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ÁLVARO CUNHAL
Político,
escritor, artista plástico, resistente e dirigente comunista: 1913-2005
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1913: Nasce a 10 de Novembro, em Coimbra, filho de Avelino Cunhal e Mercedes Ferreira Barreirinhas. – 1931: Com 17 anos, Álvaro Cunhal adere ao PCP, através da Federação das Juventudes Comunistas. – 1932: Participa na direcção da Associação Académica de Lisboa. – 1934: É eleito para o Senado Universitário. – 1935: Eleito para o Secretariado da Federação das Juventudes Comunistas. – 1937: Cunhal é preso pela primeira vez, a 20 de Julho. – 1939: É colocado a cumprir serviço militar na Companhia Disciplinar de Penamacor. – 1940: É de novo preso. – 1942: Cunhal adopta o pseudónimo de "Duarte". – 1949: Prisão de Álvaro Cunhal numa casa clandestina no Luso. – 1950: Cunhal julgado e condenado faz do processo uma afirmação política do comunismo. – 1953: É transferido da Penitenciária de Lisboa para Peniche após ter estado doente. – 1960: Cunhal foge de Peniche a 3 de Janeiro. Em Dezembro, nasce a sua filha Ana. – 1961: Entre Fevereiro e Maio, Cunhal vive no Porto, junto ao Mercado do Bom Sucesso, com a mulher Isaura e a filha Ana. Eleito pelo Comité Central secretário-geral do PCP, passa a viver no estrangeiro. – 1974: Revolução do 25 de Abril. Legalização do PCP. No dia 30 de Abril, Álvaro Cunhal regressa a Lisboa. É ministro sem pasta nos Governos Provisórios até 1975. – 1975: Nas eleições para a Assembleia Constituinte, a 25 de Abril, Cunhal encabeça a lista do círculo de Lisboa. – 1982: Torna-se membro do Conselho de Estado. – 1985: Em Agosto, Cunhal publica O Partido com Paredes de Vidro. – 1989: Álvaro Cunhal vai à URSS para ser operado a um aneurisma da aorta. Cunhal é recebido em Moscovo por Mikhail Gorbatchov e recebe a ordem Lenine. – 1992: No XIV Congresso do PCP, Carlos Carvalhas é eleito secretário-geral, Álvaro Cunhal passa a presidente do Conselho Nacional do PCP. – 1994: No Hotel Altis lança o romance Estrela de Seis Pontas e assume que é Manuel Tiago, pseudónimo literário com que assinou na clandestinidade o romance Até Amanhã, Camaradas e o conto Cinco Dias, Cinco Noites. – 1996: XV Congresso do PCP. O Conselho Nacional é extinto. Cunhal passa a ter assento apenas no Comité Central. – 1997: Cunhal lança um novo romance, A Casa de Eulália baseada na sua experiência na Guerra Civil de Espanha. – 2000: Em Setembro, Cunhal é operado ao glaucoma, a operação corre mal e perde a visão do olho direito. A 8,9 e 10 de Dezembro, o XVI Congresso realiza-se em Lisboa e, pela primeira vez desde o 25 de Abril, Cunhal está ausente de uma reunião magna por motivos de saúde. – 2001: Cunhal reaparece em público para votar nas eleições presidenciais de 14 de Janeiro. Depois de votar, declara aos jornalistas: "Estou nitidamente melhor." – 2004: Nas eleições europeias, a 13 de Junho, Álvaro Cunhal, pela primeira vez em 30 anos de democracia, não vota. No XVII Congresso do PCP Jerónimo de Sousa é eleito secretário-geral. – 2005: O Comité Central noticia a morte de Álvaro Cunhal, às 5h e 54, do dia 13 de Junho.
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A ÚLTIMA ORDEM |
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O carro funerário sobe a Avenida da Liberdade em direcção ao cemitério do Alto de São João.
Por todo o percurso, uma multidão
enche as ruas. Na Praça do Chile milhares de pessoas esperam o cortejo que
começa depois a subir a Rua Morais Soares, em direcção ao cemitério. Gritam
palavras de ordem como "A luta continua" e "Assim se vê a força do
PC".
Só do Porto vieram cerca de mil
pessoas, militantes e simpatizantes, alguns transportados em 14 autocarros
alugados pela estrutura local.
O carro funerário, coberto de cravos
vermelhos, chega ao cemitério perto das 18 horas onde milhares de pessoas
aguardavam a chegada na urna do líder histórico do PCP, muitas com o punho
erguido e algumas com bandeiras do partido.
Recebido com uma ovação de palmas
e gritos “PCP, PCP” subiu a Morais Soares, a muito custo. Todos
queriam tocar no carro funerário, todos queriam olhar a família do líder.
Ana, vestida de preto, beijara a
tia, momentos antes, gesto que repetiu para com a companheira do pai,
Fernanda Barroso, provocando-lhe lágrimas. Já na carrinha funerária, onde a
urna foi transportada, Ana e Fernanda percorreram todo o caminho entre a
Praça do Chile e o cemitério, de mão dada; um percurso curto mas demorado
porque acompanhado por milhares de pessoas a pé. O corpo entrou no crematório pelas 18h10. Foi a última “ordem” de Álvaro Cunhal.
