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BENTO DE JESUS CARAÇA

Matemático, professor, político: 1901- 1948

Leonor Lains

Bento de Jesus Caraça.

O HOMEM ESCRAVO DAS COISAS - EIS A GRANDE CONDENAÇÃO, NO CAMPO MORAL, DO REGIME SOCIAL CONTEMPORÂNEO.

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1901: Nasce a 18 de Abril em Vila Viçosa. - 1902: É levado para as Aldeias de Montoito, onde o pai é feitor. - 1911: Termina a escola primária com distinção. Vai para o Liceu em Santarém. - 1913: Vai para Lisboa. Frequenta o Liceu Pedro Nunes. - 1918: Inscreve-se no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG). - 1919: Adoece gravemente com doença reumática, com sequelas cardíacas. É nomeado 2.º assistente do ISCEF. - 1923: Obtém a licenciatura. - 1924: É nomeado 1.º assistente. - 1927: É nomeado professor extraordinário. - 1929: Concurso público com alto louvor e ascende à cátedra de Matemáticas Superiores. - 1930: Publica as suas lições em livro “Interpolação e Integração Numérica”. - 1933: Conferência na União Cultural Mocidade Livre: “A Cultura Integral do Indivíduo - problema central do nosso tempo”, na qual esboça um programa de intervenção cultural, científica e pedagógica. - 1935: 1.º volume das “Lições da Álgebra e Análise”. - 1936: Funda com outros recém doutorados nas áreas da matemática e física o Núcleo de Matemática, Física e Química. - 1937: publica em 2 volumes “Cálculo Vectorial”. - 1938: Funda com os professores Mira Fernandes e Beirão da Veiga o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, numa tentativa de trazer a econometria para Portugal. - 1941: Funda a “Biblioteca Cosmos”, edição de livros de divulgação científica e cultural; publica o 1.º volume dos “Conceitos Fundamentais da Matemática”. - 1943: Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. - 1944: Faz parte da direcção do MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) criado em Janeiro. - 1945: Faz parte da comissão executiva do MUD (Movimento de Unidade Democrática). - 1946: O Conselho de Ministros determina a sua expulsão da cátedra universitária e fica proibido de exercer a docência. - 1948: Morre em Lisboa, no dia 25 de Junho, vítima de doença cardíaca.

 

OS SENHORES E A TERRA

Paço ducal dos Bragança, em Vila Viçosa.

 

Em voos baixos as cegonhas os grandes espaços ermos, rasam. A Serra d’Ossa serpenteia na paisagem matizada pelo violeta das urzes, o amarelo dos tojos, o vermelho das papoilas. Cheiro penetrante e bravo das estevas ou xaras (origem árabe) de verde escuro luzidio. Aroma afrodisíaco das laranjeiras «Descobre na vista um subtil cuidado, / Ouro no fruto, o que na flor foi prata» (André Nunes da Silva, sec. XVII) e o amarelo dos limoeiros. O céu alto e profundo tem um azul esmalte. A quietude transparente do ar enleva o espírito e tonifica o corpo.

A origem histórica do latifúndio foi determinada pela política de ocupação e povoamento. D. Afonso II, em 1211, as terras de Avis aos frades, doa.  A colonização interna por senhores feudalizantes a grande propriedade, origina.

A Casa de Bragança é o senhorio de muitas terras, muitos padroados eclesiásticos e seculares, muitas comendas da Ordem de Cristo. Os duques pouco mais fizeram que reedificar igrejas, fundar conventos, engrandecer o Paço Ducal de Vila Viçosa e a tapada.

 

O PRIMADO DA INFÂNCIA

Bento de Jesus Caraça, filho de camponeses, nasce em Vila Viçosa. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

                                                                                          Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia

Vi Jesus Cristo descer à terra 

(Alberto Caeiro)

No reino da penúria a pelagra e a fome, alastram. Vila Viçosa no Alentejo, eis o Convento das Chagas na Rua dos Fidalgos. Aqui estão albergados alguns dos criados da Casa de Bragança. Um casal de trabalhadores sazonais, João António Caraça e Domingas Conceição Espadinha acabaram de chegar com os seus dois filhos ainda pequenos, Francisco e António. Ela está novamente grávida. A 18 de Abril de 1901 dá à luz um rapazinho. A vida está má. Ele consegue um lugar de feitor na herdade “Casa Branca” da Senhora D. Jerónima, perto das Aldeias de Montoito, a 18 Kms. do Redondo.

