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AUGUSTO DOS ANJOS
Poeta: 1884 - 1914
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1884: No Engenho Pau d’Arco, município de Cruz do Espírito Santo, Estado da Paraíba, a 20 de Abril nasce Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1), terceiro filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e D. Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sinhá Mocinha). Augusto e os irmãos receberão do pai a instrução primária e secundária. - 1900: Augusto ingressa no Liceu Paraibano; compõe o seu primeiro soneto, “Saudade”. - 1901: Publica um soneto no jornal O Comércio, no qual passará a colaborar. - 1903: Inscreve-se na Faculdade de Direito da cidade de Recife. - 1905: Morte do Dr. Alexandre, pai do poeta. A propósito, Augusto escreve e publica em O Comércio três sonetos que farão parte do EU, livro futuro. Inicia a “Crônica paudarquense” e participa em duas polêmicas. - 1907: Conclui o curso de Direito. - 1908: Transfere-se para a capital da Paraíba, onde dá aulas particulares. Colabora no jornal Nonevar e na revista Terra Natal. Morre Aprígio Pessoa de Melo, padrasto de sua mãe e patriarca da família, deixando o Engenho em grave situação financeira. Augusto leciona no Instituto Maciel Pinheiro. É nomeado professor do Liceu Paraibano. - 1909: Em A União publica “Budismo moderno” e numerosos poemas. Profere, no Teatro Santa Rosa, um discurso nas comemorações do 13 de maio, chocando a platéia por seu léxico incompreensível e bizarro. Abandona o Instituto Maciel Pinheiro. - 1910: Publica em A União “Mistério de um fósforo” e “Noite de um visionário”. Casa-se com Ester Fialho. Continua a colaborar no Nonevar. Sua família vende o Engenho Pau d’Arco. Sem conseguir licenciar-se, demite-se do Liceu Paraibano e embarca com a mulher para o Rio de Janeiro. Hospeda-se em uma pensão no Largo do Machado, mudando-se em seguida para a Avenida Central. Termina o ano sem conseguir um emprego. - 1911: Ester, grávida de seis meses, perde a criança. Augusto é nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II). Nasce sua filha Glória. Muda constantemente de residência. - 1912: Colabora no jornal O Estado, dá aulas na Escola Normal. Augusto e o seu irmão Odilon custeiam a impressão de 1.000 exemplares do EU, livro recebido com estranheza por parte da crítica, que oscila entre o entusiasmo e a repulsa. - 1913: Nascimento do filho Guilherme Augusto. Continua lecionando em estabelecimentos diversos. - 1914: Publica “O lamento das coisas” na Gazeta de Leopoldina, dirigida pelo seu concunhado Rômulo Pacheco. É nomeado diretor do Grupo Escolar de Leopoldina, para onde se transfere. Doente desde 30 de outubro, falece às 4 horas da madrugada de 12 de novembro, de pneumonia. - 1920: Com organização e prefácio de Orris Soares, é publicada pela Imprensa Oficial da Paraíba a 2ª edição do EU. - 1928: Lançamento da 3ª edição de suas poesias, pela Livraria Castilho, do Rio de Janeiro, com extraordinário sucesso de público e de crítica. |
VELHAS LEMBRANÇAS |
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A carta
veio de Leopoldina. Sinhá Mocinha examina a letra. É de Ester, sua nora,
esposa de Augusto. Olha o envelope de um lado e outro, demorando-se para o
abrir. Um ritual. Talvez herança do tempo em que morava no Engenho,
quando as correspondências eram raras, as notícias mal chegavam ao Pau
d’Arco. Cartas faziam juntar toda a família em torno do envelope.
Dentro, novidades do mundo de fora. Em geral, os primos da capital
estreitando laços de boa consideração. Sinhá Mocinha lia em silêncio,
enquanto a filharada esperava ansiosa. Depois, em voz alta, se o que
estivesse ali escrito pudesse ser ouvido pelas crianças, que não viam a
hora de ir visitar os parentes na capital. Os meninos, Alexandre, Aprígio,
Augusto, os mais afoitos. Alexandre não esquecia o passeio à Paraíba
durante a Festa das Neves. Caminhava pelas ruas segurando a mão de Aprígio,
que segurava a mão de Sinhá Mocinha, enquanto o Dr. Alexandre, por sua
vez, pegava em uma mão do Alexandre e, do seu outro lado, da filha Iaiá.