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| COMEÇAR A VIDA | |
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Álvaro Barreirinhas Cunhal. Barreirinhas por parte da mãe, Cunhal por parte do pai. Nasceu em Coimbra, na freguesia da Sé Nova, no dia 10 de Novembro de 1913. Era o segundo filho do advogado Avelino Henriques da Costa Cunhal e da doméstica Mercedes Barreirinhas Cunhal. O pai, liberal e republicano, nunca foi comunista, era advogado de província nas horas livres, pintava e escrevia, tendo mesmo publicado cinco livros – Senalonga, Nevrose e três peças teatrais –, sob o pseudónimo de Jorge Serôdio. Álvaro manteria viva esta tradição cultural. Avelino Cunhal – homem de forte personalidade e de sólida cultura humanista, dizem quantos o conheceram – marcaria profundamente o filho Álvaro. Na apetência pelas artes, já se viu. Mas também no gosto pela política. Avelino foi governador civil da Guarda durante a I República e opositor de sempre do chamado Estado Novo, tendo-se empenhado particularmente na defesa de prisioneiros do regime salazarista, ao mesmo tempo que leccionava na "Universidade Popular" e colaborava na revista Seara Nova. Já com a mãe, católica fervorosa, a relação era conflituante. Em casa, para provocar a senhora, o jovem Álvaro chegava a andar de fato-macaco. Um dia, aliás, convenceu um amigo barbeiro a ensinar-lhe a cortar o cabelo, porque queria ter "uma profissão operária".
Não terá, porém, perdido tudo da
sua origem social. "Por nascimento e educação, ele nunca deixará de ser um
aristocrata. Por mais que se misture com o povo e aprenda a gostar de
sardinhas assadas e tinto do barril, terá sempre um porte fidalgo", escreveu
em Abril de 1996 o escritor Mário de Carvalho.
É ainda em Seia que Álvaro faz, aos nove anos, a primeira comunhão. E começa
a frequentar a escola primária, que contudo abandona logo ao fim do primeiro
dia de aulas. Passa a ser directamente ensinado pelo pai, que aceitara o
acto de rebeldia, na casa das cercanias da Serra da Estrela. Fez a primária
em casa, mas aos 11 anos, a família mudou-se para Lisboa, tendo estudado nos
liceus Pedro Nunes e Camões.
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QUANDO SE TEM UM IDEAL |
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Com 17 anos, Álvaro Cunhal adere ao Partido Comunista. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA.
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Nesse mesmo ano, entra para a Faculdade de Direito de Lisboa e adere ao PCP, onde assume o pseudónimo de "Daniel". "Se houve decisão correcta na minha vida, foi ter entrado, aos 17 anos, no Partido Comunista", escreverá o próprio, na sua biografia oficial, a única autorizada. Na opinião de Álvaro Cunhal os primeiros anos do PCP pouco ou nada haviam trazido à organização de massas deixando-o incapaz de fazer frente ao golpe de 28 de Maio de 1926:
“O Partido começou a formar organizações operárias e camponesas. Publicou o jornal O Comunista realizou legalmente o I Congresso em 1923 e o II Congresso em 1926. Mas não conseguiu nessa fase da sua existência formar-se com uma verdadeira vanguarda revolucionária. Os seus efectivos não excederam então o número de 500 a 2000 membros, segundo os dados, muito imprecisos e contraditórios, referidos nos documentos da época. Pesou nessa situação a procedência anarquista e pequeno-burguesa de muitos dos seus dirigentes de então, a falta de preparação teórica, a ausência dum núcleo verdadeiramente revolucionário. Quando do golpe fascista de 28 de Maio de 1926 que instalou a ditadura o Partido não estava preparado para lhe fazer frente e só não pôde mobilizar as massas contra o fascismo. Sob os golpes da repressão, as organizações dissolveram-se. A imprensa deixou de publicar-se. A maior parte dos dirigentes abandonaram a luta.”
Entretanto, Álvaro Cunhal começa, igualmente, a militar na Liga dos Amigos da URSS e no Socorro Vermelho Internacional, estrutura de apoio aos presos políticos. Talvez devido a esta intensa actividade, reprova no primeiro ano do curso. Logo no segundo ano de faculdade há-de, aliás, ser eleito presidente da respectiva Associação de Estudantes. No ano seguinte, 1934, é eleito para integrar a representação dos estudantes no Senado universitário. Em 1935, então com 21 anos, Cunhal é eleito secretário-geral da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), com assento no Comité Central do partido. Nesse mesmo ano participa em Moscovo no VI Congresso da Internacional Juvenil Comunista. Depois, é enviado pela direcção partidária, liderada por Bento Gonçalves, a Espanha, onde assiste ao levantamento dos franquistas contra o governo republicano. A URSS deslumbrava o jovem comunista numa convicção que iria manter para toda a vida. A importância da União Soviética no pensamento político de Álvaro Cunhal estava presente em todas as suas considerações. Até mesmo a fundação do Partido Comunista Português lhe surgia numa perspectiva mais externa do que interna. Cunhal viu sempre o PCP como uma obra resultante da realidade soviética. Para ele não havia Partido fora dessa realidade afirmando:
“Na criação do Partido Comunista Português em 1921 intervieram dois factores essenciais. O primeiro foi o desenvolvimento do movimento operário português nessa época. O segundo foi a influência da Revolução Socialista de Outubro. O desenvolvimento do movimento operário tornava uma necessidade objectiva a criação do partido revolucionário do proletariado que começou a ser ressentida pelos elementos mais esclarecidos do movimento operário. Mas o movimento operário português não estava em condições de, só por si, encontrar a solução para os problemas postos. Para a criação do partido revolucionário do proletariado português interveio um segundo factor, que foi determinante: a influência da Revolução Socialista de Outubro. Foi a repercussão internacional da Revolução Socialista de Outubro que tornou possível que o proletariado português, cuja combatividade e consciência de classe se manifestavam nos anos 1911-1920 em amplas e insistentes lutas de massas, tomasse consciência da necessidade da formação do seu partido, da sua vanguarda revolucionária.”
