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CECÍLIA MEIRELES

Poeta: 1901 – 1964

Lúcia Helena Vianna

Cecília Meireles, desenho de Arpad Szènes

EU CANTO PORQUE O INSTANTE EXISTE E A MINHA VIDA ESTÁ COMPLETA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ex-libris de Cecília

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1901: 7 de novembro, Rio de Janeiro: nasce Cecília Meireles. Seus pais: Carlos Alberto de Carvalho Meireles e Matilde Benevides. Ambos morreram cedo: o pai, três meses antes do nascimento da filha;  a mãe faleceu quando Cecília tinha 3 anos de idade. Os avós paternos: João Correia Meireles, português, funcionário da Alfândega do Rio de Janeiro, e D. Amélia Meireles, ambos falecidos. A avó materna, D.Jacinta Garcia Benevides, açoriana, cuidou da menina, como tutora. – 1910: Termina  o Curso Primário, na Escola Estácio de Sá. Recebe medalha de ouro das mãos do poeta Olavo Bilac, então Inspetor Escolar do Distrito Federal. Na adolescência: paixão pelos livros. Estuda história, línguas, filosofia, estudos orientais, que continuaram sempre. Nasce  o entusiasmo pelo Oriente. – 1917: Diploma-se na Escola Normal (Instituto de Educação). Desde então exerce o Magistério. Segue os estudos no Conservatório Nacional de Música. – 1919: O primeiro livro de versos, Espectros, recebe elogios da crítica. – 1922: Casa-se com o artista plástico português, Fernando Correia Dias. Desse casamento nascem três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda (esta virá a ser uma famosa atriz do teatro brasileiro). – 1924: Escreve Criança meu amor, adotado pelas escolas municipais. – 1929: Edita  a conferência  O espírito vitorioso, apresentada no Concurso para vaga na cátedra de Literatura Brasileira, no Instituto de Educação. – 1930/1934: Atividade jornalística intensa: dirige uma página diária sobre Educação no jornal  Diário de Notícias. Faz  críticas ao Governo de Getúlio Vargas em defesa  de uma nova escola. – 1934: Passa a dirigir o Instituto Infantil, no Pavilhão Mourisco. Cria uma Biblioteca Infantil. Neste mesmo ano faz a primeira viagem ao exterior.Visita  Portugal acompanhada do marido, a convite da Secretaria de Propaganda desse país. Intensa atividade cultural em Lisboa e Coimbra. Nascem grandes amizades. – 1935: Leciona Literatura Brasileira na recém fundada Universidade do Distrito Federal (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro). Suicídio do marido. 1936/1938: Dificuldades econômicas lhe exigem muito trabalho: ministra cursos de Técnica e Crítica Literária;  sobre Literatura Comparada e Literatura Oriental. Escreve regularmente  em vários jornais (A Manhã, Correio Paulistano, A Nação).Trabalha no departamento de Imprensa e Propaganda como  responsável pela revista Travel in Brazil. – 1938: Seu livro Viagem recebe o Prêmio Poesia da Academia Brasileira de Letras. Conhece o médico Heitor Grilo. Casam-se  no ano seguinte. Viagem aos Estados Unidos e México. Ministra cursos de Literatura Brasileira  na Universidade do Texas. 1939: Viagem é  editado em Lisboa. 1940: Nos Estados Unidos leciona Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas. Faz conferências sobre literatura, folclore e educação no  México. – 1942/1944: Publica Vaga Música. No jornal A Manhã,  escreve importantes estudos sobre folclore infantil. – 1944: Visita Uruguai e Argentina. – 1945: Publica Mar Absoluto. A família muda-se para o Cosme Velho. – 1948:  Instalação da Comissão Nacional de Folclore. É tratada como autoridade no assunto. 1949: Mais um livro: Retrato Natural. – 1951: Secretaria o Primeiro Congresso Nacional de Folclore (Rio Grande do Sul). Viagem à Europa (França, Bélgica, Holanda e Portugal). Publica  Amor em Leonoreta. – 1952: Recebe o Grau de Oficial da Ordem do Mérito, do Chile. Sócia honorária do Gabinete Português de Leitura, do Instituto Vasco da Gama, de Goa, na Índia. Lança: Doze noturnos de Holanda & O Aeronauta. – 1953: Afinal sai O Romanceiro da Inconfidência, a obra prima. A convite do primeiro ministro Nehru, participa de Simpósio sobre a obra de Gandhi, na Índia. Recebe título Doutor Honoris Causa pela Universidade de Deli. Compõe Poemas escritos na Índia. Passagem pela Itália: nascem os Poemas Italianos. Índia, Goa e  Europa...  Pequeno Oratório de Santa Clara. – 1954: Novas viagens:  Europa e, agora, Açores. – 1956: Publica Canções. – 1957: Viaja  a Porto Rico. – 1958: Faz conferência em Israel. Visita aos lugares santos. Publicação da Obra Completa pela editora José Aguilar. – 1960:  Publica Metal Rosicler. – 1963: O último livro publicado em vida, Solombra. – 1964: Morre em 9 de novembro. Repousa no Cemitério São João Batista (Botafogo, Rio de Janeiro)  túmulo n.8951, quadra 14. Uma lápide simples contém apenas nome e data, 1901-1964. – 1965: A Academia Brasileira de Letras confere-lhe o Prêmio Machado de Assis, post mortem, pelo conjunto de sua obra.

