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MANUEL RODRIGUES LAPA
José Ferraz Diogo e Carlos Loures
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1897: Em 22 de Abril nasce na freguesia de S.Paio d’Arcos, na então vila de Anadia, sendo, em 23 de Maio baptizado na sua Igreja Paroquial. 1903: Em Outubro, com seis anos, inicia a Instrução Primária. 1907: Em Julho passa, com distinção, no exame da 4ª classe. Em Outubro faz exame de admissão à Real Casa Pia de Lisboa, sendo aprovado e frequentando o curso liceal no Colégio de Santa Isabel, pertencente àquela instituição. 1914: Conclui o 7º ano, secção de Letras. Matricula-se no curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa. 1915: Inicia colaboração no jornal O Povo de Anadia. Um ano e meio mais tarde, começará a colaborar no Jornal de Anadia.1918/19: Integra a direcção da Associação Académica da Faculdade. 1919: Em Dezembro, presta provas de licenciatura em Filologia Românica, sendo aprovado. 1920: Em Outubro começa a exercer funções de sub-bibliotecário na Biblioteca Nacional. Ao mesmo tempo, frequenta a Escola Normal Superior e o curso de Direito, do qual virá a desistir. 1921: Publica um primeiro livro: A Cultura Moral e o Ensino da Língua Francesa. 1922: É nomeado professor agregado do Liceu Camões. 1923: Em Abril, casa com Inês Augusta Coelho da Costa. Em Junho é nomeado professor efectivo no Liceu Central de Martins Sarmento, em Guimarães. 1924: Em 17 de Janeiro nasce o seu único filho, Armando. Publica D. Afonso V e o Príncipe D. João: ensaio sobre uma regência. 1925: Publica os livros didácticos La Douce France e Le petit élève de français. 1926: No início do novo ano lectivo, é colocado no Liceu Gil Vicente, em Lisboa. 1928: É admitido como professor auxiliar contratado na Faculdade de Letras de Lisboa. 1929: Em Outubro, é-lhe atribuída uma bolsa de oito meses para estudar em Paris. Ultima a tese de doutoramento – Das Origens da Poesia Lírica em Portugal na Idade Média. Publica Cantigas de Afonso o Sábio. Inicia colaboração na revista Seara Nova. 1930: Defende a tese de doutoramento. 1931: Volta à Faculdade de Letras. 1933: Em Fevereiro, no Salão da Ilustração Portuguesa, em Lisboa, profere a conferência A Política do Idioma e as Universidades. A palestra levanta celeuma. O governo do Estado Novo afastá-lo-á da docência universitária. Ainda em Fevereiro, alunos da Faculdade de Letras, prestam-lhe homenagem junto da sua casa, à Costa do Castelo. A partir de Outubro, dá aulas no Liceu de Viseu. 1934: Publica a 1ª edição de Lições de Literatura Portuguesa: época medieval. 1935: Em Maio, por decreto-lei, é privado de acesso a qualquer emprego público. Começa a leccionar no ensino privado. 1936/37: Desenvolve intensa actividade, publicando textos na Revista Lusitana, no Boletim de Filologia e em O Diabo, semanário cultural de que é director, dirige a Colecção de Clássicos Sá da Costa, bem como os Textos Literários da Seara Nova.1939: Traduz e apresenta a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. 1940: Em Abril, com 64 anos, morre sua mãe. 1945: Em Março é nomeado Sócio correspondente da Real Academia Galega, da Corunha. Publica Estilística da Língua Portuguesa. 1947: Em Dezembro, morre seu pai, com 71 anos.1949: Em 5 de Janeiro dá uma entrevista ao Diário de Lisboa defendendo o fim da ditadura. No dia seguinte é preso pela polícia política. No jornal O Estado de São Paulo, publica uma série de seis artigos sob o título Em prol da democracia. 1950/53: Publica textos na Seara Nova, nas revistas Anhembi, de São Paulo, Romania, de Paris, Galícia, de Buenos Aires, nos Cuadernos de Estudios Gallegos, de Santiago de Compostela e na Revista Portuguesa de Filologia, de Coimbra. 1954: Em Agosto parte para São Paulo, onde participa no Congresso Internacional de Escritores. Dá conferências na Universidade local e na de Minas Gerais, regressando a Portugal em Setembro. 