A 20 de Julho de 1937, com 23 anos, Álvaro Cunhal é preso pela primeira vez pela polícia política de Salazar. É então acusado de distribuir propaganda na rua. Encarcerado no Aljube, será transferido passados dois meses para Peniche. Julgado em Tribunal Especial, Cunhal é libertado cerca de um ano depois e obrigado a fazer o serviço militar na Companhia Disciplinar de Penamacor. Após uma greve de fome, acaba por ser dispensado por uma Junta Médica, em Dezembro de 1939.
Em liberdade, retoma a actividade
política e o curso. Mas, em Maio de 1940, quando está prestes a concluir o
quarto ano de Direito, é preso novamente. Desta vez Cunhal é preso por
divulgação de "ideias duvidosas" na imprensa. Contudo, prossegue os estudos
na cadeia e aí prepara mesmo a sua tese de licenciatura, subordinada ao tema
"A realidade social do aborto". Estudou na cela e foi à Faculdade, sob
escolta policial, defender a sua tese (100 páginas, confiscadas depois pela
polícia de Salazar).
Recuperada a liberdade, ainda em 1940, começa a trabalhar como regente de estudos no Colégio Moderno, da família Soares. É aqui que conhece Mário, seu futuro camarada e, mais tarde, adversário, a quem dá aulas de Geografia no ano lectivo 41-42. Ao mesmo tempo que frequenta o Moderno, escreve para jornais e revistas, como O Diabo, Sol Nascente e Vértice. Um texto escrito com esse propósito – "Nem Maginot nem Siegfried" –, há-de servir de pretexto ao regime para encerrar O Diabo. Ainda em 1940, junta-se aos chamados "reorganizadores" do partido, grupo liderado por Júlio Fogaça e que tinha de comum, entre si, o facto de provir maioritariamente da prisão do Tarrafal, onde Bento Gonçalves haveria de morrer, vítima de biliosa, dois anos depois. Depressa Cunhal se torna um dos principais dirigentes do grupo, que internamente combatia a direcção, nessa altura composta por Velez Grilo, Cansado Gonçalves e Vasco de Carvalho – o chamado "grupo do Rossio", que chegou a propor a retirada da foice e do martelo do cabeçalho do "Avante!", para não "assustar" potenciais leitores do órgão central. Mais tarde, rebentaria o conflito entre Cunhal e o próprio Júlio Fogaça, que em 1942 volta a ser preso, no âmbito de uma nova grande vaga de detenções de militantes comunistas que parecia dar crédito à tese da infiltração policial no partido. Com Fogaça outra vez na cadeia, o peso de Cunhal reforça-se ainda mais. Até porque desempenha papel de enorme relevo na condução das greves operárias de 43 e 44, na região de Lisboa. Nesta altura o PCP era já uma realidade que Álvaro Cunhal recorda assim:
“Só a partir de 1942-1943 o Partido conseguiu assegurar a continuidade do seu trabalho revolucionário e tornar-se a indiscutível vanguarda da classe operária e de todo o movimento antifascista. Com excepção do Partido Comunista Português, todos os partidos e organizações operárias e democráticas existentes em 1926 não resistiram à repressão fascista e, ao fim de alguns anos de ditadura, desapareceram completa e definitivamente da cena política.”
No IV Congresso do PCP, em 1946, Cunhal faz valer as suas ideias e derrota a "política de transição" defendida por Júlio Fogaça. No congresso do partido, na clandestinidade, na Lousã, apresenta um relatório que serviu de base a toda a estratégia do partido nas décadas seguintes: «O Caminho para o Derrubamento do Fascismo».
Por esta altura é criado o MUD Juvenil, o qual até 1957 une e mobiliza os sectores mais combativos e conscientes da juventude portuguesa, representando os jovens comunistas um papel de vanguarda. Para Álvaro Cunhal “é assim que, a partir de 1945, o Partido aproveita mesmo as mascaradas eleitorais fascistas para, apresentando candidatos, estimular a formação de amplas organizações legais e semilegais de apoio, e desenvolver amplas campanhas políticas e grandes acções de massas.”
Em 1947, segunda visita à URSS, com o nome de código «Tarefa I». O objectivo é tentar reatar as relações do PCP com o Partido Comunista da URSS, pondo fim a mais de dez anos de isolamento internacional. Não escondendo o peso da influência moscovita na formação ideológica do PCP, Álvaro Cunhal dirá mais tarde:
“As visitas à URSS de delegações de operários portugueses tiveram grande importância a partir dos anos 20. O PCUS, a Internacional Comunista no seu tempo, deram auxílio importante para a preparação ideológica do Partido.”
