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CASTRO ALVES
Poeta: 1847 – 1871
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1847: A 14 de Março, na fazenda Cabaceiras, perto de Curralinho, Bahia, Brasil, nasce António Frederico de Castro Alves, filho de D. Clélia Brasília da Silva Castro e do Dr. António José Alves. – 1854: A família Alves vai morar em Salvador. – 1859: Morte de D. Clélia, mãe do poeta. – 1862: António Frederico de Castro Alves e o seu irmão José António vão estudar no Recife. – 1863: Castro Alves publica “A Canção do Africano”, os seus primeiros versos abolicionistas. Apaixona-se pela actriz portuguesa Eugénia Câmara. – 1864: Desequilíbrio mental e suicídio de José António. Castro Alves matricula-se no 1.º ano da Faculdade de Direito de Recife. Escreve o poema “O Tísico” (ao qual dará depois o título “Mocidade e Morte”). – 1865: Em Recife, na abertura do ano lectivo declama o poema “O Século”. Começa a elaborar os poemas de “Os Escravos”. – 1866: Morte do Dr. Alves, pai do poeta. Este matricula-se no 2.º ano de Direito. Com Rui Barbosa e outros colegas funda uma sociedade abolicionista. É um dos fundadores do jornal de ideias “A Luz”. No Teatro Santa Isabel declama o poema “Pedro Ivo”, grande sucesso. Torna-se amante da actriz Eugénia Câmara e entusiasma-se pela vida teatral. – 1867: Conclui o drama “Gonzaga”. Com Eugénia Câmara deixa Recife e instala-se na Bahia. Estreia de “Gonzaga” e consagração do poeta. Retira-se para a chácara da Boa Vista. – 1868: Viaja para o Rio de Janeiro. José de Alencar e Machado de Assis tomam contacto com a sua obra. Ainda com Eugénia Câmara viaja para São Paulo onde requer matrícula no 3º. Ano de Direito. Triunfo com a declamação de “O Navio Negreiro” em sessão magna. Sucesso de “Gonzaga” no Teatro de São José. Acidente de caça, tiro no calcanhar esquerdo. – 1869: Matricula-se no 4.º ano de Direito. A tísica progride, viaja para o Rio, hospeda-se na casa de um amigo. Amputação do pé esquerdo. Assiste ao desempenho de Eugénia Câmara, da qual se separara um ano antes. Torna à Bahia. – 1870: Pousa em Curralinho (hoje Castro Alves), sertão baiano, e depois na fazenda Sta. Isabel do Orobó (hoje Iteberaba). Regressa a Salvador da Bahia. Edição de “Espumas Flutuantes” – 1871: Apaixona-se pela cantora Agnese Trinci Murri. Agrava-se o seu estado de saúde. Morre a 6 de Julho. |
DOIS CLANDESTINOS NA MÁQUINA DO TEMPO |
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A
minha máquina do tempo às vezes derrapa e agita os paradoxos. Quando eu
me preparo para descer na Bahia, em meados do século XIX, reparo que nas
traseiras da cabina viajavam dois clandestinos. Um deles eu reconheço, já
vi a sua fotografia, é o Tabarin, um Maestro italiano. De 1943 a 1948, no
Conservatório de Santos, foi o professor de piano da minha mulher. Quando
uma discípula começava a adocicar os nocturnos de Chopin, irritava-se,
berrava, atirava pela janela as pautas da aluna... Quando eu parti (ou
partirei?) o Maestro já tinha morrido. Portanto apanhou a máquina em
andamento. Tal como eu fazia quando pulava para o estribo do eléctrico
que passava (ou passará?) na rua da minha infância... O
outro eu não conheço mas tem, mais ou menos, a idade do Tabarin.