1957: Em fins de Maio parte para o Brasil, onde fixará residência, leccionando Literatura Portuguesa na Universidade Federal de Minas Gerais.1958: Em Porto Alegre (Setembro) participa no Congresso Brasileiro de Dialectologia e Etnografia. 1960: Publica Vida e obra de Alvarenga Peixoto. 1962: Regressa a Portugal, em Dezembro. À chegada é preso pela PIDE, sendo solto no mesmo dia. 1964: Lecciona um curso prático em Santiago de Compostela sobre as Cantigas de D. Lopo Lias. 1965: Publica em Vigo Cantigas d’escarnho e de mal dizer dos Cancioneiros medievais galego-portugueses. Editada no Rio de Janeiro, sai Miscelânea de língua e literatura portuguesa medieval.1967/68: Colabora na Seara Nova e em jornais e revistas portugueses e brasileiros. A Seara, em Maio de 1967, publica textos de homenagem pelo seu 70º aniversário. 1969: Em Maio, participa no II Congresso Republicano realizado em Aveiro. 1971: Em Coimbra, profere a conferência A Galiza, o Galego e Portugal. 1973: Em Fevereiro, substitui Augusto Abelaira na direcção da Seara Nova, cargo que ocupará até Dezembro de 1974.Na revista Colóquio-Letras, publica A recuperação literária do galego. 1974: Em Abril, na cidade de Ouro Preto, recebe a medalha de ouro da Inconfidência Mineira. Em Dezembro, Orlando Ribeiro propõe a sua reintegração na Faculdade de Letras; Rodrigues Lapa recusa. 1976: Em Maio, nasce em Lisboa o seu terceiro neto, Ricardo Manuel. Recebe, da Sociedade Brasileira de Língua e Literatura, a medalha Oskar Nobiling. Em 5 de Outubro, o governo português atribui-lhe a comenda de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. 1977: Em Maio, na passagem do seu 80º aniversário, a classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, aprova um voto de saudação. 1979: Sai o seu livro Estudos galego-portugueses: por uma Galiza renovada. 1980: Em 25 de Abril, recebe das mãos do presidente Ramalho Eanes, a Ordem da Liberdade que lhe fora atribuída em 1976.1982: Em Julho, na Universidade de Aveiro, profere uma palestra sobre O problema linguístico da Galiza: sobre cultura e idioma na Galiza. 1983: Em Julho, é-lhe prestada homenagem na Biblioteca Nacional. Publica As minhas razões: memórias de um idealista que quis endireitar o mundo… 1988: Em Dezembro, a Universidade de Aveiro atribui-lhe o título de doutor Honoris Causa. 1989: Morre em 27 de Março às 23 horas no Hospital de Anadia. Em Julho, a Escola Secundária de Anadia toma o seu nome.1990: Em 15 de Janeiro, a título póstumo, o presidente da República atribui-lhe a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.1993: Em Janeiro, é criado o Instituto Rodrigues Lapa, em cerimónia realizada no Palace Hotel da Curia. 1996: Em 20 de Abril têm início, em Anadia, as Comemorações do 1º Centenário do seu nascimento.
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MANUEL RODRIGUES LAPA, PALADINO DA LÍNGUA PORTUGUESA E DA CULTURA GALEGA. EXEMPLO DE CIDADANIA. |
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Manuel Rodrigues Lapa é, sem
dúvida, uma das figuras cimeiras do universo da Língua Portuguesa e da luta
pela Democracia em Portugal durante a longa noite da ditadura. Enfrentou as
adversidades comuns às pessoas que, nascendo em famílias pobres, pretendem
evoluir culturalmente e depois, já adulto e, mercê da sua insaciável sede de
saber, teve também, devido às suas convicções democráticas, de lutar contra
os obstáculos que o regime ditatorial interpunha entre ele e os seus
objectivos. Perseguido, foi forçado a exilar-se. Mas lutou sempre. Desde que
deu os primeiros passos em Anadia até quando, também ali, morreu no hospital
José Luciano de Castro. |
OS DIAS DE INFÂNCIA |
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Igreja Paroquial de S. Paio d’Arcos onde Rodrigues Lapa foi baptizado |
Neste momento, Manuel Rodrigues Lapa está a
nascer, na freguesia de S.Paio d’Arcos, em pleno centro da vila de Anadia.
