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FIALHO DE ALMEIDA
Escritor português: 1857 – 1911
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QUANDO TUDO ACONTECEU 1857: Em Vilar de Frades, Alentejo, a 7 de Julho, nasce José Valentim Fialho de Almeida, que virá a ser conhecido como Fialho de Almeida ou, ainda mais simplesmente, por Fialho. É filho de um pequeno proprietário, um mestre-escola oriundo da Beira-Baixa, com o qual aprende as primeiras letras. 1866: É mandado para Lisboa, onde frequenta o Colégio Europeu. 1872: Devido a dificuldades económicas da família, abandona o internato e, com quinze anos, começa a trabalhar como praticante de farmácia. 1875: Frequenta o Liceu Francês, ao mesmo tempo que, na Escola Politécnica, inicia os estudos preparatórios para ascender ao ensino superior. 1877: Começa a escrever os textos que, em 1881, publicará sob o título genérico de Contos. 1879: Matricula-se na Escola Médico-Cirúrgica. 1880: Funda e dirige a revista literária A Crónica, onde, sob o pseudónimo de «Valentim Demónio», publica diversos artigos. 1881: Começa a sua carreira jornalística, publicando crónicas, artigos, ficções, narrativas, em diversos jornais e revistas: Correio da Manhã, O Contemporâneo, Museu Ilustrado, Os Dois Mundos, O Repórter, A Renascença, Revista Académica Literária, O Ocidente, Diário de Portugal, A Ilustração, Ilustração Portuguesa, etc. No diário Novidades, de Lisboa, sai um folhetim de sua autoria intitulado «Os Decadentes - romance da vida contemporânea. Em Pontos nos II colabora com Rafael Bordalo Pinheiro, sob o pseudónimo de «Irkan». Ainda neste ano, publica no Porto o seu primeiro livro - Contos, dedicado a Camilo Castelo Branco; segue-se, em 1882, a edição de outra colectânea de contos - A Cidade do Vício. 1889/1893: A convite do editor portuense Alcino Aranha, publica os 57 números, depois agrupados em seis volumes, de Os Gatos - crónicas, narrativas, cartas, memórias... 1890: Publica Pasquinadas (Jornal dum Vagabundo). Neste mesmo ano, sai o livro Lisboa Galante (Episódios e aspectos da cidade). 1892: Edição de Vida Irónica (Jornal dum vagabundo). 1893: Casa com uma abastada senhora alentejana, ainda sua parente afastada, que morre onze meses depois, deixando-lhe uma fortuna que lhe irá permitir viver desafogadamente. Novo livro de contos - O País das Uvas. 1895: Forma-se em Medicina, embora só esporadicamente venha a exercer a profissão de médico. 1898: Em 9 de Abril, estreia-se no Teatro da Trindade, em Lisboa, a peça em 3 actos de Legendre, João Darlot, que Fialho traduziu do francês. 1903: À Esquina (Jornal dum Vagabundo). 1911: Sai a público a obra Barbear, Pentear (Jornal dum Vagabundo). Em 4 de Março, na vila de Cuba, Alentejo, morre, com 54 anos. No sexto aniversário da sua morte, António Barradas e Alberdo Saavedra organizam um In-Memoriam. Postumamente, são editadas as obras Saibam Quantos (cartas e artigos políticos - 1912; Estâncias d’Arte e Saudade - 1921; Aves Migradoras - 1922; Figuras de Destaque - 1924; Actores e Autores (Impressões de Teatro) e Vida Errante, ambos em 1925.
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ENTRE EMPLASTROS E PÍLULAS |
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Quando em 1866, com apenas nove anos de idade, José Valentim ruma a Lisboa a ideia da família é dar-lhe a possibilidade de estudar e de se formar a nível superior. Matriculado no Colégio Europeu, no Largo do Barão, ali frequenta os estudos regulamentares até 1872. Na sua Autobiografia, publicada em A Esquina, Fialho relata ter sido sempre um bom estudante, «uma criaturinha triste e sossegada», razões que se juntam ao facto de seu pai nunca o poder vir visitar e de, devido à sua pobreza, não poder mandar bons presentes ao director, para lhe valerem seis anos de privações e de maus tratos, suportados por uma «resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho», que pela vida fora irá ser, segundo ele, a sua independência e a sua força. Escutemos então a voz do próprio Fialho: «No meu tempo de colegial [...] a vida no internato era a seguinte. Erguíamo-nos da cama às cinco horas, Verão e Inverno, estudávamos até às oito, hora regulamentar do almoço [...] depois do que, entrávamos de novo nas salas de estudo, onde nos amesendávamos até às quatro da tarde [...] Quatro horas dadas, caligrafia durante hora e meia, e ia-se jantar.