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Sapateiro de Trancoso, trovador, profeta: 1500? - 1556
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QUANDO TUDO ACONTECEU... Em torno de 1500 nasce em Trancoso. - 1530 a 1540: Compõe suas trovas. - 1541: Julgado pelo Tribunal do Santo Ofício, condenado com uma pena leve. Retorna a Trancoso onde vem a falecer em 1556. - 1603: As trovas do Bandarra são impressas pela primeira vez, em Paris, por obra de D. João de Castro (Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra, Sapateiro de Trancoso). - 1644: As trovas são publicadas por segunda vez, em Nantes. - 1809: As trovas são reeditadas em Barcelona, por ocasião das Invasões Francesas.Sonhava, anónimo e disperso, Fernando Pessoa, sobre o Bandarra Muitos dos judeus trazem mui empapeladas muitas profecias nossas por amor das grandes venturas
que prometem parecendo-lhes que são as que eles esperam. No número das quais saem as do Bandarra.
D. João de Castro |
UMA CONVERSA ENTRE O CÉPTICO E O CRÉDULO |
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| Lisboa, 1539 |
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- Estás a troçar de mim! - Não, não estou. Trouxe-o aqui para isso mesmo. - O que estás a me dizer? Um sapateiro analfabeto, lá daqueles teus lados, cristão-velho,
profetizando? Como isto é possível? Tu que ainda crês nos antigos ensinamentos, em especial de teu avô que foi rabino antes do ato de D. Manuel, de que não há profecia entre eles,
que não se devem misturar as coisas. Já não basta meu primo ter casado com uma cristã-velha e colocado o filho para se tornar um padre, e agora escuto esta de ti? Se nos pegam,
estamos perdidos. - Vejo como falas. Tu não andas a por em dúvida não só a religião dos cristãos mas também a
nossa? Se te pegam será por conta do que? Além disto, não te aflijas. O homem é de confiança. Freqüenta minha casa lá em Trancoso há um par de meses. Precisas ver como é. Ele não
sabe ler mesmo. Nós lemos para ele alguns trechos da Bíblia, um pouco daquelas traduções que circulam escondidas, lembras-te? Pois bem, lemos para ele e o homem começa a falar
coisas fantásticas, prevê o advento daqueles novos tempos que tanto esperamos. Escuta só o que ele diz da situação geral na qual vivemos: Como nas Alcaçarias - Espera aí, tu lês isto? - Pois claro. Ele fala e eu escrevo. Tomo notas. Depois outros copiam. - Estais mesmo loucos. Tu e este teu grupo. Não sabes que já foi instituído o Tribunal da
Inquisição? Que isto andará a rodar por aí até cair nas mãos de quem não deve. - Escuta, ele já andou aqui por Lisboa há alguns anos. Conheceste o João Bilbiz? - Claro que conheci. - Então, foi na casa dele que ele juntou uma porção de pessoas como nós para ouvi-lo. O João
Lopes é que começou com esta coisa de anotar as trovas. Naquela altura ele declamou para ele o seguinte: Um grande leão se erguerá - Vês a referência? Um grande leão. Sabes bem que temos o Leão de Judá como nosso símbolo. - E o “rei dos arianos”, quem é? - Isto não sei. Há muitas coisas estranhas nas trovas dele. Nem tudo pode estar claro. Ele fala
inspirado. Há muitas coisas que nossa razão não alcança. - Vens dizer a mim isto? A nossa razão não alcança.
E a fé o que nos dá? Estes loucos a profetizar.
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| UM SAPATEIRO FAZ SUA OBRA | |
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Bandarra, sapateiro de Trancoso, poeta e profeta. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua
Cronológica.
