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JOÃO RODRIGUES DE CASTELO
BRANCO
Amato Lusitano
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1511: Nasce em Castelo Branco (lat. 39.75º N e long. 08.50º W), João Rodrigues. – 1533: João Rodrigues de Castelo Branco, conclui o Curso de Medicina, na Universidade de Salamanca. – 1533/1534: Vive e exerce em Lisboa (lat. 38.75º N e long. 09.25º W). Parte para Antuérpia. – 1534/1541: Vive em Antuérpia (lat. 51.40º N e long. 04.50º E ). – 1536: Publica o seu primeiro livro o «Index Dioscoridis». – 1541/1547: É professor na Universidade de Ferrara (lat. 44.75º N e long. 11.50º E). Encontra João Baptista Canano. – 1541: Inicia a escrita da 1.ª Centúria. – 1547/1555: Passa a viver em Ancona (lat. 43.60º N e long. 13.25º E). – 1555/1556: Muda-se para Pesaro (lat. 43.70º N e long. 12.50ºE), mas durante pouco tempo. – 1556/1558: Vive em Ragusa, hoje Dubrovnik (lat. 42.40º N e long. 18.00º E). – 1556: Escreve a 6.ª Centúria (Ragusina). – 1558/1568: Vive em Tessalónica, hoje Salónica (lat. 40.30º N e long. 23.00º E). – 1561: Escreve a 7.ª e última Centúria. – 1568: Morre em Tessalónica, de peste.
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PORTUGAL, CASTELO BRANCO, 1511 |
| Em Castelo Branco, em 1511, nasce João Rodrigues, futuro AMATO LUSITANO. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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Parabéns, mulher. Que rico filho me deste. Vai chamar-se João. João
Rodrigues. Não vai precisar de mais nomes. As pessoas são o que são e o
que fazem de si. Nunca serão o que os outros fazem delas. -
Que cresça bem e lhe possamos dar todo o amor e ajuda de que vier a
precisar. Parabéns, mulher. Temos um filho. Um homem. -
Cresce, filho. Cresce. -
Já viste, mulher, como o nosso João está grande? Já reparaste como é
atento à vida, inteligente e estudioso? Já viste como ele mantém
conversas interessadas com os mais velhos? -
Este nosso João vai longe, mulher. Vai longe. E não lhe faltará a nossa
ajuda. -
Mulher, vai custar-nos muito, mas temos de mandar o nosso João estudar em
Espanha. Em Salamanca. A Universidade de Lisboa está de rastos, segundo
me dizem. -
Para o nosso filho tem de ser a melhor, porque ele merece. -
Quer ser médico e será. -
Vai para Salamanca, está resolvido. E sempre te digo, mulher, que a distância
é a mesma que a Lisboa. -
Como te «lhamas», amigo? -
João. João Rodrigues. -
De onde vens e onde nasceste? -
De Portugal. Em Castelo Branco. -
«Pues ahora te llamarás João Rodrigues de Castelo Branco». -
Parabéns, João. És o orgulho dos teus pais. Estudaste. Cumpriste. És médico
e licenciado pela Universidade de Salamanca. -
Agora a vida é tua. Vai em frente. O mundo espera-te. Não faças como
eu, agarrado que nem uma lapa a este berço de pedra. -
Sempre que sentires que deves ir em frente, vai. O caminho, faz-se
caminhando, digo-to hoje, quatro séculos antes de alguém o voltar a
dizer para a História. -
Sinto, meu pai, que a minha vida se vai fazer de saltos, para a frente e
para o alto. Umas vezes empurrado pelo destino, outras pelo desejo. -
Sinto, meu pai, que os tempos estão maus e vão piorar ainda. A Inquisição
não nos vai dar descanso e vai seguir-nos até nos poder apanhar nos seus
longos braços e tentáculos. -
Temos que estar atentos, sempre despertos e capazes de dar resposta a esse
perigo, mesmo que tenhamos que fazer um pouco mais de caminho. Assim me
obrigam e assim farei. -
E vós, meus pais? -
A nossa idade é outra, João. Por agora a Inquisição ainda está em
estado larvar, lá para Lisboa. -
Ainda vai demorar algum tempo até ficarmos em perigo. Já não a receio,