O menino adoece. Tem dois meses e ainda não está sacramentado! A mãe, aflita, leva-o ao padre para o baptismo. Nervosa, não sabe que nome dar à criança:

- Como se chama o padrinho? - pergunta o padre.

- É António Bento. Mas, já tenho um filho António.

- Então - diz o padre - fica Bento de Jesus.

E assim foi. 

Bento de Jesus cresce ladino como todos os meninos. Aprende as coisas do mundo nas brincadeiras com os irmãos mais velhos e as primeiras letras com José Percheiro, trabalhador sazonal. É uma criança bonita de riso e natural. Cativa todos os que o rodeiam. D. Jerónima, mulher sem filhos, quer assumir a sua educação. Os pais concordam. Leva-o para sua casa em Vila Viçosa para ir à escola primária.

Em Vila Viçosa, os ecos da agitação política. Desinteligências entre o partido progressista, conhecido pelo “Francês” e o partido regenerador, o “Prussiano”. Estes desaguisados atingem as bandas de música da terra.  João Maria Espanca, pai de Florbela e de Apeles é pessoa de grande influência. Amador de música e do partido regenerador, convence a banda dos franceses a participar num grande evento político levado a cabo pelo seu partido. Como recompensa oferece-lhes uma requinta e um saxofone soprano e um belo fardamento de penacho e dragonas tal e qual o da Guarda Nacional. Resultado… acabou com a “Francesa”, a banda dos progressistas.

A criança calma e feliz, Bento de Jesus, faz a instrução primária ouvindo o repicar dos sinos, o sonar da nova banda a União Calipolense e a barafunda política.

D. Carlos é um rei parlamentarista e reformador. Promove o apoio à primeira infância, a luta contra a tuberculose, a abertura à Europa. Ao mesmo tempo  promove o desenvolvimento do estudo oceanográfico e da vida artística. Mas nada disto contribui para a sua popularidade porque permite que João Franco, do recém fundado Partido Regenerador Liberal, governe sem Parlamento. 

A rainha D. Amélia chora o filho e marido - D. Carlos paga com a vida os males atribuídos à monarquia - a 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço em Lisboa - regicídio!  Não muito longe, na Real Academia de Amadores de Música, consternação pela morte do seu presidente, o rei D. Carlos. Marquês de Borba e Duque de Loulé fazem parte dos  corpos sociais. Padre Tomás Borba é professor de Rudimentos, Harmonia. A Orquestra da Real Academia maravilha o público lisboeta com os seus concertos no Salão do Conservatório Real.

 

VIVA A REPÚBLICA!

 

 

Bento de Jesus Caraça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Universidade Popular, em Campo de Ourique, Lisboa.

 

