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CLARICE LISPECTOR
Escritora : 1920 - 1977
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1920: Nasce Clarice Lispector, no dia 10 de dezembro de
1920, em Tchechelnik, uma aldeia da Ucrânia, terra de seus pais, Pedro e
Marieta Lispector. - 1921:
Em fevereiro, com apenas dois meses, chega a Maceió, Alagoas,
com seus pais e suas duas irmãs, Elisa e Tânia. E o português do Brasil
será a língua materna da menina Clarice. -
1924:
A família muda-se para Recife, Pernambuco. - 1928: Freqüenta o Grupo
Escolar João Barbalho. -1929:
Morre a mãe, Marieta Lispector. Clarice ainda não completara
9 anos. - 1931: No final do
ano, presta o exame de admissão e ingressa, no ano seguinte,
no curso ginasial. - 1934: Pedro e as
meninas mudam-se para o Rio de Janeiro; viajam no navio Island Monarch, da Mala Real Inglesa. - 1937: Trabalha como professora. - 1939: Entra na Faculdade de Direito. - 1940: Morre Pedro, o pai. Clarice Lispector começa a trabalhar
como redatora para a Agência Nacional. (Período do Estado Novo do
Governo de Getúlio Vargas). -1941:
Trabalha também no jornal A Noite. - 1942: Recebe
sua primeira carteira profissional logo após ter completado 22 anos. -
1943: Forma-se em Direito e casa-se com Maury Gurgel Valente. Este faz
o vestibular para o Itamaraty e ingressa na carreira diplomática. Isso
leva Clarice a viver fora do Brasil por “ uns dezesseis anos”. - 1944: Publica Perto
do Coração Selvagem, seu primeiro romance. O casal muda-se para
a Europa em plena Segunda Guerra Mundial. -
1945: Perto do Coração Selvagem
conquista para a jovem escritora o Prêmio Graça Aranha, da Academia
Brasileira de Letras. O pintor italiano De Chirico pinta-lhe o retrato.
- 1946: Iniciado no Brasil e terminado em Nápoles, seu segundo romance, O
Lustre, é publicado e lançado no Brasil. Volta com o marido para
a Europa, desta vez para Berna. -
1947: Vê a neve pela primeira vez. -
1948: Nasce o primeiro filho - Pedro. Termina A
Cidade Sitiada, que é publicado em 1949, quando volta ao Rio. - 1950:
Retorna à Europa, desta
vez para Torquay, na Inglaterra. -1952:
De novo no Rio, colabora no jornal Comício,
assinando uma página feminina “Entre Mulheres”. Muda-se com a família
para Washington. - 1953: Nasce,
nos Estados Unidos, seu segundo filho - Paulo, cujos padrinhos serão
Mafalda e o escritor gaúcho Érico Veríssimo, grandes amigos dos Gurgel
Valente. - 1954: Primeira edição
francesa de Perto
do Coração Selvagem, pela Editora Plon, com capa de Henri
Matisse. - 1956: Em maio,
termina A
Maçã no Escuro. - 1959: Enviados de Washington, aparecem contos seus na revista Senhor, desde o número inaugural, que sai em março. Separa-se de
Gurgel Valente. Fixa-se, então, no Rio,
e assume uma coluna no jornal Correio
da Manhã. - 1960: Laços
de Família, (seu primeiro livro de contos) é publicado. Mantém
outra coluna no Diário da
Noite. -1961:
O romance A Maçã no Escuro é
finalmente publicado. - 1964: Segundo
livro de contos, A Legião Estrangeira, e o romance que muitos consideram sua
obra-prima: A Paixão segundo G.H. - 1967: Crônicas no Jornal do Brasil, que continuarão até o início dos anos 70. Em
seu apartamento do Leme, no Rio, na madrugada de 14 de setembro, adormece
fumando e, ao perceber o incêndio que isso provocara, tenta apagar o fogo
com as mãos. Fere-se gravemente. Sua mão direita, a da escrita, fica
muito prejudicada. - 1968: Nos “Diálogos
Possíveis com Clarice Lispector”,
entrevista personalidades para a revista Manchete.
Em 22 de junho, participa, com inúmeros intelectuais, de uma manifestação
contra a ditadura militar : a Passeata dos Cem Mil. Publica os
contos infantis de A Mulher que matou os Peixes.
- 1969:
Publica seu “hino ao amor”: Uma
Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. -
1971: Felicidade Clandestina (contos). - 1972: O pintor Carlos Scliar faz dois retratos da escritora. -
1973 : Água Viva e A
Imitação da Rosa (contos). -
1974: A Vida Íntima de Laura (infantil);
Via
Crucis do Corpo (contos); Onde
Estivestes de Noite? (contos). -
1975: Participa do Congresso Mundial das Bruxas, em Bogotá, na Colômbia.