Baptizado no dia seguinte na Igreja Paroquial da freguesia, consta no seu
assento de nascimento que é filho de António Martins Canas (que não
reconhecerá a paternidade) e de Maria da Conceição Lapa. São padrinhos
Manuel de Jesus Mendes, casado, cocheiro de profissão, e Maria do Carmo,
solteira. Em seu redor, no mundo a que acaba de chegar, falando de Portugal,
o novo Governo liderado por José Luciano de Castro, que entrara em funções
em Fevereiro, dá os primeiros passos. De notar que Luciano de Castro é homem
da região de Aveiro (nasceu em Oliveirinha), tal como o pequeno Manuel.
Aníbal Lapa, irmão da mãe, é empregado de mesa no palacete dos Seabras de
Castro em Anadia, perto da casa onde o petiz nasceu. Por vezes, leva o
sobrinho à residência. O político, que morrerá em 1914, sempre que se cruza
com o rapazito, acarinha-o, tratando-o por «Manelzinho». Em Março de 1897,
realizara-se um Congresso Operário em Lisboa. Em Maio, novas eleições irão
dar a vitória ao Partido Progressista de Luciano de Castro. Em Agosto, é
criada a Carbonária Portuguesa, braço armado da Maçonaria – embora surja sob
a designação de «agremiação filantrópica, filosófica, mutualista e
apartidária». Irá dar muito que falar… Passemos a 1903: Manuel é inscrito na 1ª classe da Instrução Primária. O professor nota nele, desde logo, uma grande vontade de aprender. Sua mãe, em Abril de 1906, tem uma filha, agora de seu marido, Francisco Augusto Sarabando do qual virá a ter outros três filhos. Neste mesmo ano, em Março, cai o governo de Luciano de Castro, subindo ao poder Hintze Ribeiro. Em Maio é a vez de João Franco ocupar a chefia do Governo. Por decisão de D. Carlos, Franco governará em ditadura, ou seja, com a supressão do funcionamento das Cortes. Em Julho de 1907, Manuel fará o seu exame da 4ª classe, passando com distinção. Em Outubro, faz exame de admissão à Real Casa Pia de Lisboa. Para «Manelzinho» começa um novo ciclo. |
LISBOA, O LICEU, A FACULDADE. |
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Manuel é agora o aluno n.º3671 da
Casa Pia. Num ofício enviado ao Provedor, o Director da instituição diz que
«por informações fidedignas, que me foram prestadas pelo professor que
leccionou o referido aluno, consta-me que é dotado de bastante inteligência
e de muita aplicação ao estudo». Assim, Manuel será matriculado no 1.º ano
do curso liceal, frequentando o colégio de Santa Isabel (pertença da Casa
Pia). Entretanto, em 1908, o rei D. Carlos e o príncipe real serão mortos
num atentado levado a cabo pela tal «agremiação filantrópica», a Carbonária.
A República vem aí.
É voz corrente que, por estes anos de 1852, 53, Rosalía nutre pelo poeta Aurelio Aguirre uma abrasadora paixão de adolescente. Depois, consta que terá surgido um outro amor, por pessoa cuja identidade se desconhece. É a vida sentimental que se pode esperar numa jovem de 16 ou 17 anos. Aurelio presidirá, em 2 de Março de 1856, no Conjo a um transgressivo banquete de confraternização entre operários e estudantes, organizado também por Eduardo Pondal e Rodríguez Seoane, onde profere um brilhante discurso carregado de poesia e de alusões políticas. Na realidade, é neste ambiente que Rosalía, que é actriz amadora no grupo de teatro do Liceo, forja as suas convicções socialistas e republicanas. [1] - Eduardo Pondal Abente (Ponteceso, Corunha, 1835-Corunha, 1917). Poeta galego, autor de Rumores de los pinos, Queixumes dos pinos e A campana de Anllóns. Formado em Medicina pela Universidade de Compostela, sendo uma das figuras cimeiras do Rexurdimento, com Aurelio Aguirre e com Rodríguez Seoane, foi um dos promotores do famoso Banquete de Conjo. Era um profundo conhecedor da literatura portuguesa.
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EM PROL DA DEMOCRACIA (E EM ROTA DE COLISÃO COM O PODER). |
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EM 1945 RODRIGUES LAPA PUBLICA A ESTILÍTICA DA LÍNGUA PORTUGIESA,
ENTRETANTO O QUE ESTÁ A ACONTECER NO RESTO DO
MUNDO? CONSULTA A TÁBUA
CRONOLÓGICA.