A iluminação eléctrica prolonga os dias. Reuniões, debates. Sinais de descontentamento por todo o país. Em 1910 a monarquia cai. Porto e Lisboa saúdam a República. A educação é a paixão da 1.ª República. Escolaridade obrigatória 5 anos. Criação do regime Primário Superior de 3 anos. Em Lisboa, no Teatro da República, o pianista José Viana da Motta interpreta obras de compositores românticos, contemporâneos do seu mestre Franz Liszt, homenageado no centenário do seu nascimento. Neste mesmo ano de 1911 Bento de Jesus Caraça deixa Vila Viçosa para ir estudar em Santarém. No ano seguinte nasce “a sua menina” Filomena, a irmã mais nova. Nas vésperas da 1.ª Guerra Mundial vive em Lisboa. Frequenta o Liceu Pedro Nunes. Sobrevive dando explicações aos colegas. O professor de matemática, Adolfo Sena, incentiva-o no gosto que tem pela matemática. Conhece a sua filha Maria Octávia, estudante de violino no Conservatório de Lisboa. Crescem juntos. Enamorados, ambos partilham o gosto pela música e as preocupações das coisas do mundo. Bento de Jesus ingressa no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, em Lisboa; tem 17 anos. Destaca-se. O professor e matemático Mira Fernandes nomeia-o como seu 2.º assistente do 1.º Grupo de cadeiras do I.S.C.E.F. Grande actividade - com apenas 18 anos - ao mesmo tempo que integra o Conselho Administrativo da Universidade Popular instalada na Padaria do Povo no bairro de Campo de Ourique. Não muito longe, na Rua Coelho da Rocha, Fernando Pessoa encostado a uma cómoda escrevera: «Ele era um camponês / Que andava preso em liberdade pela cidade.». Bento de Jesus não perde a memória das suas origens. Tem uma intensa consciência das necessidades das suas gentes. Quando em férias no Alentejo, a casa dos pais é motivo de  romaria. Camponeses, gente humilde, consultam-no para encontrarem uma solução para os seus múltiplos problemas. Termina o curso e em Dezembro de 1924 é nomeado 1.º assistente. Exactamente dois anos depois casa com o seu amor, a frágil Maria Octávia que morrerá  passados nove meses. Decepado, fica-lhe o íntimo silêncio, a nostalgia do vaguear até à rua dos Caetanos e do violinar fresco da sua amada. Mas a têmpera de lutador permite-lhe, logo em Outubro do mesmo ano, ser professor extraordinário. Homem encantador, de índole humaníssima, exerce fascínio sobre os que o rodeiam. Alunos, colegas e amigos reconhecem-lhe as qualidades e o carisma do professor. Todas as salas de aula são pequenas para a quantidade numerosa de alunos que voluntariamente querem assistir às suas aulas e que muitas vezes vêm de outras faculdades e escolas. Com apenas 28 anos ascende ao mais alto grau académico. Em concurso público ganha, com alto louvor, a cátedra de Matemáticas Superiores. 

 

«A TRINCHEIRA DA LUTA PELA HUMANIDADE...»

Página de rosto da 1.ª edição da Cultura Integral do Indivíduo.

 

 

A Europa tenta emergir, após doze anos da grande carnificina que foi a Guerra de 14/18, mas «o mundo continua governado por homens inferiores, caricaturas de homens, e o que eles governam não é uma sociedade humana – é uma caricatura de sociedade humana» escreve Bento de Jesus no semanário Liberdade.

Na Alemanha, Hitler a demência do medíocre, exercita. Na Itália, Mussolini a histeria  do nefelibata, excita. Em Portugal, Salazar a estratégia do aracnídeo, tece. Em Espanha, Rivera o abdómen do empáfio, arqueja.

Ortega Y Gasset cria um grupo de combate político e cultural “Al servício de la República” e escreve: «O homem não pode viver sem reagir perante o aspecto imediato do mundo que o rodeia e sem forjar uma interpretação intelectual desse mundo e da sua possível conduta dentro dele.»  Em 1931 os republicanos espanhóis ganham as eleições. Viva a II República! – clamam poetas, pintores, músicos, operários, estudantes, camponeses. Ao mesmo tempo que na Madeira é desencadeada uma revolta pelos deportados republicanos contra a ditadura militar. Em Lisboa pequenos impressos contra a ditadura passam de mão em mão, nos cafés e livrarias. No Porto alguns motins, logo calados à bastonada pela polícia. O histologista Abel Salazar escreve:«só uma classe tem, entre nós, campo para fáceis investigações, e campo vasto como o Oceano: é a Polícia». Entretanto, o jovem Lopes-Graça com outros seus conterrâneos picham as paredes de Tomar: Abaixo a Ditadura!. São todos presos e encaminhados para o Aljube, em Lisboa.

Em 1932 a barbárie começa a dar urros lá para os lados da Europa Central. Bento de Jesus tem a intuição do perigo iminente de uma guerra.  Com a vontade firme de um homem forte e consciente escreve no semanário Liberdade:  «Que todos se apercebam bem disto – no momento que passa, a trincheira da luta pela Humanidade é a trincheira da luta contra a guerra.(…)».