Augusto, em geral, andava sozinho e na frente do grupo, observando o
movimento agitado e alegre das moças, as comidas típicas da festa, o
amendoim açucarado, as cocadas, a maçã do amor. Lembranças
do passado. Faz parte do ritual. A carta
de Ester está ali, pedindo para ser aberta. Mensageira de notícias que -
graças a Deus - têm sido boas ultimamente... O Pau
d’Arco é uma sombra do passado, escurecido em impagáveis hipotecas.
Sobra um par de esporas que o Dr. Alexandre usava quando,
esporadicamente, por fastio ou por vontade súbita, levantava os olhos dos
livros dos seus filósofos prediletos e os estendia para os limites do seu
Engenho. Num rompante, calçava as esporas, montava o cavalo que
encontrasse selado, ia cuidar do que era seu por herança e de seu domínio
se estava perdendo, por hipoteca. Não tinha tino para aquilo. Levava o
resto do dia a cavalgar de um lado a outro do seu vasto Engenho,
conversava com um ou outro morador, observava de longe o corte da cana, o
chiado lamentoso do carro-de-boi levando a cana para a moenda e,
finalmente, quando a noite caia, ele voltava para casa ainda mais
desconsolado que antes. Por mais que desejasse, em suas mãos não havia a
força do mando, não sabia como fazer produzir uma terra que era dócil,
doce, oferecida em águas, necessitando de um homem que soubesse domar uma
natureza que mesmo gentil carece de mão viril... Lembranças de um
passado, véspera feliz de um envelhecer melancólico, quando tudo o que
sobrara do Engenho, além das esporas, foram as poucas moedas guardadas na
caixa e que, de tão poucas, não deram para socorrer o pobre Augusto,
quando ele peregrinava de porta em porta, pedindo aos conterrâneos,
homens todos de política e que algum dia foram amigos de sua casa, em sóbria
mendicância pela Cidade Maravilhosa, que lhe arranjassem, por favor, um
emprego. |
| CARTA DE ESTER FIALHO DOS ANJOS À MÃE DO POETA | |
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Leopoldina,
27 de novembro de 1914
Caríssima D. Mocinha, Não me é possível descrever-lhe a grande dor que me
tem causado a separação eterna do nosso querido e venerando
Augusto! Sinhá
Mocinha lê e relê este primeiro parágrafo. Há nele qualquer coisa de
fatalidade. É preciso um esforço para continuar a leitura da carta que já
não lhe parece conter bom alvitre. Nunca imaginei que tão depressa Deus me reservasse um
golpe tão terrível! Quando vivíamos com descanso, gozando da companhia
alegre dos nossos estremecidos filhinhos, eis que uma congestão pulmonar,
que degenerou em pneumonia rouba-me bruscamente o Augusto, deixando-me na
mais desoladora situação. Todos os recursos da medicina acompanhados dos meus
carinhos e cuidados, foram baldados diante da moléstia atroz, que me
privou, para sempre, de quem fazia a minha felicidade e a minha alegria. Hoje sou somente um elemento de amparo e de vigilância
para os meus filhinhos, que não têm consciência do precioso tesouro de
virtudes que perderam. O mês de outubro já corria em meados quando Augusto
dos Anjos adoeceu. O Dr. Custódio Junqueira lhe fez uso de alguns remédios,
que não fizeram ceder o mal estar. No dia 29, Augusto caiu na cama com
muita febre, frio e dor de cabeça. O Dr. Custódio foi novamente chamado.
A base do pulmão direito está congestionada, disse, depois que o
examinou. Dois dias passados, a congestão não cedia. O médico
fez o exame do escarro. Pneumonia, declarou. Augusto quis saber se o exame
bacteriológico não demonstrava o bacilo da tuberculose. Não, disse o médico. Tudo foi empregado: compressas frias; banhos mornos;
cataplasmas sinapizadas; injeções intravenosas de electrargol; injeções
hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína; lavagens
intestinais; laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios
internos... Augusto tinha tamanha fraqueza, que tomou injeções de soro
fisiológico com rum, e tão enérgico remédio não pôde reanimá-lo. A doença abateu o seu corpo franzino, não
conseguindo, entretanto, abater-lhe o espírito que se conservou lúcido
até 20 minutos antes de expirar... Ele me chamou, despediu-se de mim,
dizendo-me: Mande as minhas lágrimas para a minha mãe; mande lembranças
para os meus amigos do Rio; trate bem as criancinhas Glória e Guilherme;
dê lembranças às meninas do grupo... Recomendou-me que guardasse com
cuidado todos os seus versos... Quem
recolherá as minhas lágrimas? geme a Sinhá Mocinha, pois elas brotam
abundantes dos seus olhos e se derramam pelo fatal papel. Não há grito.