 

Seus livros

Espectros, 1919 l Nunca mais... e  Poema dos Poemas, 1923 l Baladas para El-Rei, 1925 l Criança, meu amor, 1927 l Viagem, 1939 l Vaga música, 1942 l Mar Absoluto e Outros Poemas, 1945 l Retrato natural, 1949 l Amor em Leonoreta, 1951 l Dez noturnos de Holanda & O aeronauta, 1952 l Romanceiro da Inconfidência, 1953 l Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955 l Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955 l Canções, 1956 l Romance de Santa Cecília, 1957 l Obra poética, 1958 l Metal Rosicler, 1960 l Poemas escritos na Índia, 1961 l Solombra, 1963 l Ou isto ou aquilo, 1964 l Crônica trovada da cidade de Sam Sebastiam, 1965 l Poemas italianos, 1968 l Ou isto ou aquilo & Inéditos, 1969 l Cânticos, 1981 l Oratório de Santa Maria Egipcíaca, 1986 .

Desde 1998 vem sendo desenvolvido projeto de publicação de toda a obra em prosa da poeta, coordenado pelo camonista Leodegário de Azevedo Filho.

Em 2001, em comemoração ao centenário de nascimento, a Editora Nova Fronteia, do Rio de Janeiro, publica Poesia Completa,  em dois volumes. Edição  organizada por Antonio Carlos  Secchin.

 

 

HISTÓRIA DA VIDA
“A vida só é possível reinventada”

 

“- Houve um tempo em que a minha janela se abria para um  chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança,  achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz. (...)”

(Arte de ser feliz, Escolha seu sonho)

 

Lá está ela. Janela aberta ao sol. Observo seu vulto à distância . Percebo a respiração profunda que  sorve lentamente o ar fresco e puro da manhã. Debruça-se sobre o parapeito e fica a contemplar o jardim. Parece estar completamente feliz. Respeito  este momento de sua intimidade, espero um tanto para me aproximar e provocar esta conversa imaginária, mas perfeitamente possível. Ouço o chamado em voz quase imperceptível: Vinde ouvir a história da vida ...

 

 

INFÂNCIA

A avó açoriana marca a sensibilidade de Cecília. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Dia 7 de novembro de 1901. Cecília  Meireles nasce na Rua da Colina, Tijuca, Rio de Janeiro. Signo: Escorpião. Signo de Água, regido por Marte e Plutão. Marte impulsiona a luta, as ações e realizações; Plutão traz perdas, transformações profundas e capacidade de se reerguer frente às intempéries.

 

Fica órfã muito cedo. Não chega a conhecer o pai  - Carlos Alberto de Carvalho Meireles -  falecido aos 26 anos, três meses antes de ela nascer. Não conheceu os irmãozinhos, Vítor, Carlos e Carmem:

 

“- Todos morreram antes de meu nascimento. E minha mãe (Matilde Benevides Meirelles) se foi quando eu tinha apenas três anos. Fui criada por  minha avó materna, Jacinta Garcia Benevides, nascida nos Açores, Ilha de São Miguel”.

 

Essas e outras perdas ocorridas na família dão à pequena Cecília intimidade com a morte e a certeza de que nada é para sempre. Atributos para sua reserva lírica:

 

“- Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Preciso deles para escrever.”

 

Enquanto borda, D. Jacinta canta cantigas antigas da Ilha de São Miguel. No imaginário infantil começa a tecer-se o tapete feito de lirismo popular: a voz da avó vai lhe ensinando os enigmas da vida cifrados nos ditos populares:

 

- Nem por muito madrugar amanhece mais cedo,

- Duro com duro não faz bom muro,

- Uma andorinha só não faz verão.

 

“-  Tudo quanto recebi, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, - perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível ...”.

 

À memória desta avó mítica, falecida em 1932, Cecília dedica  uma “Elegia”:

 

“Minha primeira lágrima caiu dentro de teus olhos”.

Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.

 

No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,

Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.

 

Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua.

 

Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras,

E a voz dos pássaros e a das águas correr,

- sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.

 

Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?

 

Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho,

E tristemente  te procurava.

 

Mas também isso foi inútil, como tudo mais.           

                                                                    (OC,465) 

 

Das perdas  tão precoces  fica-lhe  a consciência do efêmero...:

 

Sei que canto. E a canção é tudo,

Tem sangue eterno e asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

mais nada.

