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CECÍLIA MEIRELES
Poeta: 1901 – 1964
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1901: 7 de novembro, Rio de Janeiro: nasce Cecília Meireles. Seus pais: Carlos Alberto de Carvalho Meireles e Matilde Benevides. Ambos morreram cedo: o pai, três meses antes do nascimento da filha; a mãe faleceu quando Cecília tinha 3 anos de idade. Os avós paternos: João Correia Meireles, português, funcionário da Alfândega do Rio de Janeiro, e D. Amélia Meireles, ambos falecidos. A avó materna, D.Jacinta Garcia Benevides, açoriana, cuidou da menina, como tutora. – 1910: Termina o Curso Primário, na Escola Estácio de Sá. Recebe medalha de ouro das mãos do poeta Olavo Bilac, então Inspetor Escolar do Distrito Federal. Na adolescência: paixão pelos livros. Estuda história, línguas, filosofia, estudos orientais, que continuaram sempre. Nasce o entusiasmo pelo Oriente. – 1917: Diploma-se na Escola Normal (Instituto de Educação). Desde então exerce o Magistério. Segue os estudos no Conservatório Nacional de Música. – 1919: O primeiro livro de versos, Espectros, recebe elogios da crítica. – 1922: Casa-se com o artista plástico português, Fernando Correia Dias. Desse casamento nascem três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda (esta virá a ser uma famosa atriz do teatro brasileiro). – 1924: Escreve Criança meu amor, adotado pelas escolas municipais. – 1929: Edita a conferência O espírito vitorioso, apresentada no Concurso para vaga na cátedra de Literatura Brasileira, no Instituto de Educação. – 1930/1934: Atividade jornalística intensa: dirige uma página diária sobre Educação no jornal Diário de Notícias. Faz críticas ao Governo de Getúlio Vargas em defesa de uma nova escola. – 1934: Passa a dirigir o Instituto Infantil, no Pavilhão Mourisco. Cria uma Biblioteca Infantil. Neste mesmo ano faz a primeira viagem ao exterior.Visita Portugal acompanhada do marido, a convite da Secretaria de Propaganda desse país. Intensa atividade cultural em Lisboa e Coimbra. Nascem grandes amizades. – 1935: Leciona Literatura Brasileira na recém fundada Universidade do Distrito Federal (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro). Suicídio do marido. – 1936/1938: Dificuldades econômicas lhe exigem muito trabalho: ministra cursos de Técnica e Crítica Literária; sobre Literatura Comparada e Literatura Oriental. Escreve regularmente em vários jornais (A Manhã, Correio Paulistano, A Nação).Trabalha no departamento de Imprensa e Propaganda como responsável pela revista Travel in Brazil. – 1938: Seu livro Viagem recebe o Prêmio Poesia da Academia Brasileira de Letras. Conhece o médico Heitor Grilo. Casam-se no ano seguinte. Viagem aos Estados Unidos e México. Ministra cursos de Literatura Brasileira na Universidade do Texas. – 1939: Viagem é editado em Lisboa. – 1940: Nos Estados Unidos leciona Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas. Faz conferências sobre literatura, folclore e educação no México. – 1942/1944: Publica Vaga Música. No jornal A Manhã, escreve importantes estudos sobre folclore infantil. – 1944: Visita Uruguai e Argentina. – 1945: Publica Mar Absoluto. A família muda-se para o Cosme Velho. – 1948: Instalação da Comissão Nacional de Folclore. É tratada como autoridade no assunto. – 1949: Mais um livro: Retrato Natural. – 1951: Secretaria o Primeiro Congresso Nacional de Folclore (Rio Grande do Sul). Viagem à Europa (França, Bélgica, Holanda e Portugal). Publica Amor em Leonoreta. – 1952: Recebe o Grau de Oficial da Ordem do Mérito, do Chile. Sócia honorária do Gabinete Português de Leitura, do Instituto Vasco da Gama, de Goa, na Índia. Lança: Doze noturnos de Holanda & O Aeronauta. – 1953: Afinal sai O Romanceiro da Inconfidência, a obra prima. A convite do primeiro ministro Nehru, participa de Simpósio sobre a obra de Gandhi, na Índia. Recebe título Doutor Honoris Causa pela Universidade de Deli. Compõe Poemas escritos na Índia. Passagem pela Itália: nascem os Poemas Italianos. Índia, Goa e Europa... Pequeno Oratório de Santa Clara. – 1954: Novas viagens: Europa e, agora, Açores. – 1956: Publica Canções. – 1957: Viaja a Porto Rico. – 1958: Faz conferência em Israel. Visita aos lugares santos. Publicação da Obra Completa pela editora José Aguilar. – 1960: Publica Metal Rosicler. – 1963: O último livro publicado em vida, Solombra. – 1964: Morre em 9 de novembro. Repousa no Cemitério São João Batista (Botafogo, Rio de Janeiro) túmulo n.8951, quadra 14. Uma lápide simples contém apenas nome e data, 1901-1964. – 1965: A Academia Brasileira de Letras confere-lhe o Prêmio Machado de Assis, post mortem, pelo conjunto de sua obra.