Pranto. Lágrima destilada pelo inevitável destino.
Um tudo-nada que tudo define. Sinhá
Mocinha abre a gaveta da cômoda escura, grande e pesada - lembrança
tardia do Pau d’Arco. Sobre as cartas de Augusto, caprichosamente
guardadas ao longo dos anos, repousa o exemplar do livro derradeiro e
agora único, o título grande e vermelho no frontispício, impondo ao
mundo a magnanimidade de sua singularíssima pessoa: EU.
É, enfim, tudo o que resta de Augusto dos Anjos. Augusto!
chama pelo filho a mãe do poeta, acariciando as páginas do livro como se
fossem de Augusto o rosto querido. Não fosse senhora temente aos desígnios
do Altíssimo, teria talvez gritado neste instante contra o Criador,
gritado pela vida contra a morte, pelo útero contra a urna, chorando o
corpo agora coberto por uma terra que nem de longe lembrava o cheiro do
Pau d’Arco, desprotegido da sombra, do manto que, mesmo de longe, lhe
estendia o velho tamarindeiro. Sinhá
Mocinha abre o livro e, ao abrir, sente como se Augusto reclamasse,
sussurrante na lonjura do nunca mais, o seu lugar no concerto da existência.
Estava escrito: EU,
Augusto dos Anjos.
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MONÓLOGO DE UMA SOMBRA |
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“Sou
uma sombra! Venho de outras eras, A
simbiose das coisas me equilibra. Pairando
acima dos mundanos tetos, Na existência
social, possuo uma arma Com um pouco de saliva quotidiana (...) Sinhá
Mocinha aperta ao peito o volume com a dedicatória que Augusto lhe
escreveu. As lágrimas descem-lhe abundantes pelo rosto. Iaiá não está
em casa. Sinhá Mocinha bem que gostaria de que a sua filha estivesse ali,
a fim de ajudá-la a chorar a sorte má, que foi o caminho do seu irmão.
Na rua, o movimento das gentes atarefadas viceja. Uma fresta de luz entra
para a sala através do vidro no alto da janela. Nas paredes da sala,
retratos do marido, Dr. Alexandre Rodrigues dos Anjos, com os cabelos
partidos ao meio, os olhos firmes e penetrantes, o bigode ornando o rosto
anguloso, em tudo harmonioso; ele e Augusto eram semelhantes, pensa a Sinhá
Mocinha, comparando com o outro retrato pendurado na parede, o do próprio
Augusto, quando se formou Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife.