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Em 15 de Fevereiro de 1933, profere no
Salão da Ilustração Portuguesa, uma conferência que dará brado – A política
do idioma e as Universidades. O texto da palestra é publicado na Seara (no
corpo da revista e em separata). Como uma cobra que despe a pele, a Ditadura
Nacional vai dando lugar ao Estado Novo. Em 19 de Março, conciliando as
diversas correntes de opinião que coexistem no seio da Ditadura, realiza-se
um plebiscito para aprovar a Constituição da República. Salazar preside ao
Governo desde 5 de Julho de 1931. Com «vitória» neste plebiscito, onde a
liberdade de expressão e de voto estão totalmente ausentes, fica consolidado
o edifício jurídico-institucional que, com uma ou outra mudança de pormenor,
irá vigorar por mais de quatro décadas. As críticas de Manuel não ficam
impunes – é afastado da docência universitária e – vitória da sabujice – o
Conselho Escolar aprova por unanimidade uma censura às suas palavras. Porém,
nem tudo é cinzento – a juventude reage: 74 alunos prestam-lhe homenagem
junto de sua casa. No Ministério da Instrução Pública, os jovens entregam um
protesto pelo afastamento «do insigne medievalista que é o Prof. Rodrigues
Lapa». Nove alunos são suspensos. Em Agosto é criada a Polícia de Vigilância
do Estado (PVDE, a «pevide», como lhe chama o povo). É a antecessora directa
da PIDE. No mês seguinte, surge outro importante instrumento do regime – o
Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro. Porém,
apesar de o clima repressivo se ir adensando, Manuel não desarma e repete a
sua polémica conferência na Associação dos Artistas, em Coimbra. Em Outubro,
volta a dar aulas num liceu, desta vez no de Viseu. No mês seguinte, presta
provas para professor auxiliar (com o Livro de Falcoaria de Pero Menino),
sendo aprovado por unanimidade. Em Dezembro, sai no Diário do Governo, o
decreto da sua nomeação. No dia 30 recomeça a leccionar na Faculdade de
Letras de Lisboa, de onde fora irradiado meses antes. |
AGORA, O BRASIL. |
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Nos anos que se seguem, prossegue infatigavelmente a sua
tarefa de pedagogo, saindo textos seus na Seara Nova, na Revista Portuguesa
de Filologia, de Coimbra, na revista Anhembi, de São Paulo, no Diário
Carioca, do Rio de Janeiro, nos Cuadernos de Estudios Gallegos, de Santiago
de Compostela, na revista Romania, de Paris. Em 8 de Agosto de 1954, viaja
de avião para São Paulo onde, logo no dia 10, participa no Congresso
Internacional de Escritores, na companhia de Adolfo Casais Monteiro e de
Miguel Torga. Dá lições na Universidade e depois, em Setembro, parte para
Belo Horizonte onde dá conferências na Faculdade de Filosofia da
Universidade de Minas Gerais, após o que viaja para o Rio de Janeiro.
Regressa a Lisboa e prossegue a sua batalha – sai a lume a sua comunicação
ao congresso de São Paulo – Das origens da poesia lírica medieval
portuguesa. Na Anhembi publica dois artigos, um deles sobre a Galiza e
Portugal; aspectos da cultura galega. Em 1956 integra a Comissão Promotora
das Comemorações no Distrito de Aveiro do 65.º Aniversário do 31 de Janeiro
de 1891. Mas para ele e para Inês, o ar de Portugal vai tornando-se
irrespirável. A ditadura não lhe dá tréguas (e ele também vai dando bastante
trabalho a censores e polícias…). Chegou o momento de partir. Em Maio de
1957 fixa residência no Brasil, em Belo Horizonte. Lecciona Literatura
Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
Intensifica a colaboração em jornais e revistas do Brasil, sem deixar de
colaborar na «sua» Seara. Em 1958, em Janeiro, nasce-lhe outro neto – Pedro. Em Portugal, Salazar decide afastar Craveiro Lopes e as suas veleidades «de esquerda» e promover Américo Tomás - Não conta é com o furacão Delgado. Nas eleições presidenciais de Junho, Humberto Delgado ganha nas urnas (apesar de todas as habituais fraudes cometidas pelos salazaristas), mas Tomás é eleito. O Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, escreve uma carta aberta ao ditador, defendendo a abertura do regime. Salazar «abre-lhe» a porta de saída, retira-lhe a diocese e obriga-o a exilar-se. Manuel continua no Brasil, ensinando, publicando, lutando. Em Dezembro de 1959, ele e Inês deixam Belo Horizonte e vão fixar-se no Rio de Janeiro. Em 1960, na revista Grial, de Vigo, sai uma recensão sua ao livro de Luciana Stegagno Picchio In margine all’edizione di antichi testi portoghesi. Em Agosto de 1961, o neto Fernando, chega ao Rio. Irá viver algum tempo com os avós. |