Portanto, também ele apanhou a máquina em andamento. O Maestro dá-lhe o
nome de Agripino e os dois conversam em italiano. Mas brasileiro será
segundo, pois responde-me num português escorreito quando pergunto o que
estão os dois a fazer ali: -
Queríamos ouvir Castro Alves declamando, por isso pegámos sua
“carona”. Não leva a mal? -
Não, não levo a mal, bem entendo o vosso desejo, é justamente o meu. |
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| A MUCAMA | |
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Estou
a poucas léguas de Curralinho, cidade que um dia virá a ser chamada
Castro Alves. Mais precisamente: estou na comarca de Cachoeira, na
freguesia de S. Pedro de Muritiba. Planura agreste, ventania a açoitar e
ressecar moitas. À minha frente avisto a fazenda Cabaceiras, a senzala e
a casa grande (que não é tão grande assim...). No alpendre, uma negra
corpulenta embala um garotinho branco, irrequietos 4 anos. É a mucama
Leopoldina ninando Secéu (assim lhe chamam os meninos da senzala e todos
os familiares da casa grande, irmãos, pai e mãe). Secéu (que é o António
Frederico de Castro Alves que eu demandava) escreverá mais tarde: Junto
ao fogo, uma africana, A
meu lado, comenta o Maestro Tabarin: -
Senhores e escravos, que tristeza... -
Maestro, vai-me desculpar mas a realidade não é contraste a preto e
branco, há que ter olhinhos para apanhar os meios tons. Matizes, Maestro,
matizes... Intervém
o Agripino: -
Tabarin, o português tem razão. Vira-se
para mim: -
Não se irrite, o Maestro desconhece a realidade brasileira deste século.
Não quero ser indelicado mas acho que o melhor é irmos nós dois por um
lado, para eu poder explicar tudo, em italiano, ao Tabarin, e Você ir por
outro. Para si a busca será fácil; embora com pronúncia diferente, fala
a mesma língua deste povo e conhece seus usos e costumes porque já andou
pelo sertão daqui a cento e poucos anos, sei disso. Andou ou andará? Mas
que bruta confusão... -
São os paradoxos do tempo, Agripino, não se aborreça. Boa excursão e
até logo! Abalam. Os
meios tons! Assinalo a convivência pacífica entre brancos e pretos que
vivem na fazenda Cabaceiras, quando o habitual é mandar açoitar costas e
nádegas de escravos relapsos, ou respondões, e depois esfregar com sal
os ferimentos. O que me intriga é saber de onde brotou esta súbita
humanidade. Então reparo em D. Clélia, senhora de saúde frágil, mãe
de Secéu. É filha de José António da Silva Castro, o major “Periquitão”,
o herói baiano das guerras da independência do Brasil. Começo a
entender: primeiro a independência e depois, por arrasto, a expansão da
liberdade... Também reparo no Dr. António José Alves, pai de Secéu. Médico
formado na Bahia, foi depois estagiar em hospitais franceses - quem pagou
a conta foi o futuro sogro, já que ele era moço pobre -. Hoje o doutor
zela pela saúde de todos os habitantes da fazenda, os da casa-grande, mas
igualmente os da senzala. É um homem de ciência mas foi também (e
continuará a ser, nada se apaga...) o estudante apaixonada que pegou em
armas contra as milícias do Doutor Sabino, caudilho que mandava violar
cemitérios a que chamava de profanos, só a Igreja é que deveria tomar
conta dos funerais... Fanatismo bento, confissão, confusão... Mais
tarde, em Salvador, o Dr. Alves irá cobrar preços simbólicos pelas suas
consultas a escravos doentes, coerência. Ânsias
de liberdade e progresso, tal como na Europa, já começam pois a sacudir
o Brasil, não tarda muito a maré-cheia... |
O GINÁSIO BAIANO |
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As
crianças crescem, precisam de Escola. Em 1852 vejo a família Alves
mudar-se, primeiro para Muritiba, depois para S. Félix (na margem do rio
Paraguaçu) e, finalmente, em 54, para Salvador, onde o doutor abre um
pequeno hospital no piso inferior do seu palacete da Rua do Paço. Foi
com saudade que Secéu partiu da fazenda Cabaceiras. Ali perto, em
Curralinho, conhecera Leonídia Fraga, uma menina da sua idade, namoro de
crianças. Irá reencontrá-la mais tarde. Secéu
e José António (o irmão mais velho) durante dois anos estudam no Colégio
Sebrão. Depois o Dr. Alves matricula-os no Ginásio Baiano, fundado e
dirigido por Abílio César Borges, o qual está a revolucionar a forma de
ensino. Em vez de impingir o latinório do costume e zurzir os cábulas,
trata mas é de premiar os alunos que mais se distinguem na interpretação
de Virgílio, Horácio, Camões, Lamartine e Victor Hugo. Rui Barbosa
(futuro líder republicano) e Castro Alves, para regozijo de colegas e
professores, entram em frequentes despiques rimados. “Secéu” declama,
veemência: Se
o índio, o negro africano, |
D. CLÉLIA |
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Em
1858 o Dr. Alves reconstrói o solar da chácara Boa Vista. Pretende que a
sua esposa, exausta mãe de seis filhos, saúde frágil, ali repouse e
ganhe forças. Em vão. D. Clélia
falece em 1859. Um
desgosto e um problema: criar e educar seis filhos. Três
anos depois o Dr. Alves casa-se com viúva Maria Ramos Guimarães. Será
ela o amparo das quatro crianças menores, um rapaz e três meninas,
Guilherme, Elisa, Adelaide e Amélia.