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ENGENHO DO PAU D'ARCO |
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Augusto no Engenho do Pau d'Arco. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Em
momentos de dor ou desespero, Sinhá Mocinha lembra do velho Engenho de
sua família, onde nasceu Augusto dos Anjos. “A vasta casa-grande, de
muitas salas, a senzala ao lado, o engenho d’água lá embaixo, o
canavial na várzea e, pelos altos, o agreste, onde floriam no verão o
pau d’arco roxo de outubro e os paus d’arcos amarelos de novembro”. (2)
Quando o
Dr. Alexandre tomou conta do Engenho, uma crise no açúcar arrasava
lavouras de cana. Os engenhos, hipotecados, estavam nas mãos de
comerciantes na Paraíba, capital do Estado. Ao contrário dos demais
proprietários de engenho, o Dr. Alexandre era um homem letrado. Não
tirava a gravata do pescoço, sabia latim, grego, ciências naturais. As mãos
finas manejavam muito bem uma caneta. Dr. Alexandre não tinha gosto pelo
trato rude com a terra. Havia Cícero para ler. O tamarindo, plantado no
fundo da casa, dava uma sombra benfazeja. A casa cheia de meninos
precisando e querendo estudar. “O tamarindo se transforma numa escola
socrática”. (3) O
tamarindo! Sob os galhos da velha árvore, Augusto dos Anjos estuda as lições
que o pai lhe ensinara e escreve os seus primeiros sonetos. Sinhá
Mocinha, folheando o livro único do filho desaparecido, encontra os
versos de Augusto ao tamarindo de sua infância: DEBAIXO
DO TAMARINDO
No tempo
de meu Pai, sob estes galhos, Hoje,
esta árvore, de amplos agasalhos, Quando
pararem todos os relógios Voltando
à pátria da homogeneidade,
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AUGUSTO VAI AO MUNDO |
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Em 1900, com dezesseis anos, Augusto dos Anjos deixa o Engenho da família e vai completar os estudos formais na capital do Estado, no Liceu Paraibano. O seu tipo magro, taciturno, logo chama a atenção dos estudantes daquele colégio, entre eles Orris Soares que, posteriormente, seis anos após a morte do poeta, escreverá o Elogio de Augusto dos Anjos, um texto de apresentação para a segunda edição do EU. Este texto será, talvez, o responsável pela descoberta que a crítica – e o público – brasileiro irão fazer da força latente da poesia daquele homem triste. Logo que termina os estudos secundários, Augusto vai ao Recife para se bacharelar em Direito. Em carta de 1903 escreve à mãe, comentando o carnaval em que participou – ou pelo menos contemplou - na cidade que é dita “Veneza brasileira” e que, talvez por isso mesmo, guarda a tradição dos melhores carnavais do Brasil.
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| TRECHO DA CARTA DE AUGUSTO DOS ANJOS À MÃE | |
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Escreve
Augusto: Os três dias de carnaval nesta Capital
foram festivos, alegres, esplendorosos. Profusão de clubes carnavalescos.
Os Filomomos, Caraduras, etc., confete, bisnaga, serpentina, danças, e,
no entretanto, eu diverti-me pouco. O que é afinal o divertimento? Uma
fenomenalidade transitória, efêmera, o que fica é que é a saudade.
Saudade! Ora, eu não estou disposto a ter saudades. Entendo que somente
devemos acalentar recordações dos entes caros, idolatrados, parcelas da
nossa existência, da nossa vida, e esses entes – deixei-os eu aí. Muito
mais dissera o poeta em sua carta, porém Sinhá Mocinha, com a carta de
Ester na mão, não consegue deter-se em um ou outro escrito do filho recém
desaparecido, como se buscasse nos escritos de Augusto, arrancados de
dentro da gaveta da cômoda, o sopro de vida que faltava naquele corpo que
sempre fora aquilo que se via. O que
Orris Soares não dirá em seu estudo póstumo - nem outro qualquer após
ele - é que Augusto dos Anjos compensa a bizarria do seu comportamento
sociopático com um profundo amor à natureza; não bastassem os vários
sonetos escritos ao tamarindo, em 1906 escreve aquele que é, talvez, o
primeiro grito ecológico, de salvação da natureza, num soneto exemplar: A
ÁRVORE DA SERRA
- As árvores,
meu filho, não têm alma! - Meu
pai, por que sua ira não se acalma?! - Disse
– e ajoelhou-se, numa rogativa: E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos
golpes do machado bronco, Esse
amor à natureza parece estar em permanente conflito com a condição
humana, para a qual não há transcendência possível, nem sequer no
plano metafísico. A condição humana é escatologia. É podridão. É
consumação da carne pelos vermes que nos aguardam, insaciáveis, para o
festim final. No soneto Vencido, de 1909, o homem vencido, cospe “na célula infeliz de
onde nasceu”; em O Corrupião,
o pássaro engaiolado é a metáfora do homem para o qual “A gaiola
aboliu tua vontade” e, por este motivo, “Foi este mundo que me fez tão
triste”; em Alucinação à
beira-mar, as algas e os malacopterígios também são metáforas da
condição humana, pois “No eterno horror das convulsões marítimas /
Pareciam também corpos de vítimas / Condenadas à Morte assim como
eu”; ao homem resta tão somente a mágoa, conforme escreve o poeta em Eterna
Mágoa, e que o acompanha até mesmo quando ele se transforma em
verme. Solidão, desencanto, eis as grandes aflições humanas delineadas
por Augusto dos Anjos. Entretanto, tudo isso seria suportável no limite
da razão se houvesse amor, mas nem isso é possível. “O amor na
Humanidade é uma mentira”, escreve no soneto Idealismo.
