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CÂNDIDO PORTINARI

Pintor: 1903 - 1962

Cristina Vaz

 

Cândido Portinari - auto-retrato

A MINHA PINTURA É PINTURA DE CAMPONÊS. SE QUEREM OS MEUS CAMPONESES, BEM; SE NÃO, CHAMEM OUTRO PINTOR.

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1903: Nasce em Brodósqui, S. Paulo. - 1912: Colabora na pintura da Igreja de Brodósqui. - 1918: Vai para o Rio de Janeiro para estudar pintura. - 1921: É admitido no curso de pintura da Escola de Belas Artes. -1922: Expõe o 1º quadro. -1928: Ganha uma bolsa de viagem que o leva à Europa. - 1930: Casa com Maria Martinelli. - 1935: O óleo "Café" obtém a Segunda menção honrosa, em Nova Iorque. - 1936: Pinta os primeiros murais. É nomeado professor de pintura. - 1937: Inicia os murais do Ministério de Educação. - 1938: O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque compra o quadro "Morro". - 1939: Nasce seu filho, João Cândido. - 1940: Expõe nos Estados Unidos. - 1943: Candidata-se a deputado. - 1945: Conclui os murais do Ministério da Educação. Filia-se no Partido Comunista. - 1946: Expõe em Paris. - 1947: Candidata-se a senador. Expõe em Buenos Aires e Montevideo. - 1950: Visita a Itália. Participa na Bienal de Veneza. - 1952: O Governo Brasileiro convida-o para realizar os murais para a sede da ONU. - 1954: Sofre uma hemorragia, motivada pela intoxicação das tintas. - 1955: Faz ilustrações para a obra "A Selva" do escritor Ferreira de Castro. - 1956: Viaja a Israel e Itália. - 1962: Morre, vitima do envenenamento das tintas.

 


A TERRA DA PLANTAÇÃO

Mestiço - 1934 - óleo sobre tela

 

O Estado de S. Paulo é a região do café. Produzi-lo não chega, é necessário transportá-lo para os centros que o farão chegar a sítios mais longínquos.

Brooswisqui é o engenheiro polaco, responsável pela construção do caminho de ferro naquele Estado. Obra de tal importância que não hão-de esquecer-se daquele homem. Para que fique perpetuado o seu nome, uma pequena aldeia adopta-o como seu - Brodósqui - mais simples de escrever.

A aldeia não é grande, semelhante a muitas outras, uma igreja e um grupo de casas brancas. À volta ficam as plantações onde tantos trabalham - negros, mestiços, brancos - alguns, imigrantes.

O casal Portinari tinha vindo de Itália, na esperança de realizar o sonho de uma vida melhorada. Em filhos não lhe faltará riqueza - terão treze - e entre eles um se irá destacar.

Faltam apenas três dias para o fim do ano de 1903 quando Cândido Portinari chega ao mundo.

Os primeiros anos são passados entre a aldeia e as plantações de café, serenidades e rotinas que o tempo não lhe apagará da memória.

Aos nove anos colabora com outros artistas italianos no restauro da pintura da Igreja de Brodósqui. Dizem alguns que a seu cargo fica a pintura das estrelas. De qualquer forma, o que faz é suficiente para que lhe notem o jeito. Devia aprender desenho o minino, mas na aldeia não há onde fazê-lo. Terá ainda de esperar algum tempo.

Tem 15 anos quando parte para o Rio de Janeiro, e vai sozinho, que já não é rapaz de precisar de companhia. Os pais não terão o suficiente para que possa só estudar; por isso, durante o dia, vai trabalhando numa pensão, e sempre tem onde dormir, nem que seja na casa de banho.

No tempo que lhe sobra vai frequentando a Escola de Artes e Ofícios. Depois candidata-se ao curso de pintura da Escola de Belas Artes, onde é admitido em 1921. Não pode parar. Logo no ano seguinte participa no Salão Nacional de Belas Artes. Não mais deixará de participar em exposições. Quando em 1925 obtém a medalha de prata, chama já a atenção da critica:

"Cândido Portinari é um paulista de 23 anos que possui excelentes dons dum retratista ... a sua técnica é larga e incisiva. Apanha bem a semelhança e carácter dos modelos"

Manuel Bandeira

O seu objectivo é o grande prémio do Salão - uma bolsa de viagem à Europa. Portinari sabe bem do que gosta o Júri. Cede um pouco na sua forma de pintar e faz um retrato mais ao gosto da Academia - Olegário Mariano. Com ele obtém o grande prémio do Salão de 1928. A bolsa para a Europa é sua.