Lopes-Graça, aprovado no concurso para professor no Conservatório Nacional com a classificação máxima, é desterrado para Alpiarça. Não pode assistir à primeira audição de Pierrot Lunaire de Schoenberg levada a cabo por Emma Romero Santos, incansável defensora da arte e da cultura musical, convidando músicos, escritores e cientistas para as várias palestras que antecedem os concertos de “Divulgação Musical”. Edgar Varése utiliza fórmulas matemáticas e as possibilidades sonoras que a electrónica oferece  numa obra musical intitulada Ionisation. A ciência fornece a matriz de novas ideias conceptuais do universo. A ciência constitui o solo em que se apoia o novo sistema de ideias. Bento de Jesus Caraça, Aniceto Monteiro, Ruy Luís Gomes, Abel Salazar e Azevedo Gomes clamam:

- É urgente converter a educação científica numa praxis colectiva! É urgente promover melhor apetrechamento técnico e científico das Universidades! É urgente introduzir metodologias de ensino interdisciplinares!

Em 1933 Bento de Jesus dá início à sua luta por uma visão moderna da matemática, publica as suas lições em livro: “Interpolação e Integração Numérica”. Vivem-se horas de grande agitação e instabilidade. Hitler toma o poder na Alemanha. Salazar faz a revisão da Constituição. A juventude inquieta-se. A União Cultural «Mocidade Livre» convida Bento de Jesus para falar sobre a época que se vive, o que dá origem à célebre conferência A cultura integral do indivíduo – problema central no nosso tempo, em que enuncia o que é o homem culto: «É aquele que: 1.º - Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular na sociedade a que pertence. 2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano. 3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida». Ao mesmo tempo alerta para que não se confunda cultura com civilização. Porque civilização é a capacidade que uma sociedade tem em pôr à disposição do indivíduo todos os meios para tornar a existência fácil, enquanto cultura é o conceito do que seja a vida e a organização das relações sociais que permitam ao indivíduo viver a sua condição humana. Por fim chama a atenção: o desenvolvimento da civilização, só por si, «pode conduzir ao automatismo e à consequente escravização do homem, o que nos é mostrado pela civilização capitalista actual; é isso devido, não a um alto mas a um baixo grau de cultura que permite que os meios de progresso sejam utilizados num ambiente de completo abandono dos objectivos superiores da vida.» Por isso só um reforço intenso da cultura pode abalizar o desenvolvimento da civilização, porque, escreve ele no Liberdade: «o drama presente da civilização ocidental reside precisamente nisto: a uma evolução rápida, de ritmo catastrófico, no plano material, não correspondeu uma evolução convenientemente ajustada no plano espiritual».

 

«PORQUE NÓS SOMOS AS NOSSAS IDEIAS»

Conceitos Fundamentais da Matemática, edição da Biblioteca Cosmos.  

 

 

1939. Os ardinas apregoam: «Rebentou a guerra! Rebentou a Guerra!» O professor Rodrigues Lapa é expulso da Universidade de Lisboa. Estudantes manifestam-se.

Bento de Jesus continua viúvo. Cândida Gaspar é sua aluna no I.S.C.E.F., sigla que os alunos, com humor, traduzem por «Isto Sem o Caraça Era Fácil». O amor entranha-se e enleva o ser. Com os amigos, a luta pela liberdade, o riso, o repasto e uns jogos de futebol nas praias magnificas da Costa da Caparica.

A militância política não pára de crescer. Reuniões muitas. Os amigos questionam-se. São antifascistas. O espírito do livre pensador contra a obediência, seja ela qual for. Cochofel, Carlos de Oliveira, Lopes-Graça, Mário Dionísio, Francine Benoit, Bento de Jesus Caraça e Manuel Mendes pensam que a militância do artista e do intelectual deve ser no campo cultural. Nada deve impedir a sua dedicação ao conhecimento profundo da arte e da ciência porque «a cultura é um sistema de ideias vivas que cada tempo possui» (Ortega Y Gasset)

Em 1941 Bento expõe a sua filosofia de que todas as coisas emanam da Vida, têm a mesma matriz. Publica na Biblioteca Cosmos o 1.º volume dos Conceitos Fundamentais da Matemática. No prefácio escreve: «Sem dúvida que a matemática possui problemas próprios que não têm ligação imediata com os outros problemas da vida social. Mas não há dúvida também de que os fundamentos mergulham, tanto como os de outro qualquer ramo da ciência, na vida real; uns e outros entroncam na mesma madre». Caraça e muitos outros querem viver à altura do seu tempo e especialmente à altura das ideias do seu tempo, «porque nós somos as nossas ideias».