meu filho! Mas tu, vai. Faz o teu caminho. -
Adeus, meus pais. Vou direito a Antuérpia, onde não me faltarão
clientes e amigos portugueses. -
Muitos judeus ricos já deixaram Lisboa há algum tempo e por lá se
instalaram. Farei como eles. -
Adeus meu pai. -
Adeus minha mãe. |
ANTUÉRPIA |
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Florescente
cidade europeia, onde todos os dias chegam mais e mais judeus. Eles, as
famílias, os criados, o dinheiro e a apetência para o ganhar. Entre
os judeus há uma grande colónia de portugueses que ali continuam as suas
actividades mercantis e aumentam a sua prosperidade económica e influência
social. Quando
João Rodrigues de Castelo Branco chega a Antuérpia logo os contacta. A
diáspora acolhe-o de braços abertos. Com
esse apoio, médico, licenciado, interessado e culto, rapidamente atinge
notoriedade, passando a ser médico de famílias influentes, no domínio
das actividades mercantis, da banca e da nobreza. Amato
é um poliglota. Domina o Latim, o Grego, o Hebraico, o Árabe, o Português,
o Castelhano, o Francês, o Italiano, o Alemão e, presume-se, o Inglês. É
por essa altura que resolve mudar o seu nome para Amato Lusitano. Nome que
escolhe para assinar as suas obras e que se supõe ter feito derivar da
tradução latina do nome hebraico da família, Habid, que naquela
língua significa querido ou
dilecto. É
com este nome que passa a ser celebrado em toda a Europa, o que, nesse
tempo, é o mesmo que dizer em todo o mundo civilizado. Os
doentes são cada vez mais e os proventos acompanham esse crescimento de
prestígio. Nada
faria supor que passados alguns anos irá abandonar a cidade que tão bem
o recebeu e onde iniciou uma vida de prosperidade e êxitos médicos. Em 1536 publica a sua primeira obra, o «Index
Dioscoridis», que ainda não assina como Amato Lusitano. Mas
a Inquisição espreita e, mesmo quando não presente, cria uma
instabilidade e um receio que levam os mais precavidos a dar nova orientação
às suas vidas. Catherine
Clément, a actual e famosa escritora de romances históricos, no seu mais
conhecido e talvez mais interessante livro, «A Senhora», publicado em
1992, faz de Amato um dos elementos socialmente destacados da Antuérpia
daquele tempo e peça importante da trama romanesca, contada na primeira
pessoa, por Josef Nasi, sobrinho de Beatriz de Luna ou Gracia Nasi,
nascida precisamente um ano antes de Amato Lusitano. O
médico português, é referido habitualmente como Lusitano ou bom
Lusitano, é apresentado como um amigo da família e dele se diz na página
78 da tradução portuguesa, que «se tornou o grande, o querido Amato
Lusitano, nosso médico, que por sua bondade e paciência bem terá
merecido o apodo de Angelicus». E
na página 112 lê-se que «Lusitano predizia que fora do Império
Otomano não haveria em breve outro lugar de refúgio para os Marranos. O
que é que restava na Europa? Talvez Ferrara. O duque de Este mantinha uma
tolerância pacífica, protegia corajosamente os seus judeus e fazia
abertamente profissão de humanismo. Ferrara? ...». Percebe-se
bem que quem tinha tal convicção, tivesse feito da sua vida uma autêntica
peregrinação através da Europa, do Norte ao Sul e também a Leste. É
dado como tendo acompanhado o grupo dos fugitivos judeus, onde se
incluem Beatriz de Luna e Josef Nasi, que se dirige de Antuérpia
para Istambul. Ter-se-á
separado deles em Ancona, com uma justificação verdadeiramente amatiana
– «em Ferrara, os nossos amigos (judeus) necessitam mais dos
meus serviços do que vós, que encontrareis em Istambul toda a casta de
excelentes médicos». Não se viram mais, mas Amato dedicará a Quinta Centúria de Curas Medicinais a Josef Nasci.
