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AUGUSTO DOS ANJOS

Poeta: 1884 - 1914

Paulo Vieira

 

Augusto dos Anjos

A MÃO QUE AFAGA É A MESMA QUE APEDREJA...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1884: No Engenho Pau d’Arco, município de Cruz do Espírito Santo, Estado da Paraíba, a 20 de Abril nasce Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1), terceiro filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sinhá Mocinha). Augusto e os irmãos receberão do pai a instrução primária e secundária. -  1900: Augusto ingressa no Liceu Paraibano; compõe o seu primeiro soneto, “Saudade”. -  1901: Publica um soneto no jornal O Comércio, no qual passará a colaborar. - 1903: Inscreve-se na Faculdade de Direito da cidade de Recife. - 1905: Morte do Dr. Alexandre, pai do poeta. A propósito, Augusto escreve e publica em O Comércio três sonetos que farão parte do EU, livro futuro. Inicia a “Crônica paudarquense” e participa em duas polêmicas. - 1907: Conclui o curso de Direito. - 1908: Transfere-se para a capital da Paraíba, onde dá aulas particulares. Colabora no jornal Nonevar e na revista Terra Natal. Morre Aprígio Pessoa de Melo, padrasto de sua mãe e patriarca da família, deixando o Engenho em grave situação financeira. Augusto leciona no Instituto Maciel Pinheiro. É nomeado professor do Liceu Paraibano. - 1909: Em A União publica “Budismo moderno” e numerosos poemas. Profere, no Teatro Santa Rosa, um discurso nas comemorações do 13 de maio, chocando a platéia por seu léxico incompreensível e bizarro. Abandona o Instituto Maciel Pinheiro. - 1910: Publica em A União “Mistério de um fósforo” e “Noite de um visionário”. Casa-se com Ester Fialho. Continua a colaborar no Nonevar. Sua família vende o Engenho Pau d’Arco. Sem conseguir licenciar-se, demite-se do Liceu Paraibano e embarca com a mulher para o Rio de Janeiro. Hospeda-se em uma pensão no Largo do Machado, mudando-se em seguida para a Avenida Central. Termina o ano sem conseguir um emprego. - 1911: Ester, grávida de seis meses, perde a criança. Augusto é nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II). Nasce sua filha Glória. Muda constantemente de residência. - 1912: Colabora no jornal O Estado, dá aulas na Escola Normal. Augusto e o seu irmão Odilon custeiam a impressão de 1.000 exemplares do EU, livro recebido com estranheza por parte da crítica, que oscila entre o entusiasmo e a repulsa. - 1913: Nascimento do filho Guilherme Augusto. Continua lecionando em estabelecimentos diversos. - 1914: Publica “O lamento das coisas” na Gazeta de Leopoldina, dirigida pelo seu concunhado Rômulo Pacheco. É nomeado diretor do Grupo Escolar de Leopoldina, para onde se transfere. Doente desde 30 de outubro, falece às 4 horas da madrugada de 12 de novembro, de pneumonia. - 1920: Com organização e prefácio de Orris Soares, é publicada pela Imprensa Oficial da Paraíba a 2ª edição do EU.  - 1928: Lançamento da 3ª edição de suas poesias, pela Livraria Castilho, do Rio de Janeiro, com extraordinário sucesso de público e de crítica.

 

VELHAS LEMBRANÇAS

Capela do Engenho de Pau d'Arco

 