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EU SEI QUE VOU MORRER |
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Castro
Alves, o Secéu, tem 15 anos e é dono do seu nariz, inteira liberdade, o
pai está longe. Acha Recife uma cidade insípida. Escreve a um amigo na
Bahia: “Minha
vida passo-a aqui numa rede, olhando o telhado, lendo pouco, fumando
muito. O meu ‘cinismo’ passa a misantropia. Acho-me bastante afectado
do peito, tenho sofrido muito. Esta apatia mata-me. De vez em quando vou
à Soledade." É
de curta duração a apatia de Secéu. O bairro da boémia, desamparo,
Soledade, mas depois a Rua do Lima, no bairro de Sto. Amaro. Ali o poeta
procura uma Idalina que o aconchega em sua cama... São
noivos – as mulheres murmuravam! Estroina,
mau estudante, reprovação, falhado ingresso na Faculdade de Direito. Mas
antes de ser “calouro”, já começa a ser notado como poeta, “A
Destruição de Jerusalém”, o “Pesadelo”, “A Canção do
Africano”, aplausos da mocidade inconformada. Começa
a frequentar o Teatro Santa Isabel. Fica fascinado por Eugénia Câmara, a
Dama Negra, a actriz portuguesa que, de forma gaiata, domina o palco. Recorda-te
do pobre que em silêncio Mas,
na ribalta, também a actriz Adelaide Amaral disputa o coração dos
espectadores (jornalistas, escritores, artistas, estudantes muitos). Duas
claques aguerridas, vaias, aplausos, pateadas, loas e cantigas de escárnio,
bebedeiras no fim da noite. Na manhã seguinte, nos jornais, elogios e
doestos, ora a uma, ora a outra. Tobias Barreto é o chefe da claque pró
Adelaide. Castro Alves o da claque pró Eugénia. Esta é amante do actor
Furtado Coelho, do qual tem uma filha pequena. O que não trava os avanços
do Secéu, adolescente sedutor, porte esbelto, tez pálida, olhos grandes,
cabeleira farta e negra, voz possante, sempre vestido de preto, elegância,
nostalgia. Embora tenha 10 anos mais do que o poeta, a Dama Negra não se
esquiva; do romance que desponta, adia apenas a florada. 1864:
aos 17 anos Castro Alves é finalmente admitido na Faculdade de Direito A
9 de Novembro sente uma forte dor no peito: E
eu sei que vou morrer... dentro em meu peito Sou
o cipreste que inda mesmo flórido |
| POETA-CONDOR | |
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Se
o mal de peito lhe vai roubar tempo de vida, então há que vivê-lo
intensamente... O poeta alarga a sua dor pequena às dores da humanidade.
Ei-lo a declamar “O Século”: O
Século é grande... No espaço A
escandalizar: Quebre-se
o ceptro do Papa, E,
com “Os Escravos”, a amedrontar até os abolicionistas moderados: (...) Tribuno, poeta-condor a adejar sobre a multidão em delírio, ovações, são as ânsias de liberdade a sacudir o Brasil. |
| PRESSA | |
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Tem
pressa, a sua vida está a esvair-se mas, vez por outra, é obrigado a
parar. É quando em 1864 José António, o seu perturbado irmão, se
suicida em Curralinho. É quando, em 1866, falece o Dr. Alves, o seu pai,
e ele, então de férias na Bahia, a assistir ao passamento. Mas
reage, não tem tempo a perder. É vizinho das Amzalack, três irmãs
judias. Manda-lhes um poema, elas que decidam qual a destinatária (talvez
seja a Esther): Pomba
d’esp’rança sobre um mar d’escolhos! Retorna
ao Recife, matricula-se no 2.º ano de Direito. Com Rui Barbosa e outros
colegas funda uma sociedade abolicionista. No Teatro Santa Isabel declama
o poema “Pedro Ivo”, exaltação do herói da revolta Praieira e do
ideal republicano: Cabelos
esparsos ao sopro dos ventos, Consolidará
a imagem: A
praça! A praça é do povo Participa
na fundação do jornal de ideias “A Luz”. Torna-se
amante de Eugénia Câmara e convence-a a fugir com ele para, (...)