Em 1942 Bento de Jesus Caraça convida Mário Dionísio para fazer uma conferência na Universidade Popular Portuguesa sobre o «Significado e destino da pintura moderna», que dará início à Paleta do Mundo. Manuel Mendes, grande amigo de Bento de Jesus, edita na Biblioteca Cosmos Antero de Quental, o 17.º volume da editora que tem um ano de existência. 

Em 1943 grande efervescência política e social. Em Lisboa, a casa de Mário Dionísio enche-se de amigos. Juntamente com Francine Benoit, Sidónio Muralha, Alexandre Cabral, entre outros, projectam «muita coisa que esforçadamente ergueu o punho contra a barbárie fascista». Destinadas a um vasto público, organizam as conferências no Grémio Alentejano (actual Casa do Alentejo)  ilustradas com recitais de poesia e música. A primeira conferência é de Bento de Jesus Caraça, alguma reflexões sobre a Arte, e decorre sem problemas de maior. Mas na segunda (e última) tudo muda de figura. O Grémio está a abarrotar. Lopes-Graça  fala sobre a música medieval. Põe um novo disco para documentar o que acaba de dizer. No silêncio momentâneo uma voz avinhada grita: «Vira o disco e toca o mesmo!». Era o sinal. Os mastins atiraram-se ao público como feras esfaimadas. Mas à volta da sala, um cordão de operários da Carris estava ali para o que desse e viesse. «E o que veio foi uma sessão de brutal pancadaria. Os corpos engalfinhavam-se nas salas, rebolavam pelas escadas do Grémio Alentejano abaixo até à rua e, na rua até à esquadra do Rossio. Apesar da indignação que tudo isto provocava, ainda nos mais calmos, Caraça maravilha-se: como era possível haver ainda gente pronta a bater-se, e de tal modo, em defesa da cultura!» escreverá Mário Dionísio na sua pequena autobiografia.

Em Setembro deste ano Bento de Jesus casa com a sua  bela e inteligente aluna Cândida Gaspar que terminara o curso no I.S.C.E.F. Têm um filho, João Manuel, cujos padrinhos são Manuel Mendes e sua mulher.

 

«EXTRAIR O MEDO DO CORAÇÃO DOS PORTUGUESES»

Bento de Jesus Caraça é demitido e proibido de leccionar. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bento de Jesus Caraça.

 

O clima é salazarento em 1944. O jovem musicólogo e matemático João de Freitas Branco pertence ao grupo de investigação matemática do seu mestre Ruy Luís Gomes, grande amigo de seu pai o compositor Luís de Freitas Branco que, com Bento de Jesus Caraça, Lopes-Graça, Aniceto Monteiro, entre muitos outros, participam no movimento contra o regime salazarista. É constituído o Conselho Nacional de Unidade Antifascista, que mais tarde se chamará Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (MUNAF). Nele estão representados vários partidos e personalidades como António Sérgio, Mário de Azevedo Gomes e Bento de Jesus Caraça que fará parte da comissão política. Cada vez há mais gente que procura entender o mundo que é atravessado pelos arautos da ignorância e da bestialidade. A tentativa de Bento de Jesus de introduzir em Portugal a lógica dialéctica do pensamento matemático começa a ter os seus cultores e dar os seus frutos. Os dois volumes dos Conceitos Fundamentais da Matemática têm novas edições: o 1.º volume alcança a quarta edição e o 2.º a segunda. Este título marcará gerações de cientistas e homens e mulheres de cultura ao mesmo tempo que provocará clivagens no pensamento português, como se verá mais tarde, em 1946, na polémica com António Sérgio.