Não seria outra a razão do pessimismo exacerbado que o poeta cultiva em
seus... VERSOS
ÍNTIMOS
Vês!
Ninguém assistiu ao formidável Acostuma-te
à lama que te espera! Toma um
fósforo. Acende teu cigarro! Se a
alguém causa inda pena a tua chaga,
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| A PARTIDA | |
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Augusto publica EU, o seu único livro de poemas, Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Os olhos
marejados de Sinhá Mocinha se detêm nos escritos do filho infeliz, como
se estivessem a buscar nos textos desordenados a sua presença viva.
Aquelas palavras soam-lhe a um Augusto ao mesmo tempo familiar e estranho.
Ela o sabia dócil, carinhoso para com os de casa, respeitoso para com os
de fora, apegado aos parentes, preocupado sempre com a saúde dos seus, até
mesmo com o bem estar dos primos distantes e dos agregados de sua casa,
como fora Guilhermina que o amamentara. Esse
apego por certo é motivo de mais uma dor acrescentada ao rol de tantas,
quando Augusto, já casado com Ester, resolve abandonar a provinciana Paraíba
para morar no Rio de Janeiro. Quer ser poeta reconhecido em círculo mais
amplo. É professor de literatura do Liceu Paraibano há dois anos,
quando, em 1910, pega a sua parte na herança que sobrara do Pau d’Arco,
compra passagem no paquete Acre, embarca com a mulher para uma aventura
que não terá volta. No Rio
de Janeiro, o casal vive de pensão em pensão. Até 1914, quando Augusto
dos Anjos é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em
Leopoldina (Minas Gerais), foram cerca de dez modestos endereços.
Augusto, durante esses quatro anos, levara boa parte do seu tempo a
solicitar emprego público aos políticos da Paraíba radicados no Rio de
Janeiro, então Capital Federal. Enquanto não lhe é dado o emprego
almejado, passa a dar aulas particulares para manter a família que
rapidamente se multiplica. No dia 2 de
janeiro de 1911, Ester, grávida de seis meses, aborta; em 23 de novembro
daquele ano, nasce Glória; em 2 de junho de 1913, nasce o segundo filho
do casal, Guilherme Augusto. A precária situação financeira não
permite que o poeta vá, junto com a mulher e a filha, render visita à
família na Paraíba, em novembro de 1912, razão por que ele escreve à mãe
explicando o motivo de sua ausência: Minhas
ocupações de professor, aliás mal remuneradas, não me permitem folgas
refociladoras dessa natureza. Além das aulas particulares, Augusto é
nomeado professor de Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio
Nacional, acumulando aulas também na Escola Normal. Em 6 de
julho de 1912, Augusto e o seu irmão Odilon custeiam a impressão de
1.000 exemplares do EU.
O livro causa estranheza nos meios literários da então Capital Federal.
Nada há, entretanto, que desperte a curiosidade da crítica para aquele
livro que está fadado a ser único, não apenas no sentido de ser o único
livro publicado pelo poeta, mas no sentido de sua excentricidade temática;
do tratamento de linguagem, pleno de vocábulos e expressões científicas
e filosóficas; das muitas rimas ricas que, por si, chamam a atenção
para aquele poeta capaz de provocar surpresas a cada verso. Nada leva a
acreditar que no exclusivismo daquelas formas, num movimento contrário ao
elitíssimo tratamento poético construído por Augusto, esteja contido,
para surpresa da crítica, um poeta e uma poesia extremamente populares,
cujos versos, a partir da terceira edição, de 1928, não apenas passam a
ser decorados, recitados e também cantados pela boca do povo. Augusto dos
Anjos não viverá o suficiente para testemunhar a popularidade de sua lírica. Em 22 de
julho de 1914, muda-se pela última vez com a família. Em Leopoldina,
aluga, finalmente, uma casa. A pequena cidade mineira é ainda mais
provinciana do que a Paraíba que abandonara. Ali, ao menos, o poeta do
antigo Pau d’Arco pode descansar da estafante lida. Ali, ao menos, pode
cuidar da família no remanso da vida besta que passa lentamente na calçada.
