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CHIQUINHA
GONZAGA
Compositora
e maestrina brasileira: 1847-1935
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1847: Chiquinha Gonzaga nasce a 17 de outubro no Rio de Janeiro. - 1863: Casa-se com Jacinto Ribeiro do Amaral no dia 5 de novembro. - 1864: Nasce o primeiro filho do casal, João Gualberto, no dia 12 de julho. - 1866: Chiquinha e João Gualberto acompanham Jacinto no navio São Paulo durante a guerra do Paraguai. - 1867/8: Abandona o marido Jacinto e os filhos Maria e Hilário. - 1877: Em fevereiro edita sua primeira composição, Atraente. - 1880: Morre, em março, seu amigo Callado. - 1885: Estreia a 17 de janeiro a primeira peça musicada pela maestrina, A Corte na Roça. - 1888: Abolição da escravatura. - 1889: Proclamação da República; compõe a primeira marcha carnavalesca, Ó Abre Alas; conhece João Batista. - 1902: Vai pela primeira vez à Europa, acompanhada por João Batista. - 1912: Estreia o grande sucesso Forrobodó. -1914: Escândalo do tango Corta-Jaca no Palácio do Catete. - 1917: Participa na fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT). - 1935: Morre em 28 de fevereiro, no Rio de Janeiro.
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O INÍCIO |
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Dia
17 de outubro de 1847: Rosa Maria Lima, mestiça pobre e solteira, dá à
luz uma menina. Teme que a criança não seja reconhecida pelo pai, José
Basileu Neves Gonzaga, à época primeiro-tenente. De fato, a família do
tenente não aceita seu envolvimento com Rosa mas, contrariando os temores
da moça, ele a assume como esposa — bem como a paternidade da menina.
Numa homenagem a São Francisco e Santa Edwiges, a criança recebe o nome
Francisca Edwiges Neves Gonzaga, mais tarde e para sempre conhecida como
Chiquinha Gonzaga. Apesar
dos parentes de alta posição social – o mais ilustre é Duque de
Caxias –, o pai de Chiquinha não dispõe de grandes condições
financeiras. Ela porém é criada como uma criança de família burguesa e
educada conforme os padrões sociais vigentes. Com um professor particular
toma aulas de escrita, leitura, cálculo, catecismo e idiomas, além de
receber uma boa educação musical. Meninas como Chiquinha aprendem música
invariavelmente ao piano, que se tornara a coqueluche da época, símbolo
de status social. O instrumento foi importado para o Brasil, junto
com o numeroso repertório da época a ele dedicado, como sinal de
“civilização”. Chiquinha
demonstra gosto especial pelas aulas de música e, aos 11 anos, compõe
sua primeira peça. É uma canção para a festa de Natal da família, com
letra de seu irmão Juca, de nove anos. Além das aulas, Chiquinha tem
contato com a música por meio de seu tio e padrinho Antônio Eliseu,
flautista amador. Nessa
época o Rio de Janeiro vive a febre da polca, introduzida no Brasil em
1845. A polca torna-se uma das danças mais
populares do Rio na segunda metade do século XIX. Introduzida nos salões
de elite, mais tarde chegará até às casas populares, tornando-se um
sucesso absoluto. Afora a inclinação musical, Chiquinha tem uma vida rotineira. As histórias de família revelam que era moça “trigueira e danada”, que “namorava até padre”. Tinha um gênio forte e decidido, o que às vezes lhe causava atritos com o pai, nada porém que não fosse resolvido em âmbito familiar. Como era de costume, seus pais logo tratam de arranjar-lhe um bom casamento e, em 1863, aos dezasseis anos, Chiquinha casa-se com Jacinto Ribeiro do Amaral, jovem rico de vinte e quatro anos.
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| "NÃO ENTENDO A VIDA SEM HARMONIA" | |
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Até
o casamento, a música não motiva atritos entre Chiquinha e seus
familiares. Tanto que, conhecendo o gosto da filha por música, José
Basileu lhe dá um piano como dote de casamento. Mas a situação começa
a dificultar-se com o marido. Em 1864 nasce João Gualberto, o filho
primogênito do casal e, no ano seguinte, Maria do Patrocínio. Desde os
primeiros dias da vida de casada, Chiquinha passa a enfrentar problemas.