- 1976: Pelo conjunto da obra,
recebe prêmio da Fundação Cultural
do Distrito Federal. -1977:
Publica A
Hora da Estrela. Em 9 de dezembro, véspera de seu aniversário,
Clarice Lispector morre, de câncer, no Rio.1978: Aparecem três livros póstumos: Um Sopro de Vida com o
subtítulo Pulsações, Para
não Esquecer, uma coletânea de crônicas, e Quase de Verdade, entrevistas. - 1979: A
Bela e a Fera, que reúne
contos da juventude com os de pouco antes da morte da escritora. -
1984 : A Descoberta do Mundo,
reunião das crônicas publicadas no Jornal
do Brasil, de 1967 a 1973. Clarice |
AO SOM DE CLARICE |
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Clarice Lispector publica A Maçã no Escuro. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Clarice Lispector, como Guimarães Rosa, acrescentou de forma
extraordinária a escrita brasileira à nossa língua, à "pátria"
de Fernando Pessoa. Mas quando falava, pensavam que era estrangeira. E
ela, que é uma aurora em nossa literatura, tinha muita dificuldade
em pronunciar essa bela
palavra. A
minha primeira língua foi o português. Se eu falo russo? Não, não
absolutamente.( ...) eu tenho
a língua presa. (...) algumas pessoas me perguntavam se eu era francesa,
por causa desses meus erres. (Entrevista) A
brasileira Clarice, que só por acaso nasceu em uma cidadezinha da Ucrânia,
dominava o inglês e
o francês, mas só
escreveu em português, a sua, a nossa
língua materna e, que se saiba,
nunca falou iídiche
ou hebraico. Uma vez alfabetizada, tornou-se logo uma leitora voraz. Quando
eu aprendi a ler e a escrever, eu devorava os livros! Eu pensava que livro
é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um
autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor! Aí disse:
“Eu também quero”. ( Entrevista) Sua
carreira começa Perto do Coração
Selvagem, título jamais desmentido ao longo dos outros romances, dos
contos e das histórias infantis, ou de todas as crônicas. Com seus olhos
felinos abertos de soslaio sobre o mundo,
Clarice Lispector permaneceu sempre perto do coração da vida,
selvagem como a natureza
agreste de sua infância em Pernambuco, diferente, inaugural e
transgressora, se autocriando e autodevorando como um sol que ilumina
enquanto queima a si mesmo, e que aquece porque se consome. Clarice
devora-se a si mesma. Como
a própria Clarice declarou, a compulsão de escrever a fazia sentir-se
morta quando não estava escrevendo. Nasci
para escrever.(...) Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. (Entrevista) A
escrita clariceana, porém, ilumina
sem desvelar totalmente. Como na poesia, insere-se o silêncio na encantatória
prosa da escritora - tudo o que ela não clarifica -, como se ao falar da
existência ainda quisesse revesti-la de outros véus.
Talvez por isso o
sortilégio de sua linguagem seja tão aliciante. Ela
não conta histórias, escreve a vida. E escreve o escrever. Essa
capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu
chamo de viver e escrever... ( Entrevista) Com
intensidade e densidade nunca antes atingidas, e que jamais esmorecem,
Clarice Lispector consegue o equilíbrio improvável de andar sobre o fio
de uma navalha para rasgar os véus do real e mostrar o até então indizível,
o não-dito dos impulsos pensantes, das pulsações da consciência e da
escrita. Quando seu
personagem Martim se prepara para escrever, o processo é evocado: ...
