
APRESENTAÇÃO DO SITE
Fernando Correia da Silva
Lisboa, 5 de
Outubro de 1998 Todos os meses uma remessa de textos novos, universo em expansão. São vários os autores de VIDAS lusófonas: africanos, brasileiros e portugueses. Embora sigamos as normas estilísticas que antecipadamente fixámos, cada qual irá alinhar as frases ao seu jeito pessoal, que é também um dos jeitos da sua terra. Se, por causa das variantes, algum Rodriguinho torcer o nariz, não se dê troco. A língua portuguesa recusou-se a ser o galego do sul, espalhou-se pelo mundo, já tem hoje muitos e diversos ramos. O melhor é gozar-lhe a sombra, vastidão. Vamos organizar concursos que solicitam aos navegadores deste site textos breves sobre figuras e factos históricos dos mundos lusófonos. Para Ihes facilitar a vida facultamos as normas estilísticas acima referidas. Também estamos decididos a promover conversas interactivas (chats) com grandes vultos lusófonos. Por exemplo Fernão de Magalhães ou Camões, Aleijadinho ou Machado de Assis, Samora Machel, Agostinho Neto ou Amílcar Cabral on line. Finalmente uma carta de marear destinada ao jovem navegador que demande este porto de abrigo: Repara na criança de tenra idade: brinca e chapinha na correnteza de palavras em que os adultos diariamente a mergulham. Assim, por obra e graça do Espírito Santo de Orelha, muito tempo antes de saber ler já é capaz de falar correctamente. E se crescer em ambiente culto, em breve falará que nem o Menino Jesus na Sinagoga. Aprende tu a escrever como as criancinhas aprendem a falar. Se mergulhares nos textos dos bons autores, sem dares por isso logo começas a escrever bem. Um apelo: sê intransigente na defesa da tua espontaneidade! Agarra a simplicidade, deixa-te de rodeios, aponta ao coração de cada instante. Treina-te para ganhar os concursos de VIDAS lusófonas! Aproveita as conversas (chats) com os grandes vultos que falam a nossa língua. Quando conseguires domar as nossas sete normas estilísticas, deves então mandá-las para as urtigas e tratar de inventar as tuas. Se o conseguires, é porque já temos um escritor pela proa... Mãos à obra! |
| O DESACORDO ORTOGRÁFICO
Língua única, duas grafias. Haveria que optar por uma. VIDAS LUSÓFONAS recusou-se. Em carta a um internauta brasileiro, Fernando Correia da Silva fundamenta a decisão. ORTOGRAFIA NÃO É LÍNGUA, É CÓDIGO DE TRÂNSITO
Lisboa, 7 de Setembro de 1999 Carlos, caro Amigo, Muito obrigado pelas suas boas palavras a propósito do trabalho que estamos a desenvolver em VIDAS LUSÓFONAS, tudo está a acontecer, cada vida / cada conto. Mas logo a seguir Você não consegue aguentar-se e manda-me alguns remoques, que umas vezes usamos hífens e tremas e outras não, o mesmo acontece com as consoantes mudas, e que é preciso vigiar a ortografia para preservarmos a nossa língua, porque assim e assado, etc. e tal. Com tais remoques Você está mas é a desafiar-me para uma briga das antigas, da qual nunca desisto, embora saiba que não tem fim. Arregaço as mangas da camisa, vamos lá encostar os coletes: Em Outubro do ano passado, na apresentação na nossa página, eu já o disse e agora confirmo: a língua portuguesa recusou-se a ser o galego do sul, fez-se ao mar, deitou raízes por vários continentes, adaptou-se a novos solos e climas. Em vez de rosnarmos contra as naturais e inevitáveis variantes, melhor será gozar-lhe a sombra, vastidão. De acordo? É claro que Você está de acordo. O diabo é que logo aparecem uns Rodriguinhos a defender minúcias para esquecer o essencial, a entronizar a ortografia para esquecer a língua. Você pode ficar escandalizado, mas reafirmo que ortografia não é língua. Conheço um ou dois analfabetos que pensam e falam melhor do que muitos doutores que andam por aí a arrotar erudições. Estou a pensar, concretamente, no nosso já falecido poeta popular António Aleixo, semi-analfabeto mas pensador profundo e criativo. Carlos, ortografia é apenas código de trânsito. O que é preciso é saber se conduzimos pela direita como na Europa continental e no Brasil, ou se pela esquerda como na Inglaterra e em Moçambique. Em nada me incomoda que africanos, brasileiros e portugueses falem com sotaques locais, até acho deliciosa a variedade. Em nada me incomoda que o nortenho português diga Bocê não bai por bom caminho desde que escreva Você não vai por bom caminho; ou que o nordestino brasileiro diga ó xente, vamos imbora, desde que escreva ó gente, vamos embora; que o alfacinha diga cravão, mas escreva carvão; que o alentejano diga porrêro, mas escreva porreiro; que o carioca diga carnavau bonitchinho, mas escreva carnaval bonitinho; que o caipira diga cigarro di paia mas escreva cigarro de palha. Apenas isso, código de trânsito, nada mais do que código de trânsito. Faço-me entender? É imbecilidade que nos desmerece não termos ainda assentado num acordo ortográfico para a nossa língua comum. Lindley Cintra, por Portugal, Celso Cunha e Antônio Houaiss, pelo Brasil, bem o tentaram, trabalho exemplar. Mas depois entraram em cena os patrioteiros, os daí e os daqui; "neo-colonialismo" gritavam uns, "abastardamento da língua" berravam outros. E o trabalho, o acordo penosamente conseguido, foi-se à viola; ou foi pró beleléu, se preferir. Já estou por tudo: se, para haver um acordo ortográfico, houvesse que ressuscitar o ph, tranquilamente eu escreveria pharmácia e telephone. O que eu preciso saber é se, ao escrever na minha língua, devo conduzir pela direita ou pela esquerda. Dentro do universo da lusofonia, ao mudarmos de país sermos coagidos a mudar de mão, eis o estúpido convite aos desastres em cadeia... Por isso, Carlos, quando Você me fala em tremas, fico logo a tremer de raiva. Embora ainda estejam em uso no Brasil, aqui já não se usam tremas, nem constam sequer no teclado com o qual estou a escrever-lhe. Garanto-lhe que eu não sou a favor nem contra os coitadinhos dos tremas. Código de trânsito, apenas código de trânsito, quero lá saber do resto, estou me borrifando, estou-me nas tintas, pouco ligando, a língua é mais importante do que todas as grafias que lhe inventam. Inveja tenho eu de ingleses, irlandeses, australianos e americanos... Repare na forma diferenciada como uns e outros falam e na forma quase igual como uns e outros escrevem. Enquanto prosseguirem as patriotadas de aquém e além mar, provisoriamente decido que em VIDAS LUSÓFONAS autores portugueses escrevem com a actual ortografia portuguesa, e autores brasileiros escrevem com a actual ortografia brasileira. Mais evidente ficará assim a gráfica burrice de que nós, e vós, somos portadores. Entende agora o motivo por que Você, em VIDAS LUSÓFONAS, ora viu, ora deixou de ver hífens, tremas e consoantes mudas? Não me leve a mal o discurso e tome lá um abraço do
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