Seus livros Espectros,
1919 l
Nunca mais... e
Poema dos Poemas, 1923 l
Baladas
para El-Rei, 1925 l
Criança, meu amor, 1927 l
Viagem,
1939 l
Vaga música, 1942 l
Mar
Absoluto e Outros Poemas, 1945 l
Retrato
natural, 1949 l
Amor em Leonoreta, 1951 l
Dez noturnos de Holanda & O aeronauta, 1952 l
Romanceiro da Inconfidência, 1953 l
Pequeno
Oratório de Santa Clara, 1955 l
Pistóia,
Cemitério Militar Brasileiro, 1955 l
Canções,
1956 l
Romance de Santa Cecília, 1957 l
Obra poética, 1958 l
Metal Rosicler,
1960 l
Poemas escritos na Índia, 1961 l
Solombra, 1963 l
Ou isto ou aquilo,
1964 l
Crônica trovada da cidade de Sam Sebastiam, 1965 l
Poemas
italianos, 1968 l
Ou isto ou aquilo & Inéditos,
1969 l
Cânticos, 1981 l
Oratório de
Santa Maria Egipcíaca, 1986 Desde
1998 vem sendo desenvolvido projeto de publicação de toda a obra em
prosa da poeta, coordenado pelo camonista Leodegário de Azevedo Filho.
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HISTÓRIA
DA VIDA |
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“-
Houve um tempo em que a minha janela se abria para um
chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul.
Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos,
quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia
pousado no ar. Eu era criança,
achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz.
(...)” (Arte
de ser feliz, Escolha seu sonho)
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| INFÂNCIA | |
A
avó açoriana marca a sensibilidade de Cecília. Entretanto, o que está
a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua
Cronológica. |
Dia
7 de novembro de 1901. Cecília
Meireles nasce na Rua da Colina, Tijuca, Rio de Janeiro. Signo:
Escorpião. Signo de Água, regido por Marte e Plutão. Marte impulsiona a
luta, as ações e realizações; Plutão traz perdas, transformações
profundas e capacidade de se reerguer frente às intempéries. Fica
órfã muito cedo. Não chega a conhecer o pai
- Carlos Alberto de Carvalho Meireles -
falecido aos 26 anos, três meses antes de ela nascer.
Não conheceu os irmãozinhos, Vítor, Carlos
e Carmem: “-
Todos morreram antes de meu nascimento. E minha mãe (Matilde Benevides
Meirelles) se foi quando eu tinha apenas três anos. Fui criada por
minha avó materna, Jacinta Garcia Benevides, nascida nos Açores,
Ilha de São Miguel”. Essas
e outras perdas ocorridas na família dão à pequena Cecília intimidade
com a morte e a certeza de que nada é para sempre.
Atributos para sua reserva lírica: “-
Minha infância de
menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre
positivas para mim: silêncio e solidão. Preciso deles para escrever.” Enquanto
borda, D. Jacinta canta cantigas antigas da Ilha de São Miguel. No imaginário
infantil começa a tecer-se o tapete feito de lirismo popular: a voz da avó
vai lhe ensinando os enigmas da vida cifrados nos ditos populares:
-
Nem por muito madrugar amanhece mais cedo, -
Duro com duro não faz bom muro, -
Uma andorinha só não faz verão.
“-
Tudo
quanto recebi, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, - perdura em mim
com uma intensidade poética inextinguível ...”. À
memória desta avó mítica, falecida em 1932, Cecília dedica
uma “Elegia”: “Minha
primeira lágrima caiu dentro de teus olhos”. Tive
medo de a enxugar: para não saberes que havia caído. No
dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva, Modelada
pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos. Exalava-se
de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua. Vi
aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras, E
a voz dos pássaros e a das águas correr, -
sem que a recolhessem teus ouvidos inertes. Onde
ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto? Inclinei-me
sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho, E
tristemente
te procurava. Mas
também isso foi inútil, como tudo mais.
(OC,465)
Das
perdas tão
precoces
fica-lhe
a consciência do efêmero...: Sei
que canto. E a canção é tudo, Tem
sangue eterno e asa ritmada. E
um dia sei que estarei mudo: mais
nada. (Motivo
,Viagem) ...
e o desejo
de
buscar algo irrevelado e distante: o sonho. Pus
o meu sonho num navio E
o navio em cima do mar; -
depois, abri o mar com as mãos Para
o meu sonho naufragar. (Canção,
Viagem) Em 1910 conclui o curso primário na Escola Estácio de Sá com distinção e louvor. Recebe das mãos do poeta Olavo Bilac medalha de ouro, com o nome gravado. Sete anos depois termina a Escola Normal, no Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Segue estudando sempre: música, no Conservatório Nacional, canto, violino, estuda línguas e pesquisa sobre o Oriente – história, línguas, filosofia.