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DE ANTUÉRPIA A SALÓNICA |
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Para escapar da Inquisição, Amato Lusitano fixa-se em Salónica. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. |
Em 1541 e a convite do Duque
d'Este, aceitou reger uma cadeira na Faculdade de Medicina de Ferrara (Studium
Generale), que era uma das mais prestigiadas e afamadas Universidades de
Itália. Apesar
de só ter vivido seis anos em Ferrara, foram tempo bastante para cimentar
uma forte amizade com o seu assistente João Baptista Canano, que
viria a ser um anatomista ilustre e peça central de uma questão de
autoria, disputada entre ele e Amatus. Seis anos depois, em 1547, já João Rodrigues de
Castelo Branco se tinha mudado para Ancona. Mas não foi ainda em Ancona que Amato Lusitano
iria estabilizar, pois oito anos depois, em 1555, mudou-se para Pesaro,
numa tentativa de se afastar do perigo inquisitorial que a entronização
de Paulo IV como Papa, representava. Este corporizava o Papa da Contra
Reforma e esperava-se um aumento das perseguições a judeus. A estadia em Pesaro durou apenas um ano, findo o
qual Amato Lusitano se muda para Ragusa, hoje Dubrovnik, aceitando
finalmente um convite que lhe tinha sido feito aquando da sua estadia em
Ferrara. Foi em Ragusa que escreveu a sua Sexta Centúria. Lá conviveu com outro ilustre português,
como ele expatriado, e seu antigo companheiro de Salamanca, Diogo Pires,
natural de Évora. Além de Diogo Pires, sabe-se que teve ali
grandes amigos, como João Gradi, proprietário de vários navios. Foi de um dos navios de João Gradi que veio o
marinheiro que deu origem à Cura centésima da Sexta Centúria, uma
primorosa descrição dos traumatismos cranianos. Amato parece ter gostado muito de viver em
Ragusa e sobre ela escreveu na Sexta Centúria que «A
cidade de Ragusa é pequena, mas antiga, semelhante a Veneza. Está
situada junto ao mar Ilírico (hoje Adriático), entre elevações
rochosas, voltada para o sul. Por isso ela fica exposta aos ventos
austrais, estando as pessoas sujeitas a mais frequentes e graves doenças
durante o Inverno. Produz vinhos fortes, mas pouco saudáveis, escassa
fruta e nenhum trigo, visto que não tem campos. A forma de governo é a
república, mas nele só a classe nobre é admitida, constituída por
homens políticos, bastante ricos e sóbrios. Além da aristocracia há
uma numerosa classe popular de que uma parte são mercadores, pessoas
bastante civilizadas, comerciando, como os patrícios, por muitas partes
do mundo em grandes e magníficos navios. A restante parte da população
é inferior e dominada pela pobreza.» De pouco lhe serviu ter servido nobres e
poderosos, desde o Papa Paulo III de quem foi médico pessoal, até às
melhores Casas Senhoriais de Veneza e Florença. Amato Lusitano teve sempre necessidade de se
afastar um pouco mais dos tentáculos da Inquisição, numa estratégia de
gato e de rato. O poder eclesiástico sobrepunha-se a todos os
poderes, não deixando dúvidas que nenhum outro, nem a amizade, conferiam
segurança. Só mais uma vez se mudou Amato Lusitano. Em 1559, pensou, e bem, que a única forma de
não ser apanhado num abraço de morte por aqueles braços que se lhe
estendiam, era ir viver e fixar-se em lugar onde a Inquisição não
pudesse realmente chegar. Resolveu fixar-se então em Salónica que se
encontrava sob o domínio do Sultão da Turquia. E em boa hora o fez, pois ali pôde viver
tranquilo e em paz, até a morte o ter apanhado, apenas com 57 anos de
idade, durante uma epidemia de peste, e quando contra ela combatia. Como médico, podemos dizer que
morreu em combate. Eram longos os braços da
Inquisição, como se depreende da leitura de uma listagem estudada por J.