No início de 1945 Ortega Y Gasset inaugura em Lisboa um curso livre de especulação e problematização histórica. Numerosa afluência! O pensador espanhol desperta grande simpatia intelectual, segundo Santana Dionísio, «pelo seu espirito, especificamente paradoxal e audaz, inquietante e dramático – para dizer em duas palavras: genuinamente ibérico.». Em Maio manifestações populares pela vitória dos aliados. A 7 de Outubro Salazar vê-se obrigado a convocar eleições. A oposição aproveita a oportunidade. Logo no dia seguinte Bento de Jesus, Manuel Mendes, Câmara Reis, Afonso Costa (filho) e Nuno Rodrigues dos Santos, convocam uma reunião para o Centro Republicano Almirante Reis. Exigem condições de liberdade e reunião, de associação e de imprensa e garantias de lisura no acto eleitoral. Em Novembro os promotores da reunião constituem a primeira comissão central do Movimento de Unidade Democrática (MUD). O movimento explode em poucos dias. Organizam-se de norte a sul comícios entusiásticos. Personalidades dos vários sectores da oposição, monárquicos e católicos dissidentes do regime tomam posição crítica em relação ao Estado Novo. Circulam listas de apoio ao MUD e às suas reivindicações, abertas à subscrição pública em várias casas comerciais. Só em Lisboa são mais de 50 000 subscritores! Saltam para as ruas de Lisboa as “Heróicas” do Graça cantadas pelos jovens do MUD Juvenil. Sintomaticamente o Governo de Salazar abstêm-se em reprimir. Como não há condições democráticas, a oposição recusa a farsa eleitoral.

A 7 de Outubro de 1946 Bento de Jesus é alvo de um processo disciplinar por ter assinado um documento em que o Movimento de Unidade Democrática se insurge contra o pedido do Governo de Salazar para que Portugal fosse membro da ONU na medida «de que só um Governo democraticamente representativo pode ser intérprete da vontade de colaboração de um Povo livre numa Assembleia de Povos livres». Em Novembro lá está ele na Voz do Operário noutra acção do MUD. A sala está repleta como um ovo. Emoção no ar, aplausos bem timbrados. Azevedo Gomes, em nome da Comissão Central do MUD, acabara de ler um documento sobre a situação deplorável da Educação em Portugal. Bento de Jesus é o segundo orador. A sala está ao rubro! Todos sabem que estes dois grandes homens e professores são objecto de expulsão das suas cátedras. Mas ambos não desistem no seu combate pela defesa da dignidade humana e o direito ao conhecimento. Bento de Jesus nesta conferência “Aspectos do problema cultural português” interpela o Governo sobre a reforma de Instrução Pública prometida há mais de 20 anos. Acusa de nefasta a política levada metodicamente a cabo para desmantelar e extinguir a rede das escola oficiais infantis (criadas durante a 1.ª República), assim como o encerramento das Escolas Normais que preparavam os professores primários. Na redução para três anos do ensino primário, leccionado pelos célebres regentes, por vezes semianalfabetos, mal pagos e que se limitam a ensinar a ler, escrever e contar…mal. Bento de Jesus apresenta números bem elucidativos desta política ruinosa. No ano lectivo de 1943/44 havia 10 339 professores primários, dos quais um terço de regentes, e a taxa de iletrados a atingir a casa dos 86%!  «Somos hoje o país da Europa com o mais baixo esquema de instrução pública. Com a P.S.P.(1) gasta-se, aproximadamente, o mesmo do que com todo o ensino universitário e de Belas-Artes. Só a verba ordinária atribuída à G.N.R.(2) é superior em mais de 10 000 contos às verbas somadas do ensino liceal, técnico elementar e médio. (…) O professor, em Portugal, vive com dificuldades de vida e com medo, esse terrível medo que se apoderou da quase totalidade da população portuguesa. (…) O próprio Estado foi vítima do seu jogo e acabou por ser tomado pelo medo dos cidadãos. Pois não é verdade que é a Polícia política hoje quem supervisa o recrutamento dos funcionários e até dos investigadores científicos? Porque é, senão por medo, que se gasta mais com a segurança do que com a instrução primária? E porque é ainda, senão por medo, que se não fazem eleições livres? ».

Em Setembro de 1946, a quinta Edição do 1.º volume dos Conceitos Fundamentais da Matemática! O director da revista “Vértice”, António Sérgio faz uma crítica virulenta ao livro. É o confronto entre o criacionismo de Sérgio e o conhecimento científico de Caraça. Sérgio defende a separação entre o mundo sensível e o racional. Entende que a ciência deve aparecer completamente desvinculada da esfera do sensível. Bento Caraça combate esta concepção de ciência porque a intuição do sensível é o húmus do entendimento do mundo, afinal o objectivo da própria ciência. Confronto que ainda hoje atravessa o pensamento português, traduzindo-se pela tentativa hegemónica de uma cultura espiritualista, messiânica, dogmática, de origem judaico-cristã, contra o pensamento e a cultura científica que assentam no gosto do problemático.