 

DA SEMENTE ATÉ AO FRUTO...

Café - 1925 - Oleo sobre tela - 130 X 195 cm. Museo Nacional de Bellas Artes de Rio de Janeiro

 

A Europa está repleta de coisas que Portinari deseja conhecer. Durante largo tempo viaja, visita a Inglaterra, Itália, Espanha, depois instala-se em Paris.

Mais do que trabalhar, Portinari sente necessidade de observar.

Fascina-se com os renascentistas italianos - Giotto e Piero della Francesca. Em Paris aprecia Matisse e Cezanne. Tudo lhe vai servindo para aprender, para ter uma outra forma de ver:

Daqui fiquei vendo melhor a minha terra - fiquei vendo Brodósqui como ela é. Aqui não tenho vontade de fazer nada. Vou pintar Palaninho, vou pintar aquela gente ... e quando voltar vou ver se consigo pintar a minha terra.

Na verdade, em França não irá pintar muito, na bagagem virão apenas três telas. Escassa produção para quem está tanto tempo na Europa. Outra coisa lhe é mais importante - o seu casamento com Maria Martinelli, companheira que não mais o deixará durante toda a sua vida.

No Rio de Janeiro comenta-se: de que serviu a bolsa se quase nada foi feito? Portinari deixa que falem. Preocupa-se agora em aplicar tudo o que aprendeu enquanto esteve longe. As regras académicas são abandonadas. Quer encontrar a sua forma de pintura, a sua maneira de ver.

Dedica-se ao trabalho de forma intensa, mas por vezes o dinheiro para as telas escasseia. Improvisa-as, utilizando os seus lençóis. Só assim lhe é possível produzir tanto quanto quer. Como temas, escolhe aquilo que sonhou em França - a aldeia, as brincadeiras de menino, as plantações de café. Este último está-lhe tão próximo que o há-de representar num quadro com o titulo Café. Ao mesmo tempo vai ensaiando a pintura mural na sala da casa de seus pais, em Brodósqui.

Em 1935 realiza-se em Nova Iorque a Exposição Internacional de Arte Moderna do Instituto Carnegie. O Brasil participa pela primeira vez e alguns artistas enviam as suas obras. Portinari expõe o óleo que fizera tempos antes - Café. Obtém a segunda menção honrosa, e muitos elogios por parte de críticos americanos: "Café, de Cândido Portinari, é a aparição espectacular do Brasil". Em breve serão colhidos os frutos.

 

...A SAFRA...

 

 

Portinari e o figurativismo... Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A neta Denise com carneiro branco, óleo sobre tela, 1961

 

Depois da crise de 1929 a arte americana é influenciada pelo social. A recessão económica afecta muita gente, em particular as classes mais desfavorecidas. - camponeses e proletários.

Os artistas não ficam indiferentes a tudo o que se passa à sua volta. Novos conceitos nascem. A arte pela arte, tão ao gosto europeu, não é já suficiente. Torna-se necessário mostrar a realidade - o lado social. Nada melhor que a figura humana para expressar o que se vê. É o figurativismo. Por toda a América se fazem grandes pinturas murais, mais acessíveis, na leitura, a um maior número de pessoas. No México, Rivera é o pintor que bem demonstra a melhor forma de se chegar às massas através de grandes murais.

Portinari expressara em Café muito dessa realidade social. Os homens deformam-se com o peso dos sacos que trazem aos ombros. Os pés das figuras, na sua forma enorme, parecem ligar-se à terra, como dela fazendo parte. A América soube compreendê-lo. O Brasil não pode ficar alheio ao reconhecimento internacional. Afinal trata-se agora de um artista de mérito. Celso Kelly aproveita a fundação do Instituto das Artes e convida Portinari para regente da cadeira de pintura. No ano seguinte será a vez do ministro Gustavo Capanema lhe encomendar os murais para o Ministério da Educação. O objectivo é mostrar a educação para o trabalho, numa perspectiva económica e de certa forma histórica através dos ciclos que o Brasil conheceu: o pau-brasil, a cana de açúcar, o ouro. Portinari estuda os temas, aconselha-se. Depois será a sua forma de ver - do lado daqueles que trabalham, como ele próprio - de sol a sol. Para além do mais nunca esqueceu as suas próprias origens, ou não fosse ele um camponês, filho de camponeses:

Então tive que dizer-lhes: a minha pintura é pintura de camponês; se querem os meus camponeses, bem; se não, chamem outro pintor. Foi então que embora numa ordem histórica, fiz a série do Ouro, Fumo, Gado, etc.