Até 1948 Álvaro Cunhal conseguiu pôr de pé o partido, restabelecer as relações com a Internacional Comunista (interrompidas em 1938) e ganhou todos os "desvios internos", sendo mesmo o responsável pelo relatório político apresentado no II e IV Congressos.
Em Março de 1949 dá-se a prisão de Álvaro Cunhal, de Militão Ribeiro e de Sofia Ferreira numa casa clandestina no Luso. Seguem-se uma série de prisões de dirigentes comunistas. No ano seguinte é levado a julgamento e é condenado a quatro anos de prisão maior celular, seguida de oito anos de degredo. No seu julgamento, faz uma denúncia do regime de Salazar e afirma-se como «filho adoptivo do proletariado»:
“De facto, na PIDE foram-me feitas variados perguntas relacionadas (umas directamente, outras indirectamente) com a minha actividade política. A todas elas me recusei a responder, com o fundamento — que mantenho — de que um membro do Partido Comunista Português, força política de vanguarda na luta pela Democracia a Independência Nacional e uma Paz Duradoura, não tem quaisquer declarações a fazer à polícia política, instrumento da repressão violenta exercida contra os trabalhadores e contra os portugueses democratas, patriotas e partidários da paz. Vamos ser julgados e certamente condenados. Para nossa alegria basta saber que o nosso povo pensa que se alguém deve ser julgado e condenado por agir contra os interesses do povo e do país, por querer arrastar Portugal a uma guerra criminosa, por utilizar meios inconstitucionais e ilegais, por empregar o terrorismo, esse alguém não somos nós, comunistas. O nosso povo pensa que se alguém deve ser julgado por tais crimes, então que se sentem os fascistas no banco dos réus, então que se sentem no banco dos réus os actuais governantes do Nação e o seu chefe Salazar.”
É condenado e, em 1958, transferido para a prisão de Peniche.
Na prisão escreve e desenha. Esteve mais de oito anos isolado numa cela da
Penitenciária de Lisboa.
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SOBRE AS PRISÕES |
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Nos últimos anos do fascismo e já muito perto de Abril de 1974, Álvaro Cunhal lembraria as passagens pelas prisões escrevendo o seguinte texto: “Muitos destacados militantes, muitos dos melhores dirigentes do Partido, pagaram com a vida a sua dedicação e coerência. Dezenas de militantes foram liquidados no campo de concentração do Tarrafal, instalado nas ilhas de Cabo Verde, como Bento Gonçalves, secretário-geral do Partido, preso em 1935, morto em 1942. Muitos outros foram friamente assassinados a tiro pela polícia fascista (a PIDE), como o médico Ferreira Soares, abatido com uma rajada de metralhadora em 1942, o operário das construções navais Alfredo Dinis, membro do C. C., abatido numa estrada em 1945, o escultor Dias Coelho, funcionário do Partido, abatido a tiro nas ruas de Lisboa em 1961. Dezenas de militantes foram assassinados com torturas, durante os interrogatórios na polícia, onde, segundo a norma do nosso Partido, os militantes se recusam a prestar quais quer declarações, se recusam a responder a quaisquer perguntas, sejam elas quais forem. Entre os assassinados com torturas contam-se: Vieira Tomé, dirigente ferroviário: Germano Vidigal, dirigente dum Comité Local e dum Sindicato; Ferreira Marquês, membro do Comité Regional de Lisboa; José Moreira, responsável do aparelho de imprensa clandestina, assassinado em 1950 por se recusar a dizer onde se encontrava a tipografia do Avante! Muitos militantes foram abatidos pela metralha nas ruas e nos campos, quando encabeçavam lutas de massas, O nome de Catarina Eufémia, operária rural, cujo nome é cantado e glorificado em poemas e canções, tornou-se um símbolo do heroísmo dos comunistas. Em 50 anos de vida do Partido, milhares de militantes passaram pelas prisões. Muitos sofreram longos anos de prisão. Manuel Rodrigues da Silva, membro do Secretariado do Comité Central, já falecido, passou 23 anos nas prisões. Francisco Miguel, membro do Comité Central, passou 21 anos nas prisões. José Vitoriano, membro do Secretariado do Comité Central, passou 18 anos de prisão. Só os actuais membros do Comité Central passaram nas prisões cerca de 250 anos. Muitos destacados dirigentes (como Pires Jorge, Dias Lourenço, Blanqui Teixeira) continuam nas prisões fascistas condenados a pesadas penas. Numerosos camaradas conseguiram evadir-se das prisões e retomar a actividade partidária. Muitos, conhecidos pelo inimigo e procurados pela polícia têm conseguido manter-se, vivendo e lutando na clandestinidade 10, 20 anos consecutivos e mais.” Estranhamente, Álvaro Cunhal não faz qualquer referência a Militão Ribeiro destacado dirigente comunista que, em Janeiro de 1950, morre, no decurso de uma greve de fome na Penitenciária de Lisboa, onde se encontrava detido juntamente com o próprio Cunhal. Antes de fechar os