Ali morre Augusto dos Anjos antes mesmo de completar seis meses de
aparente tranqüilidade. A notícia
do falecimento de Augusto dos Anjos logo corre porta a fora, levada não
pela dor da mãe desconsolada, mas pela empregada da casa, Dona Ermíria
que, ao perceber as lágrimas que longe estão de se conterem em sua
fonte, pergunta à patroa enigmática o motivo de tanto desperdício de
humor. Ao saber do acontecido, corre a mulher pela calçada a gritar aos
que passam: morreu o magro, morreu Augusto, não sei se de tuberculose ou
de susto.
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| ORRIS SOARES: ELOGIO DE AUGUSTO DOS ANJOS | |
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Depois
de mais um gole, Orris bate com o copo na mesa e diz, um tanto
desconsolado, ora um grupo de frases, ora um suspiro, ora um soluço: - Foi
magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes,
olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a
catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura
e nos lábios uma crispação de demônio torturado. Nos momentos de
investigações suas vistas transmudavam-se rapidamente, crescendo,
interrogando, teimando. E quando as narinas se lhe dilatavam? Parecia-me
ver o violento acordar do anjo bom, indignado da vitória do anjo mau,
sempre de si contente na fecunda terra de Jeová. Os cabelos pretos e
lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira. A clavícula,
arqueada. No omoplata, o corpo estreito quebrava-se numa curva para
diante. Os braços pendentes, movimentados pela dança dos dedos,
semelhavam duas rabecas tocando a alegoria dos seus versos. O andar
tergiversante, nada aprumado, parecia reproduzir o esvoaçar das imagens
que lhe agitavam o cérebro. - Essa
fisionomia, por onde erravam tons de catástrofe, traía-lhe a psique.
Realmente lhe era a alma uma água profunda, onde, luminosas, se refletiam
as violetas da mágoa. (...) -
Por muito que de mim procure na memória, não alcanço data mais velha à
do ano de 1900, para o começo de minhas relações pessoais com Augusto
dos Anjos. Feriu-me de chofre o seu tipo excêntrico de pássaro molhado,
todo encolhido nas asas com medo da chuva. - Descia
do Pau d’Arco, sombrio Engenho de açúcar plantado à aba do rio Una,
vindo prestar exame no Liceu. O aspecto fisionômico então alertado, e o
desembaraço nas respostas anunciavam a qualidade do estudante, cuja fama
de preparo correu por todos os recantos do estabelecimento, ganhando foros
de cidade. Cada ato prestado valia por afirmação de talento, e de peito
aberto louvores se erguiam ao melancólico pai, único professor que
tivera no curso de humanidades. - Não
soube resistir ao desejo de travar relações com o poeta. Fui
impiedosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se
alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias
depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução,
numa ode de Horácio. - De
certa feita bati-lhe às portas, na rua Nova, onde costumava hospedar-se.
Peguei-o a passear, gesticulando e monologando, de canto a canto da sala.
Laborava, e tão enterrado nas cogitações, que só minutos após deu
acordo de minha presença. Foi-lhe sempre este o processo de criação.
Toda arquitetura e pintura dos versos as fazia mentalmente, só as
transmitindo ao papel quando estavam integrais, e não raro começava os
sonetos pelo último terceto. - Sem
nada pedir-lhe, recitou-me. Recorda-me, foram uns versos sobre o carnaval,
que o batuque nas ruas anunciava próximo. -
Declamando, sua voz ganhava timbre especial, tornava-se metálica, tinindo
e retinindo as sílabas. Havia mesmo transfiguração na sua pessoa. Ninguém
diria melhor, quase sem gesto. A voz era tudo: possuía paixão, ternura,
complacência, enternecimento, poder descritivo, movimento, cor, forma. - Dando
de mim, estava pasmado, colhido pelo assombro inesperado de sua lira que
ora se retraía, ora se arqueava, ora se distendia, como um dorso de
animal felino. -
Mais tarde, ouvindo no violoncelo um concerto de Dvorak, recebi a impressão
igual, de surpresa e domínio, à do meu primeiro encontro com os versos
de Augusto. - A que
escola se filiou? – a nenhuma. _________________ (1)
Fonte: Augusto
dos Anjos – Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996
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