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| É PROFESSORA COMO A MÃE | |
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“(...)
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma
vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa
esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças.
E contava histórias. Eu não a podia ouvir (...) foi muito longe, num
idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e
às vezes faziam com
as mãos arabescos tão
compreensíveis, que eu participava do auditório, (...) - e me sentia
completamente feliz.(...)” -
Minha mãe tinha sido professora primária (a primeira professora a
formar-se no Brasil) e eu gostava de estudar nos seus livros. Velhos
livros de família que me seduziam muito. Assim como as partituras e
livros de música. A
educação (...) é uma causa
que abraço com paixão assim como a poesia. A
criança é eterno motivo de ternura e para ela escreve Criança,
meu amor (1927) e Ou
isto ou aquilo
(1964,
post mortem): Ou
se tem chuva e não se tem
sol, Ou
se tem sol e não se tem chuva! Ou
se calça a luva e não se põe o anel; Ou
se põe o anel e não se calça a luva! Quem
sobe nos ares não fica no chão, Quem
fica no chão não sobe nos ares. É
uma grande pena que não se possa Estar
ao mesmo tempo nos dois lugares! A Educação é uma causa e um compromisso. É a sua militância. Exerce o magistério até 1951 (aposenta-se como Diretora de Escola). Defende os ideais da Nova Escola, propostos por Fernando Azevedo e Anísio Teixeira: desejam uma escola que proporcione o desenvolvimento integral da criança. De 1930 a 1934 dirige seção diária sobre Educação no jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro .O seu entusiasmo leva-a a criar uma Biblioteca Infantil, no Pavilhão Mourisco, em Botafogo. É a primeira no gênero, germe para inúmeras outras que se espalham pelo Brasil.
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MAS COMO DESCREVER CECÍLIA? |
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Eis como ela nos responde: -
Acho que não saberia fazer isso fora da poesia. Mais me agrada e diverte
um flash
que o João Condé, publicou nos Arquivos Implacáveis, na revista O
Cruzeiro, Rio de Janeiro, em 31 de dezembro de 1955: “Não
tem medo de viajar de avião em viagens longas. Gostaria
de tornar a visitar o oriente e chegar até a China.(...). Nome:
Cecília Meireles - Nasceu no Distrito Federal (hoje cidade do Rio de
Janeiro) Casada,
três filhas e dois netos. Altura,
1,64 - Peso 59 quilos e calça sapatos número 37. É
quase vegetariana. Não
fuma, não bebe, não joga. Não
pratica nenhum esporte, mas gosta muito de caminhar e acha que seria capaz
de dar a volta ao mundo a pé. Não
gosta de futebol e raramente vai ao cinema. - Gosta de bom teatro. Responde
pontualmente todas as cartas que recebe, mas atrasa-se às vezes, em
agradecer livros, porque só agradece depois de os ler. Adora
música, especialmente canções medievais, espanholas e orientais. -
Poetas preferidos: todos os bons poetas. Prefere
pintores flamengos. Dorme
e acorda cedo. Leu
Eça de Queirós antes dos 13 anos. Escreveu
o seu primeiro verso aos 9 anos. Estudou canto, violão, violino e, às
vezes, desenha. Se
pudesse recomeçar a vida gostaria de ser a mesma coisa, porém melhor. Seu
primeiro livro publicado foi Espectros, tinha 16 anos. Principal
defeito: uma certa ausência do mundo. Seu
tormento: desejar fazer o bem a pessoas que precisam de auxílio e não o
aceitam. Nunca
viu assombração, mas gostaria de ver. Livros,
livros, livros, noite com estrelas e nuvens ao mesmo tempo, acha que não tem medo da morte. Gostaria de morrer em paz.”
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TRAJECTÓRIA POÉTICA |
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1919. Publica o primeiro livro, Espectros. Recebe críticas elogiosas. O respeitável João Ribeiro antevê futuro promissor para a jovem escritora: “em breve, e sem grande esforço, poderá lograr a reputação de poetisa que de justiça lhe cabe.”
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| CECÍLIA E O MODERNISMO | |
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Como
se situa Cecília
no movimento renovador
na literatura e nas artes que eclode com a Semana de Arte Moderna
de 1922?
Que lugar ocupa junto aos poetas revolucionários dessa década, Mário
de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Manuel
Bandeira, Cassiano Ricardo - os poetas paulistas, alinhados em
torno da Revista Klaxon? Não,
Cecília Meireles
não está com eles nessa primeira hora. Não participa diretamente
do movimento de ruptura e vanguardismo deflagrado pelos paulistas. Seus
primeiros livros merecem a atenção de um outro grupo . O dos
poetas da Revista Festa, do Rio de Janeiro, Andrade Murici,
Tasso da Silveira, Murilo Araújo. Poetas que defendem
uma poesia imbuída de elementos espirituais, de preocupações
transcendentes, filosóficas e religiosas. Nos
livros da década de 20 -
Nunca mais... e Poema
dos poemas (1923), assim como Balada
para El-Rei (1925) - ainda ressoam os tons
simbolistas e algum formalismo parnasiano. Fiel a si mesma, sua intuição
lírica não se prende a correntes literárias: Teus
olhos tristes, d’ Agnus Dei, São
minha glória e minha benção, Depois
de tudo que passei... (...) Sobre
a minha alma, toda a vi Teus
olhos tristes; d’ Agnus Dei!