Lúcio de Azevedo, existente nos documentos da Inquisição – Cod. 1506
e nas folhas 66 e seguintes, onde no seu número 16 se regista que «O
físico Amato Lusitano, de Castel Branco, fugio para o grão Turco».
Até ali foi referenciado! A
sua curta vida foi bastante para afirmar o seu nome em toda a Europa
erudita, para ter convivido e ser amigo das figuras ilustres daquele
tempo, para ser objecto de inveja e perfídia, de difamação e aplausos,
mas imensamente curta para quem tanto tinha a dar. Além das Sete Centúrias, escreveu «Comentários a Dioscórides» e «Enarrationes Eruditissime». E acima de tudo, escreveu em Salónica o seu famoso «Juramento de Amato», fazendo parte da Sétima Centúria.
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AMATUS E A CIRURGIA |
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Amatus
Lusitanus invadiu frequentemente o domínio da Cirurgia, não se limitando
à visão médica dos problemas que se lhe deparavam. Ficaram
conhecidas e célebres as suas opiniões sobre os locais indicados para
executar as sangrias, como famosa ficou a sua descrição pioneira das válvulas
da veia ázigos. E não só se limitou a ter opinião sobre assuntos cirúrgicos, como
frequentemente invadiu a prática cirúrgica realizando intervenções, as
mais variadas, como trepanações, toracotomias, herniorrafias, drenagens
de hidrocelos, uretrolitotomia,
tratamento de hipospádias, fimose, fístula recto-vaginal e operação de
um hermafroditismo referido por Brás Luis de Abreu, no seu livro
«Portugal Médico....», que na página 12 e no número 41, diz
que «de huma nossa Portuguesa faz menção Amato Lusitano, que sem ser
hermafrodita, foi Molher com o nome de Maria Pacheca athé a idade da
menstruação; e nesse tempo se converteo repentinamente em homem, e se
chamou Manoel Pacheco. Foi natural da Villa de Esgueira.» Mas foi o tratamento dos Apertos
da Uretra que lhe trouxe grande notoriedade, e mais uma controvérsia
sobre a verdadeira autoria da técnica. Discute-se se o introdutor deste tratamento, teria sido Amato Lusitano,
Alderete ou Filipe Velez. Francisco
Diaz,
contemporâneo de Amato, no seu livro sobre «Enfermedades de los Riñones,
Bexiga y Carnosidades de la Verga», nega qualquer influência de
Alderete na técnica do tratamento dos apertos da uretra, e considera um
erro que Amato, numa das Centúrias, considere Alderete como o introdutor
das dilatações da uretra. Maximiano
de Lemos
diz que foi em 1533 ou 1534, último ano que Amato passou em Portugal, que
ele praticou pela primeira vez o «Processo das Velinhas» num
homem de 25 anos que tinha andado pela Índia e por África e que, como
consequência de uma blenorragia, apresentava um aperto na uretra. E esta faceta de Amato é tanto
mais de espantar quanto é certo que os médicos desse tempo, e ainda os
dos dois séculos que se lhe seguiram, tinham pela Cirurgia e pelos
cirurgiões uma baixa estima, ou mesmo desprezo, e, em geral, limitavam-se
a ver e a indicar com a ponta das suas bengalas o local onde o prático
cirurgião devia sangrar ou amputar. Inventou e descreveu uma prótese para a abóbada palatina, para
resolver as fendas palatinas, que alguns atribuíram ao grande Ambroise
Paré. Hoje em dia, segundo vários autores, entre os quais se encontram Leibowitz, Samoggia e
Paiva Boléo,
parece não restar qualquer dúvida que a invenção teria sido de Amatus
e que Paré se terá limitado a usá-la, em doentes seus. Esta prótese para a fenda palatina, ou Obturador, é descrita na Cura 14 da Quinta Centúria, como sendo um instrumento composto de huma lamina de ouro, que por meio de huma hasteasinha se engastava em huma esponja, a qual se adoptava ao buraco, aonde se conservava por dilatação, que a humidade lhe fazia adquirir. Por este modo remediou o defeito de deglutição, e pronuncia, que hum homem padecia, pela existencia de hum tal buraco.