REGRESSO A PORTUGAL. |
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Em Dezembro de 1962 resolve vir a Lisboa. É preso pela PIDE
logo no Aeroporto da Portela, sendo solto no mesmo dia. Ele e Inês voltarão
a viver em Portugal, apesar de tudo. Em 1964 lecciona um curso prático na
Universidade de Santiago de Compostela. A revista Grial, de Vigo, dedica-lhe
um dos seus números. Entre muitas outras publicações deste ano, destaca-se,
no Jornal de Letras e Artes, de Lisboa, o artigo Castelao: um grande artista
galego. Em 1965, ano em que voltará ao Brasil, publica uma das suas mais
importantes obras Cantigas d’escarnho e de mal dizer dos Cancioneiros
medievais galego-portugueses. (Editorial Galáxia, Vigo). Em epígrafe, uma
comovida dedicatória: «À Galiza de sempre, raiz anterga da nosa cultura,
adico afervoadamente iste libro». Em edição do Instituto Nacional do Livro,
do Rio de Janeiro, sai a público a sua primeira Miscelânea de língua e
literatura portuguesa medieval. 1966 é um ano triste para Manuel e Inês – no
Brasil, com 21 anos, morre o neto Fernando, vítima de insolação. É sepultado
em Belo Horizonte. Em 1967 publica na Seara um artigo de homenagem a Raul
Brandão, no centenário do seu nascimento – O «Balanço à Vida» na obra de
Raul Brandão.
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70 ANOS – TEMPO DE HOMENAGENS |
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Rodrigues Lapa discursando da varanda da Câmara Municipal de Anadia, em Junho de 1974, durante uma manifestação de apoio ao 25 de Abril.
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Em 1968, a Seara Nova, nos seus números de Maio, Junho, Julho, Agosto e Setembro, homenageia Rodrigues Lapa, que completa 70 anos em Abril, com textos e depoimentos de, entre outros, Orlando Ribeiro, Vitorino Magalhães Godinho, Lindley Cintra, Sophia de Mello Breyner, Ruy Luís Gomes, Mário Sacramento… Em Agosto, Salazar cai da cadeira e é substituído por Marcello Caetano. A «primavera marcelista», a promessa de uma liberalização do regime, revela-se uma falsa esperança – continua a Guerra Colonial e a repressão política. As coisas mudam de nome, Marcello vai à televisão conversar «em família», mas no essencial tudo fica na mesma. Em 1969, ano em que, em Fevereiro, morre António Sérgio, em Maio, Manuel, a convite de Mário Sacramento (entretanto falecido em Março), participa no II Congresso Republicano de Aveiro, presidindo a algumas sessões de trabalho. Em 1971 participa na organização de uma Semana Cultural Galego-Portuguesa, em Coimbra, proferindo a palestra A Galiza, o Galego e Portugal. Em Fevereiro de 1973, substitui Augusto Abelaira na direcção da Seara Nova, mantendo essa responsabilidade até Dezembro de 1974. Ainda em 73, publica A recuperação literária do galego, única colaboração que terá na revista Colóquio-Letras, O seu texto merecerá uma resposta-comentário do escritor catalão, e seu amigo, Fèlix Cucurull (1919-1996). 1974 será um ano memorável. Em 18 de Abril viaja para o Brasil, pois vai ser condecorado pelo Governo de Brasília. Em 21, na cidade de Ouro Preto (Minas Gerais), recebe a medalha de ouro da Inconfidência Mineira pelos seus trabalhos de investigador do século XVIII brasileiro. É, pois, no Brasil que sabe que no dia 25 o odioso regime, que tanto o perseguiu a ele e a todos os democratas, cai finalmente. No dia 29, regressa a Portugal. Prossegue a sua actividade, publicando textos na Seara Nova e na Vértice, principalmente. Em Dezembro é forçado a abandonar a direcção da Seara. Em 1975 publica diversos textos no Suplemento Literário do jornal Minas Gerais, de Belo Horizonte, na Biblos, de Coimbra e na revista Árvore, do Porto. Em Maio de 1976, nasce o seu terceiro neto – Ricardo Manuel. Em Setembro, a Sociedade Brasileira de Língua e Literatura atribui-lhe a Medalha Oskar Nobiling, pelos «relevantes serviços prestados à causa do ensino e da pesquisa científica nos domínios da Linguística, da Filosofia e da Literatura em nível universitário».[1] Manuel receberá a medalha, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, na Reitoria da Universidade de Lisboa, em 25 de Julho de 1977. Ainda em 1976, no dia 5 de Outubro, é condecorado pelo Governo português com a comenda de Grande Oficial da Ordem da Liberdade, acto que será formalizado em 25 de Abril de 1980.[1] - Texto do diploma assinado pelo Professor Leodegário A. De Azevedo Filho.