(Oferenda
, Balada para El-Rei) Com
o livro Viagem,
de 1938,
Cecília
encontra seu estilo definitivo.O verso melódico sustenta os
motivos fundadores de sua poética – sonho, solidão, mar, canção,
melancolia, nuvens, céu, morte...
Recebe o Prêmio Poesia
da Academia Brasileira de Letras.
No julgamento, Cassiano Ricardo argumenta em favor dessa obra e
salienta a modernidade de sua fatura. Em
1939 Mário
de Andrade escreve um artigo conclusivo sobre a poeta:. (...)
Jamais a poesia nacional alcançou tamanha evanescência tanto verbal como
psíquica. (...)
Cecília
está construindo sua trajetória pública. Firma-se entre os
maiores poetas nacionais. Para Eliane Zagury, a poeta representa “a mais pura tradição lírica voltada sobre si mesma, autotematizada.” ·
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| E A VIDA PESSOAL, COMO VAI? | |
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Jovem,
elegante e muito bonita, causa frisson quando entra na Livraria São
José, no Centro do Rio, à procura de algum livro. Na roda de escritores
que freqüentam a tradicional casa de livros,
olhos compridos seguem-na. Perguntam entre si o que faz a linda
mulher com um livro tão pesado -
o Corão. Entre
1919 e 1920 Cecília
conhece na redação da Revista da Semana um jovem artista
plástico
português – Fernando Correia Dias – capista de primeira,
ceramista, ilustrador e artista gráfico, reconhecido em Portugal e já
amigo de personalidades literárias e artísticas no Brasil, como Álvaro
Moreyra, Olegário Mariano, Menoti Del Picchia e Guilherme de Almeida.. Uma
poeta, jovem e bela; um artista culto, viajado e sedutor. Bons personagens
para uma história de amor. Casam-se
em 24 de outubro de 1922. Ela, com 20 anos, ele com 29. De novo a presença
lusa na vida de Cecília. Ele faz belas ilustrações para os livros dela.
Ela o presenteia com três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria
Fernanda (esta virá a ser uma famosa atriz do teatro brasileiro). Em casa Cecília é uma mãe como as outras. Ralha, disciplina, e faz bolo coberto com calda de laranja. À noite, depois do jantar, reunidas na sala de visitas, lê histórias para as meninas (ah, ainda não havia a televisão nas nossas vidas!), pega do violão e dedilha cantigas, canta algumas, ou descreve os detalhes deste ou daquele objeto que ornamenta a casa.
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| O SONHO VIOLENTADO | |
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Em
1934 a mulher brasileira conquista o direito ao voto. Cecília
não se encontra entre aquelas que lutaram
nas praças públicas por esse direito. Por quê? Porque é outro o
seu campo de ação social. Ela está nos jornais e nas escolas. Nesse
mesmo ano é chamada para dirigir o Centro Infantil, a ser instalado no
Pavilhão Mourisco, em Botafogo. Vê no convite a possibilidade de
pôr em prática as idéias sobre o novo modelo de educação que
tanto tem defendido na imprensa. Constrói
aí a primeira Biblioteca Infantil da cidade do Rio de Janeiro.
Correia Dias transforma o porão numa cidade encantada. Ali as crianças
podem afinal exercer livremente a sua imaginação em atividades criativas
várias: pintura, leitura, música, desenho. O
sonho, porém, como todo sonho, não dura muito. Intrigas políticas levam
ao fechamento da biblioteca. Violenta devassa, promovida pela Polícia Política
do governo de Getúlio Vargas, destrói inclusive cerâmicas de inspiração
marajoara criadas por Correia Dias. A explicação para
tal vandalismo: livros, considerados perigosos à educação
infantil, entre eles, (pasmem!) As aventuras de Tom Sawyer,
de Mark Twain. Uma ironia, um contra-senso, acontecer isso logo com ela. Apesar de progressista, sempre fora cética demais para aderir a qualquer partido político e bastante espiritualista para deixar-se seduzir pelo marxismo. Coisas da ditadura.
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| NAVEGAR É PRECISO... | |
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“-
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava
um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem
as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua
breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir
de alegria ao recebê-las? Eu
não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.” De
1934 até sua morte, Cecília Meireles faz inúmeras viagens. Nesse ano
visita Portugal pela primeira vez, a convite da Secretaria de Propaganda
desse país. Em 1940, conhece os Estados Unidos: dá curso de Literatura
Brasileira na Universidade do Texas. Fala sobre folclore e educação no México.