(Motivo ,Viagem)

 

... e o desejo  de  buscar algo irrevelado e distante: o sonho.

 

Pus o meu sonho num navio

E o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos

Para o meu sonho naufragar.

(Canção, Viagem)

 

Em 1910 conclui o curso primário na Escola Estácio de Sá com distinção e louvor. Recebe das mãos do poeta Olavo Bilac medalha de ouro, com o nome gravado. Sete anos depois termina a Escola Normal, no Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Segue estudando sempre:  música, no Conservatório Nacional, canto, violino, estuda línguas  e pesquisa sobre o Oriente – história, línguas, filosofia.

 

 

É PROFESSORA COMO A MÃE

Capa do livro "Ou isto ou aquilo"

 

“(...) Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir (...) foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e  às  vezes faziam com as mãos arabescos  tão compreensíveis, que eu participava do auditório, (...) - e me sentia completamente feliz.(...)”  

-  Minha mãe tinha sido professora primária (a primeira professora a formar-se no Brasil) e eu gostava de estudar nos seus livros. Velhos livros de família que me seduziam muito. Assim como as partituras e livros de música.  

A educação (...)  é uma causa  que abraço com paixão assim como a poesia.  

A criança é eterno motivo de ternura e para ela escreve Criança, meu amor (1927) e Ou isto ou aquilo (1964, post mortem):  

Ou se tem chuva e não  se tem sol,

Ou se tem sol e não se tem chuva!

 

Ou se calça a luva e não se põe o anel;

Ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Quem sobe nos ares não fica no chão,

Quem fica no chão não sobe nos ares.

 

É uma grande pena que não  se possa

Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!  

A Educação é uma causa  e um compromisso. É a sua militância. Exerce o magistério até 1951 (aposenta-se como Diretora de Escola). Defende os ideais da Nova Escola, propostos por Fernando Azevedo e Anísio Teixeira: desejam uma escola que proporcione o desenvolvimento integral da criança. De 1930 a 1934 dirige seção diária sobre Educação no  jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro .O seu entusiasmo leva-a a criar uma Biblioteca Infantil, no Pavilhão Mourisco, em Botafogo. É a primeira no gênero, germe para inúmeras outras que se espalham pelo Brasil.


MAS COMO DESCREVER CECÍLIA?

Retrato de Cecília, óleo de Maria Helena Vieira da Silva

 

 

Eis como ela nos responde:

 

- Acho que não saberia fazer isso fora da poesia. Mais me agrada e diverte um flash que o João Condé, publicou nos Arquivos Implacáveis, na revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro, em 31 de dezembro de 1955:

 

“Não tem medo de viajar de avião em viagens longas.

Gostaria de tornar a visitar o oriente e chegar até a China.(...).

Nome: Cecília Meireles - Nasceu no Distrito Federal (hoje cidade do Rio de Janeiro)  

Casada, três filhas e dois netos.

Altura, 1,64 - Peso 59 quilos e calça sapatos número 37.

É quase vegetariana.

Não fuma, não bebe, não joga.

Não pratica nenhum esporte, mas gosta muito de caminhar e acha que seria

capaz de dar a volta ao mundo a pé.

Não  gosta de futebol e raramente vai ao cinema. - Gosta de bom teatro.

Responde pontualmente todas as cartas que recebe, mas atrasa-se às vezes, em agradecer livros, porque só agradece depois de os ler.

Adora música, especialmente canções medievais, espanholas e orientais. - Poetas preferidos: todos os bons poetas.

Prefere pintores flamengos.

Dorme e acorda cedo.

Leu Eça de Queirós antes dos 13 anos.

Escreveu o seu primeiro verso aos 9 anos. Estudou canto, violão, violino e, às vezes, desenha.

Se pudesse recomeçar a vida gostaria de ser a mesma coisa, porém melhor.

Seu primeiro livro publicado foi Espectros, tinha 16 anos.

Principal defeito: uma certa ausência do mundo.

Seu tormento: desejar fazer o bem a pessoas que precisam de auxílio e não o aceitam.

Nunca viu assombração, mas gostaria de ver.

Livros, livros, livros, noite com estrelas e nuvens ao mesmo tempo,

acha que não tem medo da morte. Gostaria de morrer em paz.”      

 

 

TRAJECTÓRIA POÉTICA

 

 

 

1919. Publica o primeiro livro, Espectros. Recebe críticas elogiosas. O respeitável João Ribeiro antevê futuro promissor para a jovem escritora: “em breve, e sem grande esforço, poderá lograr a reputação de poetisa que de justiça lhe cabe.”