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O homem sentado em meio ao burburinho dos donos da casa e dos visitantes não provoca nenhuma
impressão especial. Um artesão típico de uma pequena vila do interior do país. - Bem vindo a esta casa, nobre e bom sapateiro. Meus amigos dizem que tem muito a contar. Também sou oficial Sei um pouco de cortiça (O sujeito parece um demente. Fala por versos insanos. E esta risada… Deve ser por isso que o
alcunham de Bandarra! Mas já sabe que sou notário. Andam sempre a falar dos notários! Que nossa prosa nada tem a ver com o rigor dos relatos, ou algo assim. Ele também sabe que ando
a duvidar dele e de outras coisas de religião. É preciso ter cuidado). - Bem, meu tio notário e alguns amigos estão aqui para ouvir-te, bom amigo. Lá em Trancoso nos
contas sobre a vinda de um grande rei que nos trará grandes vitórias e grande fartura. -
Sim, foi quando me leste a passagem de Daniel sobre os quatro reis que me fincou a idéia de um quinto rei que está por vir em breve. (Ele consegue falar em prosa. Ainda bem. Pelo visto esta conversa maluca vai tomar um outro rumo). - Mas não temos trovas sobre isto, bom amigo. (Ai não, de novo não). Este Rey será tão excelente, - Deve ser o filho de David, diz um dos convivas. Todos empalidecem. O sapateiro- poeta sabe exatamente qual a origem de seus ouvintes. Que talvez
estejam escutando e entendendo suas trovas de maneira que ele nem suspeita. Mas decide fazer-se de desentendido. - Ah sim, arremata o notário. Cristo Nosso Senhor é o filho de David, não é? (Isto não pode acontecer. Acho que estes convivas estão perdendo o juízo. Falar assim
abertamente no Messias que esperamos… Eu cá comigo já não sei bem se o espero. Acho que meu arremate despistou o sapateiro trovador). - Sim, meu senhor. Eu mesmo deixo isto claro numa outra trova que seu sobrinho já anotou. Todos terão um amor Gentios como pagãos, - Claro, claro. Só mesmo os judeus e os gentios negam-se a acreditar nesta realidade. Veja, bom
sapateiro, eu mesmo sou devoto de S. Antônio, de quem carrego o nome. (Que triste é viver esta vida de mentira). - Mas eu sei que vocês são boa gente, bons cristãos. Mas não tenho nada contra os judeus. Eles
vão acabar aceitando Cristo, vocês verão. Sabe, vejo-os vindo ao encontro do Rei Encoberto, este que haverá de vir Judeos que lhe haveis de dar? (Estamos brincando com fogo. Há coisa de um ano foi queimado David Reuveni, aquele que surge por
aqui em 1525 dizendo-se emissário de um reino judeu, de parte das Tribos Perdidas, com uma carta de recomendação do Papa, interessado em promover uma ação militar conjunta de cristãos
e judeus para libertarmos a Terra Santa do jugo dos turcos. Encontra-se com D. João III, causa a maior efervescência aqui no nosso meio, eu mesmo no ardor de minha juventude fiquei
entusiasmado com sua pregação. Depois foi desmascarado, preso e queimado. Agora aparecem estas trovas que claro fazem referência a ele. Isto não pode continuar. Meu sobrinho deve
estar mais louco que este sapateiro). - Mas de onde virão estes judeus, trovador? - Ah virão das terras longínquas. Vi a Tribu de Dão Com os dentes arreganhados, (Estamos mesmo perdidos. Perdidos, perdidos. Mais explícito que isto impossível). - Bem, estamos um pouco confusos. Serpente e Dragão deve ser referência ao profeta Isaías, não? - Ah, claro que sim Em Esdras o vi pintado, - Mas e o tal povo cerrado? - Ah, estes são aqueles que aguardam para lá de um rio, aguardando a hora de voltar. E que via aos que estão (Sim, pode ser mais explícito ainda… São as Dez Tribos Perdidas! Sei disto por uma história
contada por meu pai e também pelas celeumas quando aparece aqui o Reuveni.) O sapateiro está agora mais empolgado do que nunca com a atenção que os convivas prestam às
suas trovas. - Os senhores são tão letrados que Muitos podem responder,
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UM NOVO VISITANTE |
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Os cristãos-novos, amigos do Bandarra, temem o Santo Ofício da Inquisição. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua
Cronológica.