O edifício do Ministério da Educação e Cultura é obra do arquitecto Oscar Niemayer que o projectou em colaboração com Le Corbusier. Portinari decide fazer um estudo prévio profundo. Durante algum tempo dedica-se a fazer estudos de preparação para os murais. Em 1937 inicia a obra. A tarefa é tão intensa que chega a trabalhar 16 horas por dia. Pode afirmar com veracidade a sua frase favorita Sou um monstro de trabalho. Mesmo assim terá ali trabalho para alguns anos. Só em 1945 ficarão concluídos e, pelo meio, fará ainda muitas outras coisas.

Em 1939, por encomenda, pinta três painéis que irão estar presentes no Pavilhão do Brasil, por ocasião da Feira Mundial de Nova Iorque. Enquanto isso faz no Rio de Janeiro a sua primeira exposição individual. No mesmo ano, sua mulher dá à luz o seu filho João Cândido - doçura. Na Europa rebenta a II Guerra Mundial - flagelo.

Os ecos da guerra vão chegando devagar, é ainda o principio. Portinari está fascinado pelo filho. Retrata-o com a ternura de um pai. Possivelmente acreditando num futuro melhor.

De Nova Iorque vem o convite para uma exposição individual a realizar no Museu de Arte Moderna. Acontecimento importante onde estarão presentes centenas de convidados. Os resultados poderiam ser bons, afinal as obras expostas são todas vendidas. No entanto, Portinari irá trazer uma tristeza:

Na América, a exposição individual é coisa muito séria. O dia da inauguração mete casacas, grande luxo. O expositor só tem direito a convidar oito ou dez pessoas. Indiquei dez negros para os meus dez convites. Não convidaram nenhum.

Portinari não irá deixar perder a ocasião de fazer algo contra este estado de coisas. Em 1942 surge uma boa oportunidade. É convidado para executar murais na Biblioteca do Congresso de Washington. Os temas estão relacionados com a história da América - não quiseram negros na sua exposição, pois eles estarão presentes na Biblioteca, para que não os esqueçam. É preciso ainda fazer muita coisa pelo lado social, e talvez a pintura não chegue.

 

... DO FRUTO QUE DÁ O GRÃO...

Os Retirantes - óleo sobre tela - Coleção Museu de Arte de São Paulo Assis  - 1944

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menino morto (ciclo dos Retirantes), óleo sobre tela, 1944/45

 

Durante a estadia em Nova Iorque, Portinari vê uma obra que muito o impressiona, Guernica. A guerra vista por Picasso, duma forma cubista e sem a utilização das cores. Fica impressionado com o quadro.

Na Alemanha os nazis estão no poder. Da Europa não param de chegar os relatos dramáticos. É o mundo que está em guerra e enquanto isso o povo é o que mais sofre. A morte está presente em todo o lado.

No Brasil, o sofrimento é provocado pela natureza. O Nordeste é atingido por grandes secas que trazem consequências gravosas para os camponeses.

Muitos são aqueles que utilizam as suas artes para falar do que os rodeia - Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos. Também Portinari a nada disto fica alheio. Exprime-o com a sua pintura, reflecte-o. É a cor que se apaga, um drama que se observa. São os Retirantes, expressos em algumas das suas obras. Os despojados de tudo, do trabalho, da vida, têm apenas a morte, como o expressa em Criança morta.

Em 1944 Portinari inicia o Mural para igreja de Pampulha, primeiro S. Francisco, depois a Via Crucis. As pinturas têm um carácter fortemente expressionista.