 

CECÍLIA E O MODERNISMO

Capa do livro "Baladas para El-Rei"

 

Como se situa Cecília  no movimento renovador  na literatura e nas artes que eclode com a Semana de Arte Moderna de 1922?  Que lugar ocupa junto aos poetas revolucionários dessa década, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Manuel  Bandeira, Cassiano Ricardo - os poetas paulistas, alinhados em torno da Revista Klaxon?

 

Não, Cecília Meireles  não está com eles nessa primeira hora. Não participa diretamente do movimento de ruptura e vanguardismo deflagrado pelos paulistas. Seus primeiros livros merecem a atenção de um outro grupo . O dos  poetas da Revista Festa, do Rio de Janeiro, Andrade Murici, Tasso da Silveira, Murilo Araújo. Poetas que defendem  uma poesia imbuída de elementos espirituais, de preocupações transcendentes, filosóficas e religiosas.

 

Nos livros da década de 20 - Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), assim como Balada  para El-Rei (1925) - ainda ressoam os tons simbolistas e algum formalismo parnasiano. Fiel a si mesma, sua intuição lírica não se prende a correntes literárias:

 

Teus olhos tristes, d’ Agnus Dei,

São minha glória e minha benção,

Depois de tudo que passei...

(...)

Sobre a minha alma, toda a vi

Teus olhos tristes; d’ Agnus Dei!      

                                                    (Oferenda , Balada para El-Rei)

 

Com o livro Viagem, de 1938, Cecília encontra seu estilo definitivo.O verso melódico sustenta os motivos fundadores de sua poética – sonho, solidão, mar, canção, melancolia, nuvens, céu, morte...  Recebe o Prêmio Poesia  da Academia Brasileira de Letras.  No julgamento, Cassiano Ricardo argumenta em favor dessa obra e salienta a modernidade de sua fatura.

 

Em 1939  Mário de Andrade escreve um artigo conclusivo sobre a poeta:.

 

(...) Jamais a poesia nacional alcançou tamanha evanescência tanto verbal como psíquica. (...)

        

Cecília  está construindo sua trajetória pública. Firma-se entre os maiores poetas nacionais.

 

Para Eliane Zagury, a poeta representa “a mais pura tradição lírica voltada sobre si mesma, autotematizada.” ·

 

 

E A VIDA PESSOAL, COMO VAI?

Cecília Meireles - auto retrato.

 

Jovem, elegante e muito bonita, causa frisson quando entra na Livraria São José, no Centro do Rio, à procura de algum livro. Na roda de escritores  que freqüentam a tradicional casa de livros,  olhos compridos seguem-na. Perguntam entre si o que faz a linda mulher com um livro tão pesado -  o Corão.

 

Entre 1919 e 1920 Cecília  conhece na redação da Revista da Semana um jovem artista plástico  português – Fernando Correia Dias – capista de primeira, ceramista, ilustrador e artista gráfico, reconhecido em Portugal e já amigo de personalidades literárias e artísticas no Brasil, como Álvaro Moreyra, Olegário Mariano, Menoti Del Picchia e Guilherme de Almeida..

 

Uma poeta, jovem e bela; um artista culto, viajado e sedutor. Bons personagens para uma história de amor.

 

Casam-se em 24 de outubro de 1922. Ela, com 20 anos, ele com 29. De novo a presença lusa na vida de Cecília. Ele faz belas ilustrações para os livros dela. Ela o presenteia com três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda (esta virá a ser uma famosa atriz do teatro brasileiro).

 

Em casa Cecília é uma mãe como as outras. Ralha, disciplina, e faz bolo coberto com calda de laranja. À noite, depois do jantar, reunidas na sala de visitas, lê histórias para as meninas (ah, ainda não havia a televisão nas nossas vidas!), pega do violão e dedilha cantigas, canta algumas, ou descreve os detalhes deste ou daquele objeto que ornamenta a casa.

 

 

O SONHO VIOLENTADO

Cecília Meireles

 

Em 1934 a mulher brasileira conquista o direito ao voto. Cecília  não se encontra entre aquelas que lutaram  nas praças públicas por esse direito. Por quê? Porque é outro o seu campo de ação social. Ela está nos jornais e nas escolas. Nesse mesmo ano é chamada para dirigir o Centro Infantil, a ser instalado no Pavilhão Mourisco, em Botafogo. Vê no convite a possibilidade de  pôr em prática as idéias sobre o novo modelo de educação que tanto tem defendido na imprensa. Constrói  aí a primeira Biblioteca Infantil da cidade do Rio de Janeiro. Correia Dias transforma o porão numa cidade encantada. Ali as crianças podem afinal exercer livremente a sua imaginação em atividades criativas várias: pintura, leitura, música, desenho.

 

O sonho, porém, como todo sonho, não dura muito. Intrigas políticas levam ao fechamento da biblioteca. Violenta devassa, promovida pela Polícia Política do governo de Getúlio Vargas, destrói inclusive cerâmicas de inspiração marajoara criadas por Correia Dias. A explicação para  tal vandalismo: livros, considerados perigosos à educação infantil, entre eles, (pasmem!) As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain.