olhos para sempre, Militão Ribeiro ainda consegue fazer sair da cadeia – clandestinamente, é claro – uma carta para os seus camaradas de partido, escrita com o próprio sangue. Extractos dessa carta dizem o seguinte: «… Tenho sofrido o que um ser humano pode sofrer. Nem sei como tenho tido forças para tanto. Mas com todo este sofrimento nunca deixei de ter fé na nossa causa. Sei que venceremos. Desde sempre mantive a disposição de dar a vida pelo Partido em todas as circunstâncias, assim como a dou de forma horrível e cheia de sofrimento. Mesmo quase já um cadáver ainda fui esbofeteado por um agente. Dores, insónias, fome, agonias, tudo tenho sofrido nestes sete meses, quase sempre de cama, sem me poder mexer…» «… Que infelicidade a minha de só aos cinquenta anos ter começado a trabalhar dessa forma. Felizes os que vêm novos para o Partido e o encontram a trabalhar assim…» Ignorando Militão Ribeiro, as recordações de Álvaro Cunhal privilegiavam outros companheiros de sempre: “Nós, comunistas portugueses, não esquecemos, nem deixamos que seja esquecido, que os nossos êxitos devem muito luta dos trabalhadores e dos comunistas dos outros países, aos sacrifícios dos nossos irmãos de combate de todos os continentes. O nosso Partido não só não esquece, como constantemente lembra, a influência recíproca da luta dos vários países, o carácter internacional e internacionalista da luta do proletariado, da luta pelo socialismo e o comunismo. O nosso Partido não só não esquece como constantemente lembra o que significa a URSS e o Partido Comunista da União Soviética para a nossa luta, para a luta dos trabalhadores de todos os países, para o campo socialista, para a luta dos povos contra o imperialismo. Brandindo um velho slogan do anticomunismo, a propaganda inimiga e o oportunismo de direita e de «esquerda» acusam-nos por isso de estarmos «submetidos» a Moscovo, de não sermos «independentes». O nosso Partido não cede porém à pressão ideológica do inimigo e classe. Por isso reafirma a sua inquebrantável amizade para com a URSS e o PCUS, insistindo em apontar a URSS como a maior fortaleza das forças revolucionárias de todo o mundo e com batendo todas as espécies de anti-sovietismo.”
A 3 de Janeiro de 1960, Álvaro Cunhal evade-se do forte de Peniche, através de lençóis lançados a partir do recreio da cadeia, juntamente com vários outros camaradas: Martins Rodrigues, Carlos Costa, Joaquim Gomes. Francisco Miguel, Jaime Serra, Pedro Soares e Guilherme da Costa Carvalho. Uma fuga cuidadosamente planeada, com a cumplicidade de um guarda do forte, que parte com Cunhal e seus companheiros, através da fronteira de Chaves, rumo a Paris, primeiro, e a Moscovo depois. Otávio Pato e Pires Jorge são os dois dirigentes do PCP que aguardam os fugitivos no exterior da cadeia.
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| SECRETÁRIO -GERAL | |
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Em 1961, durante uma reunião do Comité Central, Álvaro Cunhal chega finalmente a secretário-geral do PCP, cargo deixado vago desde a morte de Bento Gonçalves, quase 20 anos antes. No conclave, o novo líder lança profundas críticas ao que considera ter sido o "desvio de Direita" que norteou o partido durante os últimos anos da sua prisão em Peniche. E responsabiliza, directamente, a direcção chefiada por Fogaça por ter acalentado a ilusão de que o fascismo podia ser derrubado por via pacífica ou a reboque das conspirações palacianas ou militares, contrapondo-lhe a tese do levantamento popular armado. O apoio recebido por Cunhal às suas teses equivale à morte política de Júlio Fogaça. E comprova que, ao contrário do ditado popular, o amor nem sempre com amor se paga. Em 1954, Fogaça redigiria a mais apologética biografia algum dia feita de Cunhal. Apontava-o como "um fiel discípulo de Lenine e de Estaline", como "o mais destacado combatente da causa da Paz em Portugal", o "orgulho do Partido e da classe operária ", o "mais bravo dos filhos do povo português". Sustentava mesmo que a vida do líder aclamado em 1961 "é um farol que ilumina o caminho a todos os comunistas e a todos os democratas, partidários da paz e patriotas portugueses". Ainda em 1961, no XXI Congresso do PCUS, em Moscovo, Cunhal intervém para condenar o maoismo. O PCP ganha novos estatutos e programa. O grosso da direcção comunista reconverte-se a Cunhal. O "desvio de direita" é corrigido e derrotada a linha social-democrata protagonizada por Fogaça, que entretanto é preso pela PIDE. Da prisão de Caxias, num carro de Salazar, fogem Francisco Miguel, José Magro, Guilherme da Costa Carvalho, António Gervásio e Domingos Abrantes, Fogaça não é integrado na fuga e será expulso do PCP, dois anos mais tarde, sob acusação de homossexualidade. Acabaria por morrer, já na década de 80, só e abandonado, depois de ter doado o seu espólio à Academia das Ciências.