 

OS ÚLTIMOS DIAS DE UMA VIDA EXTRAORDINÁRIA

Funeral de Bento de Jesus Caraça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A polícia tenta impedir a homenagem a Bento de Jesus Caraça no seu funeral.


Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do
tamanho da minha altura…

(Alberto Caeiro)

Salazar aperta o cerco. O Ministro do Interior, Cancela de Abreu, em pessoa, acompanhado por uma brigada da PIDE, apreende um quadro de Mário Dionísio na II Exposição Geral de Artes Plásticas. Bento de Jesus passa momentos difíceis. Problemas financeiros provocados pelo seu afastamento da docência. Cândida também é perseguida, corre entre as aulas e a casa de Campo d’Ourique, onde vivem, na Rua Almeida e Sousa n.º 63 - 1º. A espantosa avidez de conhecer e dar a conhecer permite que Bento de Jesus, apesar de doente, continue a escrever incessantemente e a participar na vida política e científica portuguesa. Vai ao estrangeiro como delegado da Sociedade Portuguesa de Matemática que fundara com outros companheiros matemáticos.

Primavera de 48. Bento de Jesus procura reagir à doença que se agrava. Mesmo quando as forças se desvanecem continua a trabalhar. Tem entre mãos duas obras: um estudo sobre Leonardo da Vinci e uma História da Ciência. Não pode continuar. Cai à cama. O seu médico e grande amigo, professor Dr. Pulido Valente, está à sua cabeceira. Cândida está angustiada. Cuida do filho que já diz as primeiras palavras e, ao mesmo tempo, assiste à morte anunciada do seu querido amor. 

Emídio Guerreiro, matemático e militante antifascista, encontra-se exilado em Paris. Através de um amigo comum, envia uma carta a Bento de Jesus Caraça fazendo-lhe uma observação crítica ao modo como Caraça aplica os princípios da dialéctica para explicar a passagem do número racional para o irracional. Mas infelizmente não chega a tempo. No dia 25 de Junho à tarde morre Bento de Jesus Caraça.

Logo que a notícia se espalha, centenas de pessoas acorrem a apresentar condolências e a velar o corpo que se encontra na sua residência. É como se o desaparecimento deste homem extraordinário fosse a morte da grande ilusão de Liberdade que varreu o país nos últimos tempos com a campanha de Norton de Matos.

Noite e dia passam por ali pessoas de todas as classes sociais e faixas etárias. Figuras públicas da oposição, professores, estudantes, cientistas, escritores, músicos,  gente anónima. Na madrugada, Abel Manta, Castro Rodrigues e Joaquim Correia fixam em barro a máscara fúnebre. De Lisboa, do Porto e doutros pontos do país chegam telegramas de condolências. O funeral está marcado para as 10 horas. Campo de Ourique está de luto. Coberto de flores o corpo é seguido pela multidão que cobre as ruas em direcção ao cemitério dos Prazeres. Silêncio profundo, só os passos de milhares de pessoas soam nas calçadas.

O aracnídeo recupera o seu território. Lança a baba pegajenta que afronta a inteligência e a dignidade humana. O manto seboso e tacanho do fascismo escorrega sibilino por entre as vidas portuguesas.

Muitos intelectuais, artistas e cientistas são marginalizados e impedidos de ocupar lugares para que estavam inequivocamente vocacionados. João de Freitas Branco, musicólogo e matemático, ocupará durante anos o modesto lugar de secretário-geral adjunto do Automóvel Clube de Portugal.

Mas o dia da Liberdade chega em Abril de 1974. Agora o I.S.C.E.F. pode homenagear o seu mestre e o país também, para que as futuras gerações não percam o sentido histórico da conquista pela liberdade e investigação científica que hoje começa a ser uma realidade em Portugal.

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(1)           P.S.P. - Polícia de Segurança Pública
(2)           G.N.R.
- Guarda Nacional Republicana

 

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