A carta veio de Leopoldina. Sinhá Mocinha examina a letra. É de Ester, sua nora, esposa de Augusto. Olha o envelope de um lado e outro, demorando-se para o abrir. Um ritual. Talvez herança do tempo em que morava no Engenho, quando as correspondências eram raras, as notícias mal chegavam ao Pau d’Arco. Cartas faziam juntar toda a família em torno do envelope. Dentro, novidades do mundo de fora. Em geral, os primos da capital estreitando laços de boa consideração. Sinhá Mocinha lia em silêncio, enquanto a filharada esperava ansiosa. Depois, em voz alta, se o que estivesse ali escrito pudesse ser ouvido pelas crianças, que não viam a hora de ir visitar os parentes na capital. Os meninos, Alexandre, Aprígio, Augusto, os mais afoitos. Alexandre não esquecia o passeio à Paraíba durante a Festa das Neves. Caminhava pelas ruas segurando a mão de Aprígio, que segurava a mão de Sinhá Mocinha, enquanto o Dr. Alexandre, por sua vez, pegava em uma mão do Alexandre e, do seu outro lado, da filha Iaiá. Augusto, em geral, andava sozinho e na frente do grupo, observando o movimento agitado e alegre das moças, as comidas típicas da festa, o amendoim açucarado, as cocadas, a maçã do amor.  

Lembranças do passado. Faz parte do ritual.

A carta de Ester está ali, pedindo para ser aberta. Mensageira de notícias que - graças a Deus - têm sido boas ultimamente...

O Pau d’Arco é uma sombra do passado, escurecido em impagáveis hipotecas.  Sobra um par de esporas que o Dr. Alexandre usava quando, esporadicamente, por fastio ou por vontade súbita, levantava os olhos dos livros dos seus filósofos prediletos e os estendia para os limites do seu Engenho. Num rompante, calçava as esporas, montava o cavalo que encontrasse selado, ia cuidar do que era seu por herança e de seu domínio se estava perdendo, por hipoteca. Não tinha tino para aquilo. Levava o resto do dia a cavalgar de um lado a outro do seu vasto Engenho, conversava com um ou outro morador, observava de longe o corte da cana, o chiado lamentoso do carro-de-boi levando a cana para a moenda e, finalmente, quando a noite caia, ele voltava para casa ainda mais desconsolado que antes. Por mais que desejasse, em suas mãos não havia a força do mando, não sabia como fazer produzir uma terra que era dócil, doce, oferecida em águas, necessitando de um homem que soubesse domar uma natureza que mesmo gentil carece de mão viril... Lembranças de um passado, véspera feliz de um envelhecer melancólico, quando tudo o que sobrara do Engenho, além das esporas, foram as poucas moedas guardadas na caixa e que, de tão poucas, não deram para socorrer o pobre Augusto, quando ele peregrinava de porta em porta, pedindo aos conterrâneos, homens todos de política e que algum dia foram amigos de sua casa, em sóbria mendicância pela Cidade Maravilhosa, que lhe arranjassem, por favor, um emprego.

Sinhá Mocinha rasga o envelope. Desdobra o papel. Augusto penara quatro anos pelas ruas da capital federal. Não há ainda quatro meses, mudou-se com a família para Leopoldina, de onde manda notícias cada vez mais auspiciosas: está feliz, finalmente, o meu menino, cavando com o suor de sua labuta o seu caminho, agora nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira.

 

CARTA DE ESTER FIALHO DOS ANJOS À MÃE DO POETA

Augusto dos Anjos aos 10 anos

 
Leopoldina, 27 de novembro de 1914

Caríssima D. Mocinha,

Não me é possível descrever-lhe a grande dor que me tem causado a separação eterna do nosso querido e venerando  Augusto!

Sinhá Mocinha lê e relê este primeiro parágrafo. Há nele qualquer coisa de fatalidade. É preciso um esforço para continuar a leitura da carta que já não lhe parece conter bom alvitre.

Nunca imaginei que tão depressa Deus me reservasse um golpe tão terrível!

Quando vivíamos com descanso, gozando da companhia alegre dos nossos estremecidos filhinhos, eis que uma congestão pulmonar, que degenerou em pneumonia rouba-me bruscamente o Augusto, deixando-me na mais desoladora situação.

Todos os recursos da medicina acompanhados dos meus carinhos e cuidados, foram baldados diante da moléstia atroz, que me privou, para sempre, de quem fazia a minha felicidade e a minha alegria.