Em 1944 visita Uruguai e Argentina. Em 1951 volta à Europa: França,
Bélgica, Holanda, Portugal.1952: Chile. 1953: Índia, Goa, Itália. 1954:
Europa e, afinal, conhece os Açores. 1957: Porto Rico. 1958: Conferência
em Israel. Na
Índia, recebe o título Doutor Honoris Causa da Universidade de Deli. Sua
“Elegia a Gandhi” é traduzida para várias línguas: (...) Tua
fogueira está ardendo. O Ganges te levará para longe, Punhado
de cinza que as águas beijarão infinitamente. Que
o sol levantará das águas até as infinitas mãos de Deus. (...) O
vento está dispersando as falas de Deus entre as mil línguas de fogo. Entre
as mil rosas de cinza dos teus velhos ossos, Mahatma.
Volta das viagens com a mala repleta de versos: Poemas escritos na Índia, Poemas italianos, Oratórios de Santa Clara...
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| MAR PORTUGUÊS | |
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Na
agenda de viagens Portugal ocupa um lugar de relevo. 12
de outubro de 1934. O
Diário de Lisboa estampa foto de Cecília e Fernando ainda a bordo do
Cuyabá. Cais de Alcântara. Desembarcam
em Lisboa recebidos pela fina flor da intelectualidade lusa. Lá estão a
esperá-los aqueles que se tornarão amizades duradouras: o crítico José
Osório de Oliveira, o ilustrador Pedro Bordalo Pinheiro, Simão Coelho
Folho, o crítico de arte
Guilherme Pereira de Carvalho, Manuel Mendes, Carlos Queiroz. No
Estoril aguarda-a a poeta Fernanda de Castro, que há muito reitera os
convites
para que a brasileira faça conferências e palestras nas
universidades portuguesas. “os
amigos são uma forma animada de poesia” Portugal, a pátria ancestral. A herança açoriana, o casamento com um artista português de prestígio, agregados à qualidade de seu lirismo, abrem-lhe caminho para o reconhecimento público em terra lusitana . Contatos com a imprensa, com editores, com críticos. Capitaliza reconhecimento e admiração. Para Jorge de Sena, como Pessoa ou Rilke, Cecília era “filha moderna do simbolismo antigo”.
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| TANTO SUCESSO E UMA DECEPÇÃO | |
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Em
Lisboa, Cecília falha um encontro com Fernando Pessoa. Entretanto, o que
está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua
Cronológica. |
Dezembro.
Noite chuvosa e fria em Lisboa. No café A Brasileira, no Chiado, há
quase duas horas Cecília e o Correia Dias esperam. Esperam por aquele que
Cecília Meireles tanto deseja conhecer e sobre cuja poesia tem sido a
primeira a dar notícia no Brasil. Quase
duas horas e nada! Fernando acha melhor desistir: -
Vamos, Cecília, ele não virá! -
Podemos aguardar um pouco mais, quem sabe, ocorreu um imprevisto... -
Não, é perda de tempo. Eu o conheço bem, se não veio até agora, não
virá mais. De
volta ao Hotel, recebem o pequeno volume, com os dizeres: “A
Cecília Meyreles , alto poeta, e a Correia Dias, artista, velho amigo e
até cúmplice (vide "Águia”, etc...
), na invocação da Apolo e Atena, Fernando Pessoa, 10 –XII
–34. É
um exemplar de Mensagem, recentemente publicado. Um cartão lacônico
acusa o recebimento : “Cecília
Meireles - cumprimenta e agradece.” Dez
anos depois, escreve ao amigo Armando Costa Rodrigues : “Como
lamento não o ter
conhecido!”.
E num diálogo surdo com aquele que tanto admirava, rebate: “Mas
tu preferes a penumbra dos cafés sonolentos, em cujas mesas todos os
poetas da Lusitânia fincam algum
dia o cotovelo e, fronte apoiada ao punho, criam aqueles sonhos que
eles mesmos
não governam (...)” (Evocação lírica de Lisboa, crônica)
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| DE VOLTA AO RIO | |
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Em
12 de Janeiro de 1935 está de novo em casa. Reencontra o país
vivendo um clima de
medo, de ameaças e perseguições. O Governo Vargas torna-se uma
ditadura cruel. Retoma as atividades no Pavilhão Mourisco. Assume a
cadeira de Literatura Luso-Brasileira na Faculdade de Filosofia e Letras
da recém fundada Universidade do Distrito Federal. Na
vida pessoal, sucedem-se as crises de depressão do marido. Crises que o
levam ao suicídio em 19 de novembro desse ano. Foram “13 anos de angústias
sobre essa tragédia, tentando dominá-la”. Uma “Canção póstuma”
dá a medida da dor sublimada em poesia: Fiz
uma canção para dar-te; porém
tu já estavas morrendo. A
Morte é um poderoso vento, E
é um suspiro tão tímido, a Arte... É
um suspiro tímido e breve como
o da respiração diária. Choro
de pomba.