em torno dele soprava o vazio em que um homem se encontra quando vai
criar. Desolado, ele provocara a grande solidão. (...) E como um velho
que não
aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra. (
A Maçã no Escuro) A
escrita de Clarice ocupa exatamente esse improvável espaço, o imensurável:
a distância que nos separa das palavras. É a medida de um vazio, de um
abismo que se abre no instante infinitesimal em que as palavras tomam
sentido. Por isso, tem-se a impressão de que ela está escrevendo à
nossa frente, diante de nós, para nos revelar em sua total nudez, em seu
pungente desamparo, o próprio ato de escrever. O
coração batendo de solidão. ( A Maçã no Escuro) É
uma escrita no gerúndio, no sendo do Ser, como se ela tivesse feito do
delírio de Molly Bloom um método - não para rememorar vicissitudes ou
aventuras, mas para pensar conosco a vida de todos nós. É um
constante perguntar. Essa necessidade de questionar, de perguntar sobre a
vida, sobre a morte, sobre o amor se
encontra em todos os textos de Clarice, desde as simples crônicas até os
romances mais densos e metafisicamente dramáticos como A
maçã no escuro e A paixão
segundo G.H. E esse
perguntar clariceano é da ordem da metafísica: por que existe o
mundo ao invés do nada? que é isto, estar vivo? que quer dizer viver,
amar, morrer? E há em sua escrita
um certo socratismo, uma ironia e uma maiêutica
.Tudo se passa como se ela tivesse conservado e desenvolvido esteticamente
a indagação infantil, como
se não tivesse esquecido o que é ser
criança no mundo, naquilo que a criança tem de filósofa. E quando ela
se detém na experiência
amorosa, como em Uma aprendizagem
ou O Livro dos Prazeres, o
relato é o de uma iniciação,
ou de uma ascese . A
madrugada se abria em luz vacilante. Para Lóri a atmosfera era de
milagre. Ela havia atingido o impossível de si mesma. Então ela disse,
porque sentia que Ulisses estava de novo preso à dor de existir: -
Meu amor, você não acredita no Deus porque nós erramos ao humanizá-lo.
Nós O humanizamos porque não O entendemos, então não deu certo. Tenho
certeza de que Ele não é humano. Mas embora não sendo humano, no
entanto, Ele às vezes nos diviniza. Você pensa que – -
Eu penso, interrompeu o homem e sua voz estava lenta e abafada porque ele
estava sofrendo de vida e de amor, eu penso o seguinte: E
esse romance, que se insere no possível, se inicia com uma vírgula e não
acaba, apenas se interrompe com esses
dois pontos, sugerindo assim
um quadro cujas linhas mestras o tivessem recortado do grande mistério
que tudo contém. Dizem os entendidos que o Talmud se caracteriza por ter
muito mais perguntas do que respostas, ou melhor: por deixar sempre em
aberto o espaço da dúvida, do questionamento, da pergunta. Nesse
sentido, Clarice estaria retomando o próprio espírito, a
essência do judaísmo para inseri-la, com absoluta adequação,
no mundo contemporâneo. E em muitos trechos de sua obra é possível
apontar uma inegável afinidade com textos da Cabala, como se lê no
ensaio A Ética cabalística em Clarice Lispector: Ela
não veio para esclarecer o mistério, veio para reafirmá-lo.
( Ester Schwartz) Expressiva
e significativa seria a própria escolha de seus títulos ao evocar etapas
no caminho cabalístico que percorre, entre outras, as esferas
do corpo e da sensação, do amor,
da paixão, do prazer, da iniciação, da escuridão, da
perplexidade ou da estranheza , do
esplendor, etc. Bastaria lembrar alguns:
A Via Crucis do Corpo; Perto
do Coração Selvagem; A Paixão
segundo G.H.; A
Maçã no Escuro ; Uma Aprendizagem ou O Livro
dos Prazeres; A Legião Estrangeira; e Visão
do Esplendor. Diante
da originalidade da escrita de Clarice, compreende-se melhor a fórmula
segundo a qual a literatura no século XX deixou de ser a escrita da
aventura para tornar-se a aventura da escrita, uma iniciação e uma
aprendizagem. O próprio ato de escrever é vivido e revelado em um estado
de consciência exaltada, exacerbada, que evoca uma singular e solitária
experiência mística. Na
verdade, eu acho que o nosso contato com o sobrenatural deve ser feito em
silêncio e numa profunda meditação solitária. (Entrevista) No
entanto, quando os filhos eram pequenos, para não afastar-se deles,
Clarice acostumou-se a escrever sentada no sofá da sala de seu
apartamento: Uso
uma máquina de escrever portátil Olympia que é leve bastante para o meu
estranho hábito: o de escrever com a máquina no colo. Corre bem, corre
suave(...) provoca meus sentimentos e pensamentos. (Entrevista) Pensamentos
e sentimentos que configuram seu inquieto
perguntar. E refletem
a perplexidade de nossas modernas
incertezas, das revisões e mudanças de paradigmas, a fragmentação
do conhecimento, o mundo da
imagem e do esfacelamento da imagem ," ou não sei quê moderno -
não concebo bem o quê - " como diria Fernando Pessoa.... Um
perguntar generoso. Perguntar
é abrir, é descortinar, é vislumbrar e expandir horizontes. Responder
é limitar, fechar, encerrar. Perguntar é o eterno recomeço, é a vida
renascendo e se alargando em suas infinitas
possibilidades, inclusive a de errar e de recomeçar. Perguntar tem o peso
da consciência crítica e a leveza da imaginação. Perguntar é pensar.
