argumentações que, parecendo as mais puras e
as mais exaustivas do assunto, são, no entanto, sempre deficientes e
falsas. Ele é o supercivilizado dos sentidos (...). (Daí
vem que Cruz e Sousa seja duas vezes maldito, no sentido de ser
marginalizado e discriminado: pela raça e pela poesia. Daí que tenha
tido que suportar críticas e sátiras por parte de quem analisou sua obra
protegido pelo preconceito racial e literário. E daí que não tenha
passado nem perto da Academia Brasileira de Letras, então recém-fundada,
em 1896.) A
rejeição nos meios literários e na imprensa alimenta sua mágoa, que
alimenta seu verso. A mágoa se
destila, vira matéria-prima da poesia. A experiência concreta
articula-se com a retórica, ou seja, o cotidiano ingrato converte-se na tópica
decadentista do poeta maldito: Tu és o louco da imortal loucura, O louco da loucura mais suprema. A terra é sempre a tua negra algema, Prende-te nela a extrema Desventura. Mas essa mesma algema de amargura, Mas essa mesma Desventura extrema Faz que tu’alma suplicando gema E rebente em estrelas de ternura. Tu és o Poeta, o grande Assinalado Que povoas o mundo despovoado, De belezas eternas, pouco a pouco. Na Natureza prodigiosa e rica Toda a audácia dos nervos justifica Os teus espasmos imortais de louco! (“O
Assinalado”) “Poucas
vezes terá havido tamanha identidade entre uma tópica de natureza
universal e um traço da condição individual. Retórica e existência
fundiram-se perfeitamente nessa união, constituindo-se num caso singular
na poesia brasileira. Essa fusão de categorias diferentes produziu um
discurso em que o fingimento poético se disfarça com perfeição na
sinceridade emocional, transmitindo ao leitor a impressão de
autenticidade expressiva.” (Ivan Teixeira) Cruz
e Sousa sabe que atingiu a maturidade artística plena, consciente: a
capacidade de transformar o
sofrimento em Arte; de abandonar o puro confessionalismo, a auto-piedade
romântica. A dor é sublimada e, pela Arte, transforma-se em Redenção.
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| MUSA NEGRA | |
| Cruz e Sousa canta a mulher negra. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
A
vida dera-lhe Gavita, a mulher, a negra, a mãe de seus filhos. Chega o
tempo da musa real, as musas alvas, “tudescas”, sidéreas, inatingíveis,
já são passado; como aquela “Alda”, “Alva,
do alvor das límpidas geleiras”, ou a dona daqueles “Braços”
leitosos: Braços nervosos, brancas opulências, Brumais brancuras, fúlgidas brancuras, Alvuras castas, virginais alvuras, Lactescências das raras lactescências. Gavita
é o canto à mulher negra, ao colo real, em que o poeta repousa de seus
dissabores. Agora, o espiritual não elimina o carnal: Amar essa Núbia – vê-la entre véus
translúcidos e florentes grinaldas, Noiva hesitante, ansiosa, trêmula, tê-la
nos braços como num tálamo puro, por entre epitalâmios; sentir-lhe a
chama dos beijos, boca contra boca, nervosamente – certo que é, para um
sentimento d’Arte, amar espiritualmente e carnalmente amar. Beleza prodigiosa
de olhos como pérolas negras refulgindo no tenebroso cetim do
rosto fino; lábios mádidos, tintos a sulferino; dentes de esmalte claro;
busto delicado, airoso, talhado em relevo de bronze florentino, a Núbia
lembra, esquisita e rara, esse lindo âmbar negro, azeviche da Islândia. No
entanto, uma vez mais o carnal não se justifica por si só, ele se funde
ao prazer estético. No fim e no fundo de tudo, a Arte, com quem o poeta
se casara desde sempre: No entanto, amar essa carne deliciosa
de Núbia, ansiar por possuí-la, não constitui jamais sensação exótica,
excentricidade, fetichismo, aspiração de um ideal abstruso e triste,
gozo efêmero, afinal, de naturezas amorfas e doentias.