[...] Nas aulas. quase sempre fechadas, sem respiradouros, nem capacidade aérea, nem tiragem, havia constantemente um fétido morno a leite azedo [...] Os dormitórios eram no andar de cima dum prédio velho, grosseiramente adaptado à moradia de tamanha tropa de indivíduos [...] Os banhos raríssimos. Aos domingos de manhã, meia hora de ginástica em argolas e barras, não obrigatória, mas à vontade das famílias, que ainda nesse tempo, as da província sobretudo, consideravam a ginástica como um exercício de palhaços.»1 Mas, se, como por estas palavras se pode ver, as coisas já não estão a correr muito bem ao nosso jovem alentejano, elas irão ainda piorar. Em 1872, por se ter agravado a já de si precária situação económica da família, vê-se obrigado a abandonar o colégio. Tem 15 anos e arranja uma modesta colocação como praticante de farmácia numa lúgubre botica do Largo do Mitelo, perto do Campo de Santana. Aí vive sete anos a «apodrecer entre emplastros e pílulas». Diz ele: «Ninguém pode imaginar os tormentos que eu passei. Davam-me três horas aos domingos para oxigenar os pulmões cansados de respirar fedentinas de drogas e ervas podres; a minha alimentação era uma berundaga que sobrava do jantar da família do patrão, e que mal poderei comparar como nutriência e aspecto, às mais asquerosas pastas que os soldados distribuem nos quartéis, à pobralhada. Dormia num cacifro de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, numa enxerga metida numa espécie de gaveta, que, que de manhã reentrava na parede, e da qual tanta vez pedi a Deus me talhasse o caixão onde acabar os meus grotescos males por uma vez. A baiuca onde eu praticava era tão velha, infecta, escura e desordenada, que ainda hoje me surpreendo da triunfância vital deste arcabouço que pôde resistir sete anos àquele inferno de ratos, pias rotas, miséria alimentícia, e rançuns de unguentos pré-históricos.» 2 Apesar de mergulhado neste ambiente malsão, consegue concluir os seus estudos secundários e ganhar mesmo um grande amor pela literatura - os livros são como que uma fuga à pobre realidade que lhe é dado viver – «Esta residência entre drogas estragou-me a saúde e além de outros achaques de espírito e de corpo, incutiu-me uma tendência mórbida para as letras.» E continua: «Gastei sete anos a percorrer todos os lugares-comuns dos escritores nacionais, de 1830 para cá e a matar o tédio desta leitura com romances de cadernetas, e pequenos ensaios literários de fábrica própria para jornais de província, onde a petulância das minhas asneiras me acarretou, por Leiria e Viseu, foros de escritorinho esperançoso. Minavam-me o tédio e uma ânsia de liberdade insaciável, e alcancei que me deixassem ir findar os preparatórios do liceu, findos os quais, ao matricular-me na Escola Politécnica, o falecimento de meu pai me obrigou a abandonar botica e estudos, para ir acudir ao bem estar dos meus, ameaçado terrivelmente por aquela morte que nos deixara às portas da miséria. Por lá estive um ano inteiro, e tornado no ano seguinte, por aí fora vim vindo, té terminar o curso médico. Como vivi todo este tempo? Dos recursos do pouco que minha pobre mãe podia dar-me, de alguma colaboração avulsa por dicionários e pequenas folhas literárias, e enfim de lições que fui dando à hora em que os meus condiscípulos folgavam, descuidados, felizes, bem comidos, bem vestidos, ignorando o martírio do pão ganho aos patacos, e os prodígios de energia heróica, consumida a vencer economias de cigarros e de ceias, e a desaparecer enfim de toda a parte onde o ‘sucesso tem praça’, e poderia ser notado o nosso casaco velho, o nosso cabelo crescido e as nossas botas roídas nos tacões. Vencidos os cursos científicos, em vez de seguir, como os meus condiscípulos, nas facilidades profissionais que eles fomentavam, cometi a tolice de me lançar numa vida literária, de querer viver por uma pena donde continuamente espirravam revoltas, e que fatalmente havia de me agravar as dificuldades do caminho.»3
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FIALHO, BOÉMIO E «PONTÍFICE DE CAFÉ» |
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Café A Brasileira |
Enquanto prossegue, lenta mas porfiosamente, os seus estudos (irá concluir o
curso de Medicina aos 38 anos!...) Fialho torna-se conhecido nos meios
boémios, jornalísticos e literários colabora em jornais e revistas, escreve
folhetins, crónicas, críticas literárias e teatrais, faz traduções. Escreve
os Contos e, depois, a Cidade do Vício, onde estão os seus melhores
trabalhos de ficção. O seu habitat é a mesa do café - O Martinho, a
Brasileira, são as suas paragens dilectas. Num livro editado postumamente em
1922, Figuras de Destaque, confidencia-nos: «Nos meus primeiros anos de
escolar, não me lembro de sair nunca do Martinho, com o pai Rosa e António
Pedro e outros noctâmbulos, senão depois de terem batido no Carmo as quatro
da alva.»
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OS GATOS |
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Entretanto, Ramalho Ortigão publicara as suas Farpas e o editor Alcino Aranha, aliciado pelo grande êxito que aquelas crónicas tinham obtido junto do público, convida Fialho a escrever um texto mensal de análise à vida portuguesa. Fialho aceita e, em Agosto de 1889, é publicado o primeiro panfleto. A reacção dos leitores é de tal modo positiva que depressa a publicação de Os Gatos passa de mensal a semanal. Até Janeiro de 1894, quando sai o derradeiro panfleto, reúne material que é depois publicado em seis volumes. Porquê este título – Os Gatos? Fialho explica-o no pórtico do primeiro panfleto: «Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes e terrível com agressores e adversários.» [...] Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia – porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.»