A todos sempre sorrindo, Pressa,
tem muita pressa. Escreve, em prosa, o drama “Gonzaga” ou “A Revolução
de Minas”. Organiza manifestação contra o espancamento de um estudante
republicano. Em Maio de 67 abandona, de vez, o Recife. Viaja, com Eugénia,
para a Bahia. Mudam-se para a chácara Boa Vista. Um
cão de guarda, já muito velho, vem lamber-lhe a mão. Memórias,
melancolia... A
erva inunda a terra; o musgo trepa os muros; No
Teatro São João, Eugénia desempenha o principal papel feminino do
“Gonzaga”. Sucesso, consagração do autor em cena aberta, embora as
senhoras da capital baiana torçam o nariz à ligação do poeta com uma
“cómica de má vida”.
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| RIO DE JANEIRO | |
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José de Alencar e Machado de Assis louvam a poesia de Castro Alves. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Na
capital procura José de Alencar e o autor de “Iracema” deixa-se
cativar pelo fluxo verbal do poeta. Apresenta-o a Machado de Assis. Dirá
este: -
Achei uma vocação literária cheia de vida e robustez, deixando antever
nas magnificências do presente as promessas do futuro. Também
em Lisboa, Eça de Queirós ao ler, para um amigo, o poema “Aves de
Arribação” (...)
Às vez quando o sol nas matas virgens comentará: -
Aí está, em dois versos, toda a poesia dos trópicos. Ainda
em Portugal, afirmará António Nobre: -
O maior poeta brasileiro. Na
redacção do Diário do Rio de
Janeiro, Castro Alves lê, para outros homens de letras, o seu
“Gonzaga”. Sucesso! Mas
a glória popular é quando, da varanda do mesmo jornal, na Rua do
Ouvidor, centro da Capital, declama para a multidão as estrofes do
“Pesadelo de Humaitá”, em que celebra o feito da esquadra brasileira
na Guerra do Paraguai: Fere
estes ares, estandarte invicto!
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| S. PAULO | |
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Em
Março de 68, Eugénia Câmara e Castro Alves viajam para São Paulo. Ali,
na Faculdade do Largo de S. Francisco, o poeta pretende concluir o curso
de Direito. Porém, mais do que o estudo, mobilizam-no os grandes ideais
da Abolição e da República, também a agitação académica a fluir das
arcadas da Faculdade. Em sessão magna, pela primeira vez declama o
“Navio Negreiro”: Era
um sonho dantesco... O tombadilho Negras
mulheres, suspendendo às tetas E
ri-se a orquestra irónica, estridente... Presa
nos elos de uma só cadeia, No
entanto, o capitão manda a manobra, E
ri-se a orquestra irónica, estridente... Conclui
o poeta: Auriverde
pendão da minha terra, Dirá
Joaquim Nabuco: “Quem visse Castro Alves em um desses momentos em que se
inebriava de aplausos, vestido de preto para dar à fisionomia um reflexo
de tristeza, com a fronte contraída como se o pensamento a oprimisse, com
os olhos que ele tinha profundos e luminosos fixos em um ponto do espaço,
com os lábios ligeiramente contraídos de desdém ou descerrados por um
sorriso de triunfo, reconheceria logo o homem que ele era: uma inteligência
aberta às nobres ideias, um coração ferido que se procurava esquecer na
vertigem da glória.” Esquecer
o quê? Talvez a tuberculose que vai minando os seus pulmões, talvez o
arrefecimento do amor de Eugénia Câmara. A Dama Negra está a envelhecer
e corre em busca da juventude, erotismo, aventuras várias. Ciúmes de
Castro Alves, violência e mágoa, reconciliações, sensualidade: É
noite ainda! Brilha na cambraia O
par separa-se em Setembro de 68. Encontram-se, pela última vez, em
Outubro, quando Eugénia sobe ao palco do Teatro São José para, mais uma
vez, interpretar o principal papel feminino do “Gonzaga”. Isolamento,
melancolia, tabaco, nuvens de fumo, mal agravado.
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| O DERRADEIRO ENCONTRO | |
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"Não quero mais o teu
amor", diz Castro Alves para Eugénia Câmara. Entretanto, o que
está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua
Cronológica.