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| BALADA DE LOUCOS | |
| Demência de Gavita, a companheira de Cruz e Sousa... Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Mas
a vida dera-lhe também a loucura de Gavita. A companheira dócil
aliena-se em rezas e ladainhas incompreensíveis, bárbaras... E foi como
se os dois enlouquecessem; foi como se ambos morressem, estando vivos: “A
pouco e pouco – dois exilados personagens do Nada – parávamos no
caminho solitário, cogitando o rumo. Como, quando se leva a enterrar alguém,
as paradas rítmicas do esquife...”. Enfim, ela volta do universo da
demência, que se parecia com a Morte: Alma! Que tu não chores e não gemas, Teu amor voltou agora. Ei-lo que chega das mansões extremas, Lá onde a loucura mora! Veio mesmo mais belo e estranho,
acaso, Desses lívidos países, Mágica flor a rebentar de um vaso Com prodigiosas raízes. Veio transfigurada e mais formosa Essa ingênua natureza, Mais ágil, mais delgada, mais
nervosa, Das
essências da Beleza. (Ressureição)
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| "ABRE-ME OS BRAÇOS, SOLIDÃO PROFUNDA" | |
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Já
se faz tarde, alguns dos intelectuais seus amigos fazem menção de se
levantar para sair. O poeta, no limiar entre o fora e o dentro de si, o
fora e o dentro da confeitaria, sente um impulso para entrar. É novamente
saudado, recebe o sempre terno e sincero abraço de Nestor Vítor. É este
quem lhe apresenta o desconhecido que há pouco apontava para Cruz e
Souza. -
Cruz, quero que conheça o poeta Alphonsus de Guimarães, que acaba de
chegar de Minas Gerais especialmente para vê-lo. Entre
lisonjeado e envergonhado, Cruz e Sousa emudece. Tem sempre atitude
reservada e desconfiada diante de quem não conhece. Gosta da homenagem,
mas a presença do poeta mineiro adia uma necessidade urgente: o pedido de
dinheiro a Nestor Vítor. Os 250 mil réis mensais recebidos da Central do
Brasil, onde é arquivista, já não chegam para o aluguel, o sustento dos
filhos, e, agora, para o tratamento de sua saúde, que, ele sabia, não ia
bem. Nesse encontro, apenas Nestor Vítor reparou na opacidade do olhar do
poeta, no tom muito baixo de sua voz, na perda de peso, na angústia
decorrente da dependência de um cargo medíocre e burocrático, que, se o
sustentava, também o obrigava a escrever até às altas horas da noite. Enredado
pela admiração de Alphonsus de Guimarães, Cruz e Sousa declama alguns
de seus recentes poemas. Todos percebem que, em comum, aqueles sonetos
apresentam os temas do sofrimento, da morte, da redenção, como ocorre no
famoso “Cárcere das almas”. Realizado,
o poeta mineiro recolhe-se. Satisfez o seu desejo de conhecer o “Cisne
Negro”, poderia voltar para Mariana e lá viver ainda muito tempo,
escrevendo seus poemas romântico-simbolistas; o grupo se desfaz. Cruz e
Sousa parte para casa, sem o dinheiro de que precisava. Dali
a algum tempo, naquela mesma confeitaria, Cruz não teria nada a pedir a
ninguém, nem dinheiro. Apenas entregaria a Nestor Vítor a trilogia de
sonetos “Pacto das Almas”, em que professa a crença no encontro com o
amigo em outra dimensão, e um volume inédito de poemas em prosa, Evocações.
Era uma despedida. Um sinal do agravamento de sua tuberculose, doença que
lhe causou enorme sofrimento, e enorme comoção por parte da
intelectualidade brasileira. Para quê tanta mobilização em torno da
situação precária de um poeta extraordinário, agora que sua doença não
tem mais cura? E os donativos, as contribuições, as manifestações de
apoio não seriam nem metade da atenção dada à sua obra após a sua
morte. Ali, com os originais de Evocações nas mãos, prestes a serem entregues ao amigo, o poeta
nem suspeita – ou tem como certa? – a glória que seu nome alcançaria. Era
mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na Solidão. Que
não me negassem a necessidade fatal, imperiosa, ingênita, de sacudir com
liberdade e com volúpia os nervos e desprender com largueza e com audácia
o meu verbo soluçante, na força impetuosa indomável da Vontade. ______________________ Bibliografia: BASTIDE, Roger. “Quatro Estudos sobre Cruz e Sousa”. Fortuna
Crítica. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1979. LEMINSKI, Paulo. “Cruz e Sousa – o Negro Branco”. Vida. Porto Alegre, Sulina, 1990. MAGALHÃES JR., Raimundo de. Poesia
e vida de Cruz e Sousa. São Paulo, Edit. Das Américas,
1961. MURICI, Andrade. “Atualidade de Cruz e Sousa”. Introdução
à Obra
Completa de Cruz e Sousa. Rio de Janeiro,
Nova Aguilar, 1995. MUZART, Zahidé Lupinacci. “Cruz e Sousa e a crítica”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998. RUFINONI, Simone Rossinetti. “O Satã Negro”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998. TEIXEIRA, Ivan. “Metafísica e exílio”. Revista Cult n º 08. São Paulo, Editorial Lemos, Março de 1998. |