Hoje sou somente um elemento de amparo e de vigilância para os meus filhinhos, que não têm consciência do precioso tesouro de virtudes que perderam.

O mês de outubro já corria em meados quando Augusto dos Anjos adoeceu. O Dr. Custódio Junqueira lhe fez uso de alguns remédios, que não fizeram ceder o mal estar. No dia 29, Augusto caiu na cama com muita febre, frio e dor de cabeça. O Dr. Custódio foi novamente chamado. A base do pulmão direito está congestionada, disse, depois que o examinou.

Dois dias passados, a congestão não cedia. O médico fez o exame do escarro. Pneumonia, declarou. Augusto quis saber se o exame bacteriológico não demonstrava o bacilo da tuberculose. Não, disse o médico.

Tudo foi empregado: compressas frias; banhos mornos; cataplasmas sinapizadas; injeções intravenosas de electrargol; injeções hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína; lavagens intestinais; laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios internos... Augusto tinha tamanha fraqueza, que tomou injeções de soro fisiológico com rum, e tão enérgico remédio não pôde reanimá-lo.

A doença abateu o seu corpo franzino, não conseguindo, entretanto, abater-lhe o espírito que se conservou lúcido até 20 minutos antes de expirar... Ele me chamou, despediu-se de mim, dizendo-me: Mande as minhas lágrimas para a minha mãe; mande lembranças para os meus amigos do Rio; trate bem as criancinhas Glória e Guilherme; dê lembranças às meninas do grupo... Recomendou-me que guardasse com cuidado todos os seus versos...

Quem recolherá as minhas lágrimas? geme a Sinhá Mocinha, pois elas brotam abundantes dos seus olhos e se derramam pelo fatal papel. Não há grito. Pranto. Lágrima destilada pelo inevitável destino.  Um tudo-nada que tudo define.

Sinhá Mocinha abre a gaveta da cômoda escura, grande e pesada - lembrança tardia do Pau d’Arco. Sobre as cartas de Augusto, caprichosamente guardadas ao longo dos anos, repousa o exemplar do livro derradeiro e agora único, o título grande e vermelho no frontispício, impondo ao mundo a magnanimidade de sua singularíssima pessoa: EU. É, enfim, tudo o que resta de Augusto dos Anjos.

Augusto! chama pelo filho a mãe do poeta, acariciando as páginas do livro como se fossem de Augusto o rosto querido.

Não fosse senhora temente aos desígnios do Altíssimo, teria talvez gritado neste instante contra o Criador, gritado pela vida contra a morte, pelo útero contra a urna, chorando o corpo agora coberto por uma terra que nem de longe lembrava o cheiro do Pau d’Arco, desprotegido da sombra, do manto que, mesmo de longe, lhe estendia o velho tamarindeiro.

Sinhá Mocinha abre o livro e, ao abrir, sente como se Augusto reclamasse, sussurrante na lonjura do nunca mais, o seu lugar no concerto da existência. Estava escrito: EU, Augusto dos Anjos.

Sinhá Mocinha folheia-o devagar, virando as primeiras páginas, demorando-se um tanto no oferecimento, que lhe faz recordar os seus, dispersos pelo mundo, cada um procurando tomar conta de sua vida. Vira mais uma vez a página e encontra o primeiro poema. Um testamento ontológico, desalentador quanto ao fatal destino da natureza humana, porém esperançoso quanto ao alento com que a arte pode proporcionar ao espírito desse animal fatídico, o homem.

 

MONÓLOGO DE UMA SOMBRA

Augusto dos Anjos a passear nas ruas da Paraíba

 

“Sou uma sombra! Venho de outras eras, 
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva do caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo, 
Da substância de todas as substâncias! 

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas, 
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
- O metaficismo de Abidarma – 
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
 

Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro o meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques

É com certeza o meu irmão mais velho!         

(...)