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AS GRANDES CONTROVÉRSIAS |
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Por terem opiniões diversas sobre qual seria
o melhor local para sangrar, em casos de pleurite, estabeleceu-se uma
disputa entre Amatus, Vesálio, Falópio e Eustáquio. Em oposição a Vesálio, Amatus defendia que
se devia sangrar do lado da pleurite enquanto aquele dizia que se devia
sangrar sempre no braço direito. Foi durante esta discussão que Amatus se
referiu pela primeira vez à existência de válvulas na veia ázigos. Mas
não só nas questões do local para sangrar ou das válvulas venosas se
forjaram ataques a Amato. A
propósito da publicação dos seus Comentários a Dioscórides (In
Dioscoridis Anazarbei de medica materia ...), Pietro Andrea Mattioli
atacou forte e feio, publicando em 1558 «Apologia adversus Amatum
Lusitanum». Chegou
à ignominia de lhe chamar marrano,
denunciando-o desse modo à Inquisição, e à deselegância de lhe
acrescentar uma letra ao seu nome, escrevendo Amathus,
tentando assim um trocadilho com a palavra latina que significava ignorante
ou sem ciência. Esta
controvérsia foi tão divulgada que quando Johann Bauhin publicou o seu
livro «História Plantarum Universalis», colocou os dois no rosto do
livro com referência à controvérsia havida (Dissentimus). A importância de Amatus Lusitanus na medicina
da época pode avaliar-se pelos nomes daqueles que se bateram ou
discutiram com ele. Não fosse Amato alguém respeitado e
conhecido e não veríamos por certo Vesálio, Falópio, Eustáquio ou
Mattioli a perderem tempo em longas discussões com ele. Outro qualquer seria ignorado. Mas contra
Amatus lutava-se, porque era um par. Para os portugueses de hoje, é agradável ler que as Centúrias são una
della maggiori testimonanze dello stato della Medicina nel cinquecento,
como Mirko Malavoti afirma em livro editado pelo Istituto di Storia della
Medicina dell' Universitá di Roma. Enche-nos de satisfação saber que Max Solomon considera Amato como o Homem que
representa a Medicina do Século XVI, como erudito, anatomista e clínico. Mas mais interessante teria sido que Amatus pudesse ter tido a tranquilidade de se dedicar livre e inteiramente aos estudos e ao ensino médico, sem aquela contínua e larvar inquietação e sem o receio que a sua condição de criptojudeu lhe criava, face a uma Inquisição que não perdoava a ninguém uma maneira de pensar diferente.
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| A QUESTÃO DAS VÁLVULAS DA VEIA ÁZIGOS | |
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Foi
o caso que mais celeuma deu e que chegou a ter contornos pouco limpos,
quase mafiosos – a descoberta das válvulas, ou os ostíolos, da
veia ázigos. Esta descoberta e revelação
compartilhou-a com o seu assistente João Baptista Canano, o que não
impediu que Amatus tivesse sido vítima de um agravo e tenha sido acusado
de plágio por parte daqueles que atribuíram a Canano a descoberta das válvulas.
E
nessas acusações, chegou-se à situação extrema e parcial, em que
aqueles que não acreditavam na existência das válvulas, acusavam Amatus
de se referir a elas e de defender a sua existência e aqueles que
acreditavam, acusavam Amatus de plágio e diziam que o inventor tinha sido
João Baptista Canano. Se pensarmos que Canano, insigne anatomista e
assistente de Amatus, destruiu, pelo fogo, toda a sua obra escrita e nunca
fez referência às válvulas da veia ázigos, podemos inferir da
honestidade e integridade de Amatus que, nas Centúrias, refere o seu
colaborador Canano, ligando-o assim à descoberta das válvulas. E se Amatus o não tivesse citado, nunca Canano teria visto o seu nome ligado àquela descoberta.