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80 ANOS – «AINDA ME NÃO ARREPENDI». |
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Em 22 de Abril de 1977 completa 80 anos. No mês
seguinte, a classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, sob
a presidência do professor Jacinto do Prado Coelho, aprova um voto
de saudação pela passagem do seu octogésimo aniversário. No acto, o
académico Norberto Lopes recorda a obra «de um dos mais fecundos e
brilhantes escritores e investigadores linguísticos, figura cimeira
do ensino universitário e combatente valoroso da luta pela liberdade
que se travou neste País». Em 1979, publica, na Sá da Costa, Estudos
Galego Portugueses: por uma Galiza renovada. Em Junho de 1981, faz
uma última viagem à «sua» Galiza; vai a Santiago para participar no
lançamento de um livro de Carvalho Calero. No n.º1 da Revista da
Biblioteca Nacional, publica um longo texto autobiográfico – Um
rapaz curioso na velha Biblioteca Nacional, no qual após tecer
diversas considerações sobre as opções que fez na vida, conclui em
jeito de balanço final: «escolhi sempre a via libertária. Apesar de
alguns contratempos e desilusões, posso afirmar que ainda me não
arrependi».
Em Julho de 1982, na Universidade de Aveiro, profere uma conferência – O problema linguístico da Galiza; sobre cultura e idioma na Galiza. Em 1983, mais homenagens – destacamos a que, realizada na Biblioteca Nacional, foi presidida por Tito de Morais, presidente da Assembleia da República, em nome do chefe de Estado, Ramalho Eanes. De realçar um impressivo discurso da professora Maria de Lurdes Belchior. Em Novembro 1984, homenagem prestada pela Câmara Municipal de Anadia, com a participação do primeiro-ministro, Mário Soares. O município homenageia um dos mais ilustres filhos do Concelho. Haverá ainda outra homenagem, a do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa que lhe consagra dois volumes do Boletim de Filologia, com uma nota introdutória dos professores Lindley Cintra e Maria Elisa Macedo de Oliveira. O volume é composto por 55 textos de 58 autores de diversas nacionalidades. Nos anos seguintes, não param nem as homenagens nem a publicação de textos e a reedição de obras de Rodrigues Lapa. Em Dezembro de 1988, realiza-se a cerimónia de doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Aveiro. Em 27 de Março de 1989, a menos de um mês de completar 92 anos, o nosso Manuel morre, às onze da noite, no Hospital José Luciano de Castro. Um acidente vascular cerebral é a causa do óbito. Mário Soares, presidente da República, envia, com um ramo de flores, uma mensagem que é lida no funeral: «Desde os tempos em que fui estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, de cujos quadros Lapa havia sido expulso pouco tempo antes, por se recusar a ser cúmplice do despotismo e da mediocridade então reinantes, ele constituiu para mim e para a minha geração inconformista, exemplo do português de um só rosto, de antes quebrar que torcer, que afrontou perseguições e riscos por amor às suas convicções de homem livre». Outras lapidares palavras sobre o nosso biografado, são as do professor Vitorino Magalhães Godinho, proferidas por ocasião do seu 70.º aniversário: «Portugal não quis, ou não soube aproveitar a pleno Rodrigues Lapa. A amargura oprime-nos, ao pensar nos irreparáveis desperdícios de valores autênticos, daqueles que, mais do que quaisquer outros, estavam preparados para trabalhar pela pátria, enriquecendo o seu património pela criação com categoria internacional». NOTA: A fonte mais utilizada na feitura deste texto foi o da Fotobiografia de Manuel Rodrigues Lapa, de José Ferraz Diogo (edição da Câmara Municipal de Anadia e da Casa Rodrigues Lapa, Anadia, 1997). Inclusivamente, as ilustrações foram retiradas daquele livro. Por se tratar de um trabalho de um dos co-autores e por serem tão numerosas as referências a que seria necessário proceder, preferimos remeter o consulente para a leitura daquela obra.
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