Sinhá Mocinha aperta ao peito o volume com a dedicatória que Augusto lhe escreveu. As lágrimas descem-lhe abundantes pelo rosto. Iaiá não está em casa. Sinhá Mocinha bem que gostaria de que a sua filha estivesse ali, a fim de ajudá-la a chorar a sorte má, que foi o caminho do seu irmão. Na rua, o movimento das gentes atarefadas viceja. Uma fresta de luz entra para a sala através do vidro no alto da janela. Nas paredes da sala, retratos do marido, Dr. Alexandre Rodrigues dos Anjos, com os cabelos partidos ao meio, os olhos firmes e penetrantes, o bigode ornando o rosto anguloso, em tudo harmonioso; ele e Augusto eram semelhantes, pensa a Sinhá Mocinha, comparando com o outro retrato pendurado na parede, o do próprio Augusto, quando se formou Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife.

O olhar de Sinhá Mocinha detêm-se em outro retrato de Augusto. Desta vez, num porta-retrato apoiado sobre uma mesinha de canto, tocado diretamente pela luz que entra através da janela. Aqui, Augusto tinha dez anos, trajava roupa de cavaleiro, com botas, chicote seguro nas duas mãos e o pé direito cruzando sobre o esquerdo...

 

ENGENHO DO PAU D'ARCO

Augusto no Engenho do Pau d'Arco. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em momentos de dor ou desespero, Sinhá Mocinha lembra do velho Engenho de sua família, onde nasceu Augusto dos Anjos. “A vasta casa-grande, de muitas salas, a senzala ao lado, o engenho d’água lá embaixo, o canavial na várzea e, pelos altos, o agreste, onde floriam no verão o pau d’arco roxo de outubro e os paus d’arcos amarelos de novembro”. (2)

Quando o Dr. Alexandre tomou conta do Engenho, uma crise no açúcar arrasava lavouras de cana. Os engenhos, hipotecados, estavam nas mãos de comerciantes na Paraíba, capital do Estado. Ao contrário dos demais proprietários de engenho, o Dr. Alexandre era um homem letrado. Não tirava a gravata do pescoço, sabia latim, grego, ciências naturais. As mãos finas manejavam muito bem uma caneta. Dr. Alexandre não tinha gosto pelo trato rude com a terra. Havia Cícero para ler. O tamarindo, plantado no fundo da casa, dava uma sombra benfazeja. A casa cheia de meninos precisando e querendo estudar. “O tamarindo se transforma numa escola socrática”. (3)

O tamarindo! Sob os galhos da velha árvore, Augusto dos Anjos estuda as lições que o pai lhe ensinara e escreve os seus primeiros sonetos.

Sinhá Mocinha, folheando o livro único do filho desaparecido, encontra os versos de Augusto ao tamarindo de sua infância:

DEBAIXO DO TAMARINDO

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos. 

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade

A minha sombra há de ficar aqui!

 

AUGUSTO VAI AO MUNDO

 

 Augusto dos Anjos, foto e autógrafo

 

Em 1900, com dezesseis anos, Augusto dos Anjos deixa o Engenho da família e vai completar os estudos formais na capital do Estado, no Liceu Paraibano. O seu tipo magro, taciturno,  logo chama a atenção dos estudantes daquele colégio, entre eles Orris Soares que, posteriormente, seis anos após a morte do poeta, escreverá o Elogio de Augusto dos Anjos, um texto de apresentação para a segunda edição do EU. Este texto será, talvez, o responsável pela descoberta que a crítica – e o público – brasileiro irão fazer da força latente da poesia daquele homem triste. Logo que termina os estudos secundários, Augusto vai ao Recife para se bacharelar em Direito. Em carta de 1903 escreve à mãe, comentando o carnaval em que participou – ou pelo menos contemplou - na cidade que é dita “Veneza brasileira” e que, talvez por isso mesmo, guarda a tradição dos melhores carnavais do Brasil.