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FIALHO FICCIONISTA. A «GUERRA» COM EÇA |
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«Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.» comenta Fialho. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA |
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BALANÇO DE UMA CARREIRA |
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Caricatura de Fialho de Almeida encontrada em Cuba (Alentejo) |
Se existem autores de difícil rotulação, Fialho de Almeida é um deles. Geralmente definido como um decadentista, mercê das múltiplas contradições que foi exibindo, percorreu toda uma paleta de estilos, situando-se, no que à sua obra mais válida diz respeito (os seus contos), numa plataforma realista-naturalista, subsidiária das correntes francesas do seu tempo, mas também de alguns dos próceres da chamada Geração de 70, incluindo o seu «odiado» Eça. Devendo muito, sem dúvida, a Camilo. Fazendo um balanço do seu percurso, ouçamos novamente Fialho na Autobiografia: «tendo escrito cerca de mil e trezentas páginas por ano, o que representa uma actividade rara num país onde a bagagem literária é um livro de versinhos e meia dúzia de artigos laudatórios, apenas consegui, na opinião dos meus contemporâneos, “arranjado” a reputação de um desequilibrado indolente, que arma à sensação por via do galicismo, e a de prosador colérico, proibido do sucesso pelo mau sestro de não poder ser lido por senhoras. Dos resultados materiais do meu trabalho acérrimo, baste a V. saber que nem logro auferir da pena o sustento necessário, ganhando menos que um carpinteiro ou um pedreiro, e tendo de resignar os meus gastos a condições de parcimónia de que só eu sei o mistério, e perante as quais forçoso me foi abdicar de todas as aspirações e vanglórias que entram pelo meio na confecção da alegria, e são neste mundo o factor principal da felicidade.» Quando se refere aos escritores sem obra, está por certo a lembrar-se do seu amigo, e inimigo de estimação, Gualdino Gomes. Sobre este último diz Raul Brandão: «A paixão deste homem é não ter um livro de jeito. [...] só escreveu três folhetos e por aí ficou o seu talento. Espremido, não deu mais. É no entanto uma figura epigramática e nítida de conversador e um tipo curioso de boémio lisboeta. Dormiu nas escadas dos prédios, pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até antemanhã, dispersando com ele o oiro da sua esplêndida fantasia. Para essa meia dúzia de boémios improvisou o grande escritor as suas melhores sátiras.» E conta depois Brandão como uma noite, à mesa do café, Gualdino aludiu à sua obra, ao que Fialho terá ironizado: «– A tua obra bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco tostões emprestados.» Gargalhada geral, Gualdino Gomes embatucou e calou-se. Porém, pouco depois, aproveitando uma pausa na conversa, desferiu a sua estocada, aludindo ao casamento de conveniência que, tempos antes, Fialho fizera com uma parente rica: –« Ó Fialho, fazes o favor de me dizer que horas são... no relógio do teu sogro?.»6 Na realidade, em 1893, Fialho casa com uma senhora abastada, ainda sua parente que morre vítima de tuberculose menos de um ano após o casamento legando-lhe uma apreciável fortuna. O escritor converte-se então num pequeno proprietário rural. É um Fialho aburguesado, distante do iconoclasta, do anarquista que verberara todos os poderes, que se deixa mesmo seduzir pelas lisonjas do ditador João Franco e se torna num defensor da política franquista que, mercê dos seus erros de governação, vai motivar o Regicídio e abrir de par em par as portas à República. O escritor dedica-se à lavoura, viaja um pouco pelo estrangeiro. Desprezado, vê-se obrigado a refugiar-se na vila de Cuba. Mas nem aí irá ter paz.
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O FIM - «FALANDO SOZINHO, COMO UM CONDENADO» |
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Fialho de Almeida morre em 1911 em Vilar de Frades. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA
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«Quantos
Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fora!», diz Raul
Brandão. E continua: «Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que
os mortos se conseguiram apoderar, agarrado à terra, conservador, discutindo
com o padre da freguesia os melhoramentos da sua igreja, este é – enfim!
enfim! – o descendente autêntico dos cavadores alentejanos. Custou... As
suas melhores obras – as que sonhou e nunca se resolveu a escrever – leva-as
ele para a cova... De quando em quando ainda tem uma revolta: – É horrível a
vida na aldeia. Se não fossem os livros, já me tinha suicidado. Cada vez
preciso mais de ver gente e desta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em
Cuba, não falo com ninguém, não tenho ninguém com quem comunicar. São de
bronze aqueles filhos da p...! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade.
E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!... – Fuja. –
Não posso. Quem me há-de tratar daquilo? E, depois, criei interesse às
oliveiras que plantei, à vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em que
pego num livro e saio. Há uma estrada em volta de Cuba – e eu ali ando à
roda, toda a noite, a falar sozinho como um condenado!»7
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