Seu comportamento independente, sua dedicação ao piano e a mania de
compor valsas e polcas não agradam ao marido, e isso provoca freqüentes
brigas entre os dois. 1865:
no mesmo ano em que nasce Maria do Patrocínio, o Brasil intervêm na
Guerra do Paraguai, iniciada um ano antes. Jacinto torna-se co-proprietário
– acredita-se que com o Barão de Mauá – de um navio, o São Paulo.
Contratado pelo governo, inicia viagens ao sul como comandante da Marinha
Mercante, transportando soldados – na maioria escravos alforriados – e
material de guerra. Na tentativa de afastá-la da música e principalmente
para mantê-la sob vigilância, Jacinto obriga Chiquinha a ir com ele. Ela
e o filho João Gualberto acompanham-no nas viagens. Maria, recém-nascida,
é deixada com a avó Rosa. A situação conjugal se
agrava durante essas viagens. Chiquinha revolta-se com o tratamento
dado aos negros, que estão ali como “voluntários da pátria”, mas são
tratados de forma discriminatória e expostos nas operações mais
arriscadas. O
casal vive em permanente conflito. Para distrair-se e suprir a falta que o
piano lhe faz, Chiquinha consegue um violão a bordo. Mas isso só piora o
relacionamento entre ela e o marido, até que Jacinto lhe exige uma opção
definitiva: ou ele ou a música. “Pois, senhor meu marido, eu não
entendo a vida sem harmonia”, ela
terá de imediato lhe respondido. Chiquinha
então retorna com João Gualberto ao Rio de Janeiro, decidida a abandonar
Jacinto. Vai à casa dos pais, onde está sua filha, mas a família não
lhe dá apoio. Ela ainda pensa em resistir, mas um fato inesperado a faz
reconsiderar: está novamente grávida. Chiquinha e Jacinto voltam a viver
juntos por algum tempo, porém a crise conjugal não cessa, e ela decide
abandoná-lo de vez. Ela
sai de casa levando apenas João Gualberto e novamente é rejeitada pela
família. A filha Maria continua sendo criada pelos avós – mais tarde
acreditará que eles sejam seus pais, já que Chiquinha é tida como
“morta” pela
família. O recém-nascido Hilário acaba sendo criado por uma tia
paterna. O fim do casamento é episódio crucial na trajetória de
Chiquinha. É quando toma as rédeas de sua vida e rompe com a submissão
a que estaria fadada a viver. Se até agora estivera sempre sob alguma
tutela – primeiro do pai, depois do marido –, agora não terá mais
suas vontades tolhidas por ninguém - nem pela rígida postura social
imposta às mulheres do século XIX.
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ALÉM DE MULHER, "PIANEIRA" E "CHORONA" |
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Para
sustentar-se, começa a dar aulas particulares de piano. Ao mesmo tempo,
aproxima-se dos músicos cariocas, principalmente de um famoso flautista,
Joaquim Antônio da Silva Callado. Levada por ele, Chiquinha começa a freqüentar
o ambiente musical boêmio da época. Callado, além de instrumentista, é
compositor conhecido e respeitado, professor do Imperial Conservatório de Música.
Os dois se tornam grandes amigos, e a ela o compositor dedica sua primeira
partitura editada, a polca Querida por Todos, em 1869. Mas a
definitiva introdução de Chiquinha Gonzaga no meio musical carioca será
adiada por conta de um caso amoroso. O
jovem João Batista de Carvalho Jr. é um alegre e galanteador engenheiro.
Chiquinha conhece-o há tempos, pois ele era amigo da família Gonzaga e
costumava freqüentar a casa de seu ex-marido. Ao passar a viver com ele,
Chiquinha desperta na sociedade a suspeita de que aquela fosse uma relação
antiga. Ela enfrenta a hostilidade da cidade, onde todos sabem que
abandonara o marido. Surge a oportunidade de se afastar daquele burburinho
quando João Batista recebe uma proposta de trabalho na Serra da
Mantiqueira. Chiquinha e João Gualberto o acompanham. Eles passam dois anos
viajando, mas, quando retornam ao Rio, em 1875, ainda enfrentam rejeição.
O casal resiste e, no ano seguinte, vem uma filha, Alice Maria. Chiquinha e
João Batista decidem afastar-se da cidade novamente, mas a mudança de
ambiente não melhora a situação, e Chiquinha ainda suspeita da
infidelidade do marido. Com tudo isso, decide abandoná-lo e à pequena
filha Alice. Mais uma vez foge com João Gualberto. De
volta ao Rio de Janeiro, Chiquinha instala-se num casebre em São Cristóvão.