 

TRECHO DA CARTA DE AUGUSTO DOS ANJOS À MÃE

Augusto dos Anjos

 

Escreve Augusto:

Os três dias de carnaval nesta Capital foram festivos, alegres, esplendorosos. Profusão de clubes carnavalescos. Os Filomomos, Caraduras, etc., confete, bisnaga, serpentina, danças, e, no entretanto, eu diverti-me pouco. O que é afinal o divertimento? Uma fenomenalidade transitória, efêmera, o que fica é que é a saudade. Saudade! Ora, eu não estou disposto a ter saudades. Entendo que somente devemos acalentar recordações dos entes caros, idolatrados, parcelas da nossa existência, da nossa vida, e esses entes – deixei-os eu aí.

Muito mais dissera o poeta em sua carta, porém Sinhá Mocinha, com a carta de Ester na mão, não consegue deter-se em um ou outro escrito do filho recém desaparecido, como se buscasse nos escritos de Augusto, arrancados de dentro da gaveta da cômoda, o sopro de vida que faltava naquele corpo que sempre fora aquilo que se via.

O que Orris Soares não dirá em seu estudo póstumo - nem outro qualquer após ele - é que Augusto dos Anjos compensa a bizarria do seu comportamento sociopático com um profundo amor à natureza; não bastassem os vários sonetos escritos ao tamarindo, em 1906 escreve aquele que é, talvez, o primeiro grito ecológico, de salvação da natureza, num soneto exemplar:

A ÁRVORE DA SERRA

- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs alma nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minha alma!...

- Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”

E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

Esse amor à natureza parece estar em permanente conflito com a condição humana, para a qual não há transcendência possível, nem sequer no plano metafísico. A condição humana é escatologia. É podridão. É consumação da carne pelos vermes que nos aguardam, insaciáveis, para o festim final. No soneto Vencido, de 1909, o homem vencido, cospe “na célula infeliz de onde nasceu”; em O Corrupião, o pássaro engaiolado é a metáfora do homem para o qual “A gaiola aboliu tua vontade” e, por este motivo, “Foi este mundo que me fez tão triste”; em Alucinação à beira-mar, as algas e os malacopterígios também são metáforas da condição humana, pois “No eterno horror das convulsões marítimas / Pareciam também corpos de vítimas / Condenadas à Morte assim como eu”; ao homem resta tão somente a mágoa, conforme escreve o poeta em Eterna Mágoa, e que o acompanha até mesmo quando ele se transforma em verme. Solidão, desencanto, eis as grandes aflições humanas delineadas por Augusto dos Anjos. Entretanto, tudo isso seria suportável no limite da razão se houvesse amor, mas nem isso é possível. “O amor na Humanidade é uma mentira”, escreve no soneto Idealismo. Não seria outra a razão do pessimismo exacerbado que o poeta cultiva em seus...

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

No entanto, nem tudo na vida, nem tudo na condição humana é tão árduo, tão sem esperança. Resta um caminho para a transcendência: a arte. Escreve o poeta, em Os Doentes (lira IX): “Contra a Arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces”. Um pouco antes, no mesmo longo poema (lira V), Augusto dos Anjos enfatiza o valor da arte sobre todas as coisas e, idealisticamente,  ultrapassa os limites materiais da experiência humana pelo exercício da arte: “Quando eu for misturar-me com as violetas, / Minha lira, maior que a Bíblia e a Fedra, / Reviverá, dando emoção à pedra, / Na acústica de todos os planetas!”.

 

A PARTIDA

 

Augusto publica EU, o seu único livro de poemas, Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

Os olhos marejados de Sinhá Mocinha se detêm nos escritos do filho infeliz, como se estivessem a buscar nos textos desordenados a sua presença viva. Aquelas palavras soam-lhe a um Augusto ao mesmo tempo familiar e estranho. Ela o sabia dócil, carinhoso para com os de casa, respeitoso para com os de fora, apegado aos parentes, preocupado sempre com a saúde dos seus, até mesmo com o bem estar dos primos distantes e dos agregados de sua casa, como fora Guilhermina que o amamentara.