E a Morte é uma águia cujo
grito ninguém descreve. Vim
cantar-te a canção do mundo, mas
estás de ouvidos fechados para
os meus lábios inexatos, -
atento a um canto mais profundo. E
estou como alguém que chegasse ao
centro do mar, comparando aquele
universo de pranto com
a lágrima de sua face. E
agora fecho grandes portas sobre
a canção que chegou tarde, - -
E
sofro sem saber de que Arte se
ocupam as pessoas mortas. Por
isso é tão desesperada a
pequena, humana cantiga, Talvez
dure mais do que a vida, Mas
à Morte não diz mais nada. (Canção
póstuma, Retrato natural) Nos anos seguintes, viúva, sem nenhum parente, com três filhas para educar, as dificuldades econômicas exigem-lhe intenso trabalho. Dá aulas de Técnica e Critica Literária, Literatura Comparada e de Literatura Oriental na Universidade. Trabalha ainda no Departamento de Imprensa e Propaganda onde dirige a revista Travel in Brazil.
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| "E AQUI ESTOU, CANTANDO" | |
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Fins
de 1938, início de 1939. Abre-se novo ciclo de realizações. Reorganização
da vida afetiva e familiar. Conhece o médico Heitor Grilo. Casam-se em
1939. Consagração
na vida pública: Viagem
é
publicado em Lisboa. A poeta segue sua trajetória. Eu
canto porque o instante existe E
a minha vida está completa. Não
sou alegre nem sou triste: Sou
poeta. Irmão
das coisas fugidias, Não
sinto gozo nem tormento, Atravesso
noites e dias No
vento. Se
desmorono ou se edifico, Se
permaneço ou me desfaço, -
não sei, não sei. Não sei se fico ou
passo. Sei
que canto. E a canção é tudo. Tem
sangue eterno a asa ritmada. E
um dia sei que estarei mudo: -
mais nada.
(Motivo) O
primeiro dos vários auto-retratos registra precocemente os efeitos das
mudanças: Eu
não tinha este rosto de hoje, Assim
calmo, assim triste, assim magro, Nem
estes olhos tão vazios, Nem
o lábio amargo. Eu
não tinha estas mãos sem força, Tão
paradas e frias e mortas; Eu
não tinha
este coração Que
nem se mostra. Eu
não dei por esta mudança, Tão
simples, tão certa, tão fácil: -
Em que espelho ficou perdida a
minha face?
(Retrato)
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| SOBRE O VAZIO DAS PEDRAS, CONSTROI SUA CATEDRAL | |
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As
publicações se sucedem. A década de 40 será das mais produtivas na
vida da poeta. Publica
Vaga Música
em 1942. Em 1945, Mar
Absoluto; Retrato
Natural em 1949. De um livro ao outro o caminho se
faz sem tropeços, fiel
aos motivos fundadores de seu lirismo: mar, música, melancolia,
orfandade. É
tempo de guerra. “Tempo de homens
partidos”, canta Carlos Drummond de Andrade, contemporâneo e
admirador da poeta. Como ele Cecília
proclama a contraditória condição humana: Nós
merecemos a morte, Porque
somos humanos E
a guerra é feita pelas nossas mãos, (...) Criamos
o fogo, a velocidade, a nova alquimia, Os
cálculos do gesto, Embora
sabendo que somos irmãos. Temos
até os átomos por cúmplices, e que pecados De
ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros! Que
delírio sem Deus, nossa imaginação!
(“Lamento
do oficial por seu cavalo morto”) No
livro de 1949,
poemas mais modernos e despojados expõem o caráter afetivo da
participação de Cecília nas dores do mundo:
Dez
bailarinas deslizam Por
um chão de espelho. Têm
corpos egípcios com placas douradas, Pálpebras
azuis e dedos vermelhos. Levantam
véus brancos, de ingênuos aromas, E
dobram amarelos joelhos. (...) os
homens gordos olham com um tédio enorme as
dez bailarinas tão frias. Pobres
serpentes sem luxúria, Que
são crianças, durante o dia. Dez
anjos anémicos, de axilas profundas, Embalsamados
de melancolia. Vão
perpassando como dez múmias As
bailarinas fatigadas. Ramo
de nardos inclinando flores Azuis,
brancas, verdes, douradas. Dez
mães chorariam, se vissem As
bailarinas de mãos dadas.
(“Balada
das dez bailarinas no cassino”) No
ano de 1945 muda-se para a casa do Cosme Velho, onde viverá até o fim de
seus dias. Nos
anos seguintes dedica-se a escrever peças
de teatro (A nau catarineta,
1946; O menino
atrasado, 1966). Inicia as pesquisas sobre a época
colonial brasileira . Tem em mente ambicioso projeto: um épico que
resgate lendas,
tradições, misticismos em torno da
frustrada Conjuração Mineira. O folclore, outra de suas paixões, ocupa a agenda no ano de 1948. Cecília é tratada como especialista na Comissão Nacional de Folclore. E em 1951 secretaria o Primeiro Congresso Nacional de Folclore, no Rio Grande do Sul.