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| UM MAL PORTUGUÊS | |
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Somos
um povo de memória curta, quando temos muito para recordar. Podemos
dizer que neste pequeno país, saído da glória das descobertas, todos
parecem ter esquecido aqueles que forçadamente o abandonaram. Passaram
dois séculos até que um português se lembrasse de Amato. É
certo que a Inquisição que o levou a abandonar o seu país, parece ter
sido a única que com ele se preocupou, embora pela pior razão. Veja-se
como ela se deu conta que ele tinha «fugido para o grão Turco». Mas
foi preciso chegar a 1788, para que um português, por sinal um Familiar
do Santo Officio, lhe fizesse referências várias e as mais
elogiosas. Refiro-me
ao Cirurgião Militar Manoel de Sá Mattos e ao que escreveu no seu livro
«Elementos de Historia Chimico-Anatomica em Geral ou Compendio Historico
Critico e Chronologico sobre a Cirurgia e a Anatomia que contem os seus
principios, incrementos, e ultimo estado assim em Portugal, como nas mais
partes cultas do Mundo; Com a especificaçom de seus principaes Authores,
suas obras, vidas, methodo, e inventos desde os primeiros seculos até ao
prezente. Obra dividida em três discursos ofrecida ao Illustrissimo e
Excellentissimo Senhor Duque de Alafoens». Mas
cometeu um erro histórico quando refere que Amato «tomou as letras
ordinarias para Medicina nas Universidades de Coimbra e Salamanca».
Ora nesse tempo a Universidade era em Lisboa e não em Coimbra. Perdeu a
História, mas ganhou Amato e o país que o viu nascer. Na páginas 120 do seu livro, escreveu Sá Mattos que o nosso Amato Lusitano «foy conhecido em toda a Europa, por hum dos mais acreditados Medicos Chirurgicos do seu século; dizemos Chirurgico, porque elle com desabuso não commum, amando mais a razão do que os supersticiosos costumes do seu tempo, hexercitou huma e outra Medicina indiferentemente».
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| UM ROSTO PARA AMATO | |
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Não
se sabe ao certo como era Amato.
Durante
muito tempo pensou-se que ele seria tal como era mostrado numa gravura
alemã do século XVII e que era propriedade de Annibal Fernandes Thomaz. Esta
gravura foi reproduzido por Ricardo Jorge e Maximiano de Lemos e tem
aparecido em inúmeras publicações sobre Amato ou noutras em que seja
citado. Pensa-se
hoje que isso não é verdade e que aquela gravura reproduz, e não podia
ser maior a ironia, o seu inimigo Matiolo em traje de combate ... A
comunidade histórica inclina-se para que o rosto de Amato possa ser
aquele que vem reproduzido na capa da «Historia Plantarum Universalis»,
onde juntamente com Matiolo e Guillandinus, compõem o «Dissentimus». Por mim, prefiro que seja esse o nosso Amato. Não de traje de combate, e de perfil, mas antes olhando-nos de frente, olhos nos olhos e na cabeça aquela boina imensa, aquecendo as ideias ...