Esse apego por certo é motivo de mais uma dor acrescentada ao rol de tantas, quando Augusto, já casado com Ester, resolve abandonar a provinciana Paraíba para morar no Rio de Janeiro. Quer ser poeta reconhecido em círculo mais amplo. É professor de literatura do Liceu Paraibano há dois anos, quando, em 1910, pega a sua parte na herança que sobrara do Pau d’Arco, compra passagem no paquete Acre, embarca com a mulher para uma aventura que não terá volta.

No Rio de Janeiro, o casal vive de pensão em pensão. Até 1914, quando Augusto dos Anjos é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina (Minas Gerais), foram cerca de dez modestos endereços. Augusto, durante esses quatro anos, levara boa parte do seu tempo a solicitar emprego público aos políticos da Paraíba radicados no Rio de Janeiro, então Capital Federal. Enquanto não lhe é dado o emprego almejado, passa a dar aulas particulares para manter a família que rapidamente se multiplica. No dia 2  de janeiro de 1911, Ester, grávida de seis meses, aborta; em 23 de novembro daquele ano, nasce Glória; em 2 de junho de 1913, nasce o segundo filho do casal, Guilherme Augusto. A precária situação financeira não permite que o poeta vá, junto com a mulher e a filha, render visita à família na Paraíba, em novembro de 1912, razão por que ele escreve à mãe explicando o motivo de sua ausência: Minhas ocupações de professor, aliás mal remuneradas, não me permitem folgas refociladoras dessa natureza. Além das aulas particulares, Augusto é nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional, acumulando aulas também na Escola Normal.

Em 6 de julho de 1912, Augusto e o seu irmão Odilon custeiam a impressão de 1.000 exemplares do EU. O livro causa estranheza nos meios literários da então Capital Federal. Nada há, entretanto, que desperte a curiosidade da crítica para aquele livro que está fadado a ser único, não apenas no sentido de ser o único livro publicado pelo poeta, mas no sentido de sua excentricidade temática; do tratamento de linguagem, pleno de vocábulos e expressões científicas e filosóficas; das muitas rimas ricas que, por si, chamam a atenção para aquele poeta capaz de provocar surpresas a cada verso. Nada leva a acreditar que no exclusivismo daquelas formas, num movimento contrário ao elitíssimo tratamento poético construído por Augusto, esteja contido, para surpresa da crítica, um poeta e uma poesia extremamente populares, cujos versos, a partir da terceira edição, de 1928, não apenas passam a ser decorados, recitados e também cantados pela boca do povo. Augusto dos Anjos não viverá o suficiente para testemunhar a popularidade de sua lírica.

Em 22 de julho de 1914, muda-se pela última vez com a família. Em Leopoldina, aluga, finalmente, uma casa. A pequena cidade mineira é ainda mais provinciana do que a Paraíba que abandonara. Ali, ao menos, o poeta do antigo Pau d’Arco pode descansar da estafante lida. Ali, ao menos, pode cuidar da família no remanso da vida besta que passa lentamente na calçada. Ali morre Augusto dos Anjos antes mesmo de completar seis meses de aparente tranqüilidade.

A notícia do falecimento de Augusto dos Anjos logo corre porta a fora, levada não pela dor da mãe desconsolada, mas pela empregada da casa, Dona Ermíria que, ao perceber as lágrimas que longe estão de se conterem em sua fonte, pergunta à patroa enigmática o motivo de tanto desperdício de humor. Ao saber do acontecido, corre a mulher pela calçada a gritar aos que passam: morreu o magro, morreu Augusto, não sei se de tuberculose ou de susto.