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| DE NOVO EM PORTUGAL | |
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“Não
te aflijas, com a pétala que voa, Também
é ser, deixar de ser assim.” Os
Açores, enfim. No ano de 1951 pode atender aos convites sempre renovados
dos velhos amigos, Armando Cortes-Rodrigues e José Bruges. A visão real
da Ilha de São Miguel parece não lhe causar surpresa : “A paisagem
é como se fosse a do meu quintal, na infância.”
Emoção ao conhecer sua alma irmã de longa e profunda
correspondência (246 cartas): AQUELE
que caminha ao longo das praias
E
vai dando a volta à
sua Ilha, Fala
com pescadores
e sereias
Com
a maior naturalidade. (...) tem
seu mapa de afetos, sua linguagem de canções, sopra
endereços no vento, depois
de assinar com letra pequenina: ARMANDO
CORTES- RODRIGUES.
(“Inscrição
natalícia”) Ainda
em 1951, publica Amor em
Leonoreta e, no ano seguinte, Doze
noturnos de
Holanda & O Aeronauta. Trabalha incansavelmente na
finalização da pesquisa
sobre a história
de Vila Rica e da Conjuração Mineira.
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| AFINAL A OBRA PRIMA | |
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“Às
vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro
nuvens espessas. Avisto crianças que vão para escola. Pardais que pulam
pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos: que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes,
um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar,
cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. (...)”.. Corre
o ano de 1953 . Depois de exaustivo trabalho, o
Romanceiro da
Inconfidência está
pronto. Cinco
anos passou
mergulhada no século XVIII, construindo uma “narrativa rimada”
(rimances)
que remete o leitor à
trágica
história
do ciclo do ouro em Vila Rica (a Inconfidência Mineira). Alcança
fixar em poesia a história do alferes Tiradentes e dos intelectuais e
poetas traídos por delatores. Primeiro grito de liberdade da terra
colonial. Resposta definitiva àqueles que a acusavam de escassa
brasilidade. Liberdade
- essa palavra Que
o sonho humano alimenta Que
não há ninguém que explique, E
ninguém que não entenda! Brasil
mineiro. Minas de ouro. Riqueza imensa. Ambição maior. Eis o cenário
onde tudo acontece: EIS
a estrada, eis a ponte, eis a montanha Sobre
a qual se recorta a igreja branca. Eis
o cavalo pela verde encosta Eis
a soleira, o pátio, a mesma porta. (...) E
eis a névoa que chega, envolve as ruas, Move
a ilusão de tempos e figuras. (...) Seu
verso soa consoante ao ritmo dos
poetas árcades Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga,
personagens dos acontecimentos rememorados. (...)
Passei
por essas plácidas colinas e
vi das nuvens, silencioso, o gado pascer
nas solidões esmeraldinas. (...)
Tudo
me fala e entendo do tesouro arrancado
a estas Minas
enganosas, com
sangue sobre a espada, a cruz e o louro. Tudo
me fala e entendo: escuto as rosas e
os girassóis destes jardins, que um dia foram
terras e areias dolorosas, por
onde o passo da ambição rugia; por
onde se arrastava, esquartejado, o
mártir sem direito de agonia.” Celebra
o poder transfigurador da palavra: Ai,
palavras, ai, palavras, Que
estranha potência a vossa! Ai,
palavras, ai, palavras, Sois
de vento, ides no vento, No
vento que não retorna, E,
em tão rápida existência, Tudo
se forma e transforma! (...) A
liberdade das almas, ai!
com letras se elabora... E
dos venenos humanos sois
a mais fina retorta: frágil,
frágil como o vidro e
mais que o aço poderosa! Reis,
impérios, povos, tempos, pelo
vosso impulso rodam... (...) Detrás
de grossas paredes, De
leve, quem vos desfolha? Pareceis
de tênue seda, Sem
peso de ação nem de hora... -
e estais no bico das penas, -
e estais na tinta que se molha, -
e estais nas mãos dos juízes, -
e sois o ferro que arrocha, -
e sois barco para o exílio, -
e sois Moçambique e Angola! (...)
Ai,
palavras, ai, palavras, Que
estranha potência, a vossa! Éreis
um sopro de aragem... -
sois um homem que se enforca! Vê sua obra poética reunida e publicada pela Editora Aguilar, no ano de 1958. Faz Conferência em Israel sobre cultura brasileira.