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O
poeta é levado para a Capital em Maio de 69. Fica hospedado na casa do
seu amigo Cornélio dos Santos. Amputação
do pé, porém a frio, o seu estado de fraqueza desaconselha o uso do
clorofórmio. Galhofa é o escudo contra a dor: -
Corte-o, corte-o, doutor... Ficarei com menos matéria do que o resto da
Humanidade. Valem
depois ao poeta os muitos amigos que o cercam durante a longa convalescença.
17
de Novembro de 69: Castro Alves enfia a perna esquerda num botim recheado
de algodão, assim disfarça o defeito. Apoiado numa muleta, aí vai ele
assistir a um espectáculo de Eugénia Câmara no Teatro Fénix Dramática.
Os dois antigos amantes têm ainda uma troca de palavras. Dessa última
conversa sobram versos, apenas: Quis
te odiar, não pude. – Quis na terra Sinto
que vou morrer! Posso, portanto,
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| A BAHIA - O SERTÃO | |
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Castro Alves recorda a sua infância. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Recebido
efusivamente por Maria (a madrasta) por Augusto Álvares Guimarães (o
cunhado e grande amigo), por Guilherme (o irmão), e por Elisa, Adelaide
(esposa de Augusto) e Amélia, as três irmãs que o endeusam. É
curta a permanência de Castro Alves em Salvador. Apenas o tempo necessário
para coligir os poemas para a edição de “Espumas Flutuantes”.
Relembra São Paulo, onde alcançara a glória, nostalgia: Tenho
saudades das cidades vastas Tenho
saudades de meus dias idos Depois
abala para o sertão onde, segundo os médicos, o clima seco será mais
favorável aos seus pulmões. Passará o tempo a escrever e a desenhar. Em
Curralinho, o comovido reencontro com a paisagem e a memória da infância: Hora
meiga da Tarde! Como é bela Eu
amo-te, ó mimosa do infinito! E
na fazenda de Sta. Isabel do Orobó, o reencontro com Leonídia Fraga, sua
prometida de menino e hoje donzela airosa que por ele esperara sempre.
Reacender a paixão primeira? Para quê, se a morte ronda? A si mesmo diz
o poeta: Talvez
tenhas além servos e amantes,
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| AGNESE | |
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Fizeram-lhe
bem os ares do sertão, sente-se melhor e regressa a Salvador. As
“Espumas Flutuantes” são editadas, correm de mão em mão e o poeta
é saudado e louvado em cada esquina. Apaixona-se
por Agnese Trinci Murri, alta, alva, bela viúva florentina, cantora lírica
que se deixara ficar na Bahia para ensinar piano às meninas da alta roda.
A italiana aceita, vagamente, a corte do poeta, mas não embarca em
aventuras, quer manter o seu bom nome. No
camarote gélida e quieta Renascera
contudo o optimismo e o poeta tornara ao teatro, longe já vai o tempo da
Dama Negra... Ouve recitar a sua “Deusa Incruenta”, exaltação do
papel educativo da Imprensa: Oh!
Bendito o que semeia E
em Outubro de 70 é ele mesmo quem declama, no comício de apoio às vítimas
francesas das tropas de Bismarck: Já
que o amor transmudou-se em ódio acerbo, É
a sua última aparição em público. O estado de saúde agrava-se.
Recolhe-se à casa da família. Em 71, na noite de 23 de Junho aproxima-se
da varanda. O fumo das fogueiras de São João provoca-lhe um acesso de
tosse que o deixa prostrado. Febre
alta, hemoptises. Ordena
a Adelaide que impeça a visita de Agnese. Não consente que a Diva
derradeira contemple a sua ruína física. A 6 de Julho pede que o sentem
junto a uma janela ensolarada. A contemplar o longe, morre às 3 e meia da
tarde. 24 anos, vida breve, intensidade. * *
* Quando
me aproximo da máquina do tempo, os dois clandestinos já estão à minha
espera para regressarem ao futuro. Sei que, durante a viagem, irão
misteriosamente desaparecer como, na vinda, misteriosamente apareceram na
cabina. Entusiasmo do Maestro Tabarin: -
Vigoroso e revolucionário Castro Alves! Um romântico sem açúcar... Tal
e qual Chopin... E
o outro? Puxei pela memória e agora já sei quem é: Agripino Grieco,
brasileiro, crítico de língua afiada. Sobre o que viu e ouviu tem,
obviamente, uma opinião. Definitiva, como são todas as suas: -
Castro Alves não foi um homem, foi uma convulsão da natureza. ________________ Principais Obras
de Castro Alves
Gonzaga ou A Revolução
de Minas |