Orris Soares acabava de se sentar, em companhia de amigos, no Pavilhão do Chá, onde funciona uma sorveteria e bar. Ao ouvir a má notícia recusa-se a acreditar; entretanto um ou outro amigo, passante ou cliente, confirma a verdade, havia ido em pessoa saber da veracidade e lá encontrara a mãe do poeta e a carta terrível. Orris pede uma cachaça, à memória de Augusto, brinda. Bebe. Bebe outra e outra, mais para afogar a lembrança do morto do que por vontade. Não há como afogar a reminiscência de quem morreu tão recentemente.

 

ORRIS SOARES: ELOGIO DE AUGUSTO DOS ANJOS

Augusto dos Anjos

 

Depois de mais um gole, Orris bate com o copo na mesa e diz, um tanto desconsolado, ora um grupo de frases, ora um suspiro, ora um soluço:

- Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado. Nos momentos de investigações suas vistas transmudavam-se rapidamente, crescendo, interrogando, teimando. E quando as narinas se lhe dilatavam? Parecia-me ver o violento acordar do anjo bom, indignado da vitória do anjo mau, sempre de si contente na fecunda terra de Jeová. Os cabelos pretos e lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira. A clavícula, arqueada. No omoplata, o corpo estreito quebrava-se numa curva para diante. Os braços pendentes, movimentados pela dança dos dedos, semelhavam duas rabecas tocando a alegoria dos seus versos. O andar tergiversante, nada aprumado, parecia reproduzir o esvoaçar das imagens que lhe agitavam o cérebro.

- Essa fisionomia, por onde erravam tons de catástrofe, traía-lhe a psique. Realmente lhe era a alma uma água profunda, onde, luminosas, se refletiam as violetas da mágoa. (...)  

- Por muito que de mim procure na memória, não alcanço data mais velha à do ano de 1900, para o começo de minhas relações pessoais com Augusto dos Anjos. Feriu-me de chofre o seu tipo excêntrico de pássaro molhado, todo encolhido nas asas com medo da chuva.

- Descia do Pau d’Arco, sombrio Engenho de açúcar plantado à aba do rio Una, vindo prestar exame no Liceu. O aspecto fisionômico então alertado, e o desembaraço nas respostas anunciavam a qualidade do estudante, cuja fama de preparo correu por todos os recantos do estabelecimento, ganhando foros de cidade. Cada ato prestado valia por afirmação de talento, e de peito aberto louvores se erguiam ao melancólico pai, único professor que tivera no curso de humanidades.

- Não soube resistir ao desejo de travar relações com o poeta. Fui impiedosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução, numa ode de Horácio.

- De certa feita bati-lhe às portas, na rua Nova, onde costumava hospedar-se. Peguei-o a passear, gesticulando e monologando, de canto a canto da sala. Laborava, e tão enterrado nas cogitações, que só minutos após deu acordo de minha presença. Foi-lhe sempre este o processo de criação. Toda arquitetura e pintura dos versos as fazia mentalmente, só as transmitindo ao papel quando estavam integrais, e não raro começava os sonetos pelo último terceto.

- Sem nada pedir-lhe, recitou-me. Recorda-me, foram uns versos sobre o carnaval, que o batuque nas ruas anunciava próximo.

- Declamando, sua voz ganhava timbre especial, tornava-se metálica, tinindo e retinindo as sílabas. Havia mesmo transfiguração na sua pessoa. Ninguém diria melhor, quase sem gesto. A voz era tudo: possuía paixão, ternura, complacência, enternecimento, poder descritivo, movimento, cor, forma.

- Dando de mim, estava pasmado, colhido pelo assombro inesperado de sua lira que ora se retraía, ora se arqueava, ora se distendia, como um dorso de animal felino.

- Mais tarde, ouvindo no violoncelo um concerto de Dvorak, recebi a impressão igual, de surpresa e domínio, à do meu primeiro encontro com os versos de Augusto.

- A que escola se filiou? – a nenhuma.

_________________

(1) Fonte: Augusto dos Anjos – Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996
(2)
Apud José Lins do Rego, Augusto dos Anjos e o engenho Pau d’Arco.  
(3)
Apud José Lins do Rego, idem.

 

 

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