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| O TEMPO HUMANO EXPIRA... | |
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Em
Metal Rosicler
(1960) seus poemas anunciam
um desenlace pressentido: “Estudo
a morte, agora -
que a vida não se vive, pois
é simples declive para
uma única hora “ (OC,1213) Solombra
(1963),
neologismo que dá o tom
dominante deste último livro: solidão e melancolia. “Eu
– fantasma
- que deixo os litorais humanos, sinto
o mundo chorar como em língua
estrangeira: (...)
Só
nessas mortes pode estar meu nome escrito.”
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| 1964 | |
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Depois de um período conturbado, causado pela renúncia do Presidente Jânio Quadros e a política trabalhista de seu sucessor, João Goulart, o país é ferido por um golpe militar (a Revolução de 31 de março de 1964). Os militares assumem o poder. Termina uma etapa de nossa história. Tem início um período de exceção. A ditadura militar que persiste por quase duas décadas.
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| COMO AS GAIVOTAS QUE SOBEM TÃO LIVRES... | |
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Cecília
prepara um poema épico-lírico para as comemorações do quarto centenário
da cidade que a viu nascer e a acolherá para a eternidade. Mas não
resiste à doença, contra a qual lutou nos últimos seis anos - o câncer
. Expira serenamente no dia 9 de novembro de 1964. Consta que a poeta não
sabia o mal de que sofria. Difícil acreditar... Deixa
cinco netos: Ricardo (filho de Maria Elvira), Alexandre, Fernanda Maria e
Maria de Fátima (de Maria Matilde) e Luís Heitor Fernando (da atriz
Maria Fernanda). O marido, Heitor Grilo, morre em 1972. A
morte não consegue estancar o fluxo de publicações e homenagens. Em
1965, a Academia Brasileira de Letras confere-lhe o Prêmio Machado de
Assis, pelo conjunto de sua obra. E a principal sala de concertos do Rio
de Janeiro
passa a ser denominada “Sala
Cecília Meireles”. Seus poemas têm sido intensamente musicados,
cantados
por intérpretes do Brasil e Portugal. Deixa vasto material inédito: poemas, traduções, peças de teatro, correspondências, antologias, crônicas de viagem, conferências, periodismo e tantos outros escritos.
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| UMA FARPA, UMA DESCONFIANÇA | |
| Diz Cecília: Somos uma difícil unidade e muitos instantes mínimos. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Esta obra monumental motiva uma farpa irônica do poeta Mario Faustino:
“D.
Cecília publica demais. O melhor que se poderia fazer em prol de sua glória
seria preservar o "Romanceiro” completo, fazer uma antologia de
seus cinqüenta grandes poemas (“Mar absoluto” seria o maior
contribuinte) e queimar o resto. Mas não no esqueçamos de perguntar;
quantos poetas
em nossa língua já assinaram cinqüenta grandes poemas? A outra pergunta
que nos ocorre: por que D. Cecília publica tanto?”
( Trecho de “Anchieta aos concretos”, de Mário
Faustino) Mas
sob o peso do monumento, onde fica a verdadeira Cecília? Como
apostar na fidelidade de uma BIOGRAFIA? Escreverás
meu nome com todas as letras, Com
todas as datas -
e não serei eu. Repetirás
o que me ouviste, O
que leste de mim, e mostrarás meu retrato -
e nada disso serei eu. (...)
Somos
uma difícil unidade De
muitos instantes mínimos -
isso seria eu. Mil
fragmentos somos, em jogo misterioso, Aproximamo-nos
e afastamo-nos, eternamente -
Como me poderão encontrar? Novos
e antigos todos os dias, Transparentes
e opacos, segundo o giro da luz -
nós mesmos nos
procuramos. E
por entre as circunstâncias fluímos, Leves
e livres como a cascata pelas pedras.
- Que metal nos poderia prender?
------------------------------------------------------------------ Obras
consultadas: ANDRADE, Mário. O Empalhador de Passarinhos. São Paulo : Ed.Martins; Brasília: MEC/INL, 1972. SECCHIN, Antônio Carlos. (org.) Cecília Meireles. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2001.V.I e II BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira . São Paulo : Cultrix COUTINHO, Afrânio e Eduardo de Faria. A Literatura no Brasil. Era modernista. Rio de Janeiro : José Olympio ed.; Niterói/RJ: EDUFF, 1986 GOUVÊA, Leila V.B. Cecília em Portugal. São Paulo : Iluminuras, 2001. FAUSTINO, Mário. De Anchieta aos concretos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. LAMEGO, Valéria. A farpa e a lira – Cecília Meireles na Revolução de 30. Rio de Janeiro : Record, 1996. MEIRELES, Cecília . Obra Poética. Rio de Janeiro : Editora José Aguilar, 1958. Introdução de Darcy Damasceno. NETO, Miguel Sanches. Cecília Meireles e o tempo inteiriço. In: Cecília Meireles . Obra completa. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2991. ZAGURY, Eliane. Cecília Meireles : notícia biográfica, estudo crítico, antologia, bibliografia, discografia, partituras. Petrópolis/RJ: Vozes, 1973.
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