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A escrava bate à porta. Há uma visita. O homem que adentra o recinto é conhecido de alguns. João
Lopes é seu nome. Foi na casa de seu falecido amigo, João Bilbiz, e depois na sua, há oito anos, que o sapateiro começa seu trovar. Seu retorno a Lisboa corre de boca em boca entre
alguns cristãos- novos. - Ora viva! Há quanto tempo não vejo meu amigo sapateiro? Continuas a trovar? - Sim, ilustre amigo. Lembro-me bem de ti. Trouxeste hoje tua glosa do (Glosa do Talmud? Perderam mesmo o juízo…). O desconforto e perplexidade na sala são palpáveis. - Ah, meu amigo continua bem humorado e com boa memória. Mostrei a ele, quando ficou lá em casa,
umas anotações das Sagradas Escrituras e ele achou que era esta tal glosa de Talmud. - Por falar na estada que teve em sua casa, meu tio notário quis saber quem eram os tais reis
arianos? O sapateiro vê todos pousarem os olhos nele a espera de uma explicação. - O Sr. João Lopes pode explicar melhor. Foi ele que me contou daqueles reis antigos chamados de
arianos. - Sim eram os reis que governavam as Espanhas e seguiam a doutrina herética dos arianos, sabem,
aqueles que negavam a natureza divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, vocês sabem ao que eu me refiro. (Sim, claro. Arianos não crêem na divindade de Jesus, nós tampouco, mas já que não podemos ser
citados, que fiquem os reis arianos. Muito inteligente e muito culto este João Lopes. É bom que tenha cuidado pois nem sempre a vida beneficia os que tem mais sabedoria…). - Mas o nosso amigo sapateiro fala de coisas do futuro. E o agora? -Ah, sem dúvida há muita coisa ruim acontecendo. Como nas Alcaçarias Andam os couros às voltas Faz os couros ser mociços Ah! Quantos ha mãos noviços (Está a falar mal da Igreja. Com isto eu até que concordo). - Vejam, meus senhores, como o dinheiro em tudo anda a mandar. Como não se faz mais a justiça. E quando lhe vão pedir - Estamos já aqui e o que acha
meu tio notário oferecer vinho para nosso convidado e para nós. (Este meu sobrinho… Foi acertado que não haveria nem comida nem vinho. Comida pois há aqui
muitos que não comem carne de porco e a ausência da mesma poderia gerar suspeitas. Vinho?! O vinho solta a língua e se isto acontecer pode ser uma desgraça). - Traga vinho e traga pão, senhor notário. Nosso trovador e nós bem que comemos e bebemos.
Podemos até comungar. (Idiota! Fazer uma troça destas com a religião dos cristãos. De onde saíram estas pessoas tão
descuidadas? Passei tantos anos em Coimbra que de volta a Lisboa já conheço muito pouca gente). O dono da casa levanta-se e vai providenciar o vinho e o pão. Arrasta uma perna ao caminhar, como
sempre ocorre após sentar-se por algum tempo. Os médicos também não resolvem este seu problema.
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PÃO E VINHO SOBRE A MESA |
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Profecias do Bandarra... Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Os convivas se comprazem com a frugal refeição. Um deles murmura algo antes de beber e de comer.