A partir daí, insere-se de vez no ambiente musical da cidade. Volta a dar
aulas de piano e passa a apresentar-se com o grupo do amigo Joaquim Callado.
O conjunto criado por Callado, Choro Carioca, toca em festas domésticas
e é composto de flauta, cavaquinho e dois violões. A essa formação
inclui-se o piano de Chiquinha. Ela se torna então uma pianeira,
termo depreciativo usado na época para desqualificar esses músicos
populares, distinguindo-os dos pianistas, que executam repertório
erudito. Está no nome do conjunto musical o primeiro registro da palavra “choro”, que designa uma forma de tocar. O grupo toca de forma “chorosa” tangos, polcas, valsas. Só mais tarde é que essa “forma” de tocar configurará um novo gênero musical. A maneira “chorosa” ou “chorona” de tocar é uma clara intervenção nacional na execução de músicas compostas segundo formas musicais europeias. A partir do sucesso do conjunto de Callado e Chiquinha, muitos outros grupos de “choro” surgem, e seus integrantes passam a ser conhecidos como chorões.
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O PRIMEIRO SUCESSO DA COMPOSITORA CHIQUINHA |
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Aos
29 anos a compositora Chiquinha Gonzaga alcança seu primeiro sucesso com a
polca Atraente. Diz-se que foi composta num animado “choro” na
casa do maestro Henrique Alves de Mesquita. Um êxito estrondoso: publicada
em fevereiro de 1877, em novembro chega à décima-quinta edição. Para a
família, porém, o sucesso incomoda demais. José Basileu, o pai de
Chiquinha, considera humilhante ver o nome Gonzaga gritado pelas ruas
e ligado a uma música “chula” e “indecente”. Muitas partituras são
danificadas por familiares enraivecidos. O
Rio de Janeiro, a essa altura, passa por um momento de efervescência
cultural. Na música, surgem diversos gêneros musicais nacionais, como o
tango brasileiro, o maxixe e, posteriormente, o choro. É hoje apontado por
vários estudiosos como o momento da nacionalização da música popular
brasileira. Mais do que a intenção de criar uma música “genuinamente”
brasileira, os músicos populares lutam para conquistar, por meio de uma
linguagem musical com que se identificassem, seu próprio espaço na
sociedade. Evidentemente, sofrem com o preconceito da elite, que tem como
paradigma a música europeia e não aceita essa nova manifestação musical,
apontada como um dos fatores responsáveis pelo atraso cultural do país. Chiquinha,
além de típica representante dessa nova geração de músicos populares,
é mulher. Por isso recebe críticas em dobro. É inaceitável que uma
mulher trabalhe para se sustentar, sobretudo numa atividade – que ainda
nem é reconhecida como profissão – própria de “boêmios” e
“vagabundos”. No início, em manifesto desprezo pela capacidade
feminina, chega-se a duvidar que as composições com seu nome realmente
sejam obras suas. Ao mesmo tempo, não lhe perdoam por freqüentar locais
proibidos a mulheres “direitas”, como as confeitarias e os cafés, onde
pode ser encontrada quase todas as noites. Como nota um contemporâneo seu,
“quem visse aquela morena faceira, cheia de vida e de entusiasmo, animando
as festas do povo, metida nos teatros, discutindo como um homem e vivendo a
vida a seu modo, pensaria, por certo, que tal criatura tivesse uma origem
baixa e vulgar.” É justamente o que pensa a maioria das pessoas. De
qualquer forma, a partir do sucesso de Atraente, Chiquinha torna-se
figura popular no Rio de Janeiro. Odiada por muitos, admirada por alguns,
a compositora por muitas vezes será motivo de polêmica na cidade.