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| CENTÚRIAS | |
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Curationum
medicinalium centuriae septem. Foi assim que Amato chamou à sua mais importante
obra médica que foi escrevendo ao longo do tempo e nas várias cidades
onde viveu. As Centúrias foram escritas a pouco e pouco,
como não podia deixar de ser, já que por Centúria se entende a descrição
e apresentação de 100 casos clínicos. Escreveu-as com a preocupação de lhes dar
ordem e sistematização, numerando cada caso e dando título a cada um
dos cem casos clínicos que compunham cada Centúria. Continham uma pequena descrição do caso, o
nome e a idade do doente, uma descrição precisa da doença, da terapêutica
e da cura. E em relação ao tratamento juntava ou não opiniões de Hipócrates,
Galeno ou Avicena. Das
muitas edições conhecidas, posso destacar as que foram impressas em: Florença
(1551) – Edição Princeps da Primeira Centúria Veneza
(1552) – Segunda Centúria Veneza
(1560, 1567 e 1580) – Primeira e Segunda Centúrias reunidas Veneza
(1556, 1565 e 1580) – Segunda, Terceira e Quarta Centúrias reunidas Veneza
(1563) – Quarta Centúria Veneza
(1556, 1557 e 1567) – Primeira, Segunda, Terceira e Quarta Centúrias
reunidas Veneza
(1556, 1559 e 1580) – Terceira e Quarta Centúrias reunidas Veneza
(1560 e 1576) – Quinta e Sexta Centúrias reunidas Veneza
(1558) – Sexta Centúria Veneza
(1564 e 1580) – Segunda, Quinta e Sexta Centúrias reunidas Veneza
(1561, 1566, 1570 e 1580) – Sétima Centúria As
Sete Centúrias só foram publicadas num só volume, já Amato tinha
morrido há 22 anos. A primeira edição da obra completa foi publicada em
1580, em Léon e foi seguida por outras e variadas edições como a de
Alcaná de Henares, em 1584, as de Paris, em 1613, 1617 e 1620, a de Bordéus
também em 1620, a de Genéve em 1621, a de Barcelona em 1628, a de
Frankfurt em 1646 e a de Veneza em 1654. Amato Lusitano demorou vinte anos a escrever
esta sua mais importante obra. Iniciadas em Ferrara, em 1541, as Centúrias
só seriam terminadas em 1561, já em Salónica. Escreveu-as em latim, o que lhes assegurou a
larga difusão que mereciam, com edições e traduções várias, que se
calculam ser mais do que as 59 conhecidas. Amato, ao contrário de muitos autores
prestigiados daquela época, sempre se apoiou na literatura médica
existente, uma clara marca que a sua formação universitária lhe tinha
deixado. Deve-se
a Amato Lusitano a primeira descrição da encefalite letárgica e uma das
primeiras descrições de um caso de púrpura. Nos comentários à Cura n° 100 da Sexta
Centúria de Curas Médicas, intitulada «De ferimentos na cabeça,
com o crânio descoberto, e se é possível tratar-se com segurança por
meio de remédios secantes ou por cataplasmas húmidas, como o digestivo
de gema de ovo e semelhantes», usou o diálogo com os experientes e
sabedores Cirurgiões Celetano e Vanuccio. Provavelmente lembrando-se do caso e da morte
de Henrique II de França, durante um torneio, resolve convidar os seus
interlocutores a supor que um certo indivíduo caiu de um cavalo, ou foi
ferido fortemente por qualquer objecto espesso e pesado. A descrição do caso clínico é em tudo
semelhante ao que se passou com aquele rei, mas neste caso não foi necessário
«cortar as cabeças a quatro criminosos para que os cirurgiões pudessem
simular o traumatismo e aprendessem com isso». Talvez estes casos tenham levado a que Amato escrevesse que «Nesta nossa profissão, como muito bem sabem quantos a exercem, podem acontecer milagres e até se diz que a Medicina tem muito de Divino, mas temos que estar sempre atentos a todos os pormenores e aos mais pequenos sinais».
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| O JURAMENTO DE AMATUS | |
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Na sua
Centúria VII, apresenta o seu «Juramento», que nos traz à memória o célebre
Juramento de Hipócrates que, ainda hoje, todos seguimos e juramos. É
sabido que Amato Lusitano tratou um Papa, cardeais, nobres, generais, mas
também tratou soldados, mercadores, marinheiros, prostitutas... Por
isso pôde escrever no seu Testamento que «Sempre tratei os meus
doentes com igual cuidado, quer fossem pobres ou nascidos em nobreza, sem
procurar saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei Maometana;
Sempre fui parcimonioso nos honorários e muitas vezes sem qualquer paga,
tendo sempre mais em vista que os doentes recobrem a saúde do que
tornar-me rico pelos seus dinheiros; Como autor de escritos médicos e ao
publicar os meus livros quis só promover que a fé intacta das coisas
chegasse ao conhecimento dos vindouros, sem outra ambição que não fosse
contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade, sem nada fingir,
acrescentar ou alterar em minha honra». Grandes
palavras para todos meditarem. A começar nos juizes da Santa Inquisição...