A partir de 63, Álvaro Cunhal
dirige politicamente a rádio "Portugal Livre", que emite a partir da
Roménia. Mesmo vivendo no exílio, entrou e saiu várias vezes do País e
consegue publicar em 1964 o "Rumo à Vitória", cujas teses ainda perduram no
núcleo duro do PCP. A importância de Álvaro Cunhal entre os dirigentes comunistas europeus é reforçada a partir de 1964, ano em que o ideólogo e dirigente do PCUS — e um dos mais relevantes conspiradores contra Nikita Khruchtchev, Mikhail Suslov, destaca a capacidade do líder português. Ao reparar na sua «personalidade brilhante», pureza de convicções e fino trato, chama-lhe «marxista de cristal». Vadin Zagladin, vice-chefe da secção internacional do Comité Central do PCUS entre 1967 e 1975, 1.° vice-chefe da mesma secção entre 1975 e 1988 e conselheiro do antigo presidente da URSS, Mikhail Gorbachov, para assuntos internacionais, tem uma ideia muito precisa de Cunhal: «Honesto, está muito arreigado às suas convicções, o que pode tomar-se um defeito. Mas é um homem com um grande carisma.» Zagladin teve o primeiro encontro com o dirigente comunista português em 1967. Segundo afirma, «no PCP a última palavra cabia sempre a Cunhal, e os próprios camaradas diziam que não podiam tomar quaisquer decisões ou iniciativas sem consultarem o camarada secretário-geral.» Em Moscovo nasce, entretanto, o único descendente de Cunhal. Ana, produto de uma ligação com a primeira companheira do novel secretário-geral no exílio. Isaura Dias, assim se chamava a senhora, tinha acompanhado o dirigente comunista na sua fuga para a capital da União Soviética, após a evasão de Peniche. Com ela, tinham ido dois irmãos, todos filhos de um militante comunista, em cuja casa Álvaro Cunhal se refugiara provisoriamente quando conseguiu escapulir-se do forte penichense. Um deles, do sexo feminino, responde pelo pseudónimo de "Clara" e também viverá maritalmente com o líder, quando este decide fixar-se em Paris, em 1966, por entender que a partir da capital francesa acompanhava melhor a evolução da situação em Portugal do que em Moscovo. O outro será responsável pela segurança de Cunhal, numa altura em que as tarefas deste incluem a direcção da "Portugal Livre" e os contactos com múltiplos militantes de outras correntes oposicionistas portuguesas que a repressão e a recusa em participar na guerra colonial tinham conduzido ao estrangeiro.
Sobre a sua clandestinidade em
Portugal e fora do país (entre 1961 e 1974), nunca houve certezas absolutas.
Sabe-se que viveu na URSS, na Checoslováquia, na Roménia e em Paris, mas
nunca quis entrar em grandes pormenores. Mulheres teve várias, no entanto
não se fazia por elas acompanhar em actos públicos. Em 1968, Cunhal preside à conferência dos partidos comunistas da Europa ocidental, o que é revelador da influência que já nessa altura detém no movimento comunista internacional. No encontro, mostra-se um dos mais firmes apoiantes da invasão da então Checoslováquia pelos tanques do Pacto de Varsóvia, ocorrida nesse mesmo ano. “Quais são as razões do êxito do nosso Partido? – Interroga-se Álvaro Cunhal, em 1971, ao fazer o balanço de 50 anos de vida do PCP. A primeira foi ter-se o Partido Comunista Português organizado e desenvolvido como um verdadeiro partido operário. Desde a sua formação, a base fundamental da sua organização e da sua actividade foi o proletariado industrial e rural. Apesar de ter sempre contado com quadros destacados de origem social não-proletária, apesar das suas fortes posições entre os intelectuais e os estudantes, são operários hoje a grande maioria dos seus membros. O princípio de uma maioria operária nos organismos dirigentes, que constitui uma das melhores garantias para a definição e aplicação de uma linha política justa, foi sempre respeitado. Actualmente, por exemplo, dois terços dos membros efectivos do Comité Central são operários. Foi da classe operária, «única classe verdadeiramente revolucionária», que o Partido recebeu o espírito de organização e de abnegação sem limites que lhe permitiram não só sobreviver, como desenvolver-se nas condições da repressão fascista. A segunda razão foi ter-se o Partido Comunista Português guiado pelo marxismo-leninismo e ter assim podido definir uma linha política correcta e formas de organização e acção adaptadas às condições existentes.” Anos setenta. Cunhal parece particularmente preocupado com os danos à esquerda. Numa altura em que, a cada dia que passa, surge um novo grupo "esquerdista", defendendo a urgência da violência armada como meio para derrubar o regime e com predominância nos sectores estudantis, publica "O radicalismo pequeno burguês de fachada socialista". Em 1970 lança a Acção Revolucionária Armada (ARA), braço armado do PCP e justifica: “Na situação existente em Portugal, dada a natureza fascista do Estado, o forte e centralizado aparelho repressivo, a determinação dos fascistas de continuarem negando as mais elementares liberdades, de continuarem a repressão, de continuarem a fechar todos os caminhos para uma solução pacífica do problema político português, de continuarem a guerra colonial e intensificarem mesmo a sua política agressiva e aventureirista em África — uma luta revolucionária aguda aparece como inevitável. As acções revolucionárias que nos últimos meses imobilizaram no porto de Lisboa um navio pronto a partir para África; que destruíram, também no porto de Lisboa, importantes equipamentos militares com o mesmo destino; e que destruíram posteriormente 17 helicópteros