 

Uma ironia, um contra-senso, acontecer isso logo com ela. Apesar de progressista, sempre fora cética demais para aderir a qualquer partido político e bastante espiritualista para deixar-se seduzir pelo marxismo. Coisas da ditadura.

 

 

NAVEGAR É PRECISO...

 

“- Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las?  Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.”

 

De 1934 até sua morte, Cecília Meireles faz inúmeras viagens. Nesse ano visita Portugal pela primeira vez, a convite da Secretaria de Propaganda desse país. Em 1940, conhece os Estados Unidos: dá curso de Literatura Brasileira na Universidade do Texas. Fala sobre folclore e educação no México. Em 1944  visita Uruguai e Argentina. Em 1951 volta à Europa: França, Bélgica, Holanda, Portugal.1952: Chile. 1953: Índia, Goa, Itália. 1954: Europa e, afinal, conhece os Açores. 1957: Porto Rico. 1958: Conferência em Israel.

 

Na Índia, recebe o título Doutor Honoris Causa da Universidade de Deli. Sua “Elegia a Gandhi” é traduzida para várias línguas:

 

(...)

Tua fogueira está ardendo. O Ganges te levará para longe,

Punhado de cinza que as águas beijarão infinitamente.

Que o sol levantará das águas até as infinitas mãos de Deus.

(...)

O vento está dispersando as falas de Deus entre as mil línguas de fogo.

Entre as mil rosas de cinza dos teus velhos ossos, Mahatma.

                                              

Volta  das viagens com a mala  repleta de versos: Poemas escritos na Índia, Poemas italianos, Oratórios de Santa Clara...

 

 

MAR PORTUGUÊS

Cecília a descer a escada do navio na chegada a Lisboa (bico de pena de Correia Dias)

 

Na agenda de viagens Portugal ocupa um lugar de relevo.

 

12 de outubro de 1934. O Diário de Lisboa estampa foto de Cecília e Fernando ainda a bordo do Cuyabá. Cais de Alcântara.

 

Desembarcam em Lisboa recebidos pela fina flor da intelectualidade lusa. Lá estão a esperá-los aqueles que se tornarão amizades duradouras: o crítico José Osório de Oliveira, o ilustrador Pedro Bordalo Pinheiro, Simão Coelho Folho, o crítico de arte  Guilherme Pereira de Carvalho, Manuel Mendes, Carlos Queiroz. No Estoril aguarda-a a poeta Fernanda de Castro, que há muito reitera os convites  para que a brasileira faça conferências e palestras nas universidades portuguesas.

 

“os amigos são uma forma animada de poesia”

 

Portugal, a pátria ancestral. A herança açoriana, o casamento com um artista português de prestígio, agregados à qualidade de seu lirismo,  abrem-lhe caminho para o reconhecimento público em terra lusitana . Contatos  com a imprensa, com editores, com  críticos. Capitaliza  reconhecimento e admiração. Para Jorge de Sena, como Pessoa ou Rilke, Cecília era “filha moderna do simbolismo antigo”.

 

 

TANTO SUCESSO E UMA DECEPÇÃO

Em Lisboa, Cecília falha um encontro com Fernando Pessoa. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Dezembro. Noite chuvosa e fria em Lisboa. No café A Brasileira, no Chiado, há quase duas horas Cecília e o Correia Dias esperam. Esperam por aquele que Cecília Meireles tanto deseja conhecer e sobre cuja poesia tem sido a primeira a dar notícia no Brasil.

 

Quase duas horas e nada! Fernando acha melhor desistir:

 

- Vamos, Cecília, ele não virá!

- Podemos aguardar um pouco mais, quem sabe, ocorreu um imprevisto...

- Não, é perda de tempo. Eu o conheço bem, se não veio até agora, não virá mais.

 

De volta ao Hotel, recebem o pequeno volume, com os dizeres:

 

“A Cecília Meyreles , alto poeta, e a Correia Dias, artista, velho amigo e até cúmplice (vide "Águia”, etc...  ), na invocação da Apolo e Atena, Fernando Pessoa, 10 –XII –34.

 

É um exemplar de Mensagem, recentemente publicado. Um cartão lacônico acusa o recebimento :

 

“Cecília Meireles - cumprimenta e agradece.”

 

Dez anos depois, escreve ao amigo Armando Costa Rodrigues : “Como lamento não o ter conhecido!”. E num diálogo surdo com aquele que tanto admirava, rebate:

 

“Mas tu preferes a penumbra dos cafés sonolentos, em cujas mesas todos os poetas da Lusitânia fincam algum dia o cotovelo e, fronte apoiada ao punho, criam aqueles sonhos que eles mesmos  não governam (...)”