Pois o grande personagem, o verdadeiro protagonista que reaparece em cada
conto e até mesmo em cada crônica , e se agiganta nos romances de
Clarice - é o pensamento. Tomar
conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia
em que me apareça uma formiga.
(Água Viva) E
pode-se dizer que o seu é um pensar heideggeriano, que
"toma conta do Ser".
Do Ser que, como sabemos, é Tempo. O tempo, ou o “instante -
já", que ela quer captar em Água
Viva, por exemplo, esse
livro inesgotável que é uma saga, uma luta da escrita contra o Tempo e
contra a Morte. Nesse livro, mais do que em qualquer outro,
ela foi capaz da
bachelardiana "intuição do instante" e reconheceu
no instante impalpável a
possibilidade do êxtase. Como em Joyce, é a experiência que a atrai, não
seu fruto ou seu significado. E ela sabe
transformar em um
absoluto o instante fugidio. Sei o que estou fazendo aqui: conto os instantes que
pingam e são grossos de sangue. Sou
um ser concomitante: reuno em mim o tempo passado, o presente e o futuro,
o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. (Água Viva) Clarice
significa em nossa literatura um turning
point inimitável . O que ela faz de forma original, inaugural, é
criar momentos de iluminação, de revelação, ou, usando a palavra tão
cara a Joyce e a ela , de epifania.
A epifania que é o
sentimento vivo da fluidez inapreensível do real ... salvo pela arte. Se
Kafka fosse mulher. Se Rilke fosse uma brasileira judia nascida na Ucrânia.
Se Rimbaud tivesse sido mãe, se tivesse chegado aos cinqüenta. Se
Heidegger pudesse ter deixado de ser alemão, se ele tivesse escrito o
Romance da Terra. (...) É nessa ambiência que Clarice Lispector escreve.
Lá onde respiram as obras mais exigentes, ela avança. Lá, mais à
frente, onde o filósofo perde o fôlego ela continua , mais longe ainda,
mais longe do que todo saber. ( Hélène Cixous in A HORA
DE CLARICE LISPECTOR) Sua
obra não é feita de livros como a dos outros, como Cixous já havia reconhecido
em 1979, ainda sob o impacto
da leitura de A Paixão segundo G.H., num texto que chamou L’approche de Clarice Lispector. Clarice
Lispector: Essa mulher, nossa contemporânea, brasileira (...) não
são livros o que ela nos dá, mas o viver salvo pelos livros, narrativas,
construções que nos fazem recuar. E então entramos, por sua
escrita-janela, na beleza assustadora de aprender a ler: e passamos, através
do corpo, para o outro lado do eu. Amar a verdade do que é vivo, aquilo
que parece ingrato
aos
olhos narcisos, (...) amar a origem, interessar-se pessoalmente pelo
impessoal, pelo animal, pela coisa. (Hélène
Cixous in Entre l’Écriture ) O
pensamento dessa “escrita-janela” é eminentemente feminino, acolhedor
e amoroso como um abraço. Sua linguagem
é fluida e envolvente como a música de Debussy, que ela tanto amava.
Sim, a música, a mais dialética das artes, que vem-a-ser na
medida mesma em que vai deixando de ser e só se completa no silêncio,
como a vida. Pois ela dedica A Hora
da Estrela, entre outros, a Schoenberg e a Strawinsky, o que demonstra
o quanto estava afinada não
apenas com os escritores mais ousados e experimentais, mas também
com a música contemporânea atonal
e dodecafônica, assim como com as abstrações das artes plásticas. A
propósito destas, Lúcia Helena Vianna revelou, em seu ensaio O
figurativo inominável , outra linguagem
explorada por Clarice – a da pintura - , que a escritora não mostrava
sequer às pessoas de sua família , mas que não deixa de confirmar, em
seu exercício de amadora, afinidades
com o moderno expressionismo abstrato.