e aviões na principal base de preparação do exército colonialista — têm um grande significado. Mas, no momento presente, não existe uma situação revolucionária, a luta armada não é o «centro de gravidade do movimento», as lutas das massas por objectivos concretos e imediatos são a direcção fundamental da nossa actividade e haverá que insistir tenazmente (sem ceder à chantagem esquerdista) na utilização das mais variadas formas de luta.” A constituição da ARA não tinha sido aceite com facilidade por Álvaro Cunhal. Não é por acaso que dela só tinha conhecimento um número muito restrito de dirigentes do próprio Comité Central. E bastaria a leva de prisões de um grupo de operacionais da ARA, ocorrida em 1973, para de imediato ser ordenada a suspensão de todas a actividades desta organização armada do PCP. Logo no início das operações da ARA, Álvaro Cunhal tinha deixado bem claro aquilo que então pensava acerca da luta contra o fascismo: “Uma forte organização clandestina, aquilo a que se pode chamar uma verdadeira técnica de trabalho clandestino, constituem uma condição vital da própria existência do Partido. Seria porém um erro pensar que isso bastaria por si só para assegurar a continuidade e o desenvolvimento do Partido. Nas condições da ditadura fascista existente em Portugal, é também vital o recurso constante, audacioso, persistente e paciente a formas legais e semilegais de organização e acção indispensáveis para estabelecer a ligação do Partido com a classe e as massas e para conduzir estas à luta. Se o Partido se tivesse limitado às formas de organização e actividades clandestinas, se se tivesse fechado na concha da clandestinidade teria ficado isolado não teria estabelecido uma estreita ligação com as massas, teria sido sem dúvida destroçado pela repressão fascista. Uma vanguarda que pretende agir só, isolada, separada das massas, sem ganhar a sua confiança e o seu apoio, pode ter uma actividade passageira, pode realizar momentaneamente algumas acções espectaculares, mas está condenada à derrota.” Com este argumento, Álvaro Cunhal não renega o passado histórico do PCP e o seu papel na luta antifascista. Assim, não é difícil concordar com Álvaro Cunhal quando, em 1971, afirma que “a história de 50 anos de existência do Partido Comunista Português, e particularmente a história dos 45 anos de luta clandestina, é inseparável da história da luta dos trabalhadores e do povo português neste período, como esta última é inseparável da história do Partido Comunista Português. Ao longo de dezenas de anos, nas greves, nas manifestações de rua, nas campanhas políticas, nas lutas nas fábricas, nos campos e nas escolas, encontrámos sempre a acção do nosso Partido.” E muito menos, quando o mesmo Cunhal vem admitir que: “Isto não significa que se não tenham cometido erros diversos de maior ou menor gravidade ao longo de 50 anos de actividade. Ilude-se e ilude os trabalhadores, qualquer partido que pretenda que nunca erra ou pretenda esconder os próprios erros. Se não se sabem tirar as lições dos insucessos, caminha-se inevitavelmente para a sua repetição. Na vida do nosso Partido pagámos caro alguns erros. Assim, sofremos sérios desaires sempre que lançamos ao ataque as nossas forças, separadas das massas, recorrendo a formas de luta para que não estavam criadas condições. (…) Sofremos sérios desaires sempre que, confiados na espontaneidade das massas, pretendemos substituir o trabalho de organização pela agitação. Assim, por exemplo, em 1937-1938, todos os organismos do Partido se converteram praticamente num aparelho de distribuição de imprensa clandestina e de agitação, multiplicando contactos e ligações internas e afrouxando as ligações com as massas e o trabalho de massas. Essa orientação foi uma das principais causas da destruição da maior parte das organizações nos anos 1939-1941 e da crise que o Partido então atravessou. Experiência semelhante colhemos ao nível das organizações locais e de empresa, quando pretendemos resolver os problemas de mobilização das massas através apenas da agitação. Sofremos sérios desaires sempre que, depois de êxitos importantes, subestimámos a força do inimigo e o Partido afrouxou a sua defesa. Por essa razão sofremos graves golpes em Novembro de 1935, em Janeiro de 1938, em Setembro de 1942, em Março de 1949, em Dezembro de 1961. Sofremos desaires sempre que, na política de quadros, diminuiu o conhecimento dos homens, se efectuaram selecções e promoções apressadas, se amorteceu a vigilância.”
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| OS ANOS DE ABRIL | |
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Está-se a 30 de Abril de 1974, cinco dias após a queda da ditadura. No aeroporto de Lisboa, uma multidão aguarda o velho resistente. Após 14 longos anos de exílio, Cunhal regressa ao país. Fá-lo a partir de Paris, num avião onde, além de outros dirigentes comunistas, também viajam o arqueólogo Cláudio Torres e os cantores Luís Cília e José Mário Branco. "Neste momento, é essencial consolidar e tornar irreversíveis os resultados alcançados pelo MFA; alcançar todas as liberdades democráticas, incluindo a da acção legal dos partidos políticos; pôr fim imediato à guerra colonial; alcançar a satisfação das reivindicações das massas trabalhadoras; assegurar a realização de eleições verdadeiramente livres" – são estas as primeiras palavras de Cunhal na hora do regresso, dando início a um discurso que, como se sabe, será repetido múltiplas vezes nos meses seguintes.