(Evocação  lírica de Lisboa, crônica)

 

 

DE VOLTA AO RIO
 

Em 12 de Janeiro de 1935 está de novo em casa. Reencontra o país vivendo um clima de  medo, de ameaças e perseguições. O Governo Vargas torna-se uma ditadura cruel. Retoma as atividades no Pavilhão Mourisco. Assume a cadeira de Literatura Luso-Brasileira na Faculdade de Filosofia e Letras da recém fundada Universidade do Distrito Federal.

 

Na vida pessoal, sucedem-se as crises de depressão do marido. Crises que o levam ao suicídio em 19 de novembro desse ano. Foram “13 anos de angústias sobre essa tragédia, tentando dominá-la”. Uma “Canção póstuma” dá a medida da dor sublimada em poesia:

 

Fiz uma canção para dar-te;

porém tu já estavas morrendo.

A Morte é um poderoso vento,

E é um suspiro tão tímido, a Arte...

 

É um suspiro tímido e breve

como o da respiração diária.

Choro de pomba.  E a Morte é uma águia

cujo grito ninguém descreve.

 

Vim cantar-te a canção do mundo,

mas estás de ouvidos fechados

para os meus lábios inexatos,

- atento a um canto mais profundo.

 

E estou como alguém que chegasse

ao centro do mar, comparando

aquele universo de pranto

com a lágrima de sua face.

 

E agora fecho grandes portas

sobre a canção que chegou tarde, -

- E sofro sem saber de que Arte

se ocupam as pessoas mortas.

 

Por isso é tão desesperada

a pequena, humana cantiga,

Talvez dure mais do que a vida,

Mas à Morte não diz mais nada.

(Canção póstuma, Retrato natural)

 

 

Nos anos seguintes, viúva, sem nenhum parente, com três filhas para educar,  as dificuldades econômicas exigem-lhe intenso trabalho. Dá aulas de Técnica e Critica Literária, Literatura Comparada e de Literatura Oriental na Universidade. Trabalha ainda no Departamento de Imprensa e Propaganda onde dirige a revista Travel in Brazil.

 

 

"E AQUI ESTOU, CANTANDO"

Cecília no seu local de trabalho

 

Fins de 1938, início de 1939. Abre-se novo ciclo de realizações. Reorganização da vida afetiva e familiar. Conhece o médico Heitor Grilo. Casam-se em 1939.

Consagração na vida pública: Viagem  é publicado em Lisboa. A poeta segue sua trajetória.

 

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

Não sinto gozo nem tormento,

Atravesso noites e dias

No vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.                            

(Motivo)

 

 

O primeiro dos vários auto-retratos registra precocemente os efeitos das mudanças:

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.

 

Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha  este coração

Que nem se mostra.

 

Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

a minha face?                             

(Retrato)

 

 

SOBRE O VAZIO DAS PEDRAS, CONSTROI SUA CATEDRAL

Capa de "Batuque, Samba e Macumba"

 

As publicações se sucedem. A década de 40 será das mais produtivas na vida da poeta.

 

Publica Vaga Música em 1942. Em 1945, Mar Absoluto; Retrato Natural em 1949. De um livro ao outro o caminho se faz sem tropeços, fiel  aos motivos fundadores de seu lirismo: mar, música, melancolia, orfandade.

 

É tempo de guerra. “Tempo de  homens partidos”, canta Carlos Drummond de Andrade, contemporâneo e admirador da poeta. Como ele Cecília  proclama a contraditória condição humana:

 

Nós merecemos a morte,

Porque somos humanos

E a guerra é feita pelas nossas mãos,

(...)

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,

Os cálculos do gesto,

Embora sabendo que somos irmãos.

Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados

De ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!

Que delírio sem Deus, nossa imaginação!        

(“Lamento do oficial por seu cavalo morto”)

 

No livro de 1949,  poemas mais modernos e despojados expõem o caráter afetivo da participação de Cecília nas dores do mundo:

                 

Dez bailarinas deslizam

Por um chão de espelho.

Têm corpos egípcios com placas douradas,

Pálpebras azuis e dedos vermelhos.

Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,

E dobram amarelos joelhos.

(...)

os homens gordos olham com um tédio enorme

as dez bailarinas tão frias.

Pobres serpentes sem luxúria,

Que são crianças, durante o dia.

Dez anjos anémicos, de axilas profundas,

Embalsamados de melancolia.

 

Vão perpassando como dez múmias

As bailarinas fatigadas.

Ramo de nardos inclinando flores

Azuis, brancas, verdes, douradas.

Dez mães chorariam, se vissem

As bailarinas de mãos dadas.       

(“Balada das dez bailarinas no cassino”)

 

No ano de 1945 muda-se para a casa do Cosme Velho, onde viverá até o fim de seus dias.