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| MAESTRINA E COMPOSITORA ACLAMADA | |
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Chiquinha
produz intensamente. Além de tocar com os chorões, dar aulas e editar
composições, passa a musicar peças para o teatro de revista. A primeira
experiência, em 1883, é Viagem
ao Parnaso, de Arthur Azevedo, que acaba por não ser apresentada, pois
o empresário recusa-se a montar um espetáculo musicado e conduzido por uma
mulher. Chiquinha não desanima e, finalmente, inicia sua carreira de
maestrina em 17 de janeiro de 1885, com a revista A Corte na Roça,
de Palhares Ribeiro. É uma opereta de um ato cujo enredo trata dos costumes
do interior do país. A peça e o desempenho dos atores não agradam à crítica,
mas a música de Chiquinha recebe elogios entusiásticos. “Verdadeiro
primor de graça, elegância e frescura – uma composição dessa ordem
faria a reputação de um compositor em qualquer país que se
apresentasse”, afirma um artigo. E havia espanto em outras manifestações:
“Uma peça posta em música por uma mulher!”. Em pouco tempo, Chiquinha
torna-se a compositora mais requisitada para esse tipo de trabalho. Chega a
ser chamada de “Offenbach de saias”, numa alusão ao francês Jacques
Offenbach, criador da opereta – que no Brasil ganha o formato de
teatro de revista. Com o sucesso das peças, as críticas a seu trabalho diminuem gradativamente, sendo substituídas por progressivo respeito. O teatro de revista representa para Chiquinha uma fonte de renda razoavelmente estável. Também lhe traz o reconhecimento como compositora e o acesso a um público maior.
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| UMA MUSICISTA ENGAJADA NAS CAUSAS DO SEU TEMPO | |
| Chiquinha Gonzaga participa em comícios contra a escravatura e a monarquia. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA. |
Paralelamente
às atividades musicais, Chiquinha se envolve nas causas abolicionista e
republicana. Participa ativamente nos festivais artísticos destinados a
arrecadar fundos para a Confederação Libertadora, que se encarrega da
compra de alforrias. Junto
com figuras como Paula Nei, Lopes Trovão e José do Patrocínio, Chiquinha
freqüenta as reuniões e os comícios abolicionistas, que quase sempre
acabam em discussões acaloradas, num café ou confeitaria, noite adentro. Depois
da vitória da campanha abolicionista, Chiquinha passa a trabalhar pela
causa republicana. Faz campanha contra o regime monárquico em locais públicos,
tornando-se grande companheira do militante republicano Lopes Trovão. O
empenho e entusiasmo de Chiquinha Gonzaga levam Trovão a afirmar, em 1921,
no jornal A Pátria: “Aquela Chiquinha é o diabo! Foi nossa
companheira de propaganda na praça pública, nos cafés! Nunca me
abandonou”. Mas tanto Chiquinha quanto Lopes Trovão logo se decepcionam com os rumos que toma a recém-instaurada república. Durante a Revolta da Armada, em 1893, Chiquinha escreve uma cançoneta intitulada Aperte o botão, considerada ofensiva pelo governo de Floriano Peixoto. A edição da partitura é apreendida e ela recebe ordem de prisão. Seu parentesco com pessoas ilustres e sua popularidade acabam livrando-a de maiores complicações.
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| "ABRE ALAS QUE EU QUERO PASSAR..." | |
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A
carreira já repleta de sucessos ganha brilho especial em 1899, quando
Chiquinha compõe aquela que é hoje sua canção mais conhecida: a
marcha-rancho Ó Abre Alas, feita para o cordão carnavalesco Rosa de
Ouro. A maestrina morava no bairro do Andaraí, o mesmo em que se sediava o
cordão. Ao ouvir um dos ensaios, tem a inspiração para a música.
Chiquinha a compõe de forma despretensiosa, nem sequer se preocupando em
editar a marchinha, que considera uma composição menor. Mas o fato é que
a canção cai nas graças do povo e é hoje um clássico da música popular
brasileira. Além disso, tem um papel histórico: é considerada a primeira
marcha feita para o carnaval. Na verdade, o que Chiquinha fez foi dar forma
às cançonetas improvisadas que os foliões entoavam durante o carnaval.