A 15 de Maio chega ao Governo: é
nomeado ministro sem pasta do primeiro Executivo Provisório, liderado por
Palma Carlos. Cargo que mantém nos segundo, terceiro e quarto governos, já
com Vasco Gonçalves ao leme. Termina aí a sua experiência governativa. O VII
Congresso (extraordinário) do PCP realiza-se a 20 de Outubro. Uma liderança que enfrenta problemas na viragem dos anos 80 para 90, com a contestação de Zita Seabra, então membro da Comissão Política do partido e autora da primeira lei despenalizadora do aborto, do chamado "Grupo dos seis" (Veiga de Oliveira e Vital Moreira, entre outros) e da denominada "Terceira Via" (Barros Moura, José Luís Judas, Pina Moura, Raimundo Narciso, António Graça…). "Não há comunistas fora do PCP", declarou ao "Jornal Ilustrado" em finais de 1991. Como disse à "Visão", seis anos mais tarde: "As pessoas que abandonaram o PCP e hoje estão noutros partidos não tinham as qualidades essenciais para serem comunistas".
1975.
Início da "Reforma Agrária". Um
dia depois da tentativa de golpe do 11 de Março é criado o Conselho da
Revolução. Início das nacionalizações.
1986. XI Congresso extraordinário do PCP para decidir apoiar a
candidatura de Mário Soares a Presidente da República. Cunhal apela ao voto
em Mário Soares. No fim do ano, Cunhal visita a China, o Vietname, o Laos e
o Camboja, depois vai à URSS e relata a Mikhail Gorbatchov o resultado das
conversações para aproximar estes países da URSS.
1991.
Na URSS, golpe de Estado a 19 de Agosto para derrubar Gorbatchov. PCP apoia.
Aumenta a dissidência. Assembleia contestatária no Hotel Roma em Lisboa.
Expulsão de Mário Lino, Raimundo Narciso e Barros Moura. José Luís Judas
aceita sair para evitar a expulsão. Os abandonos somam-se. Carvalhas
substitui Cunhal à frente do círculo de Lisboa nas legislativas. O PSD de
Cavaco obtém segunda maioria absoluta a 6 de Outubro; o PCP passa a 17
deputados e baixa drasticamente para 504.583 votos e 8,80 por cento. Fruto
da quebra eleitoral, o PCP perde o lugar no Conselho de Estado que era
ocupado por Cunhal. No mesmo Congresso em que tal alteração ocorre, Cunhal é eleito presidente do Conselho Nacional do partido. Um lugar e um órgão feitos à medida da intervenção que a idade e os conselhos médicos possibilitam, mas cuja reconhecida ineficácia acaba por conduzir à respectiva dissolução, no conclave seguinte, realizado em Dezembro de1996, no palácio de Cristal, no Porto.
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| "HEI-DE MORRER COMUNISTA" | |
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No comício da Festa do Avante de
1994, Cunhal faz um discurso forte de reafirmação ideológica. Cita Marx,
Engels e Lenine jura que o "comunismo não morreu" e que o
capitalismo não é o fim da história. A importância do discurso demonstra que
ele continua a ditar as regras e a marcar a orientação. Os seus contactos
com jovens multiplicaram-se, mas tiveram de passar 28 anos sobre o 25 de
Abril para Cunhal ser convidado a falar na Universidade Católica (1997),
onde surpreendeu todos ao dizer que Jesus Cristo se sentiria mais próximo
dos comunistas.
Nas eleições europeias, a 13 de
Junho de 2004, Álvaro Cunhal, pela primeira vez em 30 anos de democracia,
não vota. No XVII Congresso do PCP Jerónimo de Sousa é eleito
secretário-geral. Pode bem dizer-se que um dos maiores erros de Cunhal, e a pior herança que deixou do ponto de vista teórico ao seu partido, foi o de não ter feito um balanço correcto das causas da degenerescência do Estado Soviético e o de não ter entendido que esse desvirtuar do ideal comunista se iniciou bem antes de Gorbachov. Quando conheceu Estaline ficou encantado. Regressou a Lisboa fascinado com a personalidade do “Pai dos Povos” – e passou a rematar qualquer discussão política com um argumento imbatível: “É assim que se faz na União Soviética”. O facto de ser coerente com Estaline não beneficia nada a personalidade do Cunhal. Perante os crimes de Estaline, Cunhal continuava a acreditar na superioridade de um sistema que fazia milhões de vítimas. Contra todas as evidências, nunca deixou de crer nos “amanhãs que cantam”. Recusando-se a expressar a mais pequena dúvida, permaneceu convencido de que tinha razão. Mesmo quando o mundo o desmentia.
O historiador Borges Coelho, que sustentou confundir-se a vida de Cunhal, "numa boa parte", com a vida do PCP não andou muito longe da síntese que afirma: "No fim das contas, é afinal um homem profundamente envolvido nas lutas e sofrimento deste século e transfigurado pelo mito". O próprio Álvaro Cunhal, esse, escusou-se mesmo a falar sobre si. Sempre. Deu uma única certeza: "Hei-de morrer comunista!". – E morreu! |