Mas nem só na pintura Portinari faz opções. Chegou o tempo de escolher outros caminhos - o lado político. É uma figura por todos conhecida, muitos o ouvem. Filia-se no Partido Comunista e candidata-se a deputado, assim poderá passar melhor a mensagem, falando das realidades que conhece. Do seu programa faz parte uma exposição em S. Paulo, mas as autoridades impedem a sua realização. Entretanto, o Arcebispo de Belo Horizonte recusa-se a consagrar a Igreja de Pampulha devidos aos seus murais - demasiado materialistas, argumenta. Existem talvez motivos mais fortes, as tendências políticas começam a não ser do agrado de muita gente, e sobretudo quando são expressas de forma tão clara.

Portinari não desiste e chega a candidatar-se a Senador. As coisas no Brasil não estão agora muito fáceis, o Partido Comunista não agrada ao poder. Portinari, assim como muitos outros intelectuais começam a ser interrogados pela polícia. Controvérsias, para quem já tinha sido acusado noutra época de ser o pintor oficial do governo. Melhor será partir por uns tempos e além do mais há uma exposição para fazer no Uruguai. Quando regressar, no ano seguinte terá ainda de tempo de ver a dissolução do seu partido ordenada pelo Governo. De forma lenta vai-se afastando da vida política. De qualquer forma tem sempre a pintura para poder dizer muita coisa.

 

... O GRÃO QUE FAZ O CAFÉ...

 

"Guerra", 1955 - painel de Portinari instalado no Edifício da ONU, em Nova Iorque

 

O mundo está agora preocupado com a paz. Nos Estados Unidos (que ajudaram a pôr termo à guerra) fica a sede da organização que velará para que ela não volte a surgir - a ONU.

O Governo brasileiro decide oferecer dois painéis para ali serem colocados. Portinari volta a ser o artista convidado. Em 1952 começa a sua obra: um será a Guerra, outro a Paz. Levarão quatro anos até que sejam mostrados, primeiro no Brasil, para depois seguirem para o seu destino.

Enquanto pinta os painéis, Portinari adoece gravemente. O diagnóstico não é nada agradável. A doença não é mais do que o envenenamento que as tintas lhe provocam. Deve parar de pintar. Coisa impossível para quem a pintura é a vida. Aliás, ela tem sido a sua grande preocupação, agora que a arte parece estar a tomar outro caminho que não agrada a Portinari, como o tem dito nas entrevistas que dá:

A pintura, que era antes o maior veículo de propaganda de ideias, hoje precisa de uma propaganda enorme para viver. Antes ela servia a religião e o estado, hoje não serve ninguém. Outros meios mais directos e efectivos a substituíram, tais como o cinema, a televisão, o rádio, o jornal... Resistirá a pintura como meio de expressão e como profissão?

Para Portinari a sua pintura continua a ser a melhor forma de divulgação de ideias, ainda que por vezes isso lhe possa trazer problemas.

Uma verdadeira cruzada na caça aos comunistas atravessa os Estados Unidos. Tudo e todos se tornam suspeitos. As tendências esquerdistas de Portinari não podem de forma alguma agradar, como se poderia agora demonstrar-lhe admiração?

Os painéis chegaram mas a exposição da obra é protelada. Do Rio de Janeiro ouvem-se protestos - que os devolvam! Depois serão as diplomacias. Em 1957 acabarão por ser inaugurados justamente no lugar para onde estavam destinados.

Durante os últimos anos da década de cinquenta faz ilustrações para várias obras, entre as quais "A Selva" de Ferreira de Castro. Viaja até à Itália e Israel, fazendo um álbum de desenhos sobre este último, e vai participando em diversas exposições.

Em 1960 Portinari realiza ainda uma exposição. As telas reflectem um pouco as suas novas influências - abstracção geométrica dirão alguns. Mas alguma crítica não o poupa - acham-no académico, talvez motivados pelas suas declarações:

... Quanto ao resto, esses que andam colando estopa nas telas, pedaços de vidro, papel de jornal, etc., dizendo que são modernos, isso é bobagem: não é nem povo, quanto mais moderno ...

Apesar de tudo, Portinari continua a pintar; nem a crítica, nem as ordens médicas o fazem parar. Em 1961 faz um retrato da sua neta - Denise.

Em Fevereiro do ano seguinte um novo envenenamento provocado pelas tintas é-lhe fatal.

Não foi a pintura que o matou, apenas deu a sua vida à pintura.

 

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