 

Nos anos seguintes dedica-se a escrever  peças de teatro (A nau catarineta, 1946; O menino atrasado, 1966). Inicia as pesquisas sobre a época colonial brasileira . Tem em mente ambicioso projeto: um épico que resgate lendas,  tradições, misticismos em torno da  frustrada Conjuração Mineira.

 

O folclore, outra de suas paixões, ocupa a agenda no ano de 1948. Cecília  é tratada como especialista na Comissão Nacional de  Folclore. E em 1951 secretaria o Primeiro Congresso Nacional de Folclore, no Rio Grande do Sul.

 

 

DE NOVO EM PORTUGAL
 

“Não te aflijas, com a pétala que voa,

Também é ser, deixar de ser assim.”

 

Os Açores, enfim. No ano de 1951 pode atender aos convites sempre renovados dos velhos amigos, Armando Cortes-Rodrigues e José Bruges. A visão real da Ilha de São Miguel parece não lhe causar surpresa : “A paisagem é como se fosse a do meu quintal, na infância.”  Emoção ao conhecer sua alma irmã de longa e profunda correspondência (246 cartas):

 

AQUELE que caminha ao longo das praias             

E vai dando a volta à  sua Ilha,

Fala com pescadores  e sereias     

Com a maior naturalidade.

(...)

tem seu mapa de afetos, sua linguagem de canções,

sopra endereços no vento,

depois de assinar com letra pequenina:

ARMANDO CORTES- RODRIGUES.   

(“Inscrição natalícia”)

 

 

Ainda em 1951, publica Amor em Leonoreta e, no ano seguinte, Doze noturnos de Holanda & O Aeronauta. Trabalha incansavelmente na finalização da pesquisa  sobre a história  de Vila Rica e da Conjuração Mineira.

 

 

AFINAL A OBRA PRIMA

Capa de "Romanceiro da Inconfidência"

 

“Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos: que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. (...)”..

 

Corre o ano de 1953 . Depois de exaustivo trabalho, o  Romanceiro da Inconfidência está pronto.

 

Cinco anos passou  mergulhada no século XVIII, construindo uma “narrativa rimada” (rimances)  que remete o leitor à  trágica  história  do ciclo do ouro em Vila Rica (a Inconfidência Mineira). Alcança fixar em poesia a história do alferes Tiradentes e dos intelectuais e poetas traídos por delatores. Primeiro grito de liberdade da terra colonial. Resposta definitiva àqueles que a acusavam de escassa brasilidade.

 

Liberdade - essa palavra

Que o sonho humano alimenta

Que não há ninguém que explique,

E ninguém que não entenda!

 

Brasil mineiro. Minas de ouro. Riqueza imensa. Ambição maior. Eis o cenário onde tudo acontece:

 

EIS a estrada, eis a ponte, eis a montanha

Sobre a qual se recorta a igreja branca.

 

Eis o cavalo pela verde encosta

Eis a soleira, o pátio, a mesma porta.

(...)

E eis a névoa que chega, envolve as ruas,

Move a ilusão de tempos e figuras.

(...)

 

Seu verso soa consoante ao ritmo dos  poetas árcades Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga, personagens dos acontecimentos rememorados.

 

(...)   

Passei por essas plácidas colinas

e vi das nuvens, silencioso, o gado

pascer nas solidões esmeraldinas.

 

(...)     

Tudo me fala e entendo do tesouro

arrancado a estas Minas  enganosas,

com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.

 

Tudo me fala e entendo: escuto as rosas

e os girassóis destes jardins, que um dia

 foram terras e areias dolorosas,

 

por onde o passo da ambição rugia;

por onde se arrastava, esquartejado,

o mártir sem direito de agonia.”

 

Celebra o poder transfigurador da palavra:

 

Ai, palavras, ai, palavras,

Que estranha potência a vossa!

Ai, palavras, ai, palavras,

Sois de vento, ides no vento,

No vento que não retorna,

E, em tão rápida existência,

Tudo se forma e transforma!

 

(...)

 

A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora...

E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam...

 

(...)

 

Detrás de grossas paredes,

De leve, quem vos desfolha?

Pareceis de tênue seda,

Sem peso de ação nem de hora...

-  e estais no bico das penas,

-  e estais na tinta que se molha,

-  e estais nas mãos dos juízes,

-  e sois o ferro que arrocha,

- e sois barco para o exílio,

- e sois Moçambique e Angola!

 

(...)

 

Ai, palavras, ai, palavras,

Que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro de aragem...

- sois um homem que se enforca!

 

Vê sua obra poética  reunida e publicada pela Editora Aguilar, no ano de 1958. Faz Conferência em Israel sobre cultura brasileira.

 

 

O TEMPO HUMANO EXPIRA...
 

Em Metal Rosicler (1960) seus poemas anunciam  um desenlace pressentido:

 

“Estudo a morte, agora

- que a vida não se vive,

 pois é simples declive

 para uma única hora “

(OC,1213)

 

Solombra (1963),  neologismo que dá o tom  dominante deste último livro: solidão e melancolia.