Os olhos dos presentes se cruzam, um pouco apreensivos. (Quem é este sujeito? Ah, ouço falar dele. É um que preserva com afinco os costumes da nossa
religião. Acabou por benzer o vinho e o pão, como manda a Lei de Moisés. Como é mesmo a benção? “Bendito sejas tu Adonai, nosso Deus e senhor do universo, que criaste o fruto da
videira”. “Bendito sejas tu Adonai, que fazes sair o pão da terra”). - Diz, oh trovador, e como entra Portugal nesta história? Forte nome he Portugal - Mas para quando prevê que tudo isso irá acontecer? Ja o tempo desejado He chegado - Desculpe senhor sapateiro, mas nada disso vejo. Não temos nenhum novo rei. O que significa “já
cerram os quarenta”? Ainda nem lá chegamos. - Senhor notário, o senhor desculpe, mas nosso convidado fala por enigmas, por símbolos. Não se
deve tomar ao pé da letra tudo que ele diz, mas o espírito que alimenta suas trovas. Os tempos ja se vem Porque, senhor, perguntais (Que sujeito confuso! Estas trovas misturam tudo. Agora fala em Roma, na Igreja. Fico cada vez
entendendo menos). - Meus caros senhores, todos letrados. Eu falo minhas trovas pois vejo estas grandes coisas
acontecendo. Convosco falo estas couzas Como com um grande letrado (Há pouco disse que o tal rei já está alevantado. Agora diz que nada ainda começou. Será que
alguém consegue pôr ordem nesta confusão?). - Antes de tudo acontecer, muitas coisas ruins acontecerão Vejo o mundo em perigo, - Mas depois disso, meus
letrados amigos Vejo erguer um grande Rey Todo bem aventurado, Faz-se tarde naquela casa em Lisboa. O vinho ajudou a todos terem sono. Quiçá possam sonhar
naquela noite com as profecias e vaticínios que ouviram aqui. Todos se despedem. Um notário continua a não acreditar nos dons proféticos daquele homem estranho. Parece-lhe que fala
aquilo que os outros querem ouvir, que de alguma forma suas profecias são produzidas, direccionadas, pelo seu público. E pensar que seu sobrinho é um dos grandes entusiastas deste
sujeito? Bem, o tempo engolirá a tudo isso.
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LISBOA, OUTUBRO DE 1541 |
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Na
procissão dos condenados, Gonçalo Anes, o Bandarra, sapateiro de Trancoso, carrega sua vela de penitente. Não recebe maiores penas após ser julgado pela Inquisição sobre as origens
e a natureza de suas profecias. Declara ser analfabeto, ouvir muitas passagens da Bíblia e compor trovas baseadas nelas. Recebe a advertência de deixar de ser amigo das novidades e de
não interpretar a Escritura segundo sua imaginação ou idéia. Segue para Trancoso e nunca mais se ouve falar dele.
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| LISBOA, EM ALGUM MOMENTO DO TEMPO | |
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Um notário cristão-novo é condenado à fogueira. Não por professar a Lei de Moisés mas por
blasfemar e atacar toda e qualquer crença religiosa. - Morra judeu, assassino de Nosso Senhor. Ele chega quase a rir. Se ao menos tivesse sido condenado por manter a crença de seus
ancestrais… Poderia assim ter algum conforto na recompensa que receberia em outra vida. Não, vivemos e morremos como as bestas. É nisso que acredita e é por isso que o condenam. A
chamas começam a se alastrar e a malta grita de alegria. Séculos se passarão até que a alegria do livre-pensar vigore em terra lusitana. Mas os sonhos do Bandarra pairam sobre ela
desde muito tempo. POST
SCRIPTUM Um dito talmúdico afirma
que aquele que cita suas fontes traz redenção ao mundo. As Trovas do Bandarra circularam por séculos de forma manuscrita, em diferentes versões. Mesmo as edições impressas diferem
entre si e até hoje não se publicou a imensa variedade de sua expressão. Os trechos aqui publicados, não colocados em ordem segundo as edições conhecidas e misturando de propósito
estilos diferentes de grafia, foram extraídos dos seguintes trabalhos: Adriano Vasco
Rodrigues e Maria da Assunção Carqueja Rodrigues “As Trovas do Bandarra: suas influências judaico-cabalísticas na mística da Paz
Universal” in Revista de Ciências Históricas, Universidade Portugalense - Porto, 1987 pp. 185 - 221. João Lúcio de
Azevedo, A Evolução do Sebastianismo. Lisboa, 1984, pp. 105- 111. Antônio Pires
Machado, D. Sebastião e o Encoberto. Lisboa, 1969, pp. 65- 78. Os nomes de João Bilbiz e João Lopes estão nominalmente citados no processo inquisitorial
contra o Bandarra, assim com reuniões que manteve com grupos de cristãos-novos em Lisboa e em Trancoso. Não se pense, com isso, que só estes dados do relato sejam verídicos. Verídicos
são os vaticínios e as profecias do Bandarra. Irreal e metafórico é o mundo no qual vivemos.
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