“Era comum se utilizarem de uma marcha, com versos pedindo para abrir alas
e apresentando o nome do cordão”, afirma sua biógrafa Edinha Diniz. A música
será por muitos anos a mais cantada nos carnavais, antecipando um gênero
– a canção carnavalesca – que só se fixará vinte anos depois. Na
época da composição do Abre Alas Chiquinha conta 52 anos. Já era
avó desde os 42, quando nasce Valquíria, filha de João Gualberto. Vive
sozinha e tem uma vida pessoal discreta. Não admite empregados trabalhando
em sua casa, assim como nunca tivera escravos. Neste ano de 1899 conhece João
Batista Fernandes Lage, jovem português de apenas 16 anos. Nasce ali um
romance que durará até ao fim da vida de Chiquinha. João é sócio do
clube Euterpe-Estudantina, formado por rapazes interessados em música, que
organiza concertos e cursos. Chiquinha torna-se sócia honorária, e isso os
aproxima. Chiquinha
e João Batista passam a viver juntos um romance que não lhes é de forma
alguma confortável. Tentando camuflar a relação, ela passa a apresentá-lo
como filho. Obviamente, alguns consideram tal filiação suspeita, pois o
jovem tem sotaque português e nunca se tinha ouvido falar de outro filho além
dos quatro conhecidos. João assina com o sobrenome Gonzaga e, em 1939, após
a morte de Chiquinha, acaba por conseguir o registro de filho legítimo dela
e Jacinto, seu primeiro marido. Nos anos que se seguem à união do casal, eles realizam três viagens à Europa. Na última, em 1906, permanecem em Portugal por quase três anos. Ela alega cansaço, mas é provável que queira se livrar de problemas que a atormentam no Rio. Suas filhas, Maria e Alice, viúvas e com vários filhos, procuram-na pela primeira vez em busca de ajuda financeira. Chiquinha se recusa a ajudá-las e ambas começam a questionar a origem de João Batista, ameaçando tornar o caso público. Ao retornar ao Rio em 1909, a maestrina retoma sua intensa atividade musical.
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| FORROBODÓ E UM ESCÂNDALO NO CATETE | |
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Corta-jaca, uma composição de Chiquinha Gonzaga, provoca escândalo no Catete (palácio presidencial). Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA. |
Para
concorrer com o cinema nascente, as companhias de teatro criam os espetáculos
por sessões, várias por noite, a preço de cinema. A iniciativa dá grande
resultado e dinamiza o teatro. Cabe a Chiquinha musicar várias dessas peças.
Uma delas, intitulada Forrobodó, só é encenada em 1912 por insistência
da compositora, uma vez que os diretores teatrais não acreditam em seu êxito.
Fica acertado que Forrobodó ficará em cartaz apenas por uma semana
e os cenários e figurinos serão reaproveitados em outras montagens para
que não se perca dinheiro. Forrobodó passa num baile da Cidade
Nova, bairro pobre do Rio. Os personagens tipos populares, coisa inusual na
época. A peça, no entanto, torna-se sucesso absoluto, atingindo 1500
apresentações. As músicas do espetáculo ficam conhecidas e são cantadas
por toda a cidade. É o maior sucesso teatral de Chiquinha e um dos maiores
de toda a história do teatro de revista do Brasil. Em
1914 um escândalo leva Chiquinha, ou melhor, sua música, às primeiras páginas
dos jornais. Às vésperas de deixar a presidência, o marechal Hermes da
Fonseca promove uma recepção, espécie de despedida do governo. Local: Palácio
do Catete, sede do governo federal. Está presente a alta sociedade do Rio,
além de boa parte do corpo diplomático. A noite se inicia com alguns números
musicais, que incluem Gottschalk, Arthur Napoleão e Liszt, entre outros.
Tudo muito convencional e elegante. Mas a esposa do presidente, a jovem e
irrequieta Nair de Teffé, tem uma surpresa. Para terminar a seleção
musical, ela apanha o violão e apresenta o Corta-Jaca,
tango-brasileiro (ou maxixe) de autoria de Chiquinha Gonzaga. A repercussão
é imediata. Os jornais comentam o sacrilégio com destaque – imagine, um
tango popular no Catete! No
dia seguinte, o senador Rui Barbosa, exasperado, comenta o acontecido no
Senado. “Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa
da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais
fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo
das boas maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca
à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu
ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais
baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã
gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas
recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as
honras de Wagner, e não se quer que a consciência desse país se revolte,
que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”. O incidente
fica tão conhecido que o mandato do marechal Hermes acaba apelidado de Corta-Jaca. Outra
campanha de Chiquinha se inicia por volta de 1913: a luta pelos direitos
autorais. Na Europa a maestrina encontrara, numa loja musical de Berlim, uma
série de partituras suas reproduzidas sem seu conhecimento. Isto a deixa
indignada e ela, ajudada por João Batista, trata de descobrir quem havia
autorizado a edição. Acaba chegando ao diretor da Casa Edison do Rio de
Janeiro, Fred Figner. Ele tenta não levar a situação muito a sério,
afinal era conhecido de Chiquinha, e além de tudo nunca se tinha brigado
por questões autorais no país. Mas ela não deixa por menos – vai aos
jornais, dá entrevista, cria polêmica: com que direito utilizavam sua obra
sem ao menos a avisar? Acaba vencendo o impasse e recebe 15 contos de réis
a título de indenização. Além
de editar partituras, Fred Figner fazia gravações de discos no país desde
1902. Muitos continham músicas de Chiquinha e outros artistas, e eles nem
sequer eram mencionados. O mesmo acontecia com as composições para teatro.