Ângela
herdou de mim o desejo de escrever e
de pintar. E se herdou esta parte minha é que não consigo imaginar uma
vida sem arte de escrever ou de pintar ou de fazer música. (
Um Sopro de Vida) Pode-se
dizer ainda que sua escrita é um solilóquio mediatizado pelas muitas
faces dos diversos personagens, nos quais, sempre com a mesma voz, ela se
desdobra ao infinito. Pois os personagens de Clarice não são tipos, ela
não cria tipos. Há várias coisas , aliás, que ela não faz como os
outros, porque não precisa fazer. Sua obra não tem nada a ver , por
exemplo, com o pseudo-realismo escatológico tão em voga hoje. E
o conflito, que alimenta o drama ou o romance, não é
em sua escrita um
conflito convencional, como o do desentendimento entre personagens, mesmo
que isso também exista e apareça, nem é a luta das
paixões, ainda que isso também exista e
que toda a sua obra, em última análise,
seja uma paixão - no sentido da paixão de Joana D'Arc, ou da Paixão segundo G.H. ( ou a de Martim, de A Maçã no Escuro, ou a da pungente Macabéa, de A Hora da Estrela). O pathos
de sua obra está nas
próprias questões formuladas por sua escrita , são as angústias
existenciais dos seres que a representam e habitam. Porque criaturas e
criadora só aparentemente descrevem coisas, objetos, bichos, pequenos
acontecimentos do quotidiano. O que essa escrita descreve, ou, como diria
Guimarães Rosa, descrevive, é o nosso próprio estar - no -
mundo. É sobre o mistério de estar - no - mundo que ela nos fala, o mistério
de ser gente, G.H., gênero
humano. Torna-se evidente também que a protagonista de A
Hora da Estrela -
Macabéa - é o opróbrio
da brasilidade em todas as suas opressões: a do pobre, a do nordestino
desajustado e a da mulher. Macabéa
é a cara do Brasil. Ela é o que todo
mundo é. Ela é um Macunaíma de saia, uma anti-heroína aqui do
Brasil, mas com uma universalidade muito grande. (Suzana
Amaral, cineasta, diretora de A Hora da Estrela) Macabéa
é a nossa cara mais trágica. E acima de tudo, como diz
a scholar da Sorbonne, esta
é uma meditação sobre a última hora. A hora maravilhosa e impensável
, a hora para a qual nos
inclinamos como em direção à verdade. A minha verdade, a nossa verdade,
essa estrangeira, essa estranheza cuja visão do rosto nos foi prometida
para o final. (Hélène
Cixous in
A Hora de Clarice Lispector) Além
do pensar filosófico, que se expressa em feminina
e socrática ironia, há uma ética na escrita de Clarice: uma
caridade autêntica e um profundo
respeito pelo semelhante, pela criança e pelo mendigo, pelos
desencontrados laços de família,
pelos amores infelizes, por nossa finitude. Que
ninguém se impressione: ela escreve também estórias. Uma jovem senhora
rica encontra um mendigo. E em seis páginas é o Evangelho, ou o Gênesis.
Não. Não estou exagerando... (Cixous, Hélène,
op. cit.) Pois
seus olhos de água refletem o mundo. Daí o permanente mergulho no ser
das coisas, o constante exercício de maravilhamento filosófico - a
perplexidade dos primeiros pensadores. Clarice
que é de soslaio, disse para
sempre em Água Viva: Eu,
que vivo de lado, sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o
mundo.
Com
freqüência, portanto, o mundo das nossas misérias também. Contudo,
é preciso salientar que ao contrário de Kafka, de Becket, de
Maurice Blanchot, ou de
Cioran - seus pares contemporâneos -, que permanecem no fechamento do ser, no impasse e
necessariamente na angústia, ela celebra a incerteza ! ... Pela
primeira vez surge em uma obra literária a aceitação e a celebração
do ato de perguntar como uma forma privilegiada de coragem. A coragem da
esperança: Você
sabe que a esperança consiste às vezes apenas numa pergunta sem
resposta?(
A Maçã no Escuro) A
aceitação e a celebração da necessidade,
da carência, da própria incompletude humana. Nas últimas páginas da Paixão ela diz: Ah!
meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. E
assim como o poeta que se expande e se
dissolve no mundo e na natureza à maneira do Criador,
Clarice, que não tem medo da incompletude, por isso mesmo cresce e
se expande nos últimos parágrafos de
A Paixão
segundo G.H.: Eu
estava agora tão maior que já não me via
mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mais
perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos
rios. (...)
como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me
é, e eu não entendo o que digo. E então adoro. - - - - - - - |
| FALAM OS AMIGOS, OS LEITORES, OS ESTUDIOSOS | |
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Na
primeira reunião pública da ALACL ( Associação dos Leitores e Amigos
de Clarice Lispector), que teve lugar na Biblioteca Nacional, em 1995,
perguntamos aos participantes por que se interessavam pela obra de
Clarice. E a atriz Maria Esmeralda, desde então assídua colaboradora,
declarou: Clarice me
fascina e me assusta. Porque ela parece saber mais de mim do que eu mesma.
MARIA
ESMERALDA, atriz Outros já
haviam dito: Era Clarice bulindo
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OBRAS CONSULTADAS |
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Cixous,
Hélène Gotlib,
Nádia Battella Lispector,
Clarice Nunes,
BeneditO
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