 

“Eu – fantasma  - que deixo os litorais humanos,

sinto o mundo chorar como em língua  estrangeira:

(...)                                                                                        
“-  ah, deixarei meu nome entre as antigas mortes.

 Só nessas mortes pode estar meu nome escrito.”

 

 

1964
 

Depois de um período conturbado, causado pela renúncia do Presidente Jânio Quadros e a política trabalhista de seu sucessor, João Goulart, o país é ferido por um  golpe militar (a Revolução de 31 de março de 1964). Os militares assumem o poder. Termina uma etapa de nossa história. Tem início um período de exceção. A ditadura militar que persiste por quase duas décadas.

 

COMO AS GAIVOTAS QUE SOBEM TÃO LIVRES...
 

Cecília prepara um poema épico-lírico para as comemorações do quarto centenário da cidade que a viu nascer e a acolherá para a eternidade. Mas não resiste à doença, contra a qual lutou nos últimos seis anos - o câncer . Expira serenamente no dia 9 de novembro de 1964. Consta que a poeta não sabia o mal de que sofria. Difícil acreditar...

 

Deixa cinco netos: Ricardo (filho de Maria Elvira), Alexandre, Fernanda Maria e Maria de Fátima (de Maria Matilde) e Luís Heitor Fernando (da atriz Maria Fernanda). O marido, Heitor Grilo, morre em 1972.

 

A morte não consegue estancar o fluxo de publicações e homenagens. Em 1965, a Academia Brasileira de Letras confere-lhe o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. E a principal sala de concertos do Rio de Janeiro  passa a ser denominada “Sala  Cecília Meireles”. Seus poemas têm sido intensamente musicados, cantados  por intérpretes do Brasil e Portugal.

 

Deixa vasto material  inédito:  poemas, traduções, peças de teatro, correspondências, antologias, crônicas de viagem,  conferências, periodismo e tantos outros escritos.

 

 

UMA FARPA, UMA DESCONFIANÇA
Diz Cecília: Somos uma difícil unidade e muitos instantes mínimos. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.  

Esta obra monumental motiva uma farpa irônica do poeta Mario Faustino:

 

“D. Cecília publica demais. O melhor que se poderia fazer em prol de sua glória seria preservar o "Romanceiro” completo, fazer uma antologia de seus cinqüenta grandes poemas (“Mar absoluto” seria o maior contribuinte) e queimar o resto. Mas não no esqueçamos de perguntar; quantos  poetas em nossa língua já assinaram cinqüenta grandes poemas? A outra pergunta que nos ocorre: por que D. Cecília publica tanto?”  ( Trecho de “Anchieta aos concretos”, de Mário  Faustino)

 

Mas sob o peso do monumento, onde fica a verdadeira Cecília? Como apostar na fidelidade de uma BIOGRAFIA?

 

Escreverás meu nome com todas as letras,

Com todas as datas

- e não serei eu.

 

Repetirás o que me ouviste,

O que leste de mim, e mostrarás meu retrato

- e nada disso serei eu.

 

(...)

 

Somos uma difícil unidade

De muitos instantes mínimos

- isso seria eu.

 

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,

Aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente

- Como me poderão encontrar?

 

Novos e antigos todos os dias,

Transparentes e opacos, segundo o giro da luz

- nós mesmos nos  procuramos.

 

E por entre as circunstâncias fluímos,

Leves e livres como a cascata pelas pedras.          

- Que metal nos poderia prender?

 

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Obras consultadas:

ANDRADE, Mário. O Empalhador de Passarinhos. São Paulo : Ed.Martins; Brasília: MEC/INL, 1972.

SECCHIN, Antônio Carlos. (org.) Cecília Meireles. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2001.V.I e II

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira . São Paulo : Cultrix

COUTINHO, Afrânio e Eduardo de Faria. A Literatura no Brasil. Era modernista. Rio de Janeiro : José Olympio ed.; Niterói/RJ: EDUFF, 1986

GOUVÊA, Leila V.B. Cecília em Portugal. São Paulo : Iluminuras, 2001.

FAUSTINO, Mário. De Anchieta aos concretos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

LAMEGO, Valéria. A farpa e a lira – Cecília  Meireles na Revolução de 30. Rio de Janeiro : Record, 1996.

MEIRELES, Cecília  . Obra Poética. Rio de Janeiro : Editora José Aguilar, 1958. Introdução de Darcy Damasceno.

NETO, Miguel Sanches. Cecília Meireles e o tempo inteiriço. In: Cecília Meireles . Obra completa. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2991.

ZAGURY, Eliane. Cecília Meireles : notícia biográfica, estudo crítico, antologia, bibliografia, discografia, partituras. Petrópolis/RJ: Vozes, 1973.

 

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