As peças faziam a fortuna das empresas de teatro e o compositor quase nada
recebia. A discussão em torno do assunto rende frutos: em 1916, o Congresso
Nacional aprova uma lei sobre propriedade artística e literária e, em
1917, os autores teatrais se reúnem e fundam a Sociedade Brasileira de
Autores Teatrais (SBAT). A sociedade visa resguardar os direitos dos autores
teatrais e também dos compositores musicais. Chiquinha é a sócia
iniciadora, fundadora e patrona da SBAT, ocupando a cadeira n.°1. É lá
que se encontra hoje seu arquivo pessoal.
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| "SOFRI E CHOREI" | |
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Em
1920, aquela mulher aparentemente inabalável começa a sentir o peso da
idade. Acreditando que não tardará a morrer, escreve uma espécie de
despedida. A carta tem data de 16 de janeiro. “Meus filhos. Sinto que não
está longe a minha morte – que venha, meu Deus! É o que atualmente peço
a ele todos os dias e momentos! Os desgostos me acabrunham de tal forma, que
por mais resignação que peça ao Senhor de misericórdia, não tenho mais
forças de sofrer”. Segue
dando instruções aos filhos sobre como proceder com seu enterro e
determina que “na cova rasa,
ponham uma cruz com esse emblema – Sofri e chorei”. Termina
dizendo: “Amanhã faz 35 anos que luto com a minha triste vida de trabalho
e injustiça. Adeus!” Escrita
aos setenta e dois anos, a carta em nada lembra seu ânimo habitual e suas
atitudes ousadas. Ao contrário, mostra uma senhora cansada e ressentida,
sem mais razões para viver. Talvez seja um sinal de que a batalha travada
durante toda a vida não havia sido ganha sem deixar marcas amargas. Chiquinha,
em que pese a carta de despedida, ainda vive por mais quinze anos, recebe
homenagens e torna-se nacionalmente reconhecida. Sua música, porém, já não
cabe nos novos tempos. Em outra carta, datada de janeiro de 1926 e enviada
ao amigo Vicente Reis, ela comenta: “Continuo sempre a trabalhar, mas
aonde estão os teatros? Procuro, e não acho, tenho escrito tantas peças,
e boas, e agora tenho cinco peças lindas de bons escritores, e não tenho
teatro!!! Atualmente, só representam tudo o que há de indecente, porco e
nojento!” Da mesma forma, a maestrina já não se mostra tão receptiva às
novidades, como antes fora com as polcas, tangos e maxixes. “O que irrita
a sua intolerância é, porém, a música moderna. Detestava o jazz-band,
enervada com as explosões bárbaras dos instrumentos de pancadaria e afeição
irreverente das peças americanas. E, sempre que a orquestra do teatro
terminava um número, ela exclamava para mim, indignada, sem querer mal aos
intérpretes, mas deplorando as dissonâncias: Por favor, ora diga-me você:
isto é música?”, conta-nos um amigo seu. Chiquinha
vive os últimos anos recolhida em seu apartamento na Praça Tiradentes.
Quando lá não está pode ser encontrada na sede da SBAT, que freqüenta
assiduamente. Um colega da Sociedade de Autores deixa registradas suas
impressões sobre a velha senhora: “Conheci Chiquinha Gonzaga nos últimos
anos de sua vida, sempre vestida de preto, com uma saia que lhe chegava aos
pés, gola alta, pele encarquilhada, com quase noventa anos. Mas aqui [ na
SBAT] estava todos os dias, com esquisitices e rabugices respeitadas e
toleradas por todos nós. Sentava-se numa cadeira e ficava a fiscalizar o
trabalho dos nossos funcionários, como se administrasse sua própria casa.
E, porventura, não era a sua casa?” Chiquinha
Gonzaga morre no dia 28 de fevereiro de 1935, aos 87 anos.
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