Mas
falar do Juramento de Amato Lusitano obriga a que não se omita nenhuma
parte, já que se trata de um código de comportamento profissional, que
foi publicado no ano de 1559. Por isso aqui fica, tal e qual como foi
escrito, para meditação dos leitores: «Juro
perante Deus imortal e pelos seus dez santíssimos sacramentos, dados no
Monte Sinai ao Povo Hebreu, por intermédio de Moisés, após o cativeiro
no Egipto, que na minha clínica nunca tive mais a peito do que promover
que a Fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros. Nada
fingi, acrescentei ou alterei em minha honra ou que não fosse em benefício
dos mortais. Nunca
lisonjeei, nem censurei ninguém ou fui indulgente com quem quer que fosse
por motivo de amizades particulares; Sempre
em tudo exigi a verdade; Se
sou perjuro, caia sobre mim a ira do Senhor e de Rafael seu Ministro e
ninguém mais tenha confiança no exercício da minha arte; Quanto
a honorários, que se costuma dar aos médicos,
também fui sempre parcimonioso no pedir, tendo tratado muita gente
com mediana recompensa e muita outra gratuitamente. Muitas
vezes rejeitei firmemente grandes salários, tendo sempre mais em vista
que os doentes por minha intervenção recuperassem a saúde do que
tornar-me mais rico pela sua liberalidade ou pelos seus dinheiros; Para
tratar os doentes, jamais cuidei de saber se eram hebreus, cristãos, ou
sequazes da Lei Maometana; Nunca
provoquei a doença; Nos
prognósticos sempre disse o que sentia; Não
favoreci um farmacêutico mais do que outro, a não ser quando nalgum
reconhecia, por ventura, mais perícia na arte e mais bondade no coração,
porque então o preferia aos demais; Ao
receitar sempre atendi às possibilidades pecuniárias do doente, usando
de relativa ponderação nos medicamentos prescritos; Nunca
divulguei o segredo a mim confiado. Nunca
a ninguém propinei poção venenosa; Com
a minha intervenção nunca foi provocado o aborto; Nas
minhas consultas e visitas médicas femininas nunca pratiquei a menor
torpeza; Em
suma, jamais fiz coisa de que se envergonhasse um Médico preclaro e egrégio. Sempre
tive diante dos olhos, para os imitar, os exemplos de Hipócrates e
Galeno, os Pais da Medicina, não desprezando as Obras Monumentais de
alguns outros excelentes Mestres na Arte Médica; Fui
sempre diligente no estudo e, por tal forma, que nenhuma ocupação ou
circunstância, por mais urgente que fosse, me desviou da leitura dos bons
autores; Nem
o prejuízo dos interesses particulares, nem as viagens por mar, nem as
minhas pequenas deambulações por terra, nem por fim o próprio exílio,
me abalaram a alma, como convém ao Homem Sábio; Os
discípulos que até hoje tenho tido, em grande número e em lugar dos
filhos, tenho educado, sempre os ensinei muito sinceramente a que se
inspirassem no exemplo dos bons; Os
meus livros de Medicina nunca os publiquei com outra ambição que não
fosse o contribuir de qualquer modo para a saúde da Humanidade; Se
o consegui, deixo a resposta ao julgamento dos outros, na certeza de que
tal foi sempre a minha intenção e o maior dos meus desejos” Feito
em Salónica, no ano do Mundo 5.319 (1559 da nossa Era). Naturalmente, este Juramento faz-nos recordar
Ambroise Paré, esse nome impar do século XVI e Pai da Cirurgia que,
quando foi nomeado cirurgião do Rei, e foi por este perguntado se assim
passaria a tratá-lo melhor, este lhe respondeu que não, pela simples razão
de que a todos tratava como se fossem